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Edição 50

Topless

Por Luiz Maia

Autor dos livros "Veredas de uma vida", "Sem limites para amar" e "Cânticos".
- Edições Bagaço - Recife/PE.
Fonte: http://geocities.yahoo.com.br/maialuiz/

Alexei Lantsev - Girls and Colourful Scarfs - arte sexualidade
Girls and Colourful Scarfs (2004) por Alexei Lantsev

Veja o que aconteceu dia desses na Praia de Porto de Galinhas (PE). Algumas famílias condenaram a postura de várias turistas que exibiam tranqüilamente seus seios, deixando-os à mostra. É natural que algumas pessoas reajam contrariamente à conduta de alguém que faça topless. Eu, particularmente, acho até poético mesmo sabendo que isso representa uma opinião isolada. Apesar das turistas estarem possivelmente infringindo alguma lei brasileira, elas estão mesmo é sendo coerentes com a cultura de seu País, com o seu saudável estilo de vida. Elas não querem atingir a moral de ninguém. Quando nos dispusermos a olhar as pessoas e as coisas à nossa volta de forma mais espontânea e natural então estaremos livres de constrangimentos e a nossa vida será bem melhor aproveitada.

Por fim parecerei novamente polêmico ao afirmar que se um dia eu passasse numa praia, ou numa praça qualquer, e percebesse um casal fazendo sexo, amando-se apaixonadamente, eu não bateria palmas para eles para não estragar o clima. Mas que ambos merecem, é claro que merecem! No dia em que entendermos de olhar a vida fluir ao largo, natural e espontaneamente, aquilo que poderia ser tachado de 'pecado' no passado, passaria a ser visto apenas como um dos prazeres da vida. Nossas verdades são apenas provisórias. É preciso saber enxergar o mundo à nossa volta com olhos de total naturalidade. O detestável mesmo é o fato de convivermos num mundo onde existem pessoas que ainda morrem de fome...


Edição 49

O Colecionador

(Um papoema de Tate Fish com Alexei Gonçalves)

Arte Sexualidade - Svetlana Valueva - The Summer is off
The summer is off, (1997) por Svetlana Valueva

Tate:
Procura-se Mulher
carente
não só de afeto,
mas também de sexo,
de corpo, de alma,
de mente,
que mente,
demente...

Procura-se Mulher
atraente
mas pode ser feiosa,
capenga,
doente...

Procura-se Mulher
gostosa,
mas se não for,
ensina-se o que é
prazer e dor...

Procura-se Mulher
amante
Também serve amada,
mal amada,
ficante...

Procura-se Mulher
vazia,
dessas que servem
apenas à putaria,
que de outro assunto
jamais entenderia...

Procura-se Mulher
inteligente
que tudo entende
escritora excelente
leitora assídua, compreende?

Procura-se Mulher
casada, solteira,
viúva ou freira
Mulher esperta
ou de bobeira...

Procura-se Mulher
desesperadamente
Precisa-se preencher
internos e vazios recipientes
De um ser sombrio,
solitário, doente...
De um pobre diabo,
mal amado, carente...
De um sádico
sorridente...
De um romântico
doce, inconseqüente...
De um homem
que não sabe AMAR
porque AMARra-se
em pesadas correntes.

Alexei:
Um amigo me disse uma vez, que existem muitos motivos para "comer" uma mulher. Pela beleza, por amor, paixão, tesão... Mas, à falta de qualquer um desses motivos, restaria ainda um: "por estatística".

Acho triste essa filosofia de vida. Isso não é gostar de mulher. Ao contrário, revela um grande desprezo - que ele não escondia - pelo Outro Sexo. Desprezo que mal disfarçava ressentimento, raiva e até ódio, sentimentos que emergiam durante nossos papos.

A maior parte dos homens com quem converso em particular, quando o assunto resvala para o tema "mulher", revela-se descritivamente fiel a seus versos.

O contraditório é que essa característica cultural - é aprendida, ensinada por pais neuróticos, colegas de escola filhos de pais neuróticos, por colegas de trabalho neuróticos, por amigos de boteco neuróticos, et alii - resvala para o homossexualismo. Porque o importante é desimcumbir-se rapidamente da "missão" para contar aos "amigos" o quanto ela é "boa" ou "ruim de cama", por exemplo.

No fim das contas, saem com mulheres apenas para agradar aos amigos machos.

E se um amigo ousa discordar em voz alta, é visto com desconfiança, sua masculinidade é posta em dúvida. "Deve ser gay. Se não for quer ser. Ou, no mínimo, é um otário".

É o momento em que o desejo inconsciente se afirma ao denegar o seu objeto.

Ou, como bem colocou um colega de faculdade, gay assumido, num papo sobre esse assunto: "homem gosta mesmo é de pau".

Talvez por isso mesmo eu tenha tão poucos amigos homens, não freqüento botequins.

Porque acho um saco ter que levar uma fita-métrica, uma trena, para o permanente "concurso de medição de comprimento de falos". É um ritual aborrecido que abrange todos os assuntos, desde "mulher", até "meu carro é mais potente do que o seu", "eu comprei mais barato do que você", "o meu aparelho de som é mais moderno do que o do seu", "o meu computador é mais poderoso do que o seu", "a minha doença é mais grave do que a sua", "pior fui eu, que....".

(Até na desgraça, é o comprimento do falo o que está em jogo). Fala sério.

Sendo homem, talvez possa falar com mais propriedade sobre o que conversamos entre nós quando não há mulheres por perto. Saliento que estou falando de amigos - homens bons, leais, corretos, honestos. Homens que sofrem sem admitir o sofrimento, porque isso poderia manchar sua reputação junto ao grupo. Homens esmagados por uma ideologia que lhes foi imposta a marteladas desde que nasceram, que se sentem ameaçados, caem na defensiva ou partem para o ataque mais violento quando questionados nessa ideologia que os mortifica. Têm medo, no fundo, de que "algo terrível" possa acontecer caso questionem por um minuto as bases de seu vazio emocional, do fracasso de seus relacionamentos, dos amores perdidos.

Esse "algo terrível" verdadeiramente Inominável relaciona-se tão fortemente com a identidade, com o modo de ver a si mesmo que, em última instância, é simplismo atribuí-lo a um simples medo de possivelmente se descobrir homossexuais, como se diz gaiatamente por aí.

Esse "algo terrível" que tanto temem é a perda da própria identidade. Investiram tanto durante toda a vida nessa crença, que temem "dissolver-se" numa massa amorfa. Em termos simples, temem não saber mais quem ou o que eles são realidade.

Tate:
Foi exatamente isso que eu quis expressar nos versos, Alexis... fico feliz que alguém tenha compreendido e mais feliz ainda que esse alguém seja um homem. Abração!

 

Edição 48

Um bate papo de ariana para ariana

por Géssica Hellmann


Sole Mazzeto

géh: Quem é Sole Mazzeto? Quem é a atriz? Quem é a escritora? Quem é Sole na intimidade sem maquiagem totalmente despida de rótulos?

Solange: A Sole Mazzeto é a mulher que faz poesias sensuais e fotos sensuais. A atriz é uma mulher disciplinada, que ama estar no palco, que se tornou uma pessoa mais legal com ela e com a vida a partir do teatro. Faz teatro desde os 15 anos de idade, parou 10 anos pra ser mãe e esposa, mas há cinco anos voltou com tudo pro palco da vida real e irreal.

A escritora é uma menina do interior que sempre amou ler e escrever, mas as poesias mais sensuais nasceram no multiply, junto com as fotos mais sensuais também, uma espécie de simultaneidade, digamos assim.

A Sole na intimidade é a Sô, a Solange, a Solanginha, (risos). É mãe, dona-de-casa, cozinheira, e atriz nas horas vagas. Sem maquiagem, sou normalzinha de tudo, como toda mulher, só não fico sem batom, já levanto com uma passadinha na boca.

Mas sou amiga, sou doida, sou chata, tenho minhas nóias (todas), sou filha, irmã, cunhada, tenho meus amores (vários). Enfim...Mulher de ponta a ponta.

E o "sem maquiagem" literalmente eu fico sem no dia a dia mesmo, não sou tipo "perua".

Mas eu sem maquiagem no sentido figurado, é que sou transparente, se estou bem, estou, se não, não estou, entende? Mas isso eu passo nos textos. Claro que não passei por tudo o que escrevo, mas tem muita coisa que "é minha", que sou eu, sim.

géh: Não sei quanto a você, eu quando mantinha um blog com poesias sensuais, recebia muitas cantadas, algumas eram até explícitas. Com você também é assim?

Solange: Pra você ter uma idéia até da tela que pintei tem cara que se excitou, então... Só rindo mesmo né!!! E vou continuar sim, mas vou tentar mesclar esses poemas com outros mais "normais" como eu fazia, pois gosto de mudar também, tenho muitos que escrevo com minha "veia caipira" e não tenho publicado ultimamente...

géh: Existem realmente pessoas que escrevem esses poemas em busca de um relacionamento ou até de sexo casual... Mas sabe o que diferencia estas pessoas de você? A postura, a intenção com que se faz, e isso fica claro no texto, nas palavras escolhidas, até nos seus comentários.

Solange: Muito obrigada por isso, fiquei emocionada.

géh: É o que sinto quando leio suas poesias. No meu caso, quando eu escrevia, eu raramente estava "vestida para matar", geralmente usando um shorts e uma camiseta velha! Nada sexy (risos). Muitas vezes as pessoas confundiam os "escritos" com a escritora.

Solange: Tem disso, mas eu sou sensual normalmente também. Só não sou dada a dar (risos). Quando saio, chamo a atenção normalmente. Acho que é uma questão de energia, carisma talvez.

géh: Falar, expor, extravasar... Não significa que você é oferecida!

Solange: Sim. Atriz, artista é um ser diferente mesmo.

géh: A sensualidade faz parte de você!

Solange: Essa sensualidade dos escritos é minha, sou assim mesmo, ariana na raça. O signo de Áries é diferente de todos os signos, tem a sensualidade à flor da pele. Nossas zonas erógenas é o corpo todo, "em tudo" (risos).

géh: Também sou ariana, sei muito bem do que você está falando! O vermelho faz parte da vida de um ariano, você concorda?

Solange: Sim e muito! É onde buscamos força. É como fiz aquele texto que falo de mim: "Simplesmente". Sou exatamente assim. Tem dias que nada nem ninguém pode falar que estou linda: se eu não acho, ninguém pode achar (risos).

géh: Sobre o teatro, você disse que, de certa forma, mudou a sua vida. Como é estar no palco, brincar com as emoções e a corporalidade? O que você leva do teatro pro seu dia a dia?

Solange: Estar no palco é um êxtase. Não diria que o ator brinque com os sentimentos, a gente os sente, e muito. Sofremos com a personagem; ela tem cor, forma, roupinha. Eu faço uma estorinha da vida dela, e então, o que me perguntar dela, eu sei responder, até os segredos, aprendi isso com o Raul Cortez! O que eu levo? Tudo. Você fica mais humana. Fiz uma mendiga que mudou minha vida. Percebi com ela que todo mundo ama, igual, seja embaixo da ponte ou no melhor motel do mundo. No teatro, aprendi a ser mais generosa.

géh: É fantástico mesmo. Aprender a aprender a cada dia e guardar o melhor conosco.

Solange: No dia a dia, levo a disciplina, a alegria, a sabedoria das personagens. O ator é despojado, principalmente o ator de teatro. Armamos uma fogueira todos os dias, que vira brasa, morre e renascemos no outro dia, mais fortes ainda, como Fênix.

géh: E é muito diferente do cinema e da tv, porque mesmo sendo a mesma peça, é como se fosse uma nova a cada dia, muda o público, as emoções mudam, o aprendizado do dia anterior pode dar um toque sutil no dia seguinte...

Solange: Sim, isso mesmo. Por isso amo o teatro e, por ele, os atores de teatro. Eu esqueci um pedaço do monólogo domingo passado, quis morrer na coxia... Mas tinha mais cenas. Então, você aprende a pensar depois, a exigir depois de você, vai em frente e no dia seguinte faz melhor. Quase um médico, não podemos errar. Por isso existem atores que têm dom, mas não têm devoção. Ser ator é um sacerdócio, quase o somos, pelo menos eu sou, devotada a minha arte.

géh diz: Parabéns! é maravilhoso fazer algo que a gente ama, com paixão e devoção.

Solange: Sim é maravilhoso. Sou quase cruel em ser assim, pois exijo de mim e de quem trabalha comigo. Mas também aprendi a ser generosa, paciente nunca, mas generosa sim.

géh: Você é perfeccionista?

Solange: Muito, feliz ou infelizmente. Mas sou menos hoje em dia, consigo rir de mim mesma, mesmo quando erro, eu rio. Aprendi com uma doença e não com o teatro.Tive câncer, sofri dez anos, era no sangue. Então aprendi na marra a ser menos perfeita, entende?

géh: Foi nesta mesma época que você parou com o teatro?

Solange: Foi.

géh: Podemos dizer então que o seu retorno, foi seu renascimento.

Solange: Sim, foi meu renascimento, falou tudo Géh! Na época eu estava com uma filha de 6 meses mamando em mim e desenganada. Acho que essa doença fez de mim uma pessoa melhor no HOJE. Vivo o HOJE, e o amanhã não sei.

géh: A gente aprende a ver o mundo de forma diferente, quando uma ruptura acontece em nossas vidas, e fico feliz que no seu caso tenha sido pra melhor. Pois há pessoas que, ao contrário, se tornam ainda mais pessimistas e negativas.

Solange: É verdade. Tem gente que não aprende, eu aprendi. Muitas pessoas morrem, mesmo não morrendo. Por isso amo viver, dar valor a pequenas coisas do dia a dia. Olhar o céu, o mar, a flor, a vida em cada coisa.

géh: Isso é importante, porque com certeza influenciou e muito na sua relação com a sua filha.

Solange: Eu lutei bravamente, não parei de amamentar, desmaiava até, mas amamentei até os dois anos minha filha, com um orgulho que, nossa, era uma vaca! (risos). E minha relação com ela é leve, legal, natural. Como eu não sabia quanto tempo viveria eu não a mimei. Ela sabe cozinhar, limpar e se virar.

Para terminar aqui uma poesia que descreve a mulher, atriz e escritora Sole Mazzeto:

Simplesmente

Gosto de ser eu
E não gosto de ser
Tem dias que me sinto feia
Outros, linda
Tem dia que acordo de DIVA
Outros dias de FERA
Pinto-me em bela
Ou me pinto em “monstra”
Mas o que gosto mesmo é de sentir
Prazer
Em levantar da cama
Disparar escada abaixo
Fazer um chá caprichado
Tomar um longo gole
Comer um pão fresco
Deixar a manteiga escorrer e molhar o queixo
Depois demorar num banho longo
Sentir cada pedaço de mim como presente
Lavar meus púbis
Meus cabelos
Ensaboar-me toda
Dando-me prazer em ser Solange
E depois secar os cabelos
Olhar ao espelho
Passar batom vermelho
E creme na bunda
Rechear a pele toda
Brincar aqui e ali na rede
Em prazer de ser
Uma pessoa errante
Cheia de chiliques de instantes

Delirar em minhas conjecturas
Falar
Escrever
Papear
Ler um livro da estante
Burilar meu som
Andar em cima das nuvens
Bagunçar o quarto procurando nada
Espalhar-se na cama
Rever a fala
Ir ao telefone
Abrir a caixa de pensamentos negros e mandar tudo pro inferno
Mergulhar na arca rosa
Chupar um pirulito que ganhei agora
Andar de salto alto pela casa escutando o barulho que faz
Segurar na ponta da vida
Olhar dentro dela
E
Divagar
Amando cada célula que carrego no peito
E distribuir isso em tons roucamente carinhosos
Alisar um peito bom de homem lindo que conheço
Alcançar as estrelas em cores fortes
E lhe dizer que o sinto perto mesmo longe
E ser assim
Uma doida que se entrega
Uma mulher competente que encarrega de acender a luz a todo instante
E não tem medo de falar
De arriscar chorar sentir

Assim mulher cheia de graça
De pernas longas e olhos escuros
De boca cheia
De olhar astuto

E depois de... Dez, segundos
Rir de ser assim

Simplesmente
Solange

Sole Mazzeto

 

Edição 47

Qual das meninas teve a melhor sorte?

Anja Azul

A caçula nasceu sob a culpa da morte da mãe que tão logo lhe pôs no mundo e partiu. Foi dada à madrinha, idosa viúva camponesa. Os irmãos, duas meninas e dois meninos, seguiram o pai.

A pequena cresceu no mato, qual erva daninha. Ensaiando passos no chão do casebre de terra batida. Habituou-se à rudeza da roça, à economia de palavras e sonhos.

Gulnara Ziyaeva - Girl - arte sexualidade
Girl por Gulnara Ziyaeva

As duas meninas foram dadas a famílias distintas, de ricos veranistas passageiros. Seriam camareiras, copeiras, pajens, apara-raios de toda a sorte.

Os meninos ficaram enterrados numa roça distante com o pai, que casou de novo e teve mais filhos e filhos.

A mais velha muito raro dava noticias e, quando aparecia, era um sucesso, bem-vestida, uma boneca. Mas passava maus bocados nas mãos das patroas, trabalhando de ama-seca e cozinheira. Um dia casou. Teve três filhos homens, e soube conduzi-los muito bem.

A outra, quando sumiu, tinha 7 anos, e quando reapareceu, tinha 19. Andou pelo mundo com a patroa, uma mulher sem coração, quase uma bruxa. Enterrou os pés na neve em Paris, andou a esmo pelas ruas de Madri, e ai que não achasse a tal padaria. A cabeça lhe doía, das tesouradas que recebia. E as surras! Ah! as surras.

Quando a patroa enlouqueceu de vez, o patrão a enfiou num colegio de freiras, de onde saiu prendada e determinada. Tanto rogou, que um dia reapareceu na roça.

A caçula, bicho-do-mato, espiava de longe, pensava que fosse um anjo caído do céu. Pegou-a pela mão e lhe costurou um lindo vestido, o primeiro. E aquilo foi o que de mais lindo lhe aconteceu em sua pobre vida.

Depois o anjo foi embora. Trabalhou muito ainda, mas com a dignidade recuperada, nunca mais se deixou maltratar. Casou e teve um casal de filhos. Os quais mimou e protegeu demais. O que os tornou frágeis, e até hoje necessitam de sua proteção.

Bicho-do-mato voltou para a escuridão. A Madrinha morreu e ficou por conta de parentes que menos atenção lhe davam. Ansiava por uma mãe que lhe explicasse o motivo das coisas. A adolescência lhe metia medo. E nem chorar ela sabia.

A vida era trabalhar, era silêncio, era pobreza, eram as crises de amidalite que lhe duravam meses, e se curavam sozinhas.

Era imaginar como seria o mundo por detrás daquele morro, que se tornava fantasmagórico ao cair da noite.

Um dia, venceu a timidez e se apaixonou. Casou e teve três filhos.

Dentre eles, a caçula sou eu.

E me espanto de como uma pessoa, que cresceu sem informação, sem vinculos afetivos, sem sonhos, sem nenhuma alegria pode ter sido uma mãe tão carinhosa, atenciosa, sensata e inteligente.

Infelizmente, foi ela que deixou a vida primeiro. E quando estava no fim, disse-me ao me ver tentando esconder meu pavor:

- Ora, nem me venha com frescuras e choradeiras. eu já cumpri meu destino na Terra, tenha olhos pra seu filho que recém esta começando.

 

Edição 46

O que é ser sensual?

Julius Arutyunian - Sitter - arte sexualidade
Sitter por Julius Arutyunian


Sole Mazzeto

Tem mulher que se destaca por isso

Outras caem ao ridículo

Conversando aqui e ali

Descobri que

Já nasci com uma certa tendência

Sensualzinha

Vejam bem vou lhes contar
...

Quando nasci era a única menina do berçário

Conta-se que as enfermeiras me colocaram ao centro de manta cor-de-rosa de cabelo em chuquinha alta vistosa e com todos os meninos em volta me olhando em suas cobertas azulzinhas

E foi aquela falação na cidade, pois em uma semana fui a única menina da maternidade

Nasci bem e com saúde, mas a mamãe

Teve que ficar por conta do leite que empedrou lá dentro das mamas dela

E nesse ínterim fui à rainha do berçário

Pode ser daí que já fiquei assim meio exibidinha

Sorte minha ficar assim entre aqueles meninos todos ao balbucio de chupetas, fraldas e mamadas na madrugada

Depois quando neném de colo ainda, a vizinhança se alvoroçava a minha volta, pedia a minha mãezinha deixa pegar ela um pouquinho, e levava eu embora de mansinho

Agora já comecei a parte de atriz logo também

Acho
...

Minha mãe conta que quando eu ia à casa de um homem que tinha sofrido derrame, o pobrezinho do Sr. Félix
...

Ele tendo a face torta eu voltava imitando o coitadinho, contava nessa data, que eu tinha um aninho

Minha mãe chorou de medo ao me ver assim a primeira vez, mas meu pai, acalmando-a disse, ela está brincando, já para com isso, eu demora uns momentos e depois o rosto ficava normal

Mas era ir lá de novo, que a Solanginha já retornava de pronto

Depois na escola, sempre fui a melhor da classe, CDF que só vendo, era paparicada daqui e dali tinha um cabelo enorme que beirava a cintura, as professoras me adoravam, e se ia de tranças voltava de rabo, que punham a me pentear, era chamada de índia e ganhava do homem do carrinho do algodão doce, sempre um a mais sem que pagasse ou pedisse

Abria um sorriso enorme e em épocas banguelinha, que derretia até um cão

E aos pulinhos ia rua abaixo pra dar um pra alguma amiguinha, não ia comer os dois algodões-doces e repartia

E assim fui crescendo sempre com mais amigos homens que mulheres nessa vida e estou aqui fazendo arte teatro, amizade, e por hora estou mais balanceada entre amigos

E assim findo essas escritas que muito me fizeram bem ao recordar

Ganhei um sorrizão da mãma, e isso já me bastou à tarde e começo dessa noite fria de um outono esquisito, mas aqui dentro do peito, o calor de amor se espalha e espelha a todos

 

 

Edição 45

Alma nua

Géssica Hellmann

Géssica Hellmann - Tarot The Rainbow Sword - Arte sexualidade
Tarot - The rainbow sword por Géssica Hellmann


Sou mulher e falo sobre sexo. Ao tocar neste assunto ainda tão proibido, logo engraçadinhos tendem a me rotular como "garota de programa", "prostituta", "ela quer é dar", entre outros. Sexo existe desde que o mundo é mundo. Existe tanto preconceito ao falar do sexo, que faço a pergunta: o que vem a ser o órgão sexual, senão um órgão do corpo humano como outro qualquer? No fim tudo vira pó.

A diferença é a intenção com que se faz. E isto posso afirmar: é com amor, carinho e com respeito aos valores e princípios em que acredito. O combate a todos os tipos de preconceito de raça, gênero ou opção sexual, contra todo tipo de ódio e violência.

Luto contra todo o tipo de violência, verbal ou não-verbal. Como mulher sinto-me ferida ao perceber a discriminação contra o meu sexo. Discriminação essa incentivada por mentes doentes na nossa sociedade, que esqueceram ou perderam seu valores morais, ou porque simplesmente acham que isto é "normal". Quando aceitamos passivamente agressões verbais, muitas vezes disfarçadas por "piadinhas de mau-gosto", no trânsito, no trabalho, ou na própria família, acabamos por ser coniventes com a própria agressão. Mas o que fazer então? Arrumar briga, emburrar, ou aceitar para não piorar a situação? A melhor resposta é a que sempre utilizei nessas ocasiões: deixar claro que meu corpo não está a venda, sou mulher, e exijo respeito. E digo tudo isto somente com o olhar, com minha maneira de ser e agir. Deixo o discurso só para quando é necessário e o outro lado se fizer de desentendido.

Tomo partido do que acredito. Deixar de seguir meus valores seria minha anulação. São esses os princípios que como mãe, mulher e esposa, quero transmitir ao meu filho e a todos os que neles acreditarem.

O géh começou pequeno em tamanho e gigante em sentimentos. Manifestar através das artes nosso repúdio a violência, aos tabus e aos preconceitos sexuais é o nosso objetivo.

Escrevo, desenho, pinto e bordo o corpo e o sexo porque é belo, é divino e feito com amor.

O mal, com seus tentáculos, tenta sempre atrapalhar, como as trevas que sugam a luz do sol obscurecendo nossa visão, impedindo que prossigamos nesta luta. Mas assim como num jogo de xadrez, existem os dois lados: um bem em oposição a todo este mal. É importante saber em que lado se está, é preciso fazer a escolha não dá mais para ficar em cima do muro. Sigo despida de máscaras ou hipocrisia, com a alma nua e com muita luz no coração. Já fiz a minha escolha; e você, já fez a sua?

Agradeço todas as noites ao deitar aos amigos que estão conosco nesta missão e que, mesmo quando nos sentimos perdidos, nos fazem lembrar do que é realmente importante: a intenção com que se faz!

Termino este desabafo presenteando os leitores com um lindo poema da nossa amiga Maria Antonieta.


O BEM E O MAL

I
Já não basta o mal a sempre
fatigar-me,
sem que também o bem..me
dê tormento?
Eu já me tinha aqui comigo
em bom acento
e pronta para quanta dor
quisessem dar-me!
II
Podiam eles não esperar, fartos,
e ajudar-me
e até por ser velho costume e
pensamento;
dizerem em triste penar ou
contentamento,
alguma coisa que bastasse.. iria
contentar-me
III
Mesmo atrapalhando, sentimento
tão desarrumado;
que me dá de prazer um quase
nada e a toda vista,
com o qual se revolva enfim, todo
o meu cuidado...
IV
Tenho neste mal, todo ele reunido,
concentrado,
um contraponto com o bem, que me
trás realista...
Continuo a andar, o Criador a passos...
Do meu lado!

MariaAntonietaRMattos.

 

Edição 44

A LETRA ESCARLATE DOS TEMPOS MODERNOS

Lívia Santana

Num momento em que todos estamos sobremaneira assombrados com a violência, em todas as suas formas de expressão, vimos (Géssica, eu e mais um monte de gente) uma coisa que nos deixou o cabelos em pé e o corações revoltados.

Raymond Scholz - menage a trois - arte sexualidade
Ménage à trois por Raymond Scholz

Muitos pensam que violência se resume a hematomas, sangue, tiros e mortes, por ser esta a maneira mais chocante e indisfarçável pela qual ela se manifesta. No entanto, pergunte a qualquer um que já sofreu alguma forma de coação moral ou tortura psicológica se considera este um jeito menos cruel ou menos importante de ser violentado: garanto que a resposta será unânime.

A violência psicológica é tão dolorosa quanto um golpe físico, não tenha dúvidas.

E uma das agressões psíquicas mais duras é aquela provocada pelo preconceito, porque é originária de sentimentos íntimos e escusos de cada um, é a canalização do ódio e da ignorância, podendo atingir proporções inimagináveis.

Sim, o tema deste artigo é o preconceito, mas enfocado de um jeito um pouco diverso desta vez.

Nós do Géh temos nos empenhado durante todos esses meses em promover a queda de tabus, o combate à discriminação e a defesa da liberdade intelectual e sexual. Falamos aberta e fartamente sobre ambivalência sexual, anomalias, parafilias, deficiências e qualquer coisa que se referisse à sexualidade diferente e a conseqüente não aceitação provocada por ela.

Atualmente é comum pensarmos que o preconceito é endereçado unicamente às diferenças detentoras de rótulos, o que não traduz a realidade dos fatos. A exemplo disso vemos ainda o ranço velado, porém abundante, da discriminação contra homens e mulheres cuja cor da pele é negra, que estão longe de ser a minoria num país miscigenado como o Brasil.

Engraçado é que tendemos a pensar também que aqueles que não se encaixam em nenhum dos estereótipos normais estão livres de represálias dessa natureza, mas ai de nós - nem isso!

Vivemos no século XXI, era da tecnologia, da Internet, da difusão do conhecimento e da diminuição das distâncias pela chamada globalização. Exploramos o espaço já há algum tempo, os cientistas se embrenham cada vez mais nos mistérios da genética e a evolução da medicina curadora é constante. O modelo de educação infantil se baseia em diálogo, as mães trabalham fora, os pais também cuidam dos filhos e lavam a louça. Fala-se sobre sexo e concepção com os adolescentes, a virgindade não tem mais peso fundamental para o casamento, homens e mulheres são reconhecidos igualmente pelas leis.

Sem dúvidas evoluímos muito desde os tempos medievais, mas ao que parece ainda acolhemos no seio da nossa sociedade seres de mentalidade abjeta e pouco esclarecida, capazes de agir com a brutalidade dos homens de tempos remotos.

Há poucos dias uma garota da minha idade escapou por um triz de sofrer linchamento no interior de São Paulo. Uma menina que cursa a faculdade de Direito como freqüentei e que, até então, muito provavelmente, acreditava em inocência, bons sentimentos e nobres ideais, assim como eu ainda acredito.

A turba enfurecida era composta por trezentos jovens de classe média e alta, igualmente freqüentadores da faculdade, considerados membros da elite intelectual do nosso país - como repetiram tantas vezes para mim e para os meus colegas durante os nossos cinco anos de curso. Que Deus nos proteja.

A garota execrada e quase linchada pelos próprios colegas de faculdade teve a infelicidade de aparecer em fotos divulgadas no Orkut por algum ser perverso e doente, participando de um ménage à trois com dois homens.

A vida de todos os envolvidos, inclusive de seus familiares, foi arrasada de um jeito que nem mesmo a morte conseguiria provocar.

Os estudantes que atacaram a moça queriam ter a oportunidade de destilar seu veneno odioso, provinciano e ignorante através de palavrões, xingamentos, expressões de desprezo e agressão física. "Ela é uma puta, afinal a mulher tem que se resguardar".

A garota jura de pés juntos tratar-se de montagem, o que não vem absolutamente ao caso. Fossem montagens ou fossem reais, seria caso de difamação ou invasão de privacidade, ambos crimes do mesmo modo. Ninguém tinha o direito de divulgar-lhe a vida privada e muito menos de condená-la publicamente como uma Madalena dos tempos modernos.

Alguém aí já assistiu ao filme "A Letra Escarlate", em que a Demi Moore interpreta uma mulher condenada a carregar no peito uma letra A pintada em vermelho para que todos que a vissem pudessem saber que aquela mulher tinha sido adúltera e humilhá-la como ela merecia? Este filme revoltou-me o estômago, mas me consolava saber que era apenas uma película e se passava na época medieval, o chamado período das trevas da civilização humana, bem longe de nós e dos dias de hoje. Acho que me enganei.

Há algumas reflexões a serem feitas sobre este acontecimento:

1. São imensuráveis os danos que podem ser provocados pela Internet e por sites como o Orkut, que promovem a interação entre as pessoas permitindo o anonimato e não se responsabilizando pelo conteúdo de nada do que é veiculado através de suas páginas. Urgem providências quanto a isso.

2. Pais, que educação estão dando a seus filhos, que crescem com a mesma mentalidade dos tempos feudais, com toda a sorte de preconceitos e com uma carga de maldade inimaginável a pessoas jovens, aparentemente normais, que vivem em sociedade? Por favor, vamos formar seres humanos decentes e não animais ferozes que ataquem e devorem o semelhante fragilizado!

E o ponto mais importante:

3. Vivemos numa época em que as mulheres, independentemente da sexualidade, estudam, se formam, fazem mestrado e doutorado, trabalham fora, moram junto sem casar, usam pílulas anticoncepcionais, DIU, diafragma, posam nuas, trabalham como atrizes, fazem inseminação artificial, namoram homens mais jovens, têm a liberdade de não saberem cozinhar e de decidirem se querem ou não ter filhos.

Achávamos que tínhamos superado a repressão e o preconceito sexista, que conquistáramos o direito de fazer com as nossas vidas e com os nossos corpos o que bem entendêssemos.

E então algo assim acontece para nos mostrar que a luta ainda não acabou e deve ser contínua. O ódio, o preconceito e a crueldade estão à espreita, constantemente e cabe a todos nós não permitir que eles se propaguem.

 

Edição 43

Hombridade

Gilberto Uryn

 

Certas palavras tem peso e sentido apenas para algumas pessoas; para outras, trata-se apenas de ajuntamento de letras. A palavra hombridade é uma delas.

Na verdade, não se trata de uma palavra, mas de um termo: ele define postura, estabelece a diferença entre a conduta certa e errada, cria ética no comportamento. Apesar de supostamente ser um termo masculino, ele é mais abrangente, versa sobre o comportamento humano; ter hombridade é algo vital e é válido para homens e mulheres.

Randolphlee McIver Blue-man - arte sexualidade
Blue-man por Randolphlee McIver

Eu era um escoteiro de 11 anos, acampado, comendo batata-doce cozida na fogueira com os meus companheiros quando ouvi pela primeira vez o poema de Kipling. Ainda tenho a imagem do Sérgio recitando pausadamente de cor, posso ouvir a sua entonação, as labaredas da fogueira refletidas no seu rosto, como se o fogo prestasse tributo à mensagem . Fiquei maravilhado! Não era um poema, mas uma proposta de vida, foi o momento em que ficou definido para mim o modelo de postura que desejava ter. Ao longo da minha vida, vários textos me marcaram e me ajudaram a ser o homem que sou hoje; “Se” é um deles.

Eu tenho muito cuidado com as pessoas e seus sentimentos. Acho que esse é o bem mais valioso de alguém, e que deve ser preservado de todas as formas. Até para poder exigir que preservem os meus. Claro que já magoei, muito e muitas vezes. Mas sempre que me dei conta disso, soube me retratar. Das pessoas que magoei, algumas consegui preservar como amigas íntimas, justamente por elas entenderem, apesar das minhas fraquezas, o valor que dou aos seus sentimentos.

Um relacionamento não tem obrigação de dar certo, ele tem a obrigação apenas de ser vivido intensamente, plenamente. Dar certo é uma conjunção da vontade e da intenção de dois, da sinceridade deles, e podemos apenas responder por nós mesmos. Muitas vezes, só vamos conhecer realmente a pessoa com quem nos relacionamos após o término do relacionamento. Aí o caráter de cada um aparece sem máscara.

Saber como avaliar aquilo que não deu certo, o sonho que não se transformou em realidade, é algo muito difícil, geralmente é muito dolorido. Mas um sonho é algo que desejamos tanto que não pode ser jogado na sarjeta da banalidade, deve ir para aquele armário de guardados da alma, onde reunimos aquelas lembranças doces daquilo que não existe mais.

Ninguém fica mais do que um, dois meses com alguém por ficar; ninguém diz “eu te amo” por dizer. Se fica e se diz, é falso e leviano, sem sentimentos. Não tem conteúdo, por mais que que seu intelecto seja privilegiado: não tem alma.

Imagina ficar quase 1 ano com alguém, escrever juras de amor, fazer propostas de vida em comum, dizer que sim, quer compartilhar e fazer acontecer sonhos, falar em casamento também, claro que sim, mesmo que agora se apresse em negar. E, depois do cair do pano, apenas debochar, fazer chacota, renegar o que afirmava sentir, tentar ridicularizar o outro que um dia chamou de seu. É não dar valor aos próprios sentimentos ou então é apenas não os ter - ser vazia.

Cada relacionamento que tive, cada mulher que passou pela minha vida me acrescentou muito. Pessoas maravilhosas, porque se fossem medíocres, então eu seria medíocre também, já que as desejei tanto! E por saber disso, as preservo. Não saio fazendo chacota, humilhando ou transformando em palhaço quem quis muito para mim um dia. O palhaço então seria eu. Não as exponho, e assim também não me exponho. Amei, vivi, e agradeço por isso.

Já desci a alguns infernos na minha vida, morei no exterior, vivi história, guerra, tenho orgulho da minha trajetória. Sem falsa modéstia, creio ter um razoável embasamento cultural. Mas com toda essa bagagem, mesmo assim percebo que sou capaz de errar ao avaliar o caráter de alguém que pensei merecer todo o meu cuidado, carinho, atenção, a quem eu amei e dediquei aquilo que prá mim é o que realmente importa, o meu sentimento. O meu maior tesouro.

Não tinha obrigação de dar certo. Tinha apenas a obrigação, não só de ser vivido, mas de ser sincero. E agora, vendo o que ainda é dito mesmo após tanto tempo terminado, lendo textos irônicos e testemunhos em que tenta se isentar de ter também desejado aquilo, em que nega ter sonhado, sentido, amado, em que o ex-companheiro é sempre alvo de escárnio e expressões chulas e pejorativas, agradeço por já ter acabado.

Assim como agradeço por ter vivido aquele momento. Por ter proporcionado a mim mesmo sentir o amor e a ternura de forma plena. Saber que não me violentei e que continuo capaz disso é um grande prazer. Agradeço por ter preservado a minha hombridade.

Agora é encontrar quem a mereça.

 

Edição 42

Alma feminina

Luiz Maia
Autor dos livros "Veredas de uma vida", "Sem limites para amar" e "Cânticos".
- Edições Bagaço - Recife/PE.
Contato: l.maia@terra.com.br

 

Com a exaustão do modelo masculino de sociedade, fica cada vez mais evidente a ascensão das mulheres. Homens e mulheres começam a se acostumar ao seu novo papel social, adaptando-se às mudanças no relacionamento com o sexo oposto.

Girl with red lillies Vlad Zimana - arte sexualidade
Girl with red lillies
Vlad Zimana

A nova mulher, que hoje atua e interage de forma inteira e responsável em todos os setores da sociedade, vê no homem não mais um "protetor" ou "dono", mas um aliado com quem sente prazer de partilhar a vida de forma plena.

Os casais modernos assumem posturas antes jamais imaginadas ao estabelecerem padrões de comportamento que valorizam a unidade e a igualdade nas relações, onde a mulher abandona sua condição de mera coadjuvante e passa a compartilhar de todas as atividades na condução da vida do casal, enquanto os homens começam a desenvolver qualidades e virtudes só encontradas no interior da alma feminina.

Tudo faz crer que estamos diante da reabilitação do culto da feminilidade, algo que vai além do estereótipo feminista. Se por um lado a mulher adquiriu maior expressão e liberdade de ação, participando mais ativamente no seio da sociedade, é verdade também que o homem absorveu essas mudanças de bom grado e começa a se libertar da couraça patriarcal que o reduziu, muitas vezes, à simples condição de machão insensível, passando a assimilar mais para si a energia feminina que há anos repousa inerte em seu âmago, impedida que foi de prevalecer por fatores meramente culturais.

Interessante é imaginar o novo homem e a nova mulher construindo uma relação prazerosa baseada no respeito e na cooperação mútua. Dentro dessa ótica, aos poucos o mundo vai de fato mudando. Passamos a ver homens e mulheres lutando para transformar em realidade atitudes comportamentais que só vêm valorizar a espécie humana.

Benditas são as mulheres que refizeram valores e convocaram o homem a exercer outros aspectos ocultos em sua sensibilidade reprimida, como chorar e dizer "te amo" sem constrangimentos, como exemplos. E benditos os homens que souberam entender a grandeza da mulher em sua essência, aceitando-a como co-autora na construção de seus destinos, sendo ambos responsáveis pelo equilíbrio entre os sexos e da condução de um novo alvorecer em suas vidas.

 

Edição 41

O DIA EM QUE ENTREI NO COIFFEUR
Paulo de Resende

Não é fácil tratar de certos assuntos com naturalidade quando se vive numa sociedade que tem fortes influências da mentalidade americana adolescente (aquela coisa de ver malícia e de ficar fazendo piadas de duplo sentido). Por mais idiota ou superficial que possa parecer o tema, decidi tratar da minha ida ao coiffeur para mal-traçar alguns comentários sobre preconceito, vaidade e auto-imagem.

A história é essa: um belo dia, olhei-me no espelho e disse: "esse cabelo tá um fiasco. Tenho que dar um jeito nele". De três em três meses, eu ia ao mesmo barbeiro, fazia o mesmo corte, saía com a mesma cara. Mas decidi fazer diferente. Por isso, fui ao shopping passear, pra ver se encontrava algum lugar "baratinho" pra fazer um corte diferente.

Hairdressing Pablo Picasso óleo sobre tela - arte sexualidade
Hairdressing - Pablo Picasso
Óleo sobre tela

Lá dentro, havia um salão, um "Alguma Coisa Coiffeur", desses que têm dezenas de cabeleireiros produzindo em série os cortes de cabelo que os fregueses vêem numa das 400 revistas espalhadas por bancadas e mais bancadas. Antes de entrar, olhei para os lados. Podia ter algum conhecido por ali, por isso verifiquei tudo ao meu redor. E pulei pra dentro do salão, sem pensar mais no assunto.

Quando entrei lá, comecei a pensar: "diacho, coisa ridícula, estou pensando como o meu falecido bisavô, talvez como alguém mais retrógrado! Ficar pensando em preço, preocupado com quem me vê entrar...". Parei com a besteira. E decidi viver aquilo como um ritual.

Sentei-me em uma cadeira na qual fazem a aplicação de shampoo. Um rapaz simpático fez a lavagem e aplicou um shampoo com um nome francês pouco pronunciável. Comecei a refletir: que sensação agradável, essa de receber cuidados para a aparência... Você não precisar ficar se estressando com o tempo de aplicação, nem ficar lendo letrinhas minúsculas de rótulos de produtos de beleza... Foi quando ele me avisou que já havia acabado. Puxa vida, como as coisas boas duram pouco!

Fui até o cabeleireiro. Ele me cumprimentou, pediu que eu me sentasse. Perguntou: "como você prefere o corte?". Respondi que eu ainda estava refletindo a respeito, provocando nele um leve riso. Aí, expliquei o meu drama: que nunca havia pisado num salão, que não sabia o que fazer. Mas que eu queria deixar o cabelo crescer um pouco. Foi o suficiente para que ele já soubesse o que fazer.

Conversamos durante o corte. Ela tinha a minha idade, trabalhava desde os 15 anos, estava construindo uma carreira profissional. Igualzinho a mim. Mas havia uma diferença: ele era casado e tinha um filho. E eu, trazendo a minha filosofia desclassificada por companhia.

Depois de exatos 12 minutos, o serviço estava feito. Olhei para o espelho enquanto ele recomendava os cuidados para preservar o cabelo e indicava uma cera para "manter o penteado firme". A cera, vale comentar, não prejudicava o cabelo. Pelo contrário, havia nela componentes para evitar o ressecamento, esse inimigo da saúde capilar.

Paguei o serviço e saí de lá com várias pequenas reflexões. Mas não queria pensar em nada. Era hora de tomar um banho de banheira ouvindo uma trilha sonora relaxante.

Mas, o que ficou de reflexão após o banho?

1 - Triste é quem cultiva preconceitos como se fossem flores. Tem um jardim de pensamentos e recalques que o impedem de aproveitar a vida, de fazer coisas novas, como entrar num coiffeur, ou fazer boas amizades, conhecer música nova, entender que gente "diferente" não é gente "ruim". Tomara que eu possa encontrar essas ervas daninhas pra extirpá-las com rapidez da minha cuca.

2 - Dito e feito: foi só eu comentar com alguns amigos que eu havia ido ao salão para cortar o cabelo, pra ouvir uma gracinha: "Paulinho agora tá com umas idéias estranhas... daqui a pouco, vai estar fazendo aula de balé". Olhei para o gordo que falou essa besteira e fiquei imaginando ele sobre uma cama, de espartilho de couro e chicote na mão. Ri sem falar nada e fui embora, pra desconforto dele, que não entendeu o que aconteceu... Se é pra ser "um tiquinho preconceituoso", pelo menos é melhor atualizar as influências da imaginação, não é? Balé já é uma coisa "clássica", é melhor ter referências mais recentes.

3 - Penso que a vaidade, desde que não se torne patológica, deveria ser um direito inalienável, desses que se coloca na Declaração Universal dos Direitos do Homem. Porque a gente deve se alimentar, cuidar da saúde, ser respeitado, mas também é maravilhoso se olhar no espelho e gostar do que aparece nele. Se você cultiva o hábito de ler, busca se desenvolver, pensa em um projeto maior de vida, tenta fazer amizades para a vida toda, então pode ser vaidoso "por dentro e por fora". Na minha humilde opinião, essa é a melhor coisa que pode acontecer a alguém.

4 - Metrossexual é o senhor seu avô! Não me ponha rótulos, que não sou produto de supermercado!!!

 

Edição 40

Delírios Coloridos
por Tate Fish

Maria Lima delirium - arte sexualidade
Delirium - Maria Lima
Óleo sobre tela (2005)


Cansei daquele azul cor de um céu imaginário decorado com um laranja que mais parecia o minuto de um lampejo... No espelho em p&b misturam-se cores que se aproximam da realidade atual. Vermelhos intensos escorrem do pensamento, misturam-se às gotas transparentes e freqüentes do olhar e formam poças de morango sem açúcar, de goiaba sem perfume. Um pouco de paz invade os vermelhos para torná-los róseos, brandos, suaves.

Palavras doces e salgadas andam escassas, cinzas, verde jiló, verde limão, roxo de caixão. Talvez amadurecer a goiaba e então, perfumada, deixar-se goiabada. Talvez um inverno frio trazendo chocolates. Chocolate! É tempo de chocolate...

Crescer é resignar-se ao que é irresistível

Por Zander Catta Preta

Maria Lima ostalgia - arte sexualidade
Ostealgia IV - Maria Lima
Bico de pena
(2005)

O tempo não se dobra à nossa vontade, mas à percepção. “Manter-se jovem” no jargão, é tudo menos ser jovem. O jovem é impreciso, imprudente, indelicado. De bom, apenas a energia o ímpeto.

Aos doze sonhava com os vinte; aos vinte com os trinta; aos trinta com salário em dia, sexo regular, prazeres miúdos e ver a pequenina crescer dia-a-dia com um sorriso de ofuscar o sol. Eu uso óculos escuros quando a vejo.

O único senão de envelhecer é saber que aqueles que nos sucedem irão cometer os nossos mesmos erros novos, se arrependerão novamente das novas decisões tomadas anteriormente pelos que nos precederam e que esquecemos de passar à frente. Não sei se estou sendo claro ou se apenas me perco nas palavras da minha meia-vida. Só sei que tudo foi escrito e vivido e nós, a cada ano que se completa, nos revelamos essa verdade.

 

Edição 39

O pior conselho do mundo
por Cynthia F.




Me ligou extasiada... tão radiante de felicidade que cheguei a sentir a orelha queimar contra o aparelho, devido ao calor daquela alegria.

"Cy! Vou me casar!"

Depois de me informar detalhes sobre a cerimônia e todas as pequenas formalidades que estariam envolvidas no enlace, ela me pergunta (a ternura em sua voz perfurando minha alma com a lembrança de um tempo em que ela me perguntava sobre coisas tão mais simples e mundanas...).

"Você tem algum conselho pra me dar?"

Marc Chagall - Bride with fan - arte sexualidade
Noiva com leque - Marc Chagall
Óleo sobre tela (1911)

Nesse momento me veio uma imagem ancestral na cabeça... de um passado imaginado, de um tempo em que a cerimônia de casamento era menos um show e mais um ritual de passagem. Vejo-me como uma velha recortada de um texto do Lorca, com ervas, rezas e um terço, escondidos no avental de linho branco. Penteando o cabelo da noiva e aproveitando aquele último momento de intimidade para desfiar um rosário de instruções e sabedoria. A receita da felicidade, madura como um tomate na vinha, colhido e presenteado à jovem iniciada.

E daí me vem a cacetada. Meu tomate, entalado. Os bolsos das minhas calças carregam mais dúvidas do que preces. A erva... Bom... Abandonei o hábito faz tempo.

*********

Num outro canto da cidade (soube mais tarde) o futuro esposo confidenciava com um amigo sobre suas dúvidas. Não sabia se a amava.

(Nessas horas eu realmente gostaria de ser onipresente).

"Claro que não a ama, sua anta!"

Pelo menos, não ainda...

Verdade é que... (Acionando escudo anti-pieguice) Ninguém se casa (e, como "casamento", entenda-se juntação de trouxas ou qualquer arranjo emotivo-sexual que faz com que duas pessoas resolvam partilhar de um mesmo teto e de uma vida comum) por amor.

Existe toda uma gama de motivos que levam pessoas a se elegerem mutuamente para compartilhar de uma vida juntos. Tesão, solidão, paixão, determinismo biológico para garantir a preservação da espécie... Mas de uma coisa eu estou certa...

Nenhum deles é amor.

Por outro lado o amor pode vir a ser (mas não obrigatoriamente) o que faz com que as pessoas continuem juntas, por anos e anos, nesses relacionamentos.

Explico.

Muita gente tem a tendência de pensar em amor como uma coisa que se contrai. Como um vírus. (Doutor, com sintomas como esses... Você acha que devo tomar um antibiótico ou pedi-la em casamento?) Ou como algo com que um belo dia, surge espontaneamente no ar. Como uma epifania.

Ou ainda pior (como para os românticos deterministas e roteiristas de filmes estrelados pela Meg Ryan) o amor seria algo "escrito" nas estrelas. Feito um piano pendurado por uma corda no topo de um prédio, ali balouçando ao vento, apenas esperando você passar embaixo para cair na sua cabeça.

Mas amor, mesmo, é o que acontece depois. Quando desaparece toda aquela coisa que serve de tema para filminhos românticos. Quando tudo o que resta é você, a cara-metade e a rotina. Aí é que se tem a chance de, verdadeiramente, conhecer o amor. Infelizmente, é aí que muitos dos românticos pensam que o amor acabou... E se separam. Esses, a menos que aprendam, vão passar pela vida sem ter amado.

Porque amor é basicamente uma escolha. Escolhemos, por um gazilhão de motivos insondáveis, amar a pessoa que está ali do nosso lado. (Ou não). Mais ou menos como na música do Cazuza... Amor é mais ou menos algo que a gente inventa pra se distrair. Ou se completar. Ou se justificar. E só acaba quando a gente pára de amar. Quando a gente escolhe fazer algo diferente com as nossas vidas.

Amor é um verbo, um exercício. Se você ama, ele existe. Senão, desaparece.

Simples assim. Ou pelo menos parece simples...

Mas engana-se redondamente quem pensa assim. Amor é coisa complicada. Que nem a gente. Eu mesma, depois de dez anos, ainda me pergunto até que ponto estou me decidindo a amar e até que ponto estou simplesmente evitando uma síndrome de abstinência amorosa.

(Ah... esqueci de mencionar que amor vicia).

*********

A verdade, minha linda, é que não tem nada que eu possa te dizer, que eu saiba de antemão, que você não vá, logo, logo, ter a chance de descobrir por si mesma.

O que eu sei sobre casamento?

Tem dias em que a gente se ama tanto que parece que não existe vida inteligente fora do apartamento. E tem dias em que a gente se tolera.

Tem dia em que a gente agradece aos céus ter decidido viver juntos. E tem dias em que a gente se pergunta onde estávamos com a cabeça quando cometemos o casamento.

Dias em que temos tanto o que conversar que varamos a noite em assuntos intermináveis. E dias em que nada existe entre nós senão o silêncio.

Dias de trocas de "gentilezas" e dias de juras de amor eterno. Dias em que mal podemos esperar para nos rever, e dias em que a presença do outro nos irrita profundamente.

Tem dias que você não trocaria a cara metade pela mais sensual das celebridades que você admira, e tem dias que, puta que pariu, ele bem que podia jogar fora aquele shortão e aquela camiseta puída, curta demais, com o logo das tintas Suvinil... E ela bem que podia raspar as pernas com mais freqüência e comprar umas calcinhas que não empelotam na maquina de lavar.

(Ao contrário do que dizem o amor não é nem um pouco cego, mas tende a fazer vista grossa).

Dias em que você morre de orgulho da pessoa que está com você, dias em que essa pessoa é uma anta completa. Tem as flatulências, as halitoses, os vômitos, as diarréias, os pequenos hábitos que te enfurecem. Tem os cabos-de-guerra emocionais, as picuinhas, as birras.

Tem os pequenos segredos ridículos, as confissões desconfortáveis, as descobertas indesejáveis, as constatações decepcionantes.

Tem muita, mas muita coisa, que nunca, nunca, nunca se entende a respeito da pessoa, e tem muito mais coisa ainda que se conhece tão bem a respeito dela, que se chega a prever os desfechos.

Tem a coisa de que nós todos somos criaturas tremendamente imperfeitas, e que nada que criemos, ninguém que escolhemos ou a quem nos dedicamos, vai ser perfeito.

O que eu sei sobre casamento...?

É que vale a pena cultivar a imperfeição que é perfeita para você.

Que tem que ser bom. Que tem que valer a pena.

E como se sabe que algo está valendo a pena?

Pra mim, um relacionamento está valendo a pena quando eu olho sem saudades para a minha vida antes dele.

Quando levanto todas as manhãs e algo me diz para escolher amar o sujeito, ainda mais um dia. E isso me dá prazer.

E a idéia de passar o resto dos meus anos ao lado dele, com todos os pequenos horrores e delícias, realmente me alegra.

Quando eu penso no futuro, na inevitável chegada da decrepitude compartilhada... Até mesmo esse pensamento é doce. Como uma colher de mel te ajuda a engolir um remédio amargo.

Meu conselho?

Quando a hora chegar, escolha amar. Pelo menos por um tempo. E só se for bom. E se ele, obviamente, escolher o mesmo.

Em resumo... Teu príncipe vai ter dias de sapo. A princesa que ele escolheu vai, alguns dias, amanhecer parecendo a moura torta.

Mas no final das contas, mesmo que tudo seja um grande erro... Aqui vai meu conselho.

O pior de todos:

"Viver é ter muito do que se arrepender".

Assim... Arrependam-se antes das coisas que fizeram do que das coisas que, por medo, deixaram de fazer

 

Edição 38

Sua excelência o sexo
Luiz Maia

arte sexualidade
Jill's Wings of Light - coach loafing.

O homem, na eterna busca de ser feliz, vive procurando respostas para as grandes questões da vida. Entre essas as que dizem respeito ao coração, aquelas de caráter emocional que interferem diretamente na sua sexualidade, comprometendo às vezes o seu lado afetivo. É preciso desmistificar o verdadeiro sentido do sexo em nossas vidas. A sociedade acostumou-se a viver sob o manto da hipocrisia quando optou por se esquivar de tratar de forma correta, sem subterfúgios, os assuntos relativos à sexualidade humana. Este tema foi por vezes sublimado, por muitos ignorado e em alguns casos até estigmatizado.

Diminuem o sexo quando confundem a sua verdadeira função, a de causar prazer às pessoas, com algo sujo ou proibido. Há muita desinformação entre as pessoas de todas as idades. Isso só fortalece velhos tabus ainda vigentes. Existem casos de homens e mulheres que levaram uma vida inteira sem obter os prazeres do sexo, sendo infelizes em suas existências. Há mulheres que chegaram a ser mães sem conhecer o gozo, fruto do orgasmo, por total desinformação. Em determinada época de suas vidas, gerações inteiras se defrontaram com o proibido, especificado em códigos e normas de condutas éticas pré-estabelecidas pela sociedade, incorporados há muito à cultura Ocidental.

O homem deveria compreender o valor do sexo sem basear a sua vida em falsos ensinamentos que têm o objetivo de inibir a libido das pessoas. Nem deveria se guiar por dogmas religiosos que na prática visam a anular a sexualidade humana, tornando-a escrava da cultura que costuma, equivocadamente, associar o prazer ao pecado. O tabu conferido ao sexo está arraigado à nossa cultura porque pobres e ricos, negros e brancos podem praticá-lo igualmente sem nenhuma distinção. Os seres humanos foram criados com a finalidade primeira de serem felizes, ao exercitarem normalmente a sua sexualidade. Agindo de maneira livre e espontânea, as pessoas conseguirão atingir o êxtase através do orgasmo. Porém muitos condicionam, erradamente, o amor ao sexo - e vice-versa.

Sexo e amor são distintos em essência. Sexo é uma necessidade fisiológica como outra qualquer, embora careça do outro para a sua completa realização. Sexo está ligado indiscutivelmente ao prazer, que por sua vez conduzirá a pessoa à felicidade. Podemos até amar a pessoa com a qual fazemos sexo, mas sexo não implica na necessidade de sentirmos amor por essa pessoa. Amor é o mais nobre dos sentimentos humanos, algo sublime que engrandece as pessoas que se amam e que se querem bem. Enquanto sexo, além de possibilitar a preservação da espécie, tem o poder de nos causar inúmeros prazeres. Aos olhos dos mais conservadores pode parecer absurda esta afirmação, mas um dia ela prevalecerá.

Autor: Luiz Maia
Autor dos livros "Veredas de uma vida", "Sem limites para amar" e "Cânticos".
- Edições Bagaço - Recife/PE.
Fonte: http://geocities.yahoo.com.br/maialuiz/

Edição 37

O Foro Íntimo desta edição, recebe com muita alegria este ser feminino que reflete a beleza de sua alma em suas palavras.

 

SER MULHER MADURA

por Maria Antonieta R. Mattos.

Mariah Antonieta Mattos
Maria Antonieta

Vamos mudar um pouquinho o rumo da prosa, de novo? Eu tenho 52 anos. Claro que aparento bem mais, mas não tenho receio em dizer.. Me sinto muito bem, queridos e... sou uma mulher madura.

Ah... mulher madura. Já escrevi sobre o tema antes. No entanto, devido à plasticidade do tema; que nos fornece a facilidade de construir um dizer em paralelo, que não tenha spot exclusivamente como a denominação o indica, é que podemos considerá-lo como uma fruta madura, cheia de vida e de sabor. Uma fruta desejada por quem aprecia o verdadeiro paladar, por quem aprecia o melhor da vida.

Deixem-me falar mais um pouquinho sobre ela. Ela, a mulher madura, ela que simplesmente viveu a vida, enfrentou os preconceitos que, em outros tempos, determinavam que a mulher apenas exercesse papéis secundários. Seu amadurecimento deu-se graças à alquimia do tempo, que foi moldando suas formas e sua mentalidade. Mudanças forjadas à custa de muita luta, principalmente uma dura luta interior, para poder se livrar de uma série de conceitos e preconceitos que lhes foram enfiados cabeça adentro desde a mais tenra idade.

As jovens de hoje não podem fazer idéia do que foi a luta dessas encantadoras e sedutoras mulheres maduras de hoje. Graças a essas mudanças, o seu espírito revela equilíbrio e harmonia, como em nenhuma outra fase da sua vida. Ela já viveu muita coisa. Já passou por vicissitudes. Já enfrentou muitos problemas e percalços. Quer seu espaço e seu direito à vida. E quer viver a vida em sua plenitude. E tem esse direito. Direito adquirido com louvor.

Nada é promessa, nesta altura da vida, promessas não cabem mais... É o momento de decisões de realizações. É o fazer, ou não fazer. Serve ou não serve. Não pode mais aceitar enrolações.
Seu tempo é de urgência.

O passado, o presente e o futuro nela se fundem para formar um tempo único: o momento presente. Não pode e nem quer se prender a fatos passados, nem tampouco se preocupa muito com o futuro. Quer viver o momento, e por isso procura escolher o que quer para o hoje. Então, é bem seletiva na escolha de suas companhias. Sabe o que quer, e busca. Vai à luta, em todos os pontos-de-vista. Quem insistir em desconhecer essa sua maneira de encarar a vida, ou não for capaz de identificar que a fruta encontra-se no seu ponto certo, perderá a oportunidade e estará excluído de usufruir sua companhia.

A fruta é madura, mas para colhê-la é preciso conhecer o momento devido, sem precipitação. O que necessita ser feito com muito tato, cuidado e carinho.

Não se pode ser afoito, tampouco lento demais. Tem que ser decidido, mas chegar no tempo certo. E isso exige um certo conhecimento da alma feminina.

Saibam que ela , por mais frágil que aparente ser, é muito segura e senhora de si, sabendo o momento certo de agir, e o faz com charme e elegância. Delicada e incisivamente. Não aceita “pisadas na bola”. Do ponto de vista sexual, ela tem a aprender tanto quanto a ensinar, o que estabelece um equilíbrio no relacionamento. E tudo o que faz, ela o faz como opção. Faz o que quer, como e quando quer, sem desvarios ou arrependimentos. Guia-se pela sensatez.

Ela não se envergonha da sua idade. Pelo contrario, orgulha-se dos anos vividos e de ser fruta madura. Mas mesmo que nada diga, lamenta, interiormente, que haja quem se contente em colher uvas verdes. Lamenta principalmente por ver que não sabem lhe dar o devido valor. Mas passa airosamente sobre tais fatos.

Sabe perfeitamente que a melhor maneira de prender o parceiro, é fazendo-o pensar que o deixa livre. Não impõe a companhia, apenas faz-se sentir necessária. Mostra-se criativa. Faz com o parceiro a veja em sua plenitude, ficando a seu lado por desejá-la e não por aturá-la. Afinal é uma mulher total. Quer sentir-se valorizada. Sabe ser companheira. Aquela que compartilha a vida. Que vive ao lado. Não quer passar à frente, mas tampouco admite ficar para trás. Tem bagagem de vida e sabe aproveitá-la. Soube extrair da vida todas as lições, e agora as usufrui. Sabe viver.

Esse é o retrato da mulher madura. Sorte daqueles que sabem reconhecer, e dão o devido valor à sua companhia. Quando amam, são incomparáveis. Quando querem conquistar, fazem-no com arte e decisão.
Ufa... Mulher madura... E eu sou uma delas!!

(texto baseado em Marcial Salaberry)

 

Edição 36

Agressão Verbal

por Lívia Santana

Dizem que as mulheres gostam que, ao andarem pelas ruas, os homens lhes digam sacanagens porque faz com que elas se sintam desejadas, bonitas, poderosas. E vão ainda mais longe ao afirmarem que ficamos até deprimidas quando saímos na rua e ninguém nos diz alguma gracinha. Existe absurdo maior? Queria saber quem foi o maldito ou a maldita que inventou isso.

Helen Dodge - face - arte sexualidade
Face por Helen Dodge

Estava eu andando pela rua ontem, quando me aconteceu mais uma vez algo que é comum acontecer à maioria das mulheres: cruzei com um homem na calçada e o cretino sibilou - aliás alto pra caramba, todo mundo ouviu! - ostensivamente na minha direção: "Hummm, que fi-lé-ziiiii-nho!".

Até me arrepiei de tanto nojo. O cara quase se babou todo dizendo aquilo, acho que se eu estivesse mais perto teria sentido uns perdigotos no rosto, argh! Pude sentir as energias lascivas do desgraçado emanando dele em minha direção como se saíssem da boca junto com a frase desrespeitosa.

Sabe aquele recurso de desenho animado em que o cara, quando vê uma mulher, faz cara de lobo, uiva e arfa? Foi mais ou menos aquilo, mas nada teve de engraçado, até porque ele tava mais prum bicho no cio. Tive a sensação que se não fossem dez e meia da manhã, se não houvesse gente na rua e nem lei nenhuma a esse respeito, o cara teria saltado sobre mim e feito tudo quanto passou pela cabeça dele naquele momento.

E pasme, eu estava de calça jeans e camiseta, o cabelo bagunçado pelo vento, usando uns óculos horrorosos porque estava indo ao oftalmologista e tinha tirado as lentes de contato. Ou seja, aparentemente não importava ao tarado de plantão que eu estivesse uma baranga recém-saída da cama. O tesão dele não dependia muito do objeto, era quase um ente independente que se manifestava quando tinha vontade e quando o ensejo se apresentava!

Desculpem o desabafo, mas ainda estou enojada. Principalmente porque não é a primeira vez nem comigo nem com mulher nenhuma. Nem vai ser a última. E as palavras dessa vez ainda foram leves, tem cara que abusa de verdade. Outro dia, estava fazendo caminhada com uma amiga, ambas de camiseta, calça e tênis, falando sem parar - na verdade falávamos mais que caminhávamos, mas isso é papo pra outra hora. No meio do caminho um rapaz abordou a minha amiga perguntando as horas, o que nos fez diminuir o passo um pouco, mesmo não tendo relógio. O cara aproveitou a vantagem e soltou essa "Quero te chupar todinha".

O choque foi tanto que a gente até perdeu o ritmo, olhou uma pra cara da outra de olho arregalado, não acreditando que tinha ouvido aquilo. Ele riu, saboreando a reação. Só não contava com a reação seguinte da minha amiga, que correu num monte de entulho que estava perto, agarrou umas pedras e começou a atirar no desgraçado que saiu correndo. Rimos do cara e comentamos indignadas ainda uns bons quilômetros a atitude dele.

Mas, não obstante o desfecho cômico da situação, não dá pra ignorar a gravidade da coisa. Imagine a falta de respeito, a baixeza, a truculência de um ser humano que ache que pode molestar alguém dessa maneira? A meu ver é tão ruim quanto o que parte pro ataque físico propriamente dito. Onde é mesmo nos Estados Unidos que fazer isso é crime? Vou me mudar pra lá, eu juro.

Quer matar a minha mãe de desgosto, quase a ponto de atirar pedras no fulano, é passar por nós na rua e dizer "Ô, minha sogra!" ou algo do gênero. Ela realmente ferve de ódio porque nesses casos o desrespeito é duplo e eu fico ainda mais brava porque mãe é mãe e eu odeio que metam a minha no meio.

As ocasiões são muitas. Numa outra vez caminhava na calçada com duas amigas e um rapazinho passou de bicicleta, gritou: "Ê, lá em casa!" e sumiu logo em seguida. Foi tão ridículo, que nós caímos na risada, não teve o condão de nos ofender, acabou virando apenas uma anedota. Mas esses casos são as exceções, porque via de regra a intenção desses homens não é fazer um gracejo e sim agredir, humilhar.

A época dos gracejos passou juntamente com as serestas, as mãos dadas e a inocência. Hoje a violência se instalou de tal forma no comportamento das pessoas que chegamos a encarar isso como algo normal. "Não quer receber cantada grosseira? Não usa minissaia na rua, não passa na frente da construção civil comendo banana".

Nossa, quer me tirar do sério é a tal piadinha da construção civil. Realmente, pra qualquer mulher que se mexa e respire, esteja usando o que for, é impossível passar em frente a uma obra em andamento sem ouvir grosserias ou pelo menos uns assovios e gemidos. Agora vir me dizer que mulher quando tá com a auto-estima baixa passa na frente da construção civil e sai feliz da vida é o cúmulo do absurdo!

As mulheres passam por esse tipo de constrangimento o tempo todo, muitas até já se acostumaram mesmo, não têm o que fazer. Mas eu não me acostumo, porque achar isso normal é achar coisas mais graves também normais. E o pior é que essas coisas mais graves também acontecem aos montes, mas disso falo em outra oportunidade, até porque o assunto é mais pesado e eu preciso achar um jeito leve de falar dele.

Vou terminar com uma recomendação à mulherada: antes de sair de casa, coloque umas pedras na bolsa e faça um escândalo ao usá-las... Mas certifique-se de que tenha mais gente em volta. Vai que o cara corre pro lado errado, né?

 

Com Estas Mãos

por CATÚ?

Desde pequeno, mamãe dizia que eu tinha mãos talentosas. Antes de saber escrever, eu já desenhava. Antes de aprender a interpretar meus papéis no teatro da vida, eu já gesticulava, discursando palavras desconhecidas para uma multidão imaginária.

Shannon O'Brien - Hands - arte sexualidade
Hands por Shannon Obrien

Certamente, alguns dos talentos que minhas mãos possuem não poderiam ser descobertos pela minha mãe. Estavam reservados para outras mulheres, de modo que eu não me tornasse uma espécie de Édipo pós-moderno.

Não que eu queira me gabar, mas quem literalmente já passou pelas minhas mãos (melhor seria dizer: aquelas nas quais já tive a honra de pousar minhas mãos) poderão compreender exatamente as coisas que vou descrever agora.

Um homem precisa aprender a usar adequadamente seus dons manuais no exercício do amor. Sempre tive essa preocupação, daí que trato as minhas relações como uma música dedilhada em lira: a beleza do uso das mãos e a poesia das cordas tangidas reverberam paixões que se traduzem em sentimentos, dos mais puros aos mais impublicáveis.

Não se enganem, não estou me restringindo ao sexo. Muito pelo contrário, sou partidário de que deva haver muito mais entre o homem e a mulher do que o contato físico. Daí que minhas mãos me servem de forma exemplar nesses e em outros momentos.

É com as mãos que versejo declarações de amor que causam suspiros que se alastram pelo ar, hálito de amores que à distância se completam.

Com as mesmas mãos, trabalho para que o fruto da labuta se transforme em presentes, oferta de um sentimento puro a quem, espero, possa merecer.

No contato das palmas e dos dedos com tintas e pincéis, imortalizo cenas de intensos "gostares" que se materializam numa tela que é muito mais entendida pelo coração do que pelos olhos.

E no encontro? O primeiro toque, aquele que põe fim ao inverno da saudade e traz o florescer de uma primavera em nossos olhos, é um rápido passar de pontas de dedos num rosto que é beleza cravejada de dois olhos brilhantes. Não há palavras que se antecipem ao primeiro toque.

Protegidas sob os véus da intimidade, as mãos se transformam em portadoras do prazer. Por meio de massagens, toque, pressões, elas arrancam suspiros, provocam gemidos, instauram a volúpia, lançam no abismo da loucura um casal entrelaçado por dedos, braços, corpos.

E depois do amor, as mesmas mãos relaxam, acompanham languidamente o ritmo das respirações já acalmadas. Acariciam com ternura, deslizam com calma, demonstram a transitória satisfação de uma sede interminável.

Na despedida, são as mãos que, em concha, colhem as lágrimas e as trazem para o coração. E, no aceno da despedida, demonstra-se o desejo de que não haja mais "até logos" entre nós.

E na distância, no auge da saudade, são essas mesmas mãos que cobrem o meu rosto quando, em prantos, peço a Deus que me guie por seus misteriosos caminhos até o colo da minha amada.

Com estas mãos, que são a expressão material dos meus maiores dons, eu consigo expressar o que é o verdadeiro amor.

Edição 35

Vidência e fugas

por Desirée

Ana Maria Aguiar - Beleza encadernada - arte sexualidade
Belleza encadenada - Pastel por Ana Maria Aguiar

O melhor papo da semana foi sobre vidência. Uma amiga está numa fase de total desconsolo. Geralmente quando um namoro termina, temos a nítida sensação de que a vida vai junto. Ontem reapareceu no meu quarto minha bíblia do amor escrita pelo divertido Allain de Botton: Ensaios de Amor. Ele não trata neste livro o amor eterno como alguns esperam que seja um ensaio sobre amor. É a história que começa de forma inusitada, passa por todas as fases de um namoro e quando menos se espera, ela termina. E o mundo rui. E a gente chora. E pensamos que o melhor é morrer. E planejamos nossa morte. E então conhecemos uma nova pessoa.

Sei que não é tão simples assim, mas é quase assim. Há exceções, mas a maioria se encaixa muito no perfil que ele desfia no decorrer do livro. Eu me identifiquei várias vezes e ri das minhas bobagens. Minha amiga está justamente nessa fase. Não pensou em se matar. Ficou triste, chorou muito, não quis ver ninguém, tem preguiça de sair e não pára de falar dele, mesmo que seja mal. E a gente ouve. Nessas horas não há muito que dizer. Apenas ouvir. Eu não sou muito boa nessas horas. Acho tudo dramático demais, por isso que quando terminei meu namoro e sofri como louca, eu preferi guardar para mim. De vez em quando eu choramingava um pouco de saudades no colo de um amigo, mas isso foi raro. Claro que meu ex vive vindo à tona em minhas conversas, pois há muitas coisas que me faz lembrar dele, mas é sempre sem chorumelas.

Recorremos às mais diversas simpatias e alternativas que fazem a gente ter alguma esperança, nem que seja de um novo amor pintando aí na frente. Minha amiga, que está nesta fase, anda buscando tais alternativas. Deram a ela o contato de uma vidente considerada muito boa. O custo era R$ 60,00 e quando ela ligou, a mulher não tinha horário. Diante da voz decepcionada e desesperada da minha amiga, a vidente repensou e a encaixou no mesmo dia. A consulta durou 4 horas e a vidente falou o que ela queria e não queria ouvir. Como o que ela não queria ouvir foi a maior parte da conversa, ela resolveu marcar uma outra vidente devido à chance desta primeira vidente ter errado nas previsões feitas em quatro horas de consulta. A segunda custa R$ 35,00, falaram para ela que a mulher é genial, mas a consulta tem a duração exata de uma hora. Ela vai lá ou já foi não sei.

O divertido foi que na primeira vez que ela contou tal odisséia, era para ser um segredo. O problema é que vidência é algo que atrai a maioria, por mais descrentes que somos. O assunto se espalhou, todas quiseram saber detalhes e o telefone para marcar uma consulta. É como a astrologia. Não acreditamos, mas sempre lemos em busca de algo que nos conforte ou anime. Eu também me animei em ir, mas sei que vou enrolar e não vou, pois vou lembrar que com essa grana eu compro algo nas liquidações de verão que estão começando. Quando estou mal, a grande saída são as liquidações, que me deixam tão feliz.

 

Edição 34

MULHERES X TELEFONE

por Lívia Santana.

arte sexualidade
Blue por Hans Feyerabend

Pegando o gancho da semana passada, quando concluí que as mulheres são escravizadas pela balança e pelo calendário, me peguei pensando numa outra espécie de escravidão tão perversa e tão insana quanto as outras. Já reparou no papel desempenhado em nossas vidas por um objeto aparentemente simples, inofensivo, mas que se revela um grande tirano por muito mais vezes do que gostaríamos: o telefone?

Não, não estou falando do segundo mito mais difundido sobre as mulheres, o de que elas vivem penduradas no telefone falando pelos cotovelos. Aliás, existem algumas idéias tão ridículas por aí repetidas como se verdade fossem que chego a me espantar, porque denotam cegueira, surdez ou burrice. Afinal de contas, a realidade está ali bem diante do nariz, vejam os que têm olhos de ver, ouçam os que têm ouvidos de ouvir.

A tirania exercida pelo telefone a que me refiro é bem menos lógica do que as outras, mas perfeitamente compreensível. Acompanhe meu raciocínio...

O pesadelo começa quando ouvimos a famigerada frase: "Eu te ligo!", exatamente assim, sem especificação de data ou hora, o que deixa em aberto um leque de possibilidades que é demais pra qualquer cérebro feminino normal processar. Geralmente a bendita (maldita?) frase vem depois de um papo gostoso, um chopinho, um café, um cinema, um jantar, uma festa ou coisa parecida com um interlocutor dotado de qualidades suficientes pra acelerar o seu coração. Foram momentos agradáveis, você nem viu o tempo passar, nem queria ir pra casa, mas é o jeito.

Até então você é um ser razoável, inteligente, divertido, calmo e confiante. Desce do carro dele - ou entra no seu, depende de cada caso - e dá aquele sorriso cintilante e sedutor, diz que se divertiu muito e ele responde que também se divertiu e que "te liga".

Você vai pra cama sorrindo e soltando suspiros ocasionais. Olha-se longamente no espelho, sentindo-se leve que nem pluma, antes de se deitar. Acorda no dia seguinte se espreguiçando lânguida, enquanto sorri e rememora trechos do encontro do dia anterior. Certo, então ele vai ligar. Dá uma olhadela de canto de olho para o celular só pra conferir - nunca se sabe, né? - e vai cuidar da vida.

O dia passa em estéril silêncio do aparelho em questão ou então com todo o tipo de ligação possível, até engano, menos a que lhe interessa. Nesse ponto as mulheres dividem-se em dois tipos: as normais e as psicóticas. As normais ficam frustradas e resmungam um pouco ao fim do dia, mas mantêm a calma, afinal ele liga amanhã. As psicóticas, por outro lado, logo imaginam que fizeram algo errado e entram em pânico: "fiquei com salsinha presa no dente"? "fiquei com mau hálito"? "falei alguma besteira"? "anotei o celular errado"? "ele me achou uma desenxabida"? e assim por diante.

Nesses casos, o cara se livrou duma fria e talvez nem saiba. Homens deveriam aprender a detectar esse tipo de mulher maluca, pois mesmo achando que todo mundo merece receber amor, se relacionar com gente doida requer um nível de paciência acima do normal e não é todo mundo que encara numa boa.

Deixemos as psicóticas então, e voltemos às normais. Essas, apesar de um pouco frustradas com o silêncio do cara, seguram a onda e chegam do trabalho no fim da tarde, tiram os sapatos, soltam os cabelos, vestem alguma coisa confortável e vão checar a secretária eletrônica. Tudo é possível, né? Vai que o cara preferiu ligar pra sua casa em vez do seu celular? Mas a secretária nada tem de interessante e mais uma vez elas se resignam: "amanhã ele liga".

No dia seguinte, acordam, escovam os dentes e novamente podem ser subdivididas: as pessimistas e as otimistas. Ou inseguras e seguras, use a nomenclatura que quiser. O fato é que as pessimistas pensam "ah, ele não vai ligar mesmo, esquece" e se entopem de comida pra compensar mais uma rejeição. Notem que as pessimistas são separadas das psicóticas por uma linha muito tênue, por vezes sequer identificável.

As seguras ou otimistas pensam: "é hoje!". Começam o dia com o humor impecável e tratam logo de se preparar para um possível novo encontro. Talvez façam as unhas, os cabelos, dêem aquela atualizada na depilação - uma mulher prevenida vale por duas! Passam o dia no maior pique, dando pulos quando soa a campainha do telefone, mas em vão, não é o cara do outro lado.

No fim da tarde estão positivamente mal humoradas e começam a pensar que o encontro não deve ter sido assim tão bom pra ele. Repassam tudo o que foi dito procurando alguma gafe, e nada. O papo foi muito agradável de fato. Rememoram todas as expressões do rosto dele, talvez ele tenha ficado entediado em algum momento. Nada, foi realmente tudo bem.

Nesse ponto elas novamente se subdividem entre normais e heroínas. As normais checam se o telefone está funcionando direito - geralmente está - e começam a imaginar todos os motivos possíveis pra ele não ter ligado: doença, atropelamento, amnésia, seqüestro, coma, morte, entre outras coisas razoáveis do gênero. Arrumam um pote de sorvete ou algo similar, sentam-se no sofá e assistem à televisão, vigiando disfarçadamente o telefone, como se o fato de saírem dali interferisse na probabilidade dele tocar.

As heroínas, essas respiram fundo, sorriem que nem artista de cinema e acreditam que ele ainda vai ligar. Afinal, o que são dois dias?

Observação: você conhece alguma assim? Então controle a gana de matá-la, pode ser muito prejudicial pra você, acredite. Pense que ela tem problemas cognitivos, ora bolas, por acaso é razoável esse comportamento? Claro que não! Isso deixe a raiva passar, fique com pena dela - tão iludida, coitada!

O fato é que as mulheres normais e reais se descabelam por causa do tal telefone e uma semana depois, quando o desgraçado finalmente liga, dividem-se de novo em duas categorias: as burras e as espertas. As burras soltam os cachorros no cara, exigem uma explicação para o fato de ele ter demorado uma semana - uma semana! - pra ligar, chamam de cafajeste e batem o telefone na cara dele.

Já as espertas... São absolutamente encantadoras, garantem que não tem o menor problema ele ter demorado a ligar, que não teve mesmo tempo pra nada durante essa semana - uma correria! - mas que soube de uma peça de teatro ótima em cartaz, de uma festa imperdível, de um show de música delicioso, e que tava pensando em ir... Ele estaria a fim? É claro, nos vemos mais tarde então.

Ah, as espertas... Essa é que se divertem de verdade!

 

Edição 33

Ditadura

por Lívia Santana.

Emiliano Di Cavalcanti - mulata com pássaro - arte sexualidade
Mulata com passaro por Emiliano Di Cavalcanti

Existe um mito não é de hoje de que mulher quando está deprimida vai às compras, estoura o limite do cartão de crédito e volta pra casa de alma lavada, até assoviando. (Ah, Deus, cada coisa que se tem que escutar!).

Devo admitir que a sensação de comprar um par de sandálias de salto alto acompanhadas de um belo vestido novo é muito boa, mas pára por aí. Comprar - nem mesmo pra quem é viciada nisso - não alivia nem resolve coisa nenhuma, ao contrário. Às vezes serve mesmo para acentuar ou deflagrar algum sentimento muito ruim, quem já sentiu na pele é que sabe.

Ontem, por exemplo, passei - de novo - por uma situação que nada tem de novidade e que a maioria das mulheres contemporâneas normais também passa sempre. Saí de casa com a minha mãe, ambas dispostas a comprar umas roupas e, no entanto, voltamos dali a algumas horas, deprimidas e de mãos vazias.

Não me refiro a falta de grana ou cartão de crédito recusado. Embora o dinheiro seja curto, não é o maior problema - brasileiro está mesmo acostumado a esticar o salário e dar um jeitinho.

O golpe maior acaba sendo na auto-estima, porque depois de experimentar a loja inteira, acabamos tendo que reconhecer que nada caiu bem e que é melhor tentar emagrecer um pouco antes de comprar qualquer coisa, mesmo que seja roupa íntima.

Levando em conta que o peso em questão é médio, entre sessenta e oitenta quilos, nem dá pra entender direito o que aconteceu, não é? Explico: as roupas à venda não são projetadas para mulheres normais e sim para adolescentes anoréxicas, modelos e atrizes globais, cujas medidas são irreais e resultado de verdadeiro jugo de magreza.

Ninguém que não viva em função do corpo pode se enquadrar nos padrões definidos pela moda atualmente. Para vestir o que é vendido em lojas comuns ou não se come ou não se sai da academia - que vida é essa?

E nem se trata de não reconhecer que o número da calça é 44 e não 40 - muitas lojas nem mesmo têm a numeração um pouco maior! Outro dia passei pelo constrangimento de tentar comprar uma saia numa famosa loja de departamentos e descobri que não existia uma que coubesse no meu quadril.

Agora me diga: no biótipo da mulher brasileira, predominantemente fruto de miscigenação de diversas etnias - principalmente a negra - é mais comum o quadril medindo 60 centímetros de circunferência ou 102 (que é o meu caso)?

Como se não fosse suficiente a exigência de um peso irreal, ainda existe a determinação de juventude eterna. O modelo de beleza veiculado pelos meios de comunicação denota que não existe espaço para a passagem do tempo, para rugas, para flacidez, nem para dignidade nos dias de hoje. De acordo com este modelo, a mulher deve ser magra e jovem, não importa a idade.

Eu, que tenho apenas vinte e dois anos, fico consternada com as opções disponíveis como sendo roupa normal, de andar na rua e não na passarela. Decotes profundos, tecidos transparentes, micro-saias, calças que mal cabem a bunda, brilhos, penduricalhos, rasgos e estampas com desenhos e palavras idiotas escritas em inglês. E tudo isso nos é apresentado como se fosse bonito, desejável e razoável. Absurdo.

Não é de admirar que estejamos presenciando o fenômeno das mães-adolescentes. Mulheres com quarenta, cinqüenta anos se vêem entre a cruz e a caldeirinha: só há extremos. Ou vestem as opções teen coloridas ou passam por beatas e velhas, o que é inconcebível. As mulheres têm sido levadas a acreditar que não podem se permitir envelhecer, devendo se vestir e agir como se tivessem eternamente vinte anos, o que lhes rouba a graça e a dignidade.

Não param por aí os constrangimentos a que as mulheres são submetidas a todo o momento. A mídia nos bombardeia incessantemente com idéias de inconformidade: não se pode estar satisfeita nem com o próprio peso, nem com o tamanho dos seios, nem com as linhas de expressão do rosto, nem com nada. Acho que nunca consegui mudar o canal da televisão sem passar por um em que não estivesse sendo vendido um aparelho milagroso de abdominal, um creme para celulite, uma cinta compressora para a barriga, um creme para rugas ou uma pílula qualquer que ajude no emagrecimento.

A sociedade está doente, algo está muito errado. Sinal claro disso é a proliferação das cirurgias plásticas no nariz, implante de silicone nos seios, lifting facial, peeling sei-lá-do-quê, lipoaspiração, modalidades de academias de ginástica, remédios para emagrecer e rejuvenescer, Herba Life, dieta In the Zone, dieta Ortomolecular, Renew, Chronos, iogurte Corpus, tintura de cabelo L'Oreal e tudo o mais que você já ouviu falar que sirva pra acompanhar o padrão de beleza atual.

Esta realidade não é saudável, é impossível ser feliz correndo atrás de um modelo de perfeição física irreal e perversa como o que temos. As mulheres brasileiras figuram nas estatísticas como sendo aquelas que menos estão satisfeitas com a própria aparência, mas este é um fenômeno mundial que não observa limites territoriais. Até em países como o Japão e a China, menos sujeitos à influência nefasta das idéias de beleza ocidentais, as mulheres sofrem e se torturam por causa da própria aparência.

Vivemos sob uma ditadura e muitas sequer se dão conta disso. Ah, como essa realidade me entristece! Qualquer dia desses fujo pro alto de alguma montanha e vou vestir um saco de estopa à luz da fogueira, me alimentando frugalmente. Quem sabe assim eu me livro desse inferno. Ou pelo menos, emagreço.

 

Edição 32

Um quase cinema com um "Macho Bronco"

por Lívia Santana.

 

Raisa Korotchenko - MACHO MACHO - arte sexualidade
MACHO - MACHO por Raisa Korotchenko (aquarela)

Segunda feira à tarde, toca o telefone:

- Lívia? Tá à toa? - abordagem típica do Sam.

- Claro que não. Desde quando eu sou à toa? - ainda não tinha engolido o episódio da entrevista da semana passada. Além de me fazer pagar uma cerveja pra ele ainda reclamou da marca, o miserável.

- Ih, mas você é chata, hein? - o tom de voz é inequívoco: ele está me gozando.

- Fala, truta, que cê quer? - ele costuma reagir melhor quando eu falo a língua dele.

- Quero te chamar pra ir ao cinema comigo. - ainda o tom risonho.

- Eu? Por quê? Pra quê? - me pegou de surpresa.

- Ué, num posso chamar minha amiga pra ir ao cinema comigo? - voz inocente. Ali tinha.

- Poder pode, mas não costuma. - agora eu resolvo aborrecê-lo.

- Hoje é segunda feira, mulher acompanhada não paga. Vamos lá. - ele insiste.

- Se é mulher que não paga, você paga do mesmo jeito. Pra que precisa de mim? - seguro o riso.

- Quer largar de ser mal educada? Tô te convidando, pô! - ele se impacienta.

- Eu aceito se me contar o porquê. - como geralmente é ele quem me irrita, estou adorando a inversão dos papéis.

- Por que o quê? - ele se faz de desentendido.

- Sam, você não precisa de mim pra ir ao cinema. Por que essa insistência?

- Ta bom, sua chata! Eu não gosto de ir ao cinema sozinho, tá feliz? - ele tenta me enganar e eu caio na risada.

- Mentiroso. Você só quer que eu vá ao cinema com você porque a Juliana ta viajando!

- Ta bom, eu confesso. Vamos? - ele se dá por vencido.

- E as cinco dúzias de mulheres disponíveis que você conhece? - só uma última alfinetada.

- Você ta careca de saber que se eu sair com alguma delas a Ju me capa! - ele perde a paciência, eu acho que está de bom tamanho.

- Vamos sim. Quer assistir o quê? - praticidade.

- Sei lá, o que tá passando? - mais uma vez típico dele.

- Vou entrar no site aqui pra ver, peraí. - pausa - Humm... Vamos ver... "Syriana"...

- Quêisso? - ele quer saber.

- Um filme que mistura terrorismo, política e disputa pelo petróleo no Oriente Médio... - ele me interrompe:

- Cê ta me achando com cara de que, Lívia? - debochado.

- Ué, qual o problema? - finjo que não sei a resposta.

- Se eu quiser saber dessas coisas eu assisto ao Jornal da Globo, pô!

- Arre... Ta bom, próximo... "Se Eu Fosse Você"...

- Fala de quê?

- É brasileiro... Glória Pires e Tony Ramos são casados, brigam e acabam trocando de lugar um com o outro...

- Tô fora. - taxativo.

- Por quê?

- Fala sério, cara! Acordar e descobrir que virou o homem-macaco? Tô fora mesmo! Tem mais o que?

- Ai ai ai... Tem "Palavras de Amor"...

- Só pelo nome dá pra ver que é filme de mulherzinha.

- ... "A Terra Encantada de Gaya"... - desisto de argumentar, vamos ver aonde chega.

- Que isso? Tipo "Senhor dos Anéis"? - ele se anima.

- Não... É animação tipo "Shrek"...

- Ah, não, desenho não!

- ... "Orgulho e Preconceito"...

- Pô, tá difícil, hein?

- ... "A Pantera Cor de Rosa"... Esse eu quero ver! - resolvo dar meu pitaco.

- Mais filme de mulherzinha!... - muxoxo.

- Não é filme de mulherzinha, seu burro, é uma comédia clássica! - eu me irrito.

- Não sei não, tem mais o que aí? - ele resiste.

- "Loucuras de Dick e Jane", mas eu já vi... "Johnny e June" e "Brokeback Mountain"… Esses são os aceitáveis, né?

- "Johnny e June" é biográfico, né? Num tenho paciência com filme desse tipo!

- Ai, Deus... Tem certeza que você quer ir ao cinema? - agora quem se exaspera sou eu.

- O que é esse Broke-sei-lá-o-quê?

- Um filme que eu to morrendo de vontade de ver! - me animo - É uma quebra de tabus, do ícone do cowboy americano, machão, herói... Os caras são apaixonados um pelo outro, do tipo de amor atormentado e...

- QUÊ? Filme de fruta? Ta DOIDA? - previsível.

- Não sei por que eu perco meu tempo com você, Sam. - decido não ir a lugar nenhum.

- Ah, pô, cê só pode ta de sacanagem comigo! Tem mais alguma coisa aí? Não é possível que só tem porcaria!...

- Ah, é, claro que tem... "A Caverna", um suspense de ação qualquer, e "Vovozona 2", essa merda que...

- Isso! Vovozona! - ele me interrompe, eufórico - Esse filme é dez! Resolvido, agora é só ver o horário e...

- TU TU TU TU... - alguém merece isso?

 

Edição 31

Macho Bronco

por Lívia Santana.

Como prometi na edição passada, fui à cata de um legítimo representante da classe dos Machos Broncos de Verdade e perguntei se ele me dava uma entrevista.

Raisa Korotchenko - MACHO MACHO - arte sexualidade
MACHO - MACHO por Raisa Korotchenko (aquarela)

Sam: Vê se eu tenho cara de quem dá alguma coisa, Lívia?

Engoli em seco pra não dar eu a resposta que o maldito, digo, respeitável entrevistado-objeto-de-pesquisa merecia. Depois de muita conversa fiada e a promessa de pagar uma cerveja pra ele no fim da entrevista, concordou em "ceder suas pérolas de sabedoria masculina" aos leitores do Géh.

Devo dizer que muito o influenciou o fato de ter-lhe mostrado a rica produção do Léh - O Marido Bronco da Géh (que você encontra na seção Arquivo), embora a conclusão do entrevistado tenha me surpreendido um pouco:

Sam: Fruta.

Lívia: Como assim?

Sam: Isso de ficar ensinando homem a pegar mulher é coisa de fruta. Perfuminho daqui, cantadinha de cá, clima é o cacete. Mulher é um bicho esquisito, mas não tem muito segredo pra lidar com elas.

Lívia: Então por que você acha que tem tanto cara por aí que não pega nem resfriado?

Sam: Não tem muito segredo pra quem tem um mínimo de inteligência, pô.

Lívia: Entendo. Acha então que existe fórmula pra lidar com mulher?

Sam: Existe sim. Claro que pra cada tipo tem uma estratégia diferente, mas se a gente pensar um pouco... - faz uma pausa - dá pra agrupar em quatro ou cinco tipos.

Lívia: Puxa, só isso? Eu jurava que a diversidade era maior!

Sam: Isso é disfarce. No fundo, elas são todas parecidas.

Lívia: Então me conta: que tipos são esses?

Sam: Tem a tímida-feiosa, que raramente é feia de verdade. Se você prestar atenção a maioria das mulheres é bonita ou pode ser bonita, basta saber olhar pra elas... A tímida feiosa geralmente se esconde atrás das coisas clássicas: óculos, aparelhos nos dentes, roupas esquisitas, amigos esquisitos. É sensível e carente, do tipo que basta dar um pouco de atenção pra ela abrir a guarda.

Lívia: Concordo, é possível encontrar beleza quase em qualquer lugar. Quais são os outros tipos?

Sam: Tem a gostosona-badalada. Esse é um tipo de mulher bem tratado, impecável, que a gente nunca vê sem maquiagem nem fora do salto. A unha tá sempre pintada, o cabelo chega a brilhar (não sei como essas diabas fazem isso!), onde entra chama a atenção de todo mundo. Ela sabe que é gostosa e sabe que todo mundo acha ela gostosa, por isso se dá ao luxo de escolher. Geralmente é um tipinho meio nojento, do tipo que costuma ser alvo de apostas, porque ficar com elas é um desafio. Mas a conquista é a parte mais interessante, porque em geral elas são meio cansativas.

Lívia: Ai, essa sinceridade é que me mata! (risada) Foram dois, e os outros?

Sam: Olha, vê se você entende uma coisa... - ele faz um gesto pensativo e eu resisto à vontade de acertar algo pesado na cabeça dele - O mundo tá muito doido, o comportamento das pessoas tá cada vez mais esquisito. Com isso, surge um novo tipo de mulher que, entre os caras, a gente chama de "jandira" ou "piriguete".

Lívia: QUÊ?

Sam: É, nunca ouviu falar? Explico. A jandira ou piriguete é a aspirante a gostosona, mas falta categoria e uma dose de chatice pra isso. Na verdade ela é a animação em pessoa e não faz doce - se ela te quer, ela quer e pronto. Ela tá em todas, que nem arroz de festa, independente de grana ou de convite, porque sempre tem alguém que "coloca ela pra dentro". É um tipo de mulher que não namora, mas tá sempre enrolada com alguém, que nunca carrega bolsa, mas nunca falta bebida na mão dela na festa.

(Meu espanto é imenso e ele me indica até comunidade no orkut sobre as tais piriguetes: http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=759410, que vou conferir e fico de queixo caído).

Lívia: Essa pra mim é novidade, juro. Falta mais algum tipo?

Sam: Falta, claro. As descoladas e as "pra casar".

Lívia: Humm... Quais são essas?

Sam: Mulher descolada é um tipo que dá dor de cabeça.

Lívia: Como assim? Achei que ser descolada era bom!

Sam: Pra elas é, mas pra gente é uma merda. Porque só se o cara for muito fodão (que nem eu) é que vai perceber quando a mulher descolada tá dando mole ou tá sendo só legal.

Lívia: (risada) Mas isso é muita incompetência!

Sam: Ainda bem que eu sei que você me conhece, senão ia achar que tava me chamando de incompetente.

Lívia: Claro que não. Afinal, você é fodão, né?

Sam: É, isso aí.

Lívia: Mas fala mais dessa mulher descolada.

Sam: Essa é a mulher legal, simpática e bonita. Ela é diferente da gostosona porque não é chata nem maravilhosa, geralmente nem é grandes belezas, mas não faz nem falta. E ela é diferente da piriguete porque é mais reservada e quase sempre mais inteligente.

Lívia: Parece-me o ideal... (risos)

Sam: Mais ou menos. A maioria dos caras não sabe lidar com a descolada, porque ela te encara de frente, não faz jogo e não aceita que mande nela. Tem opinião, fica brava, faz escândalo e volta a ser legal de novo. Se eu acreditasse nesse papo de amizade entre homem e mulher (rá rá rá) ela seria o tipo ideal, mas é um tipo raro, tem muita mulher aí que tenta se passar por descolada, mas na verdade não passa de uma tímida-feiosa disfarçada ou uma piriguete que tem vergonha de assumir.

Lívia: Puxa, nunca achei que fosse aprender tanto nessa entrevista! (risada) Mas ainda tá faltando um tipo, a de casar. Qual é?

Sam: Mulher pra casar é aquela que não chama a atenção que nem a gostosona, mas é uma gracinha. Ela te faz sentir culpado de olhar pra ela e pensar em sacanagem porque parece indefesa. Aquele tipo da princesa de contos de fadas, que dá vontade de mimar, de proteger. E é difícil pra caralho ficar com uma dessas, você tem que penar. E pra comer então, é ainda mais difícil.

Lívia: E se você chega a comer tem que casar... (risos)

Dou uma piscadela pra ele, que também ri, encabulado. Todo mundo tem suas fraquezas, até os machos broncos. Resolvemos continuar depois, em outras abordagens, confira nas próximas edições.

Sam, 24, é macho, meu amigo (mesmo que ele não acredite nisso, ao menos nunca tentou me comer) e estudante de Direito (tinha que ser!).

 

Edição 30

Homens e Namoradas

por Lívia Santana.

Ana Guerra - arte sexualidade
Tela por Ana Guerra

Homens são seres realmente interessantes. O que não significa nada, pois interessante é um típico adjetivo dúbio que tanto pode querer dizer que são seres dotados de características especiais e maravilhosas ou, o mais comum, que são uns escrotos.

(Atenção, este não é um manifesto feminista - longe de mim, sou avessa a qualquer radicalismo! É antes, a tentativa de elaborar um raciocínio razoável sobre algumas coisas que andei observando).

Homens - a maioria, salvo raríssimas exceções que felizmente tenho a honra de conhecer - têm para si diversos comportamentos e conceitos incríveis, entre os quais está o do que é "mulher de casar" e "mulher para diversão". Não tente negar, todo mundo, seja qual for o sexo, conhece essa história. Mesmo que não assuma em palavras, os atos falam por si sós. O que me espanta são a variedade e a irracionalidade de algumas idéias que ouço e de alguns comportamentos que observo.

Por exemplo, semana passada, encontrei um amigo de muitos anos na rua. Abraços, sorrisos, exclamações, e ele me diz: "Arrumei uma namorada, você precisa conhecer!" Arqueando levemente a sobrancelha, concordo que preciso mesmo conhecer a garota, afinal, durante todo este tempo - somos amigos de infância - só o vi com três garotas que mereceram o título de "namoradas".

Este meu amigo é do tipo boa pinta, falante, divertido, inteligente, com traços realmente bonitos. Se fosse um gentleman, seria quase o protótipo do príncipe encantado. Mas é um bronco. Aliás, prometo que o entrevisto qualquer dia desses, em homenagem ao nosso Léh. Vive rodeado de mulheres variadas. A agenda do celular é uma piada: tem pelo menos três espécimes de cada nome feminino, e os raros nomes masculinos são apelidos como Boi, Dedo ou Costela. Sai todo fim de semana, dança bem e se dá bem em todas as rodas. Conhece o tipo?

Voltando à vaca fria: marcamos um papo num barzinho pra dali uns dias, pra eu conhecer a namorada. Chegou trazendo a garota pela mão e não me surpreendi nem um pouco. Aliás, ela parecia um clone das outras duas. Branquinha, delicada, tímida, cabelo liso clarinho, bonitinha, uma gracinha. A típica. Pensei cá com os meus botões: "se ele tivesse perfil de serial killer eu poderia ficar preocupada!".

E de fato assim era. Sempre o vi cercado de mulheres as mais diferentes. Algumas realmente bonitas, outras um tanto vulgares, algumas simpáticas que poderiam ser minhas amigas. E ele sempre deu atenção a todas elas de forma igual, rindo, brincando, fazendo suas grosserias charmosas, usando-as e descartando algumas, outras, conservando pra quando fosse oportuno.

Mas, nas três vezes em que se dignou a namorar, foi atrás de "meninas direitas". Aquele tipo que o pai não deixa sair, que tem hora pra voltar pra casa, que cora, que nunca liga e espera ele ligar, que é virgem e demora um tempão pra resolver deixar de ser.

Eu fico pensando sobre isso. Se fosse uma questão de preconceito, de achar que não prestam mulheres que riem alto, que saem em turma de amigos, que vão a festas sem hora pra voltar, que ligam pro cara, que dão pra quem quiser, seriam outros quinhentos. Ele seria um imbecil. Mas ele vive acompanhado por essas mesmas garotas e se diverte muito em companhia delas. No entanto, quando resolve namorar, escolhe uma totalmente diferente delas - e dele também.

A explicação pra isso seria o pensamento esdrúxulo e subjacente na sociedade de que mulher pra firmar compromisso tem que ser "pra casar". Geralmente dócil, bonita, suave, prendada. Do tipo que faz jogo duro até conseguir o que quer. E do tipo que fica enjoada depois que casa, que implica com os amigos, com a pelada e com qualquer coisa que ela puder.

Agora me diz: isso faz algum sentido?

Os homens precisam perceber que:

1. Mulher não tem que ser virgem pra ser respeitável.

2. Namorada em cuja presença é preciso ser diferente do que se é com os amigos é a maior furada.

3. Mulher pra casar é aquela que entenda, que compartilhe dos seus gostos e saiba fazer companhia.

4. Essas mulheres que são usadas como mera diversão são tão merecedoras de amor quanto aquelas que se colocam em pedestais.

5. Idiotice não deve ser cultivada nem propagada.

6. Cabeça não é feita pra usar chapéu.

7. Respeito é sempre bom e todo mundo gosta.

Edição 29

HOJE SÓ AMANHÃ

"Um papo auto-reflexivo entre uma estranha e uma esquisita".

por Lívia Santana.

Anne Karin Glass - arte sexualidade

"Shy" por Anne Karin Glass

Acordei hoje e olhei-me no espelho. A imagem daquele jeito: cabelo ouriçado, a cara amassada, camiseta velha rasgada na manga e um ar de "quem sou eu, de onde vim, pra onde vou?". Era cedo, mas, por algum motivo, eu tinha caído da cama. E acho que ainda continuava dormindo, porque vi a minha imagem colocar as mãos na cintura, estreitar os olhos e me lançar aquele olhar "shame on you". Cruz credo. Tem dias que a consciência resolve ficar eloqüente demais. Até toma forma e entra no quarto da gente acendendo a luz e batendo a colher na panela. Já passou por isso? Você tá cansado, de saco cheio, macambúzio, emburrado, desanimado, preocupado com outras coisas e lá vem ela te cobrar coisas que você tá careca de saber que tem que fazer, mas que está deixando pro último minuto. Seja porque é difícil, porque está com preguiça, porque tem mania de deixar tudo pra última hora ou porque está de mau humor mesmo e pronto. Fecha os olhos, puxa o cobertor na cabeça, se esconde e torce pra nem ela - a consciência - nem ninguém te ver, pra ficar invisível. E quanto mais você se esforça pra passar despercebido, mais evidente fica.

- Lívia, sai já debaixo dessa cama!

- Hein? - "Droga! Como foi que ela me achou aqui?". Saio relutante, com o cabelo sujo de teia de aranha.

- Por acaso a senhorita já resolveu o que vai ser pra esse fim de semana?

- Fim de semana? - me faço de desentendida pra ver se ganho um tempo.

- Você não tem um compromisso importantíssimo pra essa sexta-feira?

- Compromisso? - coro. Ao menos vergonha eu tenho.

- É, lembra? Tem umas pessoas doidas que costumam ler as bobagens que você escreve...

- Está falando do Foro Íntimo? - Ainda me debato entre encarar a onça e sair correndo, pintar o cabelo de loiro e mudar de nome pra Cher.

- Isso mesmo. Por acaso você já decidiu o que vai ser dessa vez?

- Não - cara de cachorro que quebrou o vaso.

- Tá esperando o quê, fofa? - o tom dela é perigosamente suave.

- Não estou esperando nada, mas hoje ainda é terça-feira! - argumento fraco.

- E vai deixar pra sexta-feira de novo POR QUÊ? - ela começa a perder a fleuma.

- Não vou, prometo - tento despistá-la.

- Promete o escambau, tá pensando que eu não te conheço? - ela cresce alguns centímetros.

- ... - tem coisa pior que tentar convencer alguém que saiba direitinho o que passa pela sua cabeça?

- Vai já procurar um tema pra escrever! - ela chega a me apontar o dedo em riste. Desaforada. Quem ela pensa que é?

Mesmo assim, obedeço. Ao menos humildade pra reconhecer quando perdi eu tenho. Sento em frente ao computador e olho a tela em branco, o cursor piscando. Começo a devanear: posso falar sobre o que?

- Bem, o site é sobre sexualidade... - A consciência tenta ajudar.

- Mas o site não é apenas sexualidade... O Foro Íntimo, por exemplo, fala de tudo um pouco.

- Então... - ela se embanana toda.

- Viu, como não é fácil? - eu me comprazo da confusão dela. Guerra desigual essa, preciso aproveitar os poucos momentos em que estou em vantagem.

- Você quer ajuda ou não? - ela se faz de ofendida.

- Quero. - tenho que reconhecer, sou um traste.

- Você já falou sobre o que?

- Hum... Sobre alguns filmes, sobre a relação entre sexo e modo de pensar, sobre sentimentos e sensações, sobre relacionamentos de mentira... - eu tento me lembrar, sabendo que estou esquecendo de alguma coisa.

- E me diz aí, o que é que determina o que você vai escrever?

- Puxa, você só tá fazendo pergunta difícil hoje!

- Se você puder responder isso, fica mais fácil de escrever, oras!

- Bem, eu escrevo de acordo com o meu estado de espírito e respondendo a alguns estímulos externos que aparecem. Na semana passada, por exemplo, o assunto foi ditado por algo que observei em contraposição a idéias minhas...

- E hoje? Nada do que andou acontecendo te disse nada?

- Não. - faço uma careta.

- Então o que a gente faz?

- A gente? Agora por acaso você joga no meu time?

- Larga de ser criança, acha que eu te aborreço por quê?

Fico calada. É lógico que eu sei que ela só tá tentando ajudar, mas tenho que descontar a frustração desse branco criativo em alguém. Melhor que seja em mim mesma do que em outras pessoas. Penso mais um pouco e nada. Dou um suspiro exasperado.

- Ai, que mau humor!

- Talvez o problema seja esse. O que você está sentindo?

- Você pode ter razão. Estou triste, com uma sensação de vazio muito grande. Não dá pra criar nada assim.

- Isso é saudade?

- Acho que sim.

- Então escreve sobre isso!

- Que sugestãozinha vagabunda essa, hein? Todo mundo já escreveu sobre saudade, até o Miguel Falabella!

- Mas os temas de tudo sempre se repetem, sua burra, o que muda é o enfoque!

- E quem te disse que eu sei dar enfoque diferente pra saudade? Do mesmo jeito que todo mundo eu fico olhando pro vazio, suspirando, procurando alguma coisa que nunca está ali. Do mesmo jeito que todo mundo, tudo me deixa insatisfeita, não tenho vontade de conversar, fico tentando estender a mão e tocar em algo que está longe, mas que eu vejo porque está presente dentro da minha cabeça. Fico me perguntando o que estará fazendo, o que estará pensando, se estará bem. Que graça tem falar sobre isso?

- Pode até não ter muita graça, mas com certeza é algo que todo mundo passa, as pessoas podem se identificar.

- Ah, mas eu espero que ninguém que me leia esteja passando por isso... É muito ruim.

- E desde quando você rechaça falar de sofrimento simplesmente porque dói?

- Tem razão, geralmente eu prefiro falar sobre dor. Mas hoje não, me dá um tempo. Estou cansada, estou triste. Só quero voltar pra minha cama.

- E a coluna?

- Vou colocar uma placa dizendo "Fechado pra Balanço".

- Acha que a Géssica vai aceitar?

- Não sei. Tomara que sim.

 

Edição 28

Relacionamentos

por Lívia Santana.

Peter Mitchev - Couple - arte sexualidade

A Couple óleo sobre tela por Peter Mitchev

Andando pelo shopping outro dia, passei por um casal que aparentemente discutia. Ele tinha a aparência de quem é bem sucedido a ponto de se proporcionar pequenos caprichos, ainda que gastronômicos. Ela usava belas e caras roupas, embora tivesse um pouco de coisas demais penduradas nos pulsos, dedos, orelhas e pescoço. Discutiam. Digo isso porque ambos falavam e gesticulavam, mas ao me aproximar fiquei surpresa ao constatar que a mulher falava e falava, tentando convencê-lo de que estava certa sobre algum assunto confuso, enquanto ele dizia "Tá. Entendi. Tá. Pode parar. TÁ!", sinalizando impaciente com a mão que não queria mais ouvi-la.

A expressão de enfado do rosto do homem era gritante, e mesmo a mulher batia as pestanas com algum tédio, falando apenas por falar, sem demonstrar nenhuma paixão pelo ponto de vista que defendia.

Aquilo me intrigou a ponto de fazer algo inédito: segui os dois. Depois que passei por eles, dei meia volta e fui atrás, desejando observar como se comportavam depois do ocorrido. E não vi mais nada. Os dois seguiram calados pelos corredores, em passo distraído, porém rápido demais para quem apenas passeava. Por fim a mulher estacou em frente a uma vitrine que exibia móveis. Ela fez um comentário sobre como o sofá verde da esquerda combinava com não-sei-o-quê. Ele faltou bocejar. Olhou e disse: "É". E recomeçaram a andar, saíram por um corredor lateral e foram embora.

Eu fiquei ruminando sobre as cenas que presenciara. Caminhei lentamente, passando pelas vitrines sem nada ver na verdade, até que tocou o telefone: "Onde você está?". Indiquei o local, e logo aparecia um rapaz com um largo sorriso, vindo apressado em minha direção. Abraçou-me apertado e disse que tinha sentido saudades durante os sessenta minutos que tinha se ausentado. Contei a ele sobre o casal que eu tinha seguido e ele riu da minha esquisitice. Passeamos mais um pouco de mãos dadas, conversando e rindo de qualquer bobagem, enquanto eu pensava no contraste entre nós e o casal que tinha visto. Qual era a grande diferença? O tempo?

Uma amiga diz que começo de relacionamento nunca serve de parâmetro de comparação, que nada fica tão bem assim sempre - com o que eu concordo - mas vai ainda mais além. Segundo ela sequer o sentimento que nos move quando o namoro é recente é verdadeiro, porque não se ama alguém sem conhecê-lo realmente, o que não é possível antes de longos anos de convivência.

Este ponto de vista me soa exagerado e um tanto cético. Afirmar que o sentimento existente num relacionamento recente é inconsistente apenas porque ainda não foi posto à prova é no mínimo leviano. É claro que não há comparação entre um relacionamento de anos e um namoro de meses. O encantamento de um há muito se foi, enquanto o do outro resplandece. Entretanto, mesmo a paixão mais curta e impetuosa, certamente é real, não obstante não tenha nada a ver com até que a morte os separe. Cada relacionamento tem suas particularidades, não havendo mérito em se discutir qual é mais válido ou verdadeiro. Diferenças são algo a se reconhecer e se respeitar.

No entanto, percebi o que foi que me chocou no comportamento do casal que segui no shopping. A impaciência, a rudeza, o tédio, a insatisfação. Para haver relacionamento deve existir razões legítimas para tal, como amor, paixão, amizade. Deve haver gostos e idéias em comum, prazer na companhia e, sobretudo, admiração pelo par. E quando nada disso existe, ou mesmo quando nada mais sobra, qual o motivo do relacionamento seguir em frente?

Alguns alegariam os filhos, a comodidade, a conveniência financeira, a carência, o medo. Mas não me convence. Manter uma relação sem o mínimo de sentimento é o mesmo que tentar manter o telhado de uma casa em pé sem as paredes e as vigas. Sobre o que se sustenta um namoro ou um casamento em que ambos apenas se tolerem e não sintam nenhum prazer em estarem juntos? É um comportamento que só causa sofrimento. Não seria mais razoável reconhecer as falhas tanto de comportamento quanto da estrutura e procurar corrigir ou, sendo impossível isso, separarem-se e tentarem de novo?

Reconhecer o fim de uma relação não é o fim do mundo. A sensação de fracasso passa rapidamente, pode acreditar. Sempre é tempo para recomeçar e há grandes chances de que na próxima vez dê certo, desde que se aprenda com os erros. Pois do contrário é repetir o mesmo drama com elenco diferente.
Amor deve ser cultivado, sofrimento não. Lutar para resgatar o encanto ou partir pra outra? Isso apenas o sentimento de cada um pode determinar. O que você sente?

Edição 27

NAMORO NA INTERNET - Parte II

por Lívia Santana

Tela de Moritz - arte sexualidade
Tela de Moritz R.

Os sites de encontros estão cada vez mais populares, já se criou até um "protocolo de aproximação" e de convivência. Por outro lado, há os que simplesmente estão na rede, não procuram nada, mas as coisas acontecem. Um papo aqui, uma foto ali, trocam-se telefones. E, assim como na vida real, alguns relacionamentos dão certo, outros não. Quais as vantagens? Quais os problemas? E o preconceito? E o medo? As mentiras? A distância? Reunimos pessoas com variados tipos de experiências nesse campo para falar sobre o assunto.

Vana Bastos, 44 anos, casada.
Andréa Paes, 32 anos, divorciada.
Alex Dias, 29 anos, divorciado.
Lívia Santana, 22 anos, solteira.
Alexei Gonçalves, 38 anos, casado.

Lívia: Alex o seu contato com pessoas na internet é posterior ao seu descasamento?

Alex: Eu sempre tive relacionamentos sérios e duradouros. Antes de me casar, namorei uma garota por dois anos e meio. Já não gostava muito dela, empurrei a relação com a barriga por um tempo. Mas conheci uma garota no curso de inglês e fiquei alucinado por ela. Eu sempre me achei um cara ético, mas antes que me desse conta, já estava enrolando a minha namorada. Nunca tive a intenção de brincar com os sentimentos de ninguém. Mas devo reconhecer que nessa época eu agi assim.

Lívia: E como você terminou com a garota?

Alex: Não tinha coragem de falar pra ela o que estava acontecendo. Então acabamos terminando pelo telefone.

Vana: POR TELEFONE? Que ingrato!

Lívia: Também já terminei namoro pelo telefone. Mas melhor que a Vana que terminou por e-mail! (risada) Conta aí, foi com a garota do curso de inglês que você casou?

Alex: Foi sim. Acabava a aula e tudo era pretexto pra ficarmos sem rumo no caminho de volta. E por um bom tempo foi assim, não acontecia nada. Até que me enchi daquela situação e convidei-a a ir à praia, cheio de más intenções (risos). Fomos duas vezes e nada. Ela se esquivava de um jeito sutil

Vana: Ah! se fosse eu! Já tinha dado há muito tempo! (risada) Não custa nada, oras! Não gasta!

Alex: Mas num dia, ela me convidou para assistir a uma aula na faculdade com ela. Agora me imaginem numa aula de história. Porra, os sacrifícios que a gente não faz (risos). Eu só fui porque ela me disse: "na saída a gente vai para um barzinho e toma um chopp"... Acabou a aula, nós fomos e não teve jeito. A gente se beijou, eu estava louco por ela. O problema é que, no dia seguinte, tinha que encontrar a minha namorada. Fiquei mal, nem conseguia olhar pra ela. Depois disso é que acabamos terminando daquele jeito. Mas, o relevante mesmo é que, em pouco tempo eu estava morando com a garota do curso de inglês na casa dos pais dela. E foi a maior merda que eu já fiz...

Alexei: Levou você pro matadouro.

Alex: A vontade de ficar com ela era tão grande que eu voltei para a faculdade, arrumei um trabalho e pouco tempo depois noivamos e nos casamos. E era fiel, mesmo com a mulherada dando em cima. Mas tava tudo bem, eu gostava dela! O problema é que meu casamento foi ficando extremamente complicado. Não tínhamos maturidade pra seguir em frente.

Alexei: Pós-graduação em mineirice.

Lívia: (gargalhada) Alexei, seu sacana!

Alexei: Não esquenta, minha mãe é mineira. Meu pai tem história pra contar.

Lívia: (eu sei que a sua mãe é mineira, mas a observação não deixa de ser sacana... risos).

Alex: Então nos separamos. Isso foi pra situar, agora começo a responder o que você perguntou, Lívia. Comecei a sair com outras garotas, mas não foi logo após a separação. Fui devagar no começo, mas acabei conhecendo algumas mulheres. Mas algo natural, sem forçar nenhuma barra. Fiquei um bom tempo assim.

Lívia: Aliás, você não tá me dizendo o mais importante. Essas mulheres com as quais saiu, conheceu pela internet?

Alex: Algumas sim. Mas a meu ver, o mais importante é que em nenhum momento eu me cadastrei em sites de relacionamento. Tive até curiosidade, mas não fui em frente. Há um tempo eu nem cogitava isso, achava que era bobagem, mas conheci várias pessoas que, assim como a Vana e o Celso não só se conheceram como estabeleceram uma relação séria.

Lívia: Acho que você está quase tocando num ponto que eu pretendia abordar depois que todo mundo contasse suas histórias. O POR QUÊ. Por que sim e por que não se inscrever num site de relacionamentos, procurar alguém pela rede. Mas já que tocou no assunto, pode responder. Respondam todos, por favor.

Alex: Acho que qualquer site de relacionamentos (inclusive o orkut, que nem é estritamente para isso) pode ter a ver com o assunto. Mesmo que de uma forma diferente, não vem ao caso. Eu deixo acontecer e realmente, através da internet conhece-se muita gente, principalmente quando a conversa é sobre assuntos variados, como no Orkut ou Multiply.

Vana: Se fosse para encontrar o Celso eu faria tudo de novo!

Andréa: Eu me inscrevi pra conhecer pessoas. Afinal, existem sites de casamentos, achei que sites de relacionamentos poderiam ser para amigos. E descobri que não são.

Alexei: É difícil separar o joio do trigo quando está todo mundo fazendo pose para conquistar.

Lívia: (risada) Mas é sério, Vana, esquece o Celso por um segundo... Por que você entrou no site de encontros?

Alex: Os homens que são muito "legaizinhos" geralmente são personagens criados. Tenho o pé muito atrás com essa coisa de buscar uma pessoa clicando num botão. Confesso que sou cético nesse sentido. Sempre que vejo algo muito perfeito eu corro. Prefiro gente que se mostra como é, com defeitos e qualidades, mas de forma natural.

Vana: Pra conhecer um homem honesto, sincero, leal, carinhoso, divertido, trabalhador, bonito.

Lívia: Mas peraí, quais as probabilidades de isso acontecer, Vana? Mínimas, concorda? Tanto que eu, que tenho 22 anos, uso a internet desde os 19 apenas, e já conheci um monte de homem que não vale nada!

Alexei: Justamente por isso que, quando estava sozinho, não ia a boates. Bando de homem com barraca armada. É difícil distinguir o joio da jóia.

Vana: Você acha que eu fui boba? Se eu falasse dos meus defeitos não teria o Celso hoje! Defeitos se descobrem aos poucos.

Lívia: Vocês atentaram pra isso que foi dito agora? Vana disse que se mostrasse quem era realmente, não conseguiria o que mais queria: um companheiro. A diferença não está toda aí? No fato da VANA estar procurando alguém? Entre todos nós aqui, ela era a única. Andréa queria amigos, Alex não queria compromissos, o Alexei não estava caçando.

Alexei: Sim e não.

Lívia: Então conta pra mim como é que rolou entre você e a Géssica, Alexei.

Alexei: Olha... Tem uma longa história aí. Papo de velhinho na beira da lareira, pitando cachimbo. Primeiro: comecei tarde. Demorei a entender o que quer uma mulher. Quando entendi que não era para entender nada, a coisa começou a melhorar. Já estava na faculdade. Segundo: o que me interessa na mulher, como em qualquer outra pessoa, é o que ela tem dentro do crânio. Isso antes de ter Internet. Primeiro beijo na boca aos 18, primeira transa aos 19, descompromisso geral até os 22 mais ou menos, se não me falha a memória. Era péssimo acordar ao lado de uma "pessoa" e não saber nem o nome.

Lívia: Isso eu imagino que seja mesmo.

Alexei: Então, fui ficando seletivo. Era o emblemático diálogo de motel: três horas de sexo selvagem, a diária é de oito horas. Vai fazer o quê? Assistir ao Corujão? Tentar bater um papinho, lógico. Começa a passar o porre e você se pergunta: "como, eu vim parar ao lado desse estrupício"? E sabe que ela está se perguntando a mesma coisa.

Andréa: (gargalhada) Foi isso que evitei tanto!

Alexei: Quando somem os atrativos do corpo, do instinto, tem que ter alguma afinidade extra.

Lívia: E tem toda razão. Não vale a pena, nem pra um, nem pra outro.

Alexei: Bom, quando cheguei na Net, em 95, já tinha me descasado e estava namorando a mulher que seria minha segunda tentativa de casamento. Mas independente de qualquer coisa, minha abordagem não mudou. Queria conhecer GENTE. Coisa impossível de fazer em sala de chat, que parece mesa de bar com 30 pessoas todas gritando ao mesmo tempo. "Gente" independente de sexo - homem ou mulher.

Lívia: Este é o cerne, concordo. Não se conhece ninguém sem bater papo, conhecer as idéias, a forma de pensar. Acho que esta é a razão porque arrumo amigos muito melhores pela internet do que no real... (risos) Porque por mais que exista gente que faça gênero, as máscaras sempre caem, mais cedo ou mais tarde. Ninguém representa o tempo todo, e pelas idéias, dá pra saber quem é aquela pessoa muito bem.

Andréa: Posso ter segundas intenções, mas acho que um papo regado a chopp mostra muito da pessoa.

Alexei: ICQ era análogo a isso. Conheci muita gente legal. Pipocava na tela, afinidade, duas horas de papo. Sem afinidade, excluía o usuário. Procurava lugares onde podia interagir com calma, discutir assuntos variados. Grupos de psicologia, filosofia, polêmica, tudo. O equivalente atual das comunidades do Orkut. Você vai avaliando a pessoa pelas opiniões que expressa. Se pensa com os próprios neurônios ou se é um amontoado de frases-feitas. Naturalmente, a conversa passa para privativo: qual é o seu ICQ, MSN, telefone, etc. O legal é o seguinte: conhecer a mente antes do corpo.

Andréa: Isso aí! Primeiro, quando casada, conhecia pessoas que são amigos meus até hoje, por listas de discussão: fotografia, cinema.

Lívia: É exatamente o que acontece comigo!

Alexei: O tesão vem do conjunto. Não é só corpo bonito. Nunca dei bandeira de "ei, quero te comer". Rolavam altos papos, sobre tudo, de Freud a "como está o seu namorado"? Quer dizer, na Internet, não mudei. Eu já era assim antes.

Lívia: Agora você disse uma coisa muito importante. Se tem uma coisa que me irrita é cara achar que posa de sincero deixando claro que quer me comer.

Alexei: Outra coisa que levei da real para a Net: "você nunca vai saber se estou a fim de você até que eu saiba que você está a fim de mim".

Andréa: Hum... Lívia... É complicado isso que você disse.

Lívia: Por quê? (a tática é boa, Alexei... risos)

Andréa: Acho que falta completar: o cara que só quer te comer e não tá nem aí pro que você pensa, irrita. Porque o cara que se importa com o que você tem além da aparência também quer te comer. E também tem aqueles que querem uma namorada, mas acham que você só quer cama e insinuam que querem te comer, pra chegar até você.

Alex: Só um comentário... Acho visível que muitas pessoas adoram blefar.

Alexei: Mostro quem eu sou. Você mostra quem você é. Pingue-pongue. Um pouco de cada vez. Isso mesmo Andréa. Comer por comer, é só ir "na zona". Nunca paguei por sexo, por isso nunca me cadastrei em site pago de relacionamento.

Lívia: Alex, o que quer dizer com blefe?

Alex: Acho que as pessoas no "virtual" blefam no sentido de jogar, dissimular muito mais do que no plano real, entende?

Alexei: A máscara cai, Alex. Não sustenta por tempo suficiente.

Lívia: Cai sim.

Andréa: Eu acho sexo importantíssimo. Homens têm o direito de saber que a mulher é boa de cama, assim, como a mulher quer saber também. Pense o seguinte: você gostou do cara. Envolveu-se. Duas semanas saindo. Vai pra cama e é uma merda! Da segunda vez, uma merda de novo! E aí, o que você faz? Você ficaria puta da vida se um cara que se diz apaixonado por você fosse pra cama contigo, não gostasse e então terminasse tudo alegando a tal "falta de química"!

Lívia: Deixa eu te dizer uma coisa muito importante: até hoje, o cara podia ser uma porcaria na cama que, se eu estivesse apaixonada, não contava. Podia contar depois de uns seis meses, quando esfriava a paixão, mas na hora que eu fazia a descoberta, nunca importou de verdade, mesmo achando sexo bastante importante também.

Alex: O problema não é apenas a máscara cair. Está cheio de casos por aí de pessoas que foram ludibriadas por "profissionais" de sites de relacionamento.

Alexei: Mas você só acha quando não está procurando. E tem que observar.

Lívia: Mas isso aí fica numa porcentagem abaixo de um, Alex. Atualmente o ceticismo tá espalhado, principalmente na internet.

Andréa: É verdade, Alex! Existe gente especializada neste tipo de ataque!

Lívia: Se o cara é "profissional" é perito em enganar, certo?

Alexei: E tem os otários profissionais também. Eles sabem a quem enganar. Vigarista profissional escolhe a vítima com cuidado.

Lívia: (risos) Isso tem mesmo. Mas vamos prosseguir Alexei. Você dizia que não entrou em site de relacionamento, mas conhecia muita gente pelo ICQ e similares, certo?

Alexei: Certo. Talvez tenha ficado perdido no meio da discussão um ponto que acho importante ressaltar: nunca paguei por sexo. Nunca paguei uma prostituta para transar comigo. Para mim, um "site pago de relacionamentos" é mais ou menos a mesma coisa que um bordel: você paga por sexo. Só que os bordéis são mais honestos: você paga, você transa. Enquanto, nesses sites, você paga pela remota probabilidade de que, quem sabe, talvez você encontre alguém a fim de transar com você.

Lívia: Entendi e de certa forma, você tem razão.

Alexei: Outra idéia que vale desenvolver: você só acha o que não está procurando. Isso vale para o real e para o virtual. Se você tem uma idéia predefinida, acaba deixando passar boas oportunidades de conhecer pessoas legais, porque está com uma idéia fixa.

Lívia: Realmente, é aquele princípio de só chove na sua horta quando não se quer relacionamento nenhum... (risos) É o que mais acontece comigo.

Alexei: Os encontros que tive pela internet surgiram via troca de idéias. Em grupos de discussão, em papos despretensiosos via ICQ. Mais recentemente, em comunidades do Orkut e no Multiply. Essa história de máscaras. Sempre fiquei ligado no que as pessoas escreviam e em como escreviam. Uma conseqüência de ser bom ouvinte na vida real. Se a pessoa é interessante, diz coisas interessantes - ao vivo ou à distância.

Lívia: Pensamos muito parecido nesse sentido. É o que eu disse sobre ser mais importante conhecer as idéias de quem se pretende conhecer.

Alexei: Conseqüência desse interesse real no que as pessoas têm a dizer, interesse que ficava explícito no meu jeito de responder e-mails por exemplo - frase por frase - ou ouvindo atentamente e, em seguida, comentando o que a pessoa disse, fazendo perguntas, é o interesse (ou desinteresse) pela pessoa. Quando sentia-me à vontade com uma mulher, sentia que ela estava á vontade comigo, era comum que eu começasse a erotizar a conversa, incluindo piadas, histórias, etc, no meio do papo. Nunca houve rejeição por aí: estávamos à vontade, entre amigos íntimos, podíamos falar umas sacanagens e rir disso à vontade.

Lívia: Sei perfeitamente como é, pra mim é a melhor forma.

Alexei: Muitas relações não passaram daí, fosse porque eu estava casado - sou fiel quando o casamento não está em algum tipo de crise grave - fosse por falta de mobilidade. Descobri que as mulheres mais interessantes do Brasil não moram no Rio de Janeiro.

Lívia: (risada) Essas conclusões parecem inevitáveis... Mas me ocorreu a respeito o seguinte: talvez achemos mais interessantes pessoas de outros lugares porque têm uma visão de mundo diferente da que estamos acostumados. No meu caso, por exemplo, são raras as pessoas que moram na minha cidade que me interessam ou interessariam, pelo jeito que sei que vivem e pelas idéias a que sei que estão expostas diariamente.

Alexei: Você pode ter razão. Fui a São Paulo em duas ocasiões. Na primeira vez, saí com algumas pessoas que conheci em grupos de discussão. Foi estranho. Ver em carne e osso pessoas que você conhece melhor do que seu melhor amigo, que sabem mais da sua vida do que as pessoas com quem você convive diariamente. De repente, não são mais letrinhas na tela: têm rosto, corpo, cabelo, cheiro... Já no Orkut, já morando fora de casa e em processo de separação judicial, conheci a F. Namoramos por algum tempo, mas não dava para ir adiante. Eu estava horrivelmente doente, com depressão e síndrome de pânico. Não tinha muita coisa boa para dar. Terminando com a F., apaixonei-me pela M., que conheci no Multiply. Foi paixão mesmo, amor legítimo. Quando ela voltou para o Estado de origem (estava no Rio de passagem), marquei uma viagem para lá. Foi tudo ótimo, maravilhoso. Eu ainda me recuperando da depressão. Eu precisava de alguém que me carregasse no colo e estávamos separados por alguns milhares de quilômetros.

Lívia: E onde a Géssica entra na história? (risos)

Alexei: É preciso voltar um pouco no tempo, pois a palavra certa para explicar nosso amor é "Acidente". Entrei para o Orkut logo no início de uma comunidade chamada "Homembom.com", uma espécie de "single's bar" virtual. Era uma pândega. Marcou-se o primeiro encontro da comunidade em São Paulo, fui até lá. Acho que causei uma boa impressão no pessoal. Logo em seguida, descobri o Multiply e saí do Orkut. Mas o pessoal de lá vivia me chamando de volta. Depois de alguns meses, achei que estava sendo antipático e voltei por um breve período. Mal voltei, apareceu no meu escrepe uma certa Géssica me perguntando se eu existia mesmo e não era só "uma lenda". Adicionei-a aos contatos, de vez em quando acontecia de postarmos alguma besteira no mesmo thread, mas não saía disso.

Lívia: Sair do Orkut é algo natural, né? (risos) Continue...

Alexei: Saí do Orkut novamente. Mas enviei convite para todos os meus contatos do Orkut, inclusive a Géssica. Ela criou seu site de poesias e fotos eróticas no Multiply. Gostei do trabalho dela. Como com tanta gente, adicionamo-nos ao MSN, batíamos papo até alta madrugada, sem maiores pretensões. Ainda dentro do Multiply, inventei uma moda de projeto cultural, um portal de cultura. Convidei várias pessoas, a Géssica para a seção de sexualidade e erotismo. De todo mundo, a que mostrou maior afinidade profissional comigo foi a Géssica. O projeto do portal implodiu. Começamos a conversar sobre fazer um site só dela, de sexualidade e erotismo, colocando em prática o seu projeto editorial.

Lívia: Eu já visitei a página desse projeto, pareceu bem interessante. Lembro-me até que desejei participar, mas na época nosso contato era muito superficial. Continue.

Alexei: Bom, ela falava em fazer mestrado e mudar-se para Florianópolis. Agora veja: eu estava morando sozinho e sou professor universitário. Além do mais, o Rio tem mais bibliotecas, centros culturais, museus, livrarias... Com esse objetivo de estudar, já que era para sair de Joinville, que fosse para São Paulo ou viesse para o Rio. Se viesse para cá, seria legal ter alguém para rachar espaço e despesas. E cada um poderia ter sua vida independente do outro, inclusive com chaves separadas para cada porta. Só que ela chegou aqui e, depois de 9 horas de papo, ficamos. Foi o Céu e o Inferno ao mesmo tempo. Afinal, acabávamos de nos conhecer realmente, pela primeira vez houve atração real. Quanto tempo duraria? Era algo passageiro ou sério? Cinco dias de indecisão, eu abri o cofre do peito e disse que a amava. E ela também, pouco depois, derreteu-se.

Lívia: Eu me lembro dessa época, foi mais ou menos quando nos conhecemos melhor. E vocês me convidaram para madrinha da união (risos). Eu juro que achei que era brincadeira naquele dia. Mas não deixa eu te interromper, continue.

Alexei: O que aconteceu é que, poucos dias antes de Géssica chegar ao Rio, eu havia parado de consumir antidepressivos. Eu não tinha muito para dar em meus namoros anteriores. Sinto-me culpado por isso, porque, antes da Géssica. eu tive relações desequilibradas, em que eu recebi mais do que tinha para oferecer. Só quando a conheci é que estava pronto para uma relação equilibrada, meio a meio.

Lívia: Que legal. Eu realmente acho a relação de vocês muito linda. É mais que amor, é parceria, como a Vana e o Celso, eu acho. Espero ter isso pra mim também um dia.

Alexei: Bem, se o tema do debate é "casais que se conheceram pela Internet", para encerrar, acho importante dizer que não vivenciei grandes diferenças entre as mídias que usei para conhecer as pessoas. A diferença sempre esteve nas pessoas envolvidas, cada uma completamente diferente da outra. Incluindo-se, aí, eu mesmo, em diferentes fases, mudando, continuando, amadurecendo, rejuvenescendo, doente ou sadio, deprimido ou feliz, endividado ou financeiramente equilibrado.

Lívia: Obrigada, Alexei. Muito legal a sua história, assim como a de todo mundo, cada uma a seu modo. Interessante como a internet abriga pessoas tão diferentes como as presentes nesse papo. Agora, pra encerrar, acho que falta eu contar a minha experiência, né?

Bem... Resumindo muito, eu nunca procurei por ninguém na internet, não me inscrevi em nenhum site de encontros e devo dizer que todos os homens que conheci pela internet e com os quais me relacionei foram acidentes. Conheci muitas pessoas pela rede e a minha intenção no geral é sempre fazer amigos e trocar idéias com gente que tenha conteúdo. Se algumas vezes evoluiu pra alguma coisa, são casos à parte.

O primeiro, foi há uns dois anos, nos cruzamos pelo diretório do MSN que tem os usuários cadastrados. Conversamos muito, todos os dias e acabamos nos apaixonando seriamente. Tanto que um dia joguei umas roupas numa mochila e toquei pra BH pra encontrá-lo. Ficamos juntos por um fim de semana e foi muito bom. Mas não deu certo por "n" motivos e acabamos nos separando, contra a minha vontade.

Fiquei bem chateada durante algum tempo e acabei conhecendo um outro cara, esse de Goiânia, numa conferência também no MSN, apresentado por um amigo comum. Batemos papo por uns dois meses e nos conhecemos pessoalmente, a paixão era fulminante. Ele falava em casar e coisas do tipo, mas, depois de uns seis meses também não deu certo, em parte por causa dos ciúmes dele, que não lidava bem com o fato de eu ter uma vida na minha cidade, anterior a ele.

Foi quando entrei no Multiply e conheci um grupo novo de pessoas, algumas das quais são amigas reais hoje. Entre elas, um cara procurou estreitar o relacionamento, embora eu relutasse bastante - não estava disposta a ter mais nada com ninguém saído da internet, já estava me aborrecendo aquela sucessão. Com o tempo, acabei cedendo e namoramos durante um ano, em que ele queria compromisso sério e eu não estava muito disposta. Acabamos, por diversas razões e, novamente, jurei pra mim mesma que ia ficar sozinha por um bom tempo, até porque a minha cabeça não estava legal depois deste último relacionamento.

Só que agora eu conheci outro cara, ironicamente pela internet. Mas não teria gostado dele se o nosso contato tivesse sido principalmente pela internet como os outros. Depois que conheci pessoalmente, observei, e constatei um monte de coisas, me vi encantada por ele. Não estou me referindo a aparência ou a atração física e, sim, a admiração por qualidades que não seriam possíveis perceber pela internet. Completaremos um mês no dia vinte. (risos). E devo dizer que estou bastante feliz. Ainda é cedo pra dizer alguma coisa, estamos apenas começando, mas é tudo muito diferente das outras vezes. E tenho a sensação que vai dar certo, porque achei um parceiro, que nem o Celso é pra Vana, que nem o Rodrigo é pra Andréa, que nem a Géssica é pro Alexei.

Edição 26

NAMORO NA INTERNET

por Lívia Santana

Tela de Moritz - arte sexualidade

Tela de Moritz R.

"Vejo a tua imagem
pelas lentes da "web cam"
o teu riso me encanta
e teus olhos parecem dizer
que me amas...
são apenas impressões
que se perdem na distância
mas que tocam o coração
e eu guardo em "print screen"
o teu retrato
e me perco em devaneios
no anseio
de chegar o novo encontro
em que mais uma vez
eu te verei
pelas lentes da "web cam"
te achando e te perdendo
na distância
na ânsia
de um dia me encontrar
para sempre
em teus braços"

Ariadna Garibaldi

Os sites de encontros estão cada vez mais populares, já se criou até um "protocolo de aproximação" e de convivência. Por outro lado, há os que simplesmente estão na rede, não procuram nada, mas as coisas acontecem. Um papo aqui, uma foto ali, trocam-se telefones. E, assim como na vida real, alguns relacionamentos dão certo, outros não. Quais as vantagens? Quais os problemas? E o preconceito? E o medo? As mentiras? A distância? Reunimos pessoas com variados tipos de experiências nesse campo para falar sobre o assunto.

Vana Bastos, 44 anos, casada.
Andréa Paes, 32 anos, divorciada.
Alex Dias, 29 anos, divorciado.
Lívia Santana, 22 anos, solteira.
Alexei Gonçalves, 38 anos, casado.

Vana: Há cinco anos, terminei um namoro com um advogado depois de oito meses. O rapaz não queria compromisso e eu já estava ficando velha. Então, terminei com ele por e-mail.

Lívia: Mas esse era um relacionamento oriundo do plano real?

Vana: Não. Eu o conheci no Site Almas Gêmeas, procurando por um homem na faixa de 38 a 40 anos que morasse em Niterói. Quando terminamos, inscrevi-me novamente no mesmo site.

Andréa: Eu também me inscrevi lá!

Vana: Preparei um perfil bem legal pra mim e meu apelido era Isadora. O mesmo nome da cachorrinha "poodle-toy" do tal advogado!

Alex: Vana, o perfil usado era de fato a seu respeito ou "criou um personagem"?

Vana: Bem tudo o que escrevi sobre mim era real. Eu disse que tinha quase 40 anos, 1,56m, 50 kg., cabelos curtos louros, tinha uma filha e uma neta, trabalhava em uma empresa offshore, estudava, etc. E coloquei exatamente o que estava procurando: um homem que fosse fiel, trabalhador, amigo, divertido, sincero, honesto, leal, e bonito! No mesmo dia eu recebi um monte de respostas de alguns pretendentes... (risos). Um pior do que o outro! Os homens erram muito quando escrevem. Eu não aceito erros de português.

Andréa: Alex, eu sempre fui sincera em sites de relacionamento, até porque não sou muito criativa. (risos). Vana, eu também odeio erros de português.

Vana: Bem, o Celso - meu marido atual - me mandou um e-mail muito legal e sem nenhum errinho sequer! Adorei! Isso foi no dia 07/8 e, no dia 09, começamos a namorar! Ele aceitou o meu convite pra ir a um churrasco na academia da minha prima. Ele morava em Teresópolis, um pouquinho distante da casa da minha mãe. Chegando lá, fomos ao churrasco e depois fomos tomar um chopp. Aí, como já passava da meia-noite e resolvi convidá-lo a ficar lá em casa.

Lívia: A mulher foi diretíssima!

Andréa: Não achou rápido demais, Vana? Um e-mail e já se encontraram?

Vana: Ele não quis, é claro! Mas me levou pro motel. Ou fui eu que o levei? (risada)

Lívia: (risada)... Também tenho as minhas dúvidas!

Vana: Namoramos mais nove meses. E ele veio morar comigo na casa da minha mãe. Moramos por lá durante seis meses e conseguimos comprar nosso apartamento!

Lívia: Por que foi tão rápido assim? Acha que foi porque você sabia bem o que queria? Ou as afinidades entre vocês foram gritantes?

Vana: Você acha que eu iria deixar esse menino escapar? As afinidades eram muitas, Lívia! E o Celso é determinado como eu. Quando queremos nós conseguimos!

Lívia: Que legal! E ele não se sentiu pressionado pela sua determinação? Ele também estava procurando um compromisso? Talvez nem todo mundo nesses sites de encontros queira a mesma coisa, né? Houve coincidência de intenções no caso de vocês?

Vana: Acho que não. Sonhávamos juntos! Mas não! O Celso tinha acabado de sair de um relacionamento traumatizante. Não estava procurando compromisso nenhum. A princípio ele queria só namorar. Mas eu queria mais!

Lívia: Ah, é? Então você catou o homem pelo colarinho? (risos)

Andréa: Tá bom, já tem um tempinho e você nem se arrepende, mas... Foi o primeiro da internet que saiu e "pimba"? Nossa, mesmo sendo romântica, tô boba! Quando eu contar a minha história vai parecer um saco pra vocês! (risada)

Alex: Só um aparte: em geral as mulheres querem mais compromisso do que os homens. Talvez até pela própria cultura. Há muita pressão em cima dela, família, sociedade, mas principalmente elas mesmas!

Vana: É normal.

Lívia: Não acho normal não, aliás, nem acho que se possa dizer isso, porque depende muito das necessidades de cada um e da faixa etária, principalmente. No meu último namoro, por exemplo, o cara queria casar de todo jeito, e eu estava fugindo que nem aquela gata do desenho animado que corre do gambá Pepe LeBon.

Andréa: Vana, quanto tempo entre o primeiro encontro e a decisão de morar juntos?

Vana: Nove meses! A gente se conheceu em agosto de 2001 e ele veio pra São Gonçalo em maio de 2002. Em novembro de 2002, eu já assinava a escritura do nosso apartamento! Quando chegamos aqui, no dia 29 de novembro de 2002, só tínhamos uma cama, uma TV e o computador do Celso. Em dois dias compramos os móveis, eletrodomésticos e fomos ao Carrefour comprar pratos, talheres, copos, panelas, etc.

Lívia: Puxa, a sensação deve ser incrível! Começar tudo assim, do zero!

Andréa: Vana, não achou muito precipitado na época?

Vana: Não. Sempre soube o que queria. E não me arrependo de nada!

Andréa: Mas o que você sentia em relação a ele? Foi de cara era o que você esperava de alguém? Era o que você sonhou? Foi surpreendente?

Lívia: Você não teve medo? Você mal o conhecia, né? É, Andréa, boa pergunta... Olhou pra ele e se apaixonou, Vana?

Vana: Celso foi um presente que ganhei de Papai do Céu. A pessoa que eu sonhei durante toda a minha vida! O olhar do Celso sempre me pareceu muito sincero! E vamos pra cinco anos de relacionamento!

Lívia: Que legal, Vana, e continuam apaixonados, né?

Vana: Esqueci de contar que quando nos conhecemos ele era jornalista num jornal lá em Teresópolis e trabalhava também como radialista, fazia páginas de internet, ou seja, era webdesigner e dava aulas de informática. Ele largou tudo pra vir ficar comigo! O sonho dele era ser foto-jornalista e ter uma agência de foto-jornalismo. Compramos o equipamento profissional de fotografia, um laptop e abrimos uma empresa. Hoje além de cobrirmos futebol e outros esportes, moda e famosos, nosso principal cliente é o TERRA, que foi onde nos encontramos!

Lívia: Você acabou representando "A virada" pra ele, né? Além de um casamento, uma casa, uma vida, tudo novo, ele ainda deu o pontapé inicial no sonho. Parabéns pra vocês! Agora, Andréa, conta você. Como foi que se inscreveu no site de relacionamentos? Foi logo depois de se separar do Marcelo?

Andréa: Me afastei dos amigos, que ficaram sem saber com quem sair à noite: comigo ou com o Marcelo. (risos) Fui entrando em comunidades e sites de relacionamentos para conhecer gente. Não pensava em namoro, só em conhecer gente. Gente nova, novas idéias, lugares. Mas me surpreendi com o comportamento da galera. Porque os meninos só queriam cama e vinham assim, na lata: "Oi, tá a fim? Quer sair"? Sem essa de conversas. Eram diretos: sair, chopp, cama. E aí, vê se engrena! Um horror! Nem preciso dizer que bloqueava o maldito logo de cara, né?

Lívia: Um horror mesmo, cadê A CÔRTE? (risos)

Andréa: Isso acontecia nas comunidades dos sites como o Orkut, por exemplo! Não tinha entrado ainda em sites de relacionamentos propriamente ditos. Nos chats, como o do UOL, era pior ainda! Horrível! Chats são pra marcar transas! Nunca mais voltei! Aí, lembrei do Almas Gêmeas - o primeiro site de relacionamentos que tinha entrado, quando nem era do Terra ainda. Mas não gostei do que vi por lá. Conheci o Superencontros. Lá, os rapazes eram mais calminhos, cada gatinho lindo que nem queria papo porque podia escolher. E outros feios e cheios de mérito, mas nada interessantes. E tinham os interessantes, que batiam papo, trocavam e-mails e tal. Mas eu tive medo de sair com eles.

Lívia: Por quê? Medo do tal "psicopata" da internet?

Andréa: Muitos me convidaram, de vários lugares. É! Tenho medo de multidão e de homens. Coisa que meu pai me enfiou na cabeça... (risos)

Alexei: Homem morde. Mulher também.

Lívia: Entendi. E concordo... GENTE morde independente do sexo.

Andréa: Esqueci de dizer que só tive um namorado, com o qual casei e tive dois filhos. Isso muda muita coisa. Eu só queria conhecer gente nova. Sair com um cara que nunca vi era coisa de outro mundo pra mim. Foi fogo! Não lembro qual eu conheci primeiro. Mas cheguei a conhecer sim. Teve gente de outros Estados que veio me conhecer. Tomávamos um chopp e tchau! Ficamos só de papo no MSN. E eu dava um não enorme! Chegava a parecer aquelas beatas idosas que nunca souberam o que é homem! (risos). O engraçado é que meu comportamento não era assim. Eu era muito natural, como sou com vocês. Mas minha cabeça era uma coisa! Os caras até achavam que eu queria algo, o que não era verdade. Era difícil fazer entender que não estava disposta.

Vana: Tadinha, nem eu que sou mais velha fui assim! Eu era da pá virada! (risos)

Alexei: Travada, né?

Andréa: Não é travada. Apenas não queria nada com eles. Alguns por medo, outros porque não queria e pronto.

Lívia: É difícil fazer um homem entender que uma mulher jovem, desimpedida, bonita e inteligente não quer ir pra cama com o mundo inteiro.

Alexei: Engraçado. Pra mim sempre foi difícil entender se queria alguma coisa.

Lívia: Alexei, você é um caso tão à parte... Andréa, mas por que isso? Será que era ranço do casamento fracassado?

Andréa: Não era não, Lívia. É só que achei a linguagem deles muito diferente da que eu queria, da que estava acostumada.

Lívia: Fala de REAL X VIRTUAL?

Andréa: Esperavam que eu agisse como as meninas que saem para a balada, olham, piscam e já podem chegar atacando. Isso não digo por preconceito, mas alguns me contavam isso.

Lívia: Esperavam que você se comportasse como se estivesse numa festa, só porque era o virtual e não o real? Como se dali pudesse sair todo o tipo de coisa inconseqüente com muito mais facilidade do que na vida real?

Andréa: Também. Achavam que, só porque fui simpática online e aceitei um chopp, que eu me lançaria em seus braços e diria: me leve pro seu apê! Então, era aquele chopp/cinema, onde eu agia como amiga e eles me comiam com os olhos. Depois, no telefone ou no MSN, me diziam que esperavam que eu quisesse ficar com eles.

Lívia: A Internet sofre da pecha de lugar de arranjar transa. Como se ninguém perdesse tempo conversando com o outro por um teclado sem interesses secundários

Andréa: Houve também os que quisessem compromisso! Aí é que não me interessava mesmo. Primeiro porque sou exigente...

Lívia: Ah, é? Chegaram a te propor casamento, como foi comigo?

Andréa: Mais ou menos (risos)... Um vice-prefeito, que alegou não ter tempo pra sair com qualquer uma, me propôs só sairmos se eu já fosse namorada.

Lívia: (risada)... Essa é inusitada! Aonde você conheceu esse?

Alexei: No "Escrotos Online".

Vana: Que cara-de-pau!

Andréa: Acho que no Par Perfeito...

Lívia: (gargalhada) Este site deveria ser criado, com certeza, Alexei!

Andréa: Era uma gracinha, mas fazer o que, né? Até pensei no caso, mas depois. Sei lá, achei esquisito! (risos)

Vana: Você mostrava sua foto?

Andréa: Mostrava, sempre. Mas fotos pequenas e não enviava nenhuma.

Lívia: E tem toda razão. Esse negócio de encostar o outro na parede não presta.

Vana: Eu não mostrava não. Pra que eu iria espantar o povo? (risos). Mas a Andréa é uma mulher bonita, é perigoso!

Andréa: Bem... Por fim, conheci uns 10 pessoalmente.

Lívia: Conheceu uns dez a título de AMIGO?

Andréa: Não. Pra ver como era, só. Não chegaram a ser amigos.

Lívia: Saiu e não rolou nada? Só choppinho e cinema?

Andréa: Sim. Saí e não rolaram nem uns beijinhos.

Lívia: Alexei, as duas chegaram a se inscrever num site de relacionamentos como o Par Perfeito e o Almas Gêmeas. Você, ao que me consta, nunca se inscreveu.

Alexei: Até entrei no Par Perfeito, por insistência de um amigo que não comia ninguém. Achei uma merda, saí correndo de lá.

Andréa: Alexei tem razão, é uma merda mesmo! Gostava mais do Superencontros!

Lívia: Uma merda por falta ou excesso de Ibope, Alexei? (risos)

Alexei: Superficialidades. Epidérmico. Orkutiano.

Lívia: (risos)... Entendi. Andréa, o Rodrigo veio logo depois disso?

Andréa: Antes veio o André. Tínhamos afinidades por cinema, livros, músicas, etc. Conheci no Superencontros, mas ele também era do Par Perfeito. No primeiro encontro, fomos ao cinema debaixo de chuva. Ele, do Rio, veio até Niterói. Um doce de criatura. Educadíssimo (até demais). Encontrei nele um amigo, mas a gente se falava direto por telefone e MSN. Trocávamos músicas, filmes, nos dávamos boa noite com torpedos no celular. Depois, cinema de novo (somos cinéfilos!) e nem assim, nada de carinhos, olhares e, muito menos, beijos. Nada, só amigos. Depois, um passeio por Teresópolis e nada. Mais duas sessões de cinema, e nada.

Vana: Era gay, Andréa?

Lívia: Não necessariamente, Vana, podia ser tímido.

Alexei: Era não. Era esperto. Já saquei a tática dele.

Andréa: E, finalmente, rolou, quando fomos assistir a (olha a ironia!) ALGUÉM TEM QUE CEDER!

Vana: Você cedeu? (risos)

Alexei: Gol do Brasil!

Andréa: Não. Só beijinhos.

Vana: Esse cara é gay! Alexei. Se você entendeu, me diz... Que tática é essa?

Alexei: É não, ele é esperto. Vocês não entenderam nada.

Lívia: E esses beijinhos evoluíram pros amassos?

Andréa: Amassinhos. Saíamos de quinze em quinze dias. Eu estava me separando, cuidando dos meus filhos, ele tinha muito o que fazer no trabalho. Foram três meses de cinema.

Lívia: E me diz, criatura, essas "saídas" envolveram algo mais que beijos?

Andréa: Não. Aconteceu outra coisa. Na mesma semana que eu tinha ficado com o André, conheci o Rodrigo.

Lívia: Aí, esperto nada, Alexei. Perdeu!... (risos)

Vana: Viu? Enrolou demais!

Alexei: Perder faz parte de entrar em campo e jogar. Tá certo que ele acabou destravando a Andréa, nó por nó, e liberou para o Rodrigo, sem saber.

Lívia: Isso também é verdade, Alexei. Mas então, Andréa, me conta do Rodrigo.

Andréa: Bem, o André durou três meses. Na mesma semana em que eu tinha beijado o André, um amigo em comum convidou a mim e ao Rodrigo para uma conferência no MSN, apresentando-o como um amigão, que tinha tudo a ver comigo, porque fazia cinema, trabalhava com música, e por aí vai. Trocamos umas palavrinhas e ele foi logo me convidando pra tomarmos um chopp num bar aqui perto de casa. Marcamos, nos conhecemos como amigos e conversamos muito. Ah, não fui encontrar com ele sozinha não, levei um casal de amigos. Que chegou meia hora depois! (risos). Bem armado, né?

Vana: Por que o medo?

Lívia: Bem armado o escambau, maior bandeira, isso sim! (risada) E quanto tempo demorou pra cair de amores pelo Rodrigo?

Alexei: Firewall, antivírus, Vana. Todo um sistema de segurança.

Andréa: Demorou um pouco, porque quando conheci o Rodrigo eu já estava com o André. Nem rolou clima (sou muito fiel). Levou uns cinco meses pra nos beijarmos pela primeira vez. Já estava apaixonada pelo menos um mês antes, mas só tive alguma coisa com o Rodrigo quando estava tudo terminado com o André.

Lívia: Peraí, você enrolou o Rodrigo CINCO MESES pra dar um beijinho nele?

Vana: Se fosse o Celso já tinha caído fora! (risos)

Andréa: Pô, eu fiquei três meses desses cinco com o André. E o Rodrigo (pelo menos foi o que ele me disse) só ficou a fim de mim "com o passar do tempo".

Alexei: Esperto. Mesma tática do anterior.

Lívia: (risos) Alexei, já pensou na possibilidade de não ser tática deles, ser impossibilidade de passar pelo firewall?

Alexei: Não. Por que ela trava. Se atacar com tudo: "Você cometeu uma operação ilegal e será fechado".

Lívia: (gargalhada). Ah, tá, ela morria de medo do homem!

Vana: Ainda bem que o timing do Celso é o mesmo do meu. (risos)

Andréa: Ah, nunca tínhamos saído sozinhos até o primeiro beijo. Sempre tinha gente no meio. E depois que nos beijamos não nos largamos mais. Ele me conquistou aos poucos e já são dezessete meses de namoro.

Alexei: Isso não é obstáculo dependendo do caso.

Lívia: Esse negócio de conquistar aos poucos é sério... (risos).

(Continua na próxima edição)