Arte Sexualidade Corporalidade
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Edição 55

Sintonize

Rogério Rothje é redator publicitário. Torce pelo fim das touradas e tantos outros males causados aos animais, pelo convívio harmonioso entre homem e natureza e pela descoberta do amor como único caminho em busca da felicidade, do bem viver e da paz interior.

Joel Kass - late love - Arte Sexualidade Corporalidade
Late love (2003) por Joel Kass

Evandro saiu de casa com a antena hasteada pela metade. Ligada sim, mas cheia de interferência. Sintonia fraca, bateria triste, a freqüência era só chiado que se ouvia. Tinha brigado com a esposa. Brigou por besteira e saiu assim, com todo o amor que tinha socado em algum dos bolsos do seu rico paletó risca de giz. Antes de voltar pra casa depois de um dia cheio de chuviscos e pensamentos fora do ar, resolveu sentar no velho banco de concreto verde, na pracinha verde, dois quarteirões antes da sua casa. Viu bem-te-vi nascer em ninho de palha e folhas fininhas, viu cães vira-lata, um grupo de sete ou oito, felizes, brincando de rolar na grama, viu o Zito (garotinho ruivo fruto de algum país nórdico que ele não sabia qual) andar de bicicleta sem rodinha pela primeira vez, viu o Sol se despedir em laranja sorridente, inebriou-se com o perfume inconfundível da dama da noite, sentiu o espreguiçar da Lua lhe tocar os poros, paz... Levantou-se, ajeitou o paletó amarfanhado, andou acelerado até a jardineira da dona Alzira, colheu duas ou três bromélias e voltou pra casa. Sintonizou amor, foi isso. Desconectou a tristeza, ligou-se a vibração afetuosa vinda do céu e deixou a alegria ecoar. Acordou bem hoje porque captou os sinais do amor puro vindos do ar naquela noite de abraço apertado e beijos apaixonados que, pra alegria do casal, encerrou a programação do dia feliz.

 

 
Edição 54

UM CONTO

Maria Antonieta R Mattos - poeta, escritora, e apaixonada pela vida

Joel Kass - Old woman - Arte Sexualidade Corporalidade
Old woman (1996) por Joel Kass

Médica formada em clínica geral, especializei-me em homeopatia por não encontrar na medicina tradicional tratamentos eficientes contra os males que afligiam os meus pacientes. Interessante que, por querer conhecer seus problemas mais a fundo para indicar-lhes o medicamento adequado, acabei me tornando um pouco psicóloga, confidente e amiga. Gostava desta relação mais estreita com o ser humano. Acho que, às vezes, pude ajudar além das necessidades físicas de cada um. Fui aquela figura quase lendária do “médico de família”, espécime em extinção devido ao sistema de medicina baseado em convênios a planos de saúde que acabam por tornar o atendimento impessoal em virtude da alta rotatividade de profissionais nas clínicas de todo o país.

A minha linha de trabalho criou uma certa fidelidade por parte de meus pacientes que, por propaganda boca a boca, mantiveram o meu consultório sempre cheio, graças a Deus... Foi assim que ele surgiu. Um moreno pequeno, de cabelos lisos e negros, olhos brilhantes mas tristes. Procurou-me queixando-se de um mal-estar constante que vinha atrapalhando a sua vida. Tinha um estado febril persistente do qual ninguém conseguia encontrar a causa. Entrevistei-o como de praxe, a consulta demorando quase uma hora. Pedi os exames rotineiros, encaminhei-o à minha recepcionista para agendar o retorno para dali a quinze dias, quando os resultados estariam prontos. Voltei para minha sala sentindo-me estranha. Algo naquele homem miúdo me perturbara. Não sei se eram os seus olhos negros e profundos, se era o vinco que marcava o seu sorriso velado, se o aroma de seu perfume que impregnara o ambiente. Tantas pessoas já haviam sentado naquela mesma cadeira mas nenhuma deixara uma impressão tão marcante. Ele era um pianista....

Chamei o próximo paciente e aquela sensação acabou se dissipando. Não pensei mais demoradamente em Eduardo até o seu retorno. Depois de quinze dias lá estava ele de novo. Um pouco pálido, olhos febris. Ele era sensual sem querer. Uma aura parecia envolvê-lo. Falava de um modo brando, quase sussurrando, a voz um pouco rouca. Abri os envelopes do laboratório. A única coisa que pude detectar pelos exames de sangue era uma baixa resistência imunológica. Expliquei-lhe que o tratamento seria demorado pois eu teria que reequilibrá-lo e isso exigia tempo. Eduardo olhou-me suplicante; estava cansado de médicos e remédios. Eu era a oitava que ele consultava nos últimos dois anos. Procurei transmitir-lhe segurança, embora eu própria não soubesse ainda que caminho percorrer. Não havia uma doença para ser atacada. Havia um desequilíbrio e isso era mais difícil de tratar. Prescrevi-lhe a medicação. O moreno cravou em mim os seus olhos de lago ao estender-me a mão para se despedir.

Voltaria dentro de um mês para avaliarmos o seu estado. Por cinco meses seguidos eu o vi entrar em meu consultório e a cada vez a sensação estranha tomava conta de mim. Com o tempo fomos nos tornado mais amigos e paulatinamente fui conhecendo um pouco de sua vida Quando criança, Eduardo via as primas ricas sendo quase que empurradas para as aulas de piano que detestavam. Ele, que gostava tanto de música, ficava morrendo de vontade de ocupar o lugar delas mas não podia realizar seu desejo por conta da sociedade interiorana de onde vivia, que achava pouco viril para um homem, estar às voltas com aulas de piano. Tinha um pai severo e que se recusava a pagar pelas aulas. Quando terminou o curso normal, foi ser professor. Reservava de seu pequeno salário uma quantia para poder manter-se no conservatório. Formou-se em piano como sempre sonhara. Devido ao seu esforço acabou por destacar-se. Foi convidado a dar um recital no teatro municipal e seu trabalho começou a ser reconhecido fora dos limites de sua cidade.

Foi assim que sua carreira teve início. Ele falava com naturalidade, como se ser famoso por seu talento fosse apenas questão de muito empenho. Eu ouvia tudo como se eu própria progredisse com ele. Quase não me dei conta de que estava me apaixonando. Ansiava por revê-lo e esperar um mês por cada consulta começou a representar um tormento para mim. Ficava imaginando-o em sua casa, ao lado da mulher e da filha adolescente que acabara de passar no vestibular de medicina. Sentia ciúmes daquela vida da qual eu não participava. O fato de não ter me casado nunca chegara a me incomodar antes de conhecê-lo. Eu estava com trinta e sete anos, faria trinta e oito dentro de dois meses, e minha vida parecia completa com o meu consultório e a reputação de médica talentosa e bonita. De repente, eu me via com desejo de ter uma família estabelecida, de ter filhos e Eduardo como esposo. Meu Deus, isto me deixava desconcertada.

Procurei infiltrar-me mais em seus pensamentos, conhecer mais de sua vida. Precisava estabelecer um contato mais pessoal e menos profissional.
Era antiético, eu sei, mas inconscientemente eu estava travando uma guerra de conquista. Eduardo foi se recuperando aos poucos. Sua febre havia desaparecido e ele estava-me grato por isso. Seus olhos adquiriram um brilho natural, menos vítreo. Sentia-se mais disposto. Relutante, por meus próprios motivos, acabei por indicar seguimento médico de dois em dois meses. Foi difícil deixar de vê-lo todo mês mas eu não poderia fazer de outro modo: ele estava visivelmente mais saudável. E eu, apaixonada. Ele era maduro, seguro, inteligente, brilhante. Eu parecia uma garota (de quarenta anos) descobrindo o primeiro amor, incapaz de mostrar os meus sentimentos com medo de ser rejeitada. Havia ainda um outro problema: ele era casado e, ao que tudo indicava, bem casado... Foi num começo de fevereiro. Ele entrou em minha sala e eu percebi na hora, por ter-lhe olhos tão atentos, que algo o perturbava. Tivera febre naquela semana e passara dois dias de
cama. Solicitei exames de sangue. Com os resultados em mãos, novamente eu o tinha diante de mim. Tirou o paletó esporte e quase que arriou na cadeira.

Constatei imunidade em baixa. Insisti para que ele me contasse o que o estava incomodando. Eduardo relutou muito antes de dizer-me, quase que entre lágrimas, que vinha atravessando uma fase difícil no seu relacionamento com a esposa. Ela não o apoiava em sua paixão pela música e passava a maior parte do tempo em viagens frívolas e desnecessárias. Ele estava se sentindo sozinho e rejeitado. Nem me vi levantar da cadeira. Quando me dei conta já estava de joelhos ao seu lado, enxugando suas lágrimas com minhas mãos. Segurei seu queixo e colei os meus lábios nos dele. A princípio ele ficou assustado, depois levantou-se de súbito e abraçou-me em desespero e deu-me um beijo longo. Ficou me abraçando fortemente enquanto eu passava os dedos em seus cabelos, me embriagando de sua colônia, ar sumindo de dentro de mim e a cabeça nas nuvens.. Meu Deus... que sensação era aquela? Desvencilhando-se devagar do meu abraço, pegou do espaldar seu paletó, e saiu do consultório sem olhar para trás.

Fiquei ali parada, os braços ao longo do corpo, inertes, coração me saindo pela blusa e o rosto afogueado.... Parecia anestesiada. Um misto de emoções me invadia mas eu não conseguia sair do lugar. Queria correr até ele e falar de tudo que represara por tanto tempo: que eu o amava, que o queria sempre perto, que queria casar com ele. Cancelei as consultas seguintes e fui para minha casa vazia.

Aguardei um telefonema, um sinal. Fiquei à espera da próxima consulta como criança aguardando o Papai Noel. Eduardo desmarcou-a na semana seguinte. Quando a atendente deu-me o recado, eu levei um choque. Precisava tanto revê-lo, precisava explicar. Depois fiquei apreensiva. Será que ele iniciaria um processo por assédio e arruinaria a minha carreira? Senti-me então uma idiota por ter este pensamento: Eduardo estava acima disso. Ele não voltou ao meu consultório.

Segui a sua carreira à distância. Comprava pelo menos três jornais por dia para não perder qualquer notícia que falasse dele. Exultava com cada sucesso, enfurecia-me com cada comentário desabonador. Acabei fazendo um álbum de recortes. Se via o anúncio de uma apresentação, corria a comprar ingresso para a última fileira do teatro, de onde eu podia vê-lo sem ser vista. Aplaudia-o de pé ao final do espetáculo, rendendo homenagem àquele homem que marcou a minha vida. Nunca me aproximei. Eu não me sentia no direito. Não sei se eu era uma covarde ou uma mulher de caráter.

Hoje pela manhã, como faço há quarenta anos, passei pela banca e comprei meus jornais. Sentei-me no banco da praça e calmamente comecei a folheá-los. Porque agora me sobra tempo, leio até os anúncios dos classificados. Quando cheguei à página dos necrológios, um quadro saltou-me aos olhos, as letras parecendo grudar na minha retina: “...os parentes e amigos do consagrado pianista Eduardo Mayo agradecem os gestos de pesar e convidam para a missa de 7º dia de falecimento a ser realizada hoje às dezenove horas, na Igreja Matriz...”

Como, meu Deus, eu não fiquei sabendo antes? Que falha a minha não ter prestado atenção nesta seção do jornal na semana passada! Meu coração se entristeceu e um pouco de mim morreu ali. Vesti-me com esmero e, no final da tarde dirigi-me à Igreja Matriz. Sentei-me no último banco. Ao invés de prestar atenção às palavras do padre que rezava a missa, detive-me na figura trêmula e chorosa de uma senhora de vestido escuro, na primeira fila, que era confortada por uma mulher de cabelos negros. Provavelmente seriam a viúva e a filha, médica como eu. Fiquei imaginando que, se tivesse tido mais coragem, fosse mais impetuosa, a velha vestida de preto ali, poderia ser eu.

Saí da igreja cabisbaixa mas não desesperada. Sei que com meus oitenta anos não demorarei muito a seguir o caminho dele.

A partir de amanhã não comprarei mais jornais. Não preciso mais....

 

Edição 53

firmina e norberto

Poli Paiva - A menina, mulher, escritora que queria ser várias anas....

Maxim Karlovich Kantor - Under the quilt - Arte Sexualidade Corporalidade
Under the quilt (1990) por Maxim Karlovich Kantor

 

a terapeuta de casais havia dito para firmina e norberto que eles precisavam destinar pelo menos uma manhã por semana para cultivar a relação. como já eram casados há 10 anos, resolveram obedecer.

a ordem era não ter pressa de sair da cama e nem de escovar os dentes. firmina, filha mais velha de mãe solteira, neurótica desde criancinha, não conseguia dormir pelas manhãs, nem nas de sábado. começou então a procurar o que fazer, já que acordava primeiro e não podia escovar os dentes, nem fazer café, nem multiprocessar todas as informações do mundo, do condomínio, das crianças e das 4 irmãs solteiras que viviam a lhe contar suas peripécias sexuais e a lhe dizer que era melhor estar casada do que solteira porque as casadas ainda tinham o benefício do divórcio.

logo relembrou de um esporte espetacular que não praticava desde solteira: olhar por debaixo das cobertas enquanto norberto dormia e ficar a observar o sono pesado daquele homem todo nu, que depois de 10 anos não tinha ficado barrigudo nem careca nem broxa nem metrossexual. saiu do sedentarismo para entrar pro mundo das sortudas. norberto podia demorar o tempo que fosse pra acordar que não tinha mau tempo. como se tratava do primeiro sábado de inverno e firmina estava bastante empolgada com a nova velha vida de desportista, resolveu citar a poesia de zeca baleiro no momento em que o pai de seus filhos abriu os olhos:

- hoje eu acordei com uma vontade danada de mandar flores ao delegado, de bater na porta do vizinho e desejar bom dia, de beijar o portugûes da padaria.

- quê isso, mamãe? pirou? flor pro delegado? de onde? da décima nona?

firmina só ria. na verdade gargalhava da barriga doer. norberto, ainda sonolento - mas ciente de se tratar de uma manhã de sábado, resolveu entrar na onda:

- e vem cá, qual vizinho? seu vladimir? ele não gosta da gente! diz que as crianças resolvem começar a gritar sempre depois das 10 da noite!

firmina percebeu que aquilo era muita metáfora para ele e, para evitar maiores explicações, resolveu calar a boca do seu homem utilizando seus artifícios de fêmea habilidosa. como se tratavam de ordens médicas, norberto, que já gostava mesmo daquilo tudo, acabou aceitando de bom grado a investida precisa da esposa. depois de mais ou menos 45 minutos de esportes intra-aeróbicos, ainda intrigado, afirma:

- não gostei desse negócio de beijar português da padaria não, mamãe! sabe como é esse povo da vizinhança! daqui a pouco tá falando de você e daí vou ter que me meter e aí quando eu fico nervoso, o bagulho pesa!

pela primeira vez, firmina entendeu racionalmente o quanto seu maridinho era maravilhoso. foda-se se ele não conseguia alcançar a poesia de zeca baleiro. isso era o de menos. ainda tinha outra coisa: ela podia tirar onda de poeta sem ter que dar os créditos. e o mais importante era que aquele homem ao seu lado era um pai bacana de 3 filhos, cheio de cabelo, sem barriga, sem frescura e de pau duro pra toda obra.

na manhã de segunda, enquanto sorria e dirigia rumo ao trabalho, ao som do baleiro, resolveu mandar flores para a teraupeuta, essa maga que com uma simples dica tinha feito ela perceber que em time que está ganhando não se mexe jamais. muito menos durante a temporada de inverno.

 

Edição 52

Voila

Ah, pessoa, peraí que não tô podendo perder essa cena.
Hoje é só no binóculo, até porque o protagonista dispensa apresentação.
Nem queira saber o sorriso...
... Tô valendo nada mesmo, fala sério!

Rocca Stockler

Grey Male Nude - Arte Sexualidade Corporalidade
[Grey Male Nude - Kliot, Rina Maria]

Rio de Janeiro, 3 de julho de 2006.


Noite e dia

Ela virou-se para o lado esquerdo da cama e catou no criado mudo isqueiro e maço de cigarros. Preparou o penúltimo deles displicentemente. Caiu da boca duas vezes antes de casar a chama com o fumo para a brasa. Ficou deitada, nua, de bunda para cima enquanto baforejava o hálito para o espaço entre os braços. Era uma esfinge perfeita: indecifrável em pose e face.

"Posso fumar?" Pediu permissão apenas na terceira tragada. "Pode sim. Não me incomoda o cigarro." "Você fuma?" "Não fumo, mas não me incomoda. Fique à vontade."

Ele levantou-se com dificuldade do lado esquerdo da cama e moveu as suas toneladas até uma cadeira perto da mesinha da televisão. Ficou passeando o olhar na cena formada pelos pacotes de camisinhas desperdiçadas, as roupas amarrotadas no chão e ela deitada com a pele ainda brilhando por conta do suor da atividade. Resolveu pedir uma água e um uísque para o serviço de quarto.

"Caramba!" "Que foi, lindão?" "Vinte pratas por uma água e um uisquinho de quinta!" "Nossa! Caro mesmo! Por que você não me levou para um hotel mais em conta, gato?" "..." "Você sabe que não faz diferença para mim."

Ela desatou o rosário, dizendo que o amava, que ele era lindo daquele jeito mesmo, que era o homem mais interessante que ela tinha conhecido em toda a sua vida. Ele querendo que ela calasse a boca e o chupasse. Só isso.

"O que acontece, amor? Você está avoado... parece que está pensando na vida, na morte da bezerra." "E tô mesmo." "Mas qual o porquê disso?" Ele abriu um sorriso canalha disfarçado de gentileza e começou a ensaiar uma ida pro banheiro. "Vou tomar uma ducha. Quer vir?"

Existem diversos tipos de sorrisos: os amarelos, que vêm por falta de opção; os de satisfação por um trabalho bem feito; os cínicos, que saúdam quem você quer ver morto ou vice-versa; os que nascem depois de um gozo com a pessoa que você ama; os que brotam quando você vê que sobrou salário no fim do mês - e não o contrário - e aqueles pelos quais alguém pagou para você dar.

Ela fez um mix dos piores sorrisos e transformou a cara de enfado num expor de dentes instantâneo. De alguma forma irracional aquilo o enjoou de tal maneira que matou qualquer possibilidade de intimidade real com aquela mulher. Sabia que esse era um tipo extremo de perversão, mas gostava da sensação de descontração que algumas conseguiam lhe proporcionar. Não era esse o caso.

Ele desistiu do banho quando pegou a toalha. Ela não: tomou um banho quente, demorado, barulhento e de portas fechadas.

Ele recebeu o garçom à porta e bebeu o uísque em dois goles. Ela apenas se serviu de água. Não bebeu.

Ele voltou a se sentar na mesma cadeira desconfortável. Ela deitou-se de bruços, agora se expondo para ele. Do seu canto ele podia contar os pêlos do fim das costas, todos dourados pelo sol; a marca de biquíni; a mancha escura de vacina na nádega esquerda; os cravos mal espremidos. Se ela fosse um terreno, daria para fazer um mapeamento topológico completo sem mexer um músculo sequer.

Ele ficou olhando uns bons dez minutos enquanto brincava com o que deveria estar desperto e pronto.

"Benhê. Posso te chupar?"

Ele abriu um sorriso.

A humanidade tinha esperança, afinal de contas.


Zander Catta Preta

 
Edição 51

Ah sei lá

Foi um lance mais ou menos assim...

Ele é meio musico, meio folgado, meio fisioterapeuta, um tanto quanto atrapalhado. Aliás, ele aparenta ser meio um monte de coisa que não vem ao caso. Mas tem pinta de boa gente. Ela gosta.

Ela é meio esquisita, meio intelectualizada, meio poliglota alem da conta, meio bronca. Inteira gringa começando pelo seu português minuciosamente dedilhado em horas e horas noturnas de leitura. Mas tem pinta de boa gente. Ele gosta.

Ela acorda de madrugada pra fumar no telhado. Ele aparece uns minutos depois, sempre tremendo de frio. Ela ri pra cacete. Bravo ele a despenteia. Ela briga pra cacete. Meio estranho. Eles gostam.

Deve ser coisa de casal...

... Quer dizer, claro que eu vi tudo meio que por acaso. Juro.

Eu gosto!


Rocca Stockler

Roberto Stelzer - Arte Sexualidade Corporalidade
[Retrato por Roberto Stelzer]

Rio de Janeiro, 22 de maio de 2005.


QUE MARAVILHA!


Chuva fina. Ele caminha pela Rua Visconde de Pirajá em Ipanema. A chuva o incomoda um pouco, o deixa completamente aéreo, voando alto sem que ninguém perceba. Bom, isso é bom. Ele gosta.

Caminhando em direção contrária da sua, do outro lado da rua, ele a percebe: Vestido florido, tecido fino, daqueles que voam. Sabe? Ele gosta disso.

Sinal aberto. Ele atravessa a rua correndo por entre os carros. Pensa poder voar. Tolo, quase morre. Mas não tem importância, afinal ele ama vestido florido.

Mesma calçada. Mesma direção. Agora ele passa a caminhar junto dela, não exatamente grudado, mas perto o bastante para sentir que ela usava um perfume do bom. Sabe?

A chuva aperta e ela continua andando no mesmo passo, com a elegância de Vênus a lhe acompanhar. Ao menos penso Vênus ser elegante. Mas isso não importa quando vejo aquele rostinho dourado inclinar levemente, olhando o céu, cara pra chuva pedindo: Vem... me molha?

Impossível ele deixar de observar o gingado daquelas pernas torneadas, músculos e ossos bem dimensionados. E, claro, não teria como esquecer de notar o brilho daqueles fios de cabelos castanhos, bem tratados, que voavam com mesma suavidade na qual ela caminhava. Bonita, ela é bonita.

A chuva dá trégua. Eles percebem juntos, e ela sorri. Que maravilha! Ele sorri de volta.

Toca o celular. Ele perde o passo enquanto tenta livrar-se o mais rápido possível daquela maldita chamada fora de hora. Um pouco distante ele agradece não ter perdido o foco.

Ela agora segue bem à frente, entra na Praça Nossa Senhora da Paz, acomoda-se num banco vazio. Ele fica perto de uma árvore, parado, só a observando.

Que bonitinho - ele pensa - Agora ela vai tirar da bolsa um bom livro, daqueles que concentram a ponto de não perceber ninguém a sua volta, talvez nem a mim. Não teria problema, ele adora aqueles óculos fininhos, discretos, que ficam lindos só em algumas moças. Ele gosta disso, é um bom observador.

Nenhum livro em mãos, talvez ela vá simplesmente observar os passantes...

... Mas, o que é isso?

Ela tira um saco plástico, daqueles de supermercado, de dentro da bolsa e um estranho alvoroço de pombos formava-se à sua volta.

Não, não pode ser.

Era.

Ela jogava migalhas de pão para os pombos, enquanto emitia grunhidos como se conversasse com eles.

Bastou isso.

Virou-se e continuou seu caminho.

Ele odeia pombos.


Maurício Maia e
Carolina Thomáz