![]() |
|
|||||||||||||
| Patrocínio: Petrotec - Máquinas e Equipamentos para construção civil | MM Expositores - manequim, balcão para lojas | Lingerie by Marta Campos Underwear | Decora Brasil - Móveis Casa e Decoração de Interiores |
||||||||||||||
| Edição 55 | Sintonize Rogério Rothje é redator publicitário. Torce pelo fim das touradas e tantos outros males causados aos animais, pelo convívio harmonioso entre homem e natureza e pela descoberta do amor como único caminho em busca da felicidade, do bem viver e da paz interior.
Evandro saiu de casa com a antena hasteada pela metade. Ligada sim, mas cheia de interferência. Sintonia fraca, bateria triste, a freqüência era só chiado que se ouvia. Tinha brigado com a esposa. Brigou por besteira e saiu assim, com todo o amor que tinha socado em algum dos bolsos do seu rico paletó risca de giz. Antes de voltar pra casa depois de um dia cheio de chuviscos e pensamentos fora do ar, resolveu sentar no velho banco de concreto verde, na pracinha verde, dois quarteirões antes da sua casa. Viu bem-te-vi nascer em ninho de palha e folhas fininhas, viu cães vira-lata, um grupo de sete ou oito, felizes, brincando de rolar na grama, viu o Zito (garotinho ruivo fruto de algum país nórdico que ele não sabia qual) andar de bicicleta sem rodinha pela primeira vez, viu o Sol se despedir em laranja sorridente, inebriou-se com o perfume inconfundível da dama da noite, sentiu o espreguiçar da Lua lhe tocar os poros, paz... Levantou-se, ajeitou o paletó amarfanhado, andou acelerado até a jardineira da dona Alzira, colheu duas ou três bromélias e voltou pra casa. Sintonizou amor, foi isso. Desconectou a tristeza, ligou-se a vibração afetuosa vinda do céu e deixou a alegria ecoar. Acordou bem hoje porque captou os sinais do amor puro vindos do ar naquela noite de abraço apertado e beijos apaixonados que, pra alegria do casal, encerrou a programação do dia feliz.
|
|||||||||||||
| Edição 54 | UM CONTO Maria Antonieta R Mattos - poeta, escritora, e apaixonada pela vida
Médica formada em clínica geral, especializei-me em homeopatia por não encontrar na medicina tradicional tratamentos eficientes contra os males que afligiam os meus pacientes. Interessante que, por querer conhecer seus problemas mais a fundo para indicar-lhes o medicamento adequado, acabei me tornando um pouco psicóloga, confidente e amiga. Gostava desta relação mais estreita com o ser humano. Acho que, às vezes, pude ajudar além das necessidades físicas de cada um. Fui aquela figura quase lendária do “médico de família”, espécime em extinção devido ao sistema de medicina baseado em convênios a planos de saúde que acabam por tornar o atendimento impessoal em virtude da alta rotatividade de profissionais nas clínicas de todo o país. A minha linha de trabalho criou uma certa fidelidade por parte de meus pacientes que, por propaganda boca a boca, mantiveram o meu consultório sempre cheio, graças a Deus... Foi assim que ele surgiu. Um moreno pequeno, de cabelos lisos e negros, olhos brilhantes mas tristes. Procurou-me queixando-se de um mal-estar constante que vinha atrapalhando a sua vida. Tinha um estado febril persistente do qual ninguém conseguia encontrar a causa. Entrevistei-o como de praxe, a consulta demorando quase uma hora. Pedi os exames rotineiros, encaminhei-o à minha recepcionista para agendar o retorno para dali a quinze dias, quando os resultados estariam prontos. Voltei para minha sala sentindo-me estranha. Algo naquele homem miúdo me perturbara. Não sei se eram os seus olhos negros e profundos, se era o vinco que marcava o seu sorriso velado, se o aroma de seu perfume que impregnara o ambiente. Tantas pessoas já haviam sentado naquela mesma cadeira mas nenhuma deixara uma impressão tão marcante. Ele era um pianista.... Chamei o próximo paciente e aquela sensação
acabou se dissipando. Não pensei mais demoradamente em Eduardo
até o seu retorno. Depois de quinze dias lá estava ele de
novo. Um pouco pálido, olhos febris. Ele era sensual sem querer.
Uma aura parecia envolvê-lo. Falava de um modo brando, quase sussurrando,
a voz um pouco rouca. Abri os envelopes do laboratório. A única
coisa que pude detectar pelos exames de sangue era uma baixa resistência
imunológica. Expliquei-lhe que o tratamento seria demorado pois
eu teria que reequilibrá-lo e isso exigia tempo. Eduardo olhou-me
suplicante; estava cansado de médicos e remédios. Eu era
a oitava que ele consultava nos últimos dois anos. Procurei transmitir-lhe
segurança, embora eu própria não soubesse ainda que
caminho percorrer. Não havia uma doença para ser atacada.
Havia um desequilíbrio e isso era mais difícil de tratar.
Prescrevi-lhe a medicação. O moreno cravou em mim os seus
olhos de lago ao estender-me a mão para se despedir.
|
|||||||||||||
| Edição 53 | firmina e norberto Poli Paiva - A menina, mulher, escritora que queria ser várias anas....
a terapeuta de casais havia dito para firmina e norberto que eles precisavam destinar pelo menos uma manhã por semana para cultivar a relação. como já eram casados há 10 anos, resolveram obedecer.
a ordem era não ter pressa de sair da cama e nem de escovar os dentes. firmina, filha mais velha de mãe solteira, neurótica desde criancinha, não conseguia dormir pelas manhãs, nem nas de sábado. começou então a procurar o que fazer, já que acordava primeiro e não podia escovar os dentes, nem fazer café, nem multiprocessar todas as informações do mundo, do condomínio, das crianças e das 4 irmãs solteiras que viviam a lhe contar suas peripécias sexuais e a lhe dizer que era melhor estar casada do que solteira porque as casadas ainda tinham o benefício do divórcio.
logo relembrou de um esporte espetacular que não praticava desde solteira: olhar por debaixo das cobertas enquanto norberto dormia e ficar a observar o sono pesado daquele homem todo nu, que depois de 10 anos não tinha ficado barrigudo nem careca nem broxa nem metrossexual. saiu do sedentarismo para entrar pro mundo das sortudas. norberto podia demorar o tempo que fosse pra acordar que não tinha mau tempo. como se tratava do primeiro sábado de inverno e firmina estava bastante empolgada com a nova velha vida de desportista, resolveu citar a poesia de zeca baleiro no momento em que o pai de seus filhos abriu os olhos:
- hoje eu acordei com uma vontade danada de mandar flores ao delegado, de bater na porta do vizinho e desejar bom dia, de beijar o portugûes da padaria.
- quê isso, mamãe? pirou? flor pro delegado? de onde? da décima nona?
firmina só ria. na verdade gargalhava da barriga doer. norberto, ainda sonolento - mas ciente de se tratar de uma manhã de sábado, resolveu entrar na onda:
- e vem cá, qual vizinho? seu vladimir? ele não gosta da gente! diz que as crianças resolvem começar a gritar sempre depois das 10 da noite!
firmina percebeu que aquilo era muita metáfora para ele e, para evitar maiores explicações, resolveu calar a boca do seu homem utilizando seus artifícios de fêmea habilidosa. como se tratavam de ordens médicas, norberto, que já gostava mesmo daquilo tudo, acabou aceitando de bom grado a investida precisa da esposa. depois de mais ou menos 45 minutos de esportes intra-aeróbicos, ainda intrigado, afirma:
- não gostei desse negócio de beijar português da padaria não, mamãe! sabe como é esse povo da vizinhança! daqui a pouco tá falando de você e daí vou ter que me meter e aí quando eu fico nervoso, o bagulho pesa!
pela primeira vez, firmina entendeu racionalmente o quanto seu maridinho era maravilhoso. foda-se se ele não conseguia alcançar a poesia de zeca baleiro. isso era o de menos. ainda tinha outra coisa: ela podia tirar onda de poeta sem ter que dar os créditos. e o mais importante era que aquele homem ao seu lado era um pai bacana de 3 filhos, cheio de cabelo, sem barriga, sem frescura e de pau duro pra toda obra.
na manhã de segunda, enquanto sorria e dirigia rumo ao trabalho, ao som do baleiro, resolveu mandar flores para a teraupeuta, essa maga que com uma simples dica tinha feito ela perceber que em time que está ganhando não se mexe jamais. muito menos durante a temporada de inverno.
|
|||||||||||||
| Edição 52 | Voila Ah, pessoa, peraí que não tô podendo
perder essa cena.
Rio de Janeiro, 3 de julho de 2006.
Ela virou-se para o lado esquerdo da cama e catou no criado mudo isqueiro e maço de cigarros. Preparou o penúltimo deles displicentemente. Caiu da boca duas vezes antes de casar a chama com o fumo para a brasa. Ficou deitada, nua, de bunda para cima enquanto baforejava o hálito para o espaço entre os braços. Era uma esfinge perfeita: indecifrável em pose e face. "Posso fumar?" Pediu permissão apenas na terceira tragada. "Pode sim. Não me incomoda o cigarro." "Você fuma?" "Não fumo, mas não me incomoda. Fique à vontade." Ele levantou-se com dificuldade do lado esquerdo da cama e moveu as suas toneladas até uma cadeira perto da mesinha da televisão. Ficou passeando o olhar na cena formada pelos pacotes de camisinhas desperdiçadas, as roupas amarrotadas no chão e ela deitada com a pele ainda brilhando por conta do suor da atividade. Resolveu pedir uma água e um uísque para o serviço de quarto. "Caramba!" "Que foi, lindão?" "Vinte pratas por uma água e um uisquinho de quinta!" "Nossa! Caro mesmo! Por que você não me levou para um hotel mais em conta, gato?" "..." "Você sabe que não faz diferença para mim." Ela desatou o rosário, dizendo que o amava, que ele era lindo daquele jeito mesmo, que era o homem mais interessante que ela tinha conhecido em toda a sua vida. Ele querendo que ela calasse a boca e o chupasse. Só isso. "O que acontece, amor? Você está avoado... parece que está pensando na vida, na morte da bezerra." "E tô mesmo." "Mas qual o porquê disso?" Ele abriu um sorriso canalha disfarçado de gentileza e começou a ensaiar uma ida pro banheiro. "Vou tomar uma ducha. Quer vir?" Existem diversos tipos de sorrisos: os amarelos, que vêm por falta de opção; os de satisfação por um trabalho bem feito; os cínicos, que saúdam quem você quer ver morto ou vice-versa; os que nascem depois de um gozo com a pessoa que você ama; os que brotam quando você vê que sobrou salário no fim do mês - e não o contrário - e aqueles pelos quais alguém pagou para você dar. Ela fez um mix dos piores sorrisos e transformou a cara de enfado num expor de dentes instantâneo. De alguma forma irracional aquilo o enjoou de tal maneira que matou qualquer possibilidade de intimidade real com aquela mulher. Sabia que esse era um tipo extremo de perversão, mas gostava da sensação de descontração que algumas conseguiam lhe proporcionar. Não era esse o caso. Ele desistiu do banho quando pegou a toalha. Ela não: tomou um banho quente, demorado, barulhento e de portas fechadas. Ele recebeu o garçom à porta e bebeu o uísque em dois goles. Ela apenas se serviu de água. Não bebeu. Ele voltou a se sentar na mesma cadeira desconfortável. Ela deitou-se de bruços, agora se expondo para ele. Do seu canto ele podia contar os pêlos do fim das costas, todos dourados pelo sol; a marca de biquíni; a mancha escura de vacina na nádega esquerda; os cravos mal espremidos. Se ela fosse um terreno, daria para fazer um mapeamento topológico completo sem mexer um músculo sequer. Ele ficou olhando uns bons dez minutos enquanto brincava com o que deveria estar desperto e pronto. "Benhê. Posso te chupar?" Ele abriu um sorriso. A humanidade tinha esperança, afinal de contas. |
|||||||||||||
| Edição 51 | Ah sei lá Foi um lance mais ou menos assim... Ele é meio musico, meio folgado, meio fisioterapeuta, um tanto quanto atrapalhado. Aliás, ele aparenta ser meio um monte de coisa que não vem ao caso. Mas tem pinta de boa gente. Ela gosta. Ela é meio esquisita, meio intelectualizada, meio poliglota alem da conta, meio bronca. Inteira gringa começando pelo seu português minuciosamente dedilhado em horas e horas noturnas de leitura. Mas tem pinta de boa gente. Ele gosta. Ela acorda de madrugada pra fumar no telhado. Ele aparece uns minutos depois, sempre tremendo de frio. Ela ri pra cacete. Bravo ele a despenteia. Ela briga pra cacete. Meio estranho. Eles gostam. Deve ser coisa de casal... ... Quer dizer, claro que eu vi tudo meio que por acaso. Juro. Eu gosto!
Rio de Janeiro, 22 de maio de 2005.
Caminhando em direção contrária da sua, do outro lado da rua, ele a percebe: Vestido florido, tecido fino, daqueles que voam. Sabe? Ele gosta disso. Sinal aberto. Ele atravessa a rua correndo por entre os carros. Pensa poder voar. Tolo, quase morre. Mas não tem importância, afinal ele ama vestido florido. Mesma calçada. Mesma direção. Agora ele passa a caminhar junto dela, não exatamente grudado, mas perto o bastante para sentir que ela usava um perfume do bom. Sabe? A chuva aperta e ela continua andando no mesmo
passo, com a elegância de Vênus a lhe acompanhar. Ao menos
penso Vênus ser elegante. Mas isso não importa quando vejo
aquele rostinho dourado inclinar levemente, olhando o céu, cara
pra chuva pedindo: Vem... me molha? A chuva dá trégua. Eles percebem
juntos, e ela sorri. Que maravilha! Ele sorri de volta. Ela agora segue bem à frente, entra na Praça Nossa Senhora da Paz, acomoda-se num banco vazio. Ele fica perto de uma árvore, parado, só a observando. Que bonitinho - ele pensa - Agora ela vai tirar da bolsa um bom livro, daqueles que concentram a ponto de não perceber ninguém a sua volta, talvez nem a mim. Não teria problema, ele adora aqueles óculos fininhos, discretos, que ficam lindos só em algumas moças. Ele gosta disso, é um bom observador. Nenhum livro em mãos, talvez ela vá simplesmente observar os passantes... ... Mas, o que é isso? Ela tira um saco plástico, daqueles de supermercado, de dentro da bolsa e um estranho alvoroço de pombos formava-se à sua volta. Não, não pode ser. Era. Ela jogava migalhas de pão para os pombos, enquanto emitia grunhidos como se conversasse com eles. Bastou isso. Virou-se e continuou seu caminho. Ele odeia pombos. |
|||||||||||||