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edição 105

Os 5 minutos

por Sônia (Anja Azul)

Francisco Benitez - Memory of things past e present
Memory of Things Past & Present por Francisco Benitez


Se dependesse só de mim, não haveria desarmonia, estridentes conversas vãs, ruídos desnecessários.
Tudo que me rodeia já não me interessa.
E o tempo precioso escorre como areia entre dedos, matando a esperança.
Histórias de amores medíocres e separações repetidas. Sempre as mesmas.
Competições de dores. As dores dos outros sempre doem mais...sempre.
O mundo real! De carne e osso, me assusta, ou melhor não... e sim me deprime.
Se só o que faço é ouvir...
Descrições de rotinas, de como se lavou o box do
banheiro com escova de dentes???
A novela das oito. O crime na esquina.
A cor da blusa.
Pera aí!
Preciso refletir sobre o Crime na Esquina.
Não consigo, pois logo vem a Caras, e bocas e poses.
O carro do vizinho. A cor. Esqueço sempre, pois tem alguém que me lembre... Sempre.
Como se fosse importante.
O preço.
Do tomate, da importância.
Me lixo.

Estou viajando para dentro da concha acústica dos meus pensamentos.
Quase nada que me rodeia (aqui no sul, pendurada na américa latina, frente ao oceano) me interessa.


Sinto-me pronta para partir para a outra dimensão.
E aliviada.



edição 104

Encontro de gerações
Pamela Fingado - Grandmother - Contor de amor
Grandmother por Pamela Fingado

por Zélia Campestrini

 

Final de semana, dia de festa. Noventa anos de vida de minha mãe, foi comemorado em grande estilo. Não em termos de pompa e esnobismo desnecessário, mas com simplicidade e harmonia.

Almoçamos no restaurante da recreativa da Embraco, uma das inúmeras empresas multinacionais existentes aqui na nossa maravilhosa Joinville. Depois nos reunimos num de seus quiosques, para ficar mais à vontade e poder matar a saudade.

Enquanto os adultos relembravam o passado e colocavam o assunto em dia, as crianças brincavam nos inúmeros brinquedos existentes no local. Gangorra, escorregador, trenzinho, balanço, etc. Uma verdadeira festa para a garotada.

Mamãe estava linda, cabelos brancos como a neve, olhar radiante, lúcida, impecavelmente trajada, pois é muito vaidosa. Perfeccionista da cabeça aos pés.

Um encontro de várias gerações, filhos, netos, bisnetos e tataranetos.

Foi realmente emocionante: meus irmãos e eu segurando os netos, sendo uns muito parecidos com os pais. Parecia que voltava no tempo, onde nós segurávamos nossos filhos ainda pequenos.

Minha irmã mais velha já é bisavó, ganhou três bisnetos, todos com menos de um aninho de vida. Maravilhosos!

O tempo passa, os filhos crescem, a família aumenta. Este é o cilho da vida. Aprendi que devemos viver cada etapa, cada fase de nossa vida, com intensidade própria de cada momento e devemos aproveita-los o máximo com responsabilidade.

A melhor herança que deixamos a nossos filhos é nossa boa conduta.

Recordar é viver.

Olhando a todos com atenção
Relembrava com emoção
Que antes era eu, que segurava
Minhas filhas pela mão

Hoje já crescidas
Com os primos a conversar
Rindo das travessuras
Que acostumavam aprontar.

edição 103

A ordem das vespas sanguinárias
Ginette Callaway - Sunflower e bees
Sunflower e bees por Ginette Callaway.

por Sônia (Anja Azul)

 

O pai tinha destas manias de cultivar coisas esquisitas.
O pátio tomado de canas de
açúcar, pés de milho e batata doce rasteira. Fora o limoeiro, pessegueiro, ameixeira e a frondosa goiabeira.
Terreno propício para a imaginação correr solta. A floresta era o planeta inóspito e distante, onde aterrisava com sua Nave-Cinamono, onde pisava em câmera lenta, seguida pelo seu companheiro de aventuras, isto, quando este conseguia fugir do terrível monstro que guardava a cadeia do leste, seu avô, no qual aplicavam as mais estrambólicas estratégias, que garantiam fugas fenomenais.
Um dia o pai extrapolou as expectativas. Trouxe para casa uma
caixa. Uma caixa zumbizante.
A
casa das abelhas assassinas do Noroeste da Birmãnia, ou na visão normal dos adultos, uma colméia de abelhas.
Seu mundo de aventuras ficou ainda mais emocionante.Apostas tipo: "Quem aguenta mais tempo com a mão na caixa, sem ser mordido?" corriam soltas.
Numa das incursões pelo planeta hostil, e sendo surpreendidos pelos terríveis homens-cana, tiveram de correr estabanados, pulando poços de areia movediça e.... esbarraram na caixa.
Terror!!!
Fingiram-se de estátua. Houve um princípio de tumulto, um zumbido ensurdecedor, tá!... Nem tanto, e as coisas acalmaram.
Juraram segredo de morte. A brincadeira acabou mais cedo. E naquela
noite adotaram o voto de silêncio de criança que sujou a fralda.
Na madrugada, algo de assustador acontecia. As abelhas injuriadas, resolveram mudar de ares, e foram instalar-se acima do poço de água, bem ali, onde ficava a rolimã e o balde.
Ao amanhecer, a surpresa. A irmã mais velha, que suspeitavam, devia ter néctar nas veias, de tantas as vezes que foi picada, deu o alerta. Pessoal já nem ligava, uma picada a mais ou a menos de tantas que ela levava, mesmo correndo todo o quarteirao com a abelha atrás.
Mas a coisa era séria. Dava até para ouvir os tambores de guerra das abelhas assassinas.
Ela pensava com seus botões, ofendemos o Deus delas, teremos de pagar com sangue. Buaaaaaaaaaa!
A casa cercada de abelhas, que tentavam entrar enfurecidas por cada fresta, e o que mais tinha na casa eram frestas.
Todos foram convocados, a fechar escotilhas, chinelos em punho. Lutar até o último homem, ou criança, ou mãe p... da vida, pois estava atrasada com seus lavados pra fora. O pai teve de abandonar o front na corrida, pois tinha de ir trabalhar e os outros ficaram lutando bravamente, vendo o assoalho tingir-se de preto zumbizante.
Pai volta para o almoço, que não foi feito, com uma idéia. Tascar fogo, aliás fumaça com um cabo de vassoura, de longe.
Pior! Dai que as bichinhas se "arrevoltaram".
Lembrou de uma conversa com um vizinho, que queria comprar a caixa, que entendia delas, que bla bla.
Foi até lá, atravessando um vasto campo em frente, e voltou com o dito cujo carregando uma caixa.
-- Pode deixar compadre me entendo com as bichinhas. Mas quanto lhe devo?
-- Nada! Pode levar!
O homem fez uma mágica qualquer e elas entraram na arapuca. Lá se foi satisfeito. Mal sabia ele, o que lhe reservava o destino.
Bulir com o Deus das Abelhas Assassinas não tinha perdão.
No meio do campo tropeçou, a caixa se escangalhou e foi atacado impiedosamente.
No hospital disseram que escapou por milagre. Eram abelhas africanas, sanguinárias.
O bom de tudo é que fazia sol, e ela já foi chamar o companheiro, com seu assovio secreto, pois havia um planeta para ser explorado e não podiam perder tempo.

edição 102

As regras do jogo
Bala Laxmi - Faces painting - Pinturas e leituras
Faces painting por Bala Laxmi.

por Francine Hellmann

 

Existiam, naqueles entremeados de relações, coisas muito ou nada convencionais, havia núcleos e subnúcleos de conselheiros e confidentes, havia beijos na boca, abraços sinceros e abraços forçados, lágrimas, sexo, gargalhadas sinceras e gargalhadas forçadas, havia homossexualidade, hobbies em comum que aproximavam e proximidades sem tripé de apoio algum, havia muitas histórias pra contar, havia muita inteligência, mas também atitudes impensadas, infundadas. Havia brindes.

Havia paixões. De todos os tipos formas, tamanhos, cores e texturas. O primeiro gostava da segunda que sabia e fingia que não sabia, a segunda gostava do terceiro que também era amado pela quarta, amada pelo quinto, a quarta sabia e não queria e sobre o terceiro, se sabia ou do que queria, ninguém nunca sabia. O sexto amava o sétimo. Também se sabia pouco ou quase nada do sétimo e da sexta e o quinto, além de amar a quarta, também amava todo mundo.

Havia um mundo dentro e um fora dali, havia 16 olhos, olhando para 32 mundos diferentes. Cada um poderia sair no momento em que desejasse, não havia pregas nem correntes, mas sair poderia causar arrependimento eterno, embora ficar pudesse doer, e muito. Mas o importante era isso. O importante era sentir.

edição 101

Meu pé de laranja azeda
Darren Thompson -Open Book -  Pinturas e leituras
Open Book por Darren Thompson.

por Rodrigo Freire

 

Estou um tanto comovido como quem lê “Meu pé de laranja lima”. Pudera. Leio “Meu pé de laranja lima”. Leio em voz alta para mim e para minha mãe. Ela consegue entender alguns fatos que acontecem e têm lá um vocabulário que eu só alcancei no dicionário, e ela na vida.

Estava ainda há pouco na cozinha, eu num banco, minha mãe no outro do outro lado da mesa. Na casa que meu pai construiu no final da vila, na rua principal onde passam carros, e carros, e ônibus para todos os lugares. Colocar-nos morando ali foi uma vitória de meu pai. Casa própria, quatro quartos, terraço que era para brincar e seria para colocar mesa de sinuca, e totó, e pingue-pongue. Pra lá com essas definições físicas da casa quando dentro de nós não era uma cozinha, era uma capela, um velório e os natais.

Ela lembrou de um natal ingrato que passamos, do qual eu não tenho lembrança mesmo com as descrições feitas. Meu pensamento girou pelo capitalismo durante a leitura e durante as recordações de minha mãe. Passeei pelas injustiças do mundo no que fotografava as ocorridas no livro e nas lembranças de minha mãe. Tristezas escondidas de minha infância e absorvidas agora por este homem de 31 anos.

Ela tratava de alguma coisa sobre o desejo de meu irmão ter uma bicicleta e o contentamento de minha irmã com um biquíni, eu ganhei outro presente. Não sabemos mais desse se era um jogo, um carrinho... Pelo que sei, nunca amanheci um aniversário de cristo com sapatos vazios.

Meu pai, quando ainda era vivo, claro!, tinha um abatedouro, onde minha mãe e meu irmão trabalharam certo tempo, por volta deste mencionado natal. Que danada essa saudade de meu pai! e de vivências das quais fui somente figurante, e que à minha mãe pode vir como veio, através desse meu novo hábito de ler para ela. Que estado de caridade entramos quando estamos comovidos! Deu-me uma vontade de “Che Guevara”. É fato que isso passa e torno a velha rigidez que habito de cabelos brancos.

Algumas pessoas dizem “Contente-se, há quem esteja pior.”. Então é isso? Alegria de pobre é pensar que há outro pior. Sou feliz por não ter um braço se olho para outro que não têm dois? Eu não consigo. Mas também sei que tristeza não resolve nada. Como eu mesmo já disse: chorar não é caridade ao mundo. Tenho uma virtude que é procurar transformar essas energias em coisa úteis. Quase nunca as encontro, as coisas úteis, para pô-las em prática. Comumente que faço é escrever à deriva nessas emoções.

As pessoas batem palmas para mim por eu ter entrado na universidade, todavia eu não vejo perspectivas financeiras. Na verdade eu detesto falar de finanças, detesto falar da intenção de ficar rico. Ela é tão corriqueira. Prefiro pensar em melhorias. Disso tudo de que vale imaginar que meu pai também estaria feliz diante seu filho universitário? Meu pai já não está mais aqui para abrir-me um sorriso. Há quem tenha perdido o pai e a mãe para que eu fique feliz? De idéias assim tentam imbuir-me alguns amigos. Querem mais? Eles são inocentes, têm suas formas, por mais que a mim pareçam grotescas, de consolar-me. Também quero ser bobo e inocente. Desconhecer o gosto do café para quando não tiver dinheiro.

Sinto muitas saudades de meu velho pai e agora de tudo que, apenas imagino, poderíamos viver.

Na universidade ouço falar que a razão deve predominar, ouço a necessidade científica disso. Todavia, minha ciência diz que a emoção deve ser servida pela razão. A inteligência deveria constituir um atalho para a felicidade. Mais vale adiantar à emoção, que é o que somos; que à razão que é o que calculamos ser.

Voltando para o livro: Será que encontrarei no pé de alguma coisa um consolo eficaz ou, mais que isso, uma razão para a vida? Não creio, a infância se foi e nela algumas imaginações me foram roubadas. Continuo sendo um rapaz seco e com alguns pensamentos taciturnos. Descrever-me pelos que me olham... Não sei de nada, queridos. Tenho trinta e um anos. Isto é tudo sobre mim. Se eu tiver uns inimigos... é possível que eles tenham certeza sobre algumas características minhas.

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