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| Edição 35 | o ótimo é inimigo do bom por Poli Paiva
fernanda nunca foi uma boa estrategista. chegava uma certa hora que acontecia alguma coisa que degringolava seus projetos, principalmente os relativos ao sexo oposto. não perdia a esperança, mas também não saía do lugar. há cinco meses se interessou por fábio. fez tudo que pôde para impressioná-lo: mostrou-se sensível, atenta, simpática e sexy. chegou ao extremo de comprar um peso de pompouarismo para estar preparada quando rolasse a tão esperada transa. como não tinha coragem e também não queria dar muita bandeira, não convidou o rapaz pra sair. ao invés disso, passou a freqüentar os locais aonde ele poderia estar. mas não dava muito certo porque fábio quase nunca aparecia. porém, em seu lugar, fernanda sempre encontrava licínio, amigo do moço. belo amigo, diga-se de passagem. não só belo, mas interessante e cheiroso. fernanda sabia, no seu íntimo, que se transasse com licínio jamais teria fábio. portanto acabou gentilmente deixando claro que seriam somente amigos. acontece que fábio de repente apareceu com uma gatinha: os dois se beijam o tempo todo, riem e exalam aquele cheiro de sexo. fernanda ficou arrasada, mas firme. procurou não pensar mais no assunto. e assim foi até o dia que esbarrou com licínio na balada, sozinho e receptivo. não hesitou, fez o serviço completo. e que serviço! o que fernanda não sabia e acabou aprendendo na marra é uma verdade que acompanha a humanidade há tempos: o ótimo, definitivamente, é inimigo do bom.
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| Edição 34 | Que coisa é essa que não se amansa na gente? por Zander Catta Preta
Ele estava ali, parado na avenida da vida, esperando as coisas acontecerem. Sabe como é? Se mexer muito, desanda e já tinha desandado muito do todo. Saído muito fora dos caminhos desenhados, negado o que era destino e queria ter inventado história para si mesmo. Sabia bem das cartas, das estrelas e das mãos. Sabia um pouco das rachas do casco de tartaruga, mas isso não importava. Todos diziam que o seu destino estava rachado, partido, e era obra dele mesmo. “Tinha dito não quando deveria ter dito sim e o Carma” - ah o Carma! - “ia carregá-lo de volta ao que era tido como certo, traçado.” “Mas se era certo e traçado, como poderia ter desviado do caminho?” Perguntava torto sem se entender na situação e nos próprios sentimentos. “Estava certo, mas não estava exato.” “Ah bom, agora entendo tudo.” “Pois faz mais sentido assim, não é mesmo?” “Não faz, mas entendo.” “Não importa, é inexorável e irresistível o teu destino.” “Por que sempre que se fala em destino e coisas afins, usamos termos que não cabem no dia-a-dia?” “Não me conteste, vil criatura. És apenas pueril espectador da transeunte efeméride.” “Você não disse coisa alguma.” “É verdade, mas isso também não importa. Vai lá e segue o teu caminho.” E já ia saindo quando deu conta que não perguntou aquilo que queria. Foi enrolado com o palavrório do outro que se dizia dono do futuro. E nem falar com as conchas ele sabia. Voltou e encarou de frente enquanto o outro jogava dados. “Ei. Eu quero perguntar uma coisa aí.” “Fala meu filho.” “Eu posso falar de mim para os outros? Falar dos amores errados? Das coisas que me arrependo, da memória que não quer ficar quieta? Das pessoas do passado perto que me surgiram no intermezzo das quietudes? E de como eu me comovo quando ouço o Beach Boys e lembro dela? E de que, mesmo achando que é tudo errado, que não tem de ser, que não há mais o que fazer quando as coisas chegam nesse estado, ainda sinto uma vontade enorme de correr à noite na beira da praia, do Posto Seis até o Leme e berrar: EU TE AMO. De que eu vi a merda de um futuro a dois e neguei-o por estupidez, surto ou desespero e todo dia, quando acordo, não sei se estou vivendo o meu destino ou o meu erro. E, por isso, tenho de sentar na frente de papel, pena e tinta e colocar o fígado do lado do copo até esvaziá-lo da bile, destilando o nanquim?” Ele jogou os dados, desenhou algo que nunca faria sentido. Disse: “Não. Cala-te.”
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| Edição 33 | As tempestades eternas por Zander Catta Preta
Por vezes atravessamos uma rua sem sequer olhar se os carros possíveis se fazem presentes ou não. Normalmente isso se dá quando temos certeza que está tudo bem. Sinal fechado, altas horas da madrugada, ruas desprovidas de interesse viário. Ou então quando o nosso mundo interior está tão conturbado, tão agitado, que os eventos externos deixam de ser importantes. Ele chegava em casa e sempre atravessava a Avenida Atlântica assim, sem ao menos ver se um automóvel mais saidinho ameaçava atravessar os sinais vermelhos ou se precipitar por sobre a faixa de pedestres. Sempre atravessava no sinal, quando vermelho, como lhe fora ensinado na escola. Andava na linha até o trem chegar. Não ousava nem ao atravessar a rua. Não chegava muito tarde em casa não. Umas oito, nove horas no máximo. Chegava exausto, consumido pelo processo diário de lobotização empresarial da empresa em que trabalhava. Se acordar era um esforço, levantar-se para voltar à casa era a realização da inutilidade de seus dias. Já se desencantara com quase tudo. A própria carreira fora a primeira a sucumbir. Depois os amores, a vontade de ficar rico, de fazer cinco faculdades e seis mestrados, a diversão inocente, a diversão hedonista, o desânimo, o niilismo, tudo perdera o seu encanto, o glamour. No verão parecia que tudo piorava: o ar pesado; o calor desumano; as poucas roupas das semi-deusas, filhas de Afrodite, inalcançáveis pelo seu salário sub-gerencial. Mas havia tempestades! Banhar-se na chuva da tempestade de verão quando chegava do trabalho era o máximo que chegara a um orgasmo. Certa feita, antes de anoitecer, anunciava-se a tempestade. A expectativa parada do ar à beira-mar. Não ventava. Não esfriava. O bafo quente e úmido era a certeza que era um típico Verão Opressor. Não eram dias da alegria tradicional dos trinta e poucos graus, com Sol a pino e as roupas no armário. Era a face de Helios que se voltava lembrando aos seus adoradores que ele é pai: dá a vida e alegria mas toma-as ambas ao mesmo tempo, se necessário. Na rua: pessoas apressadas para curtir o restinho de sol na praia; engravatados derretendo como velas, querendo chegar em casa para banho e cerveja gelada; crianças vivendo o resto da sua liberdade dos livros e horários, umas retratos do caos em sorrisos, outras deixando a infância em cada beijo dado; vendedores sobrevivendo na oportunidade e na contravenção. Ele se apressara a sair do trabalho a tempo de ver as nuvens se amontoando como uma decisão de futebol no Maracanã. Aquela massa cinzenta vindo irresistível fazendo-se aterradora aos homens pobres de espírito. Saltou do ônibus e sentou no quiosque em frente à Hilário de Gouveia. Esperou a primeira gota como quem espera a sobremesa depois de um almoço de vegetais insossos e minerais inertes. Em segundos estava encharcado de água e porra. Levantou-se. Pegou a pasta com os papéis inúteis e inutilizáveis. Atravessou a rua sem olhar para os lados. Caminhava sem se preocupar em disfarçar a cara que pedia um cigarro pós-coito. Deparou-se com ela. Primeiro notou os cabelos negros, cacheados, à altura dos ombros. Depois a pele alva. Aí viu que estava de vestido branco, seios à mostra na transparência dos tecidos. Os pêlos, mais discretos, perceptíveis a quem não fosse míope. Por último o sorriso de quem gozava como se não houvesse amanhã. Ao redor dos dois, as pessoas apressadas em fugir da água, como se fossem de açúcar, outras abrigavam-se nas marquises dos restaurantes da beira-mar. Os raios no oceano soavam o encontro e os carros lentos se acumulavam na pista, compondo uma sinfonia de surdos elétricos, motores à explosão e buzinas eventuais. Esse mundo de pessoas, esse mar de histórias, passava invisível àquele casal. Olharam-se. Descobriram que eram um para o outro. Os braços enlaçados. As bocas sôfregas. Os instintos finalmente descobrindo para que foram feitos. Acordaram em um desses hotéis caros e vagabundos do Lido. Ele, contemplando a beleza nua dela. Ela, aninhada no peito dele, brincando com os pêlos parcos que insistiam em nascer. Ele pediu um café da manhã que veio rapidamente. Comeram. Beijaram-se. Amaram-se pela quarta vez. Ao término da maratona, ela tentou esboçar assunto. “Qual o seu nome?” “Não faz isso.” “O quê?” “Não quebra esse silêncio.” “Como assim? Só quero saber o seu nome.” “Faz assim: não tenho nome para você. Se quiser, sou Chaac.” “Hein? Você é maluco?” “Não. Não é isso.” “Explica!” “Chaac é o deus Maia das chuvas e que...” “Deixa de babaquice. Qual é o galho?” “Tá bom. É que tem um cínico que mora aqui dentro, sabe?” “Hmhm.” “Um cara que acha que os encantos da vida são distração de um tolo, de um babaca distraído que se encanta com coisas corriqueiras, mundanas. De um idiota que não sabe que chuva é chuva, pedra é pedra, pão é pão.” Fez cara de quem não estava entendendo nada, mas deixou ele continuar. “Então. Ele estava distraído – fugindo da chuva, eu acho – quando me encantei por ti. Nos encantamos pelo momento, pela magia das águas do céu e do mar, pelo anúncio da tempestade. Em ti, vi a Deusa que Chaac fecunda para a colheita do outono.” “Acho que estou entendendo.” “É isso. E você ao abrir a boca, ao me pedir o nome, estava prestes a despertá-lo. Te peço apenas um momento de silêncio.” Ela consentiu mas ele não se calou. Encostou a cabeça no seu colo e, visivelmente emocionado, desabafou. “Me deixe tolo, naïve, ingênuo. Quero olhar o mundo novamente como quem não o viu e viveu dezenas de vezes. Vida, após vida.” Ela o olhou nos olhos. Beijou-o. Sussurrou algo no seu ouvido numa língua há muito morta e o recebeu como não fazia há centenas de anos.
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| Edição 32 | Quererá ainda, querida? por Carolina Thomáz
Engasgou no choro. Sorriso meia boca, meia face paralisada, garganta estática e lábios trêmulos. Voz quieta e sem tempo de orgulhar-se de qualquer coisa que não enxergara com a neblina de lágrimas no globo ocular. Observando o nada dentro de si mesma. Qualquer nada é esperançoso quando se tem algo dentro, seja fé ou dose de arrogância polida. E quando o nada é dentro? Ocupava tão grande e estufado lugar que preenchia o equivalente à sua arrogância em pensar ganhar qualquer aposta. Agora era apenas neblina ocular em ebulição pelo chão seco da estrada em que fora largada. No nada um único pensamento desponta pra alivio literal. - “Porque falaram pra engolir as lágrimas se garganta não chora?”. Bilhete em mãos e ódio no olhar. Começa a andar sem nada poder conter... [Noite] Lugar qualquer. Bar - casa de quem mora na estrada. O espaço presente. Não há detalhe capaz de criar vida nesses casos. Um ser a mais. Aparência prepotente, andar instintivo, fala firme e olhar estaca! Sentia prazer enorme quando o instinto cru-primitivo tomava proporção de pulsos contínuos, assim caminhava anestesiada deixando qualquer marmanjo estático. Uma dor acostumada pode ser um problema a menos. Era de um brilho agressivo e seco. - olha lá mais uma da vida. Aquela mulher, um animal impiedoso. Ela era algo diferente e insólito, alguém que sentia as sensações físicas mais que os outros. Sentia-se suja, impura. Largada em estrada estranha, era o que dizia de si mesma quando o assunto era nacionalidade. E assim não havia obediência para pedido qualquer, vez que nunca perdera uma jogada de sorte. Conquistava as vítimas com tamanha habilidade, e sempre fora fascinante observá-la seja pra conseguir um trago ou um quarto para aquecê-la. E nunca precisara estar acompanhada nem pra conquista e nem pra conquistar. O tiro reluzente amedrontava pela beleza. Seus olhos eram estacas. Por opção, nunca dormira sozinha. Raras noites que passara sozinha e essas nunca eram em aposentos, mas sim perambulando. Como quem cai em estrada seca e excita-se com a sensação de queimar a pele no solo. Ali ficava ate chegar dia. Uma sem vergonha com orgulho. Bastava uma levantada de sobrancelha e o recado estava dado: - tá esperando o quê? - Tá esperando o quê homem? Ele arregala um olhar descrente da certeza daquela mulher. Observa o jeito que ela segura o taco, o olhar que não desviara dele um único segundo, os golpes bruscos das jogadas. Pensa de que lugar viera àquela mulher capaz de jogadas que só homem de estrada realiza com tamanha escrotidão. - Que cara é essa? Dentro de um quarto ninguém tem nada a perder – ela fala sorrindo sarcasticamente o gosto da vitória. - Ou tem? Tem algo a perder e eu não pensei nisso antes? Agora sim ela era puro deleite promiscuo volátil. Tão dedicada ao próprio prazer quando a arte era sexual que acabara o sorriso desbravador já com o corpo inclinado, roçando o seio no corpo daquele desconhecido, e rindo de seu olhar assustado. E assim ficaram até os corpos caírem exaustos num sono profundo. O sol, de estradas quentes, invade o quarto vazio. No corpo do homem marcas da noite incessante. Seus olhos descrentes e nó na garganta. No travesseiro ao lado o orgulho ferido num papel vagabundo: “Tem algo a perder e eu não pensei nisso antes?”. Engole as lágrimas na garganta que já chora raivosa. Não há marca do pneu do seu carro pra provar que fora largado na estrada de lugar algum. Esconde as marcas do corpo na vergonha do assalto. Curvado na guia quente, sobrou só a neblina ocular em ebulição pelo chão seco da estrada em que fora largado, e um bilhete na mão. Na delegacia os berros de uma mulher que, assim como ele, fora largada na estrada restando apenas um bilhete na mão feito em papel vagabundo: “Quererá ainda, querida?”. * Publicado anteriormente no site Patife em: "Meninos Não Choram".
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| Edição 31 | NECRÓPSIA por Lívia Santana
Love After Death por Rafael G. - Eu quero saber o porquê. - o tom de voz era estrangulado. - Não tem porquê, é um monte de coisas... - queria ir embora, estava exausta. - Você ainda me ama? - inconformado. - Amo. Mas não do jeito que amava. - como quem fala a uma criança. - Como assim? Ama ou não ama? - começa a se exaltar. - Amo. Como alguém especial que foi parte da minha vida, mas que agora não é mais. Acabou. - a angústia aumenta, tem vontade de sair correndo. - Não, não vem com essa não. Se você não me ama, eu vou embora e não encho mais o saco. Mas se me ama não acabou coisa nenhuma, ora! - eleva a voz. - Acabou. Não insiste, por favor - implora. - Mas você disse que ainda me ama! Então eu tenho que lutar, tenho que manter você do meu lado! - desesperado. - Mas não é nada disso! - leva as mãos à cabeça. - Então é o que? - tenta se controlar. - Se eu disser que não te amo mais, estarei mentindo. Mas não quero mais ficar com você, não tem mais nada a ver. - não quer dizer tudo o que pensa, não quer magoá-lo. - Mas ontem tinha! O que mudou? - insiste. - Não tinha nada! - explode - Há muito tempo não tem mais nada a ver! - está prestes a dizer. Droga! - E por que nunca me falou nada? O que eu fiz de errado? - irracional. - Não tenho que te falar isso, a gente não tem mais nada pra discutir. O mais importante é o sentimento, e esse não existe mais. - decide acabar com aquilo. - Mas você me ama! - ele parece não ouvir uma palavra do que ela diz. Ou está determinado a torturá-la. - Você quer que eu te diga que não te amo? Então tá bom: EU NÃO TE AMO MAIS! - histérica. - Mentira! - grita. - ... - ela chora, vontade de esbofeteá-lo. - Vem cá. - tenta abraçá-la. - Não! - desvencilha-se - Escuta, não dá pra gente ser adulto? - O que é ser adulto? É ser frio que nem você? Porra, eu te amo! - soca o volante do carro. - Acabou. - repete baixinho. - Acabou por quê? - repete, com raiva. - Você acha mesmo que somos felizes? - se ele não se importa em torturá-la, não vai se importar em magoá-lo. - Claro! - usará todos os argumentos, ela tem que ceder. Como sempre. - Então as coisas estão piores do que eu pensei. - ela suspira, segura a bolsa. - Você nunca falou nada! Você sempre fica nessa porra de mutismo, me olhando com essa cara, esperando que eu leia o seu pensamento! - ele se descontrola. - Então eu vou dizer. - suspira. Ele nunca via nada. - Você me maltrata, me controla, me abandona - ele faz menção de dizer algo - Não me interrompe! - continua, olhando as palmas das mãos - Você faz eu me sentir uma idiota completa, sempre me compara com as outras, me manipula, sempre tem um argumento bom demais pra me convencer de tudo. - trêmula, olha pra ele, as lágrimas escorrendo, os olhos muito abertos - Você roubou a minha identidade. E se você não vê nada disso eu já devia ter ido embora há mais tempo. - pega a bolsa e abre a porta do carro. - Espera! - ele tenta segurá-la. - Me perdoa! Eu posso mudar, posso ser diferente! Me dá outra chance! - as palavras saem aos borbotões. Ela o fita uma última vez. - Você quase me fez acreditar que eu sou mesmo uma merda. E se eu acreditasse nesse papo, seria mesmo uma. - soltou o braço da mão dele - Mas agora chega. Acabou.
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