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| edição 50 | A safadênha de hoje dispensa grandes apresentações, vez que faz parte de toda trajetória, não apenas dos AMORES - URBANOS, como também do Gehspace. Ainda assim marco aqui meu apreço pelas letras soltinhas, requintadas, de Lívia Santana, ou como sempre será para mim: a garota estrela. Reza a lenda que Lívia tem uma espécie de elo com Clarice. Certo, eu passei acreditar nelas. Nas lendas. Em miss Lispector também. E, claro, nas estrelas, ou seria na Lívia? ... Vocês entenderam!
Uberlândia, 29 de junho de 2006 SÁBADO
Mário tinha invadido a minha casa naquele sábado com um discurso inflamado sobre eu não poder continuar naquele bode, alegando que se eu ficasse mais tempo dentro de casa sozinho eu ia desaprender a falar e ficar todo embolorado. E, como bom amigo que era tinha vindo me resgatar do meu auto-exílio e das influências nefastas de mim mesmo, razão pela qual era pra eu desmanchar a carranca, entrar na roupa que ele sem cerimônia havia jogado sobre a cama e "passar um perfume pelamordedeus que ninguém era obrigado a sentir a minha catinga". Sem alternativa - até porque eu estava fugindo do Mário há quase um mês, desde que a Janaína tinha me dado o pé e eu estava mesmo amarrando um bode de um quilômetro dentro do meu quarto desde então - tomei uma ducha rápida, dizendo pro Mário que ele era um porco de camuflar bodum com perfume, enfiei um jeans e uma camisa legal e passei o diacho do perfume - ele não ia me dar sossego se eu não passasse, porque não ia sair comigo "fedido". Ele me arrastou pruma boate onde estava rolando uma festa hip hop, coisa que eu nunca fui muito chegado. Mas, como disse o Mário, a idéia era ouvir o tipo de música mais diferente possível da minha trilha sonora de fossa, que ele jurava que ainda ia jogar no lixo. Dei de ombros: que fosse então. Lá dentro, o de sempre: penumbra, umas luzes coloridas que não iluminam nada, muita gente se esbarrando, uma mulherada superproduzida com cara de nojo e uns babacas babando em cima delas. A música, altíssima, logo deixou de me incomodar - acho que foi anestesia - e me encostei no balcão do bar, rindo do Mário que não sabia pra onde olhar e estava feliz que nem menino que ganhou brinquedo novo. Fiquei na cerveja e ele, depois de algumas doses, se jogava pra toda garota que passava e anunciava: "Prazer, Petisco!". Elas não sabiam se riam ou se choravam e eu estava inclinado a concordar com elas. O Mário era sem noção demais e ia lhe dizer isso, quando minha atenção foi definitivamente desviada. Ela usava uma blusa preta de mangas longas e decote discreto, combinada com uma minissaia jeans desbotada. Era assombroso como se movia graciosamente em cima de saltos tão altos e como parecia feliz apenas dançando. De olhos fechados, ela parecia alheia a tudo o mais que não fosse a música e seu próprio corpo, cujos movimentos eram mais e mais vibrantes e belos. Eu fiquei ali, só olhando, por muito tempo. Mas não fui apenas eu que a percebi e em pouco tempo, foi-se formando pequena clareira à volta dela, uma horda de abutres se aglomerando para contemplar sua dança. Vi um deles se aproximar e sussurrar algo em seu ouvido e crispei as mãos sem perceber. Ela interrompeu a dança, abriu os olhos - eram grandes e verdes - sorriu e abanou a linda cabeça em sinal negativo. Então, virou-se de costas pro inoportuno, tornou a fechar os olhos e recomeçou a requebrar ainda com mais energia. Outros tentaram algumas vezes e ela os rechaçou a todos. Tive orgulho dela: "Isso, não se entregue facilmente, mande todos eles passearem". O Mário apareceu, dizendo que estava bêbado, que ia vomitar no banheiro e já voltava. Sem desviar os olhos dela, eu acenei afirmativamente. Nada mais importava. Eu tentava decidir se iria até lá, quando subitamente ela parou de dançar, ajeitou os longos cabelos com as mãos, sapecou um beijo no rosto de uma outra garota parada ali perto, acenou pra mais alguns e saiu caminhando rumo à saída. Fiquei um instante sem ação e depois corri atrás dela, sem nem lembrar que o Mário provavelmente estaria caído nalgum canto do banheiro masculino. Cheguei à porta em tempo de vê-la sair e tentei segui-la, mas o segurança me deteve, cobrando o cartão de consumo pago. Pensei em explicar que o amor da minha vida estava indo embora, que eu nunca mais ia vê-la de novo se ele não me deixasse sair, mas a cara de poucos amigos não inspirou confidências. Paguei o cartão às pressas, mas ela não estava mais à vista quando cheguei à calçada e a vontade que eu tive, além de chorar, foi voltar e quebrar o segurança de porrada. Ainda bem que lembrei a tempo que o fato do meu coração estar partido não tinha me feito dobrar de tamanho nem aprender kung fu. Voltei pro interior da boate pra resgatar o Mário - que de fato estava sentado no banheiro, meio desnorteado - e fomos pra casa. Durantes os meses que se seguiram, amarguei outra fossa, talvez ainda maior que todas as outras, mas dessa vez o Mário não reclamou. Embora eu passasse a semana toda ouvindo a minha trilha sonora depressiva - incrementada com mais alguns clássicos da dor de cotovelo - e desenhando a silhueta dela compulsivamente em todo pedaço de papel que me caísse nas mãos, todos os sábados eu tomava um banho, passava perfume e ia praquele mesmo lugar, procurar por ela.
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| edição 49 | São Paulo, sábado, 24 de junho de 2006.
Se existe carta que abro rasgando, sem ver selo nem data, tamanha ansiedade em devorar, sem duvida é a dela: Claudia Floresta - transita do RH ao Financeiro - porém quando sai do escritório é a mais que abusada colunista do "Cotidiano". Ela é aquela que tropeça chegando, ri chorando e fala dormindo. Ama o amigo, mas não perde a piada. Sua arte é debochada. Começa na distração pra findar na descontração. É um misto meio esquisito, seria algo como: "Invento desculpas, provoco uma briga, digo que não estou. A Cláudia não é Cazuza, mas sem duvida é exagerada! Dio santo... Rocca Stockler
São Paulo, sexta-feira, 23 de junho de 2006.
Ela sente olhos passando pela sua nuca, olhos que lhe perseguem já algum tempo. Olha com devida atenção pelo retrovisor e deslumbra um rosto moreno, barba por fazer e óculos escuros que a impossibilitam saber qual direção exata aquele olhar lhe foca. Ainda assim sabe estar sendo profundamente observada. Ouve ao longe o som de buzinas, continua encarar o retrovisor descobrindo um meio sorriso no rosto másculo do motorista do carro de trás. Mais buzinas, sem graça, se da conta de que o sinal abriu, volta à atenção ao trânsito, mas continua olhando pelo retrovisor. O carro percorre exatamente mesmo caminho que o dela. Apesar da distancia segura entre os carros, ela vê o motorista esterçar para mesmo lado que ela, segue pelas mesmas ruas como se a estivesse perseguindo. Novamente os carros param no farol. Ela observa que ele sorri enquanto movimenta os lábios parecendo balbuciar alguma musica, ela já não sabe ao certo se o sorriso é pela musica ou para ela. Decide encará-lo sente suas mãos suando, coração acelerado, respiração alterada. Continua dirigindo ansiosa com aquela presença silenciosa daquele olhar escondido atrás de óculos escuros, e mesmo assim não a impediam de senti-lo percorrendo-a. Ela sorri. Mesmo temerosa, afinal ter um estranho a olhá-la insistentemente é algo que a muito não lhe acontecia, sente-se cheia de si. Seu ego infla massageado. Ensaia possíveis falas. Os braços arrepiam o nervoso. Sua libido esta totalmente desperta. Transborda-se de coragem e estaciona ao terminar a curva, dirige seus olhos novamente ao retrovisor engatando um aceno de boas vindas e... Nada! Ele se foi. Subitamente desolada permanece ali olhando pro nada. Pensa no que poderia ter acontecido se ele continuasse a segui-la? O que teria despertado nele um interesse tão grande a ponto dela tê-lo percebido? Salta do carro sem pensar para onde ir. Desanimada pensa na possibilidade de ter esquecido de dar seta avisando o próprio trajeto. Mil pensamentos rondam-lhe a cabeça. O calor insuportável derretia-lhe o corpo. Sentada na guia acende um cigarro, olha para o salto fino, unhas esmaltadas. Passa a mão pelos cabelos, molhados, e sente um filete úmido escorrer pela alça de seu vestido, enquanto outro filete desce pelas suas costas. Olha para as mãos e agradece... No afã de não se atrasar para pegar as crianças na escola, esqueceu-se completamente de retirar a máscara de tratamento capilar. Por isso o estranho tanto ria.
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| edição 48 | AH os Amores Urbanos
São Paulo, 17 de junho de 2006, estréia em minha vida o desejo de farejá-los. Junto a cartas dedilhadas no eco das lembranças, muitas quais cheiram omissão. Que venham em forma de cartas, sejam conduzidas em primeira pessoa, ou mesmo aquelas observadas pelos olhares perspicazes de plantão. A primeira carta foi dedilhada pelo João Paulo Azevedo - dramaturgo, roteirista e cineasta – e enviada pra mim ainda com cheiro da tinta de sua velha máquina de escrever, do café amargo e dos tragos do continental. Este primeiro Amor Urbano, por mim observado, sem duvida lembra o bom e velho Nelson Rodrigues , ou seria Anjo Pornográfico? Que seja... No contexto do “Cheiro de Gasolina”, certamente Nelson diria: “Nem toda mulher gosta de apanhar, só as normais, as neuróticas reagem”. Rocca Stockler
São Paulo, 27 de janeiro de 2005. CHEIRO DE GASOLINA
Todas as noites Doris chegava e seu marido já estava em casa, isso porque trabalhava apenas seis horas por dia. Sempre a mesma rotina de cozinhar ou trazer algo pronto, uma marmitex, ou congelados. O Rapaz não tinha o menor agradecimento e a única coisa que os mantinha juntos era o sexo. Eram jovens, estavam resolvendo suas vidas. Ela trabalhava, contas em cima de contas, e em casa, aquela moça, Doris, a Dorinha, era uma mulher que galopava em seu cavalo imundo e cheirando a gasolina por hora. Ao terminar, sem carinhos, sem palavras, ou somente: - Apague a luz! Um novo dia recomeça e novos números vão aparecendo na frente de Doris, que em uma manhã recebe a visita do Amigo de seu marido, que por sinal é sobrinho de seu Pacheco. - Oi Doris! Os dois caminharam pelo corredor ao som das máquinas de escrever batendo, passaram pelo seu Pacheco que deu um comprimento em seu sobrinho, e chegaram a tal saleta. - Entre aqui. Disse ele com uma certa excitação. A sala era fechada, as pessoas entravam ali somente para fumar. O rapaz acendeu um cigarro e olhando para Doris respirou. - O que você quer falar comigo? Não me deixe ansiosa. O rapaz andava muito bem apresentado, uma camisa fina mandada por sua madrinha de Londres, um pulôver mandado pela mesma, mas no ano anterior. Fazia um pouco de frio, ela com uma blusa vermelha e um lenço no pescoço aguardava o que o rapaz iria falar. - Será que alguém já foi tão claro com você quanto eu vou ser? Ela não sabia o que se passava. - Eu não sei aonde você quer chegar, não to entendendo por que me chamou... Mas em um instante ele a interrompe. - Eu quero transar com você Doris! Um silêncio ficou naquela sala com cheiro de cigarro, ele sentado ao seu lado acendendo um cigarro no outro, ela sem acreditar no que estava ouvindo. - Eu não estou acreditando que você está me falando isso, fique sabendo que seu Pacheco e meu marido vão ficar sabendo disso. Um clima de revolta criou-se sobre ela. Seu marido contara sobre suas intimidades, coisas que ela não contava nem para sua manicura, e ainda por cima tinha consciência que um outro homem gostaria de possuí-la. Seu Pacheco, até que ponto sabia dessas histórias? - Eu não acredito nisso, meu marido, o homem que eu amo, me envergonha na frente das pessoas, um sujo que não vale a bosta da Variante que ele abastece, fala de mim pelas ruas... Nesse momento ela para, se sente um objeto perdido, mas vingativo. Doris tranca a porta, afasta as cadeiras que estão a sua volta e se joga no chão com ele. Ao mesmo tempo em que ele se sente excitado sente medo pela reação de Doris, mas o que ele queria vai ter. Doris comanda toda a situação, abre sua camisa botão por botão, contorna os músculos de seu peito com as línguas, abre sua calça e cavalga, mas agora sentindo um cheiro diferente. No ar o cheiro mistura traição, com cigarro Continental, e coito. Eram ouvidos gemidos e línguas se estalavam, um pingo de suor dela caiu dentro da boca dele, assim como seu sexo. Quando foi terminada a sessão desmascaro, os dois se olham. - Quero que você vá à minha casa amanhã.
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| edição 47 | Compro Ferro Velho !
Oito horas da manhã e ele dormia sono profundo, sonhava até. Lá muito longe começava a ouvir como se estivesse ainda no sonho. - Compro ferro-velho, maquina-de-lavar velha, ar-condicionado velho, aquecedor velho! Compro ferro-velho! Abriu os olhos, olhou para o relógio, não acreditava estar o sujeito berrando daquele jeito e tão cedo. O carro de som que, por sinal, era muito velho, passava por sua janela e a voz foi ficando distante, embora ainda o incomodasse. Cinco minutos depois, nova carga. O cara dizia estar ali para comprar todo e qualquer ferro-velho. Mas porra, caralho! Ele pensava. "Não quero vender porra nenhuma velha! Quero dormir!" Levantou-se tal qual um ninja em plena forma, correu para a área de serviço, encheu um balde de água e fez o que sempre sonhou, desde criança. Inundou o carro do ferro-velho, que agora berrava no microfone: - Filho da puta! Aparece aí seu corno! Vou te pegar moleque! Ele, encostado na parede do quarto, gargalhava como se fosse um menino, adorando tudo aquilo. Ali sentado e rindo muito olhava para as paredes do quarto e veio à cabeça a época em que as mesmas paredes eram cobertas de pôsteres e fotografias. Desenfreada descoberta. Mais pra frente um pouco, casou, mudou e convidou os amigos para comemorar! Durante esse tempo viu aquele "seu" espaço sendo transformado em Biblioteca, eram quatro paredes de livros. A cada visita, nos almoços de domingo, via as paredes se encherem de livros e mais livros até não haver mais espaço. Doze anos mais tarde uma grande reviravolta! Tudo desmoronou! Estava ele ali novamente olhando para o quarto vazio, espaço que foi ocupando com o que lhe sobrou da outra vida. Deixa ali guardado no canto, seus quadros, gravuras, CDs, livros, instrumentos e porta-retratos como se ali estivessem sempre lhe lembrando. Está ali só de passagem. E lá se foi, puto da vida e um pouco molhado, o homem que comprava ferro velho. Ele, ainda dava risada.
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| edição 46 | valdomira
valdomira é formada em educação física. já foi bailarina. já foi muito gostosa. já parou trânsito. mas o tempo, o computador, a tv, o miojo e o controle remoto exerceram suas funções e aquele belo torso passou a ser lembrado somente por poucos seletos a quem valdomira mostrava (quase pedindo desculpas) suas fotos antigas. cansada de ter sempre que ir na frente quando o carro está cheio, resolveu mudar sua situação e tomou algumas atitudes que, agora, passados 6 meses, parecem estar surtindo efeito. são as pequenas coisas que fazem a diferença: outro dia, enquanto tomava banho, olhou para trás e viu sua própria bunda, façanha que antes só era possível com o auxílio de um espelho. na sua ex-atual loja predileta, conseguiu comprar uma saia g. a verdade é que não ser mais uma criatura gg conferiu-lhe dignidade e confiança. o aspecto relacionado ao sexo oposto foi aonde as mudanças ficaram mais evidentes: acostumada a ser cumprimentada somente quando estava ao lado de uma amiga magra, a só trepar de luz apagada e a só andar com caras problemáticos (geralmente regidos sob o signo de escorpião), valdomira passou a ser observada, cumprimentada e desejada por homens atraentes, desses bem machos e cheios de atitude, que são atraentes sem serem bonitinhos. foi se pesar pra saber a matemática da coisa. ao todo, foram 10 os quilos perdidos. quando olha para trás, não vê 6 meses, vê 10 quilos. o tempo passou em quilos. entendeu a ditadura da beleza e a lógica espoliante da milionária indústria da dieta. olhando assim, sem prestar atenção, parece até que valdomira está muito feliz. mas ainda lhe falta alguma coisa, que ela simplesmente não consegue definir o que é. deve ser essa tal de felicidade, que não contém calorias, não engorda, não faz mal, mas anda em falta no mercado. dizem que está pra chegar. talvez na semana que vem, junto com as saias tamanho m. |
| edição 45 | as amigas de ana
as amigas de ana fazem dela várias. tudo que ana não viveu até hoje, seja por falta de oportunidade, de coragem ou de sorte, o fez por intermédio de suas amigas mulheres, que não são muitas, mas suficientes. na escola só teve uma: negra, altíssima, atleta e gênia de plantão, discriminada por tantas razões, mas altiva como uma deusa, irredutível e combativa. foram cúmplices na difícil tarefa de existir num mundo que não curte o diferente. na faculdade é que tudo realmente começou e passou a ser concreto: a primeira paixonite por um professor, a primeira transa, as pegações nas chopadas, as noites sem dormir, as histórias memoráveis, as histórias contadas por outrem, as coisas ditas em excesso, as coisas não ditas por medo e que pairam até hoje como jujubas estragadas no fundo do pote mofado atrás da louça reservada para o casamento desmanchado por pura bravura. foi na faculdade que construiu os pilares de sua feminilidade estranha e a capacidade de amar à distância as amigas que casaram e tiveram que partir, seja pra outros estados e países, seja para outro universo, o do marido insensível e preocupado somente com a própria dor nas costas e com o futebol de quarta-feira à noite, mesmo quando não se trata de seu time e sim de 15 de jaú contra 15 de piracicaba. aprendeu a amar e a respeitar as amigas que não são mais amadas e que só permanecem casadas por medo de uma solidão exposta, de uma surra ou de terem de criar crianças sem a figura paterna. aprendeu a respeitar inclusive as mães das amigas que simplesmente não aceitam o fato de uma moça “tão bonita e inteligente como você não estar casada e não ter filhos”. hoje entende que elas não falam isso por maldade e não se irrita mais. como nem tudo é sempre cruel o tempo todo, ana ama os poucos maridos que fazem felizes suas amigas e que gostam de recebê-la num domingo para uma cerveja em casa, para ficarem todos bêbados e cercados pelo atordoante e delicioso barulho das crianças que insistem em crescer como samambaias choronas bem regadas. no fundo, lá dentro, mesmo sem admitir pra ninguém, ainda sonha em encontrar um homem assim, sensível, companheiro e imperfeito, que goste de 15 de jaú contra 15 de piracicaba, mas que não dispense flores, poesias, bombons e massagem nos pés, porque é disso que moças como ana gostam: da imperfeição concreta e dos domingos bêbados. |
| edição 44 | anita e silvério
anita achava que pescoço servia somente para pendurar colares. isso até conhecer silvério, moreno espadaúdo de barba e voz grossas, consultor de uma multinacional e especializado em zonas erógenas.
tudo estaria perfeito não fosse o fato de anita considerar os consultores pessoas que levavam muito a sério o velho ditado de que "se conselho fosse bom, não se dava, se vendia". anita estava com silvério somente por conta de seus dotes sexuais mas não tinha coragem de deixar isso claro pra ele. não queria perder seu "personal fucker". - querida, vamos a um jantar amanhã? - aonde? - na casa de adilson e eva, aquele casal que tem uma microempresa de consultoria no setor de informática. - amanhã não vai dar, bem. - toda vez é isso! queria saber quando vai dar. - na verdade você não quer saber. - quero sim. - então tá: não gosto desse povo consultor que acha que a vida é dar dicas sobre o que fazer, aonde fazer, com quem fazer. gosto de gente que faz as coisas porque faz e não porque tem uma lei de mercado e indicativos financeiros indicando um caminho. gosto de gente que come a sobremesa em silêncio. gosto de gente! de gente! sivério entendeu a mensagem. afinal de contas, era um expert em indicativos. anita saiu para comprar colares. |
| edição 43 | Vôo do Amor “Ele só precisava voar para ser feliz” Abel morava num daqueles prédios construídos na zona norte do Rio de Janeiro durante os anos 50. O apartamento era razoavelmente espaçoso, com uma pequena varanda que revelava a rua e as varandas do edifício logo em frente. Orgulhava-se de ter conquistado cada centímetro quadrado daquele imóvel com o suor do seu próprio rosto. De fato, ele começara a trabalhar aos 12 anos e, aos 29, comprou o seu castelo particular.
Trazia por companheiro o Tom, gato que salvara de um apedrejamento que lhe havia sido imposto por crianças de rua. Tamanha a gratidão do gato, que este nunca tentou sair do apartamento do seu dono. Ficava ali dia e noite, a cuidar da casa, enquanto Abel lhe assegurava o suficiente para ter algum conforto. Viviam então os dois, numa cômoda rotina: Abel saía de casa por volta das 8, indo para a redação do jornal no qual era responsável por uma coluna diária. Voltava por volta das 22, a tempo de brincar com Tom e dormir. Além do gato, trazia ainda uma outra companheira, uma dorzinha que por vezes azucrinava o seu pensamento. Acontece que Abel sempre era rejeitado por suas namoradas após algumas semanas de relacionamento, porque nenhuma delas aceitava se curvar à sua imutável rotina. Por conta disso, ele fizera 6 meses de terapia. Por fim, conformou-se com o fato de que estava vivendo uma fase de dedicação total à carreira profissional. “Amor” seria uma prioridade futura. Exatamente na primeira quarta-feira de maio, Abel teve um sonho muito estranho. Viu-se voando, levado por fortes ventos que o haviam retirado do chão duro onde antes jazera deitado. E, no ar, encontrou uma linda ruiva, que voava em sua direção. A bela mulher abria os braços e dizia uma única palavra: “vem!”. E voavam, e se amavam intensamente. Abel acordou com o barulho que Tom provocava ao revolver a areia da caixa sanitária que ficava na varanda. O relógio marcava 3h40min, naquela que era uma madrugada de ventania. Virou-se e voltou a dormir. Na quarta-feira seguinte, o mesmo sonho. E Abel acordou novamente, às 3h40min, com o som da areia sendo revolvida. Pensou ser um déjà vu, fechou os olhos, dormiu. Pela manhã, Abel relembrou o sonho. Achou surreal demais para dar alguma importância e preferiu ocupar a cabeça com o trabalho. Pela terceira semana consecutiva, o sonho se repetiu. E o barulho. E o horário. Abel olhou para Tom. Tom olhou para Abel. “Tem alguma coisa estranha acontecendo”, pensou Abel, enquanto tentava pegar no sono novamente. No dia seguinte, quase perdeu o prazo do fechamento da edição. Em sua mente, voava com aquela ruiva desconhecida. E por mais três semanas, tudo se repetiu. As quintas-feiras passavam a ser conhecidas como “os dias fracos do Abel”, porque ele agora atrasava um pouco o trabalho. A situação estava ficando desesperadora, mas não havia nada a ser feito. Sua vida não comportava folgas às quintas-feiras, assim como não estava comportando seus “vôos noturnos”. Por isso, suportava a situação resignado, mas com crescente irritação. Quando a cena já se repetia, agora pela sétima vez, Abel decidiu fazer diferente. Levantou-se, nu em pêlo, e foi até a varanda jogar mais areia na caixa sanitária de Tom. Depois disso, estranhamente tranqüilo, sentiu o impulso de olhar para a varanda do apartamento em frente ao seu. Naquele exato momento, havia uma ruiva verdadeiramente linda, nua como ele, despejando água na tina de um cão que a aguardava na varanda do apartamento. Abel sentiu-se gelar, porque era a musa do seu sonho. Quando se olharam, o mundo deixou de ser real, e o desejo invadiu seus corpos, deixando-os suados em meio à ventania. Por fim, ela sorriu, abriu seus braços gritou: “VEM!”. E os dois se lançaram de suas varandas, tocando o chão sujo da rua com grande violência. Depois disso, desprenderam-se dos corpos que jaziam inertes, para voarem juntos naqueles ventos loucos, entrelaçando-se por toda a eternidade em seu vôo de amor.
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| edição 42 | Calcanhares de Aquiles
A tara de Aquiles causava alguns embaraços, principalmente por decepção. Isso porque as mulheres se sentiam indignadas: algumas (com nádegas produzidas, "lipadas", construídas por cirurgiões competentes, verdadeiramente deliciosas de serem observadas) sentiam profunda decepção ao perceberem que um homem as seguia pelas ruas desprezando todo o esforço que fizeram para alcançarem uma silhueta tentadora. Porque Aquiles as acompanhava com o olhar vidrado, rente ao chão. Quantas auto-estimas foram feridas ao perceberem que o silicone e as plásticas não seduziam a todos os homens! E era assim, até que um dia Aquiles saiu verdadeiramente do prumo. Ao passear pela rua, ele vira um par de calcanhares redondinhos, "irradiando" maciez, de cor rosada. Um deleite para os olhos e para o espírito. O pobre rapaz se viu irremediavelmente tomado por aquela visão do paraíso. Esqueceu o trajeto, abandonou o seu percurso e pôs-se a caminhar admirando aquelas obras-primas. Seguiu, então, Aquiles: rua acima, rua abaixo, virando esquinas, apertando um pouco o passo para acompanhar o ritmo apressado daqueles pequeninos monumentos. Chegou a se incomodar com uma leve dor na nuca, resultante da postura curvada que assumira para melhor observar o seu objeto do desejo. Durante a "perseguição", reparou um pouco nas panturrilhas fortes e na barra do vestido estampado. Mas nada mais importava, somente aquelas duas formas sensuais que se moviam alternadamente à sua frente. De súbito, os calcanhares se viraram e deram lugar às pontas agudas dos sapatos que cobriam o resto dos pés. Surpreendido, Aquiles subiu seus olhos e viu: os pés levavam a um vestido florido, com um cinto justo e alinhado servindo de divisor; o corte do vestido, tomara-que-caia, revelava ombros largos, levemente musculosos; por fim, o pescoço levava ao rosto, no qual se percebia um certo exagero no pó compacto, a fim de disfarçar a barba por fazer. - Quer alguma coisa? Eu já estou atrasada. - dizia a dona dos calcanhares. Aquiles, estupefato, respondeu: - Sim... seus calcanhares! Recebeu um sorriso em retribuição. Trocaram os números de telefone e, naquela mesma noite, se encontraram. E Aquiles se deliciou, naquela e em várias outras ocasiões, ao acariciar e beijar aqueles calcanhares. Obviamente, o corpo todo participava naqueles encontros íntimos. Aquiles tornara-se outro, depois de ter para si aqueles que seriam os seus pontos fracos. Depois disso, Aquiles nunca mais viu graça em perseguir calcanhares femininos. Tentou, mas foi em vão: passou a achá-los secos demais, pequenos demais, frágeis demais. Por fim, resignou-se. Aquiles fora derrotado por calcanhares apolíneos, pertencentes a alguém cujo nome de batismo era um tanto exótico: Páris.
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| edição 41 | Telefones e e-mail
“É que você fazia o gênero de 'poeta tuberculoso', cara. Agora tá feliz e não encontra o caminho antigo das palavras.” “Pode ser isso. Ou então é que as musas, os temas, me fogem. Eu perco as noites e não acho em mim vontade de mais nada.” “Porra, que merda.” “Nem é. Não me lembro de ter estado tão feliz antes. Eu me remexo na cama, coloco uma música no sonzinho da cabeceira e não encontro a angústia que me fazia escrever.” Veio o chope de um e a caipirinha do outro. Romancista comentou seguindo o serviço. “Eu também tô com 'bloqueio de escritor'. Ouço as vozes que me contam os contos, que me os sussurram na calada, mas não consigo mais sentar ao computador e escrever palavra. As músicas continuam me prendendo num loop eterno.” “Cinta de Möebius.” “É. Entra a música – a danada da Carla Bruni – e não faço mais nada. Tô perdido.” “Tá nada. Tá é apaixonado.” “Pode ser. Mas escrever é paixão e paixão é desequilíbrio. É como andar, um exercício de corte com a queda. Um ensaia o tombo e o pé segura na razão. E assim andamos passo a passo. Palavra a palavra.” “Os versos medidos e desmontados.” “Os parágrafos pensados e encadeados. É isso aí. Mas ela me dá paz e na paz fico amarrado.” “Enforcado.” “É.” Tinham feito o mesmo curso de tarô vinte anos atrás. Brincavam de “carta favorita” a cada evento de chope. Era como se tirassem as cartas para si mesmos sem precisar do baralho. Poeta retomou o papo depois do silêncio. “Te contei quem divide a minha cama agora? É a Aline.” “Não brinca? Sério. Porra, cara! Tu não é homem bastante para ela! Tem esse jeito bobo, desengonçado, sem graça!” Riu da própria piada. O outro não. “Eu sei. Também acho isso. Eu acordo de noite e fico olhando para ela meio embasbacado. Ela ali, nua. E eu fico medindo a minha sorte. A sorte de um merda de um poeta frustrado e funcionariozinho de uma porra de empresa de webdesign. Webwriter de cú – com acento! – é rola! Mas é isso que tá me fazendo levantar cada dia e encarar mais um dia de FGTS. É isso a vontade de ser um homem mais merecedor daquela deusa que divide o suor e o gozo comigo. Essa mulher maravilhosa que me dá o prazer de dividir a sua intimidade.” Romancista riu baixinho, como se entendesse tudo agora. “Cara, você quebrou a regra número um do artista: não se come a musa.” “Porra cara!” “É sério. Teu motor de inspiração era o amor não resolvido desfiado em tinta e papel. Teus melhores textos eram aqueles que ficavam ali no fio da navalha entre a corte para a conquista, essa dança de acasalamento moderna, e a punheta da paixão platônica. Era ali, na penumbra, que você se encontrava.” Poeta ficou meio puto, meio divertido com o comentário. “Você queria que eu fizesse o quê? Nunca fui bom nessa merda de cantada, de cortejar. Sempre me perdi nesses dois lados do muro. Nunca sabia se pedia o telefone ou email.” “Como é que é?” “Se eu pedisse o telefone, significava que eu já ia para a abordagem, apontava a proa do navio e abalroava a menina. Se eu pedisse o email, era para ficar na cantada insossa, no cerca-lourenço que se convencionou chamar 'a corte' hoje em dia.” “Cara, e o meio-termo?” “Te disse, nunca fui bom nisso. Eu acabo que me atiro antes dos sinais de permissão e invado o espaço alheio me fazendo querer. Só que nem sempre o outro lado tá sabendo das regras do jogo e nunca combina resultado, né?” “Acho que entendo.” “Então. Ela veio, entendeu o jogo antes de eu colocar as regras. Me desarmou, se instalou, tornou-se parte da decoração do meu quarto.” “Que merda de metáfora.” “Tô falando que perdi a mão!” Ambos riram, pediram um jiló em conserva, saideira e a conta. Chovia menos. Andaram até a Nossa Senhora de Copacabana e fizeram sinal para um táxi. Partiram para a Tijuca. Um atrás de quem já lhe esperava, outro atrás de algo que havia perdido. Quando Poeta desceu do carro, virou-se para o amigo. “Quem tem medo do fim, não deve nem começar.” “Tu tá bêbado.” “E feliz!” Fechou a porta, mesclou-se com a paisagem da Praça Vanhargen. Súbito, o que ficou tinha uma história para contar.
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| edição 40 | A incrível história de um homem complicado: um melodrama moderno sobre o amor por Victor Andrade Parte Final: Liberdade
Sandro acordou lentamente, com os olhos inchados e a cabeça dolorida. Lembrara-se do tal anjo, e de ter chorado muito, enquanto relembrava fatos que preferia esquecer para sempre. Olhou para o lado e viu o anjo. Ele estava sentado na cadeira da escrivaninha, olhando pela janela: "Levanta, Sandro. Tens um lindo amanhecer para assistir". Sandro não foi até a janela. Preferiu ficar sentado na cama. "Por que você ainda está aqui?" "Porque a parte mais importante ainda não foi dita. Ontem, tu não estavas em condições. Preferi que descansasses. Assim que quiseres, podemos tratar da verdadeira razão da minha vinda." "Diga." O anjo se levantou e tocou as mãos de Sandro. "A razão de eu ter vindo aqui é para te dar a boa nova: estás livre, a pedido de alguém que te ama." "Livre do que?" "Daquilo que vimos ontem. Agora que sabes das razões pelas quais não te permites amar, podes pensar se o teu desejo é continuar vivendo assim ou viver sem medo do amor." "Agora estou confuso. Você não veio aqui pra mandar que eu voltasse para a Michelle? Não foi por isso que você veio aqui?" "Não. Vim para te mostrar por que razão tu foges de toda namorada que demonstra te amar de verdade. Mas a decisão cabe a ti." "Como assim? Você vai me deixar na mão?" "Muito pelo contrário. Eu já te dei mais do que deverias ter recebido. Tens em tuas mãos a oportunidade de ouro de resgatares o amor do passado." "Não é assim tão fácil. Garanto que a Michelle já deve ter um namorado novo. Ela deve ter mandado aquele email pra me preparar psicologicamente: um dia, vou dar de cara com os dois." "Sandro, por que te julgas tão desprezível? Queres saber a verdade, eu te direi: Cecília abriu a caixa quando você foi embora da festa de quinze anos dela. Olhou as alianças, chorou e passou seis meses te esperando. Não te procurou porque sentiu vergonha, por ter feito coisa tão dura contigo. Está casada, grávida de um menino que, já decidiu, batizará com o teu nome. Leila até hoje tem aquele bicho de pelúcia que tu deste na comemoração do primeiro mês de namoro. Tamara já quis te ligar várias vezes para marcar um encontro, mas tem medo de parecer uma mulher oferecida. E Michelle... Bom, eu não devia falar sobre essa." O anjo abriu um sorriso bastante sapeca. Sabia a conseqüência da frase que havia deixado no ar: Sandro abriu bem os olhos, fez cara de espantado e disse: "Como assim??? Conta, conta logo!!!!!" "Acontece, Sandro, que ela está contigo. É por causa das orações dela que me foi ordenado descer à Terra. E não estou dizendo isso para que acredites que tens que ir até ela. Não é o meu propósito aqui. Meu propósito é liberta-lo." "Ela não está pedindo pra você juntar a gente de novo?" "Não. Ela está rezando para que tenhas paz de espírito, para decidires o que é melhor. E só terias essa paz se entendesses o motivo da tua angústia. Exatamente por essa razão, estou aqui. E tu és livre, livre para decidir o que queres." "Mas vocês não costumam fazer assim, não é? Só na bíblia tem esses relatos de anjo daqui, anjo dali, dando orientações etc. Será que eu sou tão importante assim? Ou será a Michelle?" "Rapazinho, eu não estou autorizado a falar dos nossos métodos de operação. Mas, já que estás me provocando, eu te explicarei: não, vocês não vão gerar um filho iluminado, nem são tão importantes assim. São gente pequena. Como todos são. E Deus cuida de todos igualmente, desde que estejam dispostos. Mas, pra responder à sua pergunta: Deus não nos envia mais para dizer o que é melhor, mas utilizamos o potencial multiplicador de cada ato." E continuou: "Essa tua história vai ser comentada com dois, que vão comentar com mais oito. Um deles vai escrever num email. 57.314 pessoas vão ler a mensagem, ao longo de 12 meses. Desses, há 8.749 pessoas que estarão passando por um momento semelhante ao seu e que encontrarão sentido no que está escrito. Por fim, uma pessoa vai fazer um conto sobre toda essa história, que vai ser publicada num site, sendo lida por 54.812 pessoas, sendo que mais 11.103 vão entender a mensagem dessa história como um sinal para si mesmas. Compreendeu? Milhares de pessoas, que nem sequer vão saber quem és, vão se beneficiar. Deus trabalha assim." Sandro fica estupefato com tamanha modernidade. Deus inspira email? Como assim? Ante tal revelação, Sandro se sente um idiota. Depois dessa, já não estava na posição de duvidar de mais nada. Até riu da situação. "O mais importante, no teu caso, é que compreendas que és livre. Esqueças disso que falei agora. Não te preocupes com as tarefas, deixa-as a cargo do Altíssimo. A tua obrigação é só uma: viver. Quanto a mim, agora devo partir." O anjo se despede de Sandro, deixando-o a sós, frente ao sol que agora invade o seu quarto.
Após o encontro de Sandro com o anjo, passam-se três meses. Nesse período, ele conhece a Martinha, uma graça. Flerta com a Talita também. Ambas são bonitas, mas ele não consegue se empolgar. Falta algo. Falta uma "Michelle" nelas. É aí que ele, por conta própria, toma uma decisão: liga para a Tamara. Saem duas vezes, também não é grande coisa. Acorda no dia seguinte ao último encontro com ela. Olha-se no espelho e lê, escrito na sua testa: MICHELLE. Inevitável. Parece que as orações da menina fizeram mais efeito que o esperado. Nesse meio tempo, ela parou de mandar emails. Nunca mais se viram. Ele nem sabe se ela está viva, se mora no mesmo lugar. Durante uma tarde de tédio, dentro do seu quarto, ele pega o celular. Olha, olha, olha. E liga para Michelle. A voz de Michelle enche os ouvidos de Sandro, mas ele fica preocupado: a respiração dela está ofegante. Ele pergunta: "Estou incomodando algo?" "Não! (ofegante) Eu corri para atender ao telefone!" "Mas, por que você correu?" "Não sei. Eu sabia que tinha que correr, só isso." "É. Eu também sabia que você ia atender." Nada mais importa para eles. Vão viver a vida, só isso. Confira!
Parte I: Acordando aos 30, Parte II: De volta aos 25,
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| edição 39 | A incrível história de um homem complicado: um melodrama moderno sobre o amor por Victor Andrade
Sandro acompanha enquanto a luminosidade emana das mãos do anjo e invade todo o quarto. Quando se dá conta do que está acontecendo, percebe que está em meio a um corredor de luz, no qual pode ver algumas cenas que ele se lembra de ter vivido. O anjo olha para Sandro e diz: "Bom, agora eu vou explicar a tua vida. Só um comentário: Deus é onisciente. Logo, Ele sempre está certo. Não te preocupes em tentar dizer que estou errado, porque não estou. Ouça e reflita." A primeira cena para a qual o anjo aponta é uma cena que sempre permaneceu em flashes na memória de Sandro. Ele tinha cerca de quatro anos e estava brincando de casinha com duas amigas: Juliana e Márcia. Sandro, muito feliz na brincadeira, pergunta para Juliana: "A gente ta casado?". Juliana ri e responde: "Não, você é muito feio! Mamãe falou que eu vou casar com um menino bonito, quando eu for grande". Triste com e resposta, ele se vira para Márcia: "Você quer casar comigo?". Márcia responde: "não. Só quero fazer um bolo gostoso e mostrar pra tia". Sandro ri, comentando baixinho: "Lésbica desde pequenininha". O anjo olha para Sandro com frieza e fala: "é por isso que guardas tantas marcas do passado. Não olhas para ti mesmo. Preferes que a tua mente, às escondidas, te encha de traumas. Percebes o que houve aí? Foste REJEITADO. E desde então, passaste a te sentires assim, como se ninguém fosse aceitar-te como és". Sandro perdeu o sorriso e arregalou os olhos para o anjo. Como assim, sentia-se rejeitado? O anjo devia estar errado, certamente. Mas, por outro lado, o anjo (aliás, se isso não for uma alucinação) é um enviado de Deus, deve saber tudo. Aquilo estava começando a fica desagradável, principalmente porque Sandro não gostava de se auto-analisar. Aliás, não gostava de refletir. Isso era tão claro para os que o cercavam que, por três vezes, seus pais tentaram encaminha-lo para um psicólogo, a fim de pensar um pouco sobre a sua visão de mundo. Em vão: ele nem sequer quis saber o nome dos profissionais indicados. Ainda hoje, costuma dizer que sabe exatamente o que se passa na sua cabeça. Ledo engano. O anjo continuou: "sim, guardaste esse sentimento de rejeição desde então, em relação a todas as pessoas que o cercam. Por isso, quando te entristeces, acabas te afastando de todos o que te amam: para não correres o risco de seres rejeitado, de repetires essa cena boba que viveu no jardim da infância. Infelizmente, não compreendes que essas horas de tristeza são os momentos nos quais os que te amam são ainda mais importantes para ti". Olhando para outra tela, o anjo mostra a festinha de aniversário de oito anos, que Sandro comemorou numa lanchonete. Depois de cantarem o "parabéns prá você", começaram a cantar também o famoso "com quem será?". Acontece que Sandro era apaixonado por uma menina de olhos verdes e cabelos dourados da sala dele, chamada Viviane. Cantaram a tal música citando o nome dela e ele esperava, em seus sonhos infantis, que a menina ficasse vermelha, talvez até sorrisse pra ele. Mas ela não estava perto da mesa. Quando foram procura-la, descobriram que ela havia acabado de dar um estalinho no Celso, aquele mesmo que hoje é o seu melhor amigo. "Sabe o que a tua mente guardou disso, Sandro?" "Mais do que isso: como não quiseste abrir mão da amizade com Celso, preferiste abrir mão dos sonhos românticos com essa menina. Só que estendeste esse pensamento para todas as garotas, a partir daí. Não permitiste que tua mente deixasse outra menina habitar os teus sonhos até os dez anos de idade. Mesmo depois, aprendeste a destruir os sonhos que o teu coração insiste em ter." O anjo se vira para outra cena. Nela, há um casal de cachorros cruzando. Sandro tinha doze anos quando viu a cena. Não agüentou a curiosidade e perguntou: "Essa cena faz parte do meu problema com mulheres? O que ela quer dizer?" "Não quer dizer nada. Essa cena foi a responsável pela tua primeira ereção. Só deixei aqui para que percebesses como és patético. Aliás, todos vocês são". Ante o sorriso sarcástico do anjo e o total constrangimento de Sandro, a cena se dissolve. O anjo olha para outra cena, uma cena que logo muda as feições de Sandro para uma expressão de desalento. É a primeira vez que seus olhos se enchem d´água. É uma cena linda: um salão decorado, com cerca de oitenta, talvez cem convidados. Sandro tinha dezesseis anos e já namorava Cecília havia oito meses. A menina era especial: linda, com um sorriso angelical, olhos castanhos com pontos brilhantes, sempre simpática. Era um pouco mais baixa do que ele, na altura certa para pousar a cabeça sobre o seu peito nos momentos mais românticos. Foi com ela que Sandro teve suas primeiras experiências sexuais, tudo envolto em medo, falta de informação, e uma paixão tão grande que jogara por terra todos os traumas e barreiras que ele tinha em sua mente. Aquela noite não era uma noite comum. Era a festa de quinze anos de Cecília. Ela parecia uma princesa, de tão linda. Irradiava doçura, envolta por um vestido de um rosa tão claro que, sob a luz do salão, quase se confundia com o branco. Sandro também estava muito bonito, numa farda que seus pais alugaram para que ele fosse um príncipe à altura daquela debutante. No bolso, Sandro trazia um presente especial: uma caixinha, dentro da qual havia um par de alianças. E a festa foi perfeita, a valsa foi perfeita, os sorrisos foram muitos. Cecília parecia um pouco desanimada, mas dissera que a razão disso era o cansaço de ter passado o dia todo correndo para o salão, depois para casa, depois para a festa. Sandro acreditou. No final da festa, Sandro conseguiu leva-la para um jardim externo, em frente a um pequeno lago. A lua era refletida nas águas, transformando o momento em algo que ele jamais esqueceria. Foi quando ele pegou a caixinha fechada e entregou a Cecília. Antes de abrir o presente, ela pediu para falar uma coisa. Seu rosto estava tenso, parecia que havia algo errado. Quando começou a falar, Sandro entendeu: ela disse que o amava, mas que havia algo estranho acontecendo. Pediu desculpas e terminou o namoro. Sandro, naquele momento, caiu de joelhos e começou a chorar. Cecília não sabia o que fazer e começou a chorar também. Pediu desculpas, tentou coloca-lo em pé. Sandro se levantou, deu as costas e foi embora. O anjo toca o ombro direito de Sandro, que a essa altura chorava descompassadamente. Jamais esperara viver aquela tragédia pessoal, e agora era obrigado a assisti-la em todos os seus detalhes, relembrando a maior dor que sentira em sua vida. "Sandro, me escute. Não precisas cultivar essa dor. Nem precisas ter medo de que aconteça de novo. Nenhuma das tuas namoradas posteriores seria capaz de causar um sofrimento parecido. No entanto, tu te afastaste de todas elas. Quanta dor tens causado, a ti mesmo e a elas, pelo medo de sentires dor novamente!" "Eu não posso! Passei meses chorando por causa da Cecília! Não quero mais que isso aconteça! Não vou permitir!" "E, para que isso não aconteça, preferes repetir essa mesma história na tua cabeça, todos os dias. Só que a Cecília já passou. As outras namoradas não eram a Cecília. Nem poderiam ser. E insistes em trata-las da mesma forma". Sandro não suportava vivenciar aquilo de novo. Chorava muito, num descontrole de dar pena. Desde que saíra desse longo período de dor, a lembrança o acompanhara, mas ele nunca se deixava levar: usava a bebida, a pegação, a música alta, até o estudo, para espantar aquele pensamento ruim. Aprendera com os amigos a fugir dos maus pensamentos, como se não fosse necessário refletir, assumir seus próprios erros, perdoar os erros dos outros. Mas agora era diferente: estava sendo forçado a encarar os fatos. Perguntou: "Por que você está me obrigando a pensar nisso?" "Por dois motivos. O primeiro é simples: mereces encarar isso de frente, para que possas aprender a lição que te foi ensinada e que ainda não reconheceste. Entenda, Sandro, que uma dor deve ser sentida e esquecida, ou estarás fadado a revive-la e senti-la pelo resto de tua vida. Só quando entenderes isso é que serás livre. O segundo é para que aprendas que podes voltar atrás quando cometeres os teus erros. Nunca é tarde para reverteres a situação, ainda mais por causa do amor. E isso tem a ver com algo de muito importante, que ainda devo te falar. Estás preparado para ouvir?" Sandro não conseguiu mais dizer uma palavra, de tanto que chorava. Foi quando o anjo o ergueu nos braços, como se fosse um bebê. Soluçando muito, Sandro dormiu embalado pelo enviado de Deus.
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| edição 38 | A incrível história de um homem complicado: um melodrama moderno sobre o amor por Victor Andrade
Sandro esfrega os olhos e a alucinação não se vai. O anjo pergunta calmamente: "Faltou coragem?" Sentindo que a pergunta foi feita em tom de provocação, Sandro se levanta do chão e vai até o anjo, que agora mantém as mãos juntas, em formato de concha. Dentro das mãos, há algo brilhante. Ele se aproxima, sem saber do que se trata. É quando o anjo olha prá ele e diz:
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| edição 37 | A incrível história de um homem complicado: um melodrama moderno sobre o amor por Victor Andrade
Sandro acordou assustado às quatro horas da manhã. A primeira coisa que fez foi, mesmo na escuridão, olhar para o seu redor. Conseguiu identificar o vulto da escrivaninha, a porta empenada do guarda-roupa, percebeu que a cama era a sua própria cama. A de "solteiro". Confira! Parte I: Acordando aos 30
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| edição 36 | A incrível história de um homem complicado: um melodrama moderno sobre o amor por Victor Andrade
O despertador toca e Sandro vai, lentamente, abrindo seus olhos. Por dez segundos, sua visão permanece embaçada, e imagens de sonhos esquecidos ainda lutam para se firmarem em sua mente. Ao desligar o alarme, percebe algo estranho: todo dia acorda às 7h45 para se levantar correndo e colocar alguma roupa que não esteja muito amassada, tudo isso a tempo de chegar à faculdade prá encarar mais uma daquelas disciplinas sacais que aparecem a partir do sétimo período do seu curso superior. (continua) |
| edição 35 | o ótimo é inimigo do bom por Poli Paiva
fernanda nunca foi uma boa estrategista. chegava uma certa hora que acontecia alguma coisa que degringolava seus projetos, principalmente os relativos ao sexo oposto. não perdia a esperança, mas também não saía do lugar. há cinco meses se interessou por fábio. fez tudo que pôde para impressioná-lo: mostrou-se sensível, atenta, simpática e sexy. chegou ao extremo de comprar um peso de pompouarismo para estar preparada quando rolasse a tão esperada transa. como não tinha coragem e também não queria dar muita bandeira, não convidou o rapaz pra sair. ao invés disso, passou a freqüentar os locais aonde ele poderia estar. mas não dava muito certo porque fábio quase nunca aparecia. porém, em seu lugar, fernanda sempre encontrava licínio, amigo do moço. belo amigo, diga-se de passagem. não só belo, mas interessante e cheiroso. fernanda sabia, no seu íntimo, que se transasse com licínio jamais teria fábio. portanto acabou gentilmente deixando claro que seriam somente amigos. acontece que fábio de repente apareceu com uma gatinha: os dois se beijam o tempo todo, riem e exalam aquele cheiro de sexo. fernanda ficou arrasada, mas firme. procurou não pensar mais no assunto. e assim foi até o dia que esbarrou com licínio na balada, sozinho e receptivo. não hesitou, fez o serviço completo. e que serviço! o que fernanda não sabia e acabou aprendendo na marra é uma verdade que acompanha a humanidade há tempos: o ótimo, definitivamente, é inimigo do bom.
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| Edição 34 | Que coisa é essa que não se amansa na gente? por Zander Catta Preta
Ele estava ali, parado na avenida da vida, esperando as coisas acontecerem. Sabe como é? Se mexer muito, desanda e já tinha desandado muito do todo. Saído muito fora dos caminhos desenhados, negado o que era destino e queria ter inventado história para si mesmo. Sabia bem das cartas, das estrelas e das mãos. Sabia um pouco das rachas do casco de tartaruga, mas isso não importava. Todos diziam que o seu destino estava rachado, partido, e era obra dele mesmo. “Tinha dito não quando deveria ter dito sim e o Carma” - ah o Carma! - “ia carregá-lo de volta ao que era tido como certo, traçado.” “Mas se era certo e traçado, como poderia ter desviado do caminho?” Perguntava torto sem se entender na situação e nos próprios sentimentos. “Estava certo, mas não estava exato.” “Ah bom, agora entendo tudo.” “Pois faz mais sentido assim, não é mesmo?” “Não faz, mas entendo.” “Não importa, é inexorável e irresistível o teu destino.” “Por que sempre que se fala em destino e coisas afins, usamos termos que não cabem no dia-a-dia?” “Não me conteste, vil criatura. És apenas pueril espectador da transeunte efeméride.” “Você não disse coisa alguma.” “É verdade, mas isso também não importa. Vai lá e segue o teu caminho.” E já ia saindo quando deu conta que não perguntou aquilo que queria. Foi enrolado com o palavrório do outro que se dizia dono do futuro. E nem falar com as conchas ele sabia. Voltou e encarou de frente enquanto o outro jogava dados. “Ei. Eu quero perguntar uma coisa aí.” “Fala meu filho.” “Eu posso falar de mim para os outros? Falar dos amores errados? Das coisas que me arrependo, da memória que não quer ficar quieta? Das pessoas do passado perto que me surgiram no intermezzo das quietudes? E de como eu me comovo quando ouço o Beach Boys e lembro dela? E de que, mesmo achando que é tudo errado, que não tem de ser, que não há mais o que fazer quando as coisas chegam nesse estado, ainda sinto uma vontade enorme de correr à noite na beira da praia, do Posto Seis até o Leme e berrar: EU TE AMO. De que eu vi a merda de um futuro a dois e neguei-o por estupidez, surto ou desespero e todo dia, quando acordo, não sei se estou vivendo o meu destino ou o meu erro. E, por isso, tenho de sentar na frente de papel, pena e tinta e colocar o fígado do lado do copo até esvaziá-lo da bile, destilando o nanquim?” Ele jogou os dados, desenhou algo que nunca faria sentido. Disse: “Não. Cala-te.”
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| Edição 33 | As tempestades eternas por Zander Catta Preta
Por vezes atravessamos uma rua sem sequer olhar se os carros possíveis se fazem presentes ou não. Normalmente isso se dá quando temos certeza que está tudo bem. Sinal fechado, altas horas da madrugada, ruas desprovidas de interesse viário. Ou então quando o nosso mundo interior está tão conturbado, tão agitado, que os eventos externos deixam de ser importantes. Ele chegava em casa e sempre atravessava a Avenida Atlântica assim, sem ao menos ver se um automóvel mais saidinho ameaçava atravessar os sinais vermelhos ou se precipitar por sobre a faixa de pedestres. Sempre atravessava no sinal, quando vermelho, como lhe fora ensinado na escola. Andava na linha até o trem chegar. Não ousava nem ao atravessar a rua. Não chegava muito tarde em casa não. Umas oito, nove horas no máximo. Chegava exausto, consumido pelo processo diário de lobotização empresarial da empresa em que trabalhava. Se acordar era um esforço, levantar-se para voltar à casa era a realização da inutilidade de seus dias. Já se desencantara com quase tudo. A própria carreira fora a primeira a sucumbir. Depois os amores, a vontade de ficar rico, de fazer cinco faculdades e seis mestrados, a diversão inocente, a diversão hedonista, o desânimo, o niilismo, tudo perdera o seu encanto, o glamour. No verão parecia que tudo piorava: o ar pesado; o calor desumano; as poucas roupas das semi-deusas, filhas de Afrodite, inalcançáveis pelo seu salário sub-gerencial. Mas havia tempestades! Banhar-se na chuva da tempestade de verão quando chegava do trabalho era o máximo que chegara a um orgasmo. Certa feita, antes de anoitecer, anunciava-se a tempestade. A expectativa parada do ar à beira-mar. Não ventava. Não esfriava. O bafo quente e úmido era a certeza que era um típico Verão Opressor. Não eram dias da alegria tradicional dos trinta e poucos graus, com Sol a pino e as roupas no armário. Era a face de Helios que se voltava lembrando aos seus adoradores que ele é pai: dá a vida e alegria mas toma-as ambas ao mesmo tempo, se necessário. Na rua: pessoas apressadas para curtir o restinho de sol na praia; engravatados derretendo como velas, querendo chegar em casa para banho e cerveja gelada; crianças vivendo o resto da sua liberdade dos livros e horários, umas retratos do caos em sorrisos, outras deixando a infância em cada beijo dado; vendedores sobrevivendo na oportunidade e na contravenção. Ele se apressara a sair do trabalho a tempo de ver as nuvens se amontoando como uma decisão de futebol no Maracanã. Aquela massa cinzenta vindo irresistível fazendo-se aterradora aos homens pobres de espírito. Saltou do ônibus e sentou no quiosque em frente à Hilário de Gouveia. Esperou a primeira gota como quem espera a sobremesa depois de um almoço de vegetais insossos e minerais inertes. Em segundos estava encharcado de água e porra. Levantou-se. Pegou a pasta com os papéis inúteis e inutilizáveis. Atravessou a rua sem olhar para os lados. Caminhava sem se preocupar em disfarçar a cara que pedia um cigarro pós-coito. Deparou-se com ela. Primeiro notou os cabelos negros, cacheados, à altura dos ombros. Depois a pele alva. Aí viu que estava de vestido branco, seios à mostra na transparência dos tecidos. Os pêlos, mais discretos, perceptíveis a quem não fosse míope. Por último o sorriso de quem gozava como se não houvesse amanhã. Ao redor dos dois, as pessoas apressadas em fugir da água, como se fossem de açúcar, outras abrigavam-se nas marquises dos restaurantes da beira-mar. Os raios no oceano soavam o encontro e os carros lentos se acumulavam na pista, compondo uma sinfonia de surdos elétricos, motores à explosão e buzinas eventuais. Esse mundo de pessoas, esse mar de histórias, passava invisível àquele casal. Olharam-se. Descobriram que eram um para o outro. Os braços enlaçados. As bocas sôfregas. Os instintos finalmente descobrindo para que foram feitos. Acordaram em um desses hotéis caros e vagabundos do Lido. Ele, contemplando a beleza nua dela. Ela, aninhada no peito dele, brincando com os pêlos parcos que insistiam em nascer. Ele pediu um café da manhã que veio rapidamente. Comeram. Beijaram-se. Amaram-se pela quarta vez. Ao término da maratona, ela tentou esboçar assunto. “Qual o seu nome?” “Não faz isso.” “O quê?” “Não quebra esse silêncio.” “Como assim? Só quero saber o seu nome.” “Faz assim: não tenho nome para você. Se quiser, sou Chaac.” “Hein? Você é maluco?” “Não. Não é isso.” “Explica!” “Chaac é o deus Maia das chuvas e que...” “Deixa de babaquice. Qual é o galho?” “Tá bom. É que tem um cínico que mora aqui dentro, sabe?” “Hmhm.” “Um cara que acha que os encantos da vida são distração de um tolo, de um babaca distraído que se encanta com coisas corriqueiras, mundanas. De um idiota que não sabe que chuva é chuva, pedra é pedra, pão é pão.” Fez cara de quem não estava entendendo nada, mas deixou ele continuar. “Então. Ele estava distraído – fugindo da chuva, eu acho – quando me encantei por ti. Nos encantamos pelo momento, pela magia das águas do céu e do mar, pelo anúncio da tempestade. Em ti, vi a Deusa que Chaac fecunda para a colheita do outono.” “Acho que estou entendendo.” “É isso. E você ao abrir a boca, ao me pedir o nome, estava prestes a despertá-lo. Te peço apenas um momento de silêncio.” Ela consentiu mas ele não se calou. Encostou a cabeça no seu colo e, visivelmente emocionado, desabafou. “Me deixe tolo, naïve, ingênuo. Quero olhar o mundo novamente como quem não o viu e viveu dezenas de vezes. Vida, após vida.” Ela o olhou nos olhos. Beijou-o. Sussurrou algo no seu ouvido numa língua há muito morta e o recebeu como não fazia há centenas de anos.
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| Edição 32 | Quererá ainda, querida? por Carolina Thomáz
Engasgou no choro. Sorriso meia boca, meia face paralisada, garganta estática e lábios trêmulos. Voz quieta e sem tempo de orgulhar-se de qualquer coisa que não enxergara com a neblina de lágrimas no globo ocular. Observando o nada dentro de si mesma. Qualquer nada é esperançoso quando se tem algo dentro, seja fé ou dose de arrogância polida. E quando o nada é dentro? Ocupava tão grande e estufado lugar que preenchia o equivalente à sua arrogância em pensar ganhar qualquer aposta. Agora era apenas neblina ocular em ebulição pelo chão seco da estrada em que fora largada. No nada um único pensamento desponta pra alivio literal. - “Porque falaram pra engolir as lágrimas se garganta não chora?”. Bilhete em mãos e ódio no olhar. Começa a andar sem nada poder conter... [Noite] Lugar qualquer. Bar - casa de quem mora na estrada. O espaço presente. Não há detalhe capaz de criar vida nesses casos. Um ser a mais. Aparência prepotente, andar instintivo, fala firme e olhar estaca! Sentia prazer enorme quando o instinto cru-primitivo tomava proporção de pulsos contínuos, assim caminhava anestesiada deixando qualquer marmanjo estático. Uma dor acostumada pode ser um problema a menos. Era de um brilho agressivo e seco. - olha lá mais uma da vida. Aquela mulher, um animal impiedoso. Ela era algo diferente e insólito, alguém que sentia as sensações físicas mais que os outros. Sentia-se suja, impura. Largada em estrada estranha, era o que dizia de si mesma quando o assunto era nacionalidade. E assim não havia obediência para pedido qualquer, vez que nunca perdera uma jogada de sorte. Conquistava as vítimas com tamanha habilidade, e sempre fora fascinante observá-la seja pra conseguir um trago ou um quarto para aquecê-la. E nunca precisara estar acompanhada nem pra conquista e nem pra conquistar. O tiro reluzente amedrontava pela beleza. Seus olhos eram estacas. Por opção, nunca dormira sozinha. Raras noites que passara sozinha e essas nunca eram em aposentos, mas sim perambulando. Como quem cai em estrada seca e excita-se com a sensação de queimar a pele no solo. Ali ficava ate chegar dia. Uma sem vergonha com orgulho. Bastava uma levantada de sobrancelha e o recado estava dado: - tá esperando o quê? - Tá esperando o quê homem? Ele arregala um olhar descrente da certeza daquela mulher. Observa o jeito que ela segura o taco, o olhar que não desviara dele um único segundo, os golpes bruscos das jogadas. Pensa de que lugar viera àquela mulher capaz de jogadas que só homem de estrada realiza com tamanha escrotidão. - Que cara é essa? Dentro de um quarto ninguém tem nada a perder – ela fala sorrindo sarcasticamente o gosto da vitória. - Ou tem? Tem algo a perder e eu não pensei nisso antes? Agora sim ela era puro deleite promiscuo volátil. Tão dedicada ao próprio prazer quando a arte era sexual que acabara o sorriso desbravador já com o corpo inclinado, roçando o seio no corpo daquele desconhecido, e rindo de seu olhar assustado. E assim ficaram até os corpos caírem exaustos num sono profundo. O sol, de estradas quentes, invade o quarto vazio. No corpo do homem marcas da noite incessante. Seus olhos descrentes e nó na garganta. No travesseiro ao lado o orgulho ferido num papel vagabundo: “Tem algo a perder e eu não pensei nisso antes?”. Engole as lágrimas na garganta que já chora raivosa. Não há marca do pneu do seu carro pra provar que fora largado na estrada de lugar algum. Esconde as marcas do corpo na vergonha do assalto. Curvado na guia quente, sobrou só a neblina ocular em ebulição pelo chão seco da estrada em que fora largado, e um bilhete na mão. Na delegacia os berros de uma mulher que, assim como ele, fora largada na estrada restando apenas um bilhete na mão feito em papel vagabundo: “Quererá ainda, querida?”. * Publicado anteriormente no site Patife em: "Meninos Não Choram".
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| Edição 31 | NECRÓPSIA por Lívia Santana
Love After Death por Rafael G. - Eu quero saber o porquê. - o tom de voz era estrangulado. - Não tem porquê, é um monte de coisas... - queria ir embora, estava exausta. - Você ainda me ama? - inconformado. - Amo. Mas não do jeito que amava. - como quem fala a uma criança. - Como assim? Ama ou não ama? - começa a se exaltar. - Amo. Como alguém especial que foi parte da minha vida, mas que agora não é mais. Acabou. - a angústia aumenta, tem vontade de sair correndo. - Não, não vem com essa não. Se você não me ama, eu vou embora e não encho mais o saco. Mas se me ama não acabou coisa nenhuma, ora! - eleva a voz. - Acabou. Não insiste, por favor - implora. - Mas você disse que ainda me ama! Então eu tenho que lutar, tenho que manter você do meu lado! - desesperado. - Mas não é nada disso! - leva as mãos à cabeça. - Então é o que? - tenta se controlar. - Se eu disser que não te amo mais, estarei mentindo. Mas não quero mais ficar com você, não tem mais nada a ver. - não quer dizer tudo o que pensa, não quer magoá-lo. |