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| Edição 25 | Sobre espelhos e fumaça por Zander Catta Preta O rapaz dizia que não ia se envolver novamente, dizia que não havia mais espaço nem tempo na sua vida para outra pessoa. Não queria dividir o que havia conquistado com tanto esforço e que havia uma grande “oferta” de sexo e companhia para pessoas como ele no “mercado”.
Ele não estava errado. Não era feio, nem baixo, não era um boçal ou um ignorante. Nem o contrário disso. Sabia que o extremo era complicado e que, na maioria das vezes, o medíocre é que tem o sucesso no longo prazo. É o que menos se desvia da curva-padrão. Sabia disso porque era o seu ganha-pão. Analisar riscos e processos, êxitos e valores. Decidiu que isso se aplicaria para o dia-a-dia na grande bolsa de valores que é a aventura amorosa. De pronto, não se envolveria. Não dá certo. Já vira muitos falirem porque achavam que Aquela Empresa ou Esta Companhia eram portadoras da salvação patrimonial de sua família. Normalmente quem sobrevivia era quem apostava nos “relacionamentos horizontais”. Da mesma forma, quem criava uma “Linha Vertical de Investimentos” naufragava se Outra Indústria aparecesse no mercado derrubando a “da vez”. Eram necessárias atenção e uma certa descrição para fazer investimentos por fora. Aliás, muita atenção. Então se agarrou à essa análise e aplicou-a, transformando da thesis para a praxis e em um mês colheria os resultados. Estava certo de que daria mais trabalho inicialmente. Afinal tinha de montar o “portifólio” de opções de investimentos, analisar o esforço e o quanto deixaria aplicado em cada ação, preparar os “planos B” de ação, montar o cronograma de atendimento, acompanhar o desenvolvimento de cada um dos itens do “repertório”. Ufa! Isto feito, era só cuidar de repor uma ação quando apresentasse algum problema e deixar sempre claro que nunca faria um investimento exclusivo para nenhuma delas. Umas reclamavam que assim nunca garantiriam o “aporte” que estavam contando para si, outras afirmavam que também procederiam da mesma maneira. Regras do jogo, à mesa, ele jogava como poucos. Perdia às vezes. Empatava na maioria. O empate, aqui, sempre é o melhor resultado. Uma regra ele nunca quebrara: aplicar em ações “próximas”. Achava que a proximidade afetava o seu senso de avaliação e o seu desempenho no trabalho. Pior, era algo mais íntimo e sub-reptício que um casamento. Estar com a mesma pessoa todos os dias depois do expediente e durante os fins de semana já era algo que ele não queria pra si mas podia entender, já que era o comportamento dominante da espécie. Agora, além disso, ter essa pessoa o tempo inteiro ao seu lado no trabalho era algo que extrapolava os limites. Por isso a surpresa dos três amigos quando, no bar, ele confessou o fato. “Estou apaixonado.” “Não fode, cara!” “Sério Gordo, tô de quatro pela menina” “...” A menina em questão era a que trabalhava ao seu lado. Recém-chegada ao escritório, ela era bem “neutra”, não era linda, nem era escultural, não era Einstein de saias nem era o repositório da cultura da humanidade. Nem o oposto disso. Era acima da média, mas não a ponto de se destacar na multidão a priori. Porém, quando abria a boca ou contava um caso ou ria das próprias besteiras ou falava com as mãos, denunciando uma timidez (ou loucura) controlada ou quando falava de shows de rock ou de casos que ouvira dos famosos ou quando olhava atentamente no fundo do olho ou quando não escondia que brigava no trânsito ou quando soltava um palavrão que não cabia no seu molde ou quando falava quatro idiomas ou quando sorria… ah… quando ela sorria… “Pelo menos cantou?” “Não Burro! Porra! Tá maluco? Vai que ela topa? Vai que ela não topa? Analise, cara! Analise! É uma no-win situation. Não tem como ter vitória.” “E aí? Como você vai fazer?” “Não vou, Grande, não vou.” Os amigos não tinham muito a acrescentar. Burro decepcionou-se profundamente e todos beberam até raiar a madrugada.
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| Edição 24 | CRUZANDO LINHAS por Lívia Santana
Impressionante como só nos damos conta das linhas que permeiam a vida a partir do momento em que as cruzamos. Vivemos numa roda viva (roda mundo, roda gigante) e qualquer certeza - afora a morte - é pueril. Sentimentos se transformam, paixões esfriam, brinquedos e lugares perdem a graça, pessoas se separam e se perdem, para se reencontrarem novamente mais à frente no caminho. Tudo se transforma a todo minuto e vamos perceber apenas quando olhamos em volta e a luz parece diferente, as cores mais vivas ou mais opacas, ou quando percebemos elementos que nunca tínhamos visto ou prestado atenção. Pedro e eu éramos muito amigos e sempre que podíamos, ficávamos jogando conversa fora e rindo da maioria das coisas. Dávamos-nos muito bem. Eu não tinha compromisso fixo nenhum, fazia o que me dava na telha, enquanto ele namorava a Mariana a vida inteira. Era até engraçado, quando ele dizia: "Isso foi antes de namorar a Mari", os amigos costumavam replicar: "Ah, quando você tinha uns dez anos, né?". E era mesmo assim, nem lembrávamos mais de um tempo em que a Mari não estivesse lá. A vida dos dois se confundia. Tinham a chave da casa um do outro, mesmo ela ainda morando com os pais, decidiam tudo juntos, iam juntos a todos os lugares. Era o casal modelo, era bonito vê-los juntos. Todos, inclusive eles próprios, pensavam que o casamento seria inevitável. Até que um dia, Pedro rompeu com a Mari. Ninguém, inclusive ela mesma, entendeu nada e nem soube realmente o porquê. Pedro era introspecto em relação aos próprios sentimentos, decidiu e pronto, não admitiu questionamentos e não deu explicações. E seja lá o que tenha dito à Mariana a título de motivo, pelo visto não a satisfez. Inconformada, chorou, telefonou mil vezes, bateu a porta, escreveu cartas, gritou, ofendeu-o. Pedro ouviu a tudo calado. Um dia eu perguntei o porquê daquilo e ele disse: "É o mínimo que eu posso fazer. Ela tem o direito de descontar em mim a mágoa que causei". E foi um raro momento em que ele disse o que realmente pensava sobre aquele assunto. Não sei direito quando comecei a olhar o Pedro de um jeito diferente. Sempre o admirei muito - era tão inteligente! - mas o tempo todo era apenas amizade. Sem saber direito o porquê, nem da onde vinha aquilo, comecei a desejá-lo e a sentir uma ternura infinita ao vê-lo. De repente, eu que estava tão acostumada à presença dele, me vi com o pulso acelerado ao mero som da voz ao telefone e prendia a respiração quando ele chegava. Eu, que era tão tranqüila, confiante e até um pouco cínica com o sexo oposto, estava apaixonada. Não sei se a mudança se devia ao fato de ele estar finalmente sozinho, ou se tinha mudado comigo de algum jeito, o fato é que estava tudo muito diferente. Uma vez, pouco antes do rompimento com a Mariana, lembro que aconteceu algo que mexeu comigo. Paramos no posto de gasolina, no carro os três - o casal na frente e eu no banco de trás. Mari desceu para comprar balas, deixando-nos sozinhos e, tendo ela desaparecido pela porta de vidro da loja, Pedro virou-se para mim e segurou a minha mão, apertando forte. Senti o peito saltar, abri a boca atônita, sem saber o que dizer. Ele disse: "Eu gosto muito, muito de você". O tom de voz era estranho, parecia estrangulado, como se reprimisse um soluço ou lutasse para respirar. Respondi que também gostava e ele ficou me encarando com aqueles olhos cinza-esverdeados tão lindos, que estariam presentes em tantos sonhos meus e sobre os quais escreveria uma dúzia de poemas inconfessáveis pouco mais tarde. Senti que poderia ficar ali de mãos dadas com ele por horas, o tempo não precisava mais passar. Tão intenso foi o encantamento daqueles poucos minutos que nunca os esqueci. Senti-me flutuar, o calor das nossas mãos pareceu se intensificar, queimando e nos fundindo num só através dos dedos entrelaçados. E então, como se tivéssemos combinado, olhamos juntos na direção de onde Mariana viria e vimos que ela voltava para o carro. Soltamos as mãos e afundamos nos bancos, tentando dissipar a atmosfera densa do interior do carro. Talvez ele tenha se sentido culpado depois disso, pois passamos dias sem nos falar. Quando finalmente liguei, contou-me que tinha terminado o namoro eterno e nem pude acreditar. Teria sido o episódio no carro o prenúncio do fim? Teria eu algo a ver com isso? O coração - que andava me dando trabalho naqueles dias - pulou para as palmas das mãos e precisei me sentar para controlar a ansiedade, a excitação. E agora? O impulso de vê-lo veio forte demais e vi-me, de algum modo, em frente à porta dele. Atendeu com o cabelo molhado, tinha acabado de sair do banho. A tensão era evidente, estremeci ao abraçá-lo. Convidou-me para o quarto, como de costume e sentamos cada um numa cama - o quarto tinha duas. Conversamos sobre tudo e nada, o relógio corria, e todo o tempo eu tentava dizer o que sentia, em vão. As palavras morriam na garganta, a coragem não vinha. E se fosse ilusão minha? Acabei desistindo e levantei-me para sair, dizendo: "Bem, vou embora, então...". Andei em direção à porta, mas fui interceptada no meio do caminho, em frente ao espelho. Ele me empurrou contra a superfície fria: "Se não fizer isso agora eu morro". E me beijou com voracidade, como se pretendesse me sugar inteira através da língua. Os joelhos amoleceram, senti-me desmanchar de encontro ao corpo dele. Não era ilusão. E agora não
tinha mais jeito, a linha tinha sido cruzada e eu nem sabia mais o que
éramos. Íamos rumo ao desconhecido, mas não importava
muito. Nada era capaz de turvar a sensação que eu tinha
de ser capaz de pular no abismo e ainda assim sair voando. |
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| Edição 23 | CARTOMANTE por Lívia Santana
Ela hesitou, revirando o panfleto nas mãos suadas, cujas unhas roídas denunciavam a ansiedade. "E se...?" Custava a decidir-se. Nunca fora crédula, sempre resolvera os próprios problemas com certa facilidade. Sempre pensara que crendices eram para ignorantes ou desesperados, se não ambos. Joana não, era mulher culta, viajada, independente. Conseguia tudo o que desejava, acreditava em si mesma. E agora estava ali, segurando aquele panfleto amarfanhado entre os dedos inquietos, relutando em reconhecer-se impotente para o que quer que fosse. Cartomantes. Sim, isso era coisa para desesperados. Mas não era assim que se sentia? Já tinha tentado de tudo e nada surtira efeito! Decidiu-se, iria ver a cartomante. A sala de esperas era pouco iluminada e rescendia a almíscar. Incenso. Pequenas almofadas vermelhas espalhavam-se por sobre as poltronas e pelo chão, um sino de vento em forma de luas e estrelas estava pendurado num canto. Havia mais duas clientes além dela. Uma moça jovem e loura com os olhos inchados de tanto chorar, usando um vestido rosa amarrotado, que a deixava mais pálida e infeliz. A outra beirava os quarenta anos, tinha os cabelos tingidos de uma cor indistinta, vestia-se com apuro e trazia nas mãos uma pomba branca amarrada com um lenço vermelho, quase esmagada tanta era a força com que era segurada. Acabara de sentar-se e a cortina púrpura do canto abriu-se dando passagem à - supunha - Dona Madalena. Tinha cabelos cor de fogo revoltos e unhas compridas pintadas de vermelho sangue. Usava óculos roxos com as extremidades puxadas para cima e uma longa túnica da mesma cor dos óculos. O olhar era azul e amalucado, como desenho animado. Teve impulsos de ir embora. Aquela figura inusitada parecia precisar mais de ajuda do que ela. Porém controlou-se, enquanto a mulher com a pomba saltava da cadeira, visivelmente excitada: "Dona Madalena, aqui está!" e estendeu o bicho na direção da anfitriã. "Muito bem! Há quanto tempo o animalzinho está amarrado?", perguntou esta com um sorriso ainda mais maluco. "Seis horas", foi a resposta. "Ah, então aguarde mais um pouco... assim que completar as dez, falaremos". A mulher da pomba sentou-se, aparentando alegria. "Ela vai esperar mais quatro horas?" - o impulso de ir embora veio mais forte que nunca. A cartomante virou-se então para a mocinha loura. "Pronta, querida?" A menina encarou-a com os olhos tristes e negou com a cabeça, mal contendo as lágrimas que tornavam a cair. "Então parece que é a sua vez". - a vidente sorriu. Respirando fundo, Joana levantou-se e passou através da cortina púrpura. Lá dentro era abafado e o cheiro de almíscar era ainda mais forte. Sentou-se na cadeira indicada, em frente a uma mesinha redonda. Dona Madalena sentou-se em frente a ela e tomou a mão direita de Joana. Depois de alguns minutos enunciou: "O nome dele é Raul. Um Adônis. Arquiteto, bem vestido, discreto, educado, exímio dançarino. Solteiro, sem filhos, sem namorada. Conquista todas as mulheres que o cercam e não elege nenhuma. Um enigma. Certo?". Surpresa, Joana reconheceu que era verdade. Dona Madalena trocou a mão direita pela esquerda e tornou: "Entre tantos homens que a disputam, você se interessou pelo único que a repudia. Já usou diversos expedientes para envolvê-lo e nenhum obteve êxito. Já se ofereceu, já interpretou a moça frágil e a mulher dominadora, já se aproximou da mãe dele, já se enturmou com os amigos, já tentou até embebedá-lo. Nada. Ele continua indiferente. Está se consumindo pela paixão não correspondida. Sonha, fantasia, e sente que morreria para tê-lo". E fitando-a com o olhar divertido, indagou: "Estou certa?" Joana balançou a cabeça em sinal afirmativo, espantadíssima com o que acabara de ouvir. E como a cartomante mantivesse silêncio, inclinou-se para frente, ansiosa: "A senhora pode me ajudar?" Dona Madalena alisou os cabelos cor de fogo, pensativa. "Posso, sim, menina, mas não da forma como pensa". Joana franziu o cenho: "Como assim?". A cartomante tirou os óculos. Parecia outra pessoa, com expressão séria e espantosamente lúcida. "Acho que o melhor a fazer é esquecer isso, nenhum capricho vale tanto desgaste". Joana apressou-se em falar, em defender a sua paixão com veemência, mas foi impedida pela outra. "Pense comigo, menina. Não acha que ele é perfeito demais?" Joana indignou-se: "A senhora está insinuando que ele é bom demais para mim?" A cartomante riu. "Não, querida. Estou dizendo simplesmente, que ele é bom demais. Pense. Bem vestido, sabe dançar, cozinhar, pinta, gosta de filmes de arte, de ópera e de se exercitar. O que podemos concluir disso?". Joana deixou cair o queixo. Não podia ser! E, ante a expressão estarrecida da moça, Dona Madalena sorriu docemente. "Se o seu nome fosse João, querida, não haveria nada que a impedisse de conquistá-lo".
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| Edição 22 | O impasse por Zander Catta Preta Tinha dito para si mesmo que não iria ser tão crítico e murrinha com os atores. Afinal, uns eram seus amigos e ele não antipatizava com ninguém da peça. Do autor à camareira, todos tinham alguma história para contar dele, dos tempos que atuava junto com a companhia. Eram tempos idos, todos sabiam, mas ele sempre retornava a cada peça nova. A cada nova estréia, meio de temporada e encerramento. Por vezes até participava de um ou outro ensaio.
“Poxa cara, você bem que poderia fazer só esse papel. É pequeno, só tem duas falas.” “Não rola. Eu precisaria ensaiar com vocês todos os dias e eu tenho de trabalhar, saca? Mulher e filho e essas histórias.” “Fala com o diretor, vai que ele deixa você só ensaiar nos sábados.” “É lindona? Você não acha sacanagem eu ensaiar só duas vezes por semana e vocês todos os dias? Só por conta dos meus olhos cor de mel?” “...” “Pois é, minha linda, não rola. Mas o nosso chopinho depois tá de pé.” “Ok.” Dez anos desde que pusera os pés naquele teatro, no Brigitte Blair da Miguel Lemos. Dez anos atrás era um teenager ainda. Imberbe e semi-virgem. Apaixonou-se de pronto. Pela ribalta e por ela. Ela era uma das “descobertas” do diretor que, como de praxe e por ser um clichê assumido, investia sexualmente em cada uma delas. Inteligente, talentosa, bonita. Nunca se entendeu o porquê dela se juntar a uma companhia tão mequetrefe e amadora. Quando ela atuava, os seus olhos eram como duas jaboticabas perfeitas brilhando no palco. Othello, A morte do caixeiro viajante, Trair e coçar, Disque M para matar, A Gata Borralheira e Cinderela contra o Baixo Astral e outros clássicos da dramaturgia foram salvos da derrocada total apenas por sua presença estonteante. Havia algo de encantado ali, naquela combinação impossível. Atores fracos, diretor pífio, “autores” desimaginativos, estrela de primeira grandeza sujando a barra da saia com a lama da mediocridade. E, espanto dos espantos, ela era realmente feliz. Ele, mais forçado pela necessidade que pelo desejo do sonho, largou a tropa no mesmo ano que entrou sem realizar seus dois planos. Encenar Alcassino e Nicoleta era o principal. O diretor cismou de adaptar essa peça pra Salvador nos anos quarenta. Quando ouviu isso, sacou que já era a hora de pular fora e aproveitou uma fase de dureza em casa para catar um “emprego de verdade”. Há uns dois anos, ele a reencontrara e foi fogo em palha seca. É uma história engraçada. Ele foi a uma estréia (como sempre) saiu para chopear com todos (como sempre) riu das investidas vãs do diretor pra cima dela (como sempre) e ofereceu-se para levá-la em casa. Ela aceitou. Riu ao chegar na portaria do seu prédio. Convidou-o para um café em casa. Café da manhã, que esteja bem explicado aqui. Ele aceitou. No intercurso, disse que sempre sonhara com isso. “Eu sei, bobo.” Disse que ela era a mulher da vida dele. “Eu também sei disso, querido. Tira as meias, vai. Tá ridículo você de cuecas e meias.” Disse, por fim, que queria que aquele momento nunca acabasse. “Eu não, beibi. Quero muitos momentos com você. Se esse não acabar... não haverão outros, né?” Ele sorriu. Desde então, era rotina. Trabalhava de segunda à sexta, de oito às seis. Quintas, sextas e sábados é teatro e chope. Depois, chope a dois. Dois anos dessa mesma rotina. Ela não parecia triste nem cansada e ele se achando no paraíso. Do céu à terra, do domingo pra segunda-feira, ele resolve perguntar o porquê dela continuar naquela entourage. “Caramba, você teve convite para ir para a Globo, papel na Malhação. O que você vê naquela turma?” “Você sempre se perguntou isso, né?” “Sim.” “Da mesma forma que você me esperou por oito anos, né?” “É. Mais ou menos isso.” “Eu pago as minhas contas ali. Esse apê é meu também e não pago aluguel. Não tenho filhos. Ainda. Não gasto muito e como pouco. Dá para viver trabalhando com o que gosto. Aquela turma é a minha turma.” “Sei.” Virou-se pro lado e tentou cochilar um pouco. Iria virado de novo pro trabalho. Quando acordou, ela já tinha se arrumado e saído. Por vezes fazia isso. Ia caminhar na praia, saudar o Sol, praticar iôga ou apenas comprar pão e leite. Arrastou o corpo dormido e amarfanhado até a mesa da copa e encontrou uma apostila entre o pão morno, o café quente e o leite gelado. Serviu-se de pão, leite, café e sorrisos entre uma edição velha de Alcassino e Nicoleta.
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| Edição 21 | Quatro contos, cada três aumenta
um ponto! Tudo começou com o extraordinário conto-amor-urbano
"submissa em paz", de Poli e uma idéia maluca, sugerida
pelo Zander: que tal contar a mesma história do ponto-de-vista
dos diferentes personagens, todas usando a mesma frase-chave: "ele
é tudo que eu sempre quis, sem saber"?
submissa em paz amarilda tem 28 anos. formada em ciências sociais, mestrado em relações de gênero e doutorado em feminismo comparado. determinada, talentosa, uma espécie de prodígio. uma semana antes da defesa de sua tese, na fila do peixe do supermercado, conheceu pedro, jovem yuppie que em um dia ganhava o que ela levava um mês pra conseguir. a paixão foi avassaladora: em menos de 3 meses amarilda já tinha engravidado. depois que pedrinho nasceu, ficou mais complicado conciliar as horas de pesquisa com o peito, a fralda, a cólica, o pediatra. seus dias de mulher independente estavam contados. largou o cargo de chefe de departamento na universidade com uma licença a princípio de um ano. passou a evitar encontros com os antigos colegas. temia o que podiam estar pensando. ironia do destino, na mesma fila do peixe encontra uma
colega de departamento.
Born to be Boss Elizete é solteira, hipertensa e míope, dona de sete gatos e duas samambaias. Não perde a novela das oito e está pensando em fazer ioga, não só por recomendação médica, mas para ver se acontece alguma coisa diferente na vida. Aos quarenta e nove anos, é assistente social e funcionária pública, tendo trabalhado no mesmo departamento e na mesma função durante anos. Se levassem em conta o tempo que tem de Universidade, já a teriam promovido para a chefia. Ao invés disso, ela viu Valquíria aposentar-se e nomearem para o seu lugar Amarilda, moça decidida e culta de apenas vinte e oito anos. De índole naturalmente boa e mansa, Elizete sequer identificou o sentimento que lhe causou a nova situação. Acolheu Amarilda com simpatia e gentileza, procurando tornar o ambiente de trabalho ameno. Aos poucos, foi sentindo grande admiração pela menina, tão jovem e tão determinada, que já tinha feito tanto na vida e preparava-se para mais, com certeza. Não era de ruminar rancor nem de alimentar inveja, mas viu-se querendo - tanto que doía - ser Amarilda. Tão independente, centrada, dona do próprio nariz, bem sucedida. Não precisava de homens, nem de ninguém. Nem devia se sentir sozinha. Elizete via a nova companheira de trabalho com idolatria. Até que, sem aviso, Amarilda se casou e teve um bebê. Já não aparentava mais a segurança tranqüila e profissional de antes, estava sempre preocupada. Com a hora de dar de mamar, com o jantar do marido, com as cólicas do Pedrinho. Até tirou uma licença para cuidar do filho e da casa. Elizete, atordoada, viu o ídolo ruir. Encontrou-a por acaso num dia desses no mercado de peixe. Perguntou pelo filho, pela vida e sentiu que a outra foi evasiva. Mal pôde dizer que sentia falta dela. Mas, foi surpreendida logo em seguida. Como a licença de Amarilda se prolongasse, foi nomeada para o cargo desta temporariamente. Ela, que sempre obedecera a ordens, que nunca tivera um lar com marido para gritar, filhos ou cachorros para mandar - aos gatos não ousava ordenar nada - deslumbrou-se com a nova condição. E disse a uma das colegas de departamento, dias mais tarde durante o cafezinho: - Era tudo o que eu sempre quis, sem saber.
sexta-feira dez da noite chego em casa dia de cão puxando saco de cliente até doer a mão o saco inchado de tanto ser puxado por fornecedor subordinado estagiário secretária sacudindo os peitos eu balançando os cabelos com as mãos ajeitando afrouxando apertando a gravata a caixa postal do celular transbordando de mensagem de mulher que já comi querendo dar de novo deleto todas nenhuma mensagem de mulher que ainda não comi querendo dar merda o carro na garagem estalando de quente ainda nem tirei as meias toca o telefone é o digão colega babaca do emibiei queimando o rabo na concorrência vive me pedindo emprego não quero atender mas vou ver o que esse merda quer alô vou sair com uma mulher que está me dando mole vai levar uma amiga tá a fim eu digo que vou porque não tenho merda nenhuma melhor para fazer e depois de fechar um contrato que me tirou o pé da empresa de merda da merda e ainda tomar esporro fuder a paciência do digão e comer a mulher que ele está a fim até que não é má idéia nem tomo um chuveiro vou do jeito que estou assim mesmo. como imaginei vindo do digão só podiam ser duas barangas professoras de faculdade com papo de feminista esquerdista petista rabugento raivoso amarilda e elizete onde essas porras arrumam esses nomes onde essa peste do digão arruma esses trastes. mas a amarilda não quis dar pra mim fiquei puto ser esnobado por uma professorinha feminista meu charme irresistível não adiantou porra nenhuma cagou pro meu rolex e nem quis entrar no meu carro foi embora pra casa de ônibus e pra fuder de vez o meu dia o digão saiu com a elizete me deixou de pau na mão. lá fui eu no sabadão atrás da amarilda me cagando de medo ela morava mal pra caralho tinha que passar num monte de lugar escroto joguei minha melhor conversa ela nem aí acabei indo parar numa quadra de escola de samba bebi pra caralho beijei na boca dormi na casa dela e ela não me deu. veio me encontrar no trabalho na segundafeira saí mais cedo fomos pra happy-hour pro motel porra apaixonei quis me casar ela aceitou foda-se a camisinha vamos ter um filho ela largou a faculdade nasceu o pedrinho júnior e ele é tudo o que eu sempre quis na vida. cheguei hoje do trabalho tinha peixe pro jantar ela me olhou e corou perguntei o que foi ela disse nada desconversou falou que tinha encontrado a elizete na fila do peixe e eu deixei pra lá apaguei as mensagens da caixa postal aquele monte de mulher ainda querendo me dar mas só tem uma que eu quero comer fazer amor fazer filho com cheiro de peixe no cabelo e o nome dela é amarilda sim e o digão que vá sacanear a puta que o pariu.
O bronco Diz-se que o rapaz chegou do trabalho acompanhado, arrancou a camisa da menina ainda no corredor da casa, mal chegando à sala. Depois jogou-a no sofá, em cima das revistas e jornais velhos, acumulados semanas a fio. Tirou a calça, sacou a camisinha com presteza ímpar e envelopou o instrumento de trabalho com velocidade de um fórmula um. Largou o seu paletó armani no centro de sala de aço inox e introduziu-se no assunto sem mais delongas. "Show-me the money! Vamos ao que interessa!" Piruetaram na sala, cambalhotaram no banheiro, malabarizaram no quarto. Pela manhã ela estva apaixonada e ele tinha um business case matador, ela, um tratado a defender na plenária de sua moral interna e um marketing report a enviar aos colegas. Casaram-se, normalizaram as perdas e aumentaram o spread e a lucrabilidade do relacionamento. "Sem piadinhas de pegar o bruto e extrair o líquido, ok?" Dizia ela nas maratonas semananais. Sempre às quintas. Pegou-a no telefone. "Pior que, quando disse: 'ele é tudo que eu sempre quis, sem saber', foi quando eu percebi o quanto estou feliz." Acriançou-se e ligou PS3 para matar umas pessoas virtuais. |
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