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www-u

Like Him por Ewa Nemoudry por
Renato Bach
>atenção
>atingindo potencial de ação em neurônio-alfa
>liberando neurotransmissores
>estabelecendo sinapse primária
>inicializando sistema de ativação reticular
ascendente
>funções corticais plenas
>baixando dados
>dados baixados
“Bom Dia.
Sem Sustos. Não Você Pensar.
Eu Comandar Temporário.”
>efetuando verificação de sistemas
>>ferramentas detectam liberação maciça de
aminas vasoativas
>>>reação de medo instalada
>>>>monitoraremos sem interferir
>invadindo rede cortical em complexidade máxima
>>concluído
>avaliação de capacidade
- memória efetiva: C-1
- memória funcional: B-10
- memória de transmissão: C-6
- capacidade de transmissão: >1012 decaciclos/seg
- excedente funcional desativado: incalculável
>avaliação de bloqueio
- bloqueio inconsciente: alto
- bloqueio consciente: similar a espécies semelhantes em estágio
pré-cognitivo
- força intrusiva: desconhecida
>levantando defesas
>>imunizando sistema
>conectado em rede neural a 1012 decaciclos/seg
>traduzindo verbetes
>>dicionário virtual > 105 palavras
>estabelecido contato pleno
“Bom dia. Se em algum lugar do ser esta conversa
iniciado, missão minha cumprida.”
>corrigindo gramática
>>utilizando arquivos corticais para estabelecer flexões
verbais
>>>adquirindo fluência
>>>>reiniciando mensagem
“Peço desculpas pela apresentação
truncada: este é o primeiro contato que temos com a sua espécie
e os dados de linguagem não estavam disponíveis. Nosso mini-aplicativo
auto-executável detectou palavras apropriadas em seu subconsciente
durante o repouso que antecedeu a conexão, mas somente agora que
seu nível de atividade cerebral é pleno pudemos completar
o dicionário. É claro que nossa fluência é
limitada, bem como nosso entendimento de sinônimos e idéias
subliminares de permeio. Nada do que dissermos saberá a ironia,
cinismo ou dissimulação. Tentaremos não usar de sofismas
ou eufemismos”.
Este programa também é auto-executável e não
poderá ser abortado, pausado ou reiniciado durante o tempo de reprodução
pré-estabelecido. Como você pode ver, não se trata
propriamente de uma conversa.
Bem vinda à Rede Universal De Co-Ressonância.
Esta mensagem substituirá os trâmites habituais de identificação
e registro, dado o ineditismo do pleito a nós endereçado.
O aumento substancial do número de participantes da rede nos últimos
ciclos temporais, aliado à ameaça crescente de formas de
invasão, simbiose e parasitismo forçou a Agência Universal
de Controle de Tráfego em Rede a estabelecer rígidos parâmetros
de avaliação, limitando sobremaneira a aceitação
de novos membros. A segmentação em redes funcionais alternativas
vem dando conta tanto das necessidades populacionais básicas em
dezenas de planetas e estações destino-de-vida, quanto das
possibilidades infinitas de manejo político-administrativo, sem
que haja promiscuidade perigosa aos sistemas. Em seu caso específico,
acesso restrito e monitorado será oferecido como prova de apreço
e boa vontade de nossa parte e em respeito à façanha de
seu contato.
Sua invasão foi detectada às 954h15’07’’33’’’
da versão teste de nossa última atualização.
Foi a primeira invasão da rede por um organismo não identificado
na história do Universo. Levantamos os bloqueios de defesa para
uma detecção mais ágil do ponto de intrusão,
mas logo tivemos que nos recolher humilhados para o coração
do sistema: uma espécie de fortaleza psíquica erigida por
nossas melhores mentes. Foi impossível descobrir a origem de seu
contato. Ato contínuo, os burocratas assumiram o controle, fechando
a rede e restringindo liberdades individuais até que tudo fosse
esclarecido. Todos eram suspeitos.
Todos eram suspeitos e todos, sem exceção, foram colocados
em quarentena psíquica em prisões domiciliares. Quarenta
milhões de nossas melhores mentes, espalhadas pela galáxia,
justo aquelas que trabalhavam diretamente na e com a versão teste,
impedidas de continuar seus trabalhos, impedidas de ajudar na busca. Expertos
da Agência trabalharam por mais de cem horas, abrindo mentes em
busca de um traidor, procurando quem seria capaz de montar a farsa burlesca
de uma proto-invasão. Nada encontraram. Por fim resolveram devolvê-los
a seus postos – sob observação restrita, com a rede
trabalhando em ‘modo de segurança’, com funções
mínimas – à espera de um novo ataque que pudesse orientá-los
na sua localização. Não houve novo ataque.”
- eu posso falar?
> este programa detectou e bloqueou uma tentativa de
intrusão
“Como explicitado anteriormente, acesso restrito
e monitorado será oferecido oportunamente. Esta não é
uma real resposta à sua tentativa de intrusão, mas somente
uma reação padrão deste programa. Aguarde o fim da
mensagem...
Como dizíamos, não houve novo ataque durante algumas centenas
de horas. Tínhamos três alternativas: desconsiderar a versão
e recomeçar do zero, continuar o trabalho em estado de permanente
receio, perdendo tempo e energia no desenvolvimento de novas barreiras
protetivas ou abrir o auto-retorno temporal para revivermos o ataque e
rastreá-lo.
As seis versões anteriores da Rede Exclusiva haviam sido invadidas,
pelos mais variados motivos. Há fortes interesses políticos
em jogo e não importa qual a eficácia e o poder de um governo
(ou seu tamanho, ou sua capacidade de incluir desafetos) sempre haverá
descontentes. A comunidade conta hoje com mais de quatrocentos trilhões
de entidades conectadas organicamente através da rede, sendo mais
que 90% de seres de classe A1 a A6, 9% de classe B1 a B10 e menos de 1%
de classe C (operários multiespecializados, transgênicos
funcionais, cibernéticos) conectados através de emuladores.
Durante milhões de anos este foi o único governo necessário.
Senão vejamos: governar o quê, num universo em que todos
são acessíveis, instruíveis e adaptáveis?
Governos existem para organizar e reprimir, trazendo segurança
para o grosso dos cidadãos e proteção para as minorias.
Em nosso universo cessaram as guerras, nos mundos e entre os mundos. Incrementou-se
o turismo e o comércio virtuais, difundiram-se as culturas, aboliram-se
as religiões e as moedas, os partidos e as tecnologias. A explosão
do compartilhamento de todo o conhecimento filosófico levou à
abolição dos sistemas de justiça e punição
por desnecessários. Ao encontro infinito de possibilidades de amizade,
intercâmbio e entrelaçamento na rede somou-se a evolução
das semelhanças somáticas entre as raças participantes,
que acabaram por se tornar muito parecidas entre si.
Cada qual inserido em seu contexto, cada qual indispensável para
o funcionamento do todo, cada qual partícipe de um governo de iguais,
onde as diferenças foram abolidas e cada indivíduo foi perfeitamente
integrado. Todos passaram a ser governantes de todos, governados por todos.
O problema começou quando o universo real passou a ser rastreado
como nunca fora antes possível. Para que você possa entender,
imagine a reunião dos bilhões de seres pensantes de seu
planeta, com possibilidade de envio e troca de informações
ilimitadas o tempo todo? Agora imagine que isto já acontece há
tanto tempo que alguns não tenham mais interesse pessoal nas descobertas
tornadas possíveis e possam dedicar parte de seu tempo, ou de seu
sono, para que a Rede funcione realmente como um só organismo.
Conhecida a superfície do mundo interior, conhecidos os mundos
exteriores onde os cidadãos da rede habitam, otimizadas as redes
de produção, controle, distribuição e reciclagem
de insumos, restou-nos a prospecção das partes desconhecidas
do universo – hoje completamente mapeadas.
O mapeamento possibilitou a identificação de reservas imprescindíveis,
de planetas e raças potencialmente desenvolvíveis, e a inclusão
paulatina de algumas delas no cerne da rede - onde foram treinadas e adaptadas
e podem subir degraus numa escala hierárquica que só diz
respeito às qualidades técnicas de imersão individual.
É disso que falo quando cito a existência de “classes”.
O desenvolvimento de mentes tão díspares possibilita, além
disso, o grau necessário de entropia que impede a lenta e inevitável
corrupção do sistema.
Alguns de nós sentiram-se desconfortáveis; os mais aptos
de nós, infelizmente. Como tinham mais recursos, passaram a usar
as ‘salas de conversação privada’ - desde sempre
utilizadas para permitir a manutenção da intimidade numa
sociedade onde o desligamento total da rede só acontece durante
o sono, e somente para as raças que o praticam – como área
de trabalho, negando o destino básico e democrático da rede.
Foi um processo irreversível. Logo apareceram mecanismos dissimuladores,
barreiras de proteção, comunidades desligadas, planetas
em curto-circuito, raças banidas e super-raças. Os indivíduos
mais desenvolvidos, catalisadores das mudanças ao criarem as salas
privadas, demoraram um pouco para perceber o que acontecia, literalmente,
à sua volta. Quando o fizeram, não tiveram outra escolha
que não voltar às velhas formas de controle, inventadas
para tornar tolerável a convivência entre não-iguais.
A Rede Exclusiva nasceu ali, na intersecção destas salas
de conversação privada, e desde sua primeira versão
sofreu invasões, controladas ao custo alto de várias vidas
abnegadas que se interpuseram entre o novo governo e as mentes que tentaram
acessá-lo indevidamente.
A quinta versão, atualmente em uso, é a mais estável,
graças a uma notável descoberta. Uma espécie de coma,
induzido por drogas sintéticas em indivíduos ligados classe
A1 (muito característicos, oriundos de um dos planetas habitados
de uma única estrela), obtém as melhores barreira, levando
a Rede Exclusiva a decretá-los de utilidade pública e tomar
posse de toda a população. Bem como de seu material genético.
Enfrentamos debates e protestos sem fim na Rede Universal de Co-Ressonância,
focos de revolta de dimensões planetárias tornando-se revoltas
de sistemas inteiros, traições de grupos militantes na Rede
Exclusiva levando ao colapso momentâneo da mesma, etc., mas levamos
a cabo a sua instalação e a conseqüente pacificação
universal.
Trata-se de um instrumento potente. A influência exercida pela Rede
Exclusiva na grande rede, o grau de controle obtido, a estabilidade do
sistema, tudo nos levou a crer em sua operacionalidade. Mas como se tratava
de um processo aberto, criado a partir das mentes de muitos indivíduos
mais do que aqueles que viriam a freqüentá-la, poderia se
tornar vulnerável com o passar do tempo. Nada poderia impedir o
desenvolvimento de um modelo virtual exatamente igual ao algoritmo utilizado
para sua construção, desde que os indivíduos tivessem
obtido acesso a parte dele enquanto contribuíam para sua criação...
E uma vez criado o modelo, expor-se-iam as falhas, abrir-se-iam brechas
para intrusões. Ou até para a substituição
da Rede Exclusiva como um todo, diziam os mais paranóicos.
A sexta versão, ora em beta-teste, tenta responder essas questões
de segurança através da elaboração de um software
de chave fechada...”
>este programa detectou uma tentativa de intrusão
>>tentativa de intrusão bloqueada
“... criado por seus próprios executores
num sistema de cotas também fechadas, como um quebra-cabeça
do qual ninguém jamais terá uma visão geral, quando
pronto apenas emendas - anuladas quando visto de longe; um quadro na parede
que evoca, no máximo, uma noite
em claro trabalhando, sem trazer consigo a lembrança do caminho
percorrido...”
>este programa detectou uma tentativa de intrusão
>LANÇANDO SONDA
>>MUDANDO REGISTRO-CHAVE DE INICIALIZAÇÃO
>>>ABRINDO ARQUIVO EXECUTÁVEL CONSCIENTE
>>>>LOCANDO CAVALO-DE-TRÓIA AUTO-EXECUTÁVEL
>este programa detectou uma tentativa de intrusão
>autodelete.exe acionado
>AUTODELETE.EXE BLOQUEADO PELO RECEPTOR
>>CRIANDO BACKUP CRIPTOGRAFADO
>>>LOCANDO BACKUP.EXE NO SISTEMA LÍMBICO
>>>> BACKUPCOPIA.EXE LOCADO NO SISTEMA BULBOPONTINO
>autoexit iniciado
>>autoexit executado com sucesso
>>>conexão expirou
§
“E aí? Qual é a sua opinião?”
“A respeito de quê?”
“Da ‘menina’, ué? Não é assim que
se chama? Na língua deles?”
“Hmmm. Não sei.”
“Para mim ela não oferece perigo. É um espécime
atrasado, fruto de uma civilização tecnológica, pré-telepática,
vivendo numa relação espaço-temporal incômoda
para o acesso à Rede comum, que dirá à Rede Exclusiva...”
“É. Pode ser. Mas você notou a sutileza da tentativa
de inserção? Ela só tentou nos encarar, de frente
mesmo, UMA ÚNICA VEZ, a PRIMEIRA!!! É o contrário
do que todos os outros fizeram, com suas tentativazinhas ridículas
de nos comer pelas beiradas, de atacar pelas costas... Ela não.
Foi direta, incisiva. Disse a que veio. Quando finalmente entendeu que
se tratava de um programa auto-executável, uma “gravação”
como descobrimos poder chamá-lo ao escanearmos seu vocabulário,
ela parou de tentar. Imediatamente. Assim, puft. Só voltou à
carga no final, quando já sabia tudo que havia para saber...”
“A um parágrafo do fim!...”
“Sim! Depois do que esperávamos e antes do que seria óbvio
esperar! Será que ela tem noção do Paradoxo de Gevaerd?”
“Paradoxo de Gevaerd?”, perguntou o Assistente, calado até
então.
O Instigador passou a resposta no mesmo instante por um processo diferente
daquele “conversar” de até então. Só
para ele, é claro, pois o Centralizador, é óbvio,
já sabia. [A persistência imediata da memória se processa
como no fenômeno sonoro da reverberação: repete-se
o final de cada pacote de lembrança até que o próximo
se assente, para que não se perca nenhuma informação
até que se inicie o processo bioquímico de metabolização
do que era, até então, puro fenômeno elétrico.
Mensagens telepáticas não reverberam ao evanescer, simplesmente
desaparecem, por isso só deixam rastro se acompanhadas de um ‘fixador’.
A posse e o controle consciente deste fixador psíquico, por parte
de ambos transmissor e receptor, é a chave de todo o processo de
telepatia consciente sobre o qual foi erigida nossa civilização,
diferenciando-o de outros processos sinápticos subconscientes como
‘deja-vus’, premonições, sonhos, sentimentos
agônicos e antagônicos (ligados às relações
interindividuais) e parapsicoses outras. O Paradoxo de Gevaerd sugere
que ‘âncoras’ jogadas contra fragmentos ante-finais
de cada pacote poderiam fixá-los ainda que à revelia do
transmissor. Estas substâncias já foram isoladas, mas sua
rota de fixação de informação nos meandros
cerebrais difere de acordo com a raça estudada. Seus destinos finais
jamais foram identificados, independentemente do tipo de indivíduo
estudado.]
O Centralizador respondeu imediatamente ao Instigador, sinalizando com
gentileza ao Assistente para que este pudesse alterar sua percepção
temporal e ouvir a conversa em retrospecto, como se já soubesse
de que tratava o Paradoxo.
“Mas por que esta informação é tão pouco
investigada?”, perguntou o Assistente ao acertar seu compasso de
tempo ao dos outros dois.
“Porque se sua mera investigação fosse permitida,
ela seria automaticamente divulgada... E o controle do Paradoxo de Gevaerd
é a chave para um poder jamais imaginado...”
“Não entendi. Se o Paradoxo sugere um aumento do poder de
receptor, jamais de um transmissor. Quem quer que queira agir politicamente
deveria querer o contrário, não é?”
Desta vez foi o Instigador quem respondeu:
“Não. Uma âncora é uma conexão, e como
qualquer conexão, supostamente possibilita a dupla-via. Ao jogar
uma âncora sobre um fragmento qualquer de memória, o organismo
fagocita informação estranha a si mesmo, que poderia muito
bem ser um programa auto-executável maldosamente ‘plantado’
por quem transmitiu...”
“Meu Deus!”
“É.”
“E você acha que ela...?”
Responderam os dois.
“Nós não sabemos. A única porta possível
é a linguagem, obtida peremptoriamente através de sinapses
corticais transitórias que as espécies menos evoluídas
não têm como travar num primeiro contato. Mas é uma
porta.”
“E o que os faz pensar que ela talvez tenha sido aberta?”
“O parágrafo final. Quando enviamos uma mensagem, sabemos
que ela não vai ser ‘lida’ da mesma forma como foi
escrita. Cada linguagem possui maneiras próprias de juntar sons
e imagens através de alguma alusão sensorial, chegando a
resultados satisfatórios a partir de palavras-base igualmente simples
e diferentes. Por exemplo: a palavra para ‘sol’ em kragt é
a mesma para ‘fogo’, como na maioria das línguas civilizadas
conhecidas. Há um planeta emergente no quadrante Zeta 9 onde desenvolveu-se
uma estranha forma de vida inteligente nas nuvens de um planeta gigante
gasoso. Sua estrela é uma gigante vermelha nas últimas,
que ocupa quase todo o campo de visão das criaturas, refletindo-se
nas camadas gasosas e tingindo tudo com a mesma cor de sua luz, cegando-os
para outras cores. Lá, a palavra para ‘sol’ é
o equivalente a ‘tudo’.”
“Mas o que os faz pensar...?”
“...criado por seus próprios executores num sistema de cotas
também fechadas, como um quebra-cabeça de que jamais se
terá uma visão geral até que fique pronto, emendas
anuladas quando visto de longe, um quadro na parede que evoque, no máximo,
uma noite em claro trabalhando, sem trazer consigo a lembrança
do caminho percorrido...”
“Entendi! Entendi! Imagens humanas, figuras de linguagem que só
um humano poderia entender, espalhadas na nossa mensagem!”
“É. E o pior é que começou antes disso, lá
naquela história de ‘beta-teste’, ‘software de
chave fechada’... toda aquela baboseira de máquinas pensantes
que os idiotas inventaram... Computadores, bah!”
O Instigador balançou a cabeça.
“É tudo culpa minha, senhor. Eu deveria ter notado, não?”
“Sim. Mas não há problema algum.”
O Centralizador estendeu seu pseudopode malcheiroso e coçou a parte
superior de sua caixa encefálica um instante, apenas o suficiente
para impedir o outro de ler um de seus pensamentos, e quando voltou à
posição habitual, conseguiu sentir a alma do amigo se despedindo
da rede, catapultada num fleche para os subterrâneos da instituição.
Voltou-se para o Assistente que à tudo observara, atônito.
“Tudo bem, meu amigo. Eu sempre pensei que você um dia chegaria
a instigador.”
§
Deitada em seu quartinho pobre numa cidadezinha do
sul do Brasil, Aninha suga o néctar de goiaba
que mamãe preparou na manhã quente em que a mana partiu.
A mão em garra, imóvel, segura o copo,
colocado ali estrategicamente para permitir que ela o beba enquanto assiste
a TV. Sob a bunda magra uma câmara de ar de bicicletinha de criança,
sob os cotovelos e calcanhares luvas cirúrgicas cheias d’água
para evitar a formação de escaras. Debaixo de tudo o colchão
“caixa de ovo” (ela sabe que é este o nome, e odeia
quando a mana chama de “casca” de ovo, onde já se viu?)
que recende a urina depois de tantos anos.
Anne sofre de paralisia cerebral. Anne nunca andou. Anne fala com dificuldade,
baba o tempo todo, só come papinhas e enche várias fraldas
por dia – mais do que mamãe ou a mana conseguem esvaziar.
Anne já teve psicóloga, terapeuta, fisio e fono e terapeuta
ocupacional; cateter de gastrostomia e convulsão.
O que a permite agüentar tudo, é claro, é a mamãe,
um doce.
É o padrasto que a faz rir o tempo todo, a irmã levada da
breca que está indo hoje para Curitiba encontrar aquele moço
que – ela já sabe – vai entrar e sair pela porta da
frente umas tantas vezes nos próximos anos, nunca pra ficar, até
a mana engravidar e casar com outro. É pra ele que vai contar sua
história, ele vai conseguir entender quase tudo que ela vai contar
com sua dicção amarrada; e ela até pode imaginá-lo
na sala, falando baixinho pra Dona Eva que acha ela incrível, que
é maravilhoso encontrá-la com tamanho bom humor depois de
tantos anos de cama
e doença, que é um milagre ela estar viva e tão bem
- enviando torpedos de ironia para quem conversa no quarto
ao lado ou na cozinha.
Ou quem sabe não. Mas não custa tentar.
A história não pode terminar assim: alguma coisa ficou por
lá. Quando entendeu, finalmente, do que se tratava, depois de ouvir
quase tudo o que aquela voz na sua cabeça queria dizer, quando
enxergou a única oportunidade que tinha de FALAR com aquilo, descobrira
o que fazer e lavrara um tento. A “coisa” não era mais
a mesma. Quando viesse a pensar no ocorrido, se viesse a pensar, a “coisa”
iria dar de cara com seu mundo, do mesmo jeito que ela o via, eternamente
ali na caminha, de frente para a TV, ao lado do computador que lhe descortina
um horizonte (que o padrasto lhe ensinara a usar com um mecanismo de sopro
trazido do exterior por uma alma boa), quase debaixo do quebra-cabeças
emoldurado que ela e a mana passaram uma noite montando. Dali onde estava,
não se via uma emenda, somente a sombra das cerejeiras em flor
de uma primavera em Osaka.
Neste dia então, talvez o trojan funcione e ela possa aprender
tudo a respeito das “coisas”. E se telepatia existir, realmente,
o namorado da mana vai sentar no seu computador e escrever tudo pra ela,
sem nem saber donde vem.
“Eu vou conseguir”, pensa Anne, enquanto seu pensamento divaga
em busca de outra alma que a aceite, e acolha, e transforme.
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| edição 74
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PRESENTE DIVINO
Uma história de amor, uma benção divina,
vidas reais ilustradas por palavras iluminadas de Zélia Campestrini.

Sicilian Mother por Mary Zarbano
Salete era casada há 17 anos.
Empresária, tinha uma casa grande e bonita, casa
na praia, carro do ano, barco, etc. Enfim, a situação financeira
era ótima e estável.
Vivia bem com o marido Josué, que a amava muito. Mas não
era completamente feliz. Faltava algo em sua vida para se sentir realizada.
Ela se sentia oca por dentro. Faltava um filho para preencher esse vazio.
Vivia amargurada, pois era estéril.
Rezava todos os dias, pedido a Deus, que colocasse de alguma maneira um
filho em seus braços, não importando a cor, raça
ou sexo. Ela receberia com amor. Amor era o que não faltava, ela
tinha de sobra.
Ela tinha certeza de que isso um dia ia acontecer e já amava esse
filho antes de o ter.
Certo dia, Salete saiu com uma amiga para ajudá-la a colocar cortinas
no escritório de uma empresa.
Ao passarem perto de um bar, ela notou em cima da calçada, uma
caixa
de papelão com algo dentro se mexendo.
Imediatamente parou o carro para ver o que tinha dentro da caixa. Coração
acelerado, um forte "queimor" no peito, ansiedade a mil, chegou
perto da caixa, abriu e ficou maravilhada.
Dentro da caixa, tinha uma criança, mais precisamente um bebê
recém-nascido. Lindo, o mais lindo que já tinha visto.
Quando o pegou no colo, aquele menininho abandonado, ali, carente e desprotegido,
sentiu que era seu filho. O presente de Deus que ela tanto tinha esperado.
Primeiramente foi a uma farmácia e comprou produtos de higiene,
mamadeira e leite. Depois entrou numa loja e comprou um enxoval completo.
Chegando em casa, deu um banho
bem gostoso, colocou roupinhas limpas, deu mamadeira e colocou o bebê
na cama.
Satisfeito, dormiu imediatamente.
Ficou olhando aquela criança dormindo. Ainda não se acreditando
tamanha a felicidade. Parecia irreal um sonho e tinha receio de acordar.
Telefonou ao marido para que viesse imediatamente para casa, conhecer
o filho que ambos tinham ganhado.
Pensando ser uma brincadeira, ele não se importou.
Ao chegar em casa, ela o esperava ansiosamente. Foi ao seu encontro, pegou-o
pela mão e o conduziu ao quarto. Surpreso, não conseguiu
acreditar no que via.
Depois que Salete narrou como tudo aconteceu, o primeiro impulso foi levar
o bebê para o Conselho Tutelar mais próximo e entregá-lo.
Mas quando o bebê acordou, Josué pegou-o no colo, se apaixonou
imediatamente. Não teve duvidas, decidiu adotá-lo. Ao olhar
aquele rostinho meigo, com olhinhos confiantes, teve certeza que era seu
filho, pois já o amava com intensidade. Era o filho que esperavam
à anos.
Darlan, hoje está com 13 anos. Vive feliz com seus pais adotivos
e agradece todos os dias por ter tido a sorte de ser encontrado por Salete.
Essa mulher maravilhosa que agora é sua mãe. |
| edição 71
|
Meus Amores
Zélia Campestrini

Tenderness por Ivan Koulakov
Menina ainda, olhos grandes e sonhadores
fitavam disfarçadamente um colega da 3ª série primaria.
Coração aos pulos, medo de ser surpreendida. Imaginação
a mil, sem mácula, inocente. Era o despertar do primeiro amor.
O primeiro beijo aos 14 anos, gosto de cuspe, língua se enroscando,
mãos apalpando..., que nojo! Apressadamente corri para o banheiro
escovar os dentes, lavar a boca. Beijos? Nunca mais.
Tudo mudou dois anos depois. Foi no casamento de um primo. Fiquei com
o gato mais lindo da festa.
Moreno, alto, olhos verdes, sorriso encantador. Beijos? Simplesmente deliciosos.
Casei às vésperas de meus 24 anos. Entre namoros e paqueras
encontrei o amor de minha vida. Namoro certinho, sexo nem pensar. Medo
de ser largada com barriga, vergonha, preconceito, foram fortes ingredientes
para ficar só nos amaços, valendo quase tudo. Depois o sentimento
de culpa. Casamento certinho, vestido branco, véu e grinalda. Durou
21 anos. Não me arrependo. Vivi momentos felizes e marcantes. Entre
eles foi o nascimento de minhas filhas. Três filhas maravilhosas,
lindas e que sempre apoiaram minhas decisões.
Detesto ficar sozinha. Tive outros amores. Um homem que a principio parecia
ser bom. Adivinhava meus pensamentos, me enchia de mimos, comidinha gostosa,
café
na cama,
carinhoso e atencioso. Um verdadeiro sonho. Do deslumbramento ao desencanto
foi um pulo. Junto com as bebedeiras surgiram as brigas, desentendimentos
e agressões, pondo um fim ao que parecia ser eterno.
Outro, nada bonito, baixinho e careca. Com seu jeitinho manso, carente,
querendo colo, bom papo, conquistou meu coração. Foi bom
enquanto durou. Ninguém engana para sempre. Um dia a máscara
caiu. Tem homens que não conseguem viver sozinhos, precisam de
uma mulher, não para ser esposa, companheira, mas uma empregada
para ele e seus filhos, babá para os netos. Empregada sem remuneração
e sem direito a reclamações. E à noite estar bonita,
cheirosa e disposta para que ele satisfaça seu apetite sexual e,
logo após virar as costas e roncar.
Tenho dois amores, amores estes diferentes dos já citados. Dois
netos que são a razão do meu viver, meus tesouros, minha
vida. Ambos loiros. Ela com 4 anos, olhos verdes. Ele com 7 meses, olhos
azuis. São duas preciosidades, meu orgulho. Avó é
ser mãe duas vezes.
Jamais me arrependo daquilo que faço, mas do que deixei de fazer.
Não sou mulher de "chorar o leite derramado". Cada etapa
de minha vida vivo intensamente.
Deus não fez o homem para viver só. Fez homem e mulher para
se completarem.
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