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Amores são como livros
van Koulakov - Sleeping couple
Sleeping couple por Ivan Koulakov

por Francine Hellmann

Amores são como livros. Uns maiores, outros menores; alguns profundos, outros mais superficiais. Há aqueles que lemos quando pequenos logo que aprendemos a ler e que nos acompanham por toda a vida; há os que lemos há muito tempo e reencontramos inusitadamente, acompanhados de uma avalanche de lembranças. Algumas pessoas encontram livros perfeitos, livros feitos para elas. Em minha estante cada livro possui seu lugar definido, especial... Às vezes me pego em frente a eles, percorrendo com os olhos seus títulos, lembrando suas histórias, analisando o que cada um me ensinou, me trouxe de novo. Houve os que me obriguei a ler, apenas para não me sentir derrotada; houve os que devorei; os de páginas perfumadas; os simples, porém profundos; há os de cabeceira; os engraçados; os que me fizeram chorar; os retóricos; os demagógicos; os ideológicos; houve os que li ao mesmo tempo; os que duraram apenas uma madrugada; e houve as bíblias.
Há pessoas que nunca aprenderam a ler, não conheceram outros mundos, outras formas de pensar, não ousaram. Conheço algumas que afirmam não precisar, dizem viver bem, dizem que bastam as orelhas de um livro ou outro; pode ser que elas sejam felizes a maneira delas. Eu não conseguiria viver assim. Quero ler livros em todos os idiomas, com páginas de todas as cores, de vários autores, tempos, contextos; quero fotos coloridas e em preto e branco, livros de artes, música, política e cinema; quero livros que me façam imaginar as coisas mais inimagináveis e confrontar meus próprios eus, muitas vezes, infinitas vezes. Quero livros, todos os livros do mundo!

edição 106

O carro que comia bananas
Marco Ortolan  - Dormitando
Dormitando por Marco Ortolan

por Sônia (Anja Azul)

As coisas perdem o valor.
Ou perdem o lugar pra outras coisas.

Quando era guria, morria por uma praia. Literalmente.
Minha madrinha me arrastava junto.
A mãe dizia:
-- Não, desta vez não me convencem. Esta guria que nem comer come. Vai pegar insolação.
-- Não e Não.

No fim, lá me ia. E só ia porque ajudava. Carregar mala e criança mijada.Olhar os pequenos.

A casa era bem no mato. Madrinha, a filha do dono.

Eu gostava. Ver tirar leite da vaca. Ajudar a apartar os terneiros. Os cafés na beira do fogão a lenha. Até peixinhos fritos e ovos na chapa. Brincar a sombra da figueira milenar. Flagrar artes dos pequenos. Tipo quando um deles matou doze pintinhos um a um, pedra na cabeça. Ou quando o mesmo (a peste) sumiu e tivemos de campear muito até ver dois dedinhos na beira do poço. E quando a gente gritava pra sair, ele dizia:

--Ó! Com uma mão. Ó! Sem nenhuma... ops. huahuahua

Foram vários verões. Em que passeei de carro de boi. Comi rato do banhado (preá) blergh!

(Que fazer?? como ser luxenta longe da mãe). Brinquei na sanga e rolei cômoros gigantescos de areia.

Nem sabia o que era filtro solar. E minha pele branquissima sofria.
Queimaduras...bolhas...Virava pantera cor de rosa.
Para aliviar? Cachaça e polvilho.

O ruim era quando anoitecia. Dava uma dor no peito ver o sol sumindo atras do morro.
Eu que só dormia de luz acesa, tinha que me contentar com pixiricas. Lampiõezinhos de querozene. Que eram apagados ao deitar. Brrrrr
Quanta
noite em claro. Ao primeiro canto de galo, corria ver o dia nascer. E a saudade de casa passava.

Dormia onde sobrava um lugar. Por pouco sentada. Uma vez me sobrou o topo de um triliche, de cara para um buraco no forro. Um bater de asas, barulho esquisito no escuro. A menina de baixo dizendo:

--Liga não. São os morcegos.

Bah!

E morcego nem era nada. pior as pulgas. My god era tanta. Sentia que por pouco não me carregavam pro mar. Um dia me sobrou um pelego., crivado de pulgas, era colocar a mão e o formigueiro me atacava. Dormi acocorada num canto da sala.

A noite era o pior de tudo. Sentia saudade da mãe, do pai, da mana, do gato e até daquele peste de meu irmão.

No dia de voltar, mal me continha. E a viagem era longa, por uma estrada dificil e o carro era velho, cheio de manhas.

De vez em quando engasgava. Daí meu padrinho dizia:

--Já sei! Quer banana.

Puxava um cacho enorme de bananas verdes, descascava uma e enfiava no carburador, eu acho.
O bicho tossia e vrum vrummmm....Mais um trecho, até o seu próximo lanchinho.
Quando conto hoje em dia, ninguem acredita, mas juro! O carro comia bananas.

Quando chegava no portão, já chegava chorando, beijando minha mãe.. Beijando.

Mostrando minha pele vermelha, minhas bolhas, de mês e meio curtindo sol.

Nunca vou esquecer aquela sensação de voltar pra casa e encontrá-los.

Hoje estou na minha casa de praia, todo o conforto, internet, filtro 30, e mil frescuras.
Mas algo me falta...falta e dói.

Saudade!

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