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| Edição 30 | samba de branco por Poli Paiva
Samba por Sheri Chakamian - vamos! - vou não. - porque? - porque não aguento mais samba de branco. - mas o samba não tem cor, não tem raça, deixa de ser preconceituosa! - ok, eu sou preconceituosa. vamos então a um samba em madureira, na quadra da portela, que tal? - madureira? tenha dó! - querido, acho melhor você ir logo, porque samba de branco enche rápido... deu dois beijinhos em seu amigo zona sul e foi sozinha pra madureira. não deu 10 minutos e estava dançando com um deus do ébano cheio de malemolência. enquanto dançava, sorria. e enquanto sorria, pensava: - os monocromáticos que me desculpem, mas miscigenação é fundamental...
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| Edição 29 | Sobre diferenças e semelhanças por Zander Catta Preta
Lovers 24 - Nicoletta Tomas Caravia O fôlego fora suficiente apenas para cruzar a portaria, pegar o elevador e entrar em casa. Abriu a porta de supetão e desmanchou-se ali mesmo. Era só soluços e lágrimas ácidas. Levou poucos minutos para recuperar o controle sobre si mesma e menos para desmontar-se. Entrou no banho e deixou que a ducha quente lavasse a alma e as dores. Viu a espuma descer em redemoinhos no ralo. Pensava na vida e na morte da bezerra. Não entendia como entrava sempre nesses mesmos rolos. Conhecia o cara, saía com ele, amavam-se alucinadamente como se não houvesse um amanhã e depois de um café da manhã no Garcia e Rodrigues (com sorte): beijo, tchau e nunca mais. Não que achasse ruim. Na maioria dos casos os sapos continuavam uns batráquios inexpressivos, não importando o quão ou como os beijasse. Ou onde. Mas o que lhe incomodava mesmo eram os carinhas que aparentemente pareciam que iriam lhe ligar no dia seguinte, aqueles que esperava ter um algo mais, nem que fosse uma segunda vez. Ou uma terceira, quarta. Sabe-se lá. Pior que esses: os que realmente ligavam! Ligavam, marcavam, saíam e eram melhores que antes, se superando a cada noite. Sempre uma surpresa, uma novidade: um restaurante da moda, um presente bem escolhido, um show especial e pimba! Cama e espetáculos pirotécnicos nos motéis da vida. Ou nos apartamentos cinematográficos. Ou nas casas discretas no Alto da Boa Vista ou na Urca. Mas tinha dentre essa turma toda, tinha um tipinho que era hors concours na canalhice e na perfídia: os que se apaixonavam por ela. Ele era perfeito: bonito à medida exata, inteligente o suficiente para saber que não deveria ofuscá-la, elegante, sabia onde levá-la, tinha os programas corretos, conhecia as pessoas nos locais exatos, bem-resolvido financeiramente, disponível para os seus caprichos e um atleta sexual. Então porque ela sentiu-se agoniada quando ele a deixou em casa? Não conseguia achar razão e só manteve o fôlego por questões de compostura e câmeras indiscretas nas áreas públicas. Mais calma, quebrou alguns pratos e copos enquanto esquentava a comida. Xingou os cachorros que pouco tinham a acrescentar ao diálogo interno que ela travava. Sentou-se à sala, entre as almofadas e colocou um devedê aleatório no tocador. Rá! Manhattan de novo! PUTA QUE PARIU! Encostou. Assistiu. Pegou o telefone. “Não vai dar certo.” “Mas, qual o porquê?” “Não tem atrito.” “Hã?” Antes que se debulhasse novamente, desligou. Apagou o número dele da agenda do celular. Antes, porém: “Hmmmm... Ângelo. Acho que vou ligar para esse escroque!” E assim achou o caminho para a sua felicidade.
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| Edição 28 | florbela e a memória
Melody of Love Affairs por Mykola Dzhychka florbela sempre se metia com os desmemoriados. volta e meia ia parar na cama com um gatinho que nem lembrava o nome dela no dia seguinte. achava isso um saco. resolveu encarar um abstêmio que conheceu na casa frança-brasil. estava encantada com tantos neurônios ativos. o papo fluía sem interrupções e florbela sentia-se segura e natural, como numa propaganda de absorvente. passaram-se 2 meses e nada do gatinho chamá-la para um saída, assim, mais íntima. florbela, com o útero em chamas, resolveu tomar a iniciativa. - que tal irmos lá em casa hoje à noite? meus pais vão passar o fim de semana fora. o rosto do gatinho se desfigurou. ficou gago. depois de uns 15 minutos de catatonia, confessou: - não sei se devemos nos precipitar porque ainda não sei se você é a mulher da minha vida. tudo indica que sim, mas... florbela tinha tudo pra virar as costas e ir embora, mas resolveu pagar pra ver. na semana seguinte, gastou metade de seu salário num sex shop e seguiu firme, fazendo justiça com as próprias mãos, até que chegasse o momento certo de fazer o gatinho ter uma noite da qual ele jamais iria se esquecer. e da qual ela teria a eternidade pra se orgulhar.
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| Edição 27 | A melhor amiga “Não acho que você tenha de ficar ligando para ele a cada dez minutos. De tanto insistir, você pode acabar perdendo o que já conquistou.” Era sempre assim, ela contava o que estava acontecendo com os casos, peguetes, rolos, namorados, namoridos e afins e ele tinha sempre o conselho correto.
“Mas ele é frio comigo.” “Pode ser timidez. Ou saco cheio. Você é uma pela-saco, né?” “Não fala assim comigo.” “Mas é verdade. Ou você segura muito o jogo com o carinha ou se arreganha logo de primeira. E não tõ falando de sexo.” “Porra! Você é muito grosso.” “Sou não. Um filho-da-puta, talvez. Mas sou sincero contigo e você sabe disso. Ou não estava aqui me pedindo conselho, fazendo o meu ouvido sangrar de tanta aporrinhação com os teus homens.” “Assim parece que eu sou um estorvo para você. Parece que eu te ligo só para encher o teu saco.” “E não é? Quando foi a última vez que você me chamou para um cinema ou um teatro. Ou mesmo para um chope ou um café?” “...” “Pois é. Só sirvo mesmo para teu conselheiro sentimental. Você só não é pior que a outra, que só me liga para resolver problema de computador...” “Poxa. Assim fico chateada.” “É bom ficar mesmo. E aproveite dá um tempo pro carinha te procurar. Se ele estiver a fim, vai atrás de você. Deixa o outro correr solto. Afinal de contas nem namorando estão. Tão só na fase do 'conhecendo um ao outro'.” “Ok.” Deu dois dias sem perturbar o “peguete" que ligou regularmente e ficou tudo às mil maravilhas por mais seis semanas quando ela desencanou dele e já ia ligar pro amigo-confidente-grosso-que-só- sabe-dar-patadas-que-tá-sempre-certo quando resolveu desenterrar da agenda uma amiga de priscas eras: Carlinha. “Querida! Quanto tempo!” “Pois é, você fica aí agarrada com o teu macho e eu ainda na guerra!” “Chope calcinha hoje? Dou um balão no mané e partimos pro álcool sem limites!” “Péra que vou ligar para a Martinha e a Ana e vamos pro Devassa!” Chegaram, beberam, deram vexame, falaram bem dos homens da mesa ao lado e mal dos que dividiam suas camas, contaram do passado e mentiram sobre o futuro, quase foram expulsas por conta dos berros e dos palavrões. Um chope-calcinha perfeito. Na saída foi desovada em casa pela velha amiga. Subiram para tirar água do joelho. “Nunca entendi essa expressão, Carlinha.” “Nem eu, amiga. Mas eu preciso senão o meu carro vira um bote.” A amiga aliviou-se e foi para a sala. Ela já tirava o sapato e preparava dois copos de gim com soda limonada. “Amiga, você quer me embebedar, é?” “Bêbada você já tá. Vou é dar jeito para que você não pegue de novo no volante. Quase me matou da Barra pra cá. Dá para você dormir no sofá daqui de casa na boa. Só liga pro teu bofe.” “Ligo porra nenhuma! Aquele filho da puta deve estar na cama de outra vagabunda!” “Menina! Que é isso? Não faz assim! Ele te ama, tá na cara!” “Ama nada! Também tô pouco me fudendo para isso. Temos um acordo em casa. Ele não me aporrinha e eu não encho o saco dele.” “Que merda.” “Nem é. Melhor assim que solteira na guerra. Não me leve a mal, Ângela, mas eu não tenho mais paciência. Todo cara tem um ou outro defeito. Deixei passar uns bons, fiquei tempo demais com uns muito ruins. O Iuri é galinha, mas vai sossegar.” “Desculpa amiga, mas eu ainda prefiro me arriscar e errar.” “Tudo bem. Sei que você é teimosa mesmo.” Acordou na sala com a mãe de todas as ressacas. O telefone tocava e era o amigo-confidente-etecetera-etecetera. “E aí sumida. Como você nunca me chama para porra nenhuma, te chamo para almoçarmos no Parque Lage. Topa?” “Não beibi, tô com uma ressaca monstruosa e a Carla tá aqui comigo.” “Ah! Ok. Então fica prá próxima, tá bom?” “Espera. Me responde uma coisa.” “Fala... lá vem bomba.” “Nem é. Olha só. Por que você tá sempre certo?” “Hein?” “É. Por que você está sempre certo nas coisas que fala para mim.” “Uai. Eu te disse isso. Sou o dono da verdade. Eu estou SEMPRE certo, não erro.” “Para de babaquice.” “Não é. É a minha sina. Mas você nunca quis saber disso, né?” “Você bobo.” “Nem sou. Você é que nunca quis me conhecer de perto, a fundo. Mas isso é história de cinco anos atrás quando eu te cantei pela primeira vez e levei um toco homérico.” “Foi? Nem lembro.” “Pois é. Bom. Quando estiver recuperada da ressaca ou da amiga, me liga.” “Beijo.” Rolou pro lado para tentar dormir. Empurrou a amiga com a bunda para arrumar mais espaço no carpete. Fritou ali por dez minutos antes de decidir tomar um banho, vomitar e engolir uns comprimidos. Preparou o café da manhã e esperou Carlinha acordar. Pensou na vida que ela levava e se lembrou de como o conheceu. Nas festas de Martinha sempre tem carne nova e interessante. Ô mulher para conhecer homem. Ainda bem que ela é gay. Ainda bem que nem todos os amigos também são. “Oi. Meu nome é Hermes, tudo bom?” “Ahahahahahaahahaaha! Você vende calcinhas pelo correio?” “Haha! Não. Só tive o azar de ter nome de deus grego. Ou não!” “Só o nome, né?” “É. Quase. O corpo deixa um pouco a desejar.” “Hahah. Você é bobo!” “Você diz isso porque não me viu só de meias. Ainda.” “Hahahahaha. Nem vou.” Aí começou a amizade. Ele realmente não era nenhum Apolo, mas não era nenhum Quasímodo. Não era rico, mas tinha um bom emprego – “trabalha com livros ou com programas de computador ou uma lojinha.” Apesar de sempre andar duro da silva sauro, freqüentava os lugares da moda, sempre tinha um livro debaixo do braço e sempre, por mais irritante que fosse, sempre estava certo em tudo que ela teimava em discordar. Cantada? Ela não se lembrava disso. Se bem que já pegara ele perdendo o olhar em um decote seu ou de uma olhada mais assertiva quando ele contava um caso. Se bem que ele pouco falava de seus casos. Ao menos não citava nomes e tal. Olhou para a amiga, ainda inerte no mesmo canto de quando se deitaram para ver o devedê da sexta temporada de Sex and The City, abraçada ao que restou da garrafa de gim. Olhou para o telefone e ligou para ele: “Oi. Te encontro em trinta no Parque Lage.”
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| Edição 26 | ESTRANHEZAS
Amantes e celulares não combinam lá muito bem. Esses aparelhos exercem um estranho efeito sobre os apaixonados, transformando-os. Normais e pacatos companheiros podem conduzir-se ao delírio extremo, algo como bolero com cuba libre na solidão às quatro da manhã; ou mesmo uma das partes rasgar-se em prantos - até em público! - e desejar a morte. Sua, do amor da sua vida ou de terceiros. Tudo por uma simples ausência de notícias. Se o barulho ao fundo não condiz com o esperado: maldito seja! Começa logo o interrogatório que quase sempre conduz à briga. Caso o outro lado ofegue ou sussurre: ou é descaso, ou - bem pior - assunto escuso a ser investigado. Três mais no questionário. E se porventura não atender(?), aí vira censo em avalanche... - Amô-or.. Amo muito você, tá? Liga pra mim, meu bem. Um milhão de beijos. Tchau! - gravou Débora, dengosa em piscadelas, na secretária do infeliz. Duas horas e nada... Ela insiste da mesa de massagem,
com máscara de pepino no rosto... - Amor, ainda quero falar com você. Não esquece de me ligar, tá? Um beijo! - cravou Débora alimentando estranhezas. Quarenta minutos... Do cabeleireiro... - Humberto, tô ficando preocupada. Tá tudo bem? Por favor, me liga, tá? Beijo. - nos solavancos de quem lacrimeja. Meia-hora... Do chinês no shopping... - Amor, você não tá querendo falar comigo? Tá me evitando? O que aconteceu? O que eu fiz? Liga, tá? - um pé na histeria. Vinte minutos... Sapato novo... - Beto! - suspiro - Se tem algo errado entre a gente, vamos conversar, meu amor... A gente pode resolver tudo, não é? - fez ela trepidando o calçado inédito, o maior salto que havia na loja. Dez minutos... Samba-canção embrulhada pra presente... Numa mão sorvete de casquinha, noutra o aparelho. Débora a cantarolar: - Adivinha o que eu comprei pra você-ê... Tem presente pro Bé-tô... adivi-nha... - e na gangorra do distúrbio bipolar: - Seu cachorro nojento bandido miserável! - brado: - Eu mato você! Cinco minutos... milk-shake... - Amorzão?!... Desculpa, tá? Quero atrapalhar, não. Beijo. - aos soluços. Desliga e liga novamente... - Quem é a vadia que está com você, Humberto? Eu sei que tem uma vadia! Aposto que estão rindo de mim agora. Ela é melhor que eu? - psicótica. - Eu acabo com vocês dois. Humberto largou o celular no painel do carro e foi bater
bola com os amigos. Depois cerveja e recordações. Sentira
falta alguma do aparelho. Até retornar ao veículo: - Tá tudo acabado entre nós! Espero que você morra! Ou melhor, vou me matar e você vai morrer de culpa, bem devagar! Ele apagou todas as outras sem ouvir. Olhou pro
telefone durante uns segundos e acabou largando o encosto pra fora do
automóvel, pela janela. Foi ao encontro de Débora. |
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