Arte Sexualidade Corporalidade
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Edição 60

Sobre a Infância

Géssica Hellmann - Angelic - Arte
Angelic por Géssica Hellmann

Um lindo conto de amor versificado.... por Sônia (Anja Azul), uma anja-menina-mulher dourada com asas azuis...

(Géssica Helmann)

Quando era criança, brinquedos não tinha
pois aquela única boneca sem olho, tadinha...
não era
brinquedo, era quase uma filha.

E quem diz que ficava parada
tv? videogame? que nada!

A árvore imensa era minha nave
sentada no ultimo galho
partia em viagens fantásticas
visitava galáxias..

five, four, tre, two, one, ziro

Lá ia eu rumo ao infinito
E quando aterrisava....
O milharal nos fundos da
casa
se transformava num planeta hostil
as plantas alienígenas, que destruia
com minhas armas laser (galhos de pau)

e qualquer poça d'agua era areia movediça
que me engolia quase inteira enquanto
meu parceiro de brincadeiras tentava
me salvar...

hahaha...e quando pousavamos na lua!!!
(o aterro argiloso no patio em frente
onde seria uma escola)
Montanhas vermelhas da lua, vencidas
em passos de câmera lenta como nos filmes

e quando gastávamos horas
confeccionando arcos e flechas
dos galhos da árvore

ou arquitetando planos de como roubar
o "tesouro" (gibis que meu irmao escondia
a sete chaves)

ah que infância deliciosa
pobre mas feliz!

 

 

Edição 59

Lovi Stori

por Chintia Freeney

Sempre achei fascinante essa coisa de criancinhas desenvolvendo fetiches por objetos escolhidos aleatóriamente. Os homens de minha família são especialmente propensos a esse tipo de comportamento. As poucas garotas escaparam ilesas.

Susan Joarlette - Brincadeira de Crianças - Arte Corporalidade
Brincadeira de crianças por Susan Joarlette

Meu irmão tinha o Cabitô - um cobertorzinho nojento que ele arrastava pela casa o dia todo.
Tinha o Tedolino, urso do meu primo B. Tinha o Bessinho, uma almofadinha de plush do meu primo N. e os mais engraçado de todos eram os "cóin-cóins", fetiche do meu primo P.

"Cóin-cóin" era qualquer peça de vestuário que tivesse uma renda. Saiotes, camisolas, combinações. Ele não dormia sem esfregar o cóin-cóin no nariz.

Também era famoso por levantar as saias de visitas do sexo feminino, para vergonha de meus pobres tios e escândalo dos presentes, "para ver se tinha cóin-coin".

No batizado do irmão mais novo, botou a igreja toda num acesso de riso histérico, por que ao ver o padre todo paramentado para a ocasião com sua batina branca com barra rendada, começou a gritar a plenos pulmões!!!

"O PADRE TEM CÒIN CÒIN!!!!!!!"

Meu filho mais velho não tinha exatamente um objeto, mas era viciadíssimo em chupetas, que eu comprava no atacado por que ele sempre as perdia pela casa. Quando não era possível localizar uma para a hora da soneca, ele fazia um dramalhão de deixar a Glõria Magadan no chinelo.

Ajoelhava-se na varanda com as mãos para o céu, e lamentava.

"Ohhhhh meu Deus! Minha sopetinha!!! O que eu fiz para merecer isso, Meu Deus!!! Como pode ser que eu não tenho uma sopetinha!!! Por favor Deus, faz aparecer uma sopetinha!!! "

Teve dia que os vizinhos se apiedaram do choro copioso e apareceram com uma chupeta para acalmar a fera.

Meu filho caçula, para não fugir à regra, tem o Lóvi.

Lóvi é um travesseiro muito velho, muito encardido e empelotado, normalmente malcheiroso, que ele dorme acariciando, carrega pra todo o canto, usa como chapéu, bandeija, barco... o Lóvi tem mais utilidades que Bombril.

Vez por outra, por que o Lóvi vira uma sachê de amônia, ou por que o inevitável acontece (tipo o sábado em que ele ficou ensopado de Nescau) eu tenho que "tomar emprestado" para lavar.

Sob os veementes protestos do moleque, que durante todo o processo de limpeza e secagem, chora como se alguém da família tivesse falecido.

No meio do choro sentido, pára umas 63657637548 vezes para me perguntar, entre soluços, se o Lóvi esta pronto.

No sábado, foram duas horas escruciantes de dramalhão mexicano, até que retirei do Lóvi da máquina ligeiramente mais apresentável e com cheiro muito mais agradável.

Ao receber o objeto de sua afeição todo limpinho, ele o abraçou, daí parou um minuto. Abraçou de novo. Me olhou... abraçou de novo. Jogou Lóvi no chão contrariado.
Perguntei o que estava errado.

"Lóvi don't smell like Lõvi! Lóvi smell like mami!!"

Por um lado fiquei lisonjeada e feliz de saber que cheiro a roupa limpa saida da máquina.

Por outro, fiquei meio chateada de saber que ele prefere o sachê de amônia.

Expliquei que se ele fosse nanar com Lóvi, o cheiro de Lóvi voltava.

Graças ao vazamento inevitável da fralda que ele ainda usa para dormir, na manhã de hoje, quando ele pulou na minha cama com o travesseiro, constatei que estava certa.
Lóvi ainda conservava um pouco do cheiro de "Ajax Mountain Spring".

Mas era sem dúvida, Lóvi velho de guerra perfurando minhas narinas com cheiro de xixi de anjo.

 

Edição 58

A PRIMEIRA...

por Maria Antonieta R Mattos

Salvatore Zofrea - The Garter - Arte Sexualidade Corporalidade
The garter por Salvatore Zofrea

Ela tremia. Pernas, mãos, o corpo inteiro. Seus passos se tornaram imprecisos, inseguros. Os clientes começariam a chegar por volta das oito da noite e Kate tratou de respirar fundo, se recompor... Só faltavam quinze minutos!! Mais de uma vez, pensou em abandonar tudo. E se alguém conhecido aparecesse por lá, meu Deus, o que seria dela!!?

Ah, pensamento positivo... Pensamento positivo.! Estava a quilômetros de seu bairro. Estava na Zona Sul e ela morava na Zona Leste. Não, não apareceria ninguém!! Uma cidade deste tamanho, com milhões de pessoas... Além do mais, estava irreconhecível. O melhor daquele emprego, até então, era ter conseguido aquele trato todo. Cabelos, unhas, perfumes. Ela justificou para Dona Eugênia – sua mãe – que conseguira emprego numa lanchonete de um posto de serviços na Anchieta. - “E como você vai para lá, menina? É tão longe...” -
- Mamãe, estou grandinha!! Por favor, não se preocupe!!.
Ela pegaria carona com um frentista, o Paulo Roberto – “aquele do fusquinha azul, lembra?”. E chegaria cedo, por volta das 7 horas da manhã. Já estaria claro e a mãe nem precisaria ficar tão nervosa. O primeiro cliente entrou pela porta dupla... Ela presenciou o segurança o revistando. Havia dezenas de garotas. E o cliente foi direto ao america bar. Monique, sua instrutora, se aproximou do rapaz. Ele parecia assustado, envergonhado. Pediu uma bebida qualquer. Pareceu um Campari. Sim, era um Campari. Com gelo e limão. Monique alisava a cabeleira do rapaz. Sorria, sempre. Sorria e o alisava. Kate observava. Tinha sido orientada pelo patrão a não pegar nenhum cliente antes de ver Monique em cena. Monique era bacana, diferente das demais veteranas, que soltavam piadinhas para ela desde que fora contratada. Ela mesma se propôs a ensinar os primeiros passos para Kate. O segredo, amiga, é o sorriso contínuo. Sempre sorrindo, entendeu?
Mais rapazes foram chegando. Alguns pareciam conhecer as cortesãs. Abraçavam. Beijavam. Faziam pequenas carícias em seus cabelos. Outros vinham em duplas. Eram mais descontraídos. Os que chegavam sós eram mais arredios. Perscrutavam o ambiente, investigando se um vizinho ou parente não estava por lá. Depois de algum tempo relaxavam. Bebiam. Aproximavam-se, aos poucos, dos outros solitários. Até começarem a investir nas garotas. Monique largou o primeiro rapaz. Despediu-se friamente e foi em direção à Kate. - O viado deve estar com medo, Kate. Babaca! Tá vendo aquele ali, de camisa vermelha. Parece um bom cliente. Agora é a sua vez. Vai lá, menina, vai logo! Antes que alguma piranha chegue junto. As mãos de Kate suaram. Mas não havia mais como adiar. Armando, o gerente, sinalizou com a cabeça que ela deveria ir. Deu uma leve arrumada no vestido transparente, apertando o busto farto.
Aproximou-se.... “Oi, gatão! Posso tomar uma bebida?” Sentou-se ao lado do gatão, que retribuiu a pergunta com um sorriso e com a promessa de que, mais tarde, assim que o irmão chegasse, ele pagaria um Martini. Ele devia ter mais de quarenta anos, era moreno, cabelo crespo, preto. Além da camisa vermelha, vestia uma calça branca bem apertada, limpa. E um par de botas de cano alto. Tinha uma larga falha entre os dentes da frente. Kate repousou sua mão miúda sobre as coxas do homem. Ele, por sua vez, começou a alisar os cabelos negros de Kate, suavemente, sem pressa. Você é nova aqui, não é princesa? - Hoje é minha estréia, para dizer a verdade. E eu escolhi você, gato... - Como você é linda. Sabia que você é linda, princesa? - Obrigada, são seus olhos, gato. E então, veio se distrair um pouco? - Fui despedido. Mas eu não queria mesmo continuar naquela espelunca. Meu chefe é um idiota. Um babaca. Burro que só vendo...
Aposto que não conseguirá tocar a loja por um mês. Sempre se escorou em mim, o fdp! - Meu gato!, Não fica assim nervoso não! Relaxa. Toma mais uma bebida. Desabafa pra mim. - Obrigado, princesa. Você é muito atenciosa. Mas, me conta: como veio parar aqui? Naquele momento Kate insinuou se entristecer. Abaixou a cabeça. Em seguida olhou para o lado. Olhou para o nada. Fez mistério antes de pronunciar a primeira frase. O homem apertou-lhe levemente a mão e fez cara de quem está curioso para saber. Ela contou que também tinha perdido o emprego. Trabalhava num escritório na Rua São Bento, mas a firma faliu e ela não recebeu seus direitos. Isto há quase cinco meses. E, por mais que procurasse outro trabalho, não conseguiu encontrar. Tinha uma filha de quatro anos e a avó doente para sustentar – perdera os pais num acidente de carro quando ainda era adolescente. Estava passando por muitas dificuldades, estava quase enlouquecendo, quando uma velha amiga lhe contou sobre aquele trabalho.
Pensou mil vezes antes de dizer sim. Acabou aceitando porque pensou no futuro da filha. Mas era temporário. Voltaria para a faculdade e arranjaria um emprego, tinha certeza. Os olhos do cliente lacrimejaram. Ele tomou mais um gole e deu-lhe um beijo carinhoso na face morena. Depois abraçou-a fraternalmente. Ela recebeu o sinal do gerente de que seu tempo tinha se esgotado. Ao se desgrudarem, ela perguntou se ele queria fazer o programa. - Você faz tudo, amor? - Tudo o que quiser, gato! Quer dizer, tudo, menos anal. - Então não quero. Fica para a próxima. Despediram-se e ela correu atrás da amiga. Monique estava com um cliente. Demoraria mais meia hora. Kate ficou perdida. Queria fugir do olhar provocador do Armando, que a perseguia. Não sabia o que fazer. Só se tranqüilizou quando viu Monique descer de mãos dadas com um rapaz loiro, esguio. Contou como fora sua abordagem. Um desastre, o cara é um tarado fdp! - E a história da filhinha e da avó? - Não colou. Acho que precisamos inventar outra história!... – sorriu.
Somente as duas da madrugada Kate conseguiu levar um cliente para o
quarto número 7, que ficava no segundo andar. Era um bêbado imundo, com um bigode imenso, olhar caído, roupas horrorosas. Tinha um bafo insuportável e ela quase não conseguia entender o que ele falava. Só sabia que ele sempre repetia a mesma coisa. “Eu te amo, amô... eu te amo, amô...! Ela sugeriu que se lavassem antes de ir pra cama. Ele não aceitou. Então Kate jogou uma água no corpo muito rapidamente. Ele já estava pelado na cama, mexendo no negócio. Foi só meia hora. Mas Kate fez tudo. Ou melhor, quase tudo. Kate chegou em casa às sete e meia. Deu um beijo na testa da mãe, que dormia, e foi para o seu quarto. Lembrou da madrugada. Do animal com quem tinha transado. Do seu bafo. Do bigode incomodando-lhe a pele. Do seu próprio gemido teatral. Sentiu vergonha. Chorou. Deixou a bolsa sobre o criado-mudo.
Deitou-se.
- Maria das Graças, onde arranjou esses vinte reais?
- Caixinha, mamãe. Caixinha.

 

Edição 57

Um conto inocente

por Maria Antonieta R Mattos

Eis um conto... Coisa romântica e meio purista, .... uma adolescente entre dois fogos de gênero, cabeça em conflito à mil por um lado e o corpo em reação contrária por outro. Uma fase difícil... que só me propiciava sonhar....

Margaret Cilento - Swinging Infinity - Arte Sexualidade Corporalidade
Swinging Infinity por Margaret Cilento

Verão. No céu nuvens desenhavam elefantes, ursos e palhaços. Estou deitada no fundo quintal, mãos atrás da cabeça, lápis sendo mordiscado no canto da boca e a lição da Dna Margarida, esquecida ao lado...

Um ruído em crescendo e identifico um carro de som que acaba de dobrar a esquina. Em alvoroço trato de ajeitar a saia, arrumo a blusa torta e corro para o muro que separa minha casa da rua. E na rua passa uma pick up com alto falante, onde aos berros, uma voz entusiasmada anuncia o maior circo do mundo!! E ele vai se apresentar bem na nossa cidade, lá no descampado da Prefeitura. Finalmente o Circo Americano em Apucarana!!..Entrei casa a dentro à toda sorrindo e já sonhando com o espetáculo que ia assistir já no no final da tarde. Vi minha mãe fazendo recomendações de meu comportamento, mas nos meus quinze anos, pensava que sabia tudo. Ansiava com a chegada da hora.

Escolhi o vestido mais lindo, queria ver de perto o circo tão falado na cidade. Minhas amigas chegaram, meus cabelos ainda molhados, esvoaçavam com o vento, sorria numa alegria de menina. A fila enorme, o pipoqueiro foi à primeira atração que vi. Compramos pipocas para a hora passar, as pessoas andavam de lá pra cá. Lourdes era a mais quietinha, parecia indiferente. Quando a fila foi diminuindo, ela olhou para a imensa lona meio assustada, mas a minha alegria era tanta, que nem ouvi seu comentário. Escolhemos a arquibancada mais próxima do picadeiro. Vestia um vestido de seda verde, meus cabelos negros combinando com o esmeralda de meus olhos, diziam que eu parecia uma artista. Ah.... eu me sentia mesmo uma artista... Minha primeira ida ao circo... puxa!! Debrucei meus braços nos joelhos e fiquei sonhando com aquele picadeiro, gostaria muito de fazer parte daquele mundo colorido do circo.

Nesse momento, um rapaz loiro, atravessou o picadeiro para puxar uma corda atravessada que ia até a arquibancada perto de nós. Ele parou e pediu licença, num sotaque que desconhecia. Nossos olhos se encontraram, notei um sorriso em seus lábios, meu coração disparou, ele parou e quando puxava a corda, jogou um beijo pra mim. Fiquei sorrindo numa alegria tão grande que minhas amigas aplaudiram. Não via hora do começo do espetáculo. Tentava imaginar qual seria a função daquele rapaz, seria um ajudante, e com certeza não mais o veria. Mas ficava olhando por toda parte do circo, onde estaria aquele loiro tão lindo que parecia um anjo. Nesse momento uma música de orquestra invadiu o circo, as pessoas aplaudiam, um senhor regiamente vestido e com ar seríssimo veio andando majestosamente até o centro do picadeiro e anunciou o inicio dos espetáculos.

Um grupo de palhaços invadiu o palco, as pessoas riam e um deles se destacou do grupo, foi se aproximando de nós e jogou uma flor pra mim... Peguei, e consegui ver seus olhos azuis escondidos na maquiagem. A alegria foi misturada em gargalhadas, aquele circo estava sendo uma grande mudança em minha vida, jamais sentira tanta emoção. E outros espetáculos aconteciam, mágicos, domadores, malabaristas, uma infinidade de atrações que nunca mais vi nos circos modernos... Circo, uma arte em extinção... Ah...mas eu já não estava mais interessada nas maravilhosas atrações se sucedendo umas às outras... Eu ficava era desejando ver de novo aquele rapaz que me dera alegria e depois desaparecera...
Meu Deus, meu primeiro flerte... E logo com um palhaço de circo....!! Ai, e tão lindo... Nesse instante, o homem de roupas elegantes e que fazia a locução, anunciou o espetáculo do trapézio.

Uma música começou a embalar o publico, as pessoas aplaudindo, uma rede foi estendida abaixo dos trapézios que ficavam lá no alto da lona à milhares de metros de altura para mim...Mexendo com o coração dos espectadores, estava o locutor fazendo o suspense do perigo que os trapezistas iriam desafiar!... Nesse momento dois rapazes e uma moça aparecem no picadeiro... Suas roupas colantes, brancas e com brilho, os transportavam; ao menos na minha cabeça, aos reinos de seres mitológicos e fantásticos tão comuns na imaginação juvenil.. Eles chegaram bem perto do publico para agradecer as palmas antecipadas ao espetáculo.Quando eles se viraram para nosso lado, dois palhaços atravessaram o palco, minha atenção voltou-se de imediato para eles, queria ver de novo o meu anjo vestido de palhaço enão o grupo de trapezistas, agora virados pra nós.

Eu procurava o olhar dos palhaços, reconhecer um deles mas, foram embora sem olhar pra mim. Ansiosa; senti uma ponta de decepção, quando Lourdes bateu de leve em meu braço para que eu olhasse para o trapezista mas... eu não dava atenção a ela, queria o olhar do palhaço,. Com o grupo se afastando, é que percebi que um dos trapezistas era o meu anjo...Tentei olha-lo, mas ele já se virara para a direção da escada de corda. Senti a sensação de perda, e Lourdes então disse que ele ficara o tempo todo me olhando. O espetáculo começou, ele bailava no alto, sentia um vento frio em meu rosto, a platéia aplaudindo, e lá do alto, seu corpo bem feito desafiando o perigo, em acrobacias cronometradas e a música melancólica da orquestra ajudando o show ficar mais fascinante... Ele olhou em minha direção... consegui ver seu sorriso, e do trapézio ele jogou outra flor que, em parábola quase perfeira, desenhou um longo arco desde o trapézio em movimento alucinante, acabando no entanto por cair duas fiadas atrás de mim, agarrada imendiatamente por uma outra moça intusiasmada.

Senti ciúmes, mas ele deu outro sorriso...Ficamos assim trocando sorrisos, beijou mão e a passou no coração e fez que jogara pra mim, fiz o mesmo gesto...Estávamos curtindo um flerte maravilhoso.

Nesse instante, número terminado, os três foram descendo as cordas, com aplausos e gritos confusos. Meu herói descia rápido, no fascínio daquele sentimento novo, não percebia, nem eu também, maravilhada com a perspectiva de vê-lo na minha frente, que as pessoas estavam gritando... que uma claridade sinistra de fogo surgiu do outro lado... Por um momento pensei que fazia parte do espetáculo, mas era um incêndio. As pessoas gritavam e corriam por varias direções. Um elefante enlouquecido passou em disparada, cindo sabe-se lá de onde, arrastando atrás de si lonas inflamadas, num paroxismo de pavor e dor. foi abrindo caminho de forma enlouquecida, arrastando o que encontrava pela frente, atropelando pessoas, pisoteando-as em busca de sua própria salvação.

Nesse momento a arquibancada começa a balançar. Apavorada, procurei minhas amigas com um olhar mas elas haviam desaparecido de perto de mim. Tentei descer do madeiro mas era tarde.. com um horrível estrondo elas se desmontaram, me deixando presa... Meu Deus, recordar estas cenas me trás novamente ao meio daquele fogo, pessoas gritando, outras virando verdadeiras tochas humanas... Minha perna estava presa entre as madeiras e eu estava impossibilitada de sair do lugar e quando já perdia as forças, senti alguém tentando tirar-me dali...Nossos olhos se encontraram nesse instante de puro pavor. O fogo já dominando quase tudo e ele fazendo força para livrar minhas pernas.Pedi em desespero que ele fosse embora, que salvasse sua vida mas ele, gesticulando muito saiu à procura de ajuda. O calor era insuportável e eu já nada mais via com aquela fumaça acre, quando outra vez tive esperança de sair daquele incêndio.

Ele voltou com um ferro enorme, e com uma força descomunal, conseguiu empurrar partes das arquibancadas que prendiam minhas pernas. Ele me retirou semi inconsciente e tentou sair... Mas tinha muito fogo... Ele me carregava entre os braços; a dor era tanta, que queria apenas permanecer ali... quieta, que tudo acabasse, no intanto uma outra parte de mim, guerreira e lutadora tentava permanecer acordada... E ele conseguiu um atalho por entre o fogo e as pessoas pelo chão. Já chegávamos quase do lado de fora, quando outras partes de arquibancadas cairam, arrastando-nos impotentes no mar de fogo.. Ficamos abraçados e sem esperança de sobreviver.Meu herói não desistira, no entanto.. Tentava me carregar, apesar de muito ferido...Desesperada, consegui me arrastar mais pra dentro das tábuas para defender-me do fogo... Um instante de calmaria e esquecendo-me da dor implorei novamente para que le saísse dali.. então acabou.. com um estrondo toda a estrutura veio finalmente abaixo.

E milagre, à nossa volta o céu estrelado sendo vez por outra obscurecido pela fumaça ao nosso redor. Fomos amparados por várias pessoas e perdi os sentido. Acordei no hospital, uma semana depois. Fiquei então sabendo a catástrofe tinha sido terrível, que muitas pessoas tinham morrido. Lembrei-me então do trapezista... Não sabia nada dele, nem ao menos se estava vivo. Chorei baixinho, ninguém poderia entender que um amor poderia acontecer tão rápido e ter um fim tão trágico. Voltei a minha vida normal, todos os dias nos jornais saiam noticias de pessoas que perderam amigos, famílias inteiras morreram. Minhas amigas, graças à Deus, conseguiram se salvar. Passaram-se alguns anos. Fui para a universidade e lá conheci o André, estudante de psicologia. Bom rapaz, educado e gentil, foi meu companheiro por dois anos na escola. Eu estava com ela quando fomos convidados para um seminário na Argentina.

Córdoba é uma cidade linda e foi lá que chegamos numa noite clara... A cidade toda iluminada tinha um brilho especial em um canto... As luzes iluminavam intensamente a lona filetada e inconfundível de um grande circo. Meu pensamento voltou-se incontinenti para uma outra época e eu não podia deixar de ter um trauma violento por causa do acidente ocorrido em apucarana anos antes...Meu herói trapezista e palhaço veio imediatamente à memória... Naquela noite André bateu à porta de meu apartamento no hotel, com os outros colegas presentes no mesmo seminário. André era muito atencioso, entrou no quarto e abraçou-me e olhando pela janela, para a redoma iluminada ao longe, pediu que eu falasse daquele dia. Senti uma sensação ruim, e implorei em não ter que trazer novamente à tona, os acontecimentos daquela noite mas, por ser psicólogo, ele gentil mas dominador, insistiu dizendo que eu tinha que vencer o medo.

E mais, iríamos todos juntos ao circo...Recusei, mas André e os colegas insistiram . A sensação de medo era muito forte... quando chegamos àfinal na entrada do circo, não agüentei, entrei em pânico e recuei violentamente... Fui abraçada ainda chorando por André. Nesse instante nossas mãos se encontraram, senti segurança, ele dizendo que me ajudaria a curar o trauma.. Enfim, agarrada à ele e escoltada pelos amigos, fomos procurar uma arquibancada, André me abraçava, nunca sentira tanto carinho depois daquela época. O espetáculo começou, em minha lembrança, olhei para os lados, meus colegas de faculdades, comiam pipocas, parecia a mesma cena, André acariciava minhas mãos, nesse instante o locutor anunciou o espetáculo do trapézio.

Um murmúrio de excitação elevou-se da platéia e um trio elegante apareceu no palco, uma lágrima rolou em meu rosto, lembrança daquele sorriso que nunca mais saiu de minha lembrança... Senti as mãos de André segurando firmes, as minhas.. A troupe se dirigiu Aos presentes em cuprimentos e, neste momento três palhaços atravessaram o palco. Lembrei-me de Lourdes e meu olhar foi para o grupo de trapezista,. Os palhaços davam cambalhotas e faziam micagens.. Dois... O terceiro ficou estático...

Faltava-lhe uma perna... Tirou a flor espalhafatosa que trazia na lapela do paletó bizarro e, abrindo um sorriso enorme, jogou-a em minha direção... Nesse instante meus olhos encontraram-se com os dele... Senti um calafrio... Levantei-me calmamente e comecei a descer as arquibancadas. André tentou me impedir mas nada e nem ninguém teria podido me parar...

Aproximei-me do picadeiro, ele estendeu as mãos, pulei para o lado de dentro com dificuldades e nos abraçamos...A platéia aplaudia sem nada entender, o que ocorria ali.. Aquele abraço sentido, que não acabava, era um abraço de saudade, de uma página virada, de felicidade...Foi o perder as asas da fantasia e ter de vez os pés na realidade....

 

 
Edição 56

Quando as orelhas começam a crescer

Sérgio Ornelas é designer gráfico, ilustrador, cartunista, caricaturista, e grande amante das letras.

Thuy Ngo - The ear - Arte Sexualidade Corporalidade
The ear por Thuy Ngo

Bastou uma olhadela no espelho e a cruel constatação: suas orelhas começavam a crescer.

Menos do que poderiam, é certo, mas já se faziam notar.

Assim como alguns pelos impertinentes teimavam em brotar da cavidade auricular, onde nunca deveriam ter nascido. Seu pai passou pelo mesmo infortúnio. É a genética!
Você não acreditava no que via até que se apercebeu, que a clareza da imagem, só era possível graças ao inseparável par de óculos e a lâmpada de 100 watts sobre o espelho do banheiro. Agora, além das orelhas, mais essa peça a sobressair no rosto. O quê fazer então, quando um par de orelhas que crescem a olhos vistos lhe transtorna a vida? Sua voz interior responde: "Conforme-se. No próximo ano, notará que o que cresce numa velocidade ainda maior é o seu nariz. Você e seu nariz estão ficando velhos."

Não bastasse isso, sua mulher, alguns anos mais nova, lhe convence a começar os exames médicos. E lá vai você usufruir o plano de saúde que pagou a vida inteira. Reviram você de cabeça para baixo, mexem daqui, examinam dali e pronto, sua vida está de ponta cabeça! Nas mãos, uma lista enorme de restrições.Você coloca os óculos e se assusta com o que lê. É o começo do fim. Nada de muito sal, gordura nem pensar, açúcar só de vez em quando. Isso é vida? Conforme-se mais uma vez, poderia ser muito pior. Poderia ser a próstata. Seu coração está intacto e seus pulmões sem sinal de enfisema. Um pouco escuros, mas só nas bordas. Relaxe! Nenhum remédio indicado, apenas exercícios diários. Muito exercício, para você que acha a padaria tão distante quanto a Patagônia. Mexa-se, grita novamente a sua voz interior. E você se pega falando sozinho enquanto caminha, não para a academia, mas para o que talvez seja seu último encontro com os amigos de boteco. Todos ali sentados, animados, rindo de tudo e como você, com as orelhas começando a crescer.