
Loneliness por Ali Hammoud
Por Claudio Santos de Souza
Editor do www.soropositivo.org
(Sugira um tema para esta revista)
Naquele momento autorizaria até minha decapitação.
Rapidamente fui garroteado e o sangue colhido, e fui encaminhado para a internação.
Passou-se um tempo até que eu acordasse de verdade, e me recordo de
uma enfermeira que me dava café da manha com uma seringa de injeção
(lágrimas) dizendo que se eu não comesse (muitas lágrimas)
eu não ia “sarar”.
Já faz tanto tempo isso, e na época tudo era tão diáfano.
Mas consigo me recordar de seu rosto. No dia da alta, minha médica,
doutora Guadalupe me chamou a sua sala e me disse assim, à queima roupa:
“ Cláudio, preciso que você vá ao CRTA para fazer
um exame confirmatório para o HIV, pois seu primeiro exame deu positivo.
Eu, em choque, disse a seguinte pérola:
“-Tudo bem, eu já vivi bastante mesmo...”
Doutora Guadalupe então começou a falar que a AIDS não
era mais uma sentença de morte, que a ciência tinha avançado
muito e que... Mas eu já não podia não podia ouvi-la.
O medo me arrastara para outras dimensões e lá, eu encontrei
a culpa. Eu matei Verônica, pensei. Não me passou pela cabeça
que eu poderia ter contraído de Verônica. Só entendia
tê-la matado e a culpa por isso era avassaladora. Pensei em suicídio.
Mas uma voz em mim disse-me que tivesse, ao menos, a decência de suportar
as conseqüências de meus atos com dignidade. Isso realmente me
deteve... Não sei como, mas cheguei ao centro de referência,
que ficava na rua Antônio Carlos; cheguei lá visivelmente consternado.
Tive de assistir uma palestra de quase uma hora, uma angustiante hora até
fazer o exame. Pensei que o resultado saísse na hora.
Quinze dias. Foi aí que começou meu sofrimento. Sentindo-me
culpado pela própria doença, envergonhei-me dela. Envergonhado,
não consegui pedir ajuda para ninguém.
Voltando às boates onde eu trabalhara, descobri que corria á
boca miúda que eu morrera, e morrera de AIDS; isso se deu porque foi
bem prolongada a minha permanência no hospital.
Na noite, um boato se transforma em verdade em menos de uma hora. E quando
eu cheguei, quarenta quilos mais magro, confirmou-se que eu tinha AIDS. Estava
vivo, mas tinha AIDS. Fui enxotado da Rua Bento Freitas como um cão
sarnento e uma das coisas que me lembro ter ouvido foi, some daqui lixo aidético
(...) Fui ao hotel onde eu morava e, naturalmente, meu quarto fora desocupado.
O dono do hotel me devolveu minhas coisas sem me cobrar as diárias
e eu passei a perambular pelas ruas com uma mala pesadíssima de roupas,
sem saber o que fazer. Tudo o que eu tinha na mente era que em poucos meses
eu morreria, eu secaria como uma samambaia num xaxim abandonado, morte lenta,
angustiante e dolorosa, eu nada sabia sobre a AIDS.
Eu sentia que as pessoas, nas ruas de São Paulo, ao olharem para mim,
percebiam que eu tinha HIV. Isso criou uma sensação de paranóia,
como se eu pudesse ser “denunciado” a qualquer momento. Enfim
lembrei-me de uma gerente de uma casa GLBT em que trabalhei e que ela era
envolvida nestas causas, na causa de apoio a portadores de HIV e me ocorreu
procurá-la, mas isso só poderia ser feito na quarta feira, pois
a casa em que trabalháramos juntos só abria de quarta a domingo.
Não lhe porei nome, ela me recebeu, me ouviu, enxugou minhas lágrimas
e disse que havia uma solução. Pediu-me alguns minutos, mandou
servissem-me um lanche e foi dar um telefonema. Voltou com o sorriso que lhe
era natural e disse–me que fosse até a rua tal, número
Y que havia um leito à minha espera, mas que eu fosse rápido.
Assim consegui uma vaga numa casa de apoio, que pode não ser a melhor
alternativa, mas era tudo o que me restava. Era um bom lugar. Cinco refeições
por dia, roupa lavada, TV a cabo, todo o conforto que alguém pode desejar.
Mas as saídas para a rua só eram permitidas aos sábados
ou nos dias de consulta. De certa forma, era uma prisão. Tirem-me tudo,
pois tudo eu posso recuperar, mas não me tirem a liberdade, eu vos
imploro. Mesmo assim dei graças a Deus quando tive assegurada a minha
permanência ali, pois de uma forma ou de outra, eu me conheço,
eu encontraria meios de me reerguer. E enquanto isso, eu me alimentava, recuperava
peso, ganhava forças, preparava o espírito.
Mas tinha um problema: Verônica. Eu pensava que se eu tinha possibilidades
de tratamento, era justo que ela tivesse também, em se confirmando
o diagnóstico positivo... Para isso, eu tinha de contar a ela.
Mas como? Como é que você olha nos olhos de sua ex e diz: Verônica,
você precisa fazer um exame para HIV. O meu deu positivo.
É a certeza de uma tempestade e o mais reservado dos locais não
poderá esconder o escândalo, o dramático escândalo.
Como era fim de ano deliberei que deixaria ela ter um natal tranqüilo,
ninguém tem o direito de estragar o natal de alguém assim.
Seriam cerca de 50 dias de agonia e, se houve natais em que senti-me só,
nenhum deles foi povoado por tantas lágrimas, fantasmas e medos como
aquele, Verônica, me perdõe. Passou o natal, passou o ano novo
chegou o dia de reis e eu não tomava coragem de fazer o que tinha de
ser feito.
Mas tinha de ser feito e um amigo fez por mim. Conta-me ele que a reação
dela foi tão avassaladora que um segundo depois de ter dito ele já
estava arrependido. Ela disse que não faria exame, que se fizesse e
desse positivo ela não ia se cuidar, desfiou o rosário do desespero.
Fez o exame e deu negativo. Diz-se que ela fez mais de dez exames até
o responsável pelo laboratório se recusar a fazer outros, dizendo
que, “se não deu positivo até agora, não vai mais
dar”.
Eu soube por telefone que o exame dela deu negativo, foi num sábado
e toda a tensão acumulada em mais de cinqüenta dias explodiu,
e eu comecei a chorar. Um choro convulso, de criança, que durou por
todo o sábado (eu adormecia e acordava chorando) até o fim do
domingo.
Mas, mas para que se diga toda a verdade e que o homem se mostre como ele
é, faz-se preciso dizer que, embora houvesse um grande alívio
por minha parte por ela não ter contraído HIV, uma parte de
mim lamentava o fato, pois tinha ciência que tal circunstância
abria um abismo de proporções cósmicas entre nós,
que eu jamais a veria e jamais a teria em meus braços novamente.
Sou apenas um homem, tenho tendências egoísticas , como qualquer
um de vós, que me ledes. Perdoai minha fraqueza de caráter.
“A gente, por amor, põe a mão em cumbuca...”
Na casa de apoio as coisas iam mais ou menos no esquema de hospital prisão,
até que me pediram para fazer um serviço: Acompanhar um doente
ao hospital. Eu aceitei. Era uma possibilidade de sair à rua, ver gente
e ser útil. O paciente chamava-se Walter* e estava pesando pouco mais
que trinta quilos.
Minha missão era levá-lo até o hospital e acompanhá-lo,
velar por ele enquanto ele estivesse lá. Walter não dava trabalho
nenhum. Eu só tinha de lhe dar água, comida, trocar suas fraldas
(aprendi muito em matéria de humildade, tocar num pênis que não
o meu não me fez menos homem).
E sobrava-me tempo para visitar os doentes dos outros quartos e, assim, ter
o privilégio de servir mais. Depois de algum tempo as enfermeiras confiavam
em mim, me davam tarefas, me ensinavam procedimentos de segurança e
tudo o que fosse útil à minha proteção. Acabei
fazendo parte, tacitamente, do corpo de voluntários do hospital, sem
nunca descuidar do Walter.
Numa manhã, por volta das 8h30m ouvi o choro de uma moça e corri
para lá. Era um problema que hoje eu conheço bem: Depois de
anos levando picadas nas veias (em dez anos creio ter tomado mais de 4500),
elas ficam difíceis de serem acessadas e o trabalho de alcançar
uma delas era particularmente doloroso.
Corri ao lado da moça e perguntei o que ela tinha. Ela: “- Me
ajuda, ta doendo...”
Eu a abracei e disse calma, relaxa, ó, tem um homem grande e bonito
ao seu lado (delírios de narcisista) e você não pode chorar
na frente dele. Ela relaxou e, Acréscimo de Misericórdia Divina,
ficou mais fácil achar a veia. E eu passei a ter um compromisso com
aquela moça e todos os dias, ás 8h30m eu estava lá, a
postos, para ajudá-la a receber remédios.
Walter é que não melhorava, ao contrário, piorava. Durante
três meses eu vivi na ilusão que poderia ajudar aquele homem
a se reerguer, retomar a vida e vivê-la em sua plenitude. Mas todo este
trabalho, que se constituía em lhe dar banho, alimentá-lo, trocar
suas fraldas era um trabalho estafante e me deram uma “folga”,
um final de semana inteiro para eu ir onde quisesse. Eu fui. E quando voltei
na segunda feira cheguei perguntando por ele, quando uma daquelas dementadas
de lá me disseram que ele estava nas últimas, que “até
as coisas dele já tinham sido divididas”.
Corri para o CRTA. Quarto andar, internação. Quis entrar e o
segurança me deteve. Chamei a médica de plantão e ela
me negou a visita. Entrei à viva força. Deparei-me com uma das
visões mais tristes de minha vida. Aquele homem não me via mais,
sua atenção estava voltada para outra esfera onde eu não
tinha o menor significado. Depois de ter entrado à viva força
entendi o porquê de tentarem me deter. Ninguém me puniu. Minha
dor me bastava.
Cuidei de seu funeral, simples, e a cada pá de terra que caía
surdamente sobre o sarcófago de papelão, frágil como
a própria vida, mais certeza eu tinha que não faria o menor
sentido se tudo acabasse ali, tinha, tem, de haver um propósito maior
para tanto sofrimento, inaceitável que acabe tudo sob um amontoado
de terra.
Depois disso seria impossível voltar a ser prisioneiro da casa de apoio
e eu preferi as ruas a ficar lá.
Como me levantei já é outro processo, que não vou contar
aqui, pois não faz parte do ponto; mas me levantei e acredito que qualquer
um se levantaria. Não é um simples vírus que vai me derrotar,
se toda a sociedade, agindo veladamente e em conjunto não o conseguiu.
É certo que morrerei um dia, mas de vós que me ledes, não
creio haveis de escapar ao menos um.
Anos depois percebi que havia uma grande falta de informações
na Internet sobre HIV. Então me decidi a criar um site e por nele tudo
o que eu pudesse encontrar sobre a AIDS. Eu pesquisei, traduzi, aprendi HTML,
depois ASP, procurei, eu mesmo, compreender melhor a doença, a aceitá-la
melhor, para amparar outras pessoas que me procuram em momentos de medo e
de dúvida, enfim, eu me coloquei á disposição.
Não recebo amparo ou suporte material de quem quer que seja e vivo
com recursos pífios e inconstantes. Mas até aqui Deus tem sido
pródigo comigo e nada me tem faltado. Foi assim, então, que
reagi ao HIV.
Com medos, com dúvidas, com vergonhas, com culpas. Mas durante todo
o processo era clara a minha opção pela vida e eu sobrevivi,
Deus sabe como, eu sobrevivi!
Se morrer amanha, sei que terei dado o melhor de mim e partirei da Terra com
certa tristeza (amo este planetóide) mas com a consciência em
paz relativa. Mas acho que não terminei de reagir ao diagnóstico
positivo para AIDS. Eu continuo reagindo todos os dias e estarei a reagir
por todos os dias, enquanto me houver forças.
Escolhi o computador como meio de trabalho e expressão baseado no seguinte
raciocínio: “Enquanto eu tiver um braço, um olho que funcione
e um cérebro, poderei ir em frente”. E foi assim que sobrevivi
a uma embolia pulmonar, um enfarto e mais três meningites. No caminho
houve perdas amorosas, algumas por conta do preconceito, outras porque eu
sou mesmo um caso perdido.
Hoje estou casado, e a minha esposa é a maior Mulher que encontrei
na vida; também ela, é soropositiva, mas nos já nos conhecemos
assim, pela Internet. Em suma eu fiz uma opção pela vida e pedi
muito a Deus que me permita ser útil, peço o tempo que for possível,
que meus méritos de hoje possam representar algumas horas a mais no
futuro, pois eu preciso continuar reagindo à sorologia positiva para
HIV, ajudando outras pessoas, que são surpreendidas e que não
sabem a quem procurar; é comum que deus as mande para mim.
Espero que meu site, www.soropositivo.org possa ser útil a você
que me lê, com já foi para quase um milhão e meio de pessoas.
E espero também que www.amorpositivo.eti.br também possa ser
um pólo de reunião de pessoas vivendo com HIV e outras que não
vivem com HIV, e que de lá nasçam namoros, noivados, casamentos,
filhos, famílias.
Se este site que estou acabando de por no ar gerar uma só família,
eu terei pago muitos, mas muitos de meus pecados. Milito em causa própria,
pode ser, mas os resultados são bons para todos.
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