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| Edição 65 | Roberta por Roberta Roberta Sangiuliano PedrosoA manhã despe-se à minha volta. Uma nesga de sol espreguiça-se no balouçar da cortina, tentando talvez aquecer o frio de uma ternura, que não se faz esquecida, mesmo no cansaço do olhar. O calendário anuncia mais uma primavera. Há no peito um sentimento que farfalha, ignorando todas as estações. Na brisa do amanhecer, uma esperança qualquer, que não se despede do meu olhar, embora todas as impossibilidades acenem negativamente.
Em algum lugar dentro de mim, ainda mora um sonho, como se sobrevivesse para escrever outra vez, capítulos da minha história lavrada pela eloqüência da realidade e pelos ditames da razão. Não me chega o tempo da quietude. Meus passos nunca reconheceram o caminho que apenas impõe o seguir em frente. Já nem sei, se chegar era meu objetivo precípuo. O que há e o que se faz, quando se cruza a linha de chegada? Empilha-se mais um troféu na prateleira das nossas conquistas? Onde ficam as tantas pequenas vitórias que se saboreiam no decorrer de cada percurso, mesmo quando não se vence, se nos ensinaram que apenas é ganhador aquele que chega primeiro? Como relatar ao mundo, o momento que me detive em meu trilhar, observando apenas o acariciar do vento nas pétalas de uma flor? Como contabilizar isto em perda de tempo, se sequer imaginam os arrepios do meu olhar ou os sorrisos de prazer que aquela imagem me propiciou? Talvez, acusem-me de distraída e inadequada ao momento, que exigia que eu apenas continuasse e que subisse ao pódio. Era isto que esperavam de mim: vencer. Outros ainda dirão que estou fora do padrão estabelecido pelas regras da sobrevivência. Ah, neste aspecto errei a vida inteira. Pequei sempre, quando preferi não tropeçar em meu sentir e escutei o pulsar do meu coração, não somente para constatar que eu vivia. Sempre fui amadora nestes rituais, em que se sacrificam as emoções. Onde há normalidade, quando se põe amarra no peito, calando o som de uma carícia? Nunca compreendi histórias lineares, reações exatas ou gestos estudados. Bem que tentei aprender a disfarçar minha insegurança, o frio no estômago ou o rubor repentino, quando exposta ao espelho do cotidiano. Em quase todas as tentativas neste sentido, falhei. Talvez por isto, tenha me desencontrado muitas vezes de tantas pessoas. Nunca amordacei minhas saudades, nem meu romantismo à flor da pele...Sempre despi minhas máscaras, porque era em outro olhar, que eu desejava também encontrar-me e reconhecer-me. Mas meu olhar despido, vezes causou estranheza e constrangimento. Vezes, indiferença e tolos julgamentos. Minhas palavras nunca souberam esconder o segredo de um amor, quando me habitava o corpo, a alma, o sonho. Nunca entendi, o porquê da grande maioria das pessoas entulharem tantos nós no coração. Se ainda fosse o pronome pessoal, mas não! Falo dos fios e, em alguns casos, de verdadeiras cordas com amarrações complexas, que nem as próprias mãos sabem ou se dispõem a desatar. E eu, com esta mania esquisita de falar do que sinto pelos lábios, mãos e olhares. E eu, com esta forma estranha de dar reconhecimento do que sinto e por quem sinto. Sempre foi inútil querer silenciar minhas confissões, mesmo se questionada sobre a certeza de um amor. Como se o amor tivesse que ser testado, discutido, dimensionado e não apenas sentido. Parece que saber de sua existência não basta. Tem que ter certificado de garantia, manual de instruções e, se bobear, até posologia. Talvez seja por isto que grande parte de nós sequer desconfie o que é viver um grande amor. A noção mais próxima deste sentimento fica ladeando as histórias que nos contam, como as vividas por Abelardo e Heloísa, Tristão e Isolda e tantas outras ou nos livros de poemas que lemos no decorrer de nossas vidas. De uma forma ou de outra, a expressão do que sinto fica meio desajeitada neste mundo. E como se não bastasse, ainda flagrei-me poetisa. Mas quase sempre, a palavra ainda me parece pouca para compreender minha ignorância no universo da emoção. Minha essência é mesmo desnuda. Coração exposto e sem labirintos. Ainda prefiro a minha ternura boba, um perfume de saudade em meu travesseiro, a minha voz entregue para as estrelas, do que viver desabitada de mim mesma. |
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| Edição 64 | Um adeus ao passado MariaAntonietaRMattos.
Depois de tantas incertezas, ela tinha
escolhido aquela tarde. Quantas vezes já havia passado de ônibus
por aquela rua.... Sempre que passava por ali seu olhar se detinha naquela
vitrine e ela só voltava a olhar para frente quando o ônibus
dobrava a esquina, não tendo mais o que olhar e, mesmo assim, voltava
seu rosto lentamente e com o olhar perdido... Mas hoje seria diferente,
ela iria àquela loja. Ela trazia consigo, aflorando em seu coração,
o desejo de reviver o passado. Ela apertou o cordão com uma certa
aflição e o barulho monótono da campainha, fez o
motorista frear o coletivo, parando-o em frente ao Out Door da Pepsi...Desceu
com o seu coração já em descompasso. Atravessou a
rua e, parecendo hipnotizada, entrou na loja. Foi direto ao ponto....
Ele estava lá sim...Não ouviu nem o que o vendedor havia
dito, caminhando rumo ao piano... Suas mãos suavam frio e estava
trêmula, mas só percebeu isso quando viu suas digitais marcadas
no tampo do teclado.
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| Edição 63 | O mundo da lua Renato Van Wilpe Bach Dizem que aos nove dias de idade eu estava lá,
provavelmente cheio de roupas na noite
fria de julho, “assistindo” com o resto da família
a chegada do homem à Lua. Naquela noite especial, reuniram-se todos
em minha casa à beira da TV; e os acontecimentos daquela noite,
de tão repetidos, formaram uma imagem absolutamente clara na memória.
Que não pode ser minha.
De qualquer forma, como posso esquecer se nem me lembro? Há fatos que não parecem ter acontecido conosco – eu estava mesmo naquela sala, por exemplo, em volta da televisão de perninhas que transmitia em branco e preto um dos maiores prodígios da ciência do século passado, mas lembrar é privilégio de outros. Ao longo do tempo, viveria e esqueceria muitas outras coisas, afinal, a alienação não ocorre somente nos obscuros primeiros anos da infância. É natural da memória se tornar seletiva, adulteradora, intervencionista – até já houve quem dissesse que é por conta disto que conseguimos conviver com nosso passado. Damos adeus a quem somos, de instante em instante deixamos de ser, transformamo-nos imperceptivelmente à medida que nosso cérebro inventa seu maior personagem: o eu que lembramos. Discutimos com “ele”, argumentamos, filosofamos e por fim esquecemos de novo, na tentativa nem sempre bem sucedida de viabilizar esta “convivência”. Há um eu “de dentro” e um eu “de fora”, um eu “meu” e um eu “teu”, um de hoje, um de amanhã e outro de ontem, evanescente. Desnecessário e irrelevante perguntar quem sou. Pedaços do mundo e de nós ficam para trás, contudo: “sobram” na luta diária. Pedaços de nós discordam da noção que está tudo bem e clamam por compreensão e entendimento. É que na vida, esta tremenda “obra aberta”, as coisas serão sempre e apenas quase todas certas, não o suficiente para nos convencer. Deve ser por isso que gostamos tanto de livros e filmes, pelo menos daqueles em que tudo se encaixa. Torcemos, no fundo, por um fim que não queremos que chegue nunca. Ansiamos por um sentido, e não nos satisfazemos com a noção de que o sentido, se houver, só existe em um plano subjetivo e projetivo, diferente da realidade. Nossa história segue em frente sem dar tratos à bola, afinal é só mais uma história. O que me faz lembrar que existem outros, ainda, dentro de nós. Eu os encontro por trás de uma nova gíria, nas ruas, nas casas, nos edifícios onde trabalho, nas festas e nos gestos; depois os regurgito e devolvo, com mais ou menos vida, no seio de minhas histórias. Somos marcados, pra bem ou pra mal, por aqueles que conhecemos. Os poucos que nos impressionam sobreviverão, para sempre na memória, imprecisos amálgamas que nunca chegaremos a apreender por inteiro, focados e reais. Há também um “você” de dentro, um “eu” que é seu, a maravilha do “nós”. Sim, pois se não chegamos a nos conhecer de verdade, mutantes que somos, que diremos dos outros, que só sei humanos porque assim aprendi a chamá-los, usualmente tão distantes que estamos uns dos outros. Olho para trás e me engano, que eu gosto. Digo que o eu de ontem é melhor que este de agora – aquele que cria incondicionalmente no poder levitador das relações humanas. Que cria no Homem, na História e na Ciência, em tantas maiúsculas que já nem me lembro mais. Depois volto a cara com desgosto e admito que minha dose diária e atual de pragmatismo faz-me bem mais feliz. Acredito ainda no Sonho, esta quimera que nasce da liberdade infinita de nossas almas. E cada vez menos no real, posto que é fátuo, no crescimento individual, posto que é subjetivo, e na experiência, posto que é tão individualista - farol de popa que só presta para iluminar o passado. Mas este é o “eu” de hoje, passará também. Amanhã nova mistura habitará este corpo, o crente e o descrente eternamente em conflito, da mesma forma o sonhador e o realista, o novo e o velho, eu e você. Um dia terei perfilados todos aqueles que fui, em frente à tela que dirá “fim”. Espero ter tempo para ler os créditos, descobrir quem fazia o papel de quem, o autor daquela música que me tocou tão profundamente lá no começo do filme. E, se Deus quiser, tempo também para tirar o copo de refrigerante e o saco de pipocas da cadeira, levá-los para a lixeira e fechar a conta com um comentário sarcástico a respeito da qualidade do roteiro.
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| Edição 62 | Não chore por mim, Amarílis Sérgio Ornellas
Bem que lhe falei. Eu deveria ter saído pela porta dos fundos, na ambulância superfaturada do plano de saúde, direto para o hospital particular que a gente paga, mensalmente, com o dinheiro da venda das rosas mirantensis, minha flor. Sairia à francesa, ninguém ia notar. Colocaríamos um boneco de inflar na cama, um João-bobo, cobriria com a colcha, enganaria os repórteres, apareceria bonito na foto. Ninguém notaria a diferença entre mim e o boneco, somos dois rechonchudos de igual circunferência e volume. Você vai dizer que eu sou mais esperto. Sei disso. Você se esqueceu da multidão que contratamos para gritar aquelas bobagens? Então, com aquela turba, aquela blindagem, não haveria quem duvidasse que eu permanecia no quarto, fazendo birra. Era só chamar um deles e aquele fotógrafo nosso amigo, pedir uma foto caprichada com você sentada ao lado da cama, semblante triste, mão na minha suposta cabeça e distribuir para toda a imprensa. Está certo que alguns iriam duvidar, dizer que era montagem, mas cá pra nós, volto a dizer, até eu acredito que não há diferença entre nós. Eu e o boneco. A única reclamação que tenho a fazer é: você está cansada de saber que eu odeio chuviscos diet! Se houver uma segunda vez, o que eu duvido, em vez dessa porcaria, providencia umas rosquinhas doces com açúcar cristalizado por cima. Aquelas que só as sogras sabem fazer. As segura-genro. E também caldo de cana e melado para comer com aipim cozido. Concordo que fazia parte da cena, mas confesso que quando esse era o cardápio, passava fome. Agora acabou, ufa! Pois bem, se você tivesse me ouvido, essa história de hospital seria outra. Mas você achou que a sua estratégia era a melhor e lá fui eu me estabacar nas escadarias do nosso palácio, na frente do povo. Não havíamos combinado isso, lembra? Foi um espetáculo, o povo me acudindo, a ambulância dos bombeiros me levando para um hospital público, foi perfeito. Perfeito para vocês. Para mim foi um horror. Assim que cheguei eles não me reconheceram. Eu gritava, eu sou o Bolinha, eu sou o Bolinha! Não adiantou. Começaram a rir. Tive que pegar uma senha. Um papel ensebado que mais parecia sei lá o quê. Em seguida fiquei na fila para fazer o prontuário e ser encaminhado para o especialista. Não tinha especialista para o meu caso. Fui atendido por um pediatra, quatro horas depois. Menos mal. Menos mal? Eu é que sei! Disse que eu tinha que ser operado às pressas. Retruquei, disse que tinha que tomar soro, repor o potássio e os sais minerais, mas quando me vi, estava na sala de cirurgia sendo operado de fimose. E foi a seco. Não tinha anestésico. O estoque apodreceu no porto com a greve dos fiscais. O calor era insuportável. Ar condicionado-quebrado. Enquanto o médico me operava o suor dele caía na minha barriga. A enfermeira espirrava por causa do mofo que brotava da infiltração no teto. Faltavam máscaras também, tinham sido desviadas. Depois de operado, fui colocado numa maca sem lençol, no corredor. Não tinha quarto. Superlotação. Um nojo. Tanto que peguei uma infecção generalizada, minha flor. Estou à morte. Talvez nem termine essa carta. Minhas mãos tremem. Você é jovem, bonita e boa de negócio. Aproveite a vida e as oportunidades que ainda vão surgir. Pode casar de novo, só não se case com político porque essa corja não vale nada. Use nossas economias, triplique o patrimônio, quadruplique, faça milagres como você sempre fez. Não abandone a fé nem as rosas corruptas mirantensis. Lembre-se que perto delas todas serão sempre rosinhas. Não chore por mim, Amarílis. Bolinha.
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| Edição 61 | A consulta por Sérgio Ornellas
O sol já ia alto, a neblina dissipara-se e as fofoqueiras de plantão passeavam como quem não quer nada em frente ao portão do Convento. Sabiam que o doutor havia chegado. Lá dentro, portas e janelas trancadas, ele começava a consulta com Inácia. Antes, porém, conversara longamente com a irmã superiora. - O que houve irmã? - Inácia voltou a enxergar. - Que beleza! Isso é motivo de alegria não de tristeza. Agora estou mais tranqüilo. - Sim, um verdadeiro milagre. Mas... - Mas? - Inácia está grávida. - A senhora tem certeza? - Absoluta. Só não sabemos quem é o pai. - Ela não disse nada? Nenhuma dica? - Diz que foi um anjo. Um anjo sem asas e perfumado, pode? - Anjo perfumado? Não sou religioso, mas acho um pouco demais, não? - Por mais que eu acredite na virgindade de Maria, é difícil o fato se repetir. - Eu também. Desculpe-me. - Não precisa se desculpar doutor. Temos que encarar a realidade. A conversa demorou longos minutos. Paralelamente, o fuxico no bar do João corria solto. Maricotinha escolhia as cebolas na banca e falava para quem quisesse ouvir: - Decretei greve. - Greve di quê, cumadi? - Greve di bobiça. Inquantu num saí a verdade, nada di séquiço. - I si demorá? - Pódemorá u tempo qui fô. Pedro num mi toca. - Ocê tá achanu qui foi êi? - Tô achanu nada. Ocês ômi santudiguá. Num podi vê uns peitim mais durim qui fica doido sô. - Mas a Inácia tem deficiência visual. Isso é abuso – intromete-se João. - Tinha defeito, num tem mais. I quem dissi qui isso voga aqui? Quem dissi cocês ômi óia prus óio? Ocês óia é prus peito, pras bunda. No convento, delicadamente, o médico inicia o exame. Pede que Inácia conte os detalhes, o dia provável da concepção e, principalmente, o momento que ela voltou a enxergar. - Doutor, foi lindo. Aconteceu há quarenta e cinco dias, no culto ecumênico em memória do Mané. Naquela festança na tenda do Daime, muita energia no ar. Eu, Lúcia e Raquel estávamos juntas ouvindo os discursos atentamente. De repente, fiquei só. Não me assustei, uma voz me chamava para fora da tenda. Lá fui eu. Afastei-me e era como se uma luz e uma voz me guiassem. Parecia que eu flutuava. - Voz? Luz? Mas você até então não enxergava. Você havia tomado da mistura? - Cruz credo! - Continue. - Segui, parei na cerca, encostei-me no pé de jambo e alguém me chamou novamente: Inácia, Inácia... - Estou aqui, respondi. Quem me chama? - Sou eu, meu anjo. - Meu anjo? Há quanto tempo lhe espero. O que quer de mim? Ele não respondeu. Beijou-me a testa e eu estremeci. Um beijo tão suave que só um anjo poderia dar. Depois me abraçou, beijou meu rosto e eu pude sentir o seu perfume. Disse o quanto eu era linda. - E você realmente sentiu o corpo dele ou era um sonho, uma miragem? perguntou o médico. - Tinha um corpo macio, uma pele suave. Ele só falava palavras bonitas, me envolvia em seus braços e nessa hora já me beijava a boca. Quase desmaiei, mas era boa a sensação, e pedi que ele não parasse. Que me beijasse novamente. - E ele beijou? - Nossa, todinha. Ai que vergonha! - E falou alguma coisa além de que você era linda? - Falou. Disse que há muito tempo me esperava e que eu era a sua escolhida. E que voz, doutor! Que voz! - Tinha o sotaque da terra? - Não me lembro. Só me lembro do perfume e da hora que eu parecia que ia explodir, explodir, explodir e... - E? - Eu enxerguei pela primeira vez. - Então você o viu? - Não doutor. Ele estava por trás de mim e beijava minha nuca. Depois me disse que a história se repetia e sumiu. Acho que voou. - Voou? Uai! Você disse para a irmã superiora que ele não tinha asas. - É verdade, doutor, não tinha mesmo. Será que era um homem? |
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