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Edição 15

ENCENAÇÃO

por Lívia Santana

É chegada a hora de encerrarmos a temporada, o público demonstra sinais inequívocos de enfado, toda a companhia está extenuada. A platéia já se tornou tão exígua que os parcos aplausos ressoam quase zombeteiros pelo vazio da penumbra...

(suspiro... esfrega os dedos pelo cabelo, num gesto confuso e furioso... abre um novo arquivo e começa a digitar febrilmente)

amor ideal - Arte Sexualidade Corporalidade
Amor Ideal por Israel Zzepda

A angústia que me assola é tanta que nada consigo escrever além de textos melancólicos e desesperançados. Sinto uma sombra escura e pesada envolvendo-me o coração, que já não sabe como é não estar oprimido. Ando pela casa, sorumbático, suspirando de saudades, tentando me esconder dos olhos grandes, escuros e tristes dela.

Ela. Ah, como eu a queria de volta! Daquele jeito doce que era, e que me emocionava por vezes quase até às lágrimas. O sorriso tão claro e franco, o olhar exultante que me dirigia toda vez que eu chegava, o encaixe perfeito do seu corpo frágil em meus braços. Ela era como um pássaro canoro, enchendo de vida e alegria a casa e a vida. Tudo parecia perfeito, eterno, eu nunca tinha sido tão feliz. E agora isso.

Quem porventura lesse estas linhas pensaria estar diante do desabafo de um viúvo ou talvez de um amante abandonado. Sinto-me um pouco como ambos e, no entanto, ela está bem ali, ao alcance de minhas mãos. E não sinto a menor vontade de tocá-la.

Na verdade, não gosto mais dela. A cada dia gosto menos, se é que é possível, e sinto o enlevo escapar-me por entre os dedos lentamente. Eu a amo - oh, sim, amo muito! - por tudo o que vivemos juntos, tudo o que já fomos, o que já tivemos. E não temos mais. Já não consigo sentir ternura pelo som da sua voz ou da sua risada, como antes. Às vezes sinto mesmo indiferença. Seus olhares carinhosos já não significam nada, não são capazes de me tocar, e qualquer declaração de natureza amorosa resvala por mim sem produzir nenhum efeito.

Não que haja repulsa - ainda - apenas não me importo, a presença dela já não faz diferença. E ela sente isso. Como não sentiria, se sempre demonstrei paixão e a tratei com todos os mimos e agora, quando me dirijo a ela é para censurar-lhe por algo? Ela sente e vejo que não sabe como agir. Alterna entre crises de ressentimento e tentativas vãs de tornar ao que éramos antes. Está perdida, e nem mesmo me apiedo dela. Acuada, se fecha cada vez mais, o que tem o condão de me irritar e entristecer.

Como é duro presenciar o fim gradual de tudo que era tão belo e incrível, como é terrível me sentir impotente! É tão estranho gostar menos de alguém à medida que se conhece... Quanto mais familiar ela me parece, mais me desagrada. A forma com que ela encara o mundo não se ajusta à minha, sou obrigado a reconhecer. Não é nem de longe a companheira que eu gostaria e não entende o que tento lhe dizer. Interpreta sempre da pior maneira, como se eu a estivesse atacando e, por isso, vive se defendendo. Tenho-me sentido numa trincheira. Basta que eu diga algo que possa soar ofensivo ou que a contrarie para que a batalha seja desencadeada.

Como é possível gostar menos a cada dia da pessoa que se ama? O conhecimento está matando meu amor? Por quê? Aquela a quem realmente amo, por quem me apaixonei, seria apenas uma imagem, uma idealização? Teria ela desempenhado um papel ao nos conhecermos? Teria me enganado? Ou eu mesmo o fiz? Procurei alguém que fosse aquilo que eu queria, que preenchesse as minhas expectativas? Estarei me sentindo frustrado agora por perceber as limitações da atriz que escalei para o papel? Quis esse tempo todo que ela fosse alguém que não é na verdade?

Mas só queria que ela fosse como antes! Tão linda, meiga, esperta, desejável e dócil!...Por que tinha também que ser egoísta, teimosa, suscetível e impiedosa com os meus defeitos? Por que ela tinha que me avaliar e me reprovar? Por que não podia continuar a me olhar daquele jeito apaixonado? Era tudo tão bom antes! Ela só precisava entender que tinha que se amoldar a mim para nos encaixarmos, para vivermos em harmonia!

Como foi que a paixão se metamorfoseou em constrangimento? Por que agora o olhar dela é sempre tão triste? Onde foi que tudo ruiu? (...) Não sei. Fico pensando se há o que salvar ou se não passou de ilusão que durou tempo demais. Por que temos essa relutância em admitir o fracasso? Talvez seja o pânico de ver o tempo passar, de me sentir envelhecer e os relacionamentos falidos irem-se sucedendo inexoravelmente. Talvez a sensação de que nunca na verdade dará certo, que é impossível, estou fadado a ficar só. Que é tudo inútil e o melhor é desistir.

(suspiro)

A verdade é esta, não gosto mais dela, da pessoa que se tornou - ou que sempre foi e eu nunca enxerguei. Por que sempre temos que nos perder de quem amamos? Meu falecido pai, aquele amigo de infância que era eterno, cada mulher que já amei. Todos perdidos, inalcançáveis. Acho que estou até me acostumando.

Ela me disse outro dia que a minha frieza a assusta, e acho que estou mesmo frio. Distante, indiferente, cético. Sei que ela julga impossível que seja obra de alguma rival - tenho mesmo que admirar a segurança dela - mas de certa forma está enganada. Realmente uma outra mulher ocupa o meu pensamento: aquela que ela costumava ser. É esta que tem deixado perdido o meu olhar, que tem povoado os meus sonhos. Fico me perguntando se ela existiu mesmo ou se foi criação minha. E em alguns momentos chego a ter a certeza de que sim, eu a criei. Era perfeita demais.

 

 
Edição 14

APENAS MAIS UMA DE AMOR

por Lívia Santana



Amores não têm que ser assim ou assado. Não têm que ser eternos ou perfeitos. Não têm roteiro certo nem obedecem a estereótipos. Assim são apenas os romances emocionantes da sétima arte. No real existem de todos os tipos. Improváveis, tediosos, doentios, vulgares, fúteis, patéticos, sem sentido. E nem por isso deixam de ser amores.

amor - Arte Sexualidade Corporalidade
Amor 2 por Diego Manuel

Aqueles dois eram o que havia de mais diferente possível. Dois mundos absolutamente apartados, duas formas de viver totalmente diversas. E nem era o caso de serem opostos ou de se completarem. Nada de um ser a noite e o outro o dia, um o frio e o outro o calor. Não, nada disso, não perca tempo com devaneios românticos. Apenas eram díspares, nada tinham a ver um com o outro, nem motivo nenhum para se tornarem um par. E, a despeito de todas as probabilidades, foi o que aconteceu. Curiosidade, talvez. Nem eles mesmos sabiam o porquê de ficarem juntos, acho mesmo que não existia.

Ela era meio desenxabida, estava um pouco acima do peso e tinha constantes mudanças de humor. Ele era irascível, meio pomposo e um pouco preconceituoso. Ela era muito inteligente e tinha um lindo sorriso. Ele era muito culto e tinha um notável senso de humor. Ela trocava qualquer multidão por um bom livro ou filme. Ele sentia necessidade de barulho e badalação. Muito branca, ela não gostava de sol nem de programas "de gente saudável". Ele era atleta de fim de semana e adorava caminhar na praia. Ela, muito introspecta, ouvia a maior parte do tempo em que ele, falastrão, mal tomava o fôlego entre um assunto e outro.

Os dois formavam um casal estranho, tinham um caso de amor mal feito (mal escrito?), como se quem o idealizou tivesse se esquecido de adicionar a maioria dos ingredientes que conferem graça e encanto aos casos de amor. Mas, ainda assim, era um caso de amor e, no começo - como de costume - as coisas correram bastante bem.

O sexo parecia ótimo a julgar pelo volume dos gemidos e gritos. Ela gritava muito, sempre. Muitas vezes, mais pelo prazer de ouvir a si mesma do que pela performance do namorado. Além disso, tinha a sensação de que, se gritasse, já era um passo dado para o orgasmo, como se a ordem não fosse inversa. Ele ficava eufórico com os gritos e sentia-se cada vez mais potente. Então gozava e caía de lado, pegando no sono quase instantaneamente, com a sensação de dever cumprido.

Mesmo um pouco torto, havia excitação e enlevo no caso deles. Encantavam-se, menos um com o outro, do que com o inusitado da situação, com o desafio, com o desconhecido, é verdade, mas não deixavam de encantar-se. Nada sabiam um do outro e, por mais que conversassem, não conseguiam se comunicar de forma plena. Mas isso não foi problema durante muito tempo, já que tinham se idealizado mutuamente.

Amar um personagem é muito cômodo e lindo - este é o segredo do cinema. E estavam ambos mais interessados no que recebiam um do outro do que em qualquer coisa mais profunda.

Apenas era bom estar junto de alguém, ter com quem falar, para quem telefonar, ter alguém para dividir os acontecimentos do dia. Não importava se o outro não entendia muito bem o que escutava ou se não estava muito interessado, o mais importante era sentir que tinha alguém para ouvir. Por isso se amavam, por isso permaneciam juntos.

Passados quase quinhentos dias, no entanto, as coisas pareceram diferentes. Impossível saber quem mudara, se o relacionamento, se um dos dois, se ambos. O fato é que os pilares da realidade não eram mais fortes o suficiente para sustentar as fantasias, e até mesmo os personagens principiaram a derrocada.

De repente, ela lhe pareceu intoleravelmente gorda e preguiçosa, e passou a recomendar-lhe todos os dias que fizesse exercícios. Ele tornou-se enfadonho e irritante aos olhos dela, que não suportava mais as piadinhas costumeiras de que sempre rira. Os gritos não eram mais eficazes para garantir o gozo, e a frustração foi aumentando, de ambas as partes.

Discutiam o tempo todo e com cada vez maior ferocidade, até que ela fez as malas e deixou um bilhete, avisando que tinha ido embora. Ele ficou furioso e tentou contatá-la durante dias, sem êxito. Não teve mais notícias dela e a raiva acabou esfriando. Sentiu um vazio e ficou triste por algum tempo, mas não muito. Só até conhecer uma outra moça que tinha o sorriso dela, mas que adorava a praia e também era atleta de fim de semana. Então...

 

Edição 13

The Ghost of You

por Zander Catta Preta


“Quando eu digo que Manhattan é o meu filme, ou melhor, o filme da minha vida, as pessoas não entendem de prima. Mas quando explico que o filme trata de escolhas erradas, de atitudes exageradas sem sentido, de bad timing genético, aí que elas discordam mesmo de vez. O problema é que elas não vestem a minha pele. Não usam os meus óculos. E eu só aprendo quando olho para trás. Mas isso não evita que eu bata novamente com a cabeça no poste, quando ando pela rua da vida.”

memory of sex - Arte Sexualidade Corporalidade
Sally Davies
- In Memory of Sex (1992)

Ouvia quieto o artista ler o seu ensaio em voz alta. Estava entre inebriado e intimidado por ficar entre tantas pessoas desconhecidas e se segurava na sua máquina fotográfica como se fosse uma muleta, um escudo. Enquanto fotografava não precisava se apresentar ou justificar porque estava olhando atento a um casal ou a um grupo menor no canto. Tinha a desculpa do olhar do fotógrafo, daquele que tenta ver além do que é mostrado, de quem procura o detalhe. No caso, ele apenas procurava um canto para se esconder e se deliciar com o espetáculo das emoções humanas.

Por vezes cumprimentava um ou outra que o reconhecia do seu site, de uma foto que tinha postado ou de um outro encontro de internautas. Era conhecido por ser esperto e comunicativo, mas hoje estava mais taciturno que nunca. Nunca tinha estado naquele sebo apertado e lotado de gente.

O artista terminara sua leitura e outro tomara o seu lugar. Era uma menina. Não. Uma mulher. Linda, linda. Alta, reluzente. Os olhos brilhavam com fúria e tesão. Ele se ajoelhou para achar um ângulo melhor. Bateu seis fotos default e descansou a câmera no colo. No fim do texto, mal continha os soluços. Não poderia ficar muito tempo no mesmo lugar que ela. Não com tanta gente em volta.

Saiu desastrado no fim do evento sem se despedir dos conhecidos. Só foi guardar a câmera ao chegar na Siqueira Campos, três quadras depois do burburinho da loja. Subiu a rua ainda tonto, embriagado com as próprias emoções. Passou em frente do Bar Pérola e resolveu se encostar lá mesmo. Não trabalhararia no dia seguinte então poderia encher a cara com tranqüilidade.

Lá pelo décimo chope, viu que um tipo diferente de gente estava entrando bar adentro. Demorou um pouco para se encontrar no meio da embriaguez mas reconheceu parte do público que estava no evento literário. “Fala fotógrafo!” disse um mais animado “Pronto. Perdi o meu nome.” Pensou.

E no meio deles, lá estava ela.

“Olá.” Tremeu dos pés à cabeça. Precisava mijar. Agora! “Já volto.” Foi se aliviar no banheiro e voltou para o seu ponto de partida mais enxuto. “Olá.” Disse apressado, enxugando as mãos na calça. “Eu gosto muito das suas fotos, sabia?” “Você disse isso da outra vez.” “Mas não canso de repetir.” “O que você quer de mim?” “Nada.” “É o que eu temia.” Disfarçou um sorriso amarelo. “Você é bobo. E eu gosto disso.” “Não sou bobo. Sou mordaz e cínico. Às vezes até mau. Mas você me desmonta, sabe disso.” “Sei. E eu gosto de te desmontar.” “Mas acho que não quero mais passar por isso. Já passei boa parte de minha vida orbitando em estrelas maiores que ti e me recuso a ficar apagado na tua presença.” Ela olhou com um quê de doçura e um outro tanto de sarcasmo. Chegou bem perto. Sussurrou no seu ouvido. “Querido. Isto é impossível. Meu brilho é maior que o seu.” Afastou-se com um sorriso aberto, como se fosse uma criança brincando de dar foras decorados numa outra.

Desequilibrou-se de dentro para fora. Pagou a conta e arrastou-se para o seu apartamento. Perdeu-se no caminho entre a Siqueira e a Bolívar. Perdeu-se em cada boteco fedido que encontrava no caminho.

Amanheceu em casa, sem entender direito o que acontecia. A cabeça doía como um parto e ele xingava cada gota de álcool ingerida.

Foi até a sala e deparou-se com ela saindo do banheiro enrolada numa toalha. “O que você está fazendo?” “Me enxugando.” Não entendeu. “Você não se lembra? Voltou ao Pérola. Declamou poesias. Cantou Chico e Belchior, me carregou no colo e me amou o resto da noite. Meia-bomba, a bem da verdade, mas dou um desconto. Nunca vi homem ficar bem com tanto álcool no sangue.” “Não lembro mesmo.” “Como assim? Você é o guardião da memória, não é? É aquele que é senhor do raciocínio e do pensamento.” “É o que eu dizia na escola, e só você dava bola para isso. Hoje me esqueço das coisas e quero esquecer o mundo.” “Você tem a alma do artista, a habilidade do...” “Pára! Você sabe o quão mal isso me faz. Não precisava te encontrar. Não hoje. Larguei tudo para trás quando nós nos encontramos. Deixei estabilidade e vida morna e previsível para cair nos braços de Luna. Enlouqueci porque tinha de provar o lado de Hecate, tinha de passar por tudo isso e magoei quem eu não queria e quem eu não podia. No fim das contas, o único que se fodeu fui eu mesmo. E, quando mais precisava do teu lastro, mais precisava do teu porto seguro, você me negou. Agora vem você me tentar novamente? Vai para a sua terra. Me deixa.”

“Seu desejo é uma ordem.” Disse ela vestindo a saia. Compôs-se com habilidade e destreza de quem estava acostumada a devorar gente como se fosse um McLixo qualquer.

“Não. Péra.” “Querido, você já é passado. Só queria ter um gosto da tua memória. E, sinceramente, preferia ter esquecido.” Saiu pela porta elegantemente.

Sentou-se no sofá e não encontrou o pranto necessário. A cabeça doía demais.

Edição 12

PODER

por Lívia Santana

Eu caminhava pela sala de aula de um lado para o outro, gesticulando e falando animadamente, quando tudo aconteceu. O tema era um dos meus preferidos, as relações de poder, e só agora percebo a ironia da situação. Era como se ela tivesse escolhido aquele momento em especial para se divertir às minhas custas. Nem sei dizer o porquê de tudo ter acontecido daquela forma, tendo bastado apenas um encontro de olhares. Virei-me do quadro negro para os alunos e dei de cara com ela me olhando de um jeito diferente. Diferente como, não sei dizer, mas perdi a ação por alguns segundos, o que não passou desapercebido a ela, que sorriu triunfante.

beijo escarlate - Arte Sexualidade Corporalidade
Pastel - Beijo Escarlate (10/2005)
por Géssica Hellmann

Era linda, isso era inegável. Mas sempre olhara para ela e vira uma menina atrevida, irreverente e inteligente, que crivava o professor de perguntas sagazes e tirava dez nas provas. Nunca tinha olhado tão fundo dentro daqueles olhos pretos traiçoeiros nem tinha visto-a sorrir como mulher. Fiquei atrapalhado. Senti o rosto queimar, enquanto ela ria da minha confusão. Saí para o abrasivo sol de quase meio dia, tomei água e procurei me recompor. Minutos depois voltava à sala, e ela adquirira de novo o ar inocente, fazendo-me pensar se o ocorrido não fora criação minha, fruto do calor. Mas, encerrada a aula, ela veio me procurar, abraçando o caderno contra os seios mal contidos sob a camiseta despojada. Cumprimentou-me pela aula e disse que voltaria à noite para tirar umas dúvidas. Assenti e fiquei vendo-a se afastar. De repente, até o leve balançar dos quadris ao caminhar me parecia provocação deliberada.

Procurei deixar o acontecimento de lado, não pensar nela durante o dia todo, mas foi em vão. Quando se aproximou a hora em que ela deveria chegar, engolia em seco. Ansiava pelo próximo movimento dela, e ao mesmo tempo temia-o como à danação. Olhava a todo o momento para a entrada, esperando avistá-la, e qual não foi a minha decepção quando as horas passaram e não chegou. Dei a última aula da noite e me preparava para ir para casa, no estacionamento, quando senti uma mão pequena pousar no meu braço. Levantei os olhos, e lá estava o mesmo sorriso que me tirara o sossego havia apenas algumas horas. E parecia outra vida, mal conseguia me lembrar dela de camiseta e rabo de cavalo, mordendo a ponta da caneta. Ainda mais a olhando agora, vestida com um vestido vermelho bem curto e os cabelos escuros escorridos sobre os ombros. Os olhos pareciam ainda mais pretos e perigosos, se é que era possível.

Disfarçando a surpresa, perguntei em tom de brincadeira: "Ué, você não tinha umas dúvidas para tirar?" Compenetrada, ela respondeu que sim, sem tirar os olhos dos meus. "E quais eram?" Ela passou as mãos pelos cabelos, que teimavam em cair sobre o rosto e disparou: "Quero saber, professor, se você quer me beijar". De novo ela me deixou desconsertado e riu deliciada. Acho que a perspectiva de mexer com a minha cabeça a agradava mais do que a perspectiva de me beijar de verdade. Não sabia qual era a intenção dela, não sei mais o que pensei naquele momento, mas me vi puxando-a pelo braço e invadindo a boca vermelha com a língua. Encostei-a no carro e comprimi o corpo contra o dela, latejando dentro do jeans. Não pensava mais em nada, só a queria com furor, naquele minuto, não importava que alguém visse. Mas ela tinha outros planos. Desvencilhou-se, hábil, do meu abraço, recuou até uma distância segura e voltou a rir: "Eu perguntei se queria me beijar, professor, só isso". E, fazendo uma careta travessa, foi embora, deixando-me ali, febril e incrédulo.

Durante toda a semana seguinte ela não compareceu às aulas, o que me deixou insatisfeito e irritado. Garota maldita, tirava a minha paz e me deixava assim, doido, esperando por ela. Mas a raiva passou toda quando recebi um bilhete dela, marcando um encontro à tarde. Cheguei ao local designado, o apartamento era de uma amiga, ela me disse depois. Abriu a porta e apenas me olhou com aqueles olhos de feitiço por muito tempo, para logo em seguida me puxar pelo braço pro sofá e não mostrar resquício de hesitação. Passei a tarde inteira dentro dela e acabei descobrindo que ela se instalou ainda mais fundo em mim. Estava apaixonado. O nosso relacionamento durou exatos oito meses, durante os quais estive completamente entregue, nas mãos dela. Adorava-a por horas a fio, não me cansava de olhar para ela, que era um mistério. Tinha rompantes de fúria e ria desbragadamente minutos depois. Num momento, ela zombava da minha paixão, dizia que eu parecia adolescente. E no momento seguinte me amava com ardência, deixando-me extenuado e feliz.

Lembro do fim como se tivesse acabado de sair daquele apartamento há poucos minutos, o mesmo da primeira vez. Passáramos a tarde entre os lençóis, como fazíamos sempre que podíamos. Deitado de lado, eu a olhava, conferindo cada detalhezinho daquele corpo adorado. A pequena cicatriz no ombro, a pinta sob o seio direito, o abdome reto e macio. Perdido em devaneios incautos, observei-a levantar-se da cama, lavar-se e vestir-se, sem olhar para mim. Penteava os longos cabelos lisos, quando a abracei por trás, pretendendo um carinho. Ela colocou as mãos sobre as minhas e olhou-me diretamente nos olhos através do espelho, como se me dissesse algo. Então eu vi. Na mão direita, uma aliança dourada brilhando absurdamente, ferindo-me os olhos e os sentimentos. Por um momento não compreendi. Ela virou-se para mim, tomou meu rosto entre as mãos e sussurrou: "Adeus".

 

 
Edição 11

NE ME QUITE PAS

Zander Catta Preta

Se conheceram numa festa, dessas que hoje chamam de Ping-Pong® ou Adams® ou coisa parecida. Nada demais, nenhuma história especial. Era amiga de um amigo de uma ex-namorada de um primo. Tava todo mundo lá e ele quase que não ia. O ficante da menina pipocou antes de ir para a festa e sobrou um convite. Ele topou. Tava de bode, curtindo uma dor de corno pq a ex-namorada tava já com um outro. "Porra nem esperou o defunto esfriar!" "Cara, tem três semanas já!" "E daí? Por um acaso saí passando o rodo no dia seguinte?" "Não, seu babaca, tu já tava passando o rodo antes. Uns seis meses antes." "Porra, isso não tem nada a ver!" "Como não? Tu chifrava a menina a torto e direito e agora vem exigir que ela fique de luto pelo fim do namoro? Tu não dava a menor bola para ela e é isso aí. Vem um terceiro e rouba. O ladrão tá ali, do lado das meninas para garfar quando malandro dá mole." "Ah! Num ferra! Tô puto e tá acabado!" "Deixa de ser babaca e vamos na festa! Vai ser maneira!" "PORRA! Como é que uma festa com Paquitas vestidas pode ser maneira?" "Deixa de ser escroto e põe logo uma roupa. Passo aí em 10, beleza?" "Tá bom..."

Chegou, viu a galera, não gostou de cara. Muito cheio, entrada cara, cerveja ruim, muito barulho, não dava para tomar bala. "Quer uma cara?" "Olha a sujeira, deixa de ser mané! A festa tá visada para caralho!" "Porra! Já vi que vou ficar puto!" Foi pro banheiro dar a primeira mijada da noite. Conseguiu um canto mais discreto e mandou uma meia-estrela pra dentro. Comprou um Red Bull® e começou a quicar na pista. Pisou em vários pés, derrubou uma menina e quase começou três brigas. Foi expulso da festa.

Chegou em casa, ligou o computador. "Caralho! Não vou dormir! Tô muito aceso! Puta que pariu!" Acessou o Orkut® e viu um recado para si. "Te vi na festa. No início te achei um gato. Depois caiu a máscara e saiu um babaca. Não sei por qual dos dois me encantei mais. Me liga!" Era ela. Mal sabia que iria cortar os pulsos muito em breve por não conseguir suportar tanto amor.

Ligou no dia seguinte e marcou um encontro achando que iria encontrar uma baranga-mor. As fotos não mostravam muito, mas baseou-se no relato do primo do amigo do colega do(a) ex- que disse que ela era muito gata. Inexplicavelmente tomou um banho antes de sair de casa e até escovou os dentes.

Pegou o carro, passou na casa dela que era a três quadras dali. "PORRA! Tu vai de carro para a casa da menina?" "É que se ele for gata, já arrasto pro motel!" "Caralho, cara. Tu tá pensando o quê?" "Ué. Se ela não sabe o que é, não deve temer; se já conhece, acostumou, né?" "Puta que pariu! Só você mesmo!" Parou, ligou, buzinou e tava quase indo embora quando a menina abre a porta da portaria três minutos e quinze segundos depois do primeiro contato. "Você chegou mais cedo." "Tava ansioso para te ver, minha flor!" A menina realmente era um espetáculo. Mignonzinha, cabelos negros, escorridos ao longo do corpo, chegavam à cintura. Cintura que, de tão fina, parecia que ia partir numa freada mais brusca do carro. Ancas respeitáveis. "Boa parideira!", pensou. Seios pequenos e firmes já que não usava sutiã. Bom. Ia ser uma bela duma foda.

E foi uma bela duma foda. A melhor da vida dele. A última.

Duas semanas mais tarde, estava ligando três vezes por dia para a menina, catando contatos na internet, deixando "scraps" pagando o maior mico digital que uma pessoa conectada jamais poderia pagar. Cometeu uma dúzia de poemas de 1k e gastou uma fortuna em presentes que mandava entregar na casa dela.

Nada movia a atenção da menina.

Resolveu estreitar os contatos com todos com quem podia para fazer um "cerca lourenço" na vida dela. Os conhecidos todos desapareciam. Os olhos de desespero afastavam qualquer chance de ajuda. Afinal de contas, nunca cultivara uma amizade, apenas conhecidos, kálegas de farra.

Já estava no limite quando resolveu acampar em frente da casa da menina. Não era difícil, o apartamento dava vista para a entrada do prédio e ele tirou uma semana de férias para ficar de butuca. Ganhou uma demissão já que nem se concentrar no trabalho conseguia mais. "Melhor. Dá para ficar mais tempo em casa na vigia." Com a grana da recisão comprou um binóculo noturno e um normal. Um frigobar e uma poltrona confortável.

Não precisou esperar muito. Na segunda noite viu a menina se despedindo de outra. Com um beijo na boca. Outro beijo. Mais um. O negócio estava esquentando. Subiram.

Desceu como um louco as escadarias do prédio, correu a distância entre os quarteirões num pique só e se prostou na entrada da casa da menina. Esperou a noite inteira. Viu a outra sair pela manhã, mas não se abalou.

Quando ela saiu - "Linda, linda com a luz da manhã!" - ele a interpelou. "Por quê?", só conseguia dizer isso. "Patético." Deu um beijo na boca dele com um sorriso malvado e subiu a escadaria.

Ele voltou para casa e, súbito, sabia o que lhe restava.