geh - sua revista semanal de arte e sexualidade

Arquivo Géh - Amores Urbanos ed 1 a 25 - Amores Urbanos ed 26 a 50 - Amores Urbanos ed 51 a 75

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Edição 25

Sobre espelhos e fumaça

por Zander Catta Preta

O rapaz dizia que não ia se envolver novamente, dizia que não havia mais espaço nem tempo na sua vida para outra pessoa. Não queria dividir o que havia conquistado com tan­to esforço e que havia uma grande “oferta” de sexo e companhia para pessoas como ele no “mercado”.

Man In Love - arte e sexualidade
Man in Love
por Romero Britto

Ele não estava errado. Não era feio, nem baixo, não era um boçal ou um ignorante. Nem o contrário disso. Sabia que o extremo era complicado e que, na maioria das vezes, o me­díocre é que tem o sucesso no longo prazo. É o que menos se desvia da curva-padrão. Sa­bia disso porque era o seu ganha-pão. Analisar riscos e processos, êxitos e valores. Deci­diu que isso se aplicaria para o dia-a-dia na grande bolsa de valores que é a aventura amorosa.

De pronto, não se envolveria. Não dá certo. Já vira muitos falirem porque achavam que Aquela Empresa ou Esta Companhia eram portadoras da salvação patrimonial de sua famí­lia. Normalmente quem sobrevivia era quem apostava nos “relacionamentos horizontais”. Da mesma forma, quem criava uma “Linha Vertical de Investimentos” naufragava se Outra Indústria aparecesse no mercado derrubando a “da vez”. Eram necessárias atenção e uma certa descrição para fazer investimentos por fora. Aliás, muita atenção.

Então se agarrou à essa análise e aplicou-a, transformando da thesis para a praxis e em um mês colheria os resultados.

Estava certo de que daria mais trabalho inicialmente. Afinal tinha de montar o “portifólio” de opções de investimentos, analisar o esforço e o quanto deixaria aplicado em cada ação, preparar os “planos B” de ação, montar o cronograma de atendimento, acompanhar o de­senvolvimento de cada um dos itens do “repertório”. Ufa!

Isto feito, era só cuidar de repor uma ação quando apresentasse algum problema e deixar sempre claro que nunca faria um investimento exclusivo para nenhuma delas. Umas recla­mavam que assim nunca garantiriam o “aporte” que estavam contando para si, outras afir­mavam que também procederiam da mesma maneira.

Regras do jogo, à mesa, ele jogava como poucos. Perdia às vezes. Empatava na maioria. O empate, aqui, sempre é o melhor resultado.

Uma regra ele nunca quebrara: aplicar em ações “próximas”. Achava que a proximidade afetava o seu senso de avaliação e o seu desempenho no trabalho. Pior, era algo mais ín­timo e sub-reptício que um casamento. Estar com a mesma pessoa todos os dias depois do expediente e durante os fins de semana já era algo que ele não queria pra si mas po­dia entender, já que era o comportamento dominante da espécie. Agora, além disso, ter essa pessoa o tempo inteiro ao seu lado no trabalho era algo que extrapolava os limites.

Por isso a surpresa dos três amigos quando, no bar, ele confessou o fato.

“Estou apaixonado.” “Não fode, cara!” “Sério Gordo, tô de quatro pela menina” “...”

A menina em questão era a que trabalhava ao seu lado. Recém-chegada ao escritório, ela era bem “neutra”, não era linda, nem era escultural, não era Einstein de saias nem era o repositório da cultura da humanidade. Nem o oposto disso. Era acima da média, mas não a ponto de se destacar na multidão a priori.

Porém, quando abria a boca ou contava um caso ou ria das próprias besteiras ou falava com as mãos, denunciando uma timidez (ou loucura) controlada ou quando falava de shows de rock ou de casos que ouvira dos famosos ou quando olhava atentamente no fundo do olho ou quando não escondia que brigava no trânsito ou quando soltava um palavrão que não cabia no seu molde ou quando falava quatro idiomas ou quando sorria… ah… quando ela sorria…

“Pelo menos cantou?” “Não Burro! Porra! Tá maluco? Vai que ela topa? Vai que ela não topa? Analise, cara! Analise! É uma no-win situation. Não tem como ter vitória.” “E aí? Como você vai fazer?” “Não vou, Grande, não vou.”

Os amigos não tinham muito a acrescentar. Burro decepcionou-se profundamente e todos beberam até raiar a madrugada.

 

Edição 24

CRUZANDO LINHAS

por Lívia Santana

Faces Kiss
Faces - Kiss por Slava Posudevsky

Impressionante como só nos damos conta das linhas que permeiam a vida a partir do momento em que as cruzamos. Vivemos numa roda viva (roda mundo, roda gigante) e qualquer certeza - afora a morte - é pueril. Sentimentos se transformam, paixões esfriam, brinquedos e lugares perdem a graça, pessoas se separam e se perdem, para se reencontrarem novamente mais à frente no caminho. Tudo se transforma a todo minuto e vamos perceber apenas quando olhamos em volta e a luz parece diferente, as cores mais vivas ou mais opacas, ou quando percebemos elementos que nunca tínhamos visto ou prestado atenção.

Pedro e eu éramos muito amigos e sempre que podíamos, ficávamos jogando conversa fora e rindo da maioria das coisas. Dávamos-nos muito bem. Eu não tinha compromisso fixo nenhum, fazia o que me dava na telha, enquanto ele namorava a Mariana a vida inteira. Era até engraçado, quando ele dizia: "Isso foi antes de namorar a Mari", os amigos costumavam replicar: "Ah, quando você tinha uns dez anos, né?". E era mesmo assim, nem lembrávamos mais de um tempo em que a Mari não estivesse lá. A vida dos dois se confundia. Tinham a chave da casa um do outro, mesmo ela ainda morando com os pais, decidiam tudo juntos, iam juntos a todos os lugares. Era o casal modelo, era bonito vê-los juntos. Todos, inclusive eles próprios, pensavam que o casamento seria inevitável.

Até que um dia, Pedro rompeu com a Mari. Ninguém, inclusive ela mesma, entendeu nada e nem soube realmente o porquê. Pedro era introspecto em relação aos próprios sentimentos, decidiu e pronto, não admitiu questionamentos e não deu explicações. E seja lá o que tenha dito à Mariana a título de motivo, pelo visto não a satisfez. Inconformada, chorou, telefonou mil vezes, bateu a porta, escreveu cartas, gritou, ofendeu-o. Pedro ouviu a tudo calado. Um dia eu perguntei o porquê daquilo e ele disse: "É o mínimo que eu posso fazer. Ela tem o direito de descontar em mim a mágoa que causei". E foi um raro momento em que ele disse o que realmente pensava sobre aquele assunto.

Não sei direito quando comecei a olhar o Pedro de um jeito diferente. Sempre o admirei muito - era tão inteligente! - mas o tempo todo era apenas amizade. Sem saber direito o porquê, nem da onde vinha aquilo, comecei a desejá-lo e a sentir uma ternura infinita ao vê-lo. De repente, eu que estava tão acostumada à presença dele, me vi com o pulso acelerado ao mero som da voz ao telefone e prendia a respiração quando ele chegava. Eu, que era tão tranqüila, confiante e até um pouco cínica com o sexo oposto, estava apaixonada. Não sei se a mudança se devia ao fato de ele estar finalmente sozinho, ou se tinha mudado comigo de algum jeito, o fato é que estava tudo muito diferente.

Uma vez, pouco antes do rompimento com a Mariana, lembro que aconteceu algo que mexeu comigo. Paramos no posto de gasolina, no carro os três - o casal na frente e eu no banco de trás. Mari desceu para comprar balas, deixando-nos sozinhos e, tendo ela desaparecido pela porta de vidro da loja, Pedro virou-se para mim e segurou a minha mão, apertando forte. Senti o peito saltar, abri a boca atônita, sem saber o que dizer. Ele disse: "Eu gosto muito, muito de você". O tom de voz era estranho, parecia estrangulado, como se reprimisse um soluço ou lutasse para respirar. Respondi que também gostava e ele ficou me encarando com aqueles olhos cinza-esverdeados tão lindos, que estariam presentes em tantos sonhos meus e sobre os quais escreveria uma dúzia de poemas inconfessáveis pouco mais tarde. Senti que poderia ficar ali de mãos dadas com ele por horas, o tempo não precisava mais passar. Tão intenso foi o encantamento daqueles poucos minutos que nunca os esqueci. Senti-me flutuar, o calor das nossas mãos pareceu se intensificar, queimando e nos fundindo num só através dos dedos entrelaçados. E então, como se tivéssemos combinado, olhamos juntos na direção de onde Mariana viria e vimos que ela voltava para o carro. Soltamos as mãos e afundamos nos bancos, tentando dissipar a atmosfera densa do interior do carro.

Talvez ele tenha se sentido culpado depois disso, pois passamos dias sem nos falar. Quando finalmente liguei, contou-me que tinha terminado o namoro eterno e nem pude acreditar. Teria sido o episódio no carro o prenúncio do fim? Teria eu algo a ver com isso? O coração - que andava me dando trabalho naqueles dias - pulou para as palmas das mãos e precisei me sentar para controlar a ansiedade, a excitação. E agora? O impulso de vê-lo veio forte demais e vi-me, de algum modo, em frente à porta dele.

Atendeu com o cabelo molhado, tinha acabado de sair do banho. A tensão era evidente, estremeci ao abraçá-lo. Convidou-me para o quarto, como de costume e sentamos cada um numa cama - o quarto tinha duas. Conversamos sobre tudo e nada, o relógio corria, e todo o tempo eu tentava dizer o que sentia, em vão. As palavras morriam na garganta, a coragem não vinha. E se fosse ilusão minha?

Acabei desistindo e levantei-me para sair, dizendo: "Bem, vou embora, então...". Andei em direção à porta, mas fui interceptada no meio do caminho, em frente ao espelho. Ele me empurrou contra a superfície fria: "Se não fizer isso agora eu morro". E me beijou com voracidade, como se pretendesse me sugar inteira através da língua. Os joelhos amoleceram, senti-me desmanchar de encontro ao corpo dele.

Não era ilusão. E agora não tinha mais jeito, a linha tinha sido cruzada e eu nem sabia mais o que éramos. Íamos rumo ao desconhecido, mas não importava muito. Nada era capaz de turvar a sensação que eu tinha de ser capaz de pular no abismo e ainda assim sair voando.

 

Edição 23

CARTOMANTE

por Lívia Santana

Cartomante
Cartomante (1951) por Burle Marx


"Dona Madalena. Joga búzios, tarô, lê a mão. Vê o futuro. Faz amarração para o amor".

Ela hesitou, revirando o panfleto nas mãos suadas, cujas unhas roídas denunciavam a ansiedade. "E se...?" Custava a decidir-se. Nunca fora crédula, sempre resolvera os próprios problemas com certa facilidade. Sempre pensara que crendices eram para ignorantes ou desesperados, se não ambos. Joana não, era mulher culta, viajada, independente. Conseguia tudo o que desejava, acreditava em si mesma. E agora estava ali, segurando aquele panfleto amarfanhado entre os dedos inquietos, relutando em reconhecer-se impotente para o que quer que fosse. Cartomantes. Sim, isso era coisa para desesperados. Mas não era assim que se sentia? Já tinha tentado de tudo e nada surtira efeito!

Decidiu-se, iria ver a cartomante.

A sala de esperas era pouco iluminada e rescendia a almíscar. Incenso. Pequenas almofadas vermelhas espalhavam-se por sobre as poltronas e pelo chão, um sino de vento em forma de luas e estrelas estava pendurado num canto. Havia mais duas clientes além dela. Uma moça jovem e loura com os olhos inchados de tanto chorar, usando um vestido rosa amarrotado, que a deixava mais pálida e infeliz. A outra beirava os quarenta anos, tinha os cabelos tingidos de uma cor indistinta, vestia-se com apuro e trazia nas mãos uma pomba branca amarrada com um lenço vermelho, quase esmagada tanta era a força com que era segurada.

Acabara de sentar-se e a cortina púrpura do canto abriu-se dando passagem à - supunha - Dona Madalena. Tinha cabelos cor de fogo revoltos e unhas compridas pintadas de vermelho sangue. Usava óculos roxos com as extremidades puxadas para cima e uma longa túnica da mesma cor dos óculos. O olhar era azul e amalucado, como desenho animado.

Teve impulsos de ir embora. Aquela figura inusitada parecia precisar mais de ajuda do que ela. Porém controlou-se, enquanto a mulher com a pomba saltava da cadeira, visivelmente excitada: "Dona Madalena, aqui está!" e estendeu o bicho na direção da anfitriã. "Muito bem! Há quanto tempo o animalzinho está amarrado?", perguntou esta com um sorriso ainda mais maluco. "Seis horas", foi a resposta. "Ah, então aguarde mais um pouco... assim que completar as dez, falaremos". A mulher da pomba sentou-se, aparentando alegria.

"Ela vai esperar mais quatro horas?" - o impulso de ir embora veio mais forte que nunca.

A cartomante virou-se então para a mocinha loura. "Pronta, querida?" A menina encarou-a com os olhos tristes e negou com a cabeça, mal contendo as lágrimas que tornavam a cair.

"Então parece que é a sua vez". - a vidente sorriu. Respirando fundo, Joana levantou-se e passou através da cortina púrpura. Lá dentro era abafado e o cheiro de almíscar era ainda mais forte. Sentou-se na cadeira indicada, em frente a uma mesinha redonda. Dona Madalena sentou-se em frente a ela e tomou a mão direita de Joana. Depois de alguns minutos enunciou: "O nome dele é Raul. Um Adônis. Arquiteto, bem vestido, discreto, educado, exímio dançarino. Solteiro, sem filhos, sem namorada. Conquista todas as mulheres que o cercam e não elege nenhuma. Um enigma. Certo?".

Surpresa, Joana reconheceu que era verdade. Dona Madalena trocou a mão direita pela esquerda e tornou: "Entre tantos homens que a disputam, você se interessou pelo único que a repudia. Já usou diversos expedientes para envolvê-lo e nenhum obteve êxito. Já se ofereceu, já interpretou a moça frágil e a mulher dominadora, já se aproximou da mãe dele, já se enturmou com os amigos, já tentou até embebedá-lo. Nada. Ele continua indiferente. Está se consumindo pela paixão não correspondida. Sonha, fantasia, e sente que morreria para tê-lo". E fitando-a com o olhar divertido, indagou: "Estou certa?"

Joana balançou a cabeça em sinal afirmativo, espantadíssima com o que acabara de ouvir. E como a cartomante mantivesse silêncio, inclinou-se para frente, ansiosa: "A senhora pode me ajudar?"

Dona Madalena alisou os cabelos cor de fogo, pensativa. "Posso, sim, menina, mas não da forma como pensa". Joana franziu o cenho: "Como assim?".

A cartomante tirou os óculos. Parecia outra pessoa, com expressão séria e espantosamente lúcida. "Acho que o melhor a fazer é esquecer isso, nenhum capricho vale tanto desgaste". Joana apressou-se em falar, em defender a sua paixão com veemência, mas foi impedida pela outra. "Pense comigo, menina. Não acha que ele é perfeito demais?" Joana indignou-se: "A senhora está insinuando que ele é bom demais para mim?" A cartomante riu. "Não, querida. Estou dizendo simplesmente, que ele é bom demais. Pense. Bem vestido, sabe dançar, cozinhar, pinta, gosta de filmes de arte, de ópera e de se exercitar. O que podemos concluir disso?".

Joana deixou cair o queixo. Não podia ser!

E, ante a expressão estarrecida da moça, Dona Madalena sorriu docemente. "Se o seu nome fosse João, querida, não haveria nada que a impedisse de conquistá-lo".

Edição 22

O impasse

por Zander Catta Preta

Tinha dito para si mesmo que não iria ser tão crítico e murrinha com os atores. Afinal, uns eram seus amigos e ele não antipatizava com ninguém da peça. Do autor à camareira, todos tinham alguma história para contar dele, dos tempos que atuava junto com a companhia. Eram tempos idos, todos sabiam, mas ele sempre retornava a cada peça nova. A cada nova estréia, meio de temporada e encerramento. Por vezes até participava de um ou outro ensaio.

Redshirt
Redshirt por Lou Carbone

“Poxa cara, você bem que poderia fazer só esse papel. É pequeno, só tem duas falas.” “Não rola. Eu precisaria ensaiar com vocês todos os dias e eu tenho de trabalhar, saca? Mulher e filho e essas histórias.” “Fala com o diretor, vai que ele deixa você só ensaiar nos sábados.” “É lindona? Você não acha sacanagem eu ensaiar só duas vezes por semana e vocês todos os dias? Só por conta dos meus olhos cor de mel?” “...” “Pois é, minha linda, não rola. Mas o nosso chopinho depois tá de pé.” “Ok.”

Dez anos desde que pusera os pés naquele teatro, no Brigitte Blair da Miguel Lemos. Dez anos atrás era um teenager ainda. Imberbe e semi-virgem. Apaixonou-se de pronto. Pela ribalta e por ela. Ela era uma das “descobertas” do diretor que, como de praxe e por ser um clichê assumido, investia sexualmente em cada uma delas. Inteligente, talentosa, bonita. Nunca se entendeu o porquê dela se juntar a uma companhia tão mequetrefe e amadora. Quando ela atuava, os seus olhos eram como duas jaboticabas perfeitas brilhando no palco. Othello, A morte do caixeiro viajante, Trair e coçar, Disque M para matar, A Gata Borralheira e Cinderela contra o Baixo Astral e outros clássicos da dramaturgia foram salvos da derrocada total apenas por sua presença estonteante.

Havia algo de encantado ali, naquela combinação impossível. Atores fracos, diretor pífio, “autores” desimaginativos, estrela de primeira grandeza sujando a barra da saia com a lama da mediocridade. E, espanto dos espantos, ela era realmente feliz.

Ele, mais forçado pela necessidade que pelo desejo do sonho, largou a tropa no mesmo ano que entrou sem realizar seus dois planos. Encenar Alcassino e Nicoleta era o principal. O diretor cismou de adaptar essa peça pra Salvador nos anos quarenta. Quando ouviu isso, sacou que já era a hora de pular fora e aproveitou uma fase de dureza em casa para catar um “emprego de verdade”.

Há uns dois anos, ele a reencontrara e foi fogo em palha seca. É uma história engraçada. Ele foi a uma estréia (como sempre) saiu para chopear com todos (como sempre) riu das investidas vãs do diretor pra cima dela (como sempre) e ofereceu-se para levá-la em casa. Ela aceitou. Riu ao chegar na portaria do seu prédio. Convidou-o para um café em casa. Café da manhã, que esteja bem explicado aqui. Ele aceitou.

No intercurso, disse que sempre sonhara com isso. “Eu sei, bobo.” Disse que ela era a mulher da vida dele. “Eu também sei disso, querido. Tira as meias, vai. Tá ridículo você de cuecas e meias.” Disse, por fim, que queria que aquele momento nunca acabasse. “Eu não, beibi. Quero muitos momentos com você. Se esse não acabar... não haverão outros, né?” Ele sorriu.

Desde então, era rotina. Trabalhava de segunda à sexta, de oito às seis. Quintas, sextas e sábados é teatro e chope. Depois, chope a dois. Dois anos dessa mesma rotina. Ela não parecia triste nem cansada e ele se achando no paraíso. Do céu à terra, do domingo pra segunda-feira, ele resolve perguntar o porquê dela continuar naquela entourage. “Caramba, você teve convite para ir para a Globo, papel na Malhação. O que você vê naquela turma?” “Você sempre se perguntou isso, né?” “Sim.” “Da mesma forma que você me esperou por oito anos, né?” “É. Mais ou menos isso.” “Eu pago as minhas contas ali. Esse apê é meu também e não pago aluguel. Não tenho filhos. Ainda. Não gasto muito e como pouco. Dá para viver trabalhando com o que gosto. Aquela turma é a minha turma.” “Sei.”

Virou-se pro lado e tentou cochilar um pouco. Iria virado de novo pro trabalho.

Quando acordou, ela já tinha se arrumado e saído. Por vezes fazia isso. Ia caminhar na praia, saudar o Sol, praticar iôga ou apenas comprar pão e leite. Arrastou o corpo dormido e amarfanhado até a mesa da copa e encontrou uma apostila entre o pão morno, o café quente e o leite gelado.

Serviu-se de pão, leite, café e sorrisos entre uma edição velha de Alcassino e Nicoleta.

Edição 21

Quatro contos, cada três aumenta um ponto!
por Poli, Lívia, Alexei e Zander.

Tudo começou com o extraordinário conto-amor-urbano "submissa em paz", de Poli e uma idéia maluca, sugerida pelo Zander: que tal contar a mesma história do ponto-de-vista dos diferentes personagens, todas usando a mesma frase-chave: "ele é tudo que eu sempre quis, sem saber"?
O resultado está aí para você conferir. A história ganhou vida, novos protagonistas e personagens secundários, cada contista aumentando um ponto no drama de pedro e amarilda...

Mediterranean
Mediterranean Fish Market por Lucio Ranucci

submissa em paz

amarilda tem 28 anos. formada em ciências sociais, mestrado em relações de gênero e doutorado em feminismo comparado. determinada, talentosa, uma espécie de prodígio. uma semana antes da defesa de sua tese, na fila do peixe do supermercado, conheceu pedro, jovem yuppie que em um dia ganhava o que ela levava um mês pra conseguir. a paixão foi avassaladora: em menos de 3 meses amarilda já tinha engravidado. depois que pedrinho nasceu, ficou mais complicado conciliar as horas de pesquisa com o peito, a fralda, a cólica, o pediatra. seus dias de mulher independente estavam contados. largou o cargo de chefe de departamento na universidade com uma licença a princípio de um ano. passou a evitar encontros com os antigos colegas. temia o que podiam estar pensando.

ironia do destino, na mesma fila do peixe encontra uma colega de departamento.

- olá, querida, quanto tempo!

- oi, tudo bem?

- tudo ótimo. você tem feito tanta falta. ontem mesmo estávamos comentando isso: quando será que amarilda volta?

com seu meio sorriso, amarilda disfarça:

- assim que as coisas se acalmarem um pouco.

- e o seu menino, vai bem?

- ele é tudo que eu sempre quis, sem saber.

amarilda aproveita o silêncio repreendedor de sua colega para sair de fininho.
mesmo tendo lido tanta simone de beauvoir, no fundo no fundo, só queria ser submissa em paz.

Poli Paiva.

 

Born to be Boss

Elizete é solteira, hipertensa e míope, dona de sete gatos e duas samambaias. Não perde a novela das oito e está pensando em fazer ioga, não só por recomendação médica, mas para ver se acontece alguma coisa diferente na vida. Aos quarenta e nove anos, é assistente social e funcionária pública, tendo trabalhado no mesmo departamento e na mesma função durante anos. Se levassem em conta o tempo que tem de Universidade, já a teriam promovido para a chefia. Ao invés disso, ela viu Valquíria aposentar-se e nomearem para o seu lugar Amarilda, moça decidida e culta de apenas vinte e oito anos.

De índole naturalmente boa e mansa, Elizete sequer identificou o sentimento que lhe causou a nova situação. Acolheu Amarilda com simpatia e gentileza, procurando tornar o ambiente de trabalho ameno. Aos poucos, foi sentindo grande admiração pela menina, tão jovem e tão determinada, que já tinha feito tanto na vida e preparava-se para mais, com certeza. Não era de ruminar rancor nem de alimentar inveja, mas viu-se querendo - tanto que doía - ser Amarilda. Tão independente, centrada, dona do próprio nariz, bem sucedida. Não precisava de homens, nem de ninguém. Nem devia se sentir sozinha.

Elizete via a nova companheira de trabalho com idolatria.

Até que, sem aviso, Amarilda se casou e teve um bebê. Já não aparentava mais a segurança tranqüila e profissional de antes, estava sempre preocupada. Com a hora de dar de mamar, com o jantar do marido, com as cólicas do Pedrinho. Até tirou uma licença para cuidar do filho e da casa. Elizete, atordoada, viu o ídolo ruir.

Encontrou-a por acaso num dia desses no mercado de peixe. Perguntou pelo filho, pela vida e sentiu que a outra foi evasiva. Mal pôde dizer que sentia falta dela.

Mas, foi surpreendida logo em seguida. Como a licença de Amarilda se prolongasse, foi nomeada para o cargo desta temporariamente. Ela, que sempre obedecera a ordens, que nunca tivera um lar com marido para gritar, filhos ou cachorros para mandar - aos gatos não ousava ordenar nada - deslumbrou-se com a nova condição. E disse a uma das colegas de departamento, dias mais tarde durante o cafezinho:

- Era tudo o que eu sempre quis, sem saber.

Lívia Santana.


pedro

sexta-feira dez da noite chego em casa dia de cão puxando saco de cliente até doer a mão o saco inchado de tanto ser puxado por fornecedor subordinado estagiário secretária sacudindo os peitos eu balançando os cabelos com as mãos ajeitando afrouxando apertando a gravata a caixa postal do celular transbordando de mensagem de mulher que já comi querendo dar de novo deleto todas nenhuma mensagem de mulher que ainda não comi querendo dar merda o carro na garagem estalando de quente ainda nem tirei as meias toca o telefone é o digão colega babaca do emibiei queimando o rabo na concorrência vive me pedindo emprego não quero atender mas vou ver o que esse merda quer alô vou sair com uma mulher que está me dando mole vai levar uma amiga tá a fim eu digo que vou porque não tenho merda nenhuma melhor para fazer e depois de fechar um contrato que me tirou o pé da empresa de merda da merda e ainda tomar esporro fuder a paciência do digão e comer a mulher que ele está a fim até que não é má idéia nem tomo um chuveiro vou do jeito que estou assim mesmo.

como imaginei vindo do digão só podiam ser duas barangas professoras de faculdade com papo de feminista esquerdista petista rabugento raivoso amarilda e elizete onde essas porras arrumam esses nomes onde essa peste do digão arruma esses trastes.

mas a amarilda não quis dar pra mim fiquei puto ser esnobado por uma professorinha feminista meu charme irresistível não adiantou porra nenhuma cagou pro meu rolex e nem quis entrar no meu carro foi embora pra casa de ônibus e pra fuder de vez o meu dia o digão saiu com a elizete me deixou de pau na mão.

lá fui eu no sabadão atrás da amarilda me cagando de medo ela morava mal pra caralho tinha que passar num monte de lugar escroto joguei minha melhor conversa ela nem aí acabei indo parar numa quadra de escola de samba bebi pra caralho beijei na boca dormi na casa dela e ela não me deu.

veio me encontrar no trabalho na segundafeira saí mais cedo fomos pra happy-hour pro motel porra apaixonei quis me casar ela aceitou foda-se a camisinha vamos ter um filho ela largou a faculdade nasceu o pedrinho júnior e ele é tudo o que eu sempre quis na vida.

cheguei hoje do trabalho tinha peixe pro jantar ela me olhou e corou perguntei o que foi ela disse nada desconversou falou que tinha encontrado a elizete na fila do peixe e eu deixei pra lá apaguei as mensagens da caixa postal aquele monte de mulher ainda querendo me dar mas só tem uma que eu quero comer fazer amor fazer filho com cheiro de peixe no cabelo e o nome dela é amarilda sim e o digão que vá sacanear a puta que o pariu.

Alexei Gonçalves.

 

O bronco

Diz-se que o rapaz chegou do trabalho acompanhado, arrancou a camisa da menina ainda no corredor da casa, mal chegando à sala. Depois jogou-a no sofá, em cima das revistas e jornais velhos, acumulados semanas a fio. Tirou a calça, sacou a camisinha com presteza ímpar e envelopou o instrumento de trabalho com velocidade de um fórmula um.

Largou o seu paletó armani no centro de sala de aço inox e introduziu-se no assunto sem mais delongas.

"Show-me the money! Vamos ao que interessa!"

Piruetaram na sala, cambalhotaram no banheiro, malabarizaram no quarto. Pela manhã ela estva apaixonada e ele tinha um business case matador, ela, um tratado a defender na plenária de sua moral interna e um marketing report a enviar aos colegas.

Casaram-se, normalizaram as perdas e aumentaram o spread e a lucrabilidade do relacionamento.

"Sem piadinhas de pegar o bruto e extrair o líquido, ok?" Dizia ela nas maratonas semananais. Sempre às quintas.

Pegou-a no telefone. "Pior que, quando disse: 'ele é tudo que eu sempre quis, sem saber', foi quando eu percebi o quanto estou feliz." Acriançou-se e ligou PS3 para matar umas pessoas virtuais.

Zander Catta Preta

Edição 20

LEO E BIA

coração

Colagem por Géssica Hellmann

Leo era agregado da família da tia, irmã da mãe. A esta, raramente via - vivia mudando, de parceiro e de cidade. Não conhecera o pai, cuja identidade a mãe não tinha certeza. Era um incômodo: recebia casa, comida e má vontade, ocupava um sofá-cama no quartinho dos fundos. O trabalho como balconista rendia-lhe exaustão e salário mínimo, a vida era árida. Mas Leo era infeliz, não resignado. Entrou prum curso noturno e, a despeito das probabilidades, passou na prova do vestibular. Escolheu o curso levando em conta dois fatores: a dificuldade - o que excluiu a Medicina - e o status da profissão, o que tornou o Direito a opção mais indicada. Estava então num mundo novo, absurdamente vistoso e cheio de possibilidades, para quem tivesse visão. Leo sabia a quem deveria agradar e nisso se empenhou. Tornou-se parasita charmoso, desfrutando largamente dos privilégios daqueles que elegera para amigos. Gastava o salário em roupas e freqüentava os melhores lugares - sempre por conta de algum amigo pródigo. Arrumou novo emprego num escritório renomado, por indicação de um herdeiro. A boa aparência e o carisma o tornaram popular com o sexo feminino, e ele cercou-se de muitos exemplares. Finalmente, era tratado como merecia. Vendo-o, julgavam tratar-se de um deles, equívoco que ele fazia questão de estimular.
Bia tinha biótipo de boneca. Olhos grandes e muito azuis, tez muito branca e suave, longos e brilhantes cabelos louros. Longilínea. Delgada. Quase etérea. A princesa dos contos de fadas, se princesas fossem depressivas e tivessem um grave problema de auto-estima. Filha de pais separados, detestava a madrasta e tinha aversão aos filhos do padrasto, razão pela qual os pais montaram-lhe um apartamento na cidade vizinha. Deram-lhe um carro, polpuda mesada e autonomia. Pagavam as contas. A vida era mansa. Raramente ligava para a mãe. Acostumou-se à solidão, embora a odiasse. Talvez para preencher o vazio, envolvia-se incessantemente em problemas. Seus relacionamentos sempre resultavam em lágrimas, como se tivesse mórbido prazer em precisar de drogas para dormir. Entre uma decepção e outra, foi para universidade. Não muito afeita a esforços, escolheu um curso que não exigisse grandes aptidões e a tornasse profissional - o Direito. Foi alvo de grande assédio desde o princípio: aparentava ser o tipo de garota ideal a ser exibida, como um troféu. Entretanto, Bia tinha fome de grandes amores e pendor irresistível a grandes dramas. Queria mistérios, rituais de conquista, obstáculos a serem superados. Algo que a frivolidade dos rapazes não conseguia alcançar e, portanto, nenhum obteve êxito.
Leo e Bia colidiram no campus numa noite fria dessas. Delicada, ela teve um hematoma. Ele a cobriu de atenções - machucara um anjo! Encantaram-se. Ela era o luxo perfeito para arrematar a vida dourada que ele tinha idealizado. Ele trazia nos olhos todo o mistério e a intensidade de que ela precisava. Belos, formaram vistoso casal. O sentimento, arrebatador no princípio, cresceu exponencialmente com o passar dos meses. A paixão era óbvia, até incomodava. Os grandes olhos azuis dela sorriam ao vê-lo, os escuros dele estreitavam-se ainda mais, ardentes. Adotaram como sua a música homônima, considerando um prelúdio do "felizes para sempre". Pertenciam-se, era um sinal. Criaram pra si um mundo à parte. Ela dedicou-se a ele e afastou-se das amigas, as quais admiraram a entrega e velavam pela felicidade do par. Ele ficou orgulhoso de tê-la consigo - o que nenhum dos amigos conseguira - e procurou conservar apenas os companheiros de farra mais influentes, que envenenavam sutilmente a relação. Independente do que achassem do casal, os colegas habituaram-se a vê-los sempre juntos. Tanto, que não deixaram de notar quando Leo apareceu sozinho por seguidas vezes. Ele não encorajou perguntas, ninguém insistiu. Ao cabo de uma semana, Bia voltou ao braço do namorado, sorridente. Tivera uma gripe, só isso. Estava tudo bem, o incidente foi esquecido. Mas o sorriso de Bia deixara os olhos, mal chegava aos lábios. Leo estava inquieto, suscetível, ciumento. Impetuoso, parecia vigiá-la. Ela empregava toda a energia em ser natural e garantia que tudo corria bem. Tornou-se mais esquiva e ele foi visto de novo em companhia dos amigos dissolutos. Discutiram em público pela primeira vez. Mesmo visivelmente apaixonados, chegara o tempo do drama. Bia empalidecia e Leo assombreava-se. As brigas em público sucediam-se, cada vez mais terríveis, seguidas de tórridas reconciliações. Ninguém se surpreendia mais com a tormenta quando Bia teve outro hematoma, este no pulso. Outro tombo, nada sério, ninguém precisava se preocupar. Ela repeliu aproximações e negou, veemente, que tivesse algum problema. Mas foi internada em seguida e os ferimentos não deixavam margens a enganos. Surda a qualquer argumento, Bia asseverou que a culpa era dela. Não era capaz de entender o quanto Leo a amava e ele apenas mostrava o quanto ela o magoava. Ela tinha que aprender. Afinal, estavam destinados. Leo e Bia tinham que saber se amar. O que ela não considerou é que o primeiro sinal do destino não tinha sido a música e sim o hematoma. Essa consideração coube à mãe, inconsolável quando, semanas depois, o caixão foi velado com a tampa cerrada.



Lívia Santana.

Edição 19

GATO ESCALDADO

Como alguém que fita o sol dourado
E vê depois em tudo um círculo encarnado
Tal eu quando não estás e meu sol é posto
Vejo, em tudo o que vejo, o brilho do seu rosto.

(C. de Bergerac)

beijo
Tela por Angélica Pedroso

Ah, o amor! Esta doce prisão a que nos submetemos voluntariamente! Sentimento sublime que está em toda parte desde que o mundo é mundo e enseja as maiores e melhores histórias ao longo do tempo. Os amargos, os platônicos e os desesperados, dão os melhores dramas. Comédias têm os comuns, os insossos e os vulgares. Thrillers exploram os loucos, os passionais e os psicóticos. Os suaves, os bonitos e os eternos são materiais dos romances. Encontra-se em todas as embalagens, cores, tamanhos, formatos, preços, é só procurar um que sirva e que seja do agrado. O que foi? Falando assim pareceu mercadoria? Há quem encare assim, pode estar certo. E há quem ache que mais se parece com um jogo. Bem, há gosto pra tudo, não?

Andando pela rua, olhando vitrines, distraída, Ângela levou um susto quando um homem apressado esbarrou nela, derrubando sua bolsa e a sacola com o disco do Buena Vista Social Club no chão. Guilherme. Era alto, tinha cabelos castanhos claros, longos cílios escuros, mãos grandes e usava um perfume delicioso. Pediu mil desculpas, recolheu as coisas do chão e segurou-lhe a mão, insistindo para que ela fosse tomar um café com ele, era o mínimo que podia fazer. Ele estava tão bem vestido, era tão gentil, que ela consentiu. Foi o começo. Um ano depois, estavam enviando convites de casamento.

Viveram felizes durante cinco anos, enquanto Guilherme manteve a possessividade e níveis razoáveis. Ele sabia de tudo o que acontecia a Ângela e passou a querer controlar também os seus pensamentos. Sufocava-a, observava-a. E mentia o tempo todo, sobre tudo, mesmo sem precisar. Era compulsivo. Por fim, ela cansou-se daquela vida insólita e pediu o divórcio, foi embora, deixando-o inconformado. Mas, a despeito das previsões, ele não a procurou mais.

Aliviada, Ângela decidiu reconstruir a vida. Era jovem, tinha apenas trinta e três anos e sentia que podia conhecer muita coisa ainda. Procurou uma casa pequena com um jardim e decorou com bastante bom gosto e simplicidade. Tudo seria assim, dali pra frente, simples e sadio, nada mais de neuroses e neuróticos em sua vida. Tinha bastante dinheiro, herdado da mãe, mas mesmo assim, empregou-se numa agência de publicidade. Comprou uma bicicleta e um cachorro, o Du, um filhote de São Bernardo. Arrumou vídeo clube, colocou a leitura em dia, conheceu pessoas. Saiu pra dançar, pra jantar, acampou e fez até rappel.

Divertia-se imensamente e voltara a ser feliz. Mas nenhum homem que tentava se aproximar a interessava. Para preencher o tempo em que costumava ficar com o marido, Ângela conheceu a internet. Gostava muito de trocar idéias e rir, logo conheceu pessoas muito interessantes, mas continuava arisca com o sexo masculino.

Naquela noite, não tinha conseguido conciliar o sono. Sentou-se ao computador e conferiu os e-mails, procurando alguma distração. Tinha recebido um que lhe chamou a atenção e logo entabulou conversa com o remetente, Alex, que era realmente envolvente. Engraçado e inteligente, raciocinava rápido e fazia ótimas piadas. Ela estava gostando imensamente do papo. Trocaram impressões sobre obras de arte, livros, músicas, lugares que tinham visitado. O gosto de ambos coincidia em muitas coisas, era delicioso encontrar alguém que comentasse mais detidamente as mesmas coisas que ela. Ele era quase perfeito. Era como se dissesse exatamente o que ela queria ouvir.

A esse pensamento, Ângela estacou. Era isso! Ele era perfeito demais, sabia todas as respostas, acertava em cheio! Miserável!

- Alex por acaso seu nome não é Guilherme?
- E por que meu nome seria Guilherme?
- Não me responda com outra pergunta ou eu vou embora agora, sem nenhuma outra palavra!
- Calma, Ângela, eu não estou entendendo nada! O que foi que eu fiz? Achei que estávamos nos dando bem!
- É esse o problema, estamos nos dando bem demais. Ou você é o Guilherme ou conhece o Guilherme. Fala logo, é você? Ou ele te instruiu? Fala!
- Ângela, o que é isso, eu nem conheço nenhum Guilherme... Quem é Guilherme?
- Ah, seu mentiroso duma figa, você me paga!

Ângela desconectou da internet e desligou o computador, furiosa, prometendo a si mesma que não caía mais na lábia daquele maníaco. Abriu uma garrafa de vinho e tomou tudo, adormecendo lá pelas quatro da matina.

Do outro lado, Alex não entendeu nada quando Ângela desconectou do papo deles, depois de ter se comportado como louca. Ele desligou o computador resmungando: "Eu, hein, que mulher doida... Não mexo mais com essa coisa de internet, vou é ligar pra Lu que eu ganho mais".


Lívia Santana.

Edição 18

A Não Amada

Rocca Stockler

Todo dia aparecia a tal fulana. Cada dia uma desculpa diferente. Cada desculpa mais escorregadia que a outra. Todos os dias, pontualmente, surgia a tal pelas ruas. Sozinha, sempre sozinha.

Previsível, sim! Não há desculpa que convença quando o desfecho do encontro termina com mesmo sorriso, pra mesma pessoa. E assim foi e, por vezes, voltar a ser o convívio sempre podado bruscamente com tal espécime: A NÃO amada!

diego pale

Ilustração por Diego Pale

Tenha um inimigo onipotente, mas não tenha uma NÃO amada por perto. -- Pessoa sem paixão é feia. Usa adereços pra embelezar o que está morto. É amiga do caos e da desordem dos lares alheios, é claro!

NÃO amada é ciumenta, faz do sorriso alheio sua posse. Ela consegue transformar um convívio saudável no palco do seu ventríloquo. Manipuladora, a marvada revira o mundo pra mexer em tudo de todos, por único motivo: Ninguém mexe nela!

É uma coitada. Vergonhosamente coitada por mostrar ser o que nunca será: feliz! 547 faces numa só. A mascarada usa pessoas como oportunidades pra se dar bem. Na real a NÃO amada usa tudo menos o que teria de usar: a si própria!

Ela tem o pior de todos defeitos: orgulho, o pecado completo! Marido da vaidade, pai da inveja e irmão da cobiça. Tanta pompa pra esconder única bagagem: apatia! Elas são eternos sinônimos da apatia geral. Dignas de dó!

Flores de plástico precisam de sombras!

Ah, se a tal se preocupasse mais com próprio umbigo, provavelmente seriamos mais felizes. Sim, seríamos, olhe atentamente ao redor e verá inúmeras delas...

A única coisa respeitável numa NÃO amadas é incrível capacidade de nunca colocar carapuça sequer que eu mando. Bendiga el dios. Nem reza braba consegue tal feito.

Ta bom vai: 547 linhas em saldo negativo. Agora poucas palavras saldo positivo: O que seria dos escritores sem uma bela_feia NÃO amada? -- Um dia inda escrevo uma vilã, NÃO amada e NÃO comida. Elas vendem horrores...

Tomara que uma delas escreva sobre as despeitadas...

... Tem ardida cuspindo fogo pra proteger a prole!

Edição 17

Sweet little sixteen

Zander Catta Preta


Saíram do cinema abraçados, como se fossem dois namorados. Deram vexame durante a exibição da fita, quando pararam para tomar um café, antes de entrar no carro, dentro do carro, nos sinais, até mesmo quando ela estacionou para deixá-lo em casa.

amantes
Los Amantes por Ramón Crespo

“Sobe?” Diz ele ao se prepara para saltar do carro. “Não posso.” Ela responde sem muita convicção. “Porquê?” “Você sabe.” “Você pode sim. Não quer.” “Não posso. Ele pode chegar a qualquer momento.” “Dane-se ele! Aliás, dane-se tudo! Você sabe que ele tá comendo meio mundo agora! E a outra metade comeu pela manhã! E você não o ama mais!” “Para com isso! Aqui no meio da rua! E se um vizinho passa por aqui?” “Melhor! Assim você tem de assumir tudo logo de uma vez e paramos com essa palhaçada. Porra! Faz cinco anos que saímos quase todo fim de semana. O cara viaja na quinta, sobe pra Petrópolis, Teresópolis, Patópolis, sei lá, e te deixa aqui para eu tomar conta.” “Pára! Você sabe que não é assim! Eu te amo, mas eu o amo também!” “Ama? Como se ama um cara com quem você não transa faz dois anos e meio?” “Porra. Vamos ter essa conversa aqui, no meio da rua?” “Não. Podemos subir e ter essa conversa lá em cima, se quiser. E eu sei que você quer.”

Subiram tensos os lances de escada até o terceiro andar. Era uma apartamento antigo em Botafogo. Daqueles com varanda ampla e salas enormes e cozinhas monumentais. Tinha apenas o inconveniente de não ter elevador mas, melhor, o condomínio ficava mais em conta. Ele tinha alugado-o numa distração do proprietário. Era um esquema de aluguel para conhecidos de conhecidos e ele quase que conhecia alguém que estava deixando o apê. Deu uma de João-sem-braço e se ofereceu como candidato à vaga. Sorte que foram com a cara dele e conseguiu alugar sem que pensassem duas vezes ou pedissem suas referências. Estava lá há três anos e não pretendia se mudar tão cedo dali.

Abriram a porta do apê. Ela se sentia em casa, mas essa era uma sensação que lhe incomodava tremendamente. Estava tudo errado. Ela era casada, tinha três filhos lindos e saudáveis. O marido sempre lhe fora carinhoso e atencioso. Até ela o conhecer de verdade. Antes de descobrir que ele pulava mais a cerca que carneiro rebelde. Daí para ela encontrar um amante foi um passo fácil. No início se sentia suja, mas aprendeu a gostar da sujeira, de se emporcalhar com o corpo do outro, a se sentir desejada, cortejada, a fazer com que gozassem com o seu gozo e a tomar o suor do outro como quem toma um copo de alma alheia. Comia os amantes como quem faz desejum em hotel. Dava na pinta. Deixava dicas. E ele parecia gostar disso. Devia gostar mesmo, o puto. Não lhe amava. Não sabia lhe dar valor. Não mais lhe beijava em público, tampouco lhe roçava as mãos nas ancas ou nas coxas quando se aproximava por trás. A sua nuca já lhe era território virgem novamente. Aliás, virgem nada. Ele que se fiava por mapas velhos enquanto outros aventureiros abriam bandeiras por ali. Ela era a fêmea-alfa agora. E ele apenas o provedor dos filhos.

“São cinco anos que estamos juntos e você nunca mais falou em largar aquele cara. Você já não o ama! E sei que não sou o teu primeiro amante. Você mesma disse isso para mim.”

Ele falava como quem implora e isso era o quem mais a irritava. De início era bonitinho ter um macho que falava fino quando ela mostrava a que veio, quando se mostrava dona da situação e colocava-os no seu lugar, de consolo que beija e anda. Esse nem era especialmente bonito, forte ou viril. Como dizia, era exatamente isso que ela achava interessante de início. E ele era do tipo medroso, um lucky bastard na escala evolutiva. Fugiu do leão ao invés de enfrentá-lo e sobreviveu para dar cria. Gerou toda uma linhagem de covardes, cagões que não honravam as bolas por conta dessa cepa ruim, desprovida de brios e amor-próprio.

Com ela não era diferente. Se dissesse para ele passear de mãos dadas em pleno Centro Comercial de Copacabana ele se derretia como criança no dia doze de outubro. Se ela mandasse ele não olhar na cara dela enquanto andavam pelo Fashion Mall, ele se portava como empregadinho subjugado. Talvez por isso tenha durado tanto. Cinco anos nessa mesma merda e ele só começou a reclamar agora. Deve ter mulher nova nessa história.

“Eu tô vendo uma outra pessoa. Estou saindo com a Ângela.” “Com quem? Aquela vadia? Hahahahahahahaahaha!” “Não fala assim dela. Ela me ama!” “Ama porra nenhuma. É uma mal-comida que tá doida para amarrar o primeiro mané.” “Porra! Ela quer ficar comigo. Será que você não sacou que tô de saco cheio dessa vida de piroca de gaveta? Quero acordar do seu lado uma vez na vida. Ou melhor, quero acordar do lado de qualquer mulher que me queira.” “Mas, bicho, a Ângela? Ela é pagodeira. E vai em micareta. Não tem nada a ver contigo!” “Foda-se! Ela quer dormir comigo, me apresentar aos amigos dela e eu a apresentarei aos meus.” “Que amigos, cara? Os coleguinhas de vinte anos dela? PORRA, você é dezesseis anos mais velho que ela.” “Pois é. Dezenove anos e na flor da idade e me quer.”

Isso era o que mais lhe incomodava. Por mais que dividissem os prazeres e as confissões mútuas, ela nunca queria saber de sua vida offline e ele era barrado ao tentar saber mais da dela. A sua defesa era tão adaptada ao seu modo de agir que ele nem mais tentava forçar uma situação. Não mais se convidava para eventos ou tentava descobrir onde ela iria e com quem. Aceitara que seria chamado quando fosse conveniente e pronto. De início, isso bastava. Ela era linda, poderosa e se portava como uma deusa do sexo. Uma devota de Istar que se erguia gigante nos seus quase metro e meio. Um olhar bastava para trazer da inação o mais desanimado dos seres. Mas Ângela não ficava atrás e ela sabia disso. Sabia que dali pra frente ela não seria mais quem guiaria a relação. Ela teria os seus homens e ele as suas fêmeas. “Mais e melhores que você.” Pensou baixinho no verso do Chico Buarque.

“Você não vai aturá-la mais de dois meses.” “Que seja! Mas serão dois meses sensacionais.” “Cara. Você não dirige e ela só pensa em carro, cachorro e samba.” “Eu ensinarei coisas novas a ela. Mostrarei o que a vida tem de bom.” “Vai ensinar o quê? As novas vertentes do Rock Inglês? As composições atonais do Arrigo Barnabé? Filosofia Moderna? A teoria do Inifinitesimal de Hegel?” “Leibnitz. É do Leibnitz. Definição do limite. ‘Deus está no limite.’” “Ha! Duvido até que ela leia qualquer coisa que você dê a ela.” “Na boa? Prefiro viver um amor furtado que isso que temos hoje. Não dá mais.” Ela levantou-se, pegou a bolsa, dirigiu-se à porta. “Babaca.”

Desceu calmamente a escada. Entrou no carro. Mal conseguiu colocar a chave na ignição de tanto que as mãos tremiam.

“PORRA! Não posso chorar por esse babaca.”

Lentamente o céu se solidarizou com a dor da segunda rejeição de sua vida.

Edição 16 A SOLA

por Lívia Santana

Ulisses atravessou a rua correndo esbaforido e escapou por um triz de ser atropelado pelo ônibus que passava em alta velocidade. Chegando à calçada, tropeçou, perdeu o equilíbrio e caiu no chão, indo parar entre os pés dos transeuntes apressados, com um esfolado ardido na palma da mão direita. "Droga!". Sob os olhares de estranheza de alguns passantes que pararam para vê-lo caído - como tem gente que gosta de apreciar os tombos alheios, impressionante! - ele se pôs rapidamente de pé e continuou a corrida, olhando febril para todos os lados e principalmente para o chão, como se tivesse perdido alguma coisa.

hans bellmer
Unica avec l'oeil-sexe (1961) por Hans Bellmer

Nesse ritmo trombou numa senhora e derrubou os livros de uma garota, mas nem assim se deteve, pensando exasperado: "Por que é que tem tanta mulher nessa calçada?". Andou naquele passo louco por mais três quarteirões, quando finalmente parou e sorriu, aparentando ter encontrado o que estava procurando. Respirando fundo várias vezes, ele cuidou que o coração não saltasse do peito pela boca, da corrida e da emoção. Os olhos brilhavam, dir-se-ia ter ele achado um tesouro. E era mesmo um tesouro, algo único, precioso!

Deu alguns passos vacilantes e ficou olhando com ternura para ele. Lá estava, um pouco à frente, absolutamente lindo e perfeito. Magro, daquele jeito que deixa ver as articulações sob a pele, bronzeado, delicado, bem cuidado. Daquele tipo que dava vontade de tocar. Ulisses tinha a certeza de que seria suave e quente ao toque e que teria um perfume especial e discreto. Mal podia conter o impulso de acariciá-lo, beijá-lo, mordê-lo! Sentia a boca seca de vontade de massagear-lhe o peito e lamber-lhe os dedos um a um, com lascívia. Estremecia só em pensar, antecipava o prazer sublime. Temia não merecê-lo - ele era tão maravilhoso! - mas nada o impediria de tentar.

Apressou o passo, era agora ou nunca. Mas estacou, sentindo o coração parar e ficou olhando, assombrado. "A sola... Ah não, a sola eu não agüento... Assim ela me mata!..."

A moça que Ulisses seguia encostou-se numa parede, tirou a sandália e levantou o pé esquerdo a fim de arrumar a correntinha prateada que pendia do tornozelo. Tinha longos cabelos negros, silhueta longilínea, traços harmônicos. Era muito bonita, mas Ulisses não vira isso. Ele apenas tinha visto os pés pequenos e delgados, que apareciam sob a saia branca longa que ela usava. Era o pé mais lindo que ele já vira e a paixão fora instantânea. Só não estava preparado para ver a sola assim, no primeiro encontro.

Edição 15

ENCENAÇÃO

por Lívia Santana

É chegada a hora de encerrarmos a temporada, o público demonstra sinais inequívocos de enfado, toda a companhia está extenuada. A platéia já se tornou tão exígua que os parcos aplausos ressoam quase zombeteiros pelo vazio da penumbra...

(suspiro... esfrega os dedos pelo cabelo, num gesto confuso e furioso... abre um novo arquivo e começa a digitar febrilmente)

amor ideal
Amor Ideal por Israel Zzepda

A angústia que me assola é tanta que nada consigo escrever além de textos melancólicos e desesperançados. Sinto uma sombra escura e pesada envolvendo-me o coração, que já não sabe como é não estar oprimido. Ando pela casa, sorumbático, suspirando de saudades, tentando me esconder dos olhos grandes, escuros e tristes dela.

Ela. Ah, como eu a queria de volta! Daquele jeito doce que era, e que me emocionava por vezes quase até às lágrimas. O sorriso tão claro e franco, o olhar exultante que me dirigia toda vez que eu chegava, o encaixe perfeito do seu corpo frágil em meus braços. Ela era como um pássaro canoro, enchendo de vida e alegria a casa e a vida. Tudo parecia perfeito, eterno, eu nunca tinha sido tão feliz. E agora isso.

Quem porventura lesse estas linhas pensaria estar diante do desabafo de um viúvo ou talvez de um amante abandonado. Sinto-me um pouco como ambos e, no entanto, ela está bem ali, ao alcance de minhas mãos. E não sinto a menor vontade de tocá-la.

Na verdade, não gosto mais dela. A cada dia gosto menos, se é que é possível, e sinto o enlevo escapar-me por entre os dedos lentamente. Eu a amo - oh, sim, amo muito! - por tudo o que vivemos juntos, tudo o que já fomos, o que já tivemos. E não temos mais. Já não consigo sentir ternura pelo som da sua voz ou da sua risada, como antes. Às vezes sinto mesmo indiferença. Seus olhares carinhosos já não significam nada, não são capazes de me tocar, e qualquer declaração de natureza amorosa resvala por mim sem produzir nenhum efeito.

Não que haja repulsa - ainda - apenas não me importo, a presença dela já não faz diferença. E ela sente isso. Como não sentiria, se sempre demonstrei paixão e a tratei com todos os mimos e agora, quando me dirijo a ela é para censurar-lhe por algo? Ela sente e vejo que não sabe como agir. Alterna entre crises de ressentimento e tentativas vãs de tornar ao que éramos antes. Está perdida, e nem mesmo me apiedo dela. Acuada, se fecha cada vez mais, o que tem o condão de me irritar e entristecer.

Como é duro presenciar o fim gradual de tudo que era tão belo e incrível, como é terrível me sentir impotente! É tão estranho gostar menos de alguém à medida que se conhece... Quanto mais familiar ela me parece, mais me desagrada. A forma com que ela encara o mundo não se ajusta à minha, sou obrigado a reconhecer. Não é nem de longe a companheira que eu gostaria e não entende o que tento lhe dizer. Interpreta sempre da pior maneira, como se eu a estivesse atacando e, por isso, vive se defendendo. Tenho-me sentido numa trincheira. Basta que eu diga algo que possa soar ofensivo ou que a contrarie para que a batalha seja desencadeada.

Como é possível gostar menos a cada dia da pessoa que se ama? O conhecimento está matando meu amor? Por quê? Aquela a quem realmente amo, por quem me apaixonei, seria apenas uma imagem, uma idealização? Teria ela desempenhado um papel ao nos conhecermos? Teria me enganado? Ou eu mesmo o fiz? Procurei alguém que fosse aquilo que eu queria, que preenchesse as minhas expectativas? Estarei me sentindo frustrado agora por perceber as limitações da atriz que escalei para o papel? Quis esse tempo todo que ela fosse alguém que não é na verdade?

Mas só queria que ela fosse como antes! Tão linda, meiga, esperta, desejável e dócil!...Por que tinha também que ser egoísta, teimosa, suscetível e impiedosa com os meus defeitos? Por que ela tinha que me avaliar e me reprovar? Por que não podia continuar a me olhar daquele jeito apaixonado? Era tudo tão bom antes! Ela só precisava entender que tinha que se amoldar a mim para nos encaixarmos, para vivermos em harmonia!

Como foi que a paixão se metamorfoseou em constrangimento? Por que agora o olhar dela é sempre tão triste? Onde foi que tudo ruiu? (...) Não sei. Fico pensando se há o que salvar ou se não passou de ilusão que durou tempo demais. Por que temos essa relutância em admitir o fracasso? Talvez seja o pânico de ver o tempo passar, de me sentir envelhecer e os relacionamentos falidos irem-se sucedendo inexoravelmente. Talvez a sensação de que nunca na verdade dará certo, que é impossível, estou fadado a ficar só. Que é tudo inútil e o melhor é desistir.

(suspiro)

A verdade é esta, não gosto mais dela, da pessoa que se tornou - ou que sempre foi e eu nunca enxerguei. Por que sempre temos que nos perder de quem amamos? Meu falecido pai, aquele amigo de infância que era eterno, cada mulher que já amei. Todos perdidos, inalcançáveis. Acho que estou até me acostumando.

Ela me disse outro dia que a minha frieza a assusta, e acho que estou mesmo frio. Distante, indiferente, cético. Sei que ela julga impossível que seja obra de alguma rival - tenho mesmo que admirar a segurança dela - mas de certa forma está enganada. Realmente uma outra mulher ocupa o meu pensamento: aquela que ela costumava ser. É esta que tem deixado perdido o meu olhar, que tem povoado os meus sonhos. Fico me perguntando se ela existiu mesmo ou se foi criação minha. E em alguns momentos chego a ter a certeza de que sim, eu a criei. Era perfeita demais.

Edição 14

APENAS MAIS UMA DE AMOR

por Lívia Santana



Amores não têm que ser assim ou assado. Não têm que ser eternos ou perfeitos. Não têm roteiro certo nem obedecem a estereótipos. Assim são apenas os romances emocionantes da sétima arte. No real existem de todos os tipos. Improváveis, tediosos, doentios, vulgares, fúteis, patéticos, sem sentido. E nem por isso deixam de ser amores.

amor
Amor 2 por Diego Manuel

Aqueles dois eram o que havia de mais diferente possível. Dois mundos absolutamente apartados, duas formas de viver totalmente diversas. E nem era o caso de serem opostos ou de se completarem. Nada de um ser a noite e o outro o dia, um o frio e o outro o calor. Não, nada disso, não perca tempo com devaneios românticos. Apenas eram díspares, nada tinham a ver um com o outro, nem motivo nenhum para se tornarem um par. E, a despeito de todas as probabilidades, foi o que aconteceu. Curiosidade, talvez. Nem eles mesmos sabiam o porquê de ficarem juntos, acho mesmo que não existia.

Ela era meio desenxabida, estava um pouco acima do peso e tinha constantes mudanças de humor. Ele era irascível, meio pomposo e um pouco preconceituoso. Ela era muito inteligente e tinha um lindo sorriso. Ele era muito culto e tinha um notável senso de humor. Ela trocava qualquer multidão por um bom livro ou filme. Ele sentia necessidade de barulho e badalação. Muito branca, ela não gostava de sol nem de programas "de gente saudável". Ele era atleta de fim de semana e adorava caminhar na praia. Ela, muito introspecta, ouvia a maior parte do tempo em que ele, falastrão, mal tomava o fôlego entre um assunto e outro.

Os dois formavam um casal estranho, tinham um caso de amor mal feito (mal escrito?), como se quem o idealizou tivesse se esquecido de adicionar a maioria dos ingredientes que conferem graça e encanto aos casos de amor. Mas, ainda assim, era um caso de amor e, no começo - como de costume - as coisas correram bastante bem.

O sexo parecia ótimo a julgar pelo volume dos gemidos e gritos. Ela gritava muito, sempre. Muitas vezes, mais pelo prazer de ouvir a si mesma do que pela performance do namorado. Além disso, tinha a sensação de que, se gritasse, já era um passo dado para o orgasmo, como se a ordem não fosse inversa. Ele ficava eufórico com os gritos e sentia-se cada vez mais potente. Então gozava e caía de lado, pegando no sono quase instantaneamente, com a sensação de dever cumprido.

Mesmo um pouco torto, havia excitação e enlevo no caso deles. Encantavam-se, menos um com o outro, do que com o inusitado da situação, com o desafio, com o desconhecido, é verdade, mas não deixavam de encantar-se. Nada sabiam um do outro e, por mais que conversassem, não conseguiam se comunicar de forma plena. Mas isso não foi problema durante muito tempo, já que tinham se idealizado mutuamente.

Amar um personagem é muito cômodo e lindo - este é o segredo do cinema. E estavam ambos mais interessados no que recebiam um do outro do que em qualquer coisa mais profunda.

Apenas era bom estar junto de alguém, ter com quem falar, para quem telefonar, ter alguém para dividir os acontecimentos do dia. Não importava se o outro não entendia muito bem o que escutava ou se não estava muito interessado, o mais importante era sentir que tinha alguém para ouvir. Por isso se amavam, por isso permaneciam juntos.

Passados quase quinhentos dias, no entanto, as coisas pareceram diferentes. Impossível saber quem mudara, se o relacionamento, se um dos dois, se ambos. O fato é que os pilares da realidade não eram mais fortes o suficiente para sustentar as fantasias, e até mesmo os personagens principiaram a derrocada.

De repente, ela lhe pareceu intoleravelmente gorda e preguiçosa, e passou a recomendar-lhe todos os dias que fizesse exercícios. Ele tornou-se enfadonho e irritante aos olhos dela, que não suportava mais as piadinhas costumeiras de que sempre rira. Os gritos não eram mais eficazes para garantir o gozo, e a frustração foi aumentando, de ambas as partes.

Discutiam o tempo todo e com cada vez maior ferocidade, até que ela fez as malas e deixou um bilhete, avisando que tinha ido embora. Ele ficou furioso e tentou contatá-la durante dias, sem êxito. Não teve mais notícias dela e a raiva acabou esfriando. Sentiu um vazio e ficou triste por algum tempo, mas não muito. Só até conhecer uma outra moça que tinha o sorriso dela, mas que adorava a praia e também era atleta de fim de semana. Então...

 

Edição 13

The Ghost of You

por Zander Catta Preta


“Quando eu digo que Manhattan é o meu filme, ou melhor, o filme da minha vida, as pessoas não entendem de prima. Mas quando explico que o filme trata de escolhas erradas, de atitudes exageradas sem sentido, de bad timing genético, aí que elas discordam mesmo de vez. O problema é que elas não vestem a minha pele. Não usam os meus óculos. E eu só aprendo quando olho para trás. Mas isso não evita que eu bata novamente com a cabeça no poste, quando ando pela rua da vida.”

memory of sex
Sally Davies - In Memory of Sex (1992)

Ouvia quieto o artista ler o seu ensaio em voz alta. Estava entre inebriado e intimidado por ficar entre tantas pessoas desconhecidas e se segurava na sua máquina fotográfica como se fosse uma muleta, um escudo. Enquanto fotografava não precisava se apresentar ou justificar porque estava olhando atento a um casal ou a um grupo menor no canto. Tinha a desculpa do olhar do fotógrafo, daquele que tenta ver além do que é mostrado, de quem procura o detalhe. No caso, ele apenas procurava um canto para se esconder e se deliciar com o espetáculo das emoções humanas.

Por vezes cumprimentava um ou outra que o reconhecia do seu site, de uma foto que tinha postado ou de um outro encontro de internautas. Era conhecido por ser esperto e comunicativo, mas hoje estava mais taciturno que nunca. Nunca tinha estado naquele sebo apertado e lotado de gente.

O artista terminara sua leitura e outro tomara o seu lugar. Era uma menina. Não. Uma mulher. Linda, linda. Alta, reluzente. Os olhos brilhavam com fúria e tesão. Ele se ajoelhou para achar um ângulo melhor. Bateu seis fotos default e descansou a câmera no colo. No fim do texto, mal continha os soluços. Não poderia ficar muito tempo no mesmo lugar que ela. Não com tanta gente em volta.

Saiu desastrado no fim do evento sem se despedir dos conhecidos. Só foi guardar a câmera ao chegar na Siqueira Campos, três quadras depois do burburinho da loja. Subiu a rua ainda tonto, embriagado com as próprias emoções. Passou em frente do Bar Pérola e resolveu se encostar lá mesmo. Não trabalhararia no dia seguinte então poderia encher a cara com tranqüilidade.

Lá pelo décimo chope, viu que um tipo diferente de gente estava entrando bar adentro. Demorou um pouco para se encontrar no meio da embriaguez mas reconheceu parte do público que estava no evento literário. “Fala fotógrafo!” disse um mais animado “Pronto. Perdi o meu nome.” Pensou.

E no meio deles, lá estava ela.

“Olá.” Tremeu dos pés à cabeça. Precisava mijar. Agora! “Já volto.” Foi se aliviar no banheiro e voltou para o seu ponto de partida mais enxuto. “Olá.” Disse apressado, enxugando as mãos na calça. “Eu gosto muito das suas fotos, sabia?” “Você disse isso da outra vez.” “Mas não canso de repetir.” “O que você quer de mim?” “Nada.” “É o que eu temia.” Disfarçou um sorriso amarelo. “Você é bobo. E eu gosto disso.” “Não sou bobo. Sou mordaz e cínico. Às vezes até mau. Mas você me desmonta, sabe disso.” “Sei. E eu gosto de te desmontar.” “Mas acho que não quero mais passar por isso. Já passei boa parte de minha vida orbitando em estrelas maiores que ti e me recuso a ficar apagado na tua presença.” Ela olhou com um quê de doçura e um outro tanto de sarcasmo. Chegou bem perto. Sussurrou no seu ouvido. “Querido. Isto é impossível. Meu brilho é maior que o seu.” Afastou-se com um sorriso aberto, como se fosse uma criança brincando de dar foras decorados numa outra.

Desequilibrou-se de dentro para fora. Pagou a conta e arrastou-se para o seu apartamento. Perdeu-se no caminho entre a Siqueira e a Bolívar. Perdeu-se em cada boteco fedido que encontrava no caminho.

Amanheceu em casa, sem entender direito o que acontecia. A cabeça doía como um parto e ele xingava cada gota de álcool ingerida.

Foi até a sala e deparou-se com ela saindo do banheiro enrolada numa toalha. “O que você está fazendo?” “Me enxugando.” Não entendeu. “Você não se lembra? Voltou ao Pérola. Declamou poesias. Cantou Chico e Belchior, me carregou no colo e me amou o resto da noite. Meia-bomba, a bem da verdade, mas dou um desconto. Nunca vi homem ficar bem com tanto álcool no sangue.” “Não lembro mesmo.” “Como assim? Você é o guardião da memória, não é? É aquele que é senhor do raciocínio e do pensamento.” “É o que eu dizia na escola, e só você dava bola para isso. Hoje me esqueço das coisas e quero esquecer o mundo.” “Você tem a alma do artista, a habilidade do...” “Pára! Você sabe o quão mal isso me faz. Não precisava te encontrar. Não hoje. Larguei tudo para trás quando nós nos encontramos. Deixei estabilidade e vida morna e previsível para cair nos braços de Luna. Enlouqueci porque tinha de provar o lado de Hecate, tinha de passar por tudo isso e magoei quem eu não queria e quem eu não podia. No fim das contas, o único que se fodeu fui eu mesmo. E, quando mais precisava do teu lastro, mais precisava do teu porto seguro, você me negou. Agora vem você me tentar novamente? Vai para a sua terra. Me deixa.”

“Seu desejo é uma ordem.” Disse ela vestindo a saia. Compôs-se com habilidade e destreza de quem estava acostumada a devorar gente como se fosse um McLixo qualquer.

“Não. Péra.” “Querido, você já é passado. Só queria ter um gosto da tua memória. E, sinceramente, preferia ter esquecido.” Saiu pela porta elegantemente.

Sentou-se no sofá e não encontrou o pranto necessário. A cabeça doía demais.

 

Edição 12

PODER

por Lívia Santana

Eu caminhava pela sala de aula de um lado para o outro, gesticulando e falando animadamente, quando tudo aconteceu. O tema era um dos meus preferidos, as relações de poder, e só agora percebo a ironia da situação. Era como se ela tivesse escolhido aquele momento em especial para se divertir às minhas custas. Nem sei dizer o porquê de tudo ter acontecido daquela forma, tendo bastado apenas um encontro de olhares. Virei-me do quadro negro para os alunos e dei de cara com ela me olhando de um jeito diferente. Diferente como, não sei dizer, mas perdi a ação por alguns segundos, o que não passou desapercebido a ela, que sorriu triunfante.

beijo escarlate
Pastel - Beijo Escarlate (10/2005)
por Géssica Hellmann

Era linda, isso era inegável. Mas sempre olhara para ela e vira uma menina atrevida, irreverente e inteligente, que crivava o professor de perguntas sagazes e tirava dez nas provas. Nunca tinha olhado tão fundo dentro daqueles olhos pretos traiçoeiros nem tinha visto-a sorrir como mulher. Fiquei atrapalhado. Senti o rosto queimar, enquanto ela ria da minha confusão. Saí para o abrasivo sol de quase meio dia, tomei água e procurei me recompor. Minutos depois voltava à sala, e ela adquirira de novo o ar inocente, fazendo-me pensar se o ocorrido não fora criação minha, fruto do calor. Mas, encerrada a aula, ela veio me procurar, abraçando o caderno contra os seios mal contidos sob a camiseta despojada. Cumprimentou-me pela aula e disse que voltaria à noite para tirar umas dúvidas. Assenti e fiquei vendo-a se afastar. De repente, até o leve balançar dos quadris ao caminhar me parecia provocação deliberada.

Procurei deixar o acontecimento de lado, não pensar nela durante o dia todo, mas foi em vão. Quando se aproximou a hora em que ela deveria chegar, engolia em seco. Ansiava pelo próximo movimento dela, e ao mesmo tempo temia-o como à danação. Olhava a todo o momento para a entrada, esperando avistá-la, e qual não foi a minha decepção quando as horas passaram e não chegou. Dei a última aula da noite e me preparava para ir para casa, no estacionamento, quando senti uma mão pequena pousar no meu braço. Levantei os olhos, e lá estava o mesmo sorriso que me tirara o sossego havia apenas algumas horas. E parecia outra vida, mal conseguia me lembrar dela de camiseta e rabo de cavalo, mordendo a ponta da caneta. Ainda mais a olhando agora, vestida com um vestido vermelho bem curto e os cabelos escuros escorridos sobre os ombros. Os olhos pareciam ainda mais pretos e perigosos, se é que era possível.

Disfarçando a surpresa, perguntei em tom de brincadeira: "Ué, você não tinha umas dúvidas para tirar?" Compenetrada, ela respondeu que sim, sem tirar os olhos dos meus. "E quais eram?" Ela passou as mãos pelos cabelos, que teimavam em cair sobre o rosto e disparou: "Quero saber, professor, se você quer me beijar". De novo ela me deixou desconsertado e riu deliciada. Acho que a perspectiva de mexer com a minha cabeça a agradava mais do que a perspectiva de me beijar de verdade. Não sabia qual era a intenção dela, não sei mais o que pensei naquele momento, mas me vi puxando-a pelo braço e invadindo a boca vermelha com a língua. Encostei-a no carro e comprimi o corpo contra o dela, latejando dentro do jeans. Não pensava mais em nada, só a queria com furor, naquele minuto, não importava que alguém visse. Mas ela tinha outros planos. Desvencilhou-se, hábil, do meu abraço, recuou até uma distância segura e voltou a rir: "Eu perguntei se queria me beijar, professor, só isso". E, fazendo uma careta travessa, foi embora, deixando-me ali, febril e incrédulo.

Durante toda a semana seguinte ela não compareceu às aulas, o que me deixou insatisfeito e irritado. Garota maldita, tirava a minha paz e me deixava assim, doido, esperando por ela. Mas a raiva passou toda quando recebi um bilhete dela, marcando um encontro à tarde. Cheguei ao local designado, o apartamento era de uma amiga, ela me disse depois. Abriu a porta e apenas me olhou com aqueles olhos de feitiço por muito tempo, para logo em seguida me puxar pelo braço pro sofá e não mostrar resquício de hesitação. Passei a tarde inteira dentro dela e acabei descobrindo que ela se instalou ainda mais fundo em mim. Estava apaixonado. O nosso relacionamento durou exatos oito meses, durante os quais estive completamente entregue, nas mãos dela. Adorava-a por horas a fio, não me cansava de olhar para ela, que era um mistério. Tinha rompantes de fúria e ria desbragadamente minutos depois. Num momento, ela zombava da minha paixão, dizia que eu parecia adolescente. E no momento seguinte me amava com ardência, deixando-me extenuado e feliz.

Lembro do fim como se tivesse acabado de sair daquele apartamento há poucos minutos, o mesmo da primeira vez. Passáramos a tarde entre os lençóis, como fazíamos sempre que podíamos. Deitado de lado, eu a olhava, conferindo cada detalhezinho daquele corpo adorado. A pequena cicatriz no ombro, a pinta sob o seio direito, o abdome reto e macio. Perdido em devaneios incautos, observei-a levantar-se da cama, lavar-se e vestir-se, sem olhar para mim. Penteava os longos cabelos lisos, quando a abracei por trás, pretendendo um carinho. Ela colocou as mãos sobre as minhas e olhou-me diretamente nos olhos através do espelho, como se me dissesse algo. Então eu vi. Na mão direita, uma aliança dourada brilhando absurdamente, ferindo-me os olhos e os sentimentos. Por um momento não compreendi. Ela virou-se para mim, tomou meu rosto entre as mãos e sussurrou: "Adeus".

Edição 11

NE ME QUITE PAS

Zander Catta Preta

Se conheceram numa festa, dessas que hoje chamam de Ping-Pong® ou
Adams® ou coisa parecida. Nada demais, nenhuma história especial.
Era amiga de um amigo de uma ex-namorada de um primo. Tava todo mundo
lá e ele quase que não ia. O ficante da menina pipocou antes de ir
para a festa e sobrou um convite. Ele topou. Tava de bode, curtindo
uma dor de corno pq a ex-namorada tava já com um outro. "Porra nem
esperou o defunto esfriar!" "Cara, tem três semanas já!" "E daí? Por
um acaso saí passando o rodo no dia seguinte?" "Não, seu babaca, tu já
tava passando o rodo antes. Uns seis meses antes." "Porra, isso não
tem nada a ver!" "Como não? Tu chifrava a menina a torto e direito e
agora vem exigir que ela fique de luto pelo fim do namoro? Tu não dava
a menor bola para ela e é isso aí. Vem um terceiro e rouba. O ladrão
tá ali, do lado das meninas para garfar quando malandro dá mole." "Ah!
Num ferra! Tô puto e tá acabado!" "Deixa de ser babaca e vamos na
festa! Vai ser maneira!" "PORRA! Como é que uma festa com Paquitas
vestidas pode ser maneira?" "Deixa de ser escroto e põe logo uma
roupa. Passo aí em 10, beleza?" "Tá bom..."


Chegou, viu a galera, não gostou de cara. Muito cheio, entrada cara,
cerveja ruim, muito barulho, não dava para tomar bala. "Quer uma
cara?" "Olha a sujeira, deixa de ser mané! A festa tá visada para
caralho!" "Porra! Já vi que vou ficar puto!" Foi pro banheiro dar a
primeira mijada da noite. Conseguiu um canto mais discreto e mandou
uma meia-estrela pra dentro. Comprou um Red Bull® e começou a quicar
na pista. Pisou em vários pés, derrubou uma menina e quase começou
três brigas. Foi expulso da festa.

Chegou em casa, ligou o computador. "Caralho! Não vou dormir! Tô muito
aceso! Puta que pariu!" Acessou o Orkut® e viu um recado para si. "Te
vi na festa. No início te achei um gato. Depois caiu a máscara e saiu
um babaca. Não sei por qual dos dois me encantei mais. Me liga!" Era
ela. Mal sabia que iria cortar os pulsos muito em breve por não
conseguir suportar tanto amor.

Ligou no dia seguinte e marcou um encontro achando que iria encontrar
uma baranga-mor. As fotos não mostravam muito, mas baseou-se no relato
do primo do amigo do colega do(a) ex- que disse que ela era muito
gata. Inexplicavelmente tomou um banho antes de sair de casa e até
escovou os dentes.

Pegou o carro, passou na casa dela que era a três quadras dali.
"PORRA! Tu vai de carro para a casa da menina?" "É que se ele for
gata, já arrasto pro motel!" "Caralho, cara. Tu tá pensando o quê?"
"Ué. Se ela não sabe o que é, não deve temer; se já conhece,
acostumou, né?" "Puta que pariu! Só você mesmo!" Parou, ligou, buzinou
e tava quase indo embora quando a menina abre a porta da portaria três
minutos e quinze segundos depois do primeiro contato. "Você chegou
mais cedo." "Tava ansioso para te ver, minha flor!" A menina realmente
era um espetáculo. Mignonzinha, cabelos negros, escorridos ao longo do
corpo, chegavam à cintura. Cintura que, de tão fina, parecia que ia
partir numa freada mais brusca do carro. Ancas respeitáveis. "Boa
parideira!", pensou. Seios pequenos e firmes já que não usava sutiã.
Bom. Ia ser uma bela duma foda.

E foi uma bela duma foda. A melhor da vida dele. A última.

Duas semanas mais tarde, estava ligando três vezes por dia para a
menina, catando contatos na internet, deixando "scraps" pagando o
maior mico digital que uma pessoa conectada jamais poderia pagar.
Cometeu uma dúzia de poemas de 1k e gastou uma fortuna em presentes
que mandava entregar na casa dela.

Nada movia a atenção da menina.

Resolveu estreitar os contatos com todos com quem podia para fazer um
"cerca lourenço" na vida dela. Os conhecidos todos desapareciam. Os
olhos de desespero afastavam qualquer chance de ajuda. Afinal de
contas, nunca cultivara uma amizade, apenas conhecidos, kálegas de
farra.

Já estava no limite quando resolveu acampar em frente da casa da
menina. Não era difícil, o apartamento dava vista para a entrada do
prédio e ele tirou uma semana de férias para ficar de butuca. Ganhou
uma demissão já que nem se concentrar no trabalho conseguia mais.
"Melhor. Dá para ficar mais tempo em casa na vigia." Com a grana da
recisão comprou um binóculo noturno e um normal. Um frigobar e uma
poltrona confortável.

Não precisou esperar muito. Na segunda noite viu a menina se
despedindo de outra. Com um beijo na boca. Outro beijo. Mais um. O
negócio estava esquentando. Subiram.

Desceu como um louco as escadarias do prédio, correu a distância entre
os quarteirões num pique só e se prostou na entrada da casa da menina.
Esperou a noite inteira. Viu a outra sair pela manhã, mas não se
abalou.

Quando ela saiu - "Linda, linda com a luz da manhã!" - ele a
interpelou. "Por quê?", só conseguia dizer isso. "Patético." Deu um
beijo na boca dele com um sorriso malvado e subiu a escadaria.

Ele voltou para casa e, súbito, sabia o que lhe restava.

Edição 10

Uma crônica de Marte e Luna

Zander Catta Preta


A menina estava disponível e ele também. Já se conheciam de outros carnavais e já fizeram aquele caminho outras vezes. A bem da verdade, eram outros tempos e outras intenções. Hoje, eles eram adultos: experimentados, maduros, resolvidos e sabiam bem o que queriam um do outro.

Ou assim pensavam.

lua hermafrodita

Lua Hermafrodita - Pastel 09/2005
Géssica Hellmann

Passearam pelo Arpoador de mãos dadas. Emocionaram-se com a Lua que nascia em Copacabana e com o Sol que se punha em Ipanema. Pensaram ouvir ao longe os aplausos do Posto 9 mas, dada a distância, os aplausos estavam em suas imaginações. Como se elogiassem a si mesmos subconscientemente.

Conversaram bastante, a ponto de acabar a saliva no meio de uma conversa. O assunto era recorrente. Se comentavam da Lua, do Sol ou do cheiro de mijo das pedras, era apenas para dar uma pausa para tomar fôlego ou para embasar o tema principal. A paisagem se tornara uma metáfora para relações mal-acabadas. Mal-acabadas para eles, diga-se de passagem, porque o “outro” estava muito bem da vida. Sorrindo como nunca antes sorrida ao lado deles. Se divertindo como nunca se divertira. Transando como nunca antes transara.

Pois é.

Durante o cair da tarde ele só falava da ex-noiva e ela, do ex-namorado. Os ex-outros eram o tema principal e o único assunto que os unia naquela tarde. Talvez essa fosse a forma que encontraram para dizer que estavam sendo o mais verdadeiro e sincero possível. Não haveria enganação, sentimentos dúbios ou ilusões que não fossem consentidas por ambos, conscientemente. Sabiam o porque de estarem ali e essa conversa só reafirmava isso.

Passearam até a noite se firmar e sentirem que a saudade já se manifestava por dentro das suas calças. Era tanta saudade que já davam vexame público e evitavam os olhares invejosos de quem caminhava castamente pelas pedras.

Já em casa, nus, cometeram uma dúzia de erros fatais.

Amaram com sofregudão, mal dando tempo para os preparativos. Preliminares? Ora, estavam nas preliminares há meses. E ficaram ali por horas praticando o antigo esporte bretão.

Mentira!

Mal durou dez minutos!

Ela, por cima dele, controlava a situação como sempre sonhara fazer com o seu amado e ele cometeu o erro de chamá-la pelo o nome errado por três vezes.
“Me desculpe, eu não queria…” “Não… tudo bem… eu te entendo!” “Como assim entende?” “Deita aí e imagine que sou ela!” “Não! Pera lá!” “Faça isso! Anda!”

No décimo-primeiro minuto já estavam satisfeitos, e se contemplavam. Ele, procurando algum tipo de carinho. Qualquer carinho. E não encontrou. Ela, tentando inventar um amor que não teria como existir naquelas condições.

Se vestiram, tomaram a rua, pegaram um táxi. Ele foi deixá-la em casa. Na volta, não se conteve e pediu para o motorista passar por uma rua que não passava fazia tempo.
“O caminho por aqui é mais longo.” “Tudo bem. Pode até pegar a praia depois. Não tô com pressa!”

A rua estava vazia e o motorista não se demorou o tempo que ele esperava. Procurou um tipo de emoção dentro de si e não achou. Não vieram as lágrimas nem a auto-comiseração. Achou que estava pronto.

Saltou em frente ao Othon Palace. Foi até a praia. Tirou os sapatos e pisou na areia com calma, como se quisesse sentir cada grão roçando os pés. Olhou em volta para ver se havia perigo e foi calmamente andando até a água.

A Lua estava ali, lhe esperando. “Então. Como foi?” “Não sei. Tudo é muito estranho. Há um vazio agora. Não tenho mais raiva, ou paixão.” “Duvido. Você ama ser rejeitado.” “Mentira!” “Ama sim. Vai negar que a ama agora mil vezes mais que antes?” “Não nego.” “Então?” “Talvez você tenha razão. Talvez eu seja um maldito masoquista.” “Não fique assim.” “Não?” “Não é produtivo isso.” “Você tem razão novamente.” Sorriu para ele e o chamou para si. “Não posso ir agora. Você deveria ficar aqui também.” “Não sei se devo…” ela titubeou “...não sei se conseguiria viver uma vida de carne e osso.” “Você mesmo quem me recomendou isso!” “Mas tenho medo. Já me magoei muito antes.” “Olha só a rota falando do esfarrapado!” “Eu sei, eu sei. Mas você é Marte. Você está apto para a guerra, para os ferimentos da batalha. Se eu me ferir, me desfaço em água, vou com as marés.” “Querida, você é a maré! Vem. Desce do teu pedestal e seja feliz.”

Ela olhou com o olho mais doce e depois com o olho mais vil. “Você sabe que sou terrível e divina. Sou mãe e bruxa. Sou o teu prazer e teu sacrifício e…” “Blá, blá, blá... Luna e Hecate, yadda yadda yadda. E eu sou Marte e Ares, sou Medo e Terrror, sou Libido e Potência… Porra! Sou um ser humano, caralho!” “Eu sei!” “E é em cada queda que aprendemos a andar, a sermos seres melhores. Você fica aí, num altar, cortejada pelos pobres, poetas e melancólicos e se esquece que, quando envelhecer, vai ser deixada de lado. Tua corte procurará outra Lua. E eu, deverei aposentar minhas armas, vou procurar um canto para criar meus livros e plantar meus discos. Cansei da Guerra, do Bom Combate. Quero sossego.” “Então está combinado.”

Ela desceu do pedestal e, antes de ir para São Paulo, disse no ouvido dele: “Tudo muda.” E ele: “Nada mudará.”

E era belo e verdadeiro, assim no alto, como embaixo.

Edição 9

ISA

Lívia Santana

Lá vinha ela, Isa. Uma visão. Morena das ancas largas, bamboleantes, pele acetinada. Os cabelos, em cachos escuros e brilhantes, caíam-lhe pelas espáduas, emoldurando o belo rosto e balançando no ritmo dos quadris. Os olhos, claros, quase amarelados, marcados por cílios longos e escuros. Os lábios, cor de carne, cheios, convidativos, se abriam num leve sorriso, revelando a fileira de dentes alvos e regulares. As pernas longas se moviam graciosamente, balançando a saia provocantemente em torno dos joelhos. Um animal vigoroso. Uma mulher que incomodava. Fazia latejar desejos insidiosos e impronunciáveis. Deixava um rastro eletrificado pelos olhares cobiçosos que a seguiam. Caminhava despreocupada, o vento brincando-lhe com os cabelos e as roupas, causando uma leve expressão de prazer em seu rosto. E Isa, passando como sempre em frente à minha casa, afigurava-se a cada dia mais irreal e desejável. Um espetáculo irresistível a mim, hipnotizado à janela. Meu sangue se revolucionava e mal podia me mover. Ficava ali, rígido e atormentado, sabendo que à noite, suado e insone, ainda a veria. E o dia demoraria eternamente a chegar, outra vez.

Edição 8

NA CHUVA

Lívia Santana

Durante toda a tarde o vento rodopiou as folhas e as saias, anunciando
chuva e, finalmente, na última hora de sol, ela chegou. Bendita.
Sensação de liberdade e prazer indescritíveis. Como se energia
liquefeita penetrasse em meus poros e iluminasse-me a entranha,
sacudindo a vida em minhas veias. A forma perfeita de lavar a mente e
o espírito, ficar leve como as nuvens depois que precipitam. Sob as
gotas frias, virei criança de novo. O rosto afogueado, corri pela rua,
chapinhei as poças, dancei e rodei, embalada pelo som do meu próprio
riso infantil.

Então atentei prum elemento dissonante: eu tinha platéia. Um homem bem
mais velho – eu tinha dezesseis – estava parado a alguns passos de
mim, indiferente à chuva que ensopava suas roupas claras, olhando-me
fixamente. Parecia confuso, chocado até. Sem saber por quê e sem me
lembrar que também eu estava encharcada, proporcionando uma vista
privilegiada através do meu vestido leve, me aproximei.

O olhar escuro, mesmo ligeiramente surpreso, ardia e hipnotizava, era
impossível me afastar. Era alto, forte, tinha a pele morena e os
cabelos pretos, entremeados de poucos fios prateados. Não chegava a
ser bonito, mas era atraente. Ficamos nos encarando por alguns
minutos, dissociados da lógica, até que ele fugiu, correndo sob a
chuva, antes que eu pudesse esboçar qualquer gesto para detê-lo.

Nunca o tinha visto, não sabia nada sobre ele, sequer tinha ouvido-lhe
a voz, e quisera detê-lo. Por quê? E por que ele tinha fugido? No
fundo, era o que mais me intrigava. Sabia que o arrepio que tinha
sentido na nuca nada tinha havido com a chuva. Aquilo tumultuou a
minha noite, fazendo-me rolar na cama, insone e ansiosa. A sensação de
ser observada, devassada pela curiosidade de um espectador nebuloso,
permanecia e impedia-me de conciliar o sono. Além disso, o olhar do
desconhecido continuava a me perseguir, chamando-me.

Passei os dias que se seguiram vasculhando a vizinhança tentando
revê-lo, inutilmente. Ele tinha sumido, como se tivesse se escondido.
Passei a esperar ainda mais ansiosamente que chovesse, na esperança
dele aparecer e, realmente, o vi mais algumas vezes, sempre em dias de
chuva e sempre fugindo de mim quando eu tentava me aproximar.

Aquilo já era idéia fixa, eu tinha que encontrá-lo, saber quem era,
dar vazão à impressão tão forte que me causava. Estava obcecada por um
estranho e senti crescer um desejo absurdo por ele. Meus sonhos
crepitavam lascivos, sentia na pele o toque forte das mãos dele.
Esfregava-me contra os lençóis tentando aplacar a sede através de gozo
solitário, a agonia quase insuportável.

Dias depois, o sol já tinha se posto e o céu ia gradativamente
assumindo um azul mais escuro, quando senti as primeiras gotas. Tinha
me sentado na calçada, sentindo a chuva sobre a pele trêmula,
imaginando se ele apareceria, quando o vi a alguns metros, olhando
daquele jeito intenso, quase dolorido.

Em vez de tentar aproximar-me, despi o vestido molhado e encarei-o,
desafiando-o a ser capaz de ir embora de novo. Hesitante, ele veio até
mim e ajoelhou-se no chão aos meus pés, o olhar ainda atormentado.
"Você é só uma menina". Então era só isso. Eu ri e arrematei: "Você
não sabe de nada". Coloquei a mão dele sobre o meu seio pequeno e
senti a resistência ir por terra. Eu tinha vencido o jogo disputado
sob a chuva.

Edição 7

Pale blue eyes
Zander Catta Preta

Diziam que ele era o rapaz perfeito, inteligente, hábil, bonito, educado. Era obediente e levado, sabia instintivamente quando podia forçar uma situação ou quando poderia chutar um balde. Era excelente na escola, notas à perfeição. Achava que tinha o mundo em suas mãos.

De fato tinha.

Um dia, encontrou um par de olhos azuis. Eram os primeiros olhos azuis que via. Pele branca, cabelo negro e olhos azuis como bolas de gude. Encantou-se por eles e decidiu que queria acordar do lado deles o resto de sua vida. Que queria ter filhos com esses olhos. Que envelheceriam juntos e ficariam vendo o tempo passar quando se aposentassem. Comprariam um café em Paris. No primeiro piso o café, no segundo livros e computadores. E isso era bom e certo.

Mas ele sabia que não estava escrito que ficariam juntos. Ela lhe passaria ao largo da vida. Nunca lembraria do seu nome ou que sentava a uma carteira dele na segunda série. Até porque ele adotaria um outro nome para si quando chegasse à maioridade. Um nome mais curto, mais forte. Ela mal se lembraria do franzino de franjas que lembrava uma menina. E ele usava um outro nome curto. Não era forte, tampouco feroz. Apenas infantil.

E ele tinha lido o livro de sua própria vida várias vezes.

Numa noite acordou, vagou pela sala vazia e sentou-se no sofá. Acendeu um abajur e começou a ler um gibi de terror qualquer. Teve um pouco de medo de andar “A Mão vai me pegar!” diria mais tarde para a mãe que lhe proibiria café, açúcar e gibis de terror. “Super-heróis pode! Mônica também!” “Mônica é de menina, mãe!” “E aquele de dinossauros?” “Esse é legal! Quero o do Tio Patinhas também!” “Tá bem!” Mas esse diálogo se daria apenas uma ou duas semanas depois de sua primeira virada. Lia o gibi e só conseguiu pregar os olhos quando o sol raiava.

Antes de amanhecer decidiu: “Não quero ganhar a vida. Vou ser ganho por ela.” Sempre sabia o que os outros iriam dizer, advinhava o que lhes encantaria mais, sabia que aos onze trocaria de escola, aos dezessete entraria numa faculdade, aos vinte e cinco terminaria o seu mestrado, aos trinta dominaria o mundo, aos quarenta morreria odiado, sem filhos, sem legado mas imprimiria a sua marca na história. Cem anos depois a humanidade encolheria para um sexto. Colonizaríamos a Lua e Marte, andaríamos em carros voadores e trabalharíamos três horas por dia apertando botões. Mas antes teríamos de passar por sua ditadura que expurgaria as fronteiras e as liberdades. “Não quero ser rei. Quero ser um pai.” Falou para a sombra que o fitava no umbral da porta. Fecharam os seus livros ao mesmo tempo. “Teu sangue herdará o mundo” disse a sombra. Decidiu que não queria o mundo mesmo. Os olhos verdes valiam mais a pena.

Chegou na escola (olhando com cuidado para os cantos escuros para ver se A Mão não aparecia para pegar a sua perna) no dia seguinte ainda virado. “Você não vai comer mais açúcar! Que é isso! Menino dessa idade virando a noite!” Não deu bola para a vó que o levava. Parou na banca, comprou figurinhas. Dividiu em dois pacotes. Uma para as repetidas e outra com as que não tinha, entregou para a vó. “Tó!” Esperaram o portão abrir e entrou à aula. Sabia o que a professora iria dizer antes mesmo de vê-la. Encontrou o Capitão Asa cantando Sideral e guardou na memória a letra da música. Subiu para a sala e sentou-se atrás dos olhos azuis que nem por relance o fitavam.

Ao chegar em casa recebeu a notícia que iriam se mudar do Méier no meio do ano. Ele teria de sair da escola e iriam para Copacabana.