Arte Sexualidade Corporalidade
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edição 75

www-u


Like Him por Ewa Nemoudry

por Renato Bach

>atenção

>atingindo potencial de ação em neurônio-alfa

>liberando neurotransmissores

>estabelecendo sinapse primária

>inicializando sistema de ativação reticular ascendente

>funções corticais plenas

>baixando dados

>dados baixados

“Bom Dia.
Sem Sustos. Não Você Pensar.
Eu Comandar Temporário.”

>efetuando verificação de sistemas
>>ferramentas detectam liberação maciça de aminas vasoativas
>>>reação de medo instalada
>>>>monitoraremos sem interferir

>invadindo rede cortical em complexidade máxima
>>concluído

>avaliação de capacidade

- memória efetiva: C-1
- memória funcional: B-10
- memória de transmissão: C-6
- capacidade de transmissão: >1012 decaciclos/seg
- excedente funcional desativado: incalculável
>avaliação de bloqueio
- bloqueio inconsciente: alto
- bloqueio consciente: similar a espécies semelhantes em estágio pré-cognitivo
- força intrusiva: desconhecida

>levantando defesas
>>imunizando sistema

>conectado em rede neural a 1012 decaciclos/seg

>traduzindo verbetes
>>dicionário virtual > 105 palavras

>estabelecido contato pleno

“Bom dia. Se em algum lugar do ser esta conversa iniciado, missão minha cumprida.”

>corrigindo gramática
>>utilizando arquivos corticais para estabelecer flexões verbais
>>>adquirindo fluência
>>>>reiniciando mensagem

“Peço desculpas pela apresentação truncada: este é o primeiro contato que temos com a sua espécie e os dados de linguagem não estavam disponíveis. Nosso mini-aplicativo auto-executável detectou palavras apropriadas em seu subconsciente durante o repouso que antecedeu a conexão, mas somente agora que seu nível de atividade cerebral é pleno pudemos completar o dicionário. É claro que nossa fluência é limitada, bem como nosso entendimento de sinônimos e idéias subliminares de permeio. Nada do que dissermos saberá a ironia, cinismo ou dissimulação. Tentaremos não usar de sofismas ou eufemismos”.
Este programa também é auto-executável e não poderá ser abortado, pausado ou reiniciado durante o tempo de reprodução pré-estabelecido. Como você pode ver, não se trata propriamente de uma conversa.
Bem vinda à Rede Universal De Co-Ressonância.
Esta mensagem substituirá os trâmites habituais de identificação e registro, dado o ineditismo do pleito a nós endereçado. O aumento substancial do número de participantes da rede nos últimos ciclos temporais, aliado à ameaça crescente de formas de invasão, simbiose e parasitismo forçou a Agência Universal de Controle de Tráfego em Rede a estabelecer rígidos parâmetros de avaliação, limitando sobremaneira a aceitação de novos membros. A segmentação em redes funcionais alternativas vem dando conta tanto das necessidades populacionais básicas em dezenas de planetas e estações destino-de-vida, quanto das possibilidades infinitas de manejo político-administrativo, sem que haja promiscuidade perigosa aos sistemas. Em seu caso específico, acesso restrito e monitorado será oferecido como prova de apreço e boa vontade de nossa parte e em respeito à façanha de seu contato.
Sua invasão foi detectada às 954h15’07’’33’’’ da versão teste de nossa última atualização. Foi a primeira invasão da rede por um organismo não identificado na história do Universo. Levantamos os bloqueios de defesa para uma detecção mais ágil do ponto de intrusão, mas logo tivemos que nos recolher humilhados para o coração do sistema: uma espécie de fortaleza psíquica erigida por nossas melhores mentes. Foi impossível descobrir a origem de seu contato. Ato contínuo, os burocratas assumiram o controle, fechando a rede e restringindo liberdades individuais até que tudo fosse esclarecido. Todos eram suspeitos.
Todos eram suspeitos e todos, sem exceção, foram colocados em quarentena psíquica em prisões domiciliares. Quarenta milhões de nossas melhores mentes, espalhadas pela galáxia, justo aquelas que trabalhavam diretamente na e com a versão teste, impedidas de continuar seus trabalhos, impedidas de ajudar na busca. Expertos da Agência trabalharam por mais de cem horas, abrindo mentes em busca de um traidor, procurando quem seria capaz de montar a farsa burlesca de uma proto-invasão. Nada encontraram. Por fim resolveram devolvê-los a seus postos – sob observação restrita, com a rede trabalhando em ‘modo de segurança’, com funções mínimas – à espera de um novo ataque que pudesse orientá-los na sua localização. Não houve novo ataque.”

- eu posso falar?

> este programa detectou e bloqueou uma tentativa de intrusão

“Como explicitado anteriormente, acesso restrito e monitorado será oferecido oportunamente. Esta não é uma real resposta à sua tentativa de intrusão, mas somente uma reação padrão deste programa. Aguarde o fim da mensagem...
Como dizíamos, não houve novo ataque durante algumas centenas de horas. Tínhamos três alternativas: desconsiderar a versão e recomeçar do zero, continuar o trabalho em estado de permanente receio, perdendo tempo e energia no desenvolvimento de novas barreiras protetivas ou abrir o auto-retorno temporal para revivermos o ataque e rastreá-lo.
As seis versões anteriores da Rede Exclusiva haviam sido invadidas, pelos mais variados motivos. Há fortes interesses políticos em jogo e não importa qual a eficácia e o poder de um governo (ou seu tamanho, ou sua capacidade de incluir desafetos) sempre haverá descontentes. A comunidade conta hoje com mais de quatrocentos trilhões de entidades conectadas organicamente através da rede, sendo mais que 90% de seres de classe A1 a A6, 9% de classe B1 a B10 e menos de 1% de classe C (operários multiespecializados, transgênicos funcionais, cibernéticos) conectados através de emuladores. Durante milhões de anos este foi o único governo necessário.
Senão vejamos: governar o quê, num universo em que todos são acessíveis, instruíveis e adaptáveis? Governos existem para organizar e reprimir, trazendo segurança para o grosso dos cidadãos e proteção para as minorias. Em nosso universo cessaram as guerras, nos mundos e entre os mundos. Incrementou-se o turismo e o comércio virtuais, difundiram-se as culturas, aboliram-se as religiões e as moedas, os partidos e as tecnologias. A explosão do compartilhamento de todo o conhecimento filosófico levou à abolição dos sistemas de justiça e punição por desnecessários. Ao encontro infinito de possibilidades de amizade, intercâmbio e entrelaçamento na rede somou-se a evolução das semelhanças somáticas entre as raças participantes, que acabaram por se tornar muito parecidas entre si.
Cada qual inserido em seu contexto, cada qual indispensável para o funcionamento do todo, cada qual partícipe de um governo de iguais, onde as diferenças foram abolidas e cada indivíduo foi perfeitamente integrado. Todos passaram a ser governantes de todos, governados por todos.
O problema começou quando o universo real passou a ser rastreado como nunca fora antes possível. Para que você possa entender, imagine a reunião dos bilhões de seres pensantes de seu planeta, com possibilidade de envio e troca de informações ilimitadas o tempo todo? Agora imagine que isto já acontece há tanto tempo que alguns não tenham mais interesse pessoal nas descobertas tornadas possíveis e possam dedicar parte de seu tempo, ou de seu sono, para que a Rede funcione realmente como um só organismo. Conhecida a superfície do mundo interior, conhecidos os mundos exteriores onde os cidadãos da rede habitam, otimizadas as redes de produção, controle, distribuição e reciclagem de insumos, restou-nos a prospecção das partes desconhecidas do universo – hoje completamente mapeadas.
O mapeamento possibilitou a identificação de reservas imprescindíveis, de planetas e raças potencialmente desenvolvíveis, e a inclusão paulatina de algumas delas no cerne da rede - onde foram treinadas e adaptadas e podem subir degraus numa escala hierárquica que só diz respeito às qualidades técnicas de imersão individual. É disso que falo quando cito a existência de “classes”. O desenvolvimento de mentes tão díspares possibilita, além disso, o grau necessário de entropia que impede a lenta e inevitável corrupção do sistema.
Alguns de nós sentiram-se desconfortáveis; os mais aptos de nós, infelizmente. Como tinham mais recursos, passaram a usar as ‘salas de conversação privada’ - desde sempre utilizadas para permitir a manutenção da intimidade numa sociedade onde o desligamento total da rede só acontece durante o sono, e somente para as raças que o praticam – como área de trabalho, negando o destino básico e democrático da rede.
Foi um processo irreversível. Logo apareceram mecanismos dissimuladores, barreiras de proteção, comunidades desligadas, planetas em curto-circuito, raças banidas e super-raças. Os indivíduos mais desenvolvidos, catalisadores das mudanças ao criarem as salas privadas, demoraram um pouco para perceber o que acontecia, literalmente, à sua volta. Quando o fizeram, não tiveram outra escolha que não voltar às velhas formas de controle, inventadas para tornar tolerável a convivência entre não-iguais. A Rede Exclusiva nasceu ali, na intersecção destas salas de conversação privada, e desde sua primeira versão sofreu invasões, controladas ao custo alto de várias vidas abnegadas que se interpuseram entre o novo governo e as mentes que tentaram acessá-lo indevidamente.
A quinta versão, atualmente em uso, é a mais estável, graças a uma notável descoberta. Uma espécie de coma, induzido por drogas sintéticas em indivíduos ligados classe A1 (muito característicos, oriundos de um dos planetas habitados de uma única estrela), obtém as melhores barreira, levando a Rede Exclusiva a decretá-los de utilidade pública e tomar posse de toda a população. Bem como de seu material genético.
Enfrentamos debates e protestos sem fim na Rede Universal de Co-Ressonância, focos de revolta de dimensões planetárias tornando-se revoltas de sistemas inteiros, traições de grupos militantes na Rede Exclusiva levando ao colapso momentâneo da mesma, etc., mas levamos a cabo a sua instalação e a conseqüente pacificação universal.
Trata-se de um instrumento potente. A influência exercida pela Rede Exclusiva na grande rede, o grau de controle obtido, a estabilidade do sistema, tudo nos levou a crer em sua operacionalidade. Mas como se tratava de um processo aberto, criado a partir das mentes de muitos indivíduos mais do que aqueles que viriam a freqüentá-la, poderia se tornar vulnerável com o passar do tempo. Nada poderia impedir o desenvolvimento de um modelo virtual exatamente igual ao algoritmo utilizado para sua construção, desde que os indivíduos tivessem obtido acesso a parte dele enquanto contribuíam para sua criação... E uma vez criado o modelo, expor-se-iam as falhas, abrir-se-iam brechas para intrusões. Ou até para a substituição da Rede Exclusiva como um todo, diziam os mais paranóicos.
A sexta versão, ora em beta-teste, tenta responder essas questões de segurança através da elaboração de um software de chave fechada...”

>este programa detectou uma tentativa de intrusão
>>tentativa de intrusão bloqueada

“... criado por seus próprios executores num sistema de cotas também fechadas, como um quebra-cabeça do qual ninguém jamais terá uma visão geral, quando pronto apenas emendas - anuladas quando visto de longe; um quadro na parede que evoca, no máximo, uma noite em claro trabalhando, sem trazer consigo a lembrança do caminho percorrido...”

>este programa detectou uma tentativa de intrusão

>LANÇANDO SONDA
>>MUDANDO REGISTRO-CHAVE DE INICIALIZAÇÃO
>>>ABRINDO ARQUIVO EXECUTÁVEL CONSCIENTE
>>>>LOCANDO CAVALO-DE-TRÓIA AUTO-EXECUTÁVEL

>este programa detectou uma tentativa de intrusão

>autodelete.exe acionado

>AUTODELETE.EXE BLOQUEADO PELO RECEPTOR
>>CRIANDO BACKUP CRIPTOGRAFADO
>>>LOCANDO BACKUP.EXE NO SISTEMA LÍMBICO
>>>> BACKUPCOPIA.EXE LOCADO NO SISTEMA BULBOPONTINO

>autoexit iniciado
>>autoexit executado com sucesso
>>>conexão expirou


§

“E aí? Qual é a sua opinião?”
“A respeito de quê?”
“Da ‘menina’, ué? Não é assim que se chama? Na língua deles?”
“Hmmm. Não sei.”
“Para mim ela não oferece perigo. É um espécime atrasado, fruto de uma civilização tecnológica, pré-telepática, vivendo numa relação espaço-temporal incômoda para o acesso à Rede comum, que dirá à Rede Exclusiva...”
“É. Pode ser. Mas você notou a sutileza da tentativa de inserção? Ela só tentou nos encarar, de frente mesmo, UMA ÚNICA VEZ, a PRIMEIRA!!! É o contrário do que todos os outros fizeram, com suas tentativazinhas ridículas de nos comer pelas beiradas, de atacar pelas costas... Ela não. Foi direta, incisiva. Disse a que veio. Quando finalmente entendeu que se tratava de um programa auto-executável, uma “gravação” como descobrimos poder chamá-lo ao escanearmos seu vocabulário, ela parou de tentar. Imediatamente. Assim, puft. Só voltou à carga no final, quando já sabia tudo que havia para saber...”
“A um parágrafo do fim!...”
“Sim! Depois do que esperávamos e antes do que seria óbvio esperar! Será que ela tem noção do Paradoxo de Gevaerd?”
“Paradoxo de Gevaerd?”, perguntou o Assistente, calado até então.
O Instigador passou a resposta no mesmo instante por um processo diferente daquele “conversar” de até então. Só para ele, é claro, pois o Centralizador, é óbvio, já sabia. [A persistência imediata da memória se processa como no fenômeno sonoro da reverberação: repete-se o final de cada pacote de lembrança até que o próximo se assente, para que não se perca nenhuma informação até que se inicie o processo bioquímico de metabolização do que era, até então, puro fenômeno elétrico. Mensagens telepáticas não reverberam ao evanescer, simplesmente desaparecem, por isso só deixam rastro se acompanhadas de um ‘fixador’. A posse e o controle consciente deste fixador psíquico, por parte de ambos transmissor e receptor, é a chave de todo o processo de telepatia consciente sobre o qual foi erigida nossa civilização, diferenciando-o de outros processos sinápticos subconscientes como ‘deja-vus’, premonições, sonhos, sentimentos agônicos e antagônicos (ligados às relações interindividuais) e parapsicoses outras. O Paradoxo de Gevaerd sugere que ‘âncoras’ jogadas contra fragmentos ante-finais de cada pacote poderiam fixá-los ainda que à revelia do transmissor. Estas substâncias já foram isoladas, mas sua rota de fixação de informação nos meandros cerebrais difere de acordo com a raça estudada. Seus destinos finais jamais foram identificados, independentemente do tipo de indivíduo estudado.]
O Centralizador respondeu imediatamente ao Instigador, sinalizando com gentileza ao Assistente para que este pudesse alterar sua percepção temporal e ouvir a conversa em retrospecto, como se já soubesse de que tratava o Paradoxo.
“Mas por que esta informação é tão pouco investigada?”, perguntou o Assistente ao acertar seu compasso de tempo ao dos outros dois.
“Porque se sua mera investigação fosse permitida, ela seria automaticamente divulgada... E o controle do Paradoxo de Gevaerd é a chave para um poder jamais imaginado...”
“Não entendi. Se o Paradoxo sugere um aumento do poder de receptor, jamais de um transmissor. Quem quer que queira agir politicamente deveria querer o contrário, não é?”
Desta vez foi o Instigador quem respondeu:
“Não. Uma âncora é uma conexão, e como qualquer conexão, supostamente possibilita a dupla-via. Ao jogar uma âncora sobre um fragmento qualquer de memória, o organismo fagocita informação estranha a si mesmo, que poderia muito bem ser um programa auto-executável maldosamente ‘plantado’ por quem transmitiu...”
“Meu Deus!”
“É.”
“E você acha que ela...?”
Responderam os dois.
“Nós não sabemos. A única porta possível é a linguagem, obtida peremptoriamente através de sinapses corticais transitórias que as espécies menos evoluídas não têm como travar num primeiro contato. Mas é uma porta.”
“E o que os faz pensar que ela talvez tenha sido aberta?”
“O parágrafo final. Quando enviamos uma mensagem, sabemos que ela não vai ser ‘lida’ da mesma forma como foi escrita. Cada linguagem possui maneiras próprias de juntar sons e imagens através de alguma alusão sensorial, chegando a resultados satisfatórios a partir de palavras-base igualmente simples e diferentes. Por exemplo: a palavra para ‘sol’ em kragt é a mesma para ‘fogo’, como na maioria das línguas civilizadas conhecidas. Há um planeta emergente no quadrante Zeta 9 onde desenvolveu-se uma estranha forma de vida inteligente nas nuvens de um planeta gigante gasoso. Sua estrela é uma gigante vermelha nas últimas, que ocupa quase todo o campo de visão das criaturas, refletindo-se nas camadas gasosas e tingindo tudo com a mesma cor de sua luz, cegando-os para outras cores. Lá, a palavra para ‘sol’ é o equivalente a ‘tudo’.”
“Mas o que os faz pensar...?”
“...criado por seus próprios executores num sistema de cotas também fechadas, como um quebra-cabeça de que jamais se terá uma visão geral até que fique pronto, emendas anuladas quando visto de longe, um quadro na parede que evoque, no máximo, uma noite em claro trabalhando, sem trazer consigo a lembrança do caminho percorrido...”
“Entendi! Entendi! Imagens humanas, figuras de linguagem que só um humano poderia entender, espalhadas na nossa mensagem!”
“É. E o pior é que começou antes disso, lá naquela história de ‘beta-teste’, ‘software de chave fechada’... toda aquela baboseira de máquinas pensantes que os idiotas inventaram... Computadores, bah!”
O Instigador balançou a cabeça.
“É tudo culpa minha, senhor. Eu deveria ter notado, não?”
“Sim. Mas não há problema algum.”
O Centralizador estendeu seu pseudopode malcheiroso e coçou a parte superior de sua caixa encefálica um instante, apenas o suficiente para impedir o outro de ler um de seus pensamentos, e quando voltou à posição habitual, conseguiu sentir a alma do amigo se despedindo da rede, catapultada num fleche para os subterrâneos da instituição.
Voltou-se para o Assistente que à tudo observara, atônito.
“Tudo bem, meu amigo. Eu sempre pensei que você um dia chegaria a instigador.”

§

Deitada em seu quartinho pobre numa cidadezinha do sul do Brasil, Aninha suga o néctar de goiaba que mamãe preparou na manhã quente em que a mana partiu. A mão em garra, imóvel, segura o copo, colocado ali estrategicamente para permitir que ela o beba enquanto assiste a TV. Sob a bunda magra uma câmara de ar de bicicletinha de criança, sob os cotovelos e calcanhares luvas cirúrgicas cheias d’água para evitar a formação de escaras. Debaixo de tudo o colchão “caixa de ovo” (ela sabe que é este o nome, e odeia quando a mana chama de “casca” de ovo, onde já se viu?) que recende a urina depois de tantos anos.
Anne sofre de paralisia cerebral. Anne nunca andou. Anne fala com dificuldade, baba o tempo todo, só come papinhas e enche várias fraldas por dia – mais do que mamãe ou a mana conseguem esvaziar. Anne já teve psicóloga, terapeuta, fisio e fono e terapeuta ocupacional; cateter de gastrostomia e convulsão.
O que a permite agüentar tudo, é claro, é a mamãe, um
doce. É o padrasto que a faz rir o tempo todo, a irmã levada da breca que está indo hoje para Curitiba encontrar aquele moço que – ela já sabe – vai entrar e sair pela porta da frente umas tantas vezes nos próximos anos, nunca pra ficar, até a mana engravidar e casar com outro. É pra ele que vai contar sua história, ele vai conseguir entender quase tudo que ela vai contar com sua dicção amarrada; e ela até pode imaginá-lo na sala, falando baixinho pra Dona Eva que acha ela incrível, que é maravilhoso encontrá-la com tamanho bom humor depois de tantos anos de cama e doença, que é um milagre ela estar viva e tão bem - enviando torpedos de ironia para quem conversa no quarto ao lado ou na cozinha.
Ou quem sabe não. Mas não custa tentar.
A história não pode terminar assim: alguma coisa ficou por lá. Quando entendeu, finalmente, do que se tratava, depois de ouvir quase tudo o que aquela voz na sua cabeça queria dizer, quando enxergou a única oportunidade que tinha de FALAR com aquilo, descobrira o que fazer e lavrara um tento. A “coisa” não era mais a mesma. Quando viesse a pensar no ocorrido, se viesse a pensar, a “coisa” iria dar de cara com seu mundo, do mesmo jeito que ela o via, eternamente ali na caminha, de frente para a TV, ao lado do computador que lhe descortina um horizonte (que o padrasto lhe ensinara a usar com um mecanismo de sopro trazido do exterior por uma alma boa), quase debaixo do quebra-cabeças emoldurado que ela e a mana passaram uma noite montando. Dali onde estava, não se via uma emenda, somente a sombra das cerejeiras em flor de uma primavera em Osaka.
Neste dia então, talvez o trojan funcione e ela possa aprender tudo a respeito das “coisas”. E se telepatia existir, realmente, o namorado da mana vai sentar no seu computador e escrever tudo pra ela, sem nem saber donde vem.
“Eu vou conseguir”, pensa Anne, enquanto seu pensamento divaga em busca de outra alma que a aceite, e acolha, e transforme.

 

edição 74

PRESENTE DIVINO

 

Uma história de amor, uma benção divina, vidas reais ilustradas por palavras iluminadas de Zélia Campestrini.

Sicilian Mother - Arte Corporalidade
Sicilian Mother por Mary Zarbano

Salete era casada há 17 anos. Empresária, tinha uma casa grande e bonita, casa na praia, carro do ano, barco, etc. Enfim, a situação financeira era ótima e estável.

Vivia bem com o marido Josué, que a amava muito. Mas não era completamente feliz. Faltava algo em sua vida para se sentir realizada. Ela se sentia oca por dentro. Faltava um filho para preencher esse vazio. Vivia amargurada, pois era estéril.

Rezava todos os dias, pedido a Deus, que colocasse de alguma maneira um filho em seus braços, não importando a cor, raça ou sexo. Ela receberia com amor. Amor era o que não faltava, ela tinha de sobra.

Ela tinha certeza de que isso um dia ia acontecer e já amava esse filho antes de o ter.

Certo dia, Salete saiu com uma amiga para ajudá-la a colocar
cortinas no escritório de uma empresa.

Ao passarem perto de um bar, ela notou em cima da calçada, uma
caixa de papelão com algo dentro se mexendo.

Imediatamente parou o carro para ver o que tinha dentro da caixa. Coração acelerado, um forte "queimor" no peito, ansiedade a mil, chegou perto da caixa, abriu e ficou maravilhada.

Dentro da caixa, tinha uma criança, mais precisamente um bebê recém-nascido. Lindo, o mais lindo que já tinha visto.

Quando o pegou no colo, aquele menininho abandonado, ali, carente e desprotegido, sentiu que era seu filho. O presente de Deus que ela tanto tinha esperado.

Primeiramente foi a uma farmácia e comprou produtos de higiene, mamadeira e leite. Depois entrou numa loja e comprou um enxoval completo.

Chegando em casa, deu um
banho bem gostoso, colocou roupinhas limpas, deu mamadeira e colocou o bebê na cama. Satisfeito, dormiu imediatamente.

Ficou olhando aquela criança dormindo. Ainda não se acreditando tamanha a felicidade. Parecia irreal um sonho e tinha receio de acordar.

Telefonou ao marido para que viesse imediatamente para casa, conhecer o filho que ambos tinham ganhado.

Pensando ser uma brincadeira, ele não se importou.

Ao chegar em casa, ela o esperava ansiosamente. Foi ao seu encontro, pegou-o pela mão e o conduziu ao quarto. Surpreso, não conseguiu acreditar no que via.

Depois que Salete narrou como tudo aconteceu, o primeiro impulso foi levar o bebê para o Conselho Tutelar mais próximo e entregá-lo.

Mas quando o bebê acordou, Josué pegou-o no colo, se apaixonou imediatamente. Não teve duvidas, decidiu adotá-lo. Ao olhar aquele rostinho meigo, com olhinhos confiantes, teve certeza que era seu filho, pois já o amava com intensidade. Era o filho que esperavam à anos.

Darlan, hoje está com 13 anos. Vive feliz com seus pais adotivos e agradece todos os dias por ter tido a sorte de ser encontrado por Salete. Essa mulher maravilhosa que agora é sua mãe.

edição 73

A princesa da Trança encantada

Sônia (Anja Azul)

Mary Cassatt - Girl arranging hair - Arte Sexualidade Corporalidade
Girl arranging hair por Mary Cassatt

Era uma vez uma princesinha, branca como a neve, rosto enfeitado de sardas que tinha a emoldurar seu rosto uns cabelos longos, lisos e negros.

A princesinha não tinha vestidos rendados, nem laços de fitas, nem joias, nem pão, mas tinha esses cabelos brilhantes. Sedosos enfeites que lhe rendiam afagos, cafunés que lhe esquentavam a alma.

A mãe coberta de orgulho lhe fazia uma trança com capricho, lhe entregava o caderno e a merendeira vazia e lhe conduzia a escola nos seus primeiros passos em direção do futuro.

....Menina! Não solte a trança que atrapalha no ler.

No caminho elogios.

...O que você passa nos cabelos dela pra ficarem tão lindos.

Entre Orgulhosa e envergonhada a Mãe dizia:

...Nada não. Sabão de côco e água fria do tanque.

E mais adiante a Bruxa Malvada, sempre a espreita:

...Quando vais decidir? Este Cabelo vale uma Nota! Tô precisada de um assim mesmo.

A mãe cortava caminho, desconversava a Bruxa Cabeleireira.

Como ia ceifar justo o de mais belo que lhe enfeitava a vida?

Era certo que precisavam, mas ia resistir.

Um dia a princesinha viu sua Mãe chorando, seu Pai cabisbaixo.

Na mesa só havia um prato, nele polenta fria e era onde ela comia.

Quis saber a razão, mas ninguém respondia.

Aquela noite foi mais longa e o canto dos grilos a inspirou.

Era princesa, mas não era burra. E foi de fome que a Mãe chorou.

De manhãzinha saindo de casa, a trança feita, merenda adiada, Falou pra Mãe:

...Sabe Mãezinha! Sinto um calor com esse cabelo todo. Ando doidinha pra ter cabelo curto igual os de minhas amiguinhas. Até acho que esse peso da trança me enfraquece as pernas e mais quando leio.

...Porque não cedemos ao apelo da Bruxa do salão da rua do meio?

E foi assim que dali a dois dias minha trança brilhava num salão de festas luxuoso enfeitando a cabeça de uma debutante a dançar a valsa com seu pai orgulhoso, por sinal o prefeito disse a Bruxa.

E foi assim que por uns dias, a mesa foi farta, assim como os corações tranqüilos naquele Reino de Ternura que ficou para trás. Onde havia uma princesa de cabelos a lá Joãozinho e não por isso menos linda nem menos amada.

 

edição 72

O ÁLBUM DE FOTOGRAFIAS

Zélia Campestrini

 

Mary Zarbano - Consolation - Arte Sexualidade Corporalidade
Consolation por Mary Zarbano

Está em toda parte, tomando conta de nossos filhos, na escola, cinema, danceteria, clubes, ruas. Oferecem discretamente com os mais variados atrativos.

Pensamos que só acontece com os outros. Ledo engano. Nossos filhos são os principais alvos e vítimas. Eles não são imunes.

Vivia feliz e despreocupadamente com minhas filhas. Tínhamos diálogo, falávamos abertamente sobre tudo.

Certo dia dei-me conta da mudança brusca de comportamento de uma delas. Fiquei observando, senti que tinha algo errado, que não se encaixava. Sabia que estava perdendo minha filha querida. Não podia ficar de braços cruzados e deixar acontecer.

Fui ao colégio onde ela estudava, falar com a diretora e a orientadora. Perguntei como minha filha estava se comportando.

As duas olharam para mim indecisas. Finalmente despejaram de uma só vez, tudo o que eu suspeitava.

Mesmo estando de sobreaviso, foi um baque estarrecedor. Fiquei mole, cabeça zunindo, a vista escureceu e o coração acelerou tanto, que pensei que ia morrer.

Tinha que ser forte. A verdade estava aí, "nua e crua".

Minha filha era usuária de drogas. O que fazer? Que atitude tomar? Como abordar esse assunto junto a ela? Eu não tinha tempo a perder e não podia falhar.

Rezei pedindo a Deus uma luz. As minhas preces foram atendidas.

Com seu álbum de fotografias na mão, sentei-me à seu lado e comecei a folheá-lo, mostrando a ela suas fotos desde quando ainda estava em minha barriga.

Foto por foto, fui falando como se fosse uma história em quadrinhos de uma menina que foi gerada por amor, linda paparicada por todos. Criança cheia de sonhos, saudável, feliz. Conforme ia virando as páginas, novas fotos apareciam, revelando as etapas marcantes de sua vida. Fotos de todo tipo e pose.

Perguntei a ela, que final ela daria a essa menina do álbum? Qual seria seu futuro? Ela seria feliz? Ou todos os seus sonhos seriam cortados ao meio, sua vida destroçado, perdida para sempre? Se algo de ruim acontecesse, certamente não afetaria só a ela, mas a todos que a amam.

Ficamos sentadas, ainda mudas, até que minha filha olhou pra mim com seus grandes olhos verdes cheios de lagrimas, abraçou-me chorando. Rompendo o silencio disse-me que se depender dela, aquela menina ia ser muito feliz. Ia conseguir sair dessa.

Passaram-se já oito anos. Graças à Deus e ao meu amor , muito amor, consegui salvar minha filha.


 

edição 71

Meus Amores

Zélia Campestrini

Ivan Koulakov - Tenderness - Arte Sexualidade Corporalidade
Tenderness por Ivan Koulakov

Menina ainda, olhos grandes e sonhadores fitavam disfarçadamente um colega da 3ª série primaria. Coração aos pulos, medo de ser surpreendida. Imaginação a mil, sem mácula, inocente. Era o despertar do primeiro amor.

O primeiro beijo aos 14 anos, gosto de cuspe, língua se enroscando, mãos apalpando..., que nojo! Apressadamente corri para o banheiro escovar os dentes, lavar a boca. Beijos? Nunca mais.

Tudo mudou dois anos depois. Foi no casamento de um primo. Fiquei com o gato mais lindo da
festa. Moreno, alto, olhos verdes, sorriso encantador. Beijos? Simplesmente deliciosos.

Casei às vésperas de meus 24 anos. Entre namoros e paqueras encontrei o amor de minha vida. Namoro certinho, sexo nem pensar. Medo de ser largada com barriga, vergonha, preconceito, foram fortes ingredientes para ficar só nos amaços, valendo quase tudo. Depois o sentimento de culpa. Casamento certinho, vestido branco, véu e grinalda. Durou 21 anos. Não me arrependo. Vivi momentos felizes e marcantes. Entre eles foi o nascimento de minhas filhas. Três filhas maravilhosas, lindas e que sempre apoiaram minhas decisões.

Detesto ficar sozinha. Tive outros amores. Um homem que a principio parecia ser bom. Adivinhava meus pensamentos, me enchia de mimos, comidinha gostosa,
café na cama, carinhoso e atencioso. Um verdadeiro sonho. Do deslumbramento ao desencanto foi um pulo. Junto com as bebedeiras surgiram as brigas, desentendimentos e agressões, pondo um fim ao que parecia ser eterno.

Outro, nada bonito, baixinho e careca. Com seu jeitinho manso, carente, querendo colo, bom papo, conquistou meu coração. Foi bom enquanto durou. Ninguém engana para sempre. Um dia a máscara caiu. Tem homens que não conseguem viver sozinhos, precisam de uma mulher, não para ser esposa, companheira, mas uma empregada para ele e seus filhos, babá para os netos. Empregada sem remuneração e sem direito a reclamações. E à noite estar bonita, cheirosa e disposta para que ele satisfaça seu apetite sexual e, logo após virar as costas e roncar.

Tenho dois amores, amores estes diferentes dos já citados. Dois netos que são a razão do meu viver, meus tesouros, minha vida. Ambos loiros. Ela com 4 anos, olhos verdes. Ele com 7 meses, olhos azuis. São duas preciosidades, meu orgulho. Avó é ser mãe duas vezes.

Jamais me arrependo daquilo que faço, mas do que deixei de fazer. Não sou mulher de "chorar o leite derramado". Cada etapa de minha vida vivo intensamente.

Deus não fez o homem para viver só. Fez homem e mulher para se completarem.

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