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| Edição 25 | Sexo por Lívia Santana
Esta semana ouvi uma idéia que supunha impossível encontrar na sociedade ocidental no ano de 2006, ainda mais no Brasil. Numa época em que (infelizmente) as crianças são alvo de constante erotização, em que as mulheres se tornam celebridades por exporem o corpo nu à mídia, em que (felizmente) muitas questões que sempre foram tabus estão sendo tratadas com maior tolerância, quiçá compreensão, confesso que, como diria o Léh, meu queixo caiu, rolou prum canto e até agora não achei de novo. Disseram-me: "Não gosto e não pratico sexo. É sujo e nojento, pelo meu conceito, vivo feliz e satisfeita sem isso". Bem, todos que conhecem a internet entenderão a minha reação no primeiro momento. Pensei cá comigo: "ou essa mulher é maluca, ou tá curtindo com a minha cara ou não existe, é um alter ego de alguém que tá curtindo com a minha cara". No entanto, num segundo momento considerei que talvez fosse possível que ela não gostasse mesmo. Afinal, eu também não gosto de um monte de coisas. Canjica, injeção, biquíni, multidão, clichês, cerimônias religiosas, churrascos, etc. Por que ela não poderia não gostar de sexo, não é? Não gosto de tanta coisa e nem por isso sou maluca! Um pouco esquisita, talvez, mas nada comprova nenhuma anomalia nas minhas funções mentais. Ou seja, ficamos em duas alternativas: ou a mulher é esquisita ou tá gozando com a minha cara. Deixando a segunda alternativa de lado por não ser absolutamente relevante no momento, partirei do pressuposto de que esta é uma opinião real. E, sendo assim, suscita algumas considerações. Sexo não é sujo, nem nojento, nem horrível, nem pecado. Sexo é, antes, uma expressão de instintos, sensações e sentimentos, é comunhão, é troca de energias vitais, é celebração de amor, é fonte de vida. Sem o sexo não haveria nem mães nem filhos como os entendemos - descartando as provetas, claro. Não haveria nem eu, nem você e nem aquela que acha o sexo nojento, porque duvido que qualquer um de nós sejamos milagres da genética. Você que porventura esteja aí neste momento sacudindo a cabeça, sorrindo com ironia e me julgando ingênua, pense de novo. Ou, ao menos, espere mais um pouco para tirar as suas conclusões. Torno a dizer: sexo não é sujo. Sujas são algumas pessoas que o praticam. Tudo nesta vida depende da intenção e da forma com que procedemos. Se pego numa faca, tanto posso cortar cebolas quanto posso matar alguém. Se tenho o dever de educar uma criança, tanto posso incutir-lhe medo, espancando-a, quanto posso inspirar respeito, ouvindo, conversando e dando bons exemplos. Tudo varia conforme os nossos propósitos e valores e por isso, qualquer coisa pode se tornar suja. Como esperar que água colocada num copo turvo saia limpa? Assim também se dá com relação ao sexo. Se penso nele como uma forma de perversão amoral, usada para obter prazer irrestrito, aí sim a minha interlocutora poderia chamá-lo sujo e nojento. Mas, neste caso, não seria uma característica inerente ao sexo em si, mas àquele que o pratica e o encara desta forma. Nossa boca fala do que está cheio o nosso coração, assim como nossos olhos enxergam aquilo que estamos condicionados a ver. Se olho o outro e enxergo defeitos apenas, certamente se olhar para mim mesmo os encontrarei aos montes, porque é mais fácil reconhecer aquilo que nos é familiar. Portanto, devo pensar que alguém que considera o sexo algo sujo e nojento foi vítima de alguém que corrompeu o conceito do que realmente vem a ser o sexo ou, o que é pior, que suja e nojenta é a mente desta pessoa, que olha em volta e vê seus próprios fantasmas projetados em todos os outros. Sem moralismos, há que se pensar nesta questão com muito cuidado, haja vista sexo ser uma coisa extremamente séria. Numa outra oportunidade eu disse que leviandade sempre provoca sofrimentos, seja em nós mesmos ou no outro. Agir com responsabilidade e discernimento nunca será negativo nem prejudicial, tenha a certeza disso. Talvez alguém esteja me achando não só ingênua como puritana a esta altura, mas tal coisa não é verdade. Este é um site sobre sexualidade, mas nunca sobre pornografia e, se está procurando por isso, veio a lugar errado e perdeu seu tempo. Além disso, não posso defender perversão e promiscuidade, uma vez que não comungo com estas formas de pensar. Sexo, embora não dependa em nada de amor para ser feito, será extremamente mais satisfatório se o sentimento existe. Em vez de agir como animal no cio, é muito mais gratificante encontrar uma pessoa em que se possa aprofundar, sem observar limites, seja sexual ou emocional. Sexo é, na verdade, uma delícia. Principalmente quando conta com a devida dose de respeito, consensualidade e carinho. Havendo isso, não importa se é sexo hetero ou homossexual, se usa ou não acessórios e fantasias, se segue ou não regras de liturgia. Nada disso é perversão, como alguns podem pensar. Os propósitos é que são importantes, não a forma com que é feito. Que seja fonte de prazer e satisfação mútua, nunca de aviltamento. E que cada um possa ser feliz à sua moda, mesmo que esta seja a abstinência.
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| Edição 24 | ANTES QUE TERMINE O DIA por Lívia Santana Sentei-me então diante desta tela em branco e fiquei pensando em como recomendar o filme, tarefa que se revelou um tanto mais complicada do que parecia. Falar sobre filmes que são considerados obras de arte, que têm elementos inusitados, atores pouco óbvios, motes surpreendentes é relativamente fácil, acredite. O difícil é falar sobre algo que precisa fugir da pecha de piegas; a linha que separa a pieguice do drama é realmente muito tênue. É engraçado falar sobre "Antes que Termine o Dia" porque, geralmente, não assisto a filmes feitos para chorar, não tenho paciência. Ainda mais, um que eu saiba previamente que é feito pra chorar, como foi o caso. No entanto, este, sem que entendesse muito bem o por quê, me prendeu. Nem que quisesse poderia desligá-lo depois que comecei a assisti-lo. Outro motivo que torna inusitado falar sobre este filme é o fato de a Jennifer Love-Hewitt interpretar a protagonista. Ah, já sei, você deve estar se perguntando: "Como assim? Resenha de filme da Jennifer Love-Hewitt? Alô-ou! Ta louca?". E certo, eu também pensaria assim. Mas antes de fechar a tela, acredite: vale a pena. Em contraposição a tudo o que pudesse servir de motivo para não ver e, ainda mais, não falar sobre este filme, há um rol de razões para fazê-lo. Por exemplo, não se trata de um artigo comercial, apesar de hollywoodiano. Sua trilha sonora é lindíssima. Discute um assunto absolutamente delicado de forma bastante sutil, esbanjando sensibilidade, levando à reflexão e até mesmo à introspecção. E mais um detalhe, um pouco bobo, mas que me agrada muito: é ambientado na Inglaterra: o inglês que se ouve é deliciosamente britânico. O filme começa enfocando um casalzinho jovem e bonito acordando junto num belo apartamento e cuidando da vida. Ele, um executivo bem sucedido, ela, uma musicista muito talentosa. Nada errado a um olhar superficial. Mas, se perscrutarmos um pouco mais, detectamos logo os erros. Muitos. Então é inevitável nos perguntarmos: quantas mudanças não faríamos em nossas vidas se tivéssemos a visão clara de tudo o que está errado? Muitas, eu garanto. Quantas vezes nos portamos de maneira absurda e até mesmo abjeta, sem sequer nos darmos conta? E quantas coisas importantes perdemos por negligência, por não enxergarmos o óbvio? E por que é que não temos essa visão? Será alguma deficiência, limitação inerente ao ser humano? Duvido. Todos nós temos plena capacidade de perceber os elementos presentes em nosso dia-a-dia, apenas vivemos imersos demais em nossos próprios umbigos e em nossos problemas para refletirmos sobre o quanto agimos equivocadamente. O que você faria se olhasse a morte de frente? Entraria em pânico? Provavelmente. E mesmo que ela estivesse ali para alertá-lo sobre a sua conduta, ficaria tão paralisado que sequer poderia fazer algo a respeito. Certo? E se ao invés da sua própria morte, vislumbrasse a morte daquele que mais ama? Se visse diante de si a perspectiva de não poder ver de novo aquele que está sempre ali à sua volta, e que muitas vezes é negligenciado sem que você sequer se dê conta disso? Se entendesse que amanhã aquela pessoa não estaria ali para ouvir nada do que tivesse a dizer, ainda que merecesse um pedido de desculpas ou uma declaração de amor? Alguns, ainda assim, ficariam paralisados. Outros tentariam aproveitar o pouco tempo que resta. Quem sabe até pudessem mudar algo do que fosse acontecer? Quem sabe pudessem fazer valer a pena um dia juntos, mais até que uma vida inteira? É este o enfoque da história, por isso o título original "If Only". E se? Só se... O filme lida de maneira admirável com sentimentos controvertidos como arrependimento, culpa, impotência. E saudade, amor, cuidado. Quanto é suficiente? Como é que sabemos quando se está deixando a desejar num relacionamento? Se ao menos nos déssemos ao trabalho de olhar em volta e perceber a infelicidade do outro, poderíamos facilmente identificar quando agimos errado. E mais, poderíamos evitar o sofrimento daquele a quem amamos e, até mesmo, corrigir os nossos passos. Mas, e então, tudo andou errado. Ainda há o que consertar? Há. Requer mais coragem contorcer-se de culpa ou se esforçar para mudar? Lamentar o erro ou aprender com ele? Existe uma segunda chance? Sempre há tempo para mudar o rumo da estrada? |