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edição 80
Parecia uma bonequinha
Conversa entre dois arianos por Géssica Hellmann

por Zélia Campestrini

 

Casada há apenas seis meses, fui ao laboratório fazer o teste de gravidez.
Ao pegar o resultado, decepção. Negativo.
Fiquei deveras frustrada, pois já me sentia "completamente" grávida.
Amassei o
papel e joguei-o fora.
Fui ao médico.
Ele prontamente me atendeu e confirmou o que eu já suspeitava. Grávida de um mês e meio.
Cheios de alegria, meu marido e eu, contamos a todos, para que compartilhassem nossa felicidade.
Minha mãe fez-me um vestido, que eu nunca cheguei a usar. A barriga não cresceu ou, melhor, cresceu tão pouco que nem se notava. Usei até a ultima hora as mesmas roupas de antes.
Aos trintas minutos da madrugada do dia 24 de março, numa sexta-feira santa, com oito meses incompletos, rompeu-se a bolsa d'água.
Ao chegar na maternidade, a parteira olhou-me penalizada e falou:
- Mais um aborto!
Com raiva, indignada, retruquei, ríspida.
Internação. Sendo feriado, a sala de espera enchia-se de espectadores. Alguns mais nervosos do que os outros.
Todos, principalmente meu sogro, torciam para que fosse o bebê fosse um menino, o que daria continuidade ao nome da família.
Ainda bem que eu não era influenciável. Do contrário, teria entrado em pânico.
Só recebia palavras "encorajadoras":
- Que pena!
- Não vai sobreviver.
E assim por diante.
O parto foi induzido. Depois de uma longa espera nasceu minha primeira filha. Uma menina, pequenina, parecia uma bonequinha, de tão miúda.
Eu tinha certeza que seria uma menina. Intuição de mãe nunca falha.
Géssica nasceu com 42cm e 2,150kg. Não dá para transcrever tamanha emoção.
Ao receber alta, tristeza imensa.
Não podia levar a bebê. Por ser prematura, tinha que ficar na incubadora até adquirir peso.
Chegando em
casa, entrei no quarto e, ao olhar o bercinho, senti um vazio, uma dor percorrendo todo o meu ser.
Durante os 21 dias que ela ficou internada, sem falhar um dia, meu marido levava o leite materno que eu tirava durante a
noite.
Finalmente pude trazer Géssica para casa. Ao dar-lhe
banho, foi à primeira vez que a vi sem roupas. Era miudinha. Pesava agora só 1,800kg. Os braços eram fininhos e as pernas da grossura de um dedo polegar. Cabia numa caixa de sapatos.
Era a preferida do vovô... Ao chegar na igreja, para a missa dos domingos, não tinha para mais ninguém: vovô já a esperava na porta, ansioso por pegá-la no colo.
Ainda pequena com 10 meses de idade, surpreendi-a sentada embaixo de uma goiabeira, comendo uma suculenta
goiaba dada pelo avô.
Fiquei sem ação, quando verifiquei que a fruta estava podre.
Pensei comigo mesma:
- O que não mata engorda.
Independente da goiaba estragada, Géssica desenvolveu-se a olhos vistos.
Hoje com 28 anos casada e com um filho, vive o direito sublime de ser esposa e mãe.

 

 

edição 79
El BombachudoRico Lopez - Ofering - Arte Corporalidade
Ofering por Rico Lopez

por Sônia (Anja Azul)

 

A irmã de criação era menor, mais desmilingüida e também mais ladina e tinha uma tarefa singular.

Toda madrugada iam pra roça com a mãe emprestada.

Lala, era este o apelido da "mãe", colocava a pequena no alto de um coqueiro, e lá ela passava o dia de vigia, enquanto as duas capinavam.

A maioria dos dias eram monótonos e nada acontecia além da parada para o almoço comido ali mesmo na sombra da árvore.

Mas havia dias de escaramuças e correrias. Era quando a pequena se empertigava no alto do coqueiro e gritava a plenos pulmões:

- Corre que lá vem o Bombachudoooo!

E aí sim! Era aventura, corre que corre, colocando os bofes pra fora, deixando enxadas e foices pelo caminho, um longo caminho pelo mato até a casa que ironicamente ficava a uns metros da casa do dito cujo.

O Bombachudo! Ela podia ver da janela se quisesse. Mas dava-lhe medo, dava-lhe arrepios. As poucos ele foi se transformando no verdadeiro Diabo de Botas. Aquele homem até bonito e enorme, vestido a la gaúcha, de bombacha e esporas, tinha também um nome bonito. Mas era o Diabo e nem sabia porque.

Foi saber mais tarde, quando lhe vieram as regras e, sendo então "moça regulamentada", pôde se inteirar mais um pouco do por que de tão loucas medidas de segurança.

Lala era solteira, morava na roça com a mãe velhinha, criava duas meninas, das quais a mais velha era minha mãe.

Apaixonada por um moço, desprezava Bombachudo, que era seu cunhado, casado com sua irmã e apaixonado por ela, que morava perto. Ele a perseguia. Não permitia seu namoro.

Um dia ela ficou gràvida. Não se sabe se do noivo ou do cunhado, pois desconfiava-se de estupro ou coisa assim. Naquele tempo, não se comentava nada dessas coisas. E o que aconteceu com o seu noivo nunca se soube ao certo. Dizem que sofreu uma surra e desapareceu. Uns dizem que morreu. O certo foi que sumiu.

Triste com isso, ela perdeu seu filho. Então vivia seus dias a se esquivar do cunhado, meio louco e violento que não a deixava em paz.

O tempo passou e Lala envelheceu sempre só. Veio pra cidade grande, trabalhou demais, criou netos emprestados e morreu aos 90 anos. Antes disso, mil peripécias, como o roubo do flamingo, os partos à moda facão no hospital enjambrado da colonia alemã, assessorando o aspirante a médico que salvou muitas vidas. E as "mil" cirurgias de apêndice das quais participou acompanhada da "filha menor" que lhe ajudava a transportar os cadáveres à morgue. Mas isso fica pra outra novela.

edição 78
O MOÇO DO ÔNIBUSIvan Koulakov - Bus stop - Arte Corporalidade
Bus stop por Ivan Koulakov

por Zélia Campestrini

 

Pegava o ônibus todos os dias, no mesmo horário, para ir ao trabalho.
Ao passar pela roleta, no primeiro banco, um moço bonito, loiro, de olhos azuis, olhava para mim sorrindo.
Tímido, foi se achegando aos poucos.
Já não sentava certinho, ocupava agora os dois lugares, ficando meio atravessado nos bancos, impedindo assim que outros sentassem.
Além do sorriso encantador, também me era oferecido um lugar para sentar.
Certo dia, precisamente num domingo, minha irmã convidou seu catequista para almoçar.
Ajudei-a nos preparativos e combinamos sair à tarde para dançar.
Qual não foi minha surpresa, quando minha irmã apresentou seu convidado.
Era "o moço do ônibus".
Entre surpresos e admirados, ficamos nos olhando com cara de abobados.
Depois das apresentações, já refeitos do susto, seguiu-se um almoço agradável.
Mais tarde no salão dancei com vários rapazes.
Com "o moço do ônibus" dancei uma só marca.
Lembro-me até hoje, de seu jeito tímido e desajeitado convidando-me para dançar.
A música que tocava nada romântica, era de Silvio Brito.
Cujo título, se não me falha a memória, era "Farofa-fa".
Encontramo-nos no outro final de semana, no baile dos "calouros".
Agora sim, dançamos bem juntinhos, ou melhor, agarradinhos, até o amanhecer.

edição 77
Ritual Mary Zarbano - Guardian - Arte Corporalidade
Guardian por Mary Zarbano

por Sônia (Anja Azul)

Nos últimos tempos tinha insônia. Andava como um zumbi pela casa. Sempre me acordava.
Fazíamos o ritual da paçoca de ovo.
Quando eu era criança, sempre que estava triste ou perdia o sono ela convidava:
-Vamos comer uma paçoquinha?
Aquilo acalmava! Eu e ela no silêncio da madrugada, comendo no mesmo
prato, no aconchego da cozinha.
Conversávamos sobre tudo e todos, sobre planos, futuro e passado.
A cozinha era mais confortável. A geladeira tinha mais guloseimas. Mas a farofa era a mesma. Era o que confortava. Aliada ao
café preto.
Deu pra fazer confidências, se abrir em detalhes, confessar fraquezas. Os papéis aos poucos se invertiam.
De filha passei a ser mãe. De mãe passou a ser filha.
Durante o dia tinha momentos de silêncios perturbadores. Via o medo nos olhos dela. Tentava descobrir no que pensava. Perguntava, insistia. Ela se exasperava:
--Vai te arrumar rapariga. Não tenho nada.
Hoje eu sei no que pensava. No tumor que lhe comia um seio. Que devorava as esperanças de ver o neto crescer, que lhe privaria de me acompanhar como sempre havia feito.
Um dia não deu mais pra esconder. Emagrecia demais. E tinha dores. Me chamou assim do nada:
--Veja o que tenho aqui.
Quando toquei naquele caroço enorme como uma laranja. Senti o chão sumir, o céu rodar. Um frio invadiu minha alma e até hoje está aqui.
Não conseguia me perdoar. Logo eu que cuidei tanto. Levava-a regularmente ao médico, ao cardiologista, quase à força, fazia exames gerais, controlava pressão, coração, colesterol, a PQP. E não vi aquilo. Não viram aquilo.
Ela se recusava a ir ao ginecologista. Pudores antigos que não consegui remover mesmo que tenha tentado.
Sorri!
--Ora mãe arranjaste isso agora é?
Não há de ser nada! Coisa fácil de resolver! É só operar fazer tratamento! Nem se apavore que a medicina está muito avançada! Pode nem ser maligno! Vai ver é só um cisto!
Segurei o quanto pude. Me tranquei no quarto e chorei. Caia uma tempestade e os trovoes abafavam meus soluços.
Assim minha melhor amiga, meu anjo da guarda, foi se despedindo da vida.
Teve ânimo até ouvir o veredicto da médica um mês depois.
- É câncer!
Eu e meu irmão a deixamos sentada e fomos cada um buscar um exame. Nos encontramos atordoados, cada um com exame pior que o outro. Resolvemos falar escondidos com a médica:
--Não fale que é câncer por favor. Ela não vai suportar.
Concordou. Mas quando ela perguntou a tratante respondeu:
--É câncer. E não dá mais pra operar e o que resta é tomar uns comprimidos.
Meu irmão quase a esganou. Sempre foi muito estourado. Eu apazigüei.Enrolei. Pelo menos na parte dos ossos se desfazendo menti que era osteoporose e ela acreditou.
Dali em diante os dias correram sem que eu enxergasse. Só olhos para ela. Sempre sorrindo sempre acalmando. Minimizando terrores.
As dores aumentando.
Em uma semana ela foi silenciando. Os olhos perdidos. Quase não estava mais ali.
Um dia sentia muita dor eu apareci com uma blusa de algodão, macia pára substituir o
sutiã. Ela disse:
--Que seria de mim sem você. Sempre encontra solução para tudo e me estendeu a mão.
Fazia isso seguido, em silencio, apertava a minha mão com tanta força.
Sua última preocupação lúcida, foi com a sopinha de Gabriel, quem faria? Se só ela fazia? Pediu a uma parente cortar cenouras, abóboras, tudo e congelar. Não sossegou enquanto não viu feito. Chegou o momento adiado de ir as pressas para o hospital. No carro ela olhava para cima, pela
janela. Vendo céus e arvores passarem vertiginosamente.
No Hospital a tortura. Espera por leito. Foi perdendo a razão. Ouvia uma criança chorar. Maldita criança que chorava sem parar.
--Vai ver esse menino. Deve estar com fome!
--Vai ali na cozinha me traz um chazinho.
Não tinha chá mas água roubada das enfermeiras.
--Hum bom o cházinho.
--Fecha as janelas está tão frio.
Sentiu fome, Não tinha nada pra dar-lhe e não podia abandona-la. Pedi uma bolachinha para um velhinho só pele e osso agarrado ao soro. Ela não conseguia comer.
Encontrei uma sala vazia e a coloquei longe dos gritos e fui a procura de um médico, alguém que me ajudasse. Ouvi seu gritos de longe pelos corredores.
---Filhaaaaaa! Não me abandones!
Voltei correndo. E sofri.
Roubei um lençol de uma sala e a enrolei nela na cadeira de rodas. Consegui arrastá-la sozinha até o
banheiro.
--Você sempre resolve tudo. Você é meu anjo da guarda.
Agüentar! Sem chorar! Sem ter pra onde correr nem ninguém pra ajudar.
Minha irmã ficara em casa com meu filho de seis meses que eu não via a mais de uma semana. Meu irmão viajando. E o hospital era o Clinicas. Sem vagas, sem leitos, sem esperança.
Trocou mais um plantão e surgiu aquele anjo disfarçado de médica entendeu a súplica no meu olhar, e conseguiu um canto para minha mãe.
Durou pouco. Chegou a ver meu irmão. Mas viu-lhe menino, moleque. Passou-lhe um sermão que estava com a camiseta molhada. Duma hora pra outra ficou cega. E só ficou viva porque esperava apertar a mão de minha irmã mais velha.
Quando trocamos de lugar e fui atender meu filho que queimava em febre, minha irmã foi vê-la. E ela morreu nos seus braços.
Senti o momento de sua morte. Vinha do médico com meu filho no colo. Magrinho, vomitando, doente, e senti.
--Ela morreu! Acabou-se! Nunca mais uma amizade sincera assim. Nunca mais ter alguém pra contar as coisas, pra vibrar junto. Nunca mais!
Mas o menino chorava! E queria meu seio. A vida continuava. E lembrei do que me disse:
--Eu já vivi. Agora é a vez do menino. Caminha cuidar dele!

edição 76 Erico Portrait - Andrzej Tomasz Mielniczek - Arte
Portrait por Andrzej Tomasz Mielniczek

por Zélia Campestrini

 

Erico, moço bonito e charmoso.
Apaixonou-se perdidamente por moça de cidade vizinha.
Saíam juntos quase todos os finais de semana. Só na amizade.
Tanto ele insistiu que ela cedeu.
Foram a um baile na véspera do natal e ela resolveu dar uma chance.
Ficar por um tempo, sem compromisso.
Erico foi às nuvens, cheio de esperança.
Entrou em casa aos pulos, cantando, feliz da vida, abraçou a mãe, encheu-a de beijos.
Conseguira o que mais queria no mundo.
Só que essa alegria durou pouco, apenas uma semana.
O que ela sentia por ele era realmente só amizade.
Um final de semana radiante, outro desolador.
Pobre Erico, chorou, implorou, mas não adiantou.
Promete casa bonita, carro, empregada. Vida de rainha.
Prometeu também amor, muito amor. Que ele amaria pelos dois e com o tempo ela aprenderia a amá-lo.
Para ela não bastava.
Não era o suficiente para uma vida a dois.
Encontravam-se ainda uma vez ou outra.
Ela arranjou um namorado e casou.
Ele casou logo depois. Teve dois filhos.
A vida, mais uma vez, foi injusta com Erico.
Perdeu a mulher e o filho num acidente de trânsito.
Casou-se pela segunda vez. Passando alguns anos a mulher abandonou-o.
Frustrado e solitário apegou-se à bebida.
Foi a ultima notícia que tive dele.
Faço votos de que tenha encontrado a paz e a felicidade que ele merece.

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