Arte Sexualidade Corporalidade
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Edição 20

LEO E BIA

coração - Arte Sexualidade Corporalidade

Colagem por Géssica Hellmann

Leo era agregado da família da tia, irmã da mãe. A esta, raramente via - vivia mudando, de parceiro e de cidade. Não conhecera o pai, cuja identidade a mãe não tinha certeza. Era um incômodo: recebia casa, comida e má vontade, ocupava um sofá-cama no quartinho dos fundos. O trabalho como balconista rendia-lhe exaustão e salário mínimo, a vida era árida. Mas Leo era infeliz, não resignado. Entrou prum curso noturno e, a despeito das probabilidades, passou na prova do vestibular. Escolheu o curso levando em conta dois fatores: a dificuldade - o que excluiu a Medicina - e o status da profissão, o que tornou o Direito a opção mais indicada. Estava então num mundo novo, absurdamente vistoso e cheio de possibilidades, para quem tivesse visão. Leo sabia a quem deveria agradar e nisso se empenhou. Tornou-se parasita charmoso, desfrutando largamente dos privilégios daqueles que elegera para amigos. Gastava o salário em roupas e freqüentava os melhores lugares - sempre por conta de algum amigo pródigo. Arrumou novo emprego num escritório renomado, por indicação de um herdeiro. A boa aparência e o carisma o tornaram popular com o sexo feminino, e ele cercou-se de muitos exemplares. Finalmente, era tratado como merecia. Vendo-o, julgavam tratar-se de um deles, equívoco que ele fazia questão de estimular.
Bia tinha biótipo de boneca. Olhos grandes e muito azuis, tez muito branca e suave, longos e brilhantes cabelos louros. Longilínea. Delgada. Quase etérea. A princesa dos contos de fadas, se princesas fossem depressivas e tivessem um grave problema de auto-estima. Filha de pais separados, detestava a madrasta e tinha aversão aos filhos do padrasto, razão pela qual os pais montaram-lhe um apartamento na cidade vizinha. Deram-lhe um carro, polpuda mesada e autonomia. Pagavam as contas. A vida era mansa. Raramente ligava para a mãe. Acostumou-se à solidão, embora a odiasse. Talvez para preencher o vazio, envolvia-se incessantemente em problemas. Seus relacionamentos sempre resultavam em lágrimas, como se tivesse mórbido prazer em precisar de drogas para dormir. Entre uma decepção e outra, foi para universidade. Não muito afeita a esforços, escolheu um curso que não exigisse grandes aptidões e a tornasse profissional - o Direito. Foi alvo de grande assédio desde o princípio: aparentava ser o tipo de garota ideal a ser exibida, como um troféu. Entretanto, Bia tinha fome de grandes amores e pendor irresistível a grandes dramas. Queria mistérios, rituais de conquista, obstáculos a serem superados. Algo que a frivolidade dos rapazes não conseguia alcançar e, portanto, nenhum obteve êxito.
Leo e Bia colidiram no campus numa
noite fria dessas. Delicada, ela teve um hematoma. Ele a cobriu de atenções - machucara um anjo! Encantaram-se. Ela era o luxo perfeito para arrematar a vida dourada que ele tinha idealizado. Ele trazia nos olhos todo o mistério e a intensidade de que ela precisava. Belos, formaram vistoso casal. O sentimento, arrebatador no princípio, cresceu exponencialmente com o passar dos meses. A paixão era óbvia, até incomodava. Os grandes olhos azuis dela sorriam ao vê-lo, os escuros dele estreitavam-se ainda mais, ardentes. Adotaram como sua a música homônima, considerando um prelúdio do "felizes para sempre". Pertenciam-se, era um sinal. Criaram pra si um mundo à parte. Ela dedicou-se a ele e afastou-se das amigas, as quais admiraram a entrega e velavam pela felicidade do par. Ele ficou orgulhoso de tê-la consigo - o que nenhum dos amigos conseguira - e procurou conservar apenas os companheiros de farra mais influentes, que envenenavam sutilmente a relação. Independente do que achassem do casal, os colegas habituaram-se a vê-los sempre juntos. Tanto, que não deixaram de notar quando Leo apareceu sozinho por seguidas vezes. Ele não encorajou perguntas, ninguém insistiu. Ao cabo de uma semana, Bia voltou ao braço do namorado, sorridente. Tivera uma gripe, só isso. Estava tudo bem, o incidente foi esquecido. Mas o sorriso de Bia deixara os olhos, mal chegava aos lábios. Leo estava inquieto, suscetível, ciumento. Impetuoso, parecia vigiá-la. Ela empregava toda a energia em ser natural e garantia que tudo corria bem. Tornou-se mais esquiva e ele foi visto de novo em companhia dos amigos dissolutos. Discutiram em público pela primeira vez. Mesmo visivelmente apaixonados, chegara o tempo do drama. Bia empalidecia e Leo assombreava-se. As brigas em público sucediam-se, cada vez mais terríveis, seguidas de tórridas reconciliações. Ninguém se surpreendia mais com a tormenta quando Bia teve outro hematoma, este no pulso. Outro tombo, nada sério, ninguém precisava se preocupar. Ela repeliu aproximações e negou, veemente, que tivesse algum problema. Mas foi internada em seguida e os ferimentos não deixavam margens a enganos. Surda a qualquer argumento, Bia asseverou que a culpa era dela. Não era capaz de entender o quanto Leo a amava e ele apenas mostrava o quanto ela o magoava. Ela tinha que aprender. Afinal, estavam destinados. Leo e Bia tinham que saber se amar. O que ela não considerou é que o primeiro sinal do destino não tinha sido a música e sim o hematoma. Essa consideração coube à mãe, inconsolável quando, semanas depois, o caixão foi velado com a tampa cerrada.



Lívia Santana.

 

 
Edição 19

GATO ESCALDADO

Como alguém que fita o sol dourado
E vê depois em tudo um círculo encarnado
Tal eu quando não estás e meu sol é posto
Vejo, em tudo o que vejo, o brilho do seu rosto.

(C. de Bergerac)

beijo - Arte Sexualidade Corporalidade
Tela por Angélica Pedroso

Ah, o amor! Esta doce prisão a que nos submetemos voluntariamente! Sentimento sublime que está em toda parte desde que o mundo é mundo e enseja as maiores e melhores histórias ao longo do tempo. Os amargos, os platônicos e os desesperados, dão os melhores dramas. Comédias têm os comuns, os insossos e os vulgares. Thrillers exploram os loucos, os passionais e os psicóticos. Os suaves, os bonitos e os eternos são materiais dos romances. Encontra-se em todas as embalagens, cores, tamanhos, formatos, preços, é só procurar um que sirva e que seja do agrado. O que foi? Falando assim pareceu mercadoria? Há quem encare assim, pode estar certo. E há quem ache que mais se parece com um jogo. Bem, há gosto pra tudo, não?

Andando pela rua, olhando vitrines, distraída, Ângela levou um susto quando um homem apressado esbarrou nela, derrubando sua bolsa e a sacola com o disco do Buena Vista Social Club no chão. Guilherme. Era alto, tinha cabelos castanhos claros, longos cílios escuros, mãos grandes e usava um perfume delicioso. Pediu mil desculpas, recolheu as coisas do chão e segurou-lhe a mão, insistindo para que ela fosse tomar um café com ele, era o mínimo que podia fazer. Ele estava tão bem vestido, era tão gentil, que ela consentiu. Foi o começo. Um ano depois, estavam enviando convites de casamento.

Viveram felizes durante cinco anos, enquanto Guilherme manteve a possessividade e níveis razoáveis. Ele sabia de tudo o que acontecia a Ângela e passou a querer controlar também os seus pensamentos. Sufocava-a, observava-a. E mentia o tempo todo, sobre tudo, mesmo sem precisar. Era compulsivo. Por fim, ela cansou-se daquela vida insólita e pediu o divórcio, foi embora, deixando-o inconformado. Mas, a despeito das previsões, ele não a procurou mais.

Aliviada, Ângela decidiu reconstruir a vida. Era jovem, tinha apenas trinta e três anos e sentia que podia conhecer muita coisa ainda. Procurou uma casa pequena com um jardim e decorou com bastante bom gosto e simplicidade. Tudo seria assim, dali pra frente, simples e sadio, nada mais de neuroses e neuróticos em sua vida. Tinha bastante dinheiro, herdado da mãe, mas mesmo assim, empregou-se numa agência de publicidade. Comprou uma bicicleta e um cachorro, o Du, um filhote de São Bernardo. Arrumou vídeo clube, colocou a leitura em dia, conheceu pessoas. Saiu pra dançar, pra jantar, acampou e fez até rappel.

Divertia-se imensamente e voltara a ser feliz. Mas nenhum homem que tentava se aproximar a interessava. Para preencher o tempo em que costumava ficar com o marido, Ângela conheceu a internet. Gostava muito de trocar idéias e rir, logo conheceu pessoas muito interessantes, mas continuava arisca com o sexo masculino.

Naquela noite, não tinha conseguido conciliar o sono. Sentou-se ao computador e conferiu os e-mails, procurando alguma distração. Tinha recebido um que lhe chamou a atenção e logo entabulou conversa com o remetente, Alex, que era realmente envolvente. Engraçado e inteligente, raciocinava rápido e fazia ótimas piadas. Ela estava gostando imensamente do papo. Trocaram impressões sobre obras de arte, livros, músicas, lugares que tinham visitado. O gosto de ambos coincidia em muitas coisas, era delicioso encontrar alguém que comentasse mais detidamente as mesmas coisas que ela. Ele era quase perfeito. Era como se dissesse exatamente o que ela queria ouvir.

A esse pensamento, Ângela estacou. Era isso! Ele era perfeito demais, sabia todas as respostas, acertava em cheio! Miserável!

- Alex por acaso seu nome não é Guilherme?
- E por que meu nome seria Guilherme?
- Não me responda com outra pergunta ou eu vou embora agora, sem nenhuma outra palavra!
- Calma, Ângela, eu não estou entendendo nada! O que foi que eu fiz? Achei que estávamos nos dando bem!
- É esse o problema, estamos nos dando bem demais. Ou você é o Guilherme ou conhece o Guilherme. Fala logo, é você? Ou ele te instruiu? Fala!
- Ângela, o que é isso, eu nem conheço nenhum Guilherme... Quem é Guilherme?
- Ah, seu mentiroso duma figa, você me paga!

Ângela desconectou da internet e desligou o computador, furiosa, prometendo a si mesma que não caía mais na lábia daquele maníaco. Abriu uma garrafa de vinho e tomou tudo, adormecendo lá pelas quatro da matina.

Do outro lado, Alex não entendeu nada quando Ângela desconectou do papo deles, depois de ter se comportado como louca. Ele desligou o computador resmungando: "Eu, hein, que mulher doida... Não mexo mais com essa coisa de internet, vou é ligar pra Lu que eu ganho mais".


Lívia Santana.

 

Edição 18

A Não Amada

Rocca Stockler

Todo dia aparecia a tal fulana. Cada dia uma desculpa diferente. Cada desculpa mais escorregadia que a outra. Todos os dias, pontualmente, surgia a tal pelas ruas. Sozinha, sempre sozinha.

Previsível, sim! Não há desculpa que convença quando o desfecho do encontro termina com mesmo sorriso, pra mesma pessoa. E assim foi e, por vezes, voltar a ser o convívio sempre podado bruscamente com tal espécime: A NÃO amada!

diego pale - Arte Sexualidade Corporalidade

Ilustração por Diego Pale

Tenha um inimigo onipotente, mas não tenha uma NÃO amada por perto. -- Pessoa sem paixão é feia. Usa adereços pra embelezar o que está morto. É amiga do caos e da desordem dos lares alheios, é claro!

NÃO amada é ciumenta, faz do sorriso alheio sua posse. Ela consegue transformar um convívio saudável no palco do seu ventríloquo. Manipuladora, a marvada revira o mundo pra mexer em tudo de todos, por único motivo: Ninguém mexe nela!

É uma coitada. Vergonhosamente coitada por mostrar ser o que nunca será: feliz! 547 faces numa só. A mascarada usa pessoas como oportunidades pra se dar bem. Na real a NÃO amada usa tudo menos o que teria de usar: a si própria!

Ela tem o pior de todos defeitos: orgulho, o pecado completo! Marido da vaidade, pai da inveja e irmão da cobiça. Tanta pompa pra esconder única bagagem: apatia! Elas são eternos sinônimos da apatia geral. Dignas de dó!

Flores de plástico precisam de sombras!

Ah, se a tal se preocupasse mais com próprio umbigo, provavelmente seriamos mais felizes. Sim, seríamos, olhe atentamente ao redor e verá inúmeras delas...

A única coisa respeitável numa NÃO amadas é incrível capacidade de nunca colocar carapuça sequer que eu mando. Bendiga el dios. Nem reza braba consegue tal feito.

Ta bom vai: 547 linhas em saldo negativo. Agora poucas palavras saldo positivo: O que seria dos escritores sem uma bela_feia NÃO amada? -- Um dia inda escrevo uma vilã, NÃO amada e NÃO comida. Elas vendem horrores...

Tomara que uma delas escreva sobre as despeitadas...

... Tem ardida cuspindo fogo pra proteger a prole!

 

Edição 17

Sweet little sixteen

Zander Catta Preta


Saíram do cinema abraçados, como se fossem dois namorados. Deram vexame durante a exibição da fita, quando pararam para tomar um
café, antes de entrar no carro, dentro do carro, nos sinais, até mesmo quando ela estacionou para deixá-lo em casa.

amantes - Arte Sexualidade Corporalidade
Los Amantes por Ramón Crespo

“Sobe?” Diz ele ao se prepara para saltar do carro. “Não posso.” Ela responde sem muita convicção. “Porquê?” “Você sabe.” “Você pode sim. Não quer.” “Não posso. Ele pode chegar a qualquer momento.” “Dane-se ele! Aliás, dane-se tudo! Você sabe que ele tá comendo meio mundo agora! E a outra metade comeu pela manhã! E você não o ama mais!” “Para com isso! Aqui no meio da rua! E se um vizinho passa por aqui?” “Melhor! Assim você tem de assumir tudo logo de uma vez e paramos com essa palhaçada. Porra! Faz cinco anos que saímos quase todo fim de semana. O cara viaja na quinta, sobe pra Petrópolis, Teresópolis, Patópolis, sei lá, e te deixa aqui para eu tomar conta.” “Pára! Você sabe que não é assim! Eu te amo, mas eu o amo também!” “Ama? Como se ama um cara com quem você não transa faz dois anos e meio?” “Porra. Vamos ter essa conversa aqui, no meio da rua?” “Não. Podemos subir e ter essa conversa lá em cima, se quiser. E eu sei que você quer.”

Subiram tensos os lances de escada até o terceiro andar. Era uma apartamento antigo em Botafogo. Daqueles com varanda ampla e salas enormes e cozinhas monumentais. Tinha apenas o inconveniente de não ter elevador mas, melhor, o condomínio ficava mais em conta. Ele tinha alugado-o numa distração do proprietário. Era um esquema de aluguel para conhecidos de conhecidos e ele quase que conhecia alguém que estava deixando o apê. Deu uma de João-sem-braço e se ofereceu como candidato à vaga. Sorte que foram com a cara dele e conseguiu alugar sem que pensassem duas vezes ou pedissem suas referências. Estava lá há três anos e não pretendia se mudar tão cedo dali.

Abriram a porta do apê. Ela se sentia em casa, mas essa era uma sensação que lhe incomodava tremendamente. Estava tudo errado. Ela era casada, tinha três filhos lindos e saudáveis. O marido sempre lhe fora carinhoso e atencioso. Até ela o conhecer de verdade. Antes de descobrir que ele pulava mais a cerca que carneiro rebelde. Daí para ela encontrar um amante foi um passo fácil. No início se sentia suja, mas aprendeu a gostar da sujeira, de se emporcalhar com o corpo do outro, a se sentir desejada, cortejada, a fazer com que gozassem com o seu gozo e a tomar o suor do outro como quem toma um copo de alma alheia. Comia os amantes como quem faz desejum em hotel. Dava na pinta. Deixava dicas. E ele parecia gostar disso. Devia gostar mesmo, o puto. Não lhe amava. Não sabia lhe dar valor. Não mais lhe beijava em público, tampouco lhe roçava as mãos nas ancas ou nas coxas quando se aproximava por trás. A sua nuca já lhe era território virgem novamente. Aliás, virgem nada. Ele que se fiava por mapas velhos enquanto outros aventureiros abriam bandeiras por ali. Ela era a fêmea-alfa agora. E ele apenas o provedor dos filhos.

“São cinco anos que estamos juntos e você nunca mais falou em largar aquele cara. Você já não o ama! E sei que não sou o teu primeiro amante. Você mesma disse isso para mim.”

Ele falava como quem implora e isso era o quem mais a irritava. De início era bonitinho ter um macho que falava fino quando ela mostrava a que veio, quando se mostrava dona da situação e colocava-os no seu lugar, de consolo que beija e anda. Esse nem era especialmente bonito, forte ou viril. Como dizia, era exatamente isso que ela achava interessante de início. E ele era do tipo medroso, um lucky bastard na escala evolutiva. Fugiu do leão ao invés de enfrentá-lo e sobreviveu para dar cria. Gerou toda uma linhagem de covardes, cagões que não honravam as bolas por conta dessa cepa ruim, desprovida de brios e amor-próprio.

Com ela não era diferente. Se dissesse para ele passear de mãos dadas em pleno Centro Comercial de Copacabana ele se derretia como criança no dia doze de outubro. Se ela mandasse ele não olhar na cara dela enquanto andavam pelo Fashion Mall, ele se portava como empregadinho subjugado. Talvez por isso tenha durado tanto. Cinco anos nessa mesma merda e ele só começou a reclamar agora. Deve ter mulher nova nessa história.

“Eu tô vendo uma outra pessoa. Estou saindo com a Ângela.” “Com quem? Aquela vadia? Hahahahahahahaahaha!” “Não fala assim dela. Ela me ama!” “Ama porra nenhuma. É uma mal-comida que tá doida para amarrar o primeiro mané.” “Porra! Ela quer ficar comigo. Será que você não sacou que tô de saco cheio dessa vida de piroca de gaveta? Quero acordar do seu lado uma vez na vida. Ou melhor, quero acordar do lado de qualquer mulher que me queira.” “Mas, bicho, a Ângela? Ela é pagodeira. E vai em micareta. Não tem nada a ver contigo!” “Foda-se! Ela quer dormir comigo, me apresentar aos amigos dela e eu a apresentarei aos meus.” “Que amigos, cara? Os coleguinhas de vinte anos dela? PORRA, você é dezesseis anos mais velho que ela.” “Pois é. Dezenove anos e na flor da idade e me quer.”

Isso era o que mais lhe incomodava. Por mais que dividissem os prazeres e as confissões mútuas, ela nunca queria saber de sua vida offline e ele era barrado ao tentar saber mais da dela. A sua defesa era tão adaptada ao seu modo de agir que ele nem mais tentava forçar uma situação. Não mais se convidava para eventos ou tentava descobrir onde ela iria e com quem. Aceitara que seria chamado quando fosse conveniente e pronto. De início, isso bastava. Ela era linda, poderosa e se portava como uma deusa do sexo. Uma devota de Istar que se erguia gigante nos seus quase metro e meio. Um olhar bastava para trazer da inação o mais desanimado dos seres. Mas Ângela não ficava atrás e ela sabia disso. Sabia que dali pra frente ela não seria mais quem guiaria a relação. Ela teria os seus homens e ele as suas fêmeas. “Mais e melhores que você.” Pensou baixinho no verso do Chico Buarque.

“Você não vai aturá-la mais de dois meses.” “Que seja! Mas serão dois meses sensacionais.” “Cara. Você não dirige e ela só pensa em carro, cachorro e samba.” “Eu ensinarei coisas novas a ela. Mostrarei o que a vida tem de bom.” “Vai ensinar o quê? As novas vertentes do Rock Inglês? As composições atonais do Arrigo Barnabé? Filosofia Moderna? A teoria do Inifinitesimal de Hegel?” “Leibnitz. É do Leibnitz. Definição do limite. ‘Deus está no limite.’” “Ha! Duvido até que ela leia qualquer coisa que você dê a ela.” “Na boa? Prefiro viver um amor furtado que isso que temos hoje. Não dá mais.” Ela levantou-se, pegou a bolsa, dirigiu-se à porta. “Babaca.”

Desceu calmamente a escada. Entrou no carro. Mal conseguiu colocar a chave na ignição de tanto que as mãos tremiam.

“PORRA! Não posso chorar por esse babaca.”

Lentamente o céu se solidarizou com a dor da segunda rejeição de sua vida.

 

 
Edição 16 A SOLA

por Lívia Santana

Ulisses atravessou a rua correndo esbaforido e escapou por um triz de ser atropelado pelo ônibus que passava em alta velocidade. Chegando à calçada, tropeçou, perdeu o equilíbrio e caiu no chão, indo parar entre os pés dos transeuntes apressados, com um esfolado ardido na palma da mão direita. "Droga!". Sob os olhares de estranheza de alguns passantes que pararam para vê-lo caído - como tem gente que gosta de apreciar os tombos alheios, impressionante! - ele se pôs rapidamente de pé e continuou a corrida, olhando febril para todos os lados e principalmente para o chão, como se tivesse perdido alguma coisa.

hans bellmer - Arte Sexualidade Corporalidade
Unica avec l'oeil-sexe (1961) por Hans Bellmer

Nesse ritmo trombou numa senhora e derrubou os livros de uma garota, mas nem assim se deteve, pensando exasperado: "Por que é que tem tanta mulher nessa calçada?". Andou naquele passo louco por mais três quarteirões, quando finalmente parou e sorriu, aparentando ter encontrado o que estava procurando. Respirando fundo várias vezes, ele cuidou que o coração não saltasse do peito pela boca, da corrida e da emoção. Os olhos brilhavam, dir-se-ia ter ele achado um tesouro. E era mesmo um tesouro, algo único, precioso!

Deu alguns passos vacilantes e ficou olhando com ternura para ele. Lá estava, um pouco à frente, absolutamente lindo e perfeito. Magro, daquele jeito que deixa ver as articulações sob a pele, bronzeado, delicado, bem cuidado. Daquele tipo que dava vontade de tocar. Ulisses tinha a certeza de que seria suave e quente ao toque e que teria um perfume especial e discreto. Mal podia conter o impulso de acariciá-lo, beijá-lo, mordê-lo! Sentia a boca seca de vontade de massagear-lhe o peito e lamber-lhe os dedos um a um, com lascívia. Estremecia só em pensar, antecipava o prazer sublime. Temia não merecê-lo - ele era tão maravilhoso! - mas nada o impediria de tentar.

Apressou o passo, era agora ou nunca. Mas estacou, sentindo o coração parar e ficou olhando, assombrado. "A sola... Ah não, a sola eu não agüento... Assim ela me mata!..."

A moça que Ulisses seguia encostou-se numa parede, tirou a sandália e levantou o pé esquerdo a fim de arrumar a correntinha prateada que pendia do tornozelo. Tinha longos cabelos negros, silhueta longilínea, traços harmônicos. Era muito bonita, mas Ulisses não vira isso. Ele apenas tinha visto os pés pequenos e delgados, que apareciam sob a saia branca longa que ela usava. Era o pé mais lindo que ele já vira e a paixão fora instantânea. Só não estava preparado para ver a sola assim, no primeiro encontro.