| edição 56 |
A formação profissional em Pilates
por Cecilia Panelli
Na edição 54, publicamos uma entrevista sobre Pilates com o fisioterapeuta Tomas Baumann de Berredo. Alguns dos pontos-de-vista expressos pelo entrevistado, entretanto, foram objeto de discordância da Profa. Cecília Panelli, graduada em Dança e Mestre em Educação Física, do
Pilates Brasil. Como a seção Foro Íntimo é um espaço para debates e uma tribuna para livre expressão do pensamento, o espaço está aberto para as informações da Profa. Cecília e, com isso, ganhamos todos nós, interessados nesta forma de abordar a corporalidade. (Alexei Gonçalves)

Cecilia Panelli
"Parece-nos que Pilates seja uma técnica 'antiga e nova' ao mesmo tempo. O que queremos dizer é que se trata de um método criado na época da Primeira Guerra Mundial, mas cujos princípios são inovadores e atuais.
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Como o próprio Joseph Pilates escreveu, seu Método estava, pelo menos, 50 anos à frente do seu tempo." (Extraído do Livro: Método Pilates de Condicionamento do Corpo: um programa para toda vida)
Introduzido no Brasil na última década, gradativamente o Método Pilates passou a ser desenvolvido e conhecido pelos brasileiros. Porém, como ocorre com todo novo método terapêutico ou de prevenção, o desenvolvimento indiscriminado tem ocorrido tanto através das mãos de profissionais qualificados como por outros que não cumpriram uma formação específica nos variados centros de formação existentes pelo mundo. |
Um curso de formação na técnica de Pilates em Centros Oficiais de Treinamento dura, em média, um ano, e tem um alto custo, além de exigir uma carga horária significativa de estágios. Desta forma, muitos profissionais desistem de cumprir os procedimentos completos de formação, passando a ensinar o Método após apenas assistir e praticar algumas aulas e/ou assistir a vídeos. Alguns ainda decidem "formar" novos professores sem nem mesmo ter cumprido um curso de formação específico.
Durante o processo de formação é que o profissional adquire condições para se tornar um ser humano melhor, consciente de seus pontos fracos e fortes. Mas, se é tão difícil controlar a atividade dos profissionais, imagine os não-profissionais!
Os cursos de formação são abertos para todos os profissionais da área de saúde: Educação Física, Dança, Terapia Ocupacional e Fisioterapia. Cada profissional irá atuar de maneira diferenciada, utilizando a técnica de acordo com os conhecimentos adquiridos durante sua formação, mas todos poderão trabalhar com o Método Clássico criado por Joseph Pilates, adaptando os exercícios de acordo com as necessidades do cliente.
Atualmente, existem diferentes vertentes do Método original de Joseph Pilates. Alguns dos instrutores que foram seus alunos no passado resolveram combinar os ensinamentos recebidos do mestre com seus próprios conhecimentos, criando as outras linhas da Técnica de Pilates que existem atualmente. Há correntes mais específicas para o trabalho terapêutico, muito procuradas por fisioterapeutas e pelos terapeutas ocupacionais, que convivem lado-a-lado com o método chamado de "clássico" ou "autêntico", com que os profissionais de Dança e Educação Física se identificam mais.
Em resumo, não há obrigatoriedade de formação em Fisioterapia para ministrar o Pilates. Há, sim, necessidade de uma formação completa para uma prática responsável e de qualidade.
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| edição 55 |
A Paixão
Desirée
Hoje assisti o filme "Infelidelidade" por acaso e comecei a divagar com meu amigo sobre as "peripécias" da paixão [e obsessão] e aonde ela pode nos levar; afinal quem se apaixona geralmente perde a razão.
Como a paixão é capaz de nos desestabilizar e tirar o [pouco] controle das nossas mãos... Lembro-me de quando a Marta Suplicy estava ainda na prefeitura e namorando com o Luis Favre: a Danuza Leão disse que mulher x paixão x administração não rola, por isso tudo ia mal na prefeitura, afinal, quando a mulher se apaixona ela não consegue pensar em outra coisa. Eu geralmente penso em férias.

Riddiculous Freight por Jim Morana
Enfim, se estamos apaixonadas, a probabilidade de ter a mente concentrada em qualquer outro assunto que não seja o "corpicho" e as emoções proporcionadas pelo outro, é mínima mesmo.
Eu já me vi várias vezes em outro planeta nas vezes em que me apaixonei. A pele fica ótima, os olhos brilham, bom-humor e cabeça nas nuvens... Claro, se tudo estiver correndo bem na tal paixão. Já se as coisas não estão saindo como gostaríamos, aí a história é outra. O humor fica péssimo, a pele enruga e ganhamos um olhar obsessivo; fora as várias mentiras que contamos para nós mesmas. A alimentação também muda completamente. Eu, geralmente, como menos.
Resumindo: somos ridículas quando nos apaixonamos. Fazemos várias bobagens, perdemos qualquer vestígio de racionalinade e, claro, queremos o tempo inteiro falar da nossa paixão. Por isso é difícil mesmo dialogar com pessoas apaixonadas. Eu sou movida a paixões, sejam elas quais forem. Tenho obsessões: seja por um autor, um cineasta, uma série, uma banda, um(a) amigo(a), uma revista, um fotógrafo. Qualquer coisa que me fascine é capaz de fazer eu ter a mesma obsessão que tenho quando me apaixono, por isso descobri que sou péssima para administrar, já que geralmente eu estou apaixonada por alguém ou por alguma coisa [ok, as medidas são diferentes, mas me desconcertam da mesma maneira].
O divertido da paixão são as fantasias que criamos. Eu tenho um vizinho que andava me fazendo passar mal. Eu já sabia todos os seus horários e as músicas que ele escutava [então eu colocava meu som bem alto escutando a mesma coisa]. Comecei a acordar um pouco mais cedo apenas para me esbarrar nele no estacionamento; levava o lixo para fora no horário em que ele chegava; ia jantar no seu restaurante. Como paixões costumam ter prazo de validade, ela não demorou muito para acabar... Dois dias atrás eu esbarrei com ele na escada:
- Dê, esse é o.... - tentou perguntar o meu amigo
- Claro que não!
- Ah, bom, porque ele é péssimo. Que cabelo é aquele?
- Hahahahahaha... - ri concordando com ele
- Mas e aquele seu vizinho que você andava toda interessada? Nunca vi!
- Acho que ele se mudou.
É, ficamos ou não ficamos ridículos? Pelo menos eu ainda não matei ninguém.
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| edição 54 |
Entrevista: Entendendo o Pilates
Alexei Gonçalves
Enquanto pululam modismos no sentido de modelar o corpo conforme os padrões de uma embalagem de mercadoria, vende-se muita desinformação e abre-se mercado para profissionais despreparados, expondo as pessoas a riscos desnecessários e privando outras tantas dos benefícios de que necessitam.
Com o intuito de esclarecer o público, desfazer mitos, expor benefícios e alertar para riscos, conversei sobre o método Pilates com Tomas Baumann de Berredo, fisioterapeuta formado pelo IBMR - Instituto Brasileiro de Medicina de Reabilitação e instrutor habilitado em Pilates.

Tomas Baumann de Berredo
Alexei: É necessário um curso de formação em Fisioterapia para se capacitar em Pilates?
Tomas: Sim.
Alexei: Essa é a regra no mercado?
Tomas: Não. O cursos de Pilates não são considerados de especialização, mas de "atualização". É comum encontrar dançarinos. E professores de Educação Física também podem ser instrutores de Pilates. A diferença é que, nesses casos, o Pilates será empregado apenas voltado como auxílio à dança ou como atividade física, enquanto o fisioterapeuta poderá tanto aplicar o Pilates tanto com o objetivo de tratamento de patologias como de atividade física.
Alexei: A que necessidade, exatamente, atende o Pilates em relação a outras formas de terapia ou atividade física?
Tomas: Temos notado que é grande a diversidade das pessoas que procuram o Pilates. Há tanto casos patológicos - pessoas que enfrentam doenças como dores articulares, lombalgias, cervicalgias - quanto pessoas que dizem que ouviram falar em Pilates, às vezes por indicação de um amigo, experimentam e acabam gostando do método como forma de atividade física alternativa. Os médicos também têm ajudado bastante, indicando o Pilates como forma de tratamento e atividade física mais personalizada, orientada para o indivíduo, com menor exposição a lesões, já que o Pilates envolve um cuidado direto do instrutor com o paciente. O Pilates é uma forma de tratamento muito individual.
Alexei: Você pode então explicar mais detalhadamente o que é o Pilates e em que ele se diferencia de outras formas de tratamento/atividade física?
Tomas: O Pilates é um conceito criado pelo alemão Joseph Pilates. Eu chamo de "conceito" porque envolve uma mudança de método, não de técnica. Conforme a evolução da pesquisa científica, o Pilates muda e evolui também. Há, na Austrália, profissionais que combinam o Pilates com Estabilização Segmentar Vertebral, resultando num método diferente do que a gente costuma ver aqui no Brasil.
De uma forma geral, o Pilates atua sobre a flexibilidade e alongamento muscular, em conjunto com uma forma de respiração específica, atuando na reeducação postural. Mas sempre no contexto de um movimento, o conceito é de reabilitação com movimento. Nós prezamos muito a qualidade do movimento. Os movimentos são lentos e trabalha-se com pequenas cargas. Você nunca vai entrar em uma sala de Pilates e ver uma pessoa pegando excesso de peso, querendo "inchar". A proposta é tonificar, remodelar o corpo e reeducar a postura.
Alexei: Você pode resumir os objetivos do Pilates em algumas palavras-chaves?
Tomas: Eu diria que incluem flexibilidade, controle muscular, alongamento e reeducação postural com exercício físico.
Alexei: O Pilates inclui um trabalho de força?
Tomas: Sim, certamente. Quando você impõe regras a um movimento, executando-o de forma lenta, controlada, específica para um grupo muscular, o exercício se torna muito mais difícil do que se o fizesse de forma global.
Alexei: Você disse que o Pilates é um trabalho individualizado. Como se processa a personalização do exercício?
Tomas: O início do processo é uma avaliação do paciente, que começa desde o primeiro contato, observando a forma como ele se apresenta: os ombros, a postura cervical, a postura lombar (faz alguns movimentos típicos de incorreção postural).
Alexei: Você está me imitando! (risos)
Tomas: Também observamos a postura dos membros inferiores, pés, quadril. Em seguida, procedemos a uma anamnese, perguntamos sobre cirurgias, entorses, lesões. Algumas vezes essa avaliação é feita usando fotografias, para que seja possível mostrar ao paciente exatamente como ele se apresenta, seu padrão postural e, finalmente, fazemos uma proposta de exercícios que permitam quebrar esse padrão e adotar outro, mais adequado.
Alexei: Então, a proposta é realmente de reeducação postural.
Tomas: Reeducação com movimento.
Alexei: Qual é a diferença em relação ao RPG?
Tomas: O RPG trabalha a partir de cinco a oito posturas básicas, conforme a linha adotada, agindo sobre a reeducação da cadeia cinética muscular, sempre dentro das posturas básicas. Já no Pilates, como ele envolve o trabalho com aparelhos, podemos agir sobre os mais variados tipos de movimentos, tanto os mais simples até os mais complexos, inclusive gestos do dia-a-dia, como os de varrer, dirigir, digitar... O Pilates oferece, portanto, uma gama muito ampla possibilidades de exercícios.
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| Digitando no computador |
Dirigindo |
Varrendo a casa |
Alexei: Você falou sobre o Pilates como forma de tratamento de patologias. Quais seriam as indicações mais importantes?
Tomas: Sobre esse assunto, eu gostaria de ressaltar algo que me entristece. Os pacientes, freqüentemente, comentam que sentiam dores e, ao procurar tratamento, foram orientados a somente começar o Pilates após cessarem as dores. Aí, os profissionais orientam o paciente a não fazer determinado movimento devido a uma queixa de dor - do tipo, "Ah, doeu? Então não faça esse movimento" - esquecendo-se de tratar a lesão que causou a dor em primeiro lugar! Nesse momento, o Pilates deixa de ser uma terapia para virar apenas mais uma "ginástica". O problema é levado ao educador físico, ao professor de dança, fugindo da característica da Fisioterapia, que é tratar lesões com o movimento.
Mas respondendo à sua pergunta, eu incluiria entre as indicações do Pilates, a reeducação postural, dor lombar, dor cervical, dor no ombro, epicondilite (dor no cotovelo), doenças reumáticas, lesões no tornozelo, no joelho, incontinência fecal e urinária... Eu até gosto quando chegam pacientes com uma lesão. Eles normalmente não acreditam que podem melhorar com o Pilates e a gente prova que o método é eficiente.
Alexei: Como profissional de Fisioterapia, em relação a outras técnicas, você diria que o Pilates é uma forma exclusiva ou complementar de terapia?
Tomas: Ele complementa. O Pilates provê uma grande visão sobre a consciência corporal mas, como ferramenta terapêutica, é sempre um complemento, não um substituto. Eu não conseguiria abandonar o Pilates. Mas eu o uso junto com estabilização, com imobilização articular, para tirar a dor ou seja qual o for o meu objetivo dentro do tratamento.
Alexei: Digamos, então, que um profissional mal-preparado ou desatento usasse o Pilates sem esses cuidados mencionados, digamos, a imobilização. Ele poderia trazer prejuízos ao paciente?
Tomas: Sem dúvida. Até mesmo sem objetivos terapêuticos, apenas como atividade física, o Pilates mal-orientado pode provocar lesões se, por exemplo, o paciente pedir cada vez mais carga e o profissional ceder, sem agir para mudar a idéia errônea de que mais carga vai dar mais resultados. A proposta é de pouca resistência, movimentos lentos, limitados a até 10 repetições, sem exageros que só expõem o paciente a riscos de lesão. A má-formação profissional é responsável por diversas lesões, que comprometem a imagem do Pilates.
Alexei: Realmente, porque se um paciente procura um tratamento em busca da solução para um problema e, ao contrário, obtém uma piora, isso compromete toda a categoria profissional... Aliás, isso acontece em todas as áreas.
Tomas: Com certeza, em todas as áreas profissionais a gente vê isso.
Alexei: Em relação aos benefícios para o paciente. Digamos, um paciente sem nenhuma lesão específica, sem nenhuma patologia mais grave, que busque no Pilates apenas uma forma alternativa de atividade física. Que benefícios ele pode esperar?
Tomas: Como benefícios gerais, pode-se esperar uma modelação do corpo na medida em que se tonifica a musculatura e, principalmente, a auto-correção postural. Porque o que desejamos, como sinal de progresso no tratamento, é que a gente pare de avisar, de consertar as compensações desse paciente, que ele adquira a percepção de que, por exemplo, está com o ombro anteriorizado e faça a correção naturalmente, por conta própria, automatizando a nova postura.
Logo nos primeiros dias, o paciente já vai sentir diferenças tanto musculares, quanto na parte central do corpo, que é a mais importante do Pilates: a "casa de força" - região do abdômen - como referência para origem de movimentos de membros superiores e inferiores. O abdômen sempre deve estar contraído durante esses movimentos, dando estabilidade, como se formasse um eixo para o movimento.
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Exercício na bola: a contração abdominal é essencial para a execução correta. |
Se o abdomen fraquejar, o paciente perderá o equilíbrio. |
Alexei: E sobre a aderência do paciente ao tratamento, a continuidade? Há muita desistência?
Tomas: Ao contrário. É muito comum que um paciente procure o Pilates por causa de uma dor e continue a atividade após obter a melhora porque gostou da atividade, sentiu que foi bem orientado e o atendimento foi realmente personalizado, feito sob medida para as necessidades dele. Eu sempre procuro atender no máximo três pacientes, exercendo um controle permanente sobre o paciente, procurando deixá-lo o mais centrado, o mais alinhado que for possível.
Alexei: Então o Pilates trabalha com grupos pequenos?
Tomas: Sempre. Senão perde-se qualidade do tratamento. É quase impossível acompanhar quatro tratamentos, quatro compensações ao mesmo tempo.
Alexei: E como é uma aula típica de Pilates?
Tomas: Em geral, as academias adotam com sessões de 50 minutos, para criar um intervalo de troca de turmas, embora eu prefira trabalhar com 60 minutos. O ritmo e o andamento das aulas variam muito de acordo com o estilo do profissional, há muitas "maneiras certas" de fazer uma sessão de Pilates e o meu método não é necessariamente melhor do que o adotado por outro.
Normalmente, eu inicio a sessão com um aquecimento, um exercício do Pilates mais leve, no solo. Depois passo para os aparelhos, com mais carga e, depois, com alongamento, até para mostrar que está acabando a aula, demarcando para o paciente uma estrutura de começo-meio-fim padronizada. Mas isso é muito relativo, eu poderia tirar o alongamento do final da aula e fazê-lo durante a sessão com aparelhos.
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| edição 53 |
Amor de Pai também é sagrado
Alexei Gonçalves
O texto de hoje é uma carta de um pai a seus filhos. Publicado há algum tempo por um amigo apenas para alguns poucos amigos, motivo pelo qual não vou identificá-lo, sempre me emocionou pela sinceridade e emoção que transmite.
Como fui criado longe de meu pai - o desquite veio quando eu tinha apenas quatro anos - passei a vida vendo meu pai como um crápula degenerado... Era a imagem que minha mãe me vendia dele.
Ele era, a seu modo, um excelente pai. Péssimo marido, concordo, mas excelente pai. Só vim a conhecê-lo realmente já na idade adulta, quando passei a enxergá-los, tanto minha mãe como meu pai, como seres humanos.
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My Father (In Loving Memory) óleo sobre tela 2006 por Ingrid Z
Um homem e uma mulher que tiveram seus motivos para se apaixonar, casar, ter dois filhos, viver às turras e, finalmente, se separar.
Como a vida me ensinou depois, ninguém está certo nem errado nessas situações. Não há culpados, somente vítimas.
Talvez meu pai tivesse gostado de escrever essa carta. Nunca vou saber.
Publico esta carta como uma forma de lavar a alma de tantos pais crucificados por mães que confundem o pai das crianças com o ex-marido.
Não senhoras, definitivamente, eles não são a mesma pessoa.
Carta a meus filhos
Olá filhos,
Estou escrevendo para que, se um dia eu for cobrado por vocês não ter tentado permanecer próximo, saibam que sempre tentei.
No outro final de semana, era minha vez de ficar com vocês. Ontem, estava pronto para sair de casa e ir buscá-los, mas tentava contato telefônico antes de sair. Tentei o celular, o telefone de casa, nada... Quando ia desistir, consegui que sua mãe atendesse.
Pedi para ficar com vocês, mas ela negou. Negou com várias justificativas, ora por causa do meu pai que, de raiva por tudo que ela faz para impedir nosso convívio, agiu contra ela; ora por minha mãe, que ela chama de fofoqueira por ter-me feito descobrir que o câncer era uma mentira, que ela nunca teve essa doença. Ou, ainda, dizendo que não queria que eu os levasse à festa da filhinha de dois anos de um amigo por que minha namorada vai junto e ela não quer vocês tenham contato com ela.
Ela diz que faz isso porque vocês não querem ir comigo. Meus pedidos para falar com vocês são ignorados com outras desculpas.
Depois de dizer que não iria falar com vocês, escuto a voz do M., mas meu filho, você parecia tão assustado que não consegui conversar com você. Mudo, somente repetindo não, principalmente quando falei se queria que fosse buscá-lo. Foi dito com medo, com receio do que aconteceria. Depois falei com a B. Minha menina, você já conversava numa boa, contou do F., da escola e também falou que não queria ir.
O telefone passou para o F. e você, meu filho, contou da apresentação de natação, queria tanto ter visto como vi a troca de faixas, os katis que fizeram, você me falou novamente o nome do Kati, mas esqueci... Queria que você e o M. me ensinassem o Kati e queria ensinar o LuoHan e o Tombei que aprendi no Kung Fu...
Perguntei se você queria vir e disse que não, perguntei quando queria vir me ver, se não queria mais e disse que somente nesse dia...
Perguntei sobre o domingo e você me disse que gostaria de ir. Pedi para falar novamente com a B. e minha menina também falou que viria, falei da festa e a ligação caiu. Parecia que você queria ir. Festa de aniversário de uma menina de dois anos... Mas não consegui ligar de novo... Ninguém mais atendia o telefone.
Hoje, domingo, tentei buscá-los... Tinha a final do campeonato brasileiro e já estava pensando na festa que faríamos. Eu estava uniformizado e queria que vocês também estivessem. Esperando na portaria, nada de sua mãe atender o interfone. O porteiro pediu para eu tentar os telefones. Ninguém atendia. O celular, fora da área de serviço.
Deixei recado e fui ao outro lado do prédio ver as janelas do apartamento. Todas fechadas. Acho que devem ter saído com sua mãe para que ela não me deixasse vê-los novamente.
Voltei sozinho pra casa, mas dessa vez já consegui voltar sem ter raiva da situação. Pretendo continuar lutando para ter vocês junto de mim e um dia vou conseguir. Espero que não precise mostrar isso a vocês, mas deixo aqui para que saibam que não desisto de vocês.
Filhos, amo vocês.
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| edição 52 |
Tolerância
Ariadna Garibaldi

A talk (1995) Lylia Levshunova
Esses dias estive pensando sobre as diferenças, que não deveriam nos separar mas, sim, nos ensinar. Todo ser humano tende a viver em grupo e os grupos são formados pelas afinidades, até aí tudo bem. Mas quando esse grupo passa a impor o seu pensamento aos demais, ou a exigir que seja excluído qualquer um que não se adeqüe aos seus padrões, ao invés de se fortalecer, tal grupo tende a se extinguir.
As diferenças nos ensinam, as diferenças nos acrescentam, as diferenças nos tornam mais fortes. Respeitar as diferenças e aprender com elas é prova de inteligência; rejeitar a diversidade e segregar aqueles que não se adequam aos nossos padrões é roubar de nós mesmos a chance de crescermos e de nos tornarmos melhores.
A vida é única e, a despeito de nossas crenças religiosas, o que sabemos de certo é que só se vive uma vez, ao menos conscientemente. Assim, por que não experimentar coisas novas? Por que não usar cores novas? Porque não misturar as cores? Por que não provar outros sabores? Por que não misturar tais sabores e criar um novo sabor? Foi misturando azul com amarelo que se descobriu o verde!! Por que não ouvir outros sons? Por que não experimentar novos ritmos? Por que segregar?
Aquele que se recusa a experimentar o novo, a admitir e aceitar o diferente, se revela imaturo e está fadado ao insucesso. A cultura é plural, o conhecimento é heterogêneo e a vida é única. Vamos viver sem preconceitos. Ter muito conhecimento não é ter cultura e nem, tampouco, atesta sabedoria.
O verdadeiro sábio não teme o diferente e não o exclui. Pelo contrário, aprende com ele, porque nenhum de nós é culto o bastante. Aliás, como bem falou o grande Rui Barbosa, em seu discurso no Colégio Anchieta:
"Para não arrefecerdes, imaginai que podeis vir a saber tudo; para não presumirdes, refleti que, por muito que souberdes, mui pouco tereis chegado a saber..."
Aprendamos com o diferente: nem sempre o que está à margem é inferior. Não precisamos gostar das mesmas coisas, não precisamos professar a mesma fé, não precisamos ter as mesmas convicções políticas, precisamos apenas nos respeitar e admitir que abrir a porta ao novo não é rejeitar o velho. Aceitar o diferente não é desprezar o habitual, é apenas dar-nos a nós mesmos a chance de trocar experiências. Isto se chama tolerância, sem a qual o mundo jamais viverá em paz.
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| géh:
Você afirmou em sua aula que o teatro é uma forma de auto-conhecimento. Você passou a se conhecer melhor praticando teatro? Como ocorreu esse processo? Que benefícios você poderia citar desse conhecimento adquirido?
Zaira: Com certeza , as pessoas vão ficando mais conscientes das suas limitações e facilidades atraves do auto-conhecimento que o teatro nos proporciona e, a partir daí, melhorando as características que devem ser mais bem trabalhadas. Não é fácil admitir que se precisa de ajuda, principalmente quando somos muito jovens. Sempre fiz aulas de voz com a Fernanda, bem como aulas de expressão corporal e dança. Mesmo não sendo muito afinada, volta e meia faço aulas de canto para suprir esta deficiência. Até hoje não vivo sem me exercitar: faço Yoga, alongamento, esteira, musculação, fonoaudiologia, análise freudiana e sempe procuro fazer Worshops e Oficinas com outros diretores. Em julho, já me inscrevi nas Oficinas do Centro Cultural Telemar, que serão ministradas pelo José Celso Martinez Correia e Gerald Thomas.Volta e meia procuro o Augusto Boal, para me reciclar.
"A gente é que nem roda, se parar cai" - frase do filme Bye Bye Brasil.
géh: Você já deve está cansada de ouvir o velho chavão: “A vida imita a arte, ou a arte imita a vida” O que eu gostaria de saber de você é como você sente na prática a interação da sua arte com a sua vida pessoal.
Zaira: A minha vida é a minha arte, não dá para separar. Vivo, como, respiro arte; meus momentos de lazer são os livros que leio, as peças e filmes que assisto.
géh: O teatro integra diversas outras formas de manifestação artística como as artes visuais (figurino, cenografia), a música, a sonoplastia, em alguns casos a dança. Como artista plástica eu gostaria de saber especificamente como você vê o papel das artes visuais integradas ao espetáculo teatral?
Zaira: Basicamente, nos cenários, figurinos, folders, cartazes, filipetas e banners. Na concepção visual da peça.
géh: Você como mulher e atriz, na sua trajetória, já sofreu algum tipo de assédio moral ou sexual, ter sido tratada de com rótulos pejorativos, ou outra forma discriminação?
Zaira: Sim, a grande bobagem que fiz foi ter posado para a revista Playboy em 1982. Sofri muitos assédios e eu não estava preparada para isso, não sabia como lidar com a situação. Nunca tive um empresário que cuidasse da minha carreira pois, no Brasil, não tínhamos esta cultura, quase não havia empresários de artistas. Portanto, sai dando o fora quando era assediada e fui mal interpretada por alguns figurões da televisão.
géh: Um tema que abordamos com muita freqüência é o limite entre arte e pornografia. Como você vê este limite no espetáculo teatral, em que momento a sensualidade, o erotismo, o nu, no palco deixam de ser artísticos para se tornarem pornográficos? Por exemplo, minha co-editora Rocca Stockler citou as peças teatrais de Zé Celso contendo cenas com sexo oral.
Zaira: Sinceramente nunca assisti a uma peça com sexo explicito e acho que não tem nada a ver, principalmente no teatro. Na minha opinião, o melhor é conduzir a cena e deixar a imaginação de cada um trabalhar para criar o resto, acho constrangedor e desnecessário.
géh: Fala-se muito sobre a “crise do teatro brasileiro”. Você pode apontar, na sua opinião, quais são as principais dificuldades práticas enfrentadas para a produção teatral no Brasil? Que soluções você vislumbraria para esses problemas?
Zaira: Primeiro acho que existe uma crise de novos autores. Por isso, dou oportunidade para novos autores, alunos das minhas oficinas, que queiram se exercitar. Este ano temos o Jorge Eduardo Magalhães , que está me parecendo muito talentoso. Vamos montar duas peças dele: "Os Inquilinos do Relento" e "A Cobertura".
Segundo, dificuldades financeiras sempre tivemos. É realmente muito caro manter uma peça em cartaz com despesas de aluguel de teatro, técnicos, direitos autorais, cachê de atores, etc... O que podemos fazer é tentar teatros da rede pública, que cobram apenas um percentual da bilheteria. Mas, para isso, temos que ter um produto bom, com conteúdo e diversão.
Não é fácil ter um grupo homogêneo e que saiba administrar fracassos e sucessos. Na minha experiência como professora e diretora, o que mais vejo são grupos que, quando começam a fazer um pequenino sucesso, ficam logo cheios de vaidade e começam a brigar e se revoltar contra a direção, achando que já sabem tudo. Aí o grupo se desfaz, é uma pena. Uma atenção e cuidado especial especial que se deve ter ao abraçar esta profissão, é em relação ao ego e à vaidade pessoal. |