Arte Sexualidade Corporalidade
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Edição 10

Uma crônica de Marte e Luna

Zander Catta Preta


A menina estava disponível e ele também. Já se conheciam de outros carnavais e já fizeram aquele caminho outras vezes. A bem da verdade, eram outros tempos e outras intenções. Hoje, eles eram adultos: experimentados, maduros, resolvidos e sabiam bem o que queriam um do outro.

Ou assim pensavam.

lua hermafrodita - Arte Sexualidade Corporalidade

Lua Hermafrodita - Pastel 09/2005
Géssica Hellmann

Passearam pelo Arpoador de mãos dadas. Emocionaram-se com a Lua que nascia em Copacabana e com o Sol que se punha em Ipanema. Pensaram ouvir ao longe os aplausos do Posto 9 mas, dada a distância, os aplausos estavam em suas imaginações. Como se elogiassem a si mesmos subconscientemente.

Conversaram bastante, a ponto de acabar a saliva no meio de uma conversa. O assunto era recorrente. Se comentavam da Lua, do Sol ou do cheiro de mijo das pedras, era apenas para dar uma pausa para tomar fôlego ou para embasar o tema principal. A paisagem se tornara uma metáfora para relações mal-acabadas. Mal-acabadas para eles, diga-se de passagem, porque o “outro” estava muito bem da vida. Sorrindo como nunca antes sorrida ao lado deles. Se divertindo como nunca se divertira. Transando como nunca antes transara.

Pois é.

Durante o cair da tarde ele só falava da ex-noiva e ela, do ex-namorado. Os ex-outros eram o tema principal e o único assunto que os unia naquela tarde. Talvez essa fosse a forma que encontraram para dizer que estavam sendo o mais verdadeiro e sincero possível. Não haveria enganação, sentimentos dúbios ou ilusões que não fossem consentidas por ambos, conscientemente. Sabiam o porque de estarem ali e essa conversa só reafirmava isso.

Passearam até a noite se firmar e sentirem que a saudade já se manifestava por dentro das suas calças. Era tanta saudade que já davam vexame público e evitavam os olhares invejosos de quem caminhava castamente pelas pedras.

Já em casa, nus, cometeram uma dúzia de erros fatais.

Amaram com sofregudão, mal dando tempo para os preparativos. Preliminares? Ora, estavam nas preliminares há meses. E ficaram ali por horas praticando o antigo esporte bretão.

Mentira!

Mal durou dez minutos!

Ela, por cima dele, controlava a situação como sempre sonhara fazer com o seu amado e ele cometeu o erro de chamá-la pelo o nome errado por três vezes.
“Me desculpe, eu não queria…” “Não… tudo bem… eu te entendo!” “Como assim entende?” “Deita aí e imagine que sou ela!” “Não! Pera lá!” “Faça isso! Anda!”

No décimo-primeiro minuto já estavam satisfeitos, e se contemplavam. Ele, procurando algum tipo de carinho. Qualquer carinho. E não encontrou. Ela, tentando inventar um amor que não teria como existir naquelas condições.

Se vestiram, tomaram a rua, pegaram um táxi. Ele foi deixá-la em casa. Na volta, não se conteve e pediu para o motorista passar por uma rua que não passava fazia tempo.
“O caminho por aqui é mais longo.” “Tudo bem. Pode até pegar a praia depois. Não tô com pressa!”

A rua estava vazia e o motorista não se demorou o tempo que ele esperava. Procurou um tipo de emoção dentro de si e não achou. Não vieram as lágrimas nem a auto-comiseração. Achou que estava pronto.

Saltou em frente ao Othon Palace. Foi até a praia. Tirou os sapatos e pisou na areia com calma, como se quisesse sentir cada grão roçando os pés. Olhou em volta para ver se havia perigo e foi calmamente andando até a água.

A Lua estava ali, lhe esperando. “Então. Como foi?” “Não sei. Tudo é muito estranho. Há um vazio agora. Não tenho mais raiva, ou paixão.” “Duvido. Você ama ser rejeitado.” “Mentira!” “Ama sim. Vai negar que a ama agora mil vezes mais que antes?” “Não nego.” “Então?” “Talvez você tenha razão. Talvez eu seja um maldito masoquista.” “Não fique assim.” “Não?” “Não é produtivo isso.” “Você tem razão novamente.” Sorriu para ele e o chamou para si. “Não posso ir agora. Você deveria ficar aqui também.” “Não sei se devo…” ela titubeou “...não sei se conseguiria viver uma vida de carne e osso.” “Você mesmo quem me recomendou isso!” “Mas tenho medo. Já me magoei muito antes.” “Olha só a rota falando do esfarrapado!” “Eu sei, eu sei. Mas você é Marte. Você está apto para a guerra, para os ferimentos da batalha. Se eu me ferir, me desfaço em água, vou com as marés.” “Querida, você é a maré! Vem. Desce do teu pedestal e seja feliz.”

Ela olhou com o olho mais doce e depois com o olho mais vil. “Você sabe que sou terrível e divina. Sou mãe e bruxa. Sou o teu prazer e teu sacrifício e…” “Blá, blá, blá... Luna e Hecate, yadda yadda yadda. E eu sou Marte e Ares, sou Medo e Terrror, sou Libido e Potência… Porra! Sou um ser humano, caralho!” “Eu sei!” “E é em cada queda que aprendemos a andar, a sermos seres melhores. Você fica aí, num altar, cortejada pelos pobres, poetas e melancólicos e se esquece que, quando envelhecer, vai ser deixada de lado. Tua corte procurará outra Lua. E eu, deverei aposentar minhas armas, vou procurar um canto para criar meus livros e plantar meus discos. Cansei da Guerra, do Bom Combate. Quero sossego.” “Então está combinado.”

Ela desceu do pedestal e, antes de ir para São Paulo, disse no ouvido dele: “Tudo muda.” E ele: “Nada mudará.”

E era belo e verdadeiro, assim no alto, como embaixo.



 

Edição 9

ISA

Lívia Santana

Lá vinha ela, Isa. Uma visão. Morena das ancas largas, bamboleantes, pele acetinada. Os cabelos, em cachos escuros e brilhantes, caíam-lhe pelas espáduas, emoldurando o belo rosto e balançando no ritmo dos quadris. Os olhos, claros, quase amarelados, marcados por cílios longos e escuros. Os lábios, cor de carne, cheios, convidativos, se abriam num leve sorriso, revelando a fileira de dentes alvos e regulares. As pernas longas se moviam graciosamente, balançando a saia provocantemente em torno dos joelhos. Um animal vigoroso. Uma mulher que incomodava. Fazia latejar desejos insidiosos e impronunciáveis. Deixava um rastro eletrificado pelos olhares cobiçosos que a seguiam. Caminhava despreocupada, o vento brincando-lhe com os cabelos e as roupas, causando uma leve expressão de prazer em seu rosto. E Isa, passando como sempre em frente à minha casa, afigurava-se a cada dia mais irreal e desejável. Um espetáculo irresistível a mim, hipnotizado à janela. Meu sangue se revolucionava e mal podia me mover. Ficava ali, rígido e atormentado, sabendo que à noite, suado e insone, ainda a veria. E o dia demoraria eternamente a chegar, outra vez.

 

Edição 8

NA CHUVA

Lívia Santana

Durante toda a tarde o vento rodopiou as folhas e as saias, anunciando chuva e, finalmente, na última hora de sol, ela chegou. Bendita. Sensação de liberdade e prazer indescritíveis. Como se energia liquefeita penetrasse em meus poros e iluminasse-me a entranha, sacudindo a vida em minhas veias. A forma perfeita de lavar a mente e o espírito, ficar leve como as nuvens depois que precipitam. Sob as gotas frias, virei criança de novo. O rosto afogueado, corri pela rua, chapinhei as poças, dancei e rodei, embalada pelo som do meu próprio riso infantil.

Então atentei prum elemento dissonante: eu tinha platéia. Um homem bem mais velho – eu tinha dezesseis – estava parado a alguns passos de mim, indiferente à chuva que ensopava suas roupas claras, olhando-me fixamente. Parecia confuso, chocado até. Sem saber por quê e sem me lembrar que também eu estava encharcada, proporcionando uma vista privilegiada através do meu vestido leve, me aproximei.

O olhar escuro, mesmo ligeiramente surpreso, ardia e hipnotizava, era impossível me afastar. Era alto, forte, tinha a pele morena e os cabelos pretos, entremeados de poucos fios prateados. Não chegava a ser bonito, mas era atraente. Ficamos nos encarando por alguns minutos, dissociados da lógica, até que ele fugiu, correndo sob a chuva, antes que eu pudesse esboçar qualquer gesto para detê-lo.

Nunca o tinha visto, não sabia nada sobre ele, sequer tinha ouvido-lhe a voz, e quisera detê-lo. Por quê? E por que ele tinha fugido? No fundo, era o que mais me intrigava. Sabia que o arrepio que tinha sentido na nuca nada tinha havido com a chuva. Aquilo tumultuou a minha noite, fazendo-me rolar na cama, insone e ansiosa. A sensação de ser observada, devassada pela curiosidade de um espectador nebuloso, permanecia e impedia-me de conciliar o sono. Além disso, o olhar do desconhecido continuava a me perseguir, chamando-me.

Passei os dias que se seguiram vasculhando a vizinhança tentando revê-lo, inutilmente. Ele tinha sumido, como se tivesse se escondido. Passei a esperar ainda mais ansiosamente que chovesse, na esperança dele aparecer e, realmente, o vi mais algumas vezes, sempre em dias de chuva e sempre fugindo de mim quando eu tentava me aproximar.

Aquilo já era idéia fixa, eu tinha que encontrá-lo, saber quem era, dar vazão à impressão tão forte que me causava. Estava obcecada por um estranho e senti crescer um desejo absurdo por ele. Meus sonhos crepitavam lascivos, sentia na pele o toque forte das mãos dele. Esfregava-me contra os lençóis tentando aplacar a sede através de gozo solitário, a agonia quase insuportável.

Dias depois, o sol já tinha se posto e o céu ia gradativamente assumindo um azul mais escuro, quando senti as primeiras gotas. Tinha me sentado na calçada, sentindo a chuva sobre a pele trêmula, imaginando se ele apareceria, quando o vi a alguns metros, olhando daquele jeito intenso, quase dolorido.

Em vez de tentar aproximar-me, despi o vestido molhado e encarei-o, desafiando-o a ser capaz de ir embora de novo. Hesitante, ele veio até mim e ajoelhou-se no chão aos meus pés, o olhar ainda atormentado. "Você é só uma menina". Então era só isso. Eu ri e arrematei: "Você não sabe de nada". Coloquei a mão dele sobre o meu seio pequeno e senti a resistência ir por terra. Eu tinha vencido o jogo disputado sob a chuva.

 

Edição 7

Pale blue eyes
Zander Catta Preta

Diziam que ele era o rapaz perfeito, inteligente, hábil, bonito, educado. Era obediente e levado, sabia instintivamente quando podia forçar uma situação ou quando poderia chutar um balde. Era excelente na escola, notas à perfeição. Achava que tinha o mundo em suas mãos.

De fato tinha.

Um dia, encontrou um par de olhos azuis. Eram os primeiros olhos azuis que via. Pele branca, cabelo negro e olhos azuis como bolas de gude. Encantou-se por eles e decidiu que queria acordar do lado deles o resto de sua vida. Que queria ter filhos com esses olhos. Que envelheceriam juntos e ficariam vendo o tempo passar quando se aposentassem. Comprariam um café em Paris. No primeiro piso o café, no segundo livros e computadores. E isso era bom e certo.

Mas ele sabia que não estava escrito que ficariam juntos. Ela lhe passaria ao largo da vida. Nunca lembraria do seu nome ou que sentava a uma carteira dele na segunda série. Até porque ele adotaria um outro nome para si quando chegasse à maioridade. Um nome mais curto, mais forte. Ela mal se lembraria do franzino de franjas que lembrava uma menina. E ele usava um outro nome curto. Não era forte, tampouco feroz. Apenas infantil.

E ele tinha lido o livro de sua própria vida várias vezes.

Numa noite acordou, vagou pela sala vazia e sentou-se no sofá. Acendeu um abajur e começou a ler um gibi de terror qualquer. Teve um pouco de medo de andar “A Mão vai me pegar!” diria mais tarde para a mãe que lhe proibiria café, açúcar e gibis de terror. “Super-heróis pode! Mônica também!” “Mônica é de menina, mãe!” “E aquele de dinossauros?” “Esse é legal! Quero o do Tio Patinhas também!” “Tá bem!” Mas esse diálogo se daria apenas uma ou duas semanas depois de sua primeira virada. Lia o gibi e só conseguiu pregar os olhos quando o sol raiava.

Antes de amanhecer decidiu: “Não quero ganhar a vida. Vou ser ganho por ela.” Sempre sabia o que os outros iriam dizer, advinhava o que lhes encantaria mais, sabia que aos onze trocaria de escola, aos dezessete entraria numa faculdade, aos vinte e cinco terminaria o seu mestrado, aos trinta dominaria o mundo, aos quarenta morreria odiado, sem filhos, sem legado mas imprimiria a sua marca na história. Cem anos depois a humanidade encolheria para um sexto. Colonizaríamos a Lua e Marte, andaríamos em carros voadores e trabalharíamos três horas por dia apertando botões. Mas antes teríamos de passar por sua ditadura que expurgaria as fronteiras e as liberdades. “Não quero ser rei. Quero ser um pai.” Falou para a sombra que o fitava no umbral da porta. Fecharam os seus livros ao mesmo tempo. “Teu sangue herdará o mundo” disse a sombra. Decidiu que não queria o mundo mesmo. Os olhos verdes valiam mais a pena.

Chegou na escola (olhando com cuidado para os cantos escuros para ver se A Mão não aparecia para pegar a sua perna) no dia seguinte ainda virado. “Você não vai comer mais açúcar! Que é isso! Menino dessa idade virando a noite!” Não deu bola para a vó que o levava. Parou na banca, comprou figurinhas. Dividiu em dois pacotes. Uma para as repetidas e outra com as que não tinha, entregou para a vó. “Tó!” Esperaram o portão abrir e entrou à aula. Sabia o que a professora iria dizer antes mesmo de vê-la. Encontrou o Capitão Asa cantando Sideral e guardou na memória a letra da música. Subiu para a sala e sentou-se atrás dos olhos azuis que nem por relance o fitavam.

Ao chegar em casa recebeu a notícia que iriam se mudar do Méier no meio do ano. Ele teria de sair da escola e iriam para Copacabana.

Num relance o seu mundo caiu. Aquilo que tinha lido não serviria mais de nada e agora via, ainda que desmanchando no ar, os fios que ligavam suas mãos e pés ao nada.

Chorou um pouquinho. “Não quero ir para a outra escola.” “Mas lá tem praia, dá para catar tatuí e você gosta tanto.” “Quero ficar na vila.” “A escola de lá é melhor.” “Eu quero essa aqui!” “Não tem jeito, filhinho.” Chorou um bocado.

As férias o fizeram esquecer as aulas e mudou-se no meio de julho. Ao entrar na nova escola não sabia o que a professora lhe diria mas encontrou um par de olhos verdes sentados na segunda fila.

Sorriu por fim.

 

Edição 6

Horizonte Roubado
Zander Catta Preta

Dez da noite. "Moçomedáumtroco?" "Vai trabalhar, vagabundo!" "Moçamedáumtrocopelamordideus?" "Tenho não, menino! Me deixa" "Mossumtroquinhosópreucompráumpão?" "Tenho aqui, menino, toma esse vale-bóia!" "Brigadumossu!" "Nada. Toma juízo e não cheira cola"
Compra um pão na graxa, coca-cola. Sobra um troco. Compra bala. Na padaria fazem uma quentinha com o frango que tava sobrando no forno e com um pouco de farofa. Vai até a calçada, perto da igreja e escuta uma música que sai, quase calada, de um apartamento do segundo andar do prédio.
"Oh, pedaço de mim/Oh, metade arrancada de mim/Leva o vulto teu/Que a saudade é o revés de um parto/A saudade é arrumar o quarto/Do filho que já morreu"
Sem entender bem, o menino se encosta na parede, não briga mais pela comida que os outros moradores de rua teimam em comer. Passa por ele o carinha que lhe deu o tíquete para comer. Ele passa olhando o chão, desviando do olhar daquele menino magro que não reconhecia mais. O menino não mais tinha fome de bala, pão e cola, mas tinha um vazio dentro de si que não cabia mais em alma alguma.
Entra na portaria com pressa, preocupado com a segurança, cumprimenta automaticamente o porteiro que mal o nota, chama o elevador, aperta o quarto andar, depara-se frente ao 403. Respira fundo. Abre a porta. A casa, vazia, cheirava a ar fechado. Fazia um ano desde que os planos ficaram sem pé nem cabeça, que o sentido das coisas perdera-se num arroubo, num desejo desenfreado. Num querer mais que um poder fazer. Olhou para tudo aquilo que planejara para dois e olhava para si só no espelho do corredor.
Abriu as janelas, e escutou a música que vinha do vizinho de baixo. Chorou baixinho, humilhado pela vida que o atropelara.
Levantou-se, verificou se o gás estava ainda desligado, se o telefone, a luz não. Abriu o chuveiro, tomou banho frio após da água turva de cano parado cair por dois minutos. "Que filho da puta tá ouvindo Chico a essa hora?" pensou um tanto quanto alto. Mas não tinha importância.
A
cama estava lá, os lençóis, os travesseiros. Empoeirados, mas arrumados. "Ela vem aqui uma ou duas vezes por mês" falou para si. Sentou à beira da cama, levou as mãos à face e anoiteceu. Antes, porém, ligou para ela do seu celular e desligou antes que ouvisse a sua voz.
"Idiota! Ele não sabe que existe bina?" falou para o atual namorado. Era o oitavo desde que saíra do apartamento. "Esse babaca ainda te procura? Já disse que eu cuido disso para você! Eu dou uma coça nele que nunca mais ele vai pensar no teu nome!" "Não precisa." "Precisa sim." "Deixa. É passado para mim. Ele que quer que vire presente de novo." "Não te entendo." "Nem precisa. Deixa." "Tá bem. Vamos na Bunker hoje?" "Não. Tem hip-hop hoje e tô fora dessa." "Ok. Pra onde então?" "Sua casa." "Ok."
"Esse não dura nem mais uma hora! Cara chato!" Pensou calada e subiram devagar a República do Peru no Omega Preto com vidro fumê e neon nos faróis. "Odisséia? Que tal?" "Olha, se você não me quer hoje, ok, pode falar!" "Que isso, amor, e eu sou de negar fogo?" "Não tô falando disso." "Tá falando do quê?" "Nada, deixa." "Se você não falar, não vou saber o que fazer, né? Não tenho como adivinhar." "Não é você, sou eu. É comigo." "Ok. Quer que eu te deixe em casa?" "Não. Me deixa aqui na esquina com a Barata Ribeiro." "Uai. Você não mora no Leme?" "Me deixa aqui, Anda!" "Tá bom. Se cuida. Juízo!" "Tchau! Te ligo, tá? Não me liga!" "Ok. Você é quem sabe." Ela saiu andando em direção ao prédio quando o menino virou-se para ela. "Moçaquimúsicaéessaaíassim?" "Música? Acho que é o Chico. Chico Buarque." "bunitaamúsicanuncaouvisabia?" Ela sorriu e caçou um dinheiro na bolsa. Quando viu, ele tinha partido.
Abriu a porta da portaria, cumprimentou o porteiro que acenou enquanto resmungava alguma coisa e cruzou com o casal do 201. Apaixonados, via-se de longe. Não desgrudavam um segundo e faziam cena o tempo inteiro. Uma vez, surpreendeu os dois no elevador num amasso só. Vira e mexe, tinham marcas nos pescoços, braços e sabe-se-lá-mais-onde. Isso ela, que só ia no apartamento duas ou três vezes ao mês.
Saltou no quarto andar. Andou até o 403. Viu a luz por debaixo da porta. Tremeu de cima a baixo. Ouvia uma música que vinha de dentro do apê. "Ai meu Deus. Ele tá tocando o Chico..." pensou.
Lentamente colocou a chave na porta. Abriu-a. E o viu com o violão no colo. Desabou ali mesmo. Já não era mais dona de si.
 

 

Edição 5 Dois contos, dois romances...

Three Imaginary Boys
Zander Catta Preta

“Acho que ali vamos botar a bancada para os computadores.” “Mas não vai caber aqui no quarto!” “Cabe sim, olha...” E fazia o desenho no ar da bancada que ainda não existia.
Estavam assim, enroscados e nus, entre os
lençóis da cama bagunçada, entre camisinhas usadas, livros lidos pela metade, cds fora de ordem e um sonho desenhado no ar pelo indicador dele. “Vai dar tudo certo. A cama é boa e o armário também. Bem sólidos. Agüentam a vida inteira.” “Mas e a televisão?” “A gente compra uma de 36 polegadas. Eu vi na loja. Não tá tão cara assim.” “Para que tudo isso?” “Para o centro de entretenimento que vamos montar na sala. Dvd com rometiatre. Gravamos Cds com MP3 e vai dar tudo certo.” “E a mesa de jantar?” “Quebramos parte da parede da cozinha e fazemos uma janela. Ali servirá de bancada e mesa.” “Mmmmm parece bom...”

Se enroscaram novamente e gozaram juntos até amanhecer.

Ela deixou o prédio pela manhã, pegou o táxi e foi do Leme até a Glória. Abriu a porta do apartamento velho e viu a zona que as colegas (kálegas) fizeram à noite. As duas semi-nuas largadas na sala. Várias garrafas de cerveja espalhadas na mesa, sofá, estantes e em cima da televisão. Duas caixas de camisinhas vazias. Quatro cuecas. Peraí!!! QUATRO?

“Quem teve aqui ontem?” nenhuma resposta. “Anda!” Disse, chutando uma e sacudindo a outra “Quem teve aqui ontem?” “Uai. Ele não foi embora ainda. Tá dormindo no quarto.”

Putaquepariuputaquepariuputaquepariu. “Puta Que Pariu três vezes!!!” Abriu a porta e viu ele com o namorado. “Já disse que não quero ver a tua cara nesse apartamento. Fora daqui e leva o teu bofe junto!” Chutou os dois pelados apartamento afora e acordou o outro casal que estava dormindo. Levantaram assustados, olharam pela porta aberta e saíram rapidinho abanando os rabos. “Meus lindos. Só vocês não me decepcionam!”

Chutou mais umas garrafas e roupas e entrou no seu quarto. Jogou-se na cama e dormiu o sono dos amantes satisfeitos.

Os dois se recompuseram no corredor mesmo. Um, mal entendendo o que acontecera, outro se xingando por ser tão burro de voltar ali. Afinal de contas, com ela vivera boa parte da sua recente vida sexual. Não havia completado vinte anos e já morara com duas mulheres e três homens. “Que foi?” “Ela é uma vaca! Mal comida, mal amada e mal resolvida!” Desceram as escadas rapidamente e pegaram um táxi até a Botafogo. Atônito desce. “Foi ótimo ontem. Me liga, tá?” “Ok. Motorista, Leme, por favor.”

Fica perdido em pensamentos ainda sob efeito do álcool e das bolas que tomara na noite anterior. Chega no prédio. Abre a porta da portaria. Cumprimenta o faxineiro. Sobe os lances de escada e cruza com o moreno do quarto andar. “Olá.” “Tudo bom, André? Farra boa a de ontem! Tua cara tá ótima!” “Pior que foi mesmo!” “Passa lá em casa depois, tenho novidades para ti. Ela vem morar comigo!” “Porra, que maneiro!” “Você tem de conhecê-la. E as amigas dela também. Mó gatas!” “Pô! Põe na fita!” “Pódeixá!”

Entrou em casa e sentiu que o destino iria lhe pregar alguma peça.

Mais Uma Vez
Lívia Santana

- Sonhei com você a noite passada. - a voz veio rouca pelo telefone.
- Mesmo? - ele arqueou a sobrancelha - E como foi o sonho?
- Úmido. - pronunciou lentamente.
Susteve a respiração. Como sentia a falta dela! A boca ficou seca, hesitou, receando romper o encanto. Após uma pausa, ela suspirou:
- Quero você.
Era o eco do que ele sentia, mas ficou surpreso que ela o dissesse. Tinham se amado muito, apaixonadamente. Pareciam perfeitos juntos. Mas nem só de amor vive o amor - assim descobriram. Embora ainda se quisessem tanto que doía, separaram-se depois de diversos desencontros. Sofreram sozinhos por alguns meses, e acabaram retomando o contato. Falavam-se sempre ao telefone, sobre quase tudo e quase nada. Incidentes, sucessos, dúvidas, mágoas. Só não davam voz àquilo que ainda fazia acelerar a pulsação de ambos, ao mero som de uma palavra banal como "alô".
Combinaram o encontro às dez, num lugar público. Ele encostou o carro, ela entrou apressada. Cada ato era recheado com sabor clandestino. Encararam-se por alguns segundos eternos. Expectantes, a respiração irregular. Estavam ali de novo, depois de tanto tempo. Não sabiam bem o que faziam, mas sabiam que era impossível não fazer. O carro moveu-se lentamente pelo trânsito movimentado, enquanto conversavam sobre qualquer coisa desimportante. Não se dirigiam a nenhum lugar específico, tanto era o prazer de apenas estarem juntos. Não era racional, não fazia sentido, existia um milhão de motivos para que seguissem rumos distintos. Mas amor é teimoso e não morre tão fácil, por mais que se queira, por mais que o mate todos os dias.
Riam de alguma bobagem quando passaram em frente a uma profusão de horríveis luzes verdes, onde estava escrito "Motel Selva".
- Vamos? - propôs, maliciosa.
Entre risadas, ele concordou. Por mais grotesco que fosse, aquela noite era mesmo uma grande travessura e detalhes assim só poderiam torná-la mais excitante.
Pegaram a chave na portaria - onde escolheram o "Leopardo" entre outros felinos disponíveis - e seguiram para a suíte. Acesas as luzes, o ambiente era inusitado. Paredes pintadas de lilás com algumas manchas, pretendendo
decoração temática, a cama com imensa cabeceira ornamentada com cetim azul berrante, espelhos no teto e em toda parte, luzes alaranjadas e um sortimento incrível de acessórios eróticos sobre uma mesa. Deliciados, concordaram que o ambiente era perfeito. Não queriam um ninho de amor: quanto mais vulgar, melhor.
Serviram-se no frigobar - duas cervejas - e brindaram. Não havia pressa. Ele tirou do bolso uma caixinha, ela fitou-o, curiosa. Eram dados, daqueles que dizem o que fazer. Beijar-lamber-morder-massagear-beliscar-interrogação. Boca-barriga-pés-nuca-orelha-interrogação. Era um desafio, doce agonia, a cama serviria como
mesa. Jogaram uma, duas, três vezes. Mordida na nuca. Beijo na orelha. Lambida no peito. Na quarta - beijo na boca - não puderam mais e agarraram-se, sôfregos, mal conseguindo livrar-se das roupas. Gozaram como loucos, ruidosamente, mal ele a penetrou. Caíram de lado, arquejando, trocaram um olhar dolorido. Como tinham podido se separar, se era tudo tão certo? Como se separariam de novo, depois daquela noite? Procuravam a resposta à pergunta mútua um nos olhos do outro e então perceberam. Não se separariam. Era um recomeço, uma nova chance. Com as emoções afloradas, mergulharam um no outro, mais uma vez. A noite seria longa. Infindável.