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edição 95
Duas crianças
Victor Mora - Arte Corporalidade
por Victor Mora

por Cynthia Freeney

 

 

Ela era, sendo a mais velha da vizinhança, a que liderava os menores nas brincadeiras e, ocasionalmente, tomava conta dos pequeninos por uns trocadinhos.

Era ela também a mais traquinas dentre eles todos, e a que ensinava aos outros os piores palavrões e conduta, razão pela qual era adorada por eles, como uma rainha.

Ocupações perigosas eram sua especialidade. Ela que, heroicamente, assumia a culpa por todos os malfeitos, acostumada que estava em enfrentar as consequências por seu mau comportamento.

Ela, que andava com um bracelete de localização preso às canelas, medida imposta pelo juiz de menores depois da ducentésima vez em que ela arrumou problemas na escola, envolvida quer estava com a fina flor da delinquência infantil local.

Sua mãe, uma ex-viciada em crack, numa luta diária para não cair de novo nas garras do vício, apegando-se as atividades comunitárias da igreja local como um náufrago a uma bóia tentava, sem muita experiência dar å filha alguma orientação, embora sem qualquer convicção de sucesso, posto que os dois filhos mais velhos estavam cumprindo pena em prisão estadual, o que atestaria sua incompetência em educar a prole.

Ela, que linda em sua negritude, alta e magra como uma dessas top models, rosto de anjo com lábios carnudos e olhos amendoados emoldurados por cílios tão definidos que pareciam postiços, tinha tudo para, de acordo com as observaçoes dos idosos da comunidade que, de suas cadeiras espalhadas na calçada, observavam-na brincar com os mais novos, tinha tudo para virar presa de um dos bandidos da região, ter filhos antes de completar a maioridade apenas para vê-los entregues ao sistema e terminar como os irmãos, vendo o sol nascer quadrado.

Ele, um tanto mais novo que ela, fazia parte do grupo de meninos que, amigos de meu menino do meio, viviam aqui em casa, meu apartamento sendo como um extra-cõmodo de sua prórpria casa, especialmente durante as férias escolares.

Ele, que muitas vezes eu vi correr escada abaixo e escada acima, para quem eu mantinha um jogo extra de
lençóis e toalhas, nunca sabendo onde ele passaria a noite, se na minha casa ou na de sua mãe.

Ele, a quem muitas vezes me surpreendi chamando a atenção, da mesma maneira com que costumo chamar a atenção dos meus próprios filhos. Ele, infinitamente mais educado, organizado e prestativo do que meus rebentos dentro de minha casa.

Ele que, quando meu mais novo nasceu, passava horas brincando com ele, mais terno e carinhoso do que o próprio irmão.

Cuja mãe, também batalhando o vício, mas sem muito sucesso, apesar de amá-lo e fazer o melhor que sabia para educá-los decentemente, muitas vezes se comportava pior do que os filhos, não raro agindo como se fosse ela a cria e, o menino, seu pai... E pai dos irmãos mais novos.

Um menino cujo pai só quis conhecê-lo quando estava å beira da morte, que ocorreu dias depois do primeiro encontro.

Alguém que eu vi crescer, brincar, rir, mas também ter medo, chorar, explodir em zanga e encolher-se em tristeza.

Seis anos se passaram desde que eu me mudei para essa vizinhança. Nesse tempo, muita coisa mudou, pessoas se mudaram, novas e velhas caras se misturam, a vizinhança hoje bem mais tranquila do que antes.
A menina, cuja família se tinha mudado há dois anos para o outro lado da cidade, meu marido encontrou-a ontem. No trabalho.

Com 21 anos, linda como sempre, acabou de se casar com um sujeito honesto, e tendo, ao contrário do que se pensava, terminado o segundo grau em vez de engravidar na adolescência, trabalha no mesmo campo que meu marido, tomando conta de deficientes mentais, estudando para se tornar assistente social, sem a menor intenção de trazer criancinhas ao mundo antes de atingir seus objetivos.

O menino, hoje com 18 anos recém-completos, partiu-me o coração. Nos intervalos entre o trabalho no clube local como salva-vidas e os cuidados com o seu filho recém nascido, cuja mãe tem apenas 15 anos, ainda brinca de baseball no quintal de casa, com os mais novos. Como o menino que ainda é. Como o menino que sempre foi... Precocemente assumindo (ou sendo imposto) responsabilidades de adulto.

 

edição 94
Meu... Teu
Denyse Klette - The car - Arte Contos de Amor
The car por Denyse Klette

por Zélia Campestrini

 

 

Quem já brincou de "meu... teu"?
Não é "meteu"! É "meu...teu", mesmo.
É uma brincadeira de passa-tempo.

Quando criança, não tinha muito brinquedo. Era uma época difícil. Brinquedos só no natal, e olha lá.

Selma (minha irmã) e eu tínhamos uma boneca, que não mexia as pernas nem as mãos. Era toda durinha. Os cabelos e as roupas faziam parte do corpo, eram só pintados.

Brincávamos de casinha, com caquinhos de louça, que garimpávamos nas bananeiras.

Voltando a "meu... teu", é uma brincadeira bem divertida, para quem não tem opção...

Sentávamos no caminho, ou em cima de uma árvore e, a cada carro que passava, um era "meu" e, o outro, "teu".

Assim passávamos tardes inteiras para, no final, "ganharmos" uns 3 a 5 carros . Era raro passar um.

Para quem estiver lendo, pode não ser interessante, mas era muito divertido. Principalmente quando uma "ganhava" um caindo aos pedaços.

Quer tentar?

Hoje em dia é mais difícil, devido à quantidade de carros trafegando em nossas ruas e avenidas. Fica tudo zonzo.

A última vez que brinquei, foi na praia. Géssica, Karin, Lílian (minhas filhas) e eu, passávamos as férias em Itapoá e, nos finais de semana, sentavámos à varanda e a brincadeira terminava com a chegada do pai.

Ele era o prêmio de quem estava na vez...

edição 93
Um dia meu e dela
Jankrishna Dames - Dont kiss the mask - Pinturas e Leituras
Don't kiss the mask por Jankrishna Dames

por Cláudia Pereira

 

Tá chovendo lá fora e eu penso em você. Nesta hora já deve ter almoçado, ou quem sabe, dorme ao lado dos bichinhos de pelúcia. Nossa gata repousa entre as tuas pernas e espia tal qual sonâmbula se ainda demoro pra chegar. 

Teus olhos fechados formam um contraste com os cabelos envoltos no
travesseiro.  Tua boca entreaberta sussurra algo...Será o meu nome?  Pode ser...ou não. Tanto faz. Mas, do lado de cá da cidade, as folhas correm soltas pelas ruas e eu sigo com um sorriso aberto dizendo baixinho: três anos.  Sim, pensa que eu esqueci?  Minha doce menina, impossível.  Penso nisso há muito tempo. Queria te fazer uma surpresa. Te dar presentes caros. Te comprar rosas. Te encher de mimos. Mas, agora que chegou  o dia...estou muda. Tudo o que sinto é este peito se encher de ternura e nem sei direito o que irei te dizer mais tarde. A noite vai chegar e terei que falar o que não consigo. Você sabe, sou tímida e orgulhosa. Faço de conta que sou forte...mas no fundo...você matou a charada: sou apaixonada e sonhadora.

É  gostoso ter este segredo descoberto por alguém que tanto amo. Ninguém entende muito bem o que sou. Mas você...você..você....me conforta e me desnuda de forma tão simples. Sem brigas, sem perguntas, sem problemas.

 Sou completa, sincera e absolutamente fiel ao que sinto neste nosso dia tão especial.

Te amo. E até quase acho desnecessário te encher de coisas caras....melhor que tudo isso será mesmo te cobrir dos meus beijos e afagos...

Que estes três anos se tornem longos...e eternos...e que eu possa repetir o meu ato de adoração para sempre neste 09 de abril. 

.

edição 92  
Peripécias de uma nova Católica
Pablo Picasso - Mother and son - Pinturas e leituras
Mother and son por Pablo Picasso

por Sônia (Anja Azul)

 

Continuamos firmes, eu e Biel. Aulas segundas à noite. Missa aos sábados de tarde. A catequista, bem agitadinha. Faz a gente dançar uma coreografia antes. Um tal de levanta-abaixa-dá-uma-voltinha-uma-reboladinha...

Já aprendemos quase todas as orações - algumas já sabíamos.

Mas tinha o enigma do "Vinde Espirito Santo". Graças a um amigo da Net, que me passou, agora estamos afiados.

Hoje, eu parecia mister Bean, tamanho orgulho quando começou a oração, com cara de "Essa eu sei".

Lemos a Bíblia, refletimos, vemos onde podemos aplicar no nosso dia a dia. Muito interessante.

No sermão da semana passada, o Padre desceu do altar e foi até os pequenos e falava com eles. Nada de tão emocionante, só da oportunidade que tiveram de serem escolhidos para receberem a Palavra de Deus, de formarem vinculos de amizade entres si, de seus pais terem-nos encaminhado para isso.

E do nada comecei a ficar emocionada, e meus olhos cheio d'água, e eu pensando:

- Que mico!

Tentando controlar e pensar de onde vinha isso.

Foi bem dificil.

Depois em casa, na mesa do café, desabei chorando e lembrei o motivo.

É que, quando fui fazer minha catequese, com 9 anos de idade, eu decidi sozinha, me inscrevi sozinha, e ia sempre sozinha às missas e às aulas. Era uma menina tímida, solitária.

Lembrei de minha mãe, num domingo de manhã, me vendo da janela indo sozinha para a igreja e dizer que tinha peninha, perguntando se eu não sentia falta de uma companhia e eu disse:

- Eu não estou sozinha, estou com Deus.

E também de uma tarde, meses depois, em que saía para a catequese e uma menina (vizinha), parou no portão:

- Estamos na mesma aula, né. Vamos juntas.

E dali em diante, nunca mais nos separamos, minha melhor amiga, que dividiu comigo os melhores dias de minha adolescência.

edição 91
O pinto
Nathan Florence - Dee Children -  Pinturas e Leituras
Dee Children por Nathan Florence

por Zélia Campestrini

 

Caroline, José Leonardo, Mateus e Vitor crianças de 3 e 4 anos, falavam baixinho, soltando vez por outra sonoras gargalhadas.
Intrigada, indaguei qual o motivo de tantos risos.
Assustados pelo flagra, me olharam arregalados e sem jeito um deles responde:
- Tia, o pinto do meu pai, fugiu com a galinha da vizinha.
Outro emenda:
- Escutei na rádio lá em casa..
- Sim, e daí? Vocês nunca viram um pinto?
- Já tia. É o que os meninos usam pra fazer xixi. Responde Caroline, a única menina do grupo.
Mostrei uma gravura, onde uma linda galinha ciscava com seus graciosos pintinhos.
Depois de várias explicações, Mateus ainda incrédulo, perguntou:
- Então como é o nome do pint... quer dizer, isso que a gente faz xixi?
Pelo jeito a coisa ainda ia longe.
- Isso se chama pênis.
Ficaram espantados, não acreditando muito.
José Leonardo soltou essa:
- Hoje eu vim de sandália, tia.
Risos.... Não desanimei e pacientemente escrevi as palavras pênis e tênis, sublinhando as letras p e t, para perceberem melhor a diferença.
Vitor era o menor de todos, não se manifestou, porém prestou atenção em tudo.
No dia seguinte, ao retornarem, Dilma mãe de Vitor, divertida, contou que ao trocar a fralda, viu que ele estava excitado e disse brincando:
- Que pintinho durinho!
Ele muito sério retrucou:
- Isto não é um pinto mamãe. Isto é um pênis.
- Quem te falou ?
- Foi a tia Zélia.
Como quem diz:
- Tia Zélia falou tá falado.

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