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edição 90
Erna und Alfred
Gladys Reynell - Old Irish Couple - Pinturas e leituras
Old Irish Couple por Gladys Reynell

por Renato Van Wilpe Bach

 

“Toque mais um pouco, meu filho”, dizia o pequeno grande homem, sentado a meu lado no banco de praça instalado no jardim. Um pouco surpreso com seu interesse, eu atendi seu pedido com prazer, esgotando rapidamente o escasso repertório de violão clássico aprendido até então.

Tocaria ainda algumas vezes para meu bisavô, porém nunca mais no belo recanto que ele criara em honra da esposa, gravemente doente e restrita ao leito. Ali seu espírito de espírito de artesão e inventor tivera um último lampejo, quando com mais de oitenta anos resolvera por abaixo o galinheiro e parte do pomar para presentear minha bisavó com um lugarzinho para tomar sol.

Logo o pedaço de terra, espremido entre a casa e a indústria que capitaneara por tantas décadas, mostraria o que só ele, quase cego, conseguira entrever: um espaço nada tímido de grama, flores e luz – arrematado pelo tal banco de praça para os dois namorarem, é claro.

Hannah, a enfermeira, descia com a Omama no colo, esperando nem sempre em vão por um momento de sua lucidez. Sentados ali, Alfred e Erna Kindler se entendiam através de longos silêncios, interrompidos apenas pelo canto dos passarinhos que os vinham saudar.

“Como está frio lá fora”, dizia o Opapa agora na cozinha, em “seu” lugar à janela, onde tocava o vidro displicentemente, disfarçando a debilidade da visão.

“Ele é tão respeitoso”, dizia Erna baixinho, referindo-se ao “senhor que dorme no meu quarto todas as noites”. “Ele só me faz um carinho na mão e fica lá, ao meu lado, não incomoda nadinha”.

Foram sempre água e vinho, aqueles dois. Bem, pelo menos é o que se conta a respeito. Alfred gostava de praia: construiu uma casa em Caiobá onde ela nunca botou os pés. Já Erna gostava do campo: adorava visitar a chácara da filha mais velha em Ponta Grossa. O boliche dele nas quintas-feiras à noite era sagrado, mas ela nunca foi lá muito fã de noitadas – preferia a família reunida, a casa cheia e os grossos cobertores de pena-de-ganso em uso. Mas eram ambos muito hábeis com as mãos. As compotas e conservas feitas pela Omama duraram mais que a doença ou ela própria, sendo abertas intactas anos depois e encontradas como se tivessem sido feitas ‘inda ontem. E das indústrias Kindler e Cia., desde os anos trinta funcionando na Rua Senador Xavier da Silva, pertinho da fábrica dos irmãos Mueller, saíram torneiras, chuveiros, bombas de encher bolas e pneus de bicicleta, bem como todo tipo imaginável de artefatos de metal, até instrumentos cirúrgicos quando estes eram caríssimos e raros de se encontrar.

As filhas e genros se revezariam em cuidados extremados para com ambos, quando a idade e a velhice assim o determinaram – por mais que Alfred jamais admitisse precisar de cuidado algum. Dirigira a velha Kombi bege por anos sem que ninguém soubesse que só lhe restara um quarto da visão de um olho. Mais tarde, já praticamente cego, empertigava-se todo quando alguém sugeria que este bisneto primogênito já lhe ultrapassava a altura. “Nein, nein, ainda não...”

Não se dobrou sequer à morte da esposa, certa madrugada em 1983. Avisado pela doce e firme Hannah – e contra o conselho desta – esperou o dia amanhecer ao lado dela, segurando sua mão pela derradeira vez. Suportou o féretro em pé, consolando mais do que era consolado, até desabar emocionado no carro do filho. Apesar da saúde de ferro, viria a falecer uns meros seis meses depois.

O interessante é que em minha cabecinha de criança, tudo isso era normal, apenas uma parte boa e feliz da vida familiar. Só a idade, e o tempo, despertariam a consciência de ter presenciado um milagre. Os Natais e as páscoas na imensa casa de meus bisavós, o gosto da comida da Omama, os passeios pela fábrica que o tato do Opapa conhecia de cor, as longas conversas na sala de estar, o colo de ancestrais que tão poucos de nós logram conhecer...

De tudo isso, contudo, algo jamais escapou ao meu entendimento, por mais criança que o fosse: o exemplo de um amor que nunca precisou se preocupar em “dar” exemplo – estava sempre lá, simples e direto como um perfume que preenche invisível um cômodo, uma casa, nossas vidas. Verdadeiro milagre, neste mundo carente de um.

(artigo publicado no caderno Almanaque do jornal O Estado do Paraná)

 

 

edição 89
Prato Principal
Joel Kass - Hug - Pinturas e Leituras
Hug por Joel Kass

por Zélia Campestrini

 

Papai era homem da roça, não se adaptou na cidade. Parecia um peixe fora d'água.

Moramos oito anos numa chácara, onde meu pai era caseiro. Nunca deixou de fazer sua rocinha. O que ele mais gostava era de lidar com a terra.

Quando chegava em casa à noite, era ele que fazia a polenta. Polenta feita no tacho de ferro (parol) com fubá comprado diretamente da tafona. Era o prato principal de todas as noites.

Eu era a queridinha do papai. Ele era um homem rude, de poucas palavras, onde com sua austeridade impunha respeito.

- Calça comprida é pra homem!

Não tinha argumento.

Andava de lá pra cá, à sua frente, envergando uma bonita pantalona branca.
Minha irmã, segurando uma calça comprida dentro de uma sacola, espiava nervosamente o desenrolar da cena.

Conforme o desfecho, ela sairia disfarçadamente e trocaria de roupa no caminho, que era provido de um vasto matagal.

Jamais me sujeitaria a isso. Sairia pela porta da frente devidamente trajada e com aprovação total.

Mostrei a ele as inconveniências da saia, na hora de sentar, dançar, fazendo gestos e poses exageradas.

-Pode ir, só não passa em frente da igreja.

Pulei em seu pescoço, abraçando-o e enchendo-o de beijos.

Desde pequena era assim. Sempre dava um jeito de conseguir o que queria. Primeiro sentava em seu colo, abraçava, beijava, cheirava o pescoço, e ele sorrindo perguntava o que era dessa vez.

Nos dias frios de inverno, aquecia-mos ao sol fazendo mil brincadeiras. À noite tiritando de frio, achegava-mos na "lareira" um rústico fogão à lenha.

Papai sentado em frente ao fogão, assava
amendoim, pinhão ou batata doce. Mesmo tendo três irmãos menores, o colo era meu.

No dia 06 de outubro de 1971, papai nos deixou, depois de uma prolongada e sofrida doença, foi definhando até que seu espírito elevou-se, desprendendo-se do já debilitado corpo.

Com o passar dos anos ainda guardo na memória, nitidamente a imagem de meu pai. Que em vida, nunca recebi reprimendas físicas nem verbais, só recebi amor.

Quando anoitece, Olho para o céu e vejo um clarão alumiado, sei que é papai que está em frente de um grande fogão á lenha, fazendo uma baita polenta pro pessoal lá de cima.

edição 88
Filé mignon e pastel
Annie Robinson - Mother and Daughter - Pinturas e Leituras
Mother and Daughter por Annie Robinson

por Sônia (Anja Azul)

Minha mãe era do lar... Do lar e 1001 utilidades.

Acordava às 5 horas e ia pruma área fria, um "puxadinho" nos fundos da casa, fritar pastéis num fogareiro.

Fazia os pastéis mais deliciosos e cobiçados que ja desejei.

Saudade! Só se comia vez por outra em horas solenes... Todos tinham um destino... O balaio que meu irmão carregava e voltava vazio horas depois.

Ás 6 horas, a porta da frente se abria... No meio da neblina, seu Pedro e filha Clara, menina arteira, rechonchuda, dois anos talvez, e eu com meus 5 ou 6 anos, ja a postos pra preparar a menina... Que minha mae pegou pra cuidar, mas nao conseguia, ás voltas com os pastéis.

Ô minina arteira... Que gostava tanto de estar ali, em meio à pobreza. Somos amigas até hoje.

Vinha com mil recomendações e O BIFE... Filé mignon puro...

Rreligiosamente às 11 horas, minha mãe servia pra ela o tal.

Aff como desejei um pedacinho daquele bife... hummmm...

Talvez um pouco mais que o pastel.

Minha mãe a me observar de olho comprido... Vendo Clarinha e seu bife... Enquanto encarava a polenta com açúcar cristal preto vagabundo... Isso era o almoço e o jantar.

Um dia, minha mãe cortou um pedacinho do bife, espetou no garfo e me deu na boca...

Aff!f Até que em fim iria experimentar aquele manjar melhor que a maçã que era seu lanche... Maçã, eu nem ligava.

Mas que decepção ao saboreá-lo... Não tinha sal algum.

Que tristeza, que desperdicio... Cuspi fora... Aquilo era um anticlímax.

Minha mãe explicou, com uma dó de mim, que a mãe da menina exigia que nada tivesse sal... Pois sal fazia mal à saude.

Aff! Saudade de minha Mãe... Aquilo é que era mulher de verdade

edição 87
Helena
Géssica Hellmann - Angelic - Pinturas e Leituras
Angelic por Géssica Hellmann

por Zélia Campestrini

Helena, descendente de uma família de imigrantes alemães, nasceu em Grão-Pará, município de Orleães, a 10 de setembro de 1917.
Aos 18 anos, já morando em Itupuranga, participava ativamente da vida religiosa e também da vida social da cidade.
Sempre ia aos bailes acompanhada dos pais. Foi num desses bailes que um músico do conjunto chamou sua atenção. Era um moço alto, moreno, muito bonito, que tocava clarinete.
Onório não pestanejou. Olhou aquela moça que o fitava instintentemente e, largando o clarinete, convidou-a para dançar. Foi amor a primeira vista.
Durante o tempo de namoro, os dois se viam de 15 em 15 dias.
Onório morava em Laurentino e ia visitar a amada cavalo, um dia inteiro de cavalgada.. A jornada era difícil, mas compensava.
Em 1940 casaram-se e foram morar em Laurentino.
A família Campestrini cultivava uva, fumo, milho e trabalhavam todos unidos na lavoura.
Mais tarde decidiram aventurar-se e partiram para outras cidades. Ilhota, Blumenau e finalmente Joinville.
Tiveram 11 filhos. Mesmo com dificuldade financeira, criaram-os dentro dos princípios religiosos.
Em 1971, alguns filhos já estavam casados, a mais nova tinha 10 anos. Onório ficou muito doente, foi um dos anos mais difíceis. Em outubro deste mesmo ano, Helena enviuvou.
Teve que enfrentar a vida sozinha e foi à luta como vendedora de cosméticos, dedicando-se inteiramente à família.
Recebeu várias propostas de casamento, mas rejeitou-as.
Helena é devota de Nossa Senhora. Todas as dificuldades que passou entregou nas mãos da mãezinha do céu.
Ela morava ainda com três filhos solteiros, quando ficaram desempregados. Não esmoreceu, rezou ao pé da Virgem pedindo uma luz. À noite sonhou com uma mulher de branco que, num jornal, desenhou o corpo (molde) de uma boneca.
Ao acordar, imediatamente executou na íntegra tudo o que a mulher ensinou. Surgiram as primeiras bonecas de pano, que fizeram sucesso imediato, tornando-se o sustento de sua família.
Uma vez, ela escorregou em um tapete e quebrou o fêmur. Foi operada e colocaram uma prótese.
Dali pra frente, só cadeira de rodas, diziam.
Sem se abalar, olhou para o médico e falou:
- Nossa Senhora não vai deixar que eu fique paralítica.
Para espanto do médico, naquela mesma semana ela andou.
Os filhos cresceram e cada um tomou seu rumo. Helena, que antes tinha a
casa cheia, ficou só.
Atualmente está morando ao lado de sua filha Selma. Insiste em morar sozinha, não abre mão de sua privacidade.
Com seus quase 90 anos, participa ativamente da comunidade, grupo de reflexão,
café da bondade, grupo de idosos, é atleta e já recebeu várias medalhas no jogo de argolas, nas olimpíadas da terceira idade.
Fora tudo isso ela ainda faz
artesanato; bonecas de pano, guirlandas e enfeites de páscoa.
Helena é um exemplo de vida. Nunca se deixa abater, enfrenta as dificuldades com otimismo e determinação.
Não gosta que a chamem de velha, por dentro se sente menina.
No balanço geral de sua vida, o saldo é positivo. O que ela mais se orgulha, foi a educação que deu aos filhos. Todos conservam o que aprenderam na infância.
Valeu a pena.
Sinto orgulho de ter sido gerada por essa mulher de fibra, ter seu sangue guerreiro correndo dentro de minhas veias.

Obrigado por tudo minha MÃE.

 

edição 86
Sobre Indêis e outras esquisitices
V Tsvetkov - Chicken Farm - Pinturas e Leituras
Chicken Farm por V Tsvetkov

por Sônia (Anja Azul)


O que seria indêz!?
Então!
Era uma expressão usada no tempo de minha avó... Ela me ensinou que, quando se tirava os ovos da galinha, deveria se deixar um para que ela continuasse "choca". Esse ovo seria o seu ^preferido", seu "indêz", o qual ela cuidaria com todo zelo e carinho.
Eu já perdi um filho mas tenho Biel...Meu "Indêis"!
Lembrando ainda de minha avó de descendência alemã...
Quando alguem ficava doente ou de baixo astral, ela dizia que a pessoa estava fazendo "biznaw".
A pronuncia era assim já a palavra escrita sei não.
Pois bem, "biznau" se dizia quando a galinha estava doente, com alguma coisa que a deixava de crista caida Pode?
Acho que tô fazendo bisnau (não que seja "galinha" ) pois estou meio chatinha.
Bom, deu pra notar que minha vó era do campo e criava galinhas né?

Meu pai também era da roça... Do interior de Torres, litoral do Rio Grande do Sul.
Tinha tantas histórias o meu pai,,, Dá uma saudade...
Uma vez, estava numa roça de milho ou mandioca, ou cana, sei lá, quando ouviu o som sinistro do guizo de uma cobra cascavel (ou cruzeiro? Uma das duas, sei lá, só sei que era venenosa) cortando o silêncio da mata. Nem teve chance de escapar, ela cravou-lhe os dentes na perna, ficaram lá duas marcas.
Teve de esperar umas horinhas que um amigo fosse a cavalo, a galope, até o centro de Torres, para conseguir o soro anti-ofidico e retornar .
O pai sentiu o veneno tomar conta dele todo, a perna inchou horrores, o sangue brotava dos poros, fora o terror de saber que era uma cobra supervenenosa e que talvez o remédio não chegasse a tempo.
Mas chegou a tempo sim.. o cavalo já chegou de quatro (claro, só podia ser de quatro!) espumando pela boca, mas chegou a tempo de salva-lo sim.
Tinha uma sorte enorme o meu PAI.


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