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| edição 100 | A casa da avó
![]() Blue Light por kathy jones. por Francine Hellmann O cheirinho que sinto agora, chegando próxima à hora do almoço, é de bacon. A casa, pensava eu ontem ao chegar, mesmo passado um ano inteiro sem a ela retornar, acho-a familiar, a ponto de parecer-me que venho aqui todos os dias. Há coisas com as quais nos acostumamos, sabemo-las de cor, e isto sem nos darmos conta de como, visto que, contato freqüente com elas não temos. São infinitos pequenos contatos com grandes intervalos de tempo ao longo da vida que nos fazem conhecer tais coisas de forma muito íntima, como se sempre lá estivéssemos. Assim me sinto todos os anos quando visito a casa de minha avó materna, em uma pequena cidade chamada Canoinhas, no planalto norte de Santa Catarina. A casa ainda possui a mesma fronte, e a cada ano parece mais desgastada. O mesmo jardim, sempre com pequenas mudanças que lhe dão um ar de novidade. O mesmo portãozinho que ao ser empurrado anuncia, com um barulho agudo e enferrujado, aos que cá dentro estão, a chegada de um novo visitante. É possível que alguns instantes após o barulho denunciante do portão, quem adentre pela porta seja um tio que mora próximo e vem apenas pelo prazer de estar com os parentes e com eles compartilhar um chimarrão. Ou ainda, é possível que quem venha seja um dos inúmeros tios e primos que nesta época hospedam-se na casa e que mais cedo tenha saído para buscar algum ingrediente que será utilizado no preparo de uma gostosa sobremesa. Ou então, mais raramente, o leiteiro ou o jardineiro... Na sala de televisão uns tantos assistem alguma coisa, sempre há um ou dois solitários, se é que é possível que um mais um resultem em dois solitários, lendo algum livro na sala de estar. Estes livros podem ser ou não de “boa qualidade”, o mais provável, porém é que, na maioria das vezes, não sejam, visto que lembro de ter-me apegado à leitura a partir do exemplo das tias que passavam as férias lendo romances melodramáticos com nomes como “Sabrina em Paris” ou ainda “Paixão na Casa do Lago”. Na cozinha, é certo, sempre haverá a avó, acompanhada de outras tias preparando algum prato com um cheiro muito gostoso. Lá também é provável encontrarmos algumas primas que, salvo em algumas exceções, estarão sentadas à mesa folheando alguma revista ou ditando para tias e avó a receita do tal prato que, ah como cheira bem! Para quem, como eu, acostumou-se com a vida agitada de estudante da cidade, os dias aqui se tornam intendentes, visto que o preparo da comida e o fazer-sabe-se-lá-o-quê sentada na cozinha não me agradam muito. São os dias do ano em que mais leio, mais penso na vida, mais revejo velhos filmes, mais jogo partidas dos mais variados jogos com os primos. Os primos. Não são como as tias que a cada ano se parecem mais com si mesmas, os primos crescem. É estranho como depois de tanto tempo achamos que ao encontrá-los eles nos acharam mudados (porque sim, nós podemos garantir que mudamos muito), mas ao vê-los quem por pouco não cai para trás somos nós. Como eles cresceram, parecem até adultos, onde foram as crianças que brincaram conosco na infância? Namorados de primos são algo com o qual jamais nos conformamos... Mas em menos de um dia já parecemos crianças novamente e jogamos partidas de baralho até amanhecer e rimos muito nos lembrando de segredos e situações só nossas, alguém propõe brincar de “gato-mia”, olhamo-nos analisando a possibilidade, mas não! Já não somos mais crianças. Ao fim de uma semana alguns começam a ir embora. Este ano sou uma das primeiras a me despedir, não passarei o reveillon com a família. Quinze minutos antes de ir sento no baú da cozinha, que fica ao lado dos três degraus mais significativos da minha vida e olho para minha avó, já tão velha, mulher castigada pela vida, olho para as tias, para os primos, para o fogão a lenha... Neste momento tenho a estranha impressão de que não vou voltar tão cedo, e que quando eu voltar as coisas já não serão mais tão iguais, do jeito que sempre foram.
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| edição 99 | O banquete
![]() Luncheon at the Boating Party por Renoir. por Zélia Campestrini
Olhando aborrecida, a dona do vestido afastou-se
contra a vontade. Um garçom entregou-me um envelope com uma
mensagem cujo conteúdo não consigo descrever.
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| edição 98 | Outra coisa
![]() Broken Roof and Music por Arta Davari por Rodrigo Freire
Uma outra característica que sei sobre mim, aliás, não é uma característica. Enfim, eu casaria com uma cantora que não implicasse com meu jeito de ser e cantarolasse pela casa com uma voz suave como a da Marisa Monte em dias frescos nos quais colho verduras no quintal, e o sol no passar dos dias me deixa suavemente dourado. Ela se preocupa com cheiros, acende incensos e me ama com um amor tranqüilo cotidiano. Não temos nenhum exagero de sentimentos capaz de nos ocasionar num futuro a sensação de termos sidos abandonados de um calor vital à relação. Eu a amo demais nas idéias para que haja espaço para outra real? Não sei! Sei que ela me acorda com o aroma de café e diz-me que tudo está bem com seu tom de voz e sem precisar utilizar necessariamente de palavras para dar-me esta informação. É apenas seu timbre o meu noticiário da paz, e ratifica a paz com um sorriso. E tange as cordas do violão, e fala-me de uma música serena que estamos compondo para ninguém, nada para além de nosso mundo. Não há filhos em meus sonhos, não necessariamente. Não nos preocupamos com nada mais do que cultivarmo-nos. Quando morremos nos sentimos solitários demais, calculo. E a vida prazerosa terá acabado. Não é digno sorrir no velório e nem sequer imaginar-se feliz de novo. Era desejoso que quando nos ausentássemos eternamente deixássemos um ar de festa. Só que esta culpa, das coisas serem tristes assim, é da vida e não nossa. Temos sempre que pagar o preço, assim poderemos sorrir outra vez. Talvez não mais sermos felizes como antes, mas a mesma vida cruel a fará sorrir sem mim quando o tempo houver se interposto em quantidade considerável entre eu e ela. Acho que covardemente morrerei primeiro. Assim espero, sou covarde mesmo e já tive em vida dores exacerbadas por causa desse tal de amor. Espero que ela tenha outros enlaces que a deixem em paz e o mesmo aconteça comigo, pois não é certo que o acaso cumpra meus desejos de partida antecipada.. Quero que existamos como mais que corpos somente para não nos processarmos judicialmente ou separarmos por razões promovidas por bens materiais. Quero que tenhamos tanta preciosidade de nosso universo que seja demais uma atitude de liberdade e espontaneidade habitá-lo.
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| edição 97 | Comer igual a um Rei
![]() por Akram Ighani Namdarian por Zélia Campestrini
Vestidos de chita, pés descalços,
olhávamos mamãe pondo a mesa. Desde cedo, fomos abandonados
a própria sorte. A recomendação era clara. Não
podíamos atrapalhar. |
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| edição 96 | Convidados especiais
![]() Sand Dress por Selena Engelhart por Zélia Campestrini
Fui uma das primeiras a chegar. Subi a escada
de piso bruto, escada estreita que dava para o terraço. |
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