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edição 85
SUBLIME PERDÃO
Katie Skipper - Under the table - pinturas e leituras
Under the Table por Katie Skipper

por Zélia Campestrini



Carmen, a mais velha de numerosa prole, embora ainda nova, foi morar na cidade para trabalhar.

Viu-se grávida com apenas dezesseis anos.

Mãe solteira, na época, nem pensar. Casou-se antes que a barriga aparecesse.

Despreparada e sem experiência, teve que enfrentar tripla responsabilidade: esposa, mãe e dona de
casa.

O marido a cercava de mimos. Amor, carinho, dedicação e muita paciência.

Apesar da vida precária que levava, Carmen era feliz. Desta união resultou o nascimento de seis filhos.

Enquanto ele trabalhava para o sustento da família, ela se desdobrava para dar conta da casa e dos filhos.

Não tinha eletricidade nem água encanada, a tarefa era árdua. Não reclamava e sonhava com dias melhores, sem imaginar que o pior estava por vir.

Darci não era mais o mesmo. O vício da
bebida dominou-o de tal maneira que fez da vida um inferno.

Sete anos de sofrimento e desespero. Carmen já não o amava mais. Só não o abandonou por ser o pai de seus filhos e por consideração aos anos felizes que viveram juntos.

Nesses sete anos, Darci foi internado várias vezes, sem resultado. Ele não admitia que precisasse de ajuda.

Os filhos cresceram vendo o pai naquele estado, privando-os, às vezes, de comida, para comprar cachaça.

Certo dia, Carmen recebeu um telefonema de uma clinica, pedindo que levasse produtos de higiene para Darci.

Darci, num raro momento de lucidez, sem contar para ninguém, foi procurar ajuda e internou-se sozinho, numa clinica especializada em recuperação.

Quando saiu, depois de meses, era outra pessoa. Com determinação e força de vontade, contando com a ajuda da família, conseguiu se reabilitar;

Depois da tempestade veio a bonança. A família recebeu-o de braços abertos.

O amor que Carmen pensava estar morto estava apenas adormecido. Qual Fênix ressurgiu das cinzas com vigor redobrado.


 

edição 84
Paraná 92
Di Magalhães - Largo da Ordem
Largo da Ordem por Di Magalhães

por Renato Bach


Meu domingo sonolento se encanta do Paraná

& das coisas que em suas terras acontecem

& e do que deixei aqui há quinze anos atrás.

Curitiba onde as pessoas deixavam o carro em casa e iam ao centro de ônibus, porque era mais rápido e barato. Podia-se atravessar a Rua das Flores a pé, na madrugada, com segurança. Depois do fervo, o verde do Passaúna, mirante dos nascentes. De manhã o Museu de Arte Sacra, no Largo da Ordem, onde repousa o velho altar da primeira Matriz. Trajes antigos do clero, pirogues e todas as comidas imagináveis (da pamonha aos tacos, veggies nos restaurantes do casario, sanduíches e sopas e japas), clowns e artistas plásticos, poetas debaixo da poesia de Leminski, louça, prataria, antiguidades em geral; hippies e moderninhos, senhoras, senhores, crianças e a moçarada cantando chorinho com os avós, tudo em uma só manhã. À tarde um lanchinho na choperia ou nos cafés que se espremem no fundo das galerias e seus cinemas, no Centro velho, pedestre, civilizado, onde se passeia com tranqüilidade. Volta a noite e os lugares enfumaçados de gelo seco e cigarro, dançar escondido do fog e do frio onde habitava uma alma cinzenta pronta para te tragar para dentro de si mesma e te fazer esquecer do sol. Mesmo porque o dito cujo não aparece, languidamente ensimesmado atrás das nuvens.

Conhaque flambado, blue curaçao-vodca, martini, tônica e limão no OVNI, whiskey com suco de laranja e licor de amêndoas na Hell.

Havia em Curitiba, naquela época, tal profusão de artistas que era óbvio que se estabeleceria uma comunhão bastante ampla com o público. Teatro participativo, escolas de circo, recitais, palestras e aulas práticas de música, cinemas de arte e salas de espetáculo em profusão. Bares de jazz, de blues, de reggae, cordialidade entre as tribos, lugares GLS antes mesmo da sigla ter sido inventada. E as meninas junto, sem caô, jogando pebolim no Circus Bar. Freqüentavam-se lojinhas da moda, passeava-se no centro e encontrava-se as mesmas pessoas depois, no restaurante ou na boate. Convivendo nos mesmos lugares, acabávamos por conhecer “todo mundo”.

Duas histórias do Poe me arrepiaram os cabelos. A primeira para pouco mais ou menos de vinte pessoas, num castelinho que viria a ser demolido. Jantamos com os atores, entre fartas doses de vinho, seguimos os desenrolar dos acontecimentos até a Biblioteca, aos quartos estranhos e corredores escuros da loucura. A segunda, “A Máscara da Morte Rubra” no sótão do Teatro da Fábrica, uma noite de delírios narrativos, sete colunas para sete salões.

Os cines Luz, Ritz e Groff ensinando cinema de graça prá gente. A Tabalipa no Museu Alfredo Andersen. O show do Hermeto no Paiol terminando com o bumbo na praça. A Cássia Eller no AeroAnta. O X-Picanha no Waldo.

Subir a Serra para Ponta Grossa, descê-la para Paranaguá. Pela estrada nova é rápido e seguro, pela Graciosa o nome diz. Morretes o pedacinho de trópico do pequeno litoral de apenas cento e oitenta quilômetros, fincada no cheiro do barreado, da pinga de banana, peixe e farinha. Antonina e Guaraqueçaba sempre nas paredes da casa, pelo pincel de Jacobus van Wilpe ou Kurt Boiger. No segundo planalto, vales, rios, capões de mato entre as colinas, onde corre a água em seus veios, demarcando os lotes, os municípios e os corações. “Sempre a água”, dizia meu avô, “mãe da vida.” As cachoeiras dos Campos Geraes, que Saint-Hilaire considerava o repouso do mundo. O drama da Fazenda Fortaleza, onde o bisavô de meu amigo viu a esposa servir os dentes imaculados e elogiados da escrava que o marido ousara elogiar e, ato contínuo, acorrentou-a no porão. Os grossos volumes da “História” do Professor Davi Carneiro expostos na Biblioteca Bruno e Maria Eney.

Um pouco antes de ir embora, o adeus dos amigos escamoteia o sono e o coração aperta. Sei que voltarei outro, só não sei quando. Sei que sentirei falta, só não sei quanto. Acordo e estou novamente aqui, não sei como, nem sei porquê. Da janela vejo um pinheiro que me conforta, no vizinho um eucalipto, na viagem passo por Carambeí. Acordo com os sabiás e aguardo o frio com ansiedade, que é para poder pensar melhor.

(artigo publicado no caderno Almanaque do jornal O Estado do Paraná em 11 de março de 2007)

 

edição 83
Férias em Itapoá
Pierre Guillame - Uluwatu Jimbaran, Bali - Pintuas e Leituras
Uluwatu Jimbaran, Bali por Pierre Guillame.

por Zélia Campestrini


Nossa casa de veraneio em Itapoá.
Quase todos os fins de semana.
Os mais esperados são os das férias de final de ano.
Contamos os dias ansiosas e nos preparamos com antecedência.
Cada uma arruma sua bagagem.
Lílian, com apenas 4 aninhos, já arruma sua mochila sozinha. Como passamos as férias inteiras em Itapoá e, em dias chuvosos, costuma esfriar um pouco, ela é a única que se lembra de levar agasalho.
Enquanto Géssica e Karin enrolam-se em toalhas, Lílian exibe-se com roupas quentinhas.
Adriano, Diogo e Evandro, filhos de meu irmão Pedro, mais ou menos com na mesma faixa de idade das minhas filhas, passam as férias conosco.
Imaginem seis crianças juntas.
O quanto não aprontam.
..
Evandro, o menor de todos, chama-me "mãe Zélia".
Pensa que a praia inteira é minha.
Faz amizade facilmente.
Itapoá tem poucos veranistas e ele brinca tranqüilo, enquanto minha cunhada Silvia e eu lagarteamos ao sol.
Ficamos preocupadas.
Diogo desaparece.
Procuramos por toda a parte, principalmente na beira da praia.
Depois de algum tempo, já aflitas, avistamos Diogo tranqüilamente pescando num córrego fétido, uns peixinhos que ele exibe alegre, como troféus.
Pena que não temos filmadora...
Como nesta ocasião em que Géssica pega carona em uma prancha de surf. Brinca na água, quando um surfista com a prancha desgovernada vem em sua direção. De costas, a menina só percebe o que acontece quando se vê sentada na prancha deslizando sob a água.
Não sei quem está mais pálido, se o surfista ou Géssica.
Karin e Diogo adoram soltar pipa. Uma delas se solta e eles correm atrás. Já exaustos, param quando a pipa se prende num telhado. O dono da casa, que certamente não teve infância, negou-se a devolvê-la. Os dois promovem um tal alvoroço que o homem, para se livrar deles, acaba devolvendo a pipa.
Silvia faz deliciosos bolinhos de espinafre. Frita uma bacia repleta, o trabalho de uma hora, que em cinco minutos desaparece.
Na hora de comprar
pão, ninguém quer ir. Vergonha de andar na rua carregando uma sacola com trinta pães. Isso duas ou três vezes ao dia.
Itapoá querida! És o cenário de uma fase que muito marcou nossas vidas.
Tantas as lembranças, tão presentes, de vinte inesquecíveis anos passados.

 

edição 82
Tic tac tic tac
André Netto - Série Tempo  - Pinturas e Leituras
Série Tempo por André Netto

por Sônia (Anja Azul)



Cresci cercada de relógios.
Marcando todas as minhas horas
Sobre o armário vazio nada dentro
Na
mesa carcomida pelo tempo
Tic tac carregado pelo vento
foi assim uma vez outrora.

Meu pai era super...super tudo.
Funcionário público ...no tempo em que as vacas eram magras...magérrimas.

O que nos salvava ...dia-a-dia
era sua criatividade.

Aprendeu a consertar relógios... só olhando. Ia todos dias depois do trabalho visitar um relojoeiro, na maior cara-de-pau...e aprendia.

Criou fama...consertava qualquer relógio em casa, por mais estragado marretado que fosse.

E as ferramentas? De normal, só uma lupa de encaixar no olho.
O resto era cômico.
Cõmico se nao fosse aquilo que, às vezes, garantia alguma carne de pescoço disfarçada na polenta.

E a missão impossivel? Para chegar à porta do tal relojoeiro, tinha que lutar e usar de raciocinio e reflexos rápidos pra driblar os dois gatos angorás, intragáveis e ariscos, que faziam as vezes de guardiões do templo.
Todas as noites esperava-o ansiosa pra saber como fora mais uma aventura de meu pai herói e os terriveis gatos ninjas.

Meu pai lutando com um relógio... Armado de martelo e uma faca,
um garfo, um grampo... Altas horas da noite. Foi um precursor de "Magaiver" (é assim que se diz?).

edição 81
Lavando o passado....deixando quarar
Enrico Bianco - Lavadeira - Pinturas e Leituras
Lavadeira por Enrico Bianco

por Sônia (Anja Azul)

 

"Ensaboa mulata ensaboa ensaboa ....Tô ensaboando!"
Mamãe era inventiva na hora do aperto tinha a saída.
Lavava roupa "pra fora".
Com água do poço de água salobra.
Memórias de um imenso quarador gramado coberto de roupas rebrilhando ao sol cheiro de sabão hummmm anis.... bonequinhas de anis (ou seria anil?).
Meu sonho era conseguir pegar umas e brincar.
Difícil mesmo. Melhor era me contentar em roubar colheradas do
leite em pó doado pela Legião e guardado a sete chaves...
A noite vinha o melhor...
A mãe na frente e eu e o mano atrás...vamos equilibrando trouxas de roupa cheirosa pra entregar...
Atravessar o campo deserto... no escuro... uma façanha.
Mano sempre zombando cutucando... jogando pedrinhas e gritando òia a cooobra! Só pra me ver gritar!
Mãe resolvia...distribuía dois cascudos com uma só mão.
Era pra já!
Mas aquela noite não foi legal.
Chegando lá, madame cismou: Tá faltando uma camisa.
Mamãe acabrunhada!
Eu detestava que humilhassem minha mãe.
E agora?
Se dependíamos do pagamento pra jantar aquela noite?
Ai que remorso! Fizemos tanta folia no caminho...
Será que deixamos cair?
Voltamos... tateando no escuro daquele campo sem fim... onde onde?
- Mamãe não chora que a gente acha!
Achamos não.
Era dormir sem comer... esperar o dia raiar.
Cedo... bem cedo... Ela sozinha achou... a bendita camisa trouxe pra
casa relavou... passou...
E foi entregar com orgulho.
E a vida seguiu seu curso.

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