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| Edição 40
|
A incrível história
de um homem complicado: um melodrama moderno sobre o amor
por Victor Andrade
Parte Final: Liberdade

Man Waking Up, 2005 ( pink marble, pewter,
bronze, inlay) por Allen Linder
Sandro acordou lentamente, com os olhos inchados
e a cabeça dolorida. Lembrara-se do tal anjo, e de ter chorado
muito, enquanto relembrava fatos que preferia esquecer para sempre. Olhou
para o lado e viu o anjo. Ele estava sentado na cadeira da escrivaninha,
olhando pela janela:
"Levanta, Sandro. Tens um lindo amanhecer para assistir".
Sandro não foi até a janela. Preferiu
ficar sentado na cama.
"Por que você ainda está aqui?"
"Porque a parte mais importante ainda não foi
dita. Ontem, tu não estavas em condições. Preferi
que descansasses. Assim que quiseres, podemos tratar da verdadeira razão
da minha vinda."
"Diga."
O anjo se levantou e tocou as mãos de Sandro.
"A razão de eu ter vindo aqui é para
te dar a boa nova: estás livre, a pedido de alguém que te
ama."
"Livre do que?"
"Daquilo que vimos ontem. Agora que sabes das razões
pelas quais não te permites amar, podes pensar se o teu desejo
é continuar vivendo assim ou viver sem medo do amor."
"Agora estou confuso. Você não veio aqui
pra mandar que eu voltasse para a Michelle? Não foi por isso que
você veio aqui?"
"Não. Vim para te mostrar por que razão
tu foges de toda namorada que demonstra te amar de verdade. Mas a decisão
cabe a ti."
"Como assim? Você vai me deixar na mão?"
"Muito pelo contrário. Eu já te dei
mais do que deverias ter recebido. Tens em tuas mãos a oportunidade
de ouro de resgatares o amor do passado."
"Não é assim tão fácil.
Garanto que a Michelle já deve ter um namorado novo. Ela deve ter
mandado aquele email pra me preparar psicologicamente: um dia, vou dar
de cara com os dois."
"Sandro, por que te julgas tão desprezível?
Queres saber a verdade, eu te direi: Cecília abriu a caixa quando
você foi embora da festa de quinze anos dela. Olhou as alianças,
chorou e passou seis meses te esperando. Não te procurou porque
sentiu vergonha, por ter feito coisa tão dura contigo. Está
casada, grávida de um menino que, já decidiu, batizará
com o teu nome. Leila até hoje tem aquele bicho de pelúcia
que tu deste na comemoração do primeiro mês de namoro.
Tamara já quis te ligar várias vezes para marcar um encontro,
mas tem medo de parecer uma mulher oferecida. E Michelle... Bom, eu não
devia falar sobre essa."
O anjo abriu um sorriso bastante sapeca. Sabia a conseqüência
da frase que havia deixado no ar: Sandro abriu bem os olhos, fez cara
de espantado e disse: "Como assim??? Conta, conta logo!!!!!"
"Acontece, Sandro, que ela está contigo. É
por causa das orações dela que me foi ordenado descer à
Terra. E não estou dizendo isso para que acredites que tens que
ir até ela. Não é o meu propósito aqui. Meu
propósito é liberta-lo."
"Ela não está pedindo pra você
juntar a gente de novo?"
"Não. Ela está rezando para que tenhas
paz de espírito, para decidires o que é melhor. E só
terias essa paz se entendesses o motivo da tua angústia. Exatamente
por essa razão, estou aqui. E tu és livre, livre para decidir
o que queres."
"Mas vocês não costumam fazer assim,
não é? Só na bíblia tem esses relatos de anjo
daqui, anjo dali, dando orientações etc. Será que
eu sou tão importante assim? Ou será a Michelle?"
"Rapazinho, eu não estou autorizado a falar
dos nossos métodos de operação. Mas, já que
estás me provocando, eu te explicarei: não, vocês
não vão gerar um filho iluminado, nem são tão
importantes assim. São gente pequena. Como todos são. E
Deus cuida de todos igualmente, desde que estejam dispostos. Mas, pra
responder à sua pergunta: Deus não nos envia mais para dizer
o que é melhor, mas utilizamos o potencial multiplicador de cada
ato."
E continuou: "Essa tua história vai ser comentada
com dois, que vão comentar com mais oito. Um deles vai escrever
num email. 57.314 pessoas vão ler a mensagem, ao longo de 12 meses.
Desses, há 8.749 pessoas que estarão passando por um momento
semelhante ao seu e que encontrarão sentido no que está
escrito. Por fim, uma pessoa vai fazer um conto sobre toda essa história,
que vai ser publicada num site, sendo lida por 54.812 pessoas, sendo que
mais 11.103 vão entender a mensagem dessa história como
um sinal para si mesmas. Compreendeu? Milhares de pessoas, que nem sequer
vão saber quem és, vão se beneficiar. Deus trabalha
assim."
Sandro fica estupefato com tamanha modernidade. Deus inspira
email? Como assim? Ante tal revelação, Sandro se sente um
idiota. Depois dessa, já não estava na posição
de duvidar de mais nada. Até riu da situação.
"O mais importante, no teu caso, é que compreendas
que és livre. Esqueças disso que falei agora. Não
te preocupes com as tarefas, deixa-as a cargo do Altíssimo. A tua
obrigação é só uma: viver. Quanto a mim, agora
devo partir."
O anjo se despede de Sandro, deixando-o a sós,
frente ao sol que agora invade o seu quarto.
EPÍLOGO
Após o encontro de Sandro com o anjo, passam-se
três meses. Nesse período, ele conhece a Martinha, uma graça.
Flerta com a Talita também. Ambas são bonitas, mas ele não
consegue se empolgar. Falta algo. Falta uma "Michelle" nelas.
É aí que ele, por conta própria, toma
uma decisão: liga para a Tamara. Saem duas vezes, também
não é grande coisa.
Acorda no dia seguinte ao último encontro com ela.
Olha-se no espelho e lê, escrito na sua testa: MICHELLE.
Inevitável. Parece que as orações
da menina fizeram mais efeito que o esperado. Nesse meio tempo, ela parou
de mandar emails. Nunca mais se viram. Ele nem sabe se ela está
viva, se mora no mesmo lugar.
Durante uma tarde de tédio, dentro do seu quarto,
ele pega o celular. Olha, olha, olha. E liga para Michelle. A voz de Michelle
enche os ouvidos de Sandro, mas ele fica preocupado: a respiração
dela está ofegante. Ele pergunta:
"Estou incomodando algo?"
"Não! (ofegante) Eu corri para atender ao telefone!"
"Mas, por que você correu?"
"Não sei. Eu sabia que tinha que correr, só
isso."
Sandro fica mudo com a resposta. Dez segundos depois, sorri e fala:
"É. Eu também sabia que você ia
atender."
Nada mais importa para eles. Vão viver a vida, só
isso.
Confira! Parte
I: Acordando aos 30, Parte
II: De volta aos 25,
Parte III: Conversa com o
enviado do Maioral e Parte
IV: Infância Cruel, Triste Adolescência
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| Edição 39
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A incrível história de um homem
complicado: um melodrama moderno sobre o amor
por Victor Andrade
Parte IV: Infância Cruel, Triste Adolescência

Man Waking Up, 2005 ( pink marble, pewter,
bronze, inlay) por Allen Linder
Sandro acompanha enquanto a luminosidade emana das mãos
do anjo e invade todo o quarto. Quando se dá conta do que está
acontecendo, percebe que está em meio a um corredor de luz, no
qual pode ver algumas cenas que ele se lembra de ter vivido.
O anjo olha para Sandro e diz: "Bom, agora eu vou
explicar a tua vida. Só um comentário: Deus é onisciente.
Logo, Ele sempre está certo. Não te preocupes em tentar
dizer que estou errado, porque não estou. Ouça e reflita."
A primeira cena para a qual o anjo aponta é
uma cena que sempre permaneceu em flashes na memória de Sandro.
Ele tinha cerca de quatro anos e estava brincando de casinha com duas
amigas: Juliana e Márcia. Sandro, muito feliz na brincadeira, pergunta
para Juliana: "A gente ta casado?". Juliana ri e responde: "Não,
você é muito feio! Mamãe falou que eu vou casar com
um menino bonito, quando eu for grande". Triste com e resposta, ele
se vira para Márcia: "Você quer casar comigo?".
Márcia responde: "não. Só quero fazer um bolo
gostoso e mostrar pra tia".
Sandro ri, comentando baixinho: "Lésbica desde
pequenininha".
O anjo olha para Sandro com frieza e fala: "é
por isso que guardas tantas marcas do passado. Não olhas para ti
mesmo. Preferes que a tua mente, às escondidas, te encha de traumas.
Percebes o que houve aí? Foste REJEITADO. E desde então,
passaste a te sentires assim, como se ninguém fosse aceitar-te
como és".
Sandro perdeu o sorriso e arregalou os olhos para o anjo.
Como assim, sentia-se rejeitado? O anjo devia estar errado, certamente.
Mas, por outro lado, o anjo (aliás, se isso não for uma
alucinação) é um enviado de Deus, deve saber tudo.
Aquilo estava começando a fica desagradável, principalmente
porque Sandro não gostava de se auto-analisar. Aliás, não
gostava de refletir. Isso era tão claro para os que o cercavam
que, por três vezes, seus pais tentaram encaminha-lo para um psicólogo,
a fim de pensar um pouco sobre a sua visão de mundo. Em vão:
ele nem sequer quis saber o nome dos profissionais indicados. Ainda hoje,
costuma dizer que sabe exatamente o que se passa na sua cabeça.
Ledo engano.
O anjo continuou: "sim, guardaste esse sentimento
de rejeição desde então, em relação
a todas as pessoas que o cercam. Por isso, quando te entristeces, acabas
te afastando de todos o que te amam: para não correres o risco
de seres rejeitado, de repetires essa cena boba que viveu no jardim da
infância. Infelizmente, não compreendes que essas horas de
tristeza são os momentos nos quais os que te amam são ainda
mais importantes para ti".
Olhando para outra tela, o anjo mostra a festinha
de aniversário
de oito anos, que Sandro comemorou numa lanchonete. Depois de cantarem
o "parabéns prá você", começaram
a cantar também o famoso "com quem será?". Acontece
que Sandro era apaixonado por uma menina de olhos verdes e cabelos dourados
da sala
dele, chamada Viviane. Cantaram a tal música citando o nome dela
e ele esperava, em seus sonhos infantis, que a menina ficasse vermelha,
talvez até sorrisse pra ele. Mas ela não estava perto da
mesa.
Quando foram procura-la, descobriram que ela havia acabado de dar um estalinho
no Celso, aquele mesmo que hoje é o seu melhor amigo.
"Sabe o que a tua mente guardou disso, Sandro?"
"Sei: decepção."
"Mais do que isso: como não quiseste abrir
mão da amizade com Celso, preferiste abrir mão dos sonhos
românticos com essa menina. Só que estendeste esse pensamento
para todas as garotas, a partir daí. Não permitiste que
tua mente deixasse outra menina habitar os teus sonhos até os dez
anos de idade. Mesmo depois, aprendeste a destruir os sonhos que o teu
coração insiste em ter."
O anjo se vira para outra cena. Nela, há um casal
de cachorros cruzando. Sandro tinha doze anos quando viu a cena. Não
agüentou a curiosidade e perguntou: "Essa cena faz parte do
meu problema com mulheres? O que ela quer dizer?"
"Não quer dizer nada. Essa cena foi a responsável
pela tua primeira ereção. Só deixei aqui para que
percebesses como és patético. Aliás, todos vocês
são".
Ante o sorriso sarcástico do anjo e o total constrangimento
de Sandro, a cena se dissolve. O anjo olha para outra cena, uma cena que
logo muda as feições de Sandro para uma expressão
de desalento. É a primeira vez que seus olhos se enchem d´água.
É uma cena linda: um salão decorado, com
cerca de oitenta, talvez cem convidados. Sandro tinha dezesseis anos e
já namorava Cecília havia oito meses. A menina era especial:
linda, com um sorriso angelical, olhos castanhos com pontos brilhantes,
sempre simpática. Era um pouco mais baixa do que ele, na altura
certa para pousar a cabeça sobre o seu peito nos momentos mais
românticos. Foi com ela que Sandro teve suas primeiras experiências
sexuais, tudo envolto em medo, falta de informação, e uma
paixão tão grande que jogara por terra todos os traumas
e barreiras que ele tinha em sua mente.
Aquela noite não era uma noite comum. Era
a festa de quinze anos de Cecília. Ela parecia uma princesa, de
tão linda. Irradiava doçura, envolta por um vestido de um
rosa tão claro que, sob a luz do salão, quase se confundia
com o branco. Sandro também estava muito bonito, numa farda que
seus pais alugaram para que ele fosse um príncipe à altura
daquela debutante. No bolso, Sandro trazia um presente
especial: uma caixinha, dentro da qual havia um par de alianças.
E a festa foi perfeita, a valsa foi perfeita, os
sorrisos foram muitos. Cecília parecia um pouco desanimada, mas
dissera que a razão disso era o cansaço de ter passado o
dia todo correndo para o salão, depois para casa, depois para a
festa.
Sandro acreditou.
No final da festa, Sandro conseguiu leva-la para um jardim
externo, em frente a um pequeno lago. A lua era refletida nas águas,
transformando o momento em algo que ele jamais esqueceria. Foi quando
ele pegou a caixinha fechada e entregou a Cecília. Antes de abrir
o presente, ela pediu para falar uma coisa. Seu rosto estava tenso, parecia
que havia algo errado. Quando começou a falar, Sandro entendeu:
ela disse que o amava, mas que havia algo estranho acontecendo. Pediu
desculpas e terminou o namoro. Sandro, naquele momento, caiu de joelhos
e começou a chorar. Cecília não sabia o que fazer
e começou a chorar também. Pediu desculpas, tentou coloca-lo
em pé. Sandro se levantou, deu as costas e foi embora.
O anjo toca o ombro direito de Sandro, que a essa altura
chorava descompassadamente. Jamais esperara viver aquela tragédia
pessoal, e agora era obrigado a assisti-la em todos os seus detalhes,
relembrando a maior dor que sentira em sua vida.
"Sandro, me escute. Não precisas cultivar essa
dor. Nem precisas ter medo de que aconteça de novo. Nenhuma das
tuas namoradas posteriores seria capaz de causar um sofrimento parecido.
No entanto, tu te afastaste de todas elas. Quanta dor tens causado, a
ti mesmo e a elas, pelo medo de sentires dor novamente!"
"Eu não posso! Passei meses chorando por causa
da Cecília! Não quero mais que isso aconteça! Não
vou permitir!"
"E, para que isso não aconteça, preferes
repetir essa mesma história na tua cabeça, todos os dias.
Só que a Cecília já passou. As outras namoradas não
eram a Cecília. Nem poderiam ser. E insistes em trata-las da mesma
forma".
Sandro não suportava vivenciar aquilo de novo. Chorava
muito, num descontrole de dar pena. Desde que saíra desse longo
período de dor, a lembrança o acompanhara, mas ele nunca
se deixava levar: usava a bebida, a pegação, a música
alta, até o estudo, para espantar aquele pensamento ruim. Aprendera
com os amigos a fugir dos maus pensamentos, como se não fosse necessário
refletir, assumir seus próprios erros, perdoar os erros dos outros.
Mas agora era diferente: estava sendo forçado a encarar os fatos.
Perguntou:
"Por que você está me obrigando a pensar
nisso?"
"Por dois motivos. O primeiro é simples: mereces
encarar isso de frente, para que possas aprender a lição
que te foi ensinada e que ainda não reconheceste. Entenda, Sandro,
que uma dor deve ser sentida e esquecida, ou estarás fadado a revive-la
e senti-la pelo resto de tua vida. Só quando entenderes isso é
que serás livre. O segundo é para que aprendas que podes
voltar atrás quando cometeres os teus erros. Nunca é tarde
para reverteres a situação, ainda mais por causa do amor.
E isso tem a ver com algo de muito importante, que ainda devo te falar.
Estás preparado para ouvir?"
Sandro não conseguiu mais dizer uma palavra, de
tanto que chorava. Foi quando o anjo o ergueu nos braços, como
se fosse um bebê. Soluçando muito, Sandro dormiu embalado
pelo enviado de Deus.
Confira! Parte
I: Acordando aos 30, Parte
II: De volta aos 25 e
Parte III: Conversa com o
enviado do Maioral
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| Edição 38
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A incrível história de um homem
complicado: um melodrama moderno sobre o amor
por Victor Andrade
Parte III: Conversa com o enviado do Maioral

Man Waking Up, 2005 ( pink marble, pewter,
bronze, inlay) por Allen Linder
Sandro esfrega os olhos e a alucinação
não se vai.
"Caraca... Você é Deus?"
"Tecnicamente, tudo é Deus. Ele é o Universo. Mas,
se prefere outra perspectiva, eu sou só um anjo. Dos menores, diga-se
de passagem. Proporcional à tarefa."
"Mas, como assim? Você veio me levar? Eu morri?"
O anjo olha para o alto, buscando paciência. E responde:
"Não, Sandro. Se você tivesse morrido, estaria passando
por uma situação um pouco mais desconfortável. Eu
vim conversar."
"Mas, mas... Espera aí, eu devo estar sonhando! Onde já
se viu, aparecer um anjo na minha frente? e aquelas coisas de falar na
nossa mente, de nos dar intuição? Não é assim
que Deus trabalha?"
"É. Mas só com quem lhe dá ouvidos. E não
é o seu caso. Você não ouviu o sussurro de Deus, nem
o conselho daquela senhora no supermercado, nem o seu melhor amigo, ninguém.
Quando o caso é complicado, Deus resolve de um jeito mais incisivo."
Sandro estava pensando se aquilo seria resultado de um sonho ou de uma
alucinação. Não podia acreditar na possibilidade
de um anjo lhe aparecer para "dizer o que Deus mandou". Isso
é coisa prá gente religiosa, pros fanáticos. Não
era o caso dele. E aquelas situações, da senhora do supermercado
e do seu melhor amigo? Ele não se lembra de nada disso. Quer dizer:
ele se lembrava de ter sido abordado por uma senhora na semana passada,
quando foi comprar cervejas no mercado, mas pensava que a velhinha estava
dando uma lição de moral por causa das bebidas
alcoólicas e nem deu ouvidos. E Celso? Ah, Celso perguntou uma
ou duas vezes sobre a Michelle, realmente não se lembrava dele
ter dito nada de especial. Estava confuso.
O anjo continuou:
"Preste atenção, eu vim para clarear as suas idéias.
Pare de se questionar, isso é real. Agora, uma coisa importante:
eu não estou aqui para obrigá-lo a nada. Você é
quem escolhe. Mas parece que você não tem condições
suficientes para tomar a decisão. Se estivesse pronto, nem mesmo
o sonho de ontem teria abalado você. Mas abalou, não foi?"
Seria possível mentir para um anjo? Sandro não estava disposto
a descobrir. Em resposta à pergunta, balançou a cabeça
afirmativamente.
"Pois bem.", disse o anjo. "O que eu vim fazer aqui é
muito simples: eu vou falar sobre você, e a conversa tem um pouco
a ver com uma moça, chamada Michelle. Você e ela podem estar
separados por motivos... inadequados. Não deveriam estar assim,
distantes e sofrendo.
Sandro retrucou: "Peraí, mas quem está sofrendo? Eu
estou bem. Ou melhor, estava bem até o sonho de ontem. Vocês
é que devem estar armando alguma coisa prá cima de mim."
Os olhos do anjo adquirem um tom de vermelho-fogo e Sandro percebe que
pode ter feito uma grande besteira. Pediu desculpas, fez menção
de se ajoelhar, não sabia o que fazer. O anjo então lhe
diz:
"Infelizmente, eu só vim para conversar. Não posso
fazer o que eu deveria com um blasfemador como você. Mas, tudo a
seu tempo. Você vai me dar ouvidos ou não?"
Frente ao silêncio de Sandro, o anjo começa a falar sobre
a questão do fim do relacionamento. Perguntou se não houve
nada estranho, se ele havia percebido algo de diferente. Sandro responder
negativamente. O anjo fala:
"Percebeu que você terminou o namoro porque constatou que vocês
estavam indo bem?"
Sandro fez cara de idiota. Típico dele, quando está confuso.
Retrucou:
"Não foi isso! A questão é que, do jeito que
a coisa estava indo, ela ia começar a falar em casamento. Eu não
posso pensar em casamento! Nem terminei a faculdade ainda, nem tenho emprego,
sou jovem demais, não dá!"
"Ela ia começar a falar em casamento? Você já
estava pensando na possibilidade, por que ela não poderia?"
"Porque aí nós íamos casar! Não parece
óbvio?"
O anjo esboça um sorriso sarcástico. E dispara:
"E se eu lhe disser que aquilo que você teve ontem não
era um sonho? Se eu disser que ontem você viveu um dia de casado
com ela? O que você me diz?"
Sandro arregalou os olhos. Esboçou balbuciar algo, não conseguia.
Perdeu o equilíbrio e despencou no chão, como se a realidade
tivesse, gentilmente, lhe dado um chute, projetando-o para fora da cama.
O anjo continuou:
"Também não era realidade. Mas não era sonho.
A questão é que é possível. Só depende
de vocês. Mas, de uma forma que você classifica como racional,
você abriu mão da companhia dela. Se isso é racionalidade,
o que não seria?"
"Você não está me entendendo."
"Não, Sandro. Quem não está me entendendo é
você. Acho que está na hora de termos uma conversa mais baseada
em fatos. Venha cá, vou te mostrar uma coisa. Espero que você
tenha coragem de ver."
Sandro hesita por algum tempo. Não sabe o que fazer. Ninguém
o havia preparado para viver numa situação dessas. Havia
um anjo em seu quarto,
aparentemente "botando pilha" pra ele voltar com a ex-namorada.
Além disso, o anjo queria mostrar algo. O que seria? Talvez um
filminho do futuro, mostrando as cenas do casamento, a lua-de-mel em Paris.
Ou será que seria uma cena da Michelle com outro cara, pra ver
se ele sentiria ciúmes... Não! Sandro prometeu para si mesmo
que, mesmo que sinta algo, não vai demonstrar nada.
O anjo pergunta calmamente:
"Faltou coragem?"
Sentindo que a pergunta foi feita em tom de provocação,
Sandro se levanta do chão e vai até o anjo, que agora mantém
as mãos juntas, em formato de concha. Dentro das mãos, há
algo brilhante. Ele se aproxima, sem saber do que se trata. É quando
o anjo olha prá ele e diz:
"Espero que você tenha prazer em conhecer. Esse é você.
É por essas razões que você não quer saber
de relacionamentos sérios".
Confira! Parte
I: Acordando aos 30 e Parte
II: De volta aos 25
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| Edição 37
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A incrível história de um homem
complicado: um melodrama moderno sobre o amor
por Victor Andrade
Parte II: De volta aos 25

Man Waking Up, 2005 ( pink marble, pewter,
bronze, inlay) por Allen Linder
Sandro acordou assustado às quatro horas da manhã.
A primeira coisa que fez foi, mesmo na escuridão, olhar para o
seu redor. Conseguiu identificar o vulto da escrivaninha, a porta empenada
do guarda-roupa, percebeu que a cama era a sua própria cama. A
de "solteiro".
Apalpou sua cabeça e reparou que o cabelo estava curto, como sempre
fora. A coberta era a mesma, manchada pelo molho de tomate de uma macarronada
que comeu há meses. Percebeu que voltara a ser ele mesmo. Com alívio,
suspirou profundamente.
Mas não conseguiu mais dormir. Era como se já tivesse descansado
o suficiente. Algo impossível, uma vez que a sua rotina inclui
assistir a algum filme ou ficar nas salas de bate-papo que freqüenta
até praticamente desmaiar de sono. Ele se lembrava de ter ido dormir
por volta de duas da madrugada. Como poderia sentir-se desperto numa hora
dessas?
Começou a raciocinar: "bom, se eu dormi às duas, era
prá ter acordado com o despertador gritando. A não ser que...
Que eu tenha ido tirar uma soneca antes do jantar e tenha pego num sono
profundo, emendando até agora.". Não precisava de nenhum
espelho, nem de iluminação, prá ter a certeza de
que estava com cara de idiota.
"Impossível, impossível. Devo estar maluco".
Levantou e começou a pensar. O sonho estava tão firme, tão
claro em sua mente, que é como se realmente ele tivesse vivido
aquilo tudo. Procurou por alguma maneira de confirmar se viveu aquilo
tudo ou se fora um sonho. Triste ilusão: apenas nos filmes americanos
acontece de haver um hematoma, o cheiro de um perfume, algo que prove
que o sonho era real. Desapontado, tentou dormir de novo. Mas estava desperto,
pronto para ir à faculdade. A única opção
para ele era ligar o micro e aguardar o dia amanhecer.
Foi quando viu que, às três horas da manhã, Michelle
enviou um email. Abriu ansioso, esperando que fosse algo relacionado ao
sonho. O email trazia a seguinte mensagem:
Oi. Só mandei esse email prá saber se tá tudo bem.
Espero que sim. Não precisa responder. Eu nem sei por que razão
estou escrevendo. Mas eu não estava conseguindo dormir. Rolei na
cama até que percebi que, sem mandar essa mensagem, eu iria virar
a noite em claro. Tomara que eu consiga dormir agora.
Um beijo.
Sandro sentiu um peso tão grande sobre os próprios ombros
que chegou a se curvar. Passou a respirar com dificuldade. Ensaiou quatro
emails de resposta. Mas não enviou nenhum deles. Desligou o micro
e ficou sentado, em silêncio e no escuro, até o amanhecer.
Foi para a faculdade e não conseguiu se concentrar em nada, nem
mesmo nas conversas fiadas de intervalo entre uma aula e outra. Celso,
o seu melhor amigo, perguntou:
"o que houve, Sandro? Não dormiu não?"
"Que nada, ontem eu dormi cedo prá caramba, nem jantei."
"Tá maluco, mermão? A gente se encontrou no chat de
paquera! Era você ou era um hacker usando a tua conta?"
Sandro caiu em si e percebeu o que dissera. Desconversou, disse para Celso
que estava se lembrando de um filme que assistiu depois de sair do chat.
Inventou uma cena na qual um personagem dormia cedo. Tudo fajuto, mas
Celso não estava disposto a dar atenção à
coisa. Emendou o papo nos assuntos de sempre: a festa do próximo
final-de-semana, as gatinhas da faculdade, a fase ruim dos times locais.
Não havia espaço, na mente de Sandro, para equações
e textos de referência. A manhã teve outros tipos de preocupação
ganhando prioridade: misto de perplexidade e dúvida, cada pensamento
que lhe passava a cabeça gerava ainda mais confusão: e se
o sonho fosse verdade? E se aquele emprego e aquela mulher estiverem na
vida dele daqui a cinco anos? Por outro lado, e se começasse a
acreditar nisso e tudo não passasse de uma ilusão? Precisava
se acalmar. Foi quando se lembrou do email que Michelle lhe enviara. Decidiu
ligar para ela, ao menos para escutar a sua voz, saber se havia traço
de choro ou se tudo estava bem.
Antes de ligar, pensou na história dos dois: no barzinho onde se
conheceram, na primeira conversa, no beijo roubado na hora de ir embora.
Lembrou da primeira vez que ligara prá ela, em como os dois estavam
felizes no reencontro, no brilho dos olhos dela quando marcaram o encontro
seguinte... O namoro foi uma conseqüência inevitável.
Bem como a crise.
Acontece que Sandro tem um terrível apego à liberdade. Acredita
que é jovem demais, pobre demais, enfim, sente-se "tudo demais",
sempre contra a idéia de ter um relacionamento firme. E aí,
o relacionamento sempre se abala prematuramente, sempre por causa dele.
Foi assim com a Sabrina, a Leila, a Mariana, a Tamara, a Juliana. E com
a Michelle. Aliás, com a Michelle foi diferente: na hora em que
terminou, ele ouviu uma vozinha em sua mente dizendo: "você
está cometendo um erro". Foi a primeira vez que isso aconteceu.
Pegou o celular, mas não queria deixar o número registrado
no celular dela. Preferiu o orelhão. Comprou um cartão,
foi até o telefone público, discou. Michelle não
atendeu. Podia estar ocupada, talvez chorando. Sandro insistiu. Foi quando
ela atendeu. E sua cabeça se confundiu de novo.
Sandro se confundiu porque não entendeu o que ela disse. Ficou
na dúvida, se tinha ouvido "alô" ou "amor".
O rosto ficou quente, a dúvida paralisou a boca. Não conseguia
falar nada, nem tinha o que falar. Desligou. Suspirou fundo, passou dois
minutos parado, olhando para o telefone. Por fim, bateu a mão contra
a testa e foi para o estágio.
Ao sair de lá, um pensamento passou por sua cabeça: "vou
correr prá casa, pode ser que a Michelle peça...".
Estancou. Como assim? Pedir o que? Acabou. E pronto. Ou não? Sim,
havia terminado o namoro. Agora, seriam amigos, somente isso.
Espantou o pensamento da cabeça. Admitiu que não tinha como
aquele sonho ser verdade, que não tinha visto o futuro. Aliás,
nem tinha motivo para aquela ligação telefônica. Também
não tinha razão para o email dela deixar de ser respondido.
Assim que ligasse o micro, responderia. Afinal de contas, era uma forma
muito boa de começar a amizade entre os dois: com uma troca de
emails cordial. Quem sabe um dia, um ligaria para o outro. E ela é
uma menina tão legal, vale a pena ser amigo dela.
Pensou tudo isso e sentiu uma fisgada no pensamento: quanta crueldade!
Como se sentiu sujo por pensar na Michelle como um brinquedo, uma boneca
cujos sentimentos de amor sejam controlados por botões... "Agora
você ama, agora não ama". Melhor manter a distância.
Não responderia email nenhum. Nem freqüentaria os lugares
que ela gosta mais, prá não se encontrarem nem mesmo por
acaso. Pelo menos nas próximas semanas.
Chegou em casa para jantar. Conversou com os pais, comeu alguma coisa
e pediu licença para "ir fazer um trabalho no micro".
Não havia trabalho, só a vontade de ficar sozinho. Ligou
o micro, checou os emails, ouviu algumas músicas enquanto a mente
viajava. Pronto, sentia-se melhor. E convencido de que estava fazendo
o melhor. Prá que fazer a Michelle sofrer? Com o tempo, o clima
apaixonado ia acabar e ele ia ficar frio, ia querer se ver livre dela.
Seria pior fazer isso com um namoro de cinco ou seis anos.
A hora de dormir se aproximou e Sandro desligou o micro. Deitou-se na
cama e fechou os olhos. Foi quando ouviu uma voz:
"Lá vamos nós de novo. Agora, teremos que fazer de
outro jeito".
Sandro dá um pulo da cama e vê um homem de trajes brancos
de pé na frente da porta do quarto. O homem olha prá ele
e, sem expressar qualquer sentimento, fala:
"Muito prazer. Você nunca vai saber o meu verdadeiro nome,
mas pode me chamar de Deus".
Confira! Parte
I: Acordando aos 30
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| Edição
36 |
A incrível história de um homem
complicado: um melodrama moderno sobre o amor
por Victor Andrade
Parte I: Acordando aos 30

Man Waking Up, 2005 ( pink marble, pewter,
bronze, inlay) por Allen Linder
O despertador toca e Sandro vai, lentamente, abrindo
seus olhos. Por dez segundos, sua visão permanece embaçada,
e imagens de sonhos esquecidos ainda lutam para se firmarem em sua mente.
Ao desligar o alarme, percebe algo estranho: todo dia acorda às
7h45 para se levantar correndo e colocar alguma roupa que não esteja
muito amassada, tudo isso a tempo de chegar à faculdade prá
encarar mais uma daquelas disciplinas sacais que aparecem a partir do
sétimo período do seu curso superior.
Acontece que, estranhamente, o relógio despertou às 6h20.
Um pouco mais consciente, repara que a parede do quarto, que é
de um tom "amarelo-desleixado", está rosa. Ou violeta.
Nunca foi bom com nomes de cores. E aquele despertador não era
o seu. Mas o pior ainda estava por vir: de repente, ele sente um braço
repousar sobre as suas costas. Gelou: "oh, meu Deus, devo ter bebido
muito! Como foi que eu entrei em casa acompanhado, sem meus pais saberem???".
Ainda com os olhos arregalados, e antes de poder se virar, ouviu a voz:
"amor, não vai se atrasar. Você sabe que o Tavares é
um chato com horários".
Tamanha foi a surpresa, que Sandro se atirou no chão. E se jogou
em direção à parede, encostando-se nela. Foi quando
olhou para a cama e viu a dona da voz. Ele a conhecia, seu nome era Michelle.
Nesse momento, mil pensamentos começaram a surgir em sua mente:
"Como ela veio parar aqui? Nós terminamos, isso é impossível!
Ela deve ter me embebedado e me trazido para a casa dela, só pode
ser! Mas o pai dela vai me matar quando der de cara comigo! Como ela me
seduziu? E por que razão eu aceitei vir prá cá? Eu
devo ter pirado, droga! Não pode ser, eu queria ficar mais tempo
sozinho, não era prá eu ter cedido no primeiro reencontro!"
Foi quando a expressão assustada de Sandro começou a despertar
a curiosidade de Michelle: "Você está bem? O que houve,
amor?"
Sandro não ousava falar. Aquela era Michelle, mas estava diferente.
A Michelle que ele conhece não era assim, tão carinhosa.
E ela estava com um jeito de falar que parecia ser mais calmo... O cabelo
também estava muito diferente: ela não era loira? Por que
razão estava morena? Ele reparou tanto nela que até percebeu
que o corte havia mudado, estava "três dedos mais curto".
E perguntava-se em seu pensamento: "Tudo isso em um mês?"
Michelle deitou-se de novo e comentou: "Ah, já sei. Sonhou
com algo estranho de novo. Meu amor, eu vou esperar você sair do
banheiro prá me levantar. Não esqueça de me acordar,
tá?" E encostou a cabeça no travesseiro, fechando os
olhos novamente.
Sandro não entendia o que estava acontecendo. Mas teve a estranha
sensação de que deveria deixar o barco correr. Entrou no
banheiro.
No espelho, havia uma versão envelhecida dele. Ficou com cara de
idiota ao observar o seu reflexo: que barba era aquela? E o cabelo, porque
razão estava maior do que o seu tradicional corte máquina
4? E que banheiro era aquele, se o quarto da Michelle era um cubículo
de 3m x 3m?
Voltou até a porta e perguntou: "Esse banheiro é novo?
Você fez reforma?"
Michelle respondeu: "não, oras. É o mesmo banheiro
desde que nos mudamos". Resmungou algo ininteligível e enfiou
a cara com mais força no travesseiro.
Sandro entrou na ducha, como se fosse levado por um piloto automático.
Não entendia nada. Então, estavam morando juntos? Estaria
tendo uma crise de amnésia? E por que razão aceitara morar
com a menina que havia dispensado um mês antes? Seria resultado
de um porre? Ou de gravidez???
Sandro caiu sentado no chão do box. Provavelmente, era isso. Gravidez.
Terminou o banho, cobriu-se com a toalha e correu para ver o corpo de
Michelle, prá perceber se a barriga já estava crescendo.
Ela acordou e percebeu o olhar fixo de Sandro. Não resistiu e comentou:
"ué, já quer de novo? Você sabe que não
dá tempo, amor. A não ser que seja bem rapidinho...".
E começou a puxar a camisola
para cima.
Sandro não conseguia esboçar reação. Michelle
não era oferecida. Só transaram duas vezes, aquela seria
a terceira. Mas ela sempre fez jogo duro... Não agüentou a
situação. Sentou-se no chão, de costas para a garota
que, agora, estava nua à sua espera. E disse em voz alta: "eu
estou ficando maluco". O tom de voz foi tão desesperado, tão
perdido, que Michelle achou de algo de sério estava ocorrendo.
"Amor, o que está acontecendo?"
"Michelle, eu não estou lembrando de muita coisa... Como eu
vim parar aqui?"
"Ué, você voltou do trabalho, a gente jantou, depois
vimos o jornal... Tivemos uma transa sensacional e você dormiu,
enquanto eu fui tomar um banho."
"Mas, peraí, que casa é essa?"
"NOSSA casa, Sandro! A gente se mudou há quase um ano, como
você não se lembra?"
Sandro decidiu que, naquela situação de loucura, o melhor
a fazer era deixar as coisas seguirem seu curso. Talvez descobrisse o
que estava se passando. E desconversou: "É verdade... É
que eu tive uns sonhos estranhos, acho que confundiram minha cabeça."
Levantou-se do chão, deu um estalinho na sua "companheira"
(não sabia se era namorada ou esposa) e correu para vestir uma
roupa.
Ela, enrolando-se na colcha, fez beicinho: "você vai me deixar
aqui sem fazer nada?"
"Não posso, querida. O Tavares vai me matar se eu me atrasar".
Sob a cara fechada de protesto de uma mulher frustrada, colocou a roupa
(achou muito estranho, pois a sua roupa estava impecavelmente passada)
e correu para a porta, sem sequer olhar para o possível cardápio
do café da manhã. Tinha medo de descobrir que estava comendo
comida light e que não havia mais nenhuma cerveja na sua geladeira.
Pegou o celular (aliás, o celular também era novo) e procurou
na agenda: achou o tal Tavares. Decidiu ligar. Foi recebido com uma voz
que expressava incontida alegria: "Não acredito! O Homem-trabalho
está me ligando! Que foi, meu filho, mais boas notícias?".
A resposta foi hesitante: "não senhor. Eu queria confirmar
o endereço da empresa...". Recebeu como resposta uma brincadeira:
"ué, dois anos de empresa e você não sabe? Era
a sua mãe que te trazia aqui na porta?". Sandro riu e disfarçou:
"não senhor, é que eu ia dar o endereço para
um amigo meu encaminhar o currículo dele e esqueci prá quem
ele manda. O senhor pode fazer a gentileza de me dizer?". Apesar
da trapalhada, conseguiu ouvir o endereço, CEP, até descobriu
o nome da sua gerente de RH.
Espantou-se: ele conhecia o endereço, era a sede de uma empresa
estrangeira de telefonia. Abriu um sorriso e procurou a estação
de metrô mais próxima. Sabia o que devia ser feito. Provavelmente,
batera a cabeça na noite anterior. É como se tivesse esquecido
que se formou na faculdade de Administração & Finanças,
que conseguira um bom emprego, que agora morava com Michelle. Tudo muito
estranho, principalmente o fato dele ter dado o braço a torcer,
de ter aceitado morar com uma garota. Ainda mais a Michelle. A última
lembrança que tinha dela na mente era a do fim do namoro, porque
sentiu que estava perdendo a sua liberdade. E isso parecia ter acontecido
há um mês atrás, mas não podia ser.
Depois de descer do metrô, passou numa banca de jornal e viu o dia
impresso nos jornais. Percebeu que sua última lembrança
era um dia que, segundo os jornais, estava cinco anos no passado. Seguiu
caminho com a cabeça cheia de dúvidas e a certeza de que
não estava bem.
O dia passou num instante. Distraía-se olhando as janelas, sorrindo
para as pessoas, imaginando como conseguira ser o funcionário mais
destacado do Departamento de Análises Financeiras de uma multinacional.
Voltou prá casa e viu um bilhete na geladeira: "Amor, fiquei
chateada com você. Encomende um jantar romântico para fazermos
as pazes. Te amo".
Sandro sorriu. Encomendou um jantar completo, com direito a vinho e sobremesa.
Como o pedido só seria entregue em 50 minutos, achou por bem dar
um cochilo de meia-hora, para estar bem disposto para o jantar e para
o que vinha depois.
(continua) |
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