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| edição 70 | Lourival, o Silencioso Maria Antonieta R. Matos "Amigos,
Aqui, neste mundo, a morte de Lourival, o Silencioso, não causou impressão alguma. Pergunte a quem quiser quem era o Lourival, que vida levava e de que morreu; se foi de um colapso cardíaco, se lhe faltaram forças, ou se quebrou o espinhaço sob alguma carga pesada. Ninguém saberá dizer. Talvez, no fim de contas, tenha morrido de fome. Se uma besta de carga tivesse caído morta no meio da rua, teria despertado mais interesse. Apareceriam notícias nos jornais, centenas de curiosos correriam para ver a carcaça do animal e examinar o local do desastre... Lourival viveu no silêncio e no silêncio morreu. Passou através do nosso mundo como uma sombra. No dia de seu batismo ninguém bebeu cerveja ou comeu churrasco, ninguém quebrou copos, como era costume em sua família do leste europeu. Também, quando confirmado, não houve discursos. Viveu como vive o grão de areia na praia do mar, entre milhões da sua espécie. E quando o vento o levantou jogando-o para o outro lado do mar, ninguém deu por isso. Quando ele vivia, a lama da rua não guardava impressão alguma das suas pegadas; depois que morreu, o vento derrubou a tabuleta que marcava o túmulo onde fora enterrado. A mulher do coveiro foi encontrá-la muito longe do lugar e utilizou-a para fazer fogo, no qual ferveu uma panelada de batatas. Passados três dias, mesmo o coveiro não mais se lembrava onde o sepultara. Uma sombra! As suas feições não ficaram gravadas na memória de pessoa alguma, nem no coração dos seus semelhantes; dele não restou vestígio algum. Sem herança nem parentes, viveu; sozinho viveu e sozinho morreu. Se o mundo tivesse menos que fazer, talvez alguém notasse que Lourival (que também era um ente humano) andava com o olhar amortecido e as faces encovadas; que mesmo sem carga nas costas a sua cabeça pendia para a terra como se ainda em vida, andasse em busca do túmulo. Quando levaram Lourival para o hospital, o canto dele no porão logo encontrou outro inquilino — eram dez como ele que esperavam, e entre si puseram a coisa em leilão. Quando o levaram do hospital para o necrotério. eram vinte os doentes que aguardavam o seu leito. Quando saiu do necrotério, deram entrada vinte cadáveres vindos de uma construção que desabara. Quem sabe quanto tempo ficará descansando na sepultura? Quem sabe quantos estarão esperando por aquele cantinho de terra? Se ele tivesse tido, ao menos, um túmulo de pedra, é possível que daqui a um século qualquer arqueólogo o encontrasse e, assim, o nome de Lourival, o Silencioso, seria ouvido mais uma vez no mundo. Um nascimento silencioso, uma vida silenciosa, uma morte silenciosa e um enterro ainda mais silencioso. Mas no outro mundo não foi assim. Ali a morte de Lourival causou grande sensação. O troar da grande trombeta Messiânica ecoou através dos sete céus: Lourival, o Silencioso, havia deixado a terra! Os anjos maiores, com as mais largas asas, esvoaçavam e contavam uns aos outros: Lourival, o Silencioso, vem ocupar a sua cadeira na Academia Celestial! No Paraíso houve algazarra e tumultos de alegria: Lourival, o Silencioso! Imaginem só! Anjinhos infantis, com olhos resplandecentes, asas de filigrana de ouro e chinelinhos de prata, correram jubilosos ao seu encontro. O zumbir das asas, o ratatá dos chinelinhos e as risadas das boquinhas rosadas enchiam todos os céus, chegando até ao Trono da Glória, de maneira que Deus logo soube da chegada de Lourival, o Silencioso. Até Abraão estava de pé no portal, com a mão direita estendida em calorosa saudação, e um doce sorriso iluminava-lhe o semblante patriarcal. Que será que vem rodando através dos céus? Dois anjos estão arrastando uma cadeira de ouro do Paraíso, para Lourival, o Silencioso. Que foi que reluziu com tanto brilho? Levavam uma coroa incrustada de pedras preciosas, tudo para Lourival, o Silencioso. — O que é isso, indagavam os santos, com uma pontinha de ciúmes, mesmo antes de ser dada a decisão do Tribunal Celestial? — Oh! — respondiam os anjos — isso será apenas uma formalidade. Mesmo o promotor não dirá uma só palavra contra Lourival, o Silencioso. Todo o processo não levará cinco minutos! Imaginem só! Lourival, o Silencioso! Quando os anjinhos vieram receber sua alma tocando doces melodias; quando Abraão apertou-lhe as mãos como se fossem velhos camaradas; quando soube que estavam preparando um trono especialmente para si, no Paraíso, e que havia uma coroa de ouro para a sua cabeça, e que nada seria dito em seu desfavor na Corte Celeste; quando viu e ouviu tudo isso Lourival ficou paralisado pelo terror, como sempre estivera neste mundo. Seu coração parecia querer parar. Tinha certeza de que tudo aquilo não passava de um sonho ou de um terrível engano. Sim, ele já estava habituado a isso. Quantas vezes, na terra, não sonhara que estava com os bolsos cheios de dinheiro e mais dinheiro! No entanto, quando acordava, estava mais pobre ainda. Quantas vezes alguém lhe sorrira, dirigindo-lhe palavras bondosas, tomando-o por outra pessoa mas afastando-se imediatamente com uma careta de repugnância ou cólera, ao verificar o engano!... Não ousava levantar os olhos, para que o sonho não se dissipasse, para não despertar dentro de alguma gruta cheia de cobras e lagartixas. Estava com medo de falar, com medo de se mexer, receando ser reconhecido e lançado no purgatório. Tremia todo e não ouvia os cumprimentos dos anjos, não vendo como dançavam ao seu redor nem correspondendo à saudação de Nosso Pai Abraão. E, ao ser conduzido à presença do Tribunal Celestial, nem mesmo se lembrou de dizer bom dia. Estava transido de terror. “Quem sabe com que ricaço, com que rabino, com que santo eles estão-me confundindo? Ele virá — e isso será o meu fim!” Tamanho era o seu terror, que nem mesmo ouviu o presidente anunciar: O processo de Lourival, o Silencioso! acrescentando, ao passar os autos para o advogado: leia, mas com toda pressa! Todo o salão começou a rodar na vista de Lourival; zumbiam-lhe os ouvidos. Através do zumbido, ouvia com a maior clareza a voz do advogado, que falava com a doçura de um violino: — O nome dele assentava-lhe tão bem como uma roupa em corpo elegante, confeccionada pela mão do mais artista dos alfaiates. — “De que estará falando?” — pensava Lourival, e ouviu uma voz impaciente que interrompia: — Por favor, deixe-se de comparações. — Dele — continuou o advogado — jamais partiu uma só queixa contra Deus ou contra os homens. Nunca, em seus olhos, brilhou ódio algum. Jamais dirigiu ao Céu um só olhar de súplica. Lourival continuava sem compreender e mais uma vez ouviu a voz firme interromper: — Por favor, deixemos de retórica! — Job não chegou a resistir; este, porém, era mais infeliz... — É favor continuar... — Ele... — Fatos só, cinja-se a fatos unicamente — gritou o presidente cheio de impaciência. — No seu oitavo dia supurou-lhe o umbigo!... — É favor não trazer à baila detalhes realistas... — Ele sofreu, pois não conseguiram estancar-lhe o sangue... — Continue... — Conservou-se calado — continuou o advogado — mesmo quando lhe morreu a mãe e lhe deram uma madrasta, tendo ele treze anos, uma madrasta que era uma cobra, uma virago. — “Será que, no fim das contas, se trata de mim?” — pensou Lourival. — Nada de recriminações contra terceiros — advertiu, zangado, o presidente. — Ela contava-lhe os bocados de pão duro e bolorento, dava-lhe osso em vez de carne, enquanto ela bebia café com muito creme. — Cinja-se ao essencial — ordenou o presidente. — De tudo lhe dava muito pouco, menos os maus tratos e as unhadas. As equimoses pretas e azuladas ficavam à vista, através dos rasgões de suas roupas esfarrapadas e bolorentas. No inverno, no rigor das geadas, teve de ir buscar lenha com os pés descalços lá fora, no pátio. Suas mãozinhas eram fracas, os toros grandes demais e o machado não tinha gume. Muitas vezes suas mãos racharam-se de frio e seus pés se congelaram. E ele sempre silencioso. Mesmo diante de seu pai... — Aquele bêbedo? — interrompeu o acusador, com uma risada, e Lourival sentiu um frio percorrer-lhe todo o corpo. — ...ele nunca se queixou... — E sempre só — prosseguiu o advogado — sem amigos, sem colégio, nem ensino de espécie alguma. Jamais uma roupa que não fosse rasgada; nunca um momento de liberdade. — Fatos somente, faz favor! — lembrou o presidente. — Manteve o silêncio mesmo quando, depois disso, o pai embriagado pegou-o pelos cabelos e arrojou-o na rua, numa noite tempestuosa. Levantou-se silenciosamente da neve e encaminhou-se para onde os seus pés o levaram... Finalmente, numa úmida e gelada noite do começo da primavera, chegou a uma grande cidade. Desapareceu nela como uma gota d'água desaparece no oceano. Nessa mesma noite, porém, dormiu na cadeia... Mas sempre silencioso, sem perguntar por que o tinham prendido, por que o tratavam assim. Ao sair da prisão, dedicou-se aos mais pesados trabalhos. E sempre silencioso! Suando frio, esmagado sob cargas excessivas, com o estômago convulsionado pela fome — continuava silencioso. Enlameado, expulso com a sua carga fora da calçada, era obrigado a andar no meio da rua, entre carruagens, carros e veículos de todas as espécies, cara a cara com a morte a cada passo. Sempre silencioso... Nunca se preocupou em calcular quantas libras de peso deveria carregar por um vintém, nem quantas viagens para ganhar um níquel. Jamais soube calcular a diferença entre a sorte dos outros e a sua... Sempre guardou silêncio. Nunca levantou a voz para receber a sua paga; ficava de pé na porta como se estivesse a pedir uma esmola, implorando só com os olhos — volte mais tarde! — e ele se sumia como uma sombra, para regressar ainda outra vez e implorar a sua paga, com humildade ainda maior. Permanecia calado mesmo quando o ludibriavam, roubando-lhe parte, ou quando incluíam alguma moeda falsa. Tudo suportava em silêncio. “É de mim que eles falam, não resta dúvida” — pensou Lourival. — Uma vez — continuou o advogado depois de tomar um gole d'água — operou-se uma mudança em sua vida. Passava em carreira vertiginosa uma carruagem arrastada por dois cavalos desenfreados. O cocheiro caíra por terra e jazia a alguma distância, com o crânio partido. Os cavalos, espantados, espumando pela boca; suas ferraduras desprendiam faíscas da calçada e seus olhos luziam como lâmpadas de fogo em noite escura. Dentro da carruagem mais morto do que vivo estava um homem sentado. E Lourival fez parar os cavalos. O homem que salvara era caridoso e não se mostrou ingrato. Pôs o chicote nas mãos de Lourivsal, e Lourival tornou-se cocheiro. Ainda por cima foi-lhe proporcionada uma esposa. E Lourival continuava sempre no seu silêncio! — “É de mim que falam” — pensou Lourival mais uma vez, e lhe faltou coragem para dirigir o olhar para o Tribunal Celestial. Ouviu o advogado continuar... — Ficou em silêncio quando seu antigo benfeitor faliu e não lhe pagou os salários acumulados... Silencioso conservou-se quando sua esposa o abandonou, deixando-o com o filhinho doente... E em silêncio permaneceu quando, quinze anos mais tarde, seu filho, já homem forte, expulsou-o de casa... — “É de mim que estão falando! É de mim!” — pensou Lourival, jubilosamente. — Guardou silêncio até — prosseguiu o advogado, com voz mais meiga e mais triste — quando o mesmo filantropo pagou a todos os seus credores, menos a ele e, mesmo quando (outra vez uma carruagem com cavalos desenfreados) Lourival caiu e passou-lhe a carruagem por cima. Guardou silêncio tanto na polícia como no hospital, para onde o levaram. Ficou calado quando o médico não quis cuidá-lo, sem receber cinquenta “Reais”, e quando o enfermeiro exigiu mais vinte, para mudar-lhe a camisa. Permaneceu calado nos últimos momentos da sua agonia e silencioso ficou quando a morte se aproximou. — Nem uma só palavra contra Deus; nem uma só palavra contra os homens... Tenho dito! Mais uma vez Lourival tremeu da cabeça aos pés. Sabia que depois do advogado vem o promotor. Quem podia saber o que ele diria? Lourival mesmo não se lembrava de mais nada da sua vida. Mesmo no outro mundo ele não se recordava do que lhe acontecera, dos momentos que passara. O advogado é que fizera reviver tudo na sua mente. Quem sabe o que o promotor lembraria? — Senhores — começou o promotor, numa voz áspera e ácida como vinagre. — Senhores — tornou a começar, mas a sua voz agora era mais suave. E, agora, daqueles lábios se desprende uma voz quase acariciadora: — Senhores: Ele silenciou. Eu vou silenciar também! Fez-se o silêncio. E então se faz ouvir uma nova voz, meiga e trêmula: — “Lourival, meu filho! (esta voz soa como uma harpa). Meu querido filho Lourival!” E o coração de Lourival como que se desfaz em lágrimas. Quer abrir os olhos, mas eles estão rasos de lágrimas. Jamais chorara tão doce e sentidamente. — Meu filho! Lourival! Ninguém depois da morte de sua mãe, lhe tinha dirigido palavras tais como estas. — Meu filho! — continuava o Supremo, — tu sofreste e mantiveste silêncio; não há articulação nem ossos inteiros no teu corpo e neste não há a mínima parte sem cicatriz, sem ferida. Nem uma fibra da tua alma que não tenha sangrado — e tu ficaste calado. Lá eles não te compreendiam. Talvez tu mesmo não soubesses que poderias ter clamado e que ao teu grito se teriam desmoronado as muralhas de Jericó. Tu mesmo nada sabias da tua força oculta. No outro mundo o teu silêncio não foi compreendido. Mas aquele mundo é o da desilusão; no mundo da Verdade receberás a tua recompensa. Tuas dívidas não serão julgadas; os teus créditos não pesarão na balança. Podes tomar o que quiseres! Tudo o que há no céu te pertence. Lourival ergue os olhos pela primeira vez. Fica deslumbrado: tudo reluz, tudo resplandece. Faíscam raios de glória, vindos das paredes, dos vasos, dos juízes. Uma infinidade de estrelas! Ele baixa os olhos, seus fatigados olhos. — Na verdade? — pergunta timidamente. — Sim! — responde o Supremo — em verdade te digo, tudo é teu. Tudo o que há no céu te pertence. Escolhe e toma o que quiseres, que só tomaras o que por direito te pertence. — Na verdade? — pergunta ainda Lourival, mas desta vez com voz mais firme. — Na verdade — respondem de todos os lados. — Bem, se assim é — sorri Lourival — peço que me dêem cada dia, para o meu almoço, um pão quente com manteiga fresca... O Tribunal e os anjos baixaram os olhos, um tanto envergonhados; o promotor sorriu com doce piedade...
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| edição 69 | Esta celeuma em torno de Judas Renato Bach
A celeuma em torno de Judas atingiu seu ápice e ainda não vi ninguém relacionar esta “nova” visão do Cristianismo primitivo, provida pela descoberta e restauração do valioso documento copta encontrado do Egito, com as estórias (eu sei, esta palavra mudou, mas eu sou velho) metabíblicas de C. S. Lewis. Nas “Crônicas de Nárnia”, o velho companheiro intelectual de J.R.R.Tolkien já desbravava significâncias teológicas próprias. Desprezava o uso de imagens pela Igreja Católica, mas defende o uso alegórico do conteúdo dos Evangelhos como parte da formação do caráter do cristão. Em “O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa”, o menino Edmond (Judas) trai a confiança dos seguidores de Aslam (Cristo) ao entregar sua localização à Feiticeira Branca (Satã). Esta comparece ao acampamento de Aslam e exige que o menino traidor seja julgado e executado. Aslam evoca um trato ancestral que possibilita a troca de prisioneiros, entrega-se aos inimigos e termina sendo assassinado numa grande mesa sacrifical – de quebra, salvando o menino. Ao resssuscitar na manhã seguinte, entra em combate na undécima hora para encerrar o conflito. Edmond está mal, à beira da morte. Aslam ressuscitado sopra-lhe a vida e o recoloca em pé. O Príncipe Pedro é empossado um de quatro reis (o grifo é meu), Judas, opa, Edmond um dos quatro. Com duas mulheres. Há os que dizem que Lewis é sexista por não colocar as meninas em batalhas mais sangrentas. Não creio. Elas estão lá, na “agonia do Jardim das Oliveiras”, na cena de ressurreição, quando não reconhecem o Senhor. E são proclamadas, ambas, rainhas. O que Lewis proclama na série, mas especialmente neste livro, é um cristianismo que expõe sua cara e propõe um papel para Judas no plano divino. E pela redenção de Edmond, podemos apenas supor quão forte seria o Cristianismo primitivo se a pena de Judas o permitisse seguir trabalhando. O Judas que emerge do pergaminho é um escolhido, por teste de fé, para cumprir a mais negra das missões: atraiçoar seu mestre. E se mostra apto ao sacrifício. Ao se negar a percorrer os caminhos de Judas após a traição, o evangelho nos propõe a mesma questão: o que Judas faria? Se tivesse sobrevivido? Se sua história tivesse sobrevivido. Ao colocarmos Judas no papel de um enviado de Jesus para detonar o processo de sua prisão, todas as teorias poderiam ter sido inventadas, mas uma nos parece mais plausível: a de que em tudo, no âmbito do sacrifício de Cristo, o Homem prevaleceu. E a Bíblia tradicional é clara: o Homem prevaleceu sobre todas as formas de mal, através do sacrifício Divino de Jesus Cristo. Mas se uma só alma, que convivera por tantos anos com Ele, tivesse que ser sacrificada para saciar o Diabo, será que o Deus em Jesus, não só o Homem, permitiriam impunemente? Ao realizar uma última estripulia típica de seu humor juvenil, Jesus retira o Opositor de cena, ao tornar sua Morte na Cruz fruto de dois livres-arbítrios humanos. Judas faria o que fez com, sem ou apesar dos trinta dinheiros. Estava seguindo ordens. De Jesus. Do Filho de Deus. E assim sela-se um novo pacto entre Deus e o homem através, unicamente, das decisões tomadas por ambos. No ato do Batismo, pais e padrinhos renunciam ao Diabo em nome do bebê, retirando o “pecado original”, tornando-nos protegidos contra ele. Por que não dizermos, então, que ao sermos batizados, temos despertada dentro de nós a centelha divina dos gnósticos? Pois o velho homem morreu junto com Cristo na Cruz, e um novo homem nasceu. Como poderia ter Jesus refeito o pacto com Deus se não enterrasse ali o conceito de pecado original? São os representantes da mais antiga das Igrejas os mais preocupados com a repercussão do ressurgimento dessas antigas heresias, uma vez que as denominações protestantes em sua maioria sempre incentivaram a pluralidade de entendimentos da figura de Jesus através da leitura dos Evangelhos Canônicos. A ponto de levar o novo Papa a proferir as palavras mais duras e ofensivas ditas por um religioso nos últimos anos. Acostumados com o estilo brando de João Paulo II, fiéis e opositores da Igreja uniram-se em perplexidade. Eu, de minha parte, fico com Lewis: o Paraíso parece ser bastante aberto a novos contratos, aqueles assinados na hora da morte, desde que feitos por amor a Deus. Sou católico de formação, mas que a justificativa pela Graça de Lutero encaixa-se como uma luva a essa nova descoberta é evidente. Por isso a reação imediata de Roma. Agora, provoco: seria mera coincidência ou Lewis e Tolkien teriam acesso a antigos e pouco conhecidos documentos para terem ousado recriar a história da cristandade em livros como “As Crônicas de Nárnia” e o “Silmarillion”? Novas descobertas poderão ainda vir à luz?
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| edição 68 | Labirinto Renato Bach
Era tarde na casa de campo e uma complicada operação de troca de telefonemas e roupas deixava minha prima e sua filha assoberbadas; meus tios desdobrados em servir a todos. Eu vestira as vestes de Ghandi e optara pela não violência. Por fim conciliamos tudo, e a jovem mulher, recém saída da adolescência, pegou carona conosco - toda linda. Mais tarde sairíamos sozinhos, eu e minha prima, ávidos por colocar em dia o papo dos tantos meses que ficamos sem nos encontrar. Numa dessas viagens de carro entre a chácara e o centro, passamos pela lateral de uma vila quase centenária, pérola da arquitetura pontagrossense, construída em 1926 pelo industrial Alberto Thielen, nomeada em homenagem à sua esposa e ocupada por décadas pela Biblioteca Municipal. Ali debaixo de suas palmeiras, nas tardes frias de minha cidade infantil, perdia-me nos clássicos, lia os Dumas, Jules Verne e Victor Hugo em livros publicados em Portugal nas primeiras décadas do século XX, belissimamente encadernados, parte da coleção doada pelo casal de professores à Biblioteca que se desfazia em poeira e fungos, inadequadamente emprestados a qualquer um. Graças a Deus. Minha mãe reclamava, não entendia como eu podia gostar tanto daqueles livros velhos, cheios daquela ortografia antiga... mas no fundo se enchia de orgulho quando entrava comigo lá e as moças da recepção diziam-lhe que eu era o leitor mais assíduo do lugar. Tanto subi e desci por sua grande escada em cauda de vestido de noiva que, se fechar os olhos, ainda posso sentir suas pedras, já gastas, sob de meus pés. Mais de uma década atrás, a Vila Hilda foi alvo de um longo processo de reforma e restauração. A biblioteca que ocupara o casarão, foi transferida para uma casa também enorme, mas sem graça, setentista. Idealizada como herança de um casal de professores à cidade - os professores Bruno e Maria Eney, a Biblioteca perdia, com a mudança, o charme e o aconchego. Anos depois revi a casa e estranhei a pobreza de espírito que norteara sua “recuperação”. Uma verdadeira desfiguração modernóide em que caíram muros e fecharam-se os porões do primeiro andar, abrigo de jornais e revistas ancestrais. Transformada em Fundação Cultural, sua visitação pública ficou reduzida a uma pequena ante-sala de onde não pude passar. Nesta última viagem, então, olho pro lado e de repente vejo o querido muro da vila, com suas gradinhas artisticamente trançadas em Inglaterra, a mesma escada desgastada, o mesmo jardim. Imagino logo as maçanetas em prata de lei e porcelana pintada, o desenho esmaecido e amarelado pelo aperto de tantas mãos. Meu coração se aperta, perdido entre a verdade de minha visita anterior e ecos da “Sonata” de Veríssimo, um de seus primeiros e melhores contos, no qual o protagonista volta ao passado de uma casa e sua gente. Pergunto a meu tio que lugar era aquele e ele fala que é a antiga biblioteca, a Vila Hilda. Conta-me uma longa história que envolve edifício restaurado, na antiga Estação Ferroviária, para onde a biblioteca fora recentemente transferida, mas já não escuto mais nada. Interrompo e conto minha história, falo da visita à casa desfigurada e de minha decepção - mas todos me garantem que tal fato nunca ocorreu. Não sei mais em que acreditar. Mas o coração se aquieta, antevendo uma nova visita a aqueles jardins de minha infância - os mesmos! - ainda que sem o recheio dos livros a ocupar o prédio. Quando chegamos ao restaurante, o chope desce como um laxante d’alma a este homem que não sabe mais a que universo pertence, se tomou a pílula vermelha ou a azul... Ponta Grossa me espera, logo volto para lá. (Publicado no caderno Almanaque do jornal O Estado do Paraná, Curitiba, em 25 de junho de 2006) |
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| edição 67 | Teu Retorno Roberta Sangiuliano Pedroso
Há um hiato a silenciar letras, enquanto sonorizo-me de ti. Os lábios unem tuas palavras, provocando-me sorrisos nos olhares. É assim que melhor vivo. É do tom da tua escrita que renasço em meio as minhas incertezas. E quando te digo dos meus abismos, é por saber-te atento aos meus passos inquietos, vezes sem rumo. Sei das tuas vigílias solitárias, enquanto me ocupas em teus pensamentos. Tens na palma das tuas mãos, os mapas que me indicam entre rios, oceanos e estradas íngremes. Tens as minhas distâncias e todas as demarcações que te sinalizam meu coração. Quando é a minha voz, aparente eco em minhas deserções, sobram-me teus braços a resgatarem-me dos meus desertos. Entre nós não existe ausência, ainda que nossos olhos sejam alvos de tantas janelas. Descobrimo-nos em meio ao deslizar do tempo, que inventa e reinventa pontes, para que nossas mãos mais ainda se toquem. Gosto de repousar minhas vontades em teu colo e de te perceber a oferecer-me acalantos em suspiros. Lembro-me das noites, em que compunhas odes aos meus sonos, como a prevenir os meus sonhos, para que me cobrissem de ternuras e afagos. Como não te confessar que me levavas o coração, enquanto teus olhos me guardavam até o cerrar das pálpebras? Era de ti que eu ouvia o sussurro das carícias e afagos, mesmo que fosse tua presença real, apenas desejada. Em noites como essa, faz-me falta o teu tomar conta, percorrendo os meus desvãos. Faz-me falta os teus beijos, repletos de códigos que só nossos lábios lêem. Bem sabes dos meus desassossegos...Tenho o coração incontido, sempre a buscar essências e sinais outros. Penso que enquanto me lês, sorris pelas minhas metáforas ou talvez te impacientes com essa renitente falta de praticidade. É que existem linguagens humanas que não assimilo. Defeito deste coração tolo que só tem uma face, não usa maquiagem e desconhece de subterfúgios. Prefiro-me simples, em meio ao caminho do sentir, trilhando paisagens que me acresçam a alma. E é por isso, que meus passos gostam tanto de andar junto aos teus...Em noites como essa, meus sorrisos aguardam teu retorno...
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| edição 66 | Canção de Amor para Monicat e meu Bebê Renato Bach
Por trás do turbilhão de emoções e pensamentos do dia, enxergo todo um caminho que nos levou até aqui; a vida como ela é e como deveria ser, os sonhos desfeitos tornando-se sonhos perfeitos e a certeza de que sempre haverá lugar para o amor. Lembro-me como se fosse hoje do dia em que nos conhecemos, do interesse despertado por sua figura única, decisiva, deslumbrante. Da amizade que brotou espontânea e descompromissada nas tardes de trabalho e conversas lá no hospital, da descoberta das afinidades, de como não nos elegemos íntimos ou sequer amigos: simplesmente sempre o fomos. Em minha cabeça passam imagens límpidas e fiéis, como num velho filme remasterizado em que as cores se tornam mais verdadeiras que a realidade, das brincadeiras mútuas, dos bilhetinhos irônicos, de sua bolsa em forma de cabeça-de-menina-superpoderosa pendurada no ventilador, das miniaturas do Garfield em seu estetoscópio transformadas em esdrúxulas histórias de amor, da descoberta precoce de que eu poderia te amar... mas não podia. Um dia eu pude, então; livre das amarras do passado, “cobri-me com a malha de ferro que insiste em pinicar-me o dorso e lancei-me de volta à batalha, montado no destino-pangaré que alimento com o ouro dos meus ideais”, como disse em meu livro “boonoonoos”. E o destino transformou-se então em puro-sangue, levou-me de volta à VIDA (com maiúsculas de caixa bem alta) e ao caminho que hoje me traz a notícia benfazeja de que um filho meu você carrega em si. Dele – ou dela - ainda não ouso falar. Desejo-lhe a felicidade das células totipotenciais que um dia todos fomos, o desenrolar incompreensível e perfeito do milagre, o enlevo do mistério. Como será? Quem será? Ser-lhe-emos merecedores? Estaremos com ele a cada dia, tão próximos como agora em que ele é você e sou eu, e dormirá no quarto em sua barriga, e sentirá o calor de minhas mãos a velar-lhe o sono? Hoje falo sobre a alegria de ser pai, sobre a infinita bondade inerente a um mundo tão estranho e tão complicado, mas que nos reserva, ainda, tanta felicidade. |
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