Arte Sexualidade Corporalidade
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Edição 50

A safadênha de hoje dispensa grandes apresentações, vez que faz parte de toda trajetória, não apenas dos AMORES - URBANOS, como também do Gehspace.

Ainda assim marco aqui meu apreço pelas letras soltinhas, requintadas, de Lívia Santana, ou como sempre será para mim: a garota estrela.

Reza a lenda que Lívia tem uma espécie de elo com Clarice.

Certo, eu passei acreditar nelas.

Nas lendas. Em miss Lispector também. E, claro, nas estrelas, ou seria na Lívia?

... Vocês entenderam!


Rocca Stockler

Egon Schiele - D après-moi - Arte Sexualidade Corporalidade
[D après-moi por Egon Schiele]

Uberlândia, 29 de junho de 2006

SÁBADO


Ela dançava freneticamente, como se sofresse constantes descargas elétricas pelo corpo. O cabelo preto e muito liso era jogado em todas as direções, os olhos pintados de preto permaneciam fechados e um sorriso de prazer curvava-lhe os lábios cheios e hipnóticos. Ela jogava os braços para cima enquanto os quadris remexiam-se ardorosos acompanhando o repique da música altíssima. Estava ali, na mesma posição há pelo menos meia hora, sem conseguir me mover nem despregar os olhos dela.

Mário tinha invadido a minha casa naquele sábado com um discurso inflamado sobre eu não poder continuar naquele bode, alegando que se eu ficasse mais tempo dentro de casa sozinho eu ia desaprender a falar e ficar todo embolorado. E, como bom amigo que era tinha vindo me resgatar do meu auto-exílio e das influências nefastas de mim mesmo, razão pela qual era pra eu desmanchar a carranca, entrar na roupa que ele sem cerimônia havia jogado sobre a cama e "passar um perfume pelamordedeus que ninguém era obrigado a sentir a minha catinga".

Sem alternativa - até porque eu estava fugindo do Mário há quase um mês, desde que a Janaína tinha me dado o pé e eu estava mesmo amarrando um bode de um quilômetro dentro do meu quarto desde então - tomei uma ducha rápida, dizendo pro Mário que ele era um porco de camuflar bodum com perfume, enfiei um jeans e uma camisa legal e passei o diacho do perfume - ele não ia me dar sossego se eu não passasse, porque não ia sair comigo "fedido".

Ele me arrastou pruma boate onde estava rolando uma festa hip hop, coisa que eu nunca fui muito chegado. Mas, como disse o Mário, a idéia era ouvir o tipo de música mais diferente possível da minha trilha sonora de fossa, que ele jurava que ainda ia jogar no lixo. Dei de ombros: que fosse então.

Lá dentro, o de sempre: penumbra, umas luzes coloridas que não iluminam nada, muita gente se esbarrando, uma mulherada superproduzida com cara de nojo e uns babacas babando em cima delas. A música, altíssima, logo deixou de me incomodar - acho que foi anestesia - e me encostei no balcão do bar, rindo do Mário que não sabia pra onde olhar e estava feliz que nem menino que ganhou brinquedo novo. Fiquei na cerveja e ele, depois de algumas doses, se jogava pra toda garota que passava e anunciava: "Prazer, Petisco!". Elas não sabiam se riam ou se choravam e eu estava inclinado a concordar com elas. O Mário era sem noção demais e ia lhe dizer isso, quando minha atenção foi definitivamente desviada.

Ela usava uma blusa preta de mangas longas e decote discreto, combinada com uma minissaia jeans desbotada. Era assombroso como se movia graciosamente em cima de saltos tão altos e como parecia feliz apenas dançando. De olhos fechados, ela parecia alheia a tudo o mais que não fosse a música e seu próprio corpo, cujos movimentos eram mais e mais vibrantes e belos. Eu fiquei ali, só olhando, por muito tempo. Mas não fui apenas eu que a percebi e em pouco tempo, foi-se formando pequena clareira à volta dela, uma horda de abutres se aglomerando para contemplar sua dança.

Vi um deles se aproximar e sussurrar algo em seu ouvido e crispei as mãos sem perceber. Ela interrompeu a dança, abriu os olhos - eram grandes e verdes - sorriu e abanou a linda cabeça em sinal negativo. Então, virou-se de costas pro inoportuno, tornou a fechar os olhos e recomeçou a requebrar ainda com mais energia. Outros tentaram algumas vezes e ela os rechaçou a todos. Tive orgulho dela: "Isso, não se entregue facilmente, mande todos eles passearem".

O Mário apareceu, dizendo que estava bêbado, que ia vomitar no banheiro e já voltava. Sem desviar os olhos dela, eu acenei afirmativamente. Nada mais importava.

Eu tentava decidir se iria até lá, quando subitamente ela parou de dançar, ajeitou os longos cabelos com as mãos, sapecou um beijo no rosto de uma outra garota parada ali perto, acenou pra mais alguns e saiu caminhando rumo à saída. Fiquei um instante sem ação e depois corri atrás dela, sem nem lembrar que o Mário provavelmente estaria caído nalgum canto do banheiro masculino. Cheguei à porta em tempo de vê-la sair e tentei segui-la, mas o segurança me deteve, cobrando o cartão de consumo pago.

Pensei em explicar que o amor da minha vida estava indo embora, que eu nunca mais ia vê-la de novo se ele não me deixasse sair, mas a cara de poucos amigos não inspirou confidências. Paguei o cartão às pressas, mas ela não estava mais à vista quando cheguei à calçada e a vontade que eu tive, além de chorar, foi voltar e quebrar o segurança de porrada. Ainda bem que lembrei a tempo que o fato do meu coração estar partido não tinha me feito dobrar de tamanho nem aprender kung fu.

Voltei pro interior da boate pra resgatar o Mário - que de fato estava sentado no banheiro, meio desnorteado - e fomos pra casa.

Durantes os meses que se seguiram, amarguei outra fossa, talvez ainda maior que todas as outras, mas dessa vez o Mário não reclamou. Embora eu passasse a semana toda ouvindo a minha trilha sonora depressiva - incrementada com mais alguns clássicos da dor de cotovelo - e desenhando a silhueta dela compulsivamente em todo pedaço de papel que me caísse nas mãos, todos os sábados eu tomava um banho, passava perfume e ia praquele mesmo lugar, procurar por ela.


Lívia Santana

 


Edição 49

São Paulo, sábado, 24 de junho de 2006.


Cadê? Onde deixei minha chave? Alguém viu meus óculos?

Se existe carta que abro rasgando, sem ver selo nem data, tamanha ansiedade em devorar, sem duvida é a dela: Claudia Floresta - transita do RH ao Financeiro - porém quando sai do escritório é a mais que abusada colunista do "Cotidiano".

Ela é aquela que tropeça chegando, ri chorando e fala dormindo. Ama o amigo, mas não perde a piada. Sua arte é debochada. Começa na distração pra findar na descontração. É um misto meio esquisito, seria algo como:

"Invento desculpas, provoco uma briga, digo que não estou.
Vivo num 'clip' sem nexo.
Um pierrot retrocesso, meio bossa nova e 'rock'n roll"

A Cláudia não é Cazuza, mas sem duvida é exagerada!

Dio santo...

Rocca Stockler

 

São Paulo, sexta-feira, 23 de junho de 2006.


RETROVISOR

Ela sente olhos passando pela sua nuca, olhos que lhe perseguem já algum tempo. Olha com devida atenção pelo retrovisor e deslumbra um rosto moreno, barba por fazer e óculos escuros que a impossibilitam saber qual direção exata aquele olhar lhe foca. Ainda assim sabe estar sendo profundamente observada. Ouve ao longe o som de buzinas, continua encarar o retrovisor descobrindo um meio sorriso no rosto másculo do motorista do carro de trás. Mais buzinas, sem graça, se da conta de que o sinal abriu, volta à atenção ao trânsito, mas continua olhando pelo retrovisor. O carro percorre exatamente mesmo caminho que o dela. Apesar da distancia segura entre os carros, ela vê o motorista esterçar para mesmo lado que ela, segue pelas mesmas ruas como se a estivesse perseguindo.

Novamente os carros param no farol. Ela observa que ele sorri enquanto movimenta os lábios parecendo balbuciar alguma musica, ela já não sabe ao certo se o sorriso é pela musica ou para ela. Decide encará-lo sente suas mãos suando, coração acelerado, respiração alterada. Continua dirigindo ansiosa com aquela presença silenciosa daquele olhar escondido atrás de óculos escuros, e mesmo assim não a impediam de senti-lo percorrendo-a. Ela sorri.

Mesmo temerosa, afinal ter um estranho a olhá-la insistentemente é algo que a muito não lhe acontecia, sente-se cheia de si. Seu ego infla massageado. Ensaia possíveis falas. Os braços arrepiam o nervoso. Sua libido esta totalmente desperta.

Transborda-se de coragem e estaciona ao terminar a curva, dirige seus olhos novamente ao retrovisor engatando um aceno de boas vindas e... Nada! Ele se foi.

Subitamente desolada permanece ali olhando pro nada. Pensa no que poderia ter acontecido se ele continuasse a segui-la? O que teria despertado nele um interesse tão grande a ponto dela tê-lo percebido?

Salta do carro sem pensar para onde ir. Desanimada pensa na possibilidade de ter esquecido de dar seta avisando o próprio trajeto. Mil pensamentos rondam-lhe a cabeça.

O calor insuportável derretia-lhe o corpo. Sentada na guia acende um cigarro, olha para o salto fino, unhas esmaltadas. Passa a mão pelos cabelos, molhados, e sente um filete úmido escorrer pela alça de seu vestido, enquanto outro filete desce pelas suas costas. Olha para as mãos e agradece...

No afã de não se atrasar para pegar as crianças na escola, esqueceu-se completamente de retirar a máscara de tratamento capilar.

Por isso o estranho tanto ria.


Claudia Floresta

 

Edição 48 AH os Amores Urbanos

São Paulo, 17 de junho de 2006, estréia em minha vida o desejo de farejá-los. Junto a cartas dedilhadas no eco das lembranças, muitas quais cheiram omissão. Que venham em forma de cartas, sejam conduzidas em primeira pessoa, ou mesmo aquelas observadas pelos olhares perspicazes de plantão.

A primeira carta foi dedilhada pelo João Paulo Azevedo - dramaturgo, roteirista e cineasta – e enviada pra mim ainda com cheiro da tinta de sua velha máquina de escrever, do café amargo e dos tragos do continental.

Este primeiro Amor Urbano, por mim observado, sem duvida lembra o bom e velho Nelson Rodrigues , ou seria Anjo Pornográfico? Que seja...

No contexto do “Cheiro de Gasolina”, certamente Nelson diria: “Nem toda mulher gosta de apanhar, só as normais, as neuróticas reagem”.

Rocca Stockler

Edward Hopper - Office at night - Arte
[Office at Night por Edward Hopper]

São Paulo, 27 de janeiro de 2005.

CHEIRO DE GASOLINA


Doris, mulher casada, trabalha em um escritório de contabilidade. Foi indicada por Pacheco, grande amigo de seu pai, já falecido num terrível desastre de carro indo para Mato Grosso pescar com amigos. Pacheco se sentia na obrigação de ajudar a moça, já que o carro que o pai dela dirigia era seu. Doris trabalha com Pacheco há cerca de dois anos. É uma funcionária competente e responsável, bem diferente de seu marido, um frentista de um posto de gasolina sem bandeira.

Todas as noites Doris chegava e seu marido já estava em casa, isso porque trabalhava apenas seis horas por dia. Sempre a mesma rotina de cozinhar ou trazer algo pronto, uma marmitex, ou congelados. O Rapaz não tinha o menor agradecimento e a única coisa que os mantinha juntos era o sexo. Eram jovens, estavam resolvendo suas vidas. Ela trabalhava, contas em cima de contas, e em casa, aquela moça, Doris, a Dorinha, era uma mulher que galopava em seu cavalo imundo e cheirando a gasolina por hora. Ao terminar, sem carinhos, sem palavras, ou somente:

- Apague a luz!

Um novo dia recomeça e novos números vão aparecendo na frente de Doris, que em uma manhã recebe a visita do Amigo de seu marido, que por sinal é sobrinho de seu Pacheco.

- Oi Doris!
- O que você faz por aqui, aconteceu alguma coisa?
- Pode ficar tranqüila, não aconteceu nada, só quero falar um minuto com você, posso?
- Sim, claro! Estou com o serviço adiantado, pode falar.
- Prefiro que seja em outro lugar, ali do outro lado tem uma saleta, vamos lá.

Os dois caminharam pelo corredor ao som das máquinas de escrever batendo, passaram pelo seu Pacheco que deu um comprimento em seu sobrinho, e chegaram a tal saleta.

- Entre aqui. Disse ele com uma certa excitação.

A sala era fechada, as pessoas entravam ali somente para fumar. O rapaz acendeu um cigarro e olhando para Doris respirou.

- O que você quer falar comigo? Não me deixe ansiosa.
- Doris, eu sou amigo de seu marido desde a época que servimos no exercito em Caçapava, não faz muito tempo, mas nos tornamos grandes amigos. Sente-se.

O rapaz andava muito bem apresentado, uma camisa fina mandada por sua madrinha de Londres, um pulôver mandado pela mesma, mas no ano anterior. Fazia um pouco de frio, ela com uma blusa vermelha e um lenço no pescoço aguardava o que o rapaz iria falar.

- Será que alguém já foi tão claro com você quanto eu vou ser?

Ela não sabia o que se passava.

- Eu não sei aonde você quer chegar, não to entendendo por que me chamou...

Mas em um instante ele a interrompe.

- Eu quero transar com você Doris!

Um silêncio ficou naquela sala com cheiro de cigarro, ele sentado ao seu lado acendendo um cigarro no outro, ela sem acreditar no que estava ouvindo.

- Eu não estou acreditando que você está me falando isso, fique sabendo que seu Pacheco e meu marido vão ficar sabendo disso.
- Eles já sabem Doris, você é a única que não sabe, seu marido me conta sobre as suas transas, conta que em cima de uma cama a Dorinha não existe, ela dá lugar a uma puta escondida ai dentro. Eu quero provar essa sua puta.

Um clima de revolta criou-se sobre ela. Seu marido contara sobre suas intimidades, coisas que ela não contava nem para sua manicura, e ainda por cima tinha consciência que um outro homem gostaria de possuí-la. Seu Pacheco, até que ponto sabia dessas histórias?

- Eu não acredito nisso, meu marido, o homem que eu amo, me envergonha na frente das pessoas, um sujo que não vale a bosta da Variante que ele abastece, fala de mim pelas ruas...
- Isso já faz uns anos.
- E por que aquele desgraçado faz isso?
- Ele vende cada história que ele conta.

Nesse momento ela para, se sente um objeto perdido, mas vingativo. Doris tranca a porta, afasta as cadeiras que estão a sua volta e se joga no chão com ele. Ao mesmo tempo em que ele se sente excitado sente medo pela reação de Doris, mas o que ele queria vai ter.

Doris comanda toda a situação, abre sua camisa botão por botão, contorna os músculos de seu peito com as línguas, abre sua calça e cavalga, mas agora sentindo um cheiro diferente. No ar o cheiro mistura traição, com cigarro Continental, e coito. Eram ouvidos gemidos e línguas se estalavam, um pingo de suor dela caiu dentro da boca dele, assim como seu sexo.

Quando foi terminada a sessão desmascaro, os dois se olham.

- Quero que você vá à minha casa amanhã.
- Mas seu marido vai estar lá.
- Amanhã eu quero que você diga a ele que tem uma história para contar. E eu quero estar ao seu lado para te pagar.

João Paulo Azevedo

 

Edição 47

Compro Ferro Velho !


Maurício Maia

Smiling Peach - Arte
Smiling Peach - asya shkolnik

Oito horas da manhã e ele dormia sono profundo, sonhava até. Lá muito longe começava a ouvir como se estivesse ainda no sonho.

- Compro ferro-velho, maquina-de-lavar velha, ar-condicionado velho, aquecedor velho!

Compro ferro-velho!

Abriu os olhos, olhou para o relógio, não acreditava estar o sujeito berrando daquele jeito e tão cedo. O carro de som que, por sinal, era muito velho, passava por sua janela e a voz foi ficando distante, embora ainda o incomodasse. Cinco minutos depois, nova carga. O cara dizia estar ali para comprar todo e qualquer ferro-velho. Mas porra, caralho!

Ele pensava. "Não quero vender porra nenhuma velha! Quero dormir!"

Levantou-se tal qual um ninja em plena forma, correu para a área de serviço, encheu um balde de água e fez o que sempre sonhou, desde criança. Inundou o carro do ferro-velho, que agora berrava no microfone:

- Filho da puta! Aparece aí seu corno! Vou te pegar moleque!

Ele, encostado na parede do quarto, gargalhava como se fosse um menino, adorando tudo aquilo.

Ali sentado e rindo muito olhava para as paredes do quarto e veio à cabeça a época em que as mesmas paredes eram cobertas de pôsteres e fotografias.

Surfistas corajosos deslizavam como reis dropando ondas enormes, Led Zeppelin, Rush; Pink Floyd; Gênesis; James Brown. Todos ali testemunhando as deliciosas tardes em que a única preocupação era a resistência da namoradinha sempre achando que do nada a porta se abriria, mesmo estando eles sós na casa. Eram desejos e corpos colados.

Desenfreada descoberta.

Mais pra frente um pouco, casou, mudou e convidou os amigos para comemorar! Durante esse tempo viu aquele "seu" espaço sendo transformado em Biblioteca, eram quatro paredes de livros.

A cada visita, nos almoços de domingo, via as paredes se encherem de livros e mais livros até não haver mais espaço. Doze anos mais tarde uma grande reviravolta! Tudo desmoronou!

Estava ele ali novamente olhando para o quarto vazio, espaço que foi ocupando com o que lhe sobrou da outra vida. Deixa ali guardado no canto, seus quadros, gravuras, CDs, livros, instrumentos e porta-retratos como se ali estivessem sempre lhe lembrando. Está ali só de passagem.

E lá se foi, puto da vida e um pouco molhado, o homem que comprava ferro velho.

Ele, ainda dava risada.

 

Edição 46

valdomira


Poli Paiva

Carrie Serwetnyc - Reclining Jasmine - Arte Sexualidade Corporalidade
Reclining Jasmine - charcoal on paper por Carrie Serwetnyc

valdomira é formada em educação física. já foi bailarina. já foi muito gostosa. já parou trânsito. mas o tempo, o computador, a tv, o miojo e o controle remoto exerceram suas funções e aquele belo torso passou a ser lembrado somente por poucos seletos a quem valdomira mostrava (quase pedindo desculpas) suas fotos antigas. cansada de ter sempre que ir na frente quando o carro está cheio, resolveu mudar sua situação e tomou algumas atitudes que, agora, passados 6 meses, parecem estar surtindo efeito. são as pequenas coisas que fazem a diferença: outro dia, enquanto tomava banho, olhou para trás e viu sua própria bunda, façanha que antes só era possível com o auxílio de um espelho. na sua ex-atual loja predileta, conseguiu comprar uma saia g. a verdade é que não ser mais uma criatura gg conferiu-lhe dignidade e confiança. o aspecto relacionado ao sexo oposto foi aonde as mudanças ficaram mais evidentes: acostumada a ser cumprimentada somente quando estava ao lado de uma amiga magra, a só trepar de luz apagada e a só andar com caras problemáticos (geralmente regidos sob o signo de escorpião), valdomira passou a ser observada, cumprimentada e desejada por homens atraentes, desses bem machos e cheios de atitude, que são atraentes sem serem bonitinhos. foi se pesar pra saber a matemática da coisa. ao todo, foram 10 os quilos perdidos. quando olha para trás, não vê 6 meses, vê 10 quilos. o tempo passou em quilos. entendeu a ditadura da beleza e a lógica espoliante da milionária indústria da dieta. olhando assim, sem prestar atenção, parece até que valdomira está muito feliz. mas ainda lhe falta alguma coisa, que ela simplesmente não consegue definir o que é. deve ser essa tal de felicidade, que não contém calorias, não engorda, não faz mal, mas anda em falta no mercado. dizem que está pra chegar. talvez na semana que vem, junto com as saias tamanho m.