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| Edição 45 | as amigas de ana
as amigas de ana fazem dela várias. tudo que ana não viveu até hoje, seja por falta de oportunidade, de coragem ou de sorte, o fez por intermédio de suas amigas mulheres, que não são muitas, mas suficientes. na escola só teve uma: negra, altíssima, atleta e gênia de plantão, discriminada por tantas razões, mas altiva como uma deusa, irredutível e combativa. foram cúmplices na difícil tarefa de existir num mundo que não curte o diferente. na faculdade é que tudo realmente começou e passou a ser concreto: a primeira paixonite por um professor, a primeira transa, as pegações nas chopadas, as noites sem dormir, as histórias memoráveis, as histórias contadas por outrem, as coisas ditas em excesso, as coisas não ditas por medo e que pairam até hoje como jujubas estragadas no fundo do pote mofado atrás da louça reservada para o casamento desmanchado por pura bravura. foi na faculdade que construiu os pilares de sua feminilidade estranha e a capacidade de amar à distância as amigas que casaram e tiveram que partir, seja pra outros estados e países, seja para outro universo, o do marido insensível e preocupado somente com a própria dor nas costas e com o futebol de quarta-feira à noite, mesmo quando não se trata de seu time e sim de 15 de jaú contra 15 de piracicaba. aprendeu a amar e a respeitar as amigas que não são mais amadas e que só permanecem casadas por medo de uma solidão exposta, de uma surra ou de terem de criar crianças sem a figura paterna. aprendeu a respeitar inclusive as mães das amigas que simplesmente não aceitam o fato de uma moça “tão bonita e inteligente como você não estar casada e não ter filhos”. hoje entende que elas não falam isso por maldade e não se irrita mais. como nem tudo é sempre cruel o tempo todo, ana ama os poucos maridos que fazem felizes suas amigas e que gostam de recebê-la num domingo para uma cerveja em casa, para ficarem todos bêbados e cercados pelo atordoante e delicioso barulho das crianças que insistem em crescer como samambaias choronas bem regadas. no fundo, lá dentro, mesmo sem admitir pra ninguém, ainda sonha em encontrar um homem assim, sensível, companheiro e imperfeito, que goste de 15 de jaú contra 15 de piracicaba, mas que não dispense flores, poesias, bombons e massagem nos pés, porque é disso que moças como ana gostam: da imperfeição concreta e dos domingos bêbados. |
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| Edição 44 | anita e silvério
anita achava que pescoço servia somente para pendurar colares. isso até conhecer silvério, moreno espadaúdo de barba e voz grossas, consultor de uma multinacional e especializado em zonas erógenas.
tudo estaria perfeito não fosse o fato de anita considerar os consultores pessoas que levavam muito a sério o velho ditado de que "se conselho fosse bom, não se dava, se vendia". anita estava com silvério somente por conta de seus dotes sexuais mas não tinha coragem de deixar isso claro pra ele. não queria perder seu "personal fucker". - querida, vamos a um jantar amanhã? - aonde? - na casa de adilson e eva, aquele casal que tem uma microempresa de consultoria no setor de informática. - amanhã não vai dar, bem. - toda vez é isso! queria saber quando vai dar. - na verdade você não quer saber. - quero sim. - então tá: não gosto desse povo consultor que acha que a vida é dar dicas sobre o que fazer, aonde fazer, com quem fazer. gosto de gente que faz as coisas porque faz e não porque tem uma lei de mercado e indicativos financeiros indicando um caminho. gosto de gente que come a sobremesa em silêncio. gosto de gente! de gente! sivério entendeu a mensagem. afinal de contas, era um expert em indicativos. anita saiu para comprar colares.
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| Edição 43 | Vôo do Amor “Ele só precisava voar para ser feliz” Abel morava num daqueles prédios construídos na zona norte do Rio de Janeiro durante os anos 50. O apartamento era razoavelmente espaçoso, com uma pequena varanda que revelava a rua e as varandas do edifício logo em frente. Orgulhava-se de ter conquistado cada centímetro quadrado daquele imóvel com o suor do seu próprio rosto. De fato, ele começara a trabalhar aos 12 anos e, aos 29, comprou o seu castelo particular.
Trazia por companheiro o Tom, gato que salvara de um apedrejamento que lhe havia sido imposto por crianças de rua. Tamanha a gratidão do gato, que este nunca tentou sair do apartamento do seu dono. Ficava ali dia e noite, a cuidar da casa, enquanto Abel lhe assegurava o suficiente para ter algum conforto. Viviam então os dois, numa cômoda rotina: Abel saía de casa por volta das 8, indo para a redação do jornal no qual era responsável por uma coluna diária. Voltava por volta das 22, a tempo de brincar com Tom e dormir. Além do gato, trazia ainda uma outra companheira, uma dorzinha que por vezes azucrinava o seu pensamento. Acontece que Abel sempre era rejeitado por suas namoradas após algumas semanas de relacionamento, porque nenhuma delas aceitava se curvar à sua imutável rotina. Por conta disso, ele fizera 6 meses de terapia. Por fim, conformou-se com o fato de que estava vivendo uma fase de dedicação total à carreira profissional. “Amor” seria uma prioridade futura. Exatamente na primeira quarta-feira de maio, Abel teve um sonho muito estranho. Viu-se voando, levado por fortes ventos que o haviam retirado do chão duro onde antes jazera deitado. E, no ar, encontrou uma linda ruiva, que voava em sua direção. A bela mulher abria os braços e dizia uma única palavra: “vem!”. E voavam, e se amavam intensamente. Abel acordou com o barulho que Tom provocava ao revolver a areia da caixa sanitária que ficava na varanda. O relógio marcava 3h40min, naquela que era uma madrugada de ventania. Virou-se e voltou a dormir. Na quarta-feira seguinte, o mesmo sonho. E Abel acordou novamente, às 3h40min, com o som da areia sendo revolvida. Pensou ser um déjà vu, fechou os olhos, dormiu. Pela manhã, Abel relembrou o sonho. Achou surreal demais para dar alguma importância e preferiu ocupar a cabeça com o trabalho. Pela terceira semana consecutiva, o sonho se repetiu. E o barulho. E o horário. Abel olhou para Tom. Tom olhou para Abel. “Tem alguma coisa estranha acontecendo”, pensou Abel, enquanto tentava pegar no sono novamente. No dia seguinte, quase perdeu o prazo do fechamento da edição. Em sua mente, voava com aquela ruiva desconhecida. E por mais três semanas, tudo se repetiu. As quintas-feiras passavam a ser conhecidas como “os dias fracos do Abel”, porque ele agora atrasava um pouco o trabalho. A situação estava ficando desesperadora, mas não havia nada a ser feito. Sua vida não comportava folgas às quintas-feiras, assim como não estava comportando seus “vôos noturnos”. Por isso, suportava a situação resignado, mas com crescente irritação. Quando a cena já se repetia, agora pela sétima vez, Abel decidiu fazer diferente. Levantou-se, nu em pêlo, e foi até a varanda jogar mais areia na caixa sanitária de Tom. Depois disso, estranhamente tranqüilo, sentiu o impulso de olhar para a varanda do apartamento em frente ao seu. Naquele exato momento, havia uma ruiva verdadeiramente linda, nua como ele, despejando água na tina de um cão que a aguardava na varanda do apartamento. Abel sentiu-se gelar, porque era a musa do seu sonho. Quando se olharam, o mundo deixou de ser real, e o desejo invadiu seus corpos, deixando-os suados em meio à ventania. Por fim, ela sorriu, abriu seus braços gritou: “VEM!”. E os dois se lançaram de suas varandas, tocando o chão sujo da rua com grande violência. Depois disso, desprenderam-se dos corpos que jaziam inertes, para voarem juntos naqueles ventos loucos, entrelaçando-se por toda a eternidade em seu vôo de amor.
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| Edição 42 | Calcanhares de Aquiles
A tara de Aquiles causava alguns embaraços, principalmente por decepção. Isso porque as mulheres se sentiam indignadas: algumas (com nádegas produzidas, "lipadas", construídas por cirurgiões competentes, verdadeiramente deliciosas de serem observadas) sentiam profunda decepção ao perceberem que um homem as seguia pelas ruas desprezando todo o esforço que fizeram para alcançarem uma silhueta tentadora. Porque Aquiles as acompanhava com o olhar vidrado, rente ao chão. Quantas auto-estimas foram feridas ao perceberem que o silicone e as plásticas não seduziam a todos os homens! E era assim, até que um dia Aquiles saiu verdadeiramente do prumo. Ao passear pela rua, ele vira um par de calcanhares redondinhos, "irradiando" maciez, de cor rosada. Um deleite para os olhos e para o espírito. O pobre rapaz se viu irremediavelmente tomado por aquela visão do paraíso. Esqueceu o trajeto, abandonou o seu percurso e pôs-se a caminhar admirando aquelas obras-primas. Seguiu, então, Aquiles: rua acima, rua abaixo, virando esquinas, apertando um pouco o passo para acompanhar o ritmo apressado daqueles pequeninos monumentos. Chegou a se incomodar com uma leve dor na nuca, resultante da postura curvada que assumira para melhor observar o seu objeto do desejo. Durante a "perseguição", reparou um pouco nas panturrilhas fortes e na barra do vestido estampado. Mas nada mais importava, somente aquelas duas formas sensuais que se moviam alternadamente à sua frente. De súbito, os calcanhares se viraram e deram lugar às pontas agudas dos sapatos que cobriam o resto dos pés. Surpreendido, Aquiles subiu seus olhos e viu: os pés levavam a um vestido florido, com um cinto justo e alinhado servindo de divisor; o corte do vestido, tomara-que-caia, revelava ombros largos, levemente musculosos; por fim, o pescoço levava ao rosto, no qual se percebia um certo exagero no pó compacto, a fim de disfarçar a barba por fazer. - Quer alguma coisa? Eu já estou atrasada. - dizia a dona dos calcanhares. Aquiles, estupefato, respondeu: - Sim... seus calcanhares! Recebeu um sorriso em retribuição. Trocaram os números de telefone e, naquela mesma noite, se encontraram. E Aquiles se deliciou, naquela e em várias outras ocasiões, ao acariciar e beijar aqueles calcanhares. Obviamente, o corpo todo participava naqueles encontros íntimos. Aquiles tornara-se outro, depois de ter para si aqueles que seriam os seus pontos fracos. Depois disso, Aquiles nunca mais viu graça em perseguir calcanhares femininos. Tentou, mas foi em vão: passou a achá-los secos demais, pequenos demais, frágeis demais. Por fim, resignou-se. Aquiles fora derrotado por calcanhares apolíneos, pertencentes a alguém cujo nome de batismo era um tanto exótico: Páris.
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| Edição 41 | Telefones e e-mail
“É que você fazia o gênero de 'poeta tuberculoso', cara. Agora tá feliz e não encontra o caminho antigo das palavras.” “Pode ser isso. Ou então é que as musas, os temas, me fogem. Eu perco as noites e não acho em mim vontade de mais nada.” “Porra, que merda.” “Nem é. Não me lembro de ter estado tão feliz antes. Eu me remexo na cama, coloco uma música no sonzinho da cabeceira e não encontro a angústia que me fazia escrever.” Veio o chope de um e a caipirinha do outro. Romancista comentou seguindo o serviço. “Eu também tô com 'bloqueio de escritor'. Ouço as vozes que me contam os contos, que me os sussurram na calada, mas não consigo mais sentar ao computador e escrever palavra. As músicas continuam me prendendo num loop eterno.” “Cinta de Möebius.” “É. Entra a música – a danada da Carla Bruni – e não faço mais nada. Tô perdido.” “Tá nada. Tá é apaixonado.” “Pode ser. Mas escrever é paixão e paixão é desequilíbrio. É como andar, um exercício de corte com a queda. Um ensaia o tombo e o pé segura na razão. E assim andamos passo a passo. Palavra a palavra.” “Os versos medidos e desmontados.” “Os parágrafos pensados e encadeados. É isso aí. Mas ela me dá paz e na paz fico amarrado.” “Enforcado.” “É.” Tinham feito o mesmo curso de tarô vinte anos atrás. Brincavam de “carta favorita” a cada evento de chope. Era como se tirassem as cartas para si mesmos sem precisar do baralho. Poeta retomou o papo depois do silêncio. “Te contei quem divide a minha cama agora? É a Aline.” “Não brinca? Sério. Porra, cara! Tu não é homem bastante para ela! Tem esse jeito bobo, desengonçado, sem graça!” Riu da própria piada. O outro não. “Eu sei. Também acho isso. Eu acordo de noite e fico olhando para ela meio embasbacado. Ela ali, nua. E eu fico medindo a minha sorte. A sorte de um merda de um poeta frustrado e funcionariozinho de uma porra de empresa de webdesign. Webwriter de cú – com acento! – é rola! Mas é isso que tá me fazendo levantar cada dia e encarar mais um dia de FGTS. É isso a vontade de ser um homem mais merecedor daquela deusa que divide o suor e o gozo comigo. Essa mulher maravilhosa que me dá o prazer de dividir a sua intimidade.” Romancista riu baixinho, como se entendesse tudo agora. “Cara, você quebrou a regra número um do artista: não se come a musa.” “Porra cara!” “É sério. Teu motor de inspiração era o amor não resolvido desfiado em tinta e papel. Teus melhores textos eram aqueles que ficavam ali no fio da navalha entre a corte para a conquista, essa dança de acasalamento moderna, e a punheta da paixão platônica. Era ali, na penumbra, que você se encontrava.” Poeta ficou meio puto, meio divertido com o comentário. “Você queria que eu fizesse o quê? Nunca fui bom nessa merda de cantada, de cortejar. Sempre me perdi nesses dois lados do muro. Nunca sabia se pedia o telefone ou email.” “Como é que é?” “Se eu pedisse o telefone, significava que eu já ia para a abordagem, apontava a proa do navio e abalroava a menina. Se eu pedisse o email, era para ficar na cantada insossa, no cerca-lourenço que se convencionou chamar 'a corte' hoje em dia.” “Cara, e o meio-termo?” “Te disse, nunca fui bom nisso. Eu acabo que me atiro antes dos sinais de permissão e invado o espaço alheio me fazendo querer. Só que nem sempre o outro lado tá sabendo das regras do jogo e nunca combina resultado, né?” “Acho que entendo.” “Então. Ela veio, entendeu o jogo antes de eu colocar as regras. Me desarmou, se instalou, tornou-se parte da decoração do meu quarto.” “Que merda de metáfora.” “Tô falando que perdi a mão!” Ambos riram, pediram um jiló em conserva, saideira e a conta. Chovia menos. Andaram até a Nossa Senhora de Copacabana e fizeram sinal para um táxi. Partiram para a Tijuca. Um atrás de quem já lhe esperava, outro atrás de algo que havia perdido. Quando Poeta desceu do carro, virou-se para o amigo. “Quem tem medo do fim, não deve nem começar.” “Tu tá bêbado.” “E feliz!” Fechou a porta, mesclou-se com a paisagem da Praça Vanhargen. Súbito, o que ficou tinha uma história para contar.
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