![]() |
|
|||||||||||||
| Patrocínio: Petrotec - Máquinas e Equipamentos para construção civil | MM Expositores - manequim, balcão para lojas | Lingerie by Marta Campos Underwear | Decora Brasil - Móveis Casa e Decoração de Interiores |
||||||||||||||
| Edição 20 |
Leo era agregado da família da tia, irmã
da mãe. A esta, raramente via - vivia mudando, de parceiro e de
cidade. Não conhecera o pai, cuja identidade a mãe não
tinha certeza. Era um incômodo: recebia casa,
comida e má vontade, ocupava um sofá-cama no quartinho dos
fundos. O trabalho como balconista rendia-lhe exaustão e salário
mínimo, a vida era árida. Mas Leo era infeliz, não
resignado. Entrou prum curso noturno e, a despeito das probabilidades,
passou na prova do vestibular. Escolheu o curso levando em conta dois
fatores: a dificuldade - o que excluiu a Medicina - e o status da profissão,
o que tornou o Direito a opção mais indicada. Estava então
num mundo novo, absurdamente vistoso e cheio de possibilidades, para quem
tivesse visão. Leo sabia a quem deveria agradar e nisso se empenhou.
Tornou-se parasita charmoso, desfrutando largamente dos privilégios
daqueles que elegera para amigos. Gastava o salário em roupas e
freqüentava os melhores lugares - sempre por conta de algum amigo
pródigo. Arrumou novo emprego num escritório renomado, por
indicação de um herdeiro. A boa aparência e o carisma
o tornaram popular com o sexo feminino, e ele cercou-se de muitos exemplares.
Finalmente, era tratado como merecia. Vendo-o, julgavam tratar-se de um
deles, equívoco que ele fazia questão de estimular.
|
|||||||||||||
| Edição 19 |
Como alguém que fita o sol dourado (C. de Bergerac)
Ah, o amor! Esta doce prisão a que nos submetemos voluntariamente! Sentimento sublime que está em toda parte desde que o mundo é mundo e enseja as maiores e melhores histórias ao longo do tempo. Os amargos, os platônicos e os desesperados, dão os melhores dramas. Comédias têm os comuns, os insossos e os vulgares. Thrillers exploram os loucos, os passionais e os psicóticos. Os suaves, os bonitos e os eternos são materiais dos romances. Encontra-se em todas as embalagens, cores, tamanhos, formatos, preços, é só procurar um que sirva e que seja do agrado. O que foi? Falando assim pareceu mercadoria? Há quem encare assim, pode estar certo. E há quem ache que mais se parece com um jogo. Bem, há gosto pra tudo, não? Andando pela rua, olhando vitrines, distraída,
Ângela levou um susto quando um homem apressado esbarrou nela, derrubando
sua bolsa e a sacola com o disco do Buena Vista Social Club no chão.
Guilherme. Era alto, tinha cabelos castanhos claros, longos cílios
escuros, mãos grandes e usava um perfume delicioso. Pediu mil desculpas,
recolheu as coisas do chão e segurou-lhe a mão, insistindo
para que ela fosse tomar um café
com ele, era o mínimo que podia fazer. Ele estava tão bem
vestido, era tão gentil, que ela consentiu. Foi o começo.
Um ano depois, estavam enviando convites de casamento. Naquela noite, não tinha conseguido conciliar o
sono. Sentou-se ao computador e conferiu os e-mails, procurando alguma
distração. Tinha recebido um que lhe chamou a atenção
e logo entabulou conversa com o remetente, Alex, que era realmente envolvente.
Engraçado e inteligente, raciocinava rápido e fazia ótimas
piadas. Ela estava gostando imensamente do papo. Trocaram impressões
sobre obras de arte, livros, músicas, lugares que tinham visitado.
O gosto de ambos coincidia em muitas coisas, era delicioso encontrar alguém
que comentasse mais detidamente as mesmas coisas que ela. Ele era quase
perfeito. Era como se dissesse exatamente o que ela queria ouvir. - Alex por acaso seu nome não é Guilherme? Ângela desconectou da internet e desligou o computador, furiosa, prometendo a si mesma que não caía mais na lábia daquele maníaco. Abriu uma garrafa de vinho e tomou tudo, adormecendo lá pelas quatro da matina. Do outro lado, Alex não entendeu nada quando Ângela desconectou do papo deles, depois de ter se comportado como louca. Ele desligou o computador resmungando: "Eu, hein, que mulher doida... Não mexo mais com essa coisa de internet, vou é ligar pra Lu que eu ganho mais".
|
|||||||||||||
| Edição 18 |
Todo dia aparecia a tal fulana. Cada dia uma desculpa diferente. Cada desculpa mais escorregadia que a outra. Todos os dias, pontualmente, surgia a tal pelas ruas. Sozinha, sempre sozinha. Previsível, sim! Não há desculpa que convença quando o desfecho do encontro termina com mesmo sorriso, pra mesma pessoa. E assim foi e, por vezes, voltar a ser o convívio sempre podado bruscamente com tal espécime: A NÃO amada!
Tenha um inimigo onipotente, mas não tenha uma NÃO amada por perto. -- Pessoa sem paixão é feia. Usa adereços pra embelezar o que está morto. É amiga do caos e da desordem dos lares alheios, é claro! NÃO amada é ciumenta, faz do sorriso alheio sua posse. Ela consegue transformar um convívio saudável no palco do seu ventríloquo. Manipuladora, a marvada revira o mundo pra mexer em tudo de todos, por único motivo: Ninguém mexe nela! É uma coitada. Vergonhosamente coitada por mostrar ser o que nunca será: feliz! 547 faces numa só. A mascarada usa pessoas como oportunidades pra se dar bem. Na real a NÃO amada usa tudo menos o que teria de usar: a si própria! Ela tem o pior de todos defeitos: orgulho, o pecado completo! Marido da vaidade, pai da inveja e irmão da cobiça. Tanta pompa pra esconder única bagagem: apatia! Elas são eternos sinônimos da apatia geral. Dignas de dó! Flores de plástico precisam de sombras! Ah, se a tal se preocupasse mais com próprio umbigo, provavelmente seriamos mais felizes. Sim, seríamos, olhe atentamente ao redor e verá inúmeras delas... A única coisa respeitável numa NÃO amadas é incrível capacidade de nunca colocar carapuça sequer que eu mando. Bendiga el dios. Nem reza braba consegue tal feito. Ta bom vai: 547 linhas em saldo negativo. Agora poucas palavras saldo positivo: O que seria dos escritores sem uma bela_feia NÃO amada? -- Um dia inda escrevo uma vilã, NÃO amada e NÃO comida. Elas vendem horrores... Tomara que uma delas escreva sobre as despeitadas... ... Tem ardida cuspindo fogo pra proteger a prole!
|
|||||||||||||
| Edição 17 |
Zander Catta Preta
“Sobe?” Diz ele ao se prepara para saltar do carro. “Não posso.” Ela responde sem muita convicção. “Porquê?” “Você sabe.” “Você pode sim. Não quer.” “Não posso. Ele pode chegar a qualquer momento.” “Dane-se ele! Aliás, dane-se tudo! Você sabe que ele tá comendo meio mundo agora! E a outra metade comeu pela manhã! E você não o ama mais!” “Para com isso! Aqui no meio da rua! E se um vizinho passa por aqui?” “Melhor! Assim você tem de assumir tudo logo de uma vez e paramos com essa palhaçada. Porra! Faz cinco anos que saímos quase todo fim de semana. O cara viaja na quinta, sobe pra Petrópolis, Teresópolis, Patópolis, sei lá, e te deixa aqui para eu tomar conta.” “Pára! Você sabe que não é assim! Eu te amo, mas eu o amo também!” “Ama? Como se ama um cara com quem você não transa faz dois anos e meio?” “Porra. Vamos ter essa conversa aqui, no meio da rua?” “Não. Podemos subir e ter essa conversa lá em cima, se quiser. E eu sei que você quer.” Subiram tensos os lances de escada até o terceiro andar. Era uma apartamento antigo em Botafogo. Daqueles com varanda ampla e salas enormes e cozinhas monumentais. Tinha apenas o inconveniente de não ter elevador mas, melhor, o condomínio ficava mais em conta. Ele tinha alugado-o numa distração do proprietário. Era um esquema de aluguel para conhecidos de conhecidos e ele quase que conhecia alguém que estava deixando o apê. Deu uma de João-sem-braço e se ofereceu como candidato à vaga. Sorte que foram com a cara dele e conseguiu alugar sem que pensassem duas vezes ou pedissem suas referências. Estava lá há três anos e não pretendia se mudar tão cedo dali. Abriram a porta do apê. Ela se sentia em casa, mas essa era uma sensação que lhe incomodava tremendamente. Estava tudo errado. Ela era casada, tinha três filhos lindos e saudáveis. O marido sempre lhe fora carinhoso e atencioso. Até ela o conhecer de verdade. Antes de descobrir que ele pulava mais a cerca que carneiro rebelde. Daí para ela encontrar um amante foi um passo fácil. No início se sentia suja, mas aprendeu a gostar da sujeira, de se emporcalhar com o corpo do outro, a se sentir desejada, cortejada, a fazer com que gozassem com o seu gozo e a tomar o suor do outro como quem toma um copo de alma alheia. Comia os amantes como quem faz desejum em hotel. Dava na pinta. Deixava dicas. E ele parecia gostar disso. Devia gostar mesmo, o puto. Não lhe amava. Não sabia lhe dar valor. Não mais lhe beijava em público, tampouco lhe roçava as mãos nas ancas ou nas coxas quando se aproximava por trás. A sua nuca já lhe era território virgem novamente. Aliás, virgem nada. Ele que se fiava por mapas velhos enquanto outros aventureiros abriam bandeiras por ali. Ela era a fêmea-alfa agora. E ele apenas o provedor dos filhos. “São cinco anos que estamos juntos e você nunca mais falou em largar aquele cara. Você já não o ama! E sei que não sou o teu primeiro amante. Você mesma disse isso para mim.” Ele falava como quem implora e isso era o quem mais a irritava. De início era bonitinho ter um macho que falava fino quando ela mostrava a que veio, quando se mostrava dona da situação e colocava-os no seu lugar, de consolo que beija e anda. Esse nem era especialmente bonito, forte ou viril. Como dizia, era exatamente isso que ela achava interessante de início. E ele era do tipo medroso, um lucky bastard na escala evolutiva. Fugiu do leão ao invés de enfrentá-lo e sobreviveu para dar cria. Gerou toda uma linhagem de covardes, cagões que não honravam as bolas por conta dessa cepa ruim, desprovida de brios e amor-próprio. Com ela não era diferente. Se dissesse para ele passear de mãos dadas em pleno Centro Comercial de Copacabana ele se derretia como criança no dia doze de outubro. Se ela mandasse ele não olhar na cara dela enquanto andavam pelo Fashion Mall, ele se portava como empregadinho subjugado. Talvez por isso tenha durado tanto. Cinco anos nessa mesma merda e ele só começou a reclamar agora. Deve ter mulher nova nessa história. “Eu tô vendo uma outra pessoa. Estou saindo com a Ângela.” “Com quem? Aquela vadia? Hahahahahahahaahaha!” “Não fala assim dela. Ela me ama!” “Ama porra nenhuma. É uma mal-comida que tá doida para amarrar o primeiro mané.” “Porra! Ela quer ficar comigo. Será que você não sacou que tô de saco cheio dessa vida de piroca de gaveta? Quero acordar do seu lado uma vez na vida. Ou melhor, quero acordar do lado de qualquer mulher que me queira.” “Mas, bicho, a Ângela? Ela é pagodeira. E vai em micareta. Não tem nada a ver contigo!” “Foda-se! Ela quer dormir comigo, me apresentar aos amigos dela e eu a apresentarei aos meus.” “Que amigos, cara? Os coleguinhas de vinte anos dela? PORRA, você é dezesseis anos mais velho que ela.” “Pois é. Dezenove anos e na flor da idade e me quer.” Isso era o que mais lhe incomodava. Por mais que dividissem os prazeres e as confissões mútuas, ela nunca queria saber de sua vida offline e ele era barrado ao tentar saber mais da dela. A sua defesa era tão adaptada ao seu modo de agir que ele nem mais tentava forçar uma situação. Não mais se convidava para eventos ou tentava descobrir onde ela iria e com quem. Aceitara que seria chamado quando fosse conveniente e pronto. De início, isso bastava. Ela era linda, poderosa e se portava como uma deusa do sexo. Uma devota de Istar que se erguia gigante nos seus quase metro e meio. Um olhar bastava para trazer da inação o mais desanimado dos seres. Mas Ângela não ficava atrás e ela sabia disso. Sabia que dali pra frente ela não seria mais quem guiaria a relação. Ela teria os seus homens e ele as suas fêmeas. “Mais e melhores que você.” Pensou baixinho no verso do Chico Buarque. “Você não vai aturá-la mais de dois meses.” “Que seja! Mas serão dois meses sensacionais.” “Cara. Você não dirige e ela só pensa em carro, cachorro e samba.” “Eu ensinarei coisas novas a ela. Mostrarei o que a vida tem de bom.” “Vai ensinar o quê? As novas vertentes do Rock Inglês? As composições atonais do Arrigo Barnabé? Filosofia Moderna? A teoria do Inifinitesimal de Hegel?” “Leibnitz. É do Leibnitz. Definição do limite. ‘Deus está no limite.’” “Ha! Duvido até que ela leia qualquer coisa que você dê a ela.” “Na boa? Prefiro viver um amor furtado que isso que temos hoje. Não dá mais.” Ela levantou-se, pegou a bolsa, dirigiu-se à porta. “Babaca.” Desceu calmamente a escada. Entrou no carro. Mal conseguiu colocar a chave na ignição de tanto que as mãos tremiam. “PORRA! Não posso chorar por esse babaca.” Lentamente o céu se solidarizou com a dor da segunda rejeição de sua vida.
|
|||||||||||||
| Edição 16 | A SOLA
por Lívia Santana Ulisses atravessou a rua correndo esbaforido e escapou por um triz de ser atropelado pelo ônibus que passava em alta velocidade. Chegando à calçada, tropeçou, perdeu o equilíbrio e caiu no chão, indo parar entre os pés dos transeuntes apressados, com um esfolado ardido na palma da mão direita. "Droga!". Sob os olhares de estranheza de alguns passantes que pararam para vê-lo caído - como tem gente que gosta de apreciar os tombos alheios, impressionante! - ele se pôs rapidamente de pé e continuou a corrida, olhando febril para todos os lados e principalmente para o chão, como se tivesse perdido alguma coisa.
Nesse ritmo trombou numa senhora e derrubou os livros de uma garota, mas nem assim se deteve, pensando exasperado: "Por que é que tem tanta mulher nessa calçada?". Andou naquele passo louco por mais três quarteirões, quando finalmente parou e sorriu, aparentando ter encontrado o que estava procurando. Respirando fundo várias vezes, ele cuidou que o coração não saltasse do peito pela boca, da corrida e da emoção. Os olhos brilhavam, dir-se-ia ter ele achado um tesouro. E era mesmo um tesouro, algo único, precioso! Deu alguns passos vacilantes e ficou olhando com ternura para ele. Lá estava, um pouco à frente, absolutamente lindo e perfeito. Magro, daquele jeito que deixa ver as articulações sob a pele, bronzeado, delicado, bem cuidado. Daquele tipo que dava vontade de tocar. Ulisses tinha a certeza de que seria suave e quente ao toque e que teria um perfume especial e discreto. Mal podia conter o impulso de acariciá-lo, beijá-lo, mordê-lo! Sentia a boca seca de vontade de massagear-lhe o peito e lamber-lhe os dedos um a um, com lascívia. Estremecia só em pensar, antecipava o prazer sublime. Temia não merecê-lo - ele era tão maravilhoso! - mas nada o impediria de tentar. Apressou o passo, era agora ou nunca. Mas estacou, sentindo o coração parar e ficou olhando, assombrado. "A sola... Ah não, a sola eu não agüento... Assim ela me mata!..." A moça que Ulisses seguia encostou-se numa parede, tirou a sandália e levantou o pé esquerdo a fim de arrumar a correntinha prateada que pendia do tornozelo. Tinha longos cabelos negros, silhueta longilínea, traços harmônicos. Era muito bonita, mas Ulisses não vira isso. Ele apenas tinha visto os pés pequenos e delgados, que apareciam sob a saia branca longa que ela usava. Era o pé mais lindo que ele já vira e a paixão fora instantânea. Só não estava preparado para ver a sola assim, no primeiro encontro. |
|||||||||||||