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edição 65

Roberta por Roberta

Roberta Sangiuliano Pedroso


A manhã despe-se à minha volta. Uma nesga de sol espreguiça-se no balouçar da cortina, tentando talvez aquecer o frio de uma ternura, que não se faz esquecida, mesmo no cansaço do olhar.

O calendário anuncia mais uma primavera. Há no peito um sentimento que farfalha, ignorando todas as estações. Na brisa do amanhecer, uma esperança qualquer, que não se despede do meu olhar, embora todas as impossibilidades acenem negativamente.


Between the Shadow and the Soul por C. Dawn Davis

Em algum lugar dentro de mim, ainda mora um sonho, como se sobrevivesse para escrever outra vez, capítulos da minha história lavrada pela eloqüência da realidade e pelos ditames da razão.

Não me chega o tempo da quietude. Meus passos nunca reconheceram o caminho que apenas impõe o seguir em frente. Já nem sei, se chegar era meu objetivo precípuo. O que há e o que se faz, quando se cruza a linha de chegada? Empilha-se mais um troféu na prateleira das nossas conquistas? Onde ficam as tantas pequenas vitórias que se saboreiam no decorrer de cada percurso, mesmo quando não se vence, se nos ensinaram que apenas é ganhador aquele que chega primeiro?

Como relatar ao mundo, o momento que me detive em meu trilhar, observando apenas o acariciar do vento nas pétalas de uma flor? Como contabilizar isto em perda de tempo, se sequer imaginam os arrepios do meu olhar ou os sorrisos de prazer que aquela imagem me propiciou? Talvez, acusem-me de distraída e inadequada ao momento, que exigia que eu apenas continuasse e que subisse ao pódio. Era isto que esperavam de mim: vencer.

Outros ainda dirão que estou fora do padrão estabelecido pelas regras da sobrevivência. Ah, neste aspecto errei a vida inteira. Pequei sempre, quando preferi não tropeçar em meu sentir e escutei o pulsar do meu coração, não somente para constatar que eu vivia. Sempre fui amadora nestes rituais, em que se sacrificam as emoções. Onde há normalidade, quando se põe amarra no peito, calando o som de uma carícia?

Nunca compreendi histórias lineares, reações exatas ou gestos estudados. Bem que tentei aprender a disfarçar minha insegurança, o frio no estômago ou o rubor repentino, quando exposta ao espelho do cotidiano. Em quase todas as tentativas neste sentido, falhei. Talvez por isto, tenha me desencontrado muitas vezes de tantas pessoas.

Nunca amordacei minhas saudades, nem meu romantismo à flor da pele...Sempre despi minhas máscaras, porque era em outro olhar, que eu desejava também encontrar-me e reconhecer-me. Mas meu olhar despido, vezes causou estranheza e constrangimento. Vezes, indiferença e tolos julgamentos.

Minhas palavras nunca souberam esconder o segredo de um amor, quando me habitava o corpo, a alma, o sonho. Nunca entendi, o porquê da grande maioria das pessoas entulharem tantos nós no coração. Se ainda fosse o pronome pessoal, mas não! Falo dos fios e, em alguns casos, de verdadeiras cordas com amarrações complexas, que nem as próprias mãos sabem ou se dispõem a desatar.

E eu, com esta mania esquisita de falar do que sinto pelos lábios, mãos e olhares. E eu, com esta forma estranha de dar reconhecimento do que sinto e por quem sinto. Sempre foi inútil querer silenciar minhas confissões, mesmo se questionada sobre a certeza de um amor.

Como se o amor tivesse que ser testado, discutido, dimensionado e não apenas sentido. Parece que saber de sua existência não basta. Tem que ter certificado de garantia, manual de instruções e, se bobear, até posologia. Talvez seja por isto que grande parte de nós sequer desconfie o que é viver um grande amor.

A noção mais próxima deste sentimento fica ladeando as histórias que nos contam, como as vividas por Abelardo e Heloísa, Tristão e Isolda e tantas outras ou nos livros de poemas que lemos no decorrer de nossas vidas.

De uma forma ou de outra, a expressão do que sinto fica meio desajeitada neste mundo. E como se não bastasse, ainda flagrei-me poetisa. Mas quase sempre, a palavra ainda me parece pouca para compreender minha ignorância no universo da emoção.

Minha essência é mesmo desnuda. Coração exposto e sem labirintos. Ainda prefiro a minha ternura boba, um perfume de saudade em meu travesseiro, a minha voz entregue para as estrelas, do que viver desabitada de mim mesma.

 

edição 64

Um adeus ao passado

MariaAntonietaRMattos.

Kazumi Honda - Piano Lesson - Arte Corporalidade
Piano Lesson with Ashura por Kazumi Honda

Depois de tantas incertezas, ela tinha escolhido aquela tarde. Quantas vezes já havia passado de ônibus por aquela rua.... Sempre que passava por ali seu olhar se detinha naquela vitrine e ela só voltava a olhar para frente quando o ônibus dobrava a esquina, não tendo mais o que olhar e, mesmo assim, voltava seu rosto lentamente e com o olhar perdido... Mas hoje seria diferente, ela iria àquela loja. Ela trazia consigo, aflorando em seu coração, o desejo de reviver o passado. Ela apertou o cordão com uma certa aflição e o barulho monótono da campainha, fez o motorista frear o coletivo, parando-o em frente ao Out Door da Pepsi...Desceu com o seu coração já em descompasso. Atravessou a rua e, parecendo hipnotizada, entrou na loja. Foi direto ao ponto.... Ele estava lá sim...Não ouviu nem o que o vendedor havia dito, caminhando rumo ao piano... Suas mãos suavam frio e estava trêmula, mas só percebeu isso quando viu suas digitais marcadas no tampo do teclado.

Limpou os dedos na saia e, como se preparando para um concerto, sentou-se em frente ao teclado. Esticou as costas, ajustou-se na banqueta, retirou o feltro que cobria as teclas. O nome Essenfelder, com a letra "f" apagada lhe deu um nó na garganta. Começou a dedilhar, sentindo seu corpo trêmulo. Seus dedos se ajustavam entre os espaços das teclas. Errou nos primeiros acordes, mas nada disso era importante. A emoção era maior: entre um acorde e outro, as lembranças vinham. Era o seu passado chegando. Podia se lembrar das aulas com a professora de piano, Dona Yolanda que fora sua professora por tantos anos. Ela era rígida e cobrava uma seriedade e uma responsabilidade impossível de uma adolescente cumprir. Podia sentir agora a mão firme, porém macia e flácida de cor quase que transparente de D. Yolanda sobre a sua, tentando fazê-la acertar; sua voz rouca e baixa, dando o tom da melodia.

Os primeiros treinos de solfejo, o contato com o piano, o Bona...O cheiro do perfume doce, forte e barato que a professora usava, o cheiro de naftalina das roupas dela e o som metálico da marcação do compasso imposto pelo metrônomo ( saco !) sobre o tampo do piano... Sempre às quintas-feiras pela tarde tinha aula de piano. Também podia jurar que naquele momento vinha da cozinha um cheiro de café fresco, e ouvia o fritar dos bolinhos de chuva que seriam envoltos em açúcar e canela que sua mãe fazia nas tardes de sábado para servir aos amigos que iam ouvi-la tocar. Sentiu a presença de seu pai que, atentamente, aguardava ao seu lado o sinalizar com a cabeça para virar a folha da partitura da música que estava tocando. Agora já era o passado, ali mais vivo do que nunca. Quanto tempo ela ficou ali não sabia dizer, mas foi trazida ao presente pela mão fria e calejada do vendedor tocando no seu ombro, avisando que era hora de fechar a loja.

Ela ainda tonta e embriagada pelo transe levantou-se, agradeceu e, quando já estava deixando a loja, o vendedor, um senhor baixo, de voz baixa, que também se vestia de passado, com uma boina de feltro marrom, um colete de veludo grená e um relógio de corrente dourada pendurada sobre o colete, a chamou com uma voz melodiosa e triste... Disse que aquele piano seria retirado no dia seguinte, pois havia sido vendido. Ela silenciosamente voltou, passou as mãos suavemente sobre as teclas, recolocou o feltro, fechou o tampo, olhou nos olhos úmidos do vendedor que também refletiam as suas lágrimas, e saiu sem olhar para trás. Seu passado fora, de certa forma vendido e, naquele momento se despediu dela...

 

edição 63

O mundo da lua

Renato Van Wilpe Bach

Dizem que aos nove dias de idade eu estava lá, provavelmente cheio de roupas na noite fria de julho, “assistindo” com o resto da família a chegada do homem à Lua. Naquela noite especial, reuniram-se todos em minha casa à beira da TV; e os acontecimentos daquela noite, de tão repetidos, formaram uma imagem absolutamente clara na memória. Que não pode ser minha.


Lua Hernafrodita por Géssica Hellmann

De qualquer forma, como posso esquecer se nem me lembro? Há fatos que não parecem ter acontecido conosco – eu estava mesmo naquela sala, por exemplo, em volta da televisão de perninhas que transmitia em branco e preto um dos maiores prodígios da ciência do século passado, mas lembrar é privilégio de outros.

Ao longo do tempo, viveria e esqueceria muitas outras coisas, afinal, a alienação não ocorre somente nos obscuros primeiros anos da infância. É natural da memória se tornar seletiva, adulteradora, intervencionista – até já houve quem dissesse que é por conta disto que conseguimos conviver com nosso passado.

Damos adeus a quem somos, de instante em instante deixamos de ser, transformamo-nos imperceptivelmente à medida que nosso cérebro inventa seu maior personagem: o eu que lembramos. Discutimos com “ele”, argumentamos, filosofamos e por fim esquecemos de novo, na tentativa nem sempre bem sucedida de viabilizar esta “convivência”.

Há um eu “de dentro” e um eu “de fora”, um eu “meu” e um eu “teu”, um de hoje, um de amanhã e outro de ontem, evanescente. Desnecessário e irrelevante perguntar quem sou.

Pedaços do mundo e de nós ficam para trás, contudo: “sobram” na luta diária. Pedaços de nós discordam da noção que está tudo bem e clamam por compreensão e entendimento. É que na vida, esta tremenda “obra aberta”, as coisas serão sempre e apenas quase todas certas, não o suficiente para nos convencer. Deve ser por isso que gostamos tanto de livros e filmes, pelo menos daqueles em que tudo se encaixa. Torcemos, no fundo, por um fim que não queremos que chegue nunca. Ansiamos por um sentido, e não nos satisfazemos com a noção de que o sentido, se houver, só existe em um plano subjetivo e projetivo, diferente da realidade. Nossa história segue em frente sem dar tratos à bola, afinal é só mais uma história.

O que me faz lembrar que existem outros, ainda, dentro de nós. Eu os encontro por trás de uma nova gíria, nas ruas, nas casas, nos edifícios onde trabalho, nas festas e nos gestos; depois os regurgito e devolvo, com mais ou menos vida, no seio de minhas histórias. Somos marcados, pra bem ou pra mal, por aqueles que conhecemos. Os poucos que nos impressionam sobreviverão, para sempre na memória, imprecisos amálgamas que nunca chegaremos a apreender por inteiro, focados e reais. Há também um “você” de dentro, um “eu” que é seu, a maravilha do “nós”. Sim, pois se não chegamos a nos conhecer de verdade, mutantes que somos, que diremos dos outros, que só sei humanos porque assim aprendi a chamá-los, usualmente tão distantes que estamos uns dos outros.

Olho para trás e me engano, que eu gosto. Digo que o eu de ontem é melhor que este de agora – aquele que cria incondicionalmente no poder levitador das relações humanas. Que cria no Homem, na História e na Ciência, em tantas maiúsculas que já nem me lembro mais. Depois volto a cara com desgosto e admito que minha dose diária e atual de pragmatismo faz-me bem mais feliz.

Acredito ainda no Sonho, esta quimera que nasce da liberdade infinita de nossas almas. E cada vez menos no real, posto que é fátuo, no crescimento individual, posto que é subjetivo, e na experiência, posto que é tão individualista - farol de popa que só presta para iluminar o passado.

Mas este é o “eu” de hoje, passará também. Amanhã nova mistura habitará este corpo, o crente e o descrente eternamente em conflito, da mesma forma o sonhador e o realista, o novo e o velho, eu e você. Um dia terei perfilados todos aqueles que fui, em frente à tela que dirá “fim”. Espero ter tempo para ler os créditos, descobrir quem fazia o papel de quem, o autor daquela música que me tocou tão profundamente lá no começo do filme. E, se Deus quiser, tempo também para tirar o copo de refrigerante e o saco de pipocas da cadeira, levá-los para a lixeira e fechar a conta com um comentário sarcástico a respeito da qualidade do roteiro.

 

edição 62

Não chore por mim, Amarílis

Sérgio Ornellas


Yellow Rose Bush por Linda Nelson

Bem que lhe falei. Eu deveria ter saído pela porta dos fundos, na ambulância superfaturada do plano de saúde, direto para o hospital particular que a gente paga, mensalmente, com o dinheiro da venda das rosas mirantensis, minha flor. Sairia à francesa, ninguém ia notar. Colocaríamos um boneco de inflar na cama, um João-bobo, cobriria com a colcha, enganaria os repórteres, apareceria bonito na foto. Ninguém notaria a diferença entre mim e o boneco, somos dois rechonchudos de igual circunferência e volume. Você vai dizer que eu sou mais esperto. Sei disso. Você se esqueceu da multidão que contratamos para gritar aquelas bobagens? Então, com aquela turba, aquela blindagem, não haveria quem duvidasse que eu permanecia no quarto, fazendo birra. Era só chamar um deles e aquele fotógrafo nosso amigo, pedir uma foto caprichada com você sentada ao lado da cama, semblante triste, mão na minha suposta cabeça e distribuir para toda a imprensa. Está certo que alguns iriam duvidar, dizer que era montagem, mas cá pra nós, volto a dizer, até eu acredito que não há diferença entre nós. Eu e o boneco. A única reclamação que tenho a fazer é: você está cansada de saber que eu odeio chuviscos diet! Se houver uma segunda vez, o que eu duvido, em vez dessa porcaria, providencia umas rosquinhas doces com açúcar cristalizado por cima. Aquelas que só as sogras sabem fazer. As segura-genro. E também caldo de cana e melado para comer com aipim cozido. Concordo que fazia parte da cena, mas confesso que quando esse era o cardápio, passava fome. Agora acabou, ufa! Pois bem, se você tivesse me ouvido, essa história de hospital seria outra. Mas você achou que a sua estratégia era a melhor e lá fui eu me estabacar nas escadarias do nosso palácio, na frente do povo. Não havíamos combinado isso, lembra? Foi um espetáculo, o povo me acudindo, a ambulância dos bombeiros me levando para um hospital público, foi perfeito. Perfeito para vocês. Para mim foi um horror.

Assim que cheguei eles não me reconheceram. Eu gritava, eu sou o Bolinha, eu sou o Bolinha! Não adiantou. Começaram a rir. Tive que pegar uma senha. Um papel ensebado que mais parecia sei lá o quê. Em seguida fiquei na fila para fazer o prontuário e ser encaminhado para o especialista. Não tinha especialista para o meu caso. Fui atendido por um pediatra, quatro horas depois. Menos mal. Menos mal? Eu é que sei! Disse que eu tinha que ser operado às pressas. Retruquei, disse que tinha que tomar soro, repor o potássio e os sais minerais, mas quando me vi, estava na sala de cirurgia sendo operado de fimose. E foi a seco. Não tinha anestésico. O estoque apodreceu no porto com a greve dos fiscais. O calor era insuportável. Ar condicionado-quebrado. Enquanto o médico me operava o suor dele caía na minha barriga. A enfermeira espirrava por causa do mofo que brotava da infiltração no teto. Faltavam máscaras também, tinham sido desviadas. Depois de operado, fui colocado numa maca sem lençol, no corredor. Não tinha quarto. Superlotação. Um nojo. Tanto que peguei uma infecção generalizada, minha flor. Estou à morte. Talvez nem termine essa carta. Minhas mãos tremem. Você é jovem, bonita e boa de negócio. Aproveite a vida e as oportunidades que ainda vão surgir. Pode casar de novo, só não se case com político porque essa corja não vale nada. Use nossas economias, triplique o patrimônio, quadruplique, faça milagres como você sempre fez. Não abandone a fé nem as rosas corruptas mirantensis. Lembre-se que perto delas todas serão sempre rosinhas.

Não chore por mim, Amarílis.

Bolinha.


edição 61

A consulta

por Sérgio Ornellas

Yuri Remyga - Expectation - arte sexualidade corporalidade
Expectation por Yuri Remyga

O sol já ia alto, a neblina dissipara-se e as fofoqueiras de plantão passeavam como quem não quer nada em frente ao portão do Convento. Sabiam que o doutor havia chegado. Lá dentro, portas e janelas trancadas, ele começava a consulta com Inácia. Antes, porém, conversara longamente com a irmã superiora.

- O que houve irmã?

- Inácia voltou a enxergar.

- Que beleza! Isso é motivo de alegria não de tristeza. Agora estou mais tranqüilo.

- Sim, um verdadeiro milagre. Mas...

- Mas?

- Inácia está grávida.

- A senhora tem certeza?

- Absoluta. Só não sabemos quem é o pai.

- Ela não disse nada? Nenhuma dica?

- Diz que foi um anjo. Um anjo sem asas e perfumado, pode?

- Anjo perfumado? Não sou religioso, mas acho um pouco demais, não?

- Por mais que eu acredite na virgindade de Maria, é difícil o fato se repetir.

- Eu também. Desculpe-me.

- Não precisa se desculpar doutor. Temos que encarar a realidade.

A conversa demorou longos minutos. Paralelamente, o fuxico no bar do João corria solto.

Maricotinha escolhia as cebolas na banca e falava para quem quisesse ouvir:

- Decretei greve.

- Greve di quê, cumadi?

- Greve di bobiça. Inquantu num saí a verdade, nada di séquiço.

- I si demorá?

- Pódemorá u tempo qui fô. Pedro num mi toca.

- Ocê tá achanu qui foi êi?

- Tô achanu nada. Ocês ômi santudiguá. Num podi vê uns peitim mais durim qui fica doido sô.

- Mas a Inácia tem deficiência visual. Isso é abuso – intromete-se João.

- Tinha defeito, num tem mais. I quem dissi qui isso voga aqui? Quem dissi cocês ômi óia prus óio? Ocês óia é prus peito, pras bunda.

No convento, delicadamente, o médico inicia o exame. Pede que Inácia conte os detalhes, o dia provável da concepção e, principalmente, o momento que ela voltou a enxergar.

- Doutor, foi lindo. Aconteceu há quarenta e cinco dias, no culto ecumênico em memória do Mané. Naquela festança na tenda do Daime, muita energia no ar. Eu, Lúcia e Raquel estávamos juntas ouvindo os discursos atentamente. De repente, fiquei só. Não me assustei, uma voz me chamava para fora da tenda. Lá fui eu. Afastei-me e era como se uma luz e uma voz me guiassem. Parecia que eu flutuava.

- Voz? Luz? Mas você até então não enxergava. Você havia tomado da mistura?

- Cruz credo!

- Continue.

- Segui, parei na cerca, encostei-me no pé de jambo e alguém me chamou novamente: Inácia, Inácia...

- Estou aqui, respondi. Quem me chama?

- Sou eu, meu anjo.

- Meu anjo? Há quanto tempo lhe espero. O que quer de mim?

Ele não respondeu. Beijou-me a testa e eu estremeci. Um beijo tão suave que só um anjo poderia dar. Depois me abraçou, beijou meu rosto e eu pude sentir o seu perfume. Disse o quanto eu era linda.

- E você realmente sentiu o corpo dele ou era um sonho, uma miragem? perguntou o médico.

- Tinha um corpo macio, uma pele suave. Ele só falava palavras bonitas, me envolvia em seus braços e nessa hora já me beijava a boca. Quase desmaiei, mas era boa a sensação, e pedi que ele não parasse. Que me beijasse novamente.

- E ele beijou?

- Nossa, todinha. Ai que vergonha!

- E falou alguma coisa além de que você era linda?

- Falou. Disse que há muito tempo me esperava e que eu era a sua escolhida. E que voz, doutor! Que voz!

- Tinha o sotaque da terra?

- Não me lembro. Só me lembro do perfume e da hora que eu parecia que ia explodir, explodir, explodir e...

- E?

- Eu enxerguei pela primeira vez.

- Então você o viu?

- Não doutor. Ele estava por trás de mim e beijava minha nuca. Depois me disse que a história se repetia e sumiu. Acho que voou.

- Voou? Uai! Você disse para a irmã superiora que ele não tinha asas.

- É verdade, doutor, não tinha mesmo. Será que era um homem?


edição 60

Sobre a Infância

Géssica Hellmann - Angelic - arre
Angelic por Géssica Hellmann

Um lindo conto de amor versificado.... por Sônia (Anja Azul), uma anja-menina-mulher dourada com asas azuis...

(Géssica Helmann)

Quando era criança, brinquedos não tinha
pois aquela única boneca sem olho, tadinha...
não era brinquedo, era quase uma filha.

E quem diz que ficava parada
tv? videogame? que nada!

A árvore imensa era minha nave
sentada no ultimo galho
partia em viagens fantásticas
visitava galáxias..

five, four, tre, two, one, ziro

Lá ia eu rumo ao infinito
E quando aterrisava....
O milharal nos fundos da casa
se transformava num planeta hostil
as plantas alienígenas, que destruia
com minhas armas laser (galhos de pau)

e qualquer poça d'agua era areia movediça
que me engolia quase inteira enquanto
meu parceiro de brincadeiras tentava
me salvar...

hahaha...e quando pousavamos na lua!!!
(o aterro argiloso no patio em frente
onde seria uma escola)
Montanhas vermelhas da lua, vencidas
em passos de câmera lenta como nos filmes

e quando gastávamos horas
confeccionando arcos e flechas
dos galhos da árvore

ou arquitetando planos de como roubar
o "tesouro" (gibis que meu irmao escondia
a sete chaves)

ah que infância deliciosa
pobre mas feliz!


edição 59

Lovi Stori

por Chintia Freeney

Sempre achei fascinante essa coisa de criancinhas desenvolvendo fetiches por objetos escolhidos aleatóriamente. Os homens de minha família são especialmente propensos a esse tipo de comportamento. As poucas garotas escaparam ilesas.

Susan Joarlette - Brincadeira de Crianças - arte corporalidade
Brincadeira de crianças por Susan Joarlette

Meu irmão tinha o Cabitô - um cobertorzinho nojento que ele arrastava pela casa o dia todo.
Tinha o Tedolino, urso do meu primo B. Tinha o Bessinho, uma almofadinha de plush do meu primo N. e os mais engraçado de todos eram os "cóin-cóins", fetiche do meu primo P.

"Cóin-cóin" era qualquer peça de vestuário que tivesse uma renda. Saiotes, camisolas, combinações. Ele não dormia sem esfregar o cóin-cóin no nariz.

Também era famoso por levantar as saias de visitas do sexo feminino, para vergonha de meus pobres tios e escândalo dos presentes, "para ver se tinha cóin-coin".

No batizado do irmão mais novo, botou a igreja toda num acesso de riso histérico, por que ao ver o padre todo paramentado para a ocasião com sua batina branca com barra rendada, começou a gritar a plenos pulmões!!!

"O PADRE TEM CÒIN CÒIN!!!!!!!"

Meu filho mais velho não tinha exatamente um objeto, mas era viciadíssimo em chupetas, que eu comprava no atacado por que ele sempre as perdia pela casa. Quando não era possível localizar uma para a hora da soneca, ele fazia um dramalhão de deixar a Glõria Magadan no chinelo.

Ajoelhava-se na varanda com as mãos para o céu, e lamentava.

"Ohhhhh meu Deus! Minha sopetinha!!! O que eu fiz para merecer isso, Meu Deus!!! Como pode ser que eu não tenho uma sopetinha!!! Por favor Deus, faz aparecer uma sopetinha!!! "

Teve dia que os vizinhos se apiedaram do choro copioso e apareceram com uma chupeta para acalmar a fera.

Meu filho caçula, para não fugir à regra, tem o Lóvi.

Lóvi é um travesseiro muito velho, muito encardido e empelotado, normalmente malcheiroso, que ele dorme acariciando, carrega pra todo o canto, usa como chapéu, bandeija, barco... o Lóvi tem mais utilidades que Bombril.

Vez por outra, por que o Lóvi vira uma sachê de amônia, ou por que o inevitável acontece (tipo o sábado em que ele ficou ensopado de Nescau) eu tenho que "tomar emprestado" para lavar.

Sob os veementes protestos do moleque, que durante todo o processo de limpeza e secagem, chora como se alguém da família tivesse falecido.

No meio do choro sentido, pára umas 63657637548 vezes para me perguntar, entre soluços, se o Lóvi esta pronto.

No sábado, foram duas horas escruciantes de dramalhão mexicano, até que retirei do Lóvi da máquina ligeiramente mais apresentável e com cheiro muito mais agradável.

Ao receber o objeto de sua afeição todo limpinho, ele o abraçou, daí parou um minuto. Abraçou de novo. Me olhou... abraçou de novo. Jogou Lóvi no chão contrariado.
Perguntei o que estava errado.

"Lóvi don't smell like Lõvi! Lóvi smell like mami!!"

Por um lado fiquei lisonjeada e feliz de saber que cheiro a roupa limpa saida da máquina.

Por outro, fiquei meio chateada de saber que ele prefere o sachê de amônia.

Expliquei que se ele fosse nanar com Lóvi, o cheiro de Lóvi voltava.

Graças ao vazamento inevitável da fralda que ele ainda usa para dormir, na manhã de hoje, quando ele pulou na minha cama com o travesseiro, constatei que estava certa.
Lóvi ainda conservava um pouco do cheiro de "Ajax Mountain Spring".

Mas era sem dúvida, Lóvi velho de guerra perfurando minhas narinas com cheiro de xixi de anjo.

 

edição 58

A PRIMEIRA...

por Maria Antonieta R Mattos

Salvatore Zofrea - The Garter - arte sexualidade corporalidade
The garter por Salvatore Zofrea

Ela tremia. Pernas, mãos, o corpo inteiro. Seus passos se tornaram imprecisos, inseguros. Os clientes começariam a chegar por volta das oito da noite e Kate tratou de respirar fundo, se recompor... Só faltavam quinze minutos!! Mais de uma vez, pensou em abandonar tudo. E se alguém conhecido aparecesse por lá, meu Deus, o que seria dela!!?

Ah, pensamento positivo... Pensamento positivo.! Estava a quilômetros de seu bairro. Estava na Zona Sul e ela morava na Zona Leste. Não, não apareceria ninguém!! Uma cidade deste tamanho, com milhões de pessoas... Além do mais, estava irreconhecível. O melhor daquele emprego, até então, era ter conseguido aquele trato todo. Cabelos, unhas, perfumes. Ela justificou para Dona Eugênia – sua mãe – que conseguira emprego numa lanchonete de um posto de serviços na Anchieta. - “E como você vai para lá, menina? É tão longe...” -
- Mamãe, estou grandinha!! Por favor, não se preocupe!!.
Ela pegaria carona com um frentista, o Paulo Roberto – “aquele do fusquinha azul, lembra?”. E chegaria cedo, por volta das 7 horas da manhã. Já estaria claro e a mãe nem precisaria ficar tão nervosa. O primeiro cliente entrou pela porta dupla... Ela presenciou o segurança o revistando. Havia dezenas de garotas. E o cliente foi direto ao america bar. Monique, sua instrutora, se aproximou do rapaz. Ele parecia assustado, envergonhado. Pediu uma bebida qualquer. Pareceu um Campari. Sim, era um Campari. Com gelo e limão. Monique alisava a cabeleira do rapaz. Sorria, sempre. Sorria e o alisava. Kate observava. Tinha sido orientada pelo patrão a não pegar nenhum cliente antes de ver Monique em cena. Monique era bacana, diferente das demais veteranas, que soltavam piadinhas para ela desde que fora contratada. Ela mesma se propôs a ensinar os primeiros passos para Kate. O segredo, amiga, é o sorriso contínuo. Sempre sorrindo, entendeu?
Mais rapazes foram chegando. Alguns pareciam conhecer as cortesãs. Abraçavam. Beijavam. Faziam pequenas carícias em seus cabelos. Outros vinham em duplas. Eram mais descontraídos. Os que chegavam sós eram mais arredios. Perscrutavam o ambiente, investigando se um vizinho ou parente não estava por lá. Depois de algum tempo relaxavam. Bebiam. Aproximavam-se, aos poucos, dos outros solitários. Até começarem a investir nas garotas. Monique largou o primeiro rapaz. Despediu-se friamente e foi em direção à Kate. - O viado deve estar com medo, Kate. Babaca! Tá vendo aquele ali, de camisa vermelha. Parece um bom cliente. Agora é a sua vez. Vai lá, menina, vai logo! Antes que alguma piranha chegue junto. As mãos de Kate suaram. Mas não havia mais como adiar. Armando, o gerente, sinalizou com a cabeça que ela deveria ir. Deu uma leve arrumada no vestido transparente, apertando o busto farto.
Aproximou-se.... “Oi, gatão! Posso tomar uma bebida?” Sentou-se ao lado do gatão, que retribuiu a pergunta com um sorriso e com a promessa de que, mais tarde, assim que o irmão chegasse, ele pagaria um Martini. Ele devia ter mais de quarenta anos, era moreno, cabelo crespo, preto. Além da camisa vermelha, vestia uma calça branca bem apertada, limpa. E um par de botas de cano alto. Tinha uma larga falha entre os dentes da frente. Kate repousou sua mão miúda sobre as coxas do homem. Ele, por sua vez, começou a alisar os cabelos negros de Kate, suavemente, sem pressa. Você é nova aqui, não é princesa? - Hoje é minha estréia, para dizer a verdade. E eu escolhi você, gato... - Como você é linda. Sabia que você é linda, princesa? - Obrigada, são seus olhos, gato. E então, veio se distrair um pouco? - Fui despedido. Mas eu não queria mesmo continuar naquela espelunca. Meu chefe é um idiota. Um babaca. Burro que só vendo...
Aposto que não conseguirá tocar a loja por um mês. Sempre se escorou em mim, o fdp! - Meu gato!, Não fica assim nervoso não! Relaxa. Toma mais uma bebida. Desabafa pra mim. - Obrigado, princesa. Você é muito atenciosa. Mas, me conta: como veio parar aqui? Naquele momento Kate insinuou se entristecer. Abaixou a cabeça. Em seguida olhou para o lado. Olhou para o nada. Fez mistério antes de pronunciar a primeira frase. O homem apertou-lhe levemente a mão e fez cara de quem está curioso para saber. Ela contou que também tinha perdido o emprego. Trabalhava num escritório na Rua São Bento, mas a firma faliu e ela não recebeu seus direitos. Isto há quase cinco meses. E, por mais que procurasse outro trabalho, não conseguiu encontrar. Tinha uma filha de quatro anos e a avó doente para sustentar – perdera os pais num acidente de carro quando ainda era adolescente. Estava passando por muitas dificuldades, estava quase enlouquecendo, quando uma velha amiga lhe contou sobre aquele trabalho.
Pensou mil vezes antes de dizer sim. Acabou aceitando porque pensou no futuro da filha. Mas era temporário. Voltaria para a faculdade e arranjaria um emprego, tinha certeza. Os olhos do cliente lacrimejaram. Ele tomou mais um gole e deu-lhe um beijo carinhoso na face morena. Depois abraçou-a fraternalmente. Ela recebeu o sinal do gerente de que seu tempo tinha se esgotado. Ao se desgrudarem, ela perguntou se ele queria fazer o programa. - Você faz tudo, amor? - Tudo o que quiser, gato! Quer dizer, tudo, menos anal. - Então não quero. Fica para a próxima. Despediram-se e ela correu atrás da amiga. Monique estava com um cliente. Demoraria mais meia hora. Kate ficou perdida. Queria fugir do olhar provocador do Armando, que a perseguia. Não sabia o que fazer. Só se tranqüilizou quando viu Monique descer de mãos dadas com um rapaz loiro, esguio. Contou como fora sua abordagem. Um desastre, o cara é um tarado fdp! - E a história da filhinha e da avó? - Não colou. Acho que precisamos inventar outra história!... – sorriu.
Somente as duas da madrugada Kate conseguiu levar um cliente para o quarto número 7, que ficava no segundo andar. Era um bêbado imundo, com um bigode imenso, olhar caído, roupas horrorosas. Tinha um bafo insuportável e ela quase não conseguia entender o que ele falava. Só sabia que ele sempre repetia a mesma coisa. “Eu te amo, amô... eu te amo, amô...! Ela sugeriu que se lavassem antes de ir pra cama. Ele não aceitou. Então Kate jogou uma água no corpo muito rapidamente. Ele já estava pelado na cama, mexendo no negócio. Foi só meia hora. Mas Kate fez tudo. Ou melhor, quase tudo. Kate chegou em casa às sete e meia. Deu um beijo na testa da mãe, que dormia, e foi para o seu quarto. Lembrou da madrugada. Do animal com quem tinha transado. Do seu bafo. Do bigode incomodando-lhe a pele. Do seu próprio gemido teatral. Sentiu vergonha. Chorou. Deixou a bolsa sobre o criado-mudo.
Deitou-se.
- Maria das Graças, onde arranjou esses vinte reais?
- Caixinha, mamãe. Caixinha.


edição 57

Um conto inocente

por Maria Antonieta R Mattos

Eis um conto... Coisa romântica e meio purista, .... uma adolescente entre dois fogos de gênero, cabeça em conflito à mil por um lado e o corpo em reação contrária por outro. Uma fase difícil... que só me propiciava sonhar....

Margaret Cilento - Swinging Infinity - arte sexualidade corporalidade
Swinging Infinity por Margaret Cilento

Verão. No céu nuvens desenhavam elefantes, ursos e palhaços. Estou deitada no fundo quintal, mãos atrás da cabeça, lápis sendo mordiscado no canto da boca e a lição da Dna Margarida, esquecida ao lado...

Um ruído em crescendo e identifico um carro de som que acaba de dobrar a esquina. Em alvoroço trato de ajeitar a saia, arrumo a blusa torta e corro para o muro que separa minha casa da rua. E na rua passa uma pick up com alto falante, onde aos berros, uma voz entusiasmada anuncia o maior circo do mundo!! E ele vai se apresentar bem na nossa cidade, lá no descampado da Prefeitura. Finalmente o Circo Americano em Apucarana!!..Entrei casa a dentro à toda sorrindo e já sonhando com o espetáculo que ia assistir já no no final da tarde. Vi minha mãe fazendo recomendações de meu comportamento, mas nos meus quinze anos, pensava que sabia tudo. Ansiava com a chegada da hora.

Escolhi o vestido mais lindo, queria ver de perto o circo tão falado na cidade. Minhas amigas chegaram, meus cabelos ainda molhados, esvoaçavam com o vento, sorria numa alegria de menina. A fila enorme, o pipoqueiro foi à primeira atração que vi. Compramos pipocas para a hora passar, as pessoas andavam de lá pra cá. Lourdes era a mais quietinha, parecia indiferente. Quando a fila foi diminuindo, ela olhou para a imensa lona meio assustada, mas a minha alegria era tanta, que nem ouvi seu comentário. Escolhemos a arquibancada mais próxima do picadeiro. Vestia um vestido de seda verde, meus cabelos negros combinando com o esmeralda de meus olhos, diziam que eu parecia uma artista. Ah.... eu me sentia mesmo uma artista... Minha primeira ida ao circo... puxa!! Debrucei meus braços nos joelhos e fiquei sonhando com aquele picadeiro, gostaria muito de fazer parte daquele mundo colorido do circo.

Nesse momento, um rapaz loiro, atravessou o picadeiro para puxar uma corda atravessada que ia até a arquibancada perto de nós. Ele parou e pediu licença, num sotaque que desconhecia. Nossos olhos se encontraram, notei um sorriso em seus lábios, meu coração disparou, ele parou e quando puxava a corda, jogou um beijo pra mim. Fiquei sorrindo numa alegria tão grande que minhas amigas aplaudiram. Não via hora do começo do espetáculo. Tentava imaginar qual seria a função daquele rapaz, seria um ajudante, e com certeza não mais o veria. Mas ficava olhando por toda parte do circo, onde estaria aquele loiro tão lindo que parecia um anjo. Nesse momento uma música de orquestra invadiu o circo, as pessoas aplaudiam, um senhor regiamente vestido e com ar seríssimo veio andando majestosamente até o centro do picadeiro e anunciou o inicio dos espetáculos.

Um grupo de palhaços invadiu o palco, as pessoas riam e um deles se destacou do grupo, foi se aproximando de nós e jogou uma flor pra mim... Peguei, e consegui ver seus olhos azuis escondidos na maquiagem. A alegria foi misturada em gargalhadas, aquele circo estava sendo uma grande mudança em minha vida, jamais sentira tanta emoção. E outros espetáculos aconteciam, mágicos, domadores, malabaristas, uma infinidade de atrações que ~nunca mais vi nos circos modernos... Circo, uma arte em extinção... Ah...mas eu já não estava mais interessada nas maravilhosas atrações se sucedendo umas às outras... Eu ficava era desejando ver de novo aquele rapaz que me dera alegria e depois desaparecera...
Meu Deus, meu primeiro flerte... E logo com um palhaço de circo....!! Ai, e tão lindo... Nesse instante, o homem de roupas elegantes e que fazia a locução, anunciou o espetáculo do trapézio.

Uma música começou a embalar o publico, as pessoas aplaudindo, uma rede foi estendida abaixo dos trapézios que ficavam lá no alto da lona à milhares de metros de altura para mim...Mexendo com o coração dos espectadores, estava o locutor fazendo o suspense do perigo que os trapezistas iriam desafiar!... Nesse momento dois rapazes e uma moça aparecem no picadeiro... Suas roupas colantes, brancas e com brilho, os transportavam; ao menos na minha cabeça, aos reinos de seres mitológicos e fantásticos tão comuns na imaginação juvenil.. Eles chegaram bem perto do publico para agradecer as palmas antecipadas ao espetáculo.Quando eles se viraram para nosso lado, dois palhaços atravessaram o palco, minha atenção voltou-se de imediato para eles, queria ver de novo o meu anjo vestido de palhaço enão o grupo de trapezistas, agora virados pra nós.

Eu procurava o olhar dos palhaços, reconhecer um deles mas, foram embora sem olhar pra mim. Ansiosa; senti uma ponta de decepção, quando Lourdes bateu de leve em meu braço para que eu olhasse para o trapezista mas... eu não dava atenção a ela, queria o olhar do palhaço,. Com o grupo se afastando, é que percebi que um dos trapezistas era o meu anjo...Tentei olha-lo, mas ele já se virara para a direção da escada de corda. Senti a sensação de perda, e Lourdes então disse que ele ficara o tempo todo me olhando. O espetáculo começou, ele bailava no alto, sentia um vento frio em meu rosto, a platéia aplaudindo, e lá do alto, seu corpo bem feito desafiando o perigo, em acrobacias cronometradas e a música melancólica da orquestra ajudando o show ficar mais fascinante... Ele olhou em minha direção... consegui ver seu sorriso, e do trapézio ele jogou outra flor que, em parábola quase perfeira, desenhou um longo arco desde o trapézio em movimento alucinante, acabando no entanto por cair duas fiadas atrás de mim, agarrada imendiatamente por uma outra moça intusiasmada.

Senti ciúmes, mas ele deu outro sorriso...Ficamos assim trocando sorrisos, beijou mão e a passou no coração e fez que jogara pra mim, fiz o mesmo gesto...Estávamos curtindo um flerte maravilhoso.

Nesse instante, número terminado, os três foram descendo as cordas, com aplausos e gritos confusos. Meu herói descia rápido, no fascínio daquele sentimento novo, não percebia, nem eu também, maravilhada com a perspectiva de vê-lo na minha frente, que as pessoas estavam gritando... que uma claridade sinistra de fogo surgiu do outro lado... Por um momento pensei que fazia parte do espetáculo, mas era um incêndio. As pessoas gritavam e corriam por varias direções. Um elefante enlouquecido passou em disparada, cindo sabe-se lá de onde, arrastando atrás de si lonas inflamadas, num paroxismo de pavor e dor. foi abrindo caminho de forma enlouquecida, arrastando o que encontrava pela frente, atropelando pessoas, pisoteando-as em busca de sua própria salvação.

Nesse momento a arquibancada começa a balançar. Apavorada, procurei minhas amigas com um olhar mas elas haviam desaparecido de perto de mim. Tentei descer do madeiro mas era tarde.. com um horrível estrondo elas se desmontaram, me deixando presa... Meu Deus, recordar estas cenas me trás novamente ao meio daquele fogo, pessoas gritando, outras virando verdadeiras tochas humanas... Minha perna estava presa entre as madeiras e eu estava impossibilitada de sair do lugar e quando já perdia as forças, senti alguém tentando tirar-me dali...Nossos olhos se encontraram nesse instante de puro pavor. O fogo já dominando quase tudo e ele fazendo força para livrar minhas pernas.Pedi em desespero que ele fosse embora, que salvasse sua vida mas ele, gesticulando muito saiu à procura de ajuda. O calor era insuportável e eu já nada mais via com aquela fumaça acre, quando outra vez tive esperança de sair daquele incêndio.

Ele voltou com um ferro enorme, e com uma força descomunal, conseguiu empurrar partes das arquibancadas que prendiam minhas pernas. Ele me retirou semi inconsciente e tentou sair... Mas tinha muito fogo... Ele me carregava entre os braços; a dor era tanta, que queria apenas permanecer ali... quieta, que tudo acabasse, no intanto uma outra parte de mim, guerreira e lutadora tentava permanecer acordada... E ele conseguiu um atalho por entre o fogo e as pessoas pelo chão. Já chegávamos quase do lado de fora, quando outras partes de arquibancadas cairam, arrastando-nos impotentes no mar de fogo.. Ficamos abraçados e sem esperança de sobreviver.Meu herói não desistira, no entanto.. Tentava me carregar, apesar de muito ferido...Desesperada, consegui me arrastar mais pra dentro das tábuas para defender-me do fogo... Um instante de calmaria e esquecendo-me da dor implorei novamente para que le saísse dali.. então acabou.. com um estrondo toda a estrutura veio finalmente abaixo.

E milagre, à nossa volta o céu estrelado sendo vez por outra obscurecido pela fumaça ao nosso redor. Fomos amparados por várias pessoas e perdi os sentido. Acordei no hospital, uma semana depois. Fiquei então sabendo a catástrofe tinha sido terrível, que muitas pessoas tinham morrido. Lembrei-me então do trapezista... Não sabia nada dele, nem ao menos se estava vivo. Chorei baixinho, ninguém poderia entender que um amor poderia acontecer tão rápido e ter um fim tão trágico. Voltei a minha vida normal, todos os dias nos jornais saiam noticias de pessoas que perderam amigos, famílias inteiras morreram. Minhas amigas, graças à Deus, conseguiram se salvar. Passaram-se alguns anos. Fui para a universidade e lá conheci o André, estudante de psicologia. Bom rapaz, educado e gentil, foi meu companheiro por dois anos na escola. Eu estava com ela quando fomos convidados para um seminário na Argentina.

Córdoba é uma cidade linda e foi lá que chegamos numa noite clara... A cidade toda iluminada tinha um brilho especial em um canto... As luzes iluminavam intensamente a lona filetada e inconfundível de um grande circo. Meu pensamento voltou-se incontinenti para uma outra época e eu não podia deixar de ter um trauma violento por causa do acidente ocorrido em apucarana anos antes...Meu herói trapezista e palhaço veio imediatamente à memória... Naquela noite André bateu à porta de meu apartamento no hotel, com os outros colegas presentes no mesmo seminário. André era muito atencioso, entrou no quarto e abraçou-me e olhando pela janela, para a redoma iluminada ao longe, pediu que eu falasse daquele dia. Senti uma sensação ruim, e implorei em não ter que trazer novamente à tona, os acontecimentos daquela noite mas, por ser psicólogo, ele gentil mas dominador, insistiu dizendo que eu tinha que vencer o medo.

E mais, iríamos todos juntos ao circo...Recusei, mas André e os colegas insistiram . A sensação de medo era muito forte... quando chegamos àfinal na entrada do circo, não agüentei, entrei em pânico e recuei violentamente... Fui abraçada ainda chorando por André. Nesse instante nossas mãos se encontraram, senti segurança, ele dizendo que me ajudaria a curar o trauma.. Enfim, agarrada à ele e escoltada pelos amigos, fomos procurar uma arquibancada, André me abraçava, nunca sentira tanto carinho depois daquela época. O espetáculo começou, em minha lembrança, olhei para os lados, meus colegas de faculdades, comiam pipocas, parecia a mesma cena, André acariciava minhas mãos, nesse instante o locutor anunciou o espetáculo do trapézio.

Um murmúrio de excitação elevou-se da platéia e um trio elegante apareceu no palco, uma lágrima rolou em meu rosto, lembrança daquele sorriso que nunca mais saiu de minha lembrança... Senti as mãos de André segurando firmes, as minhas.. A troupe se dirigiu Aos presentes em cuprimentos e, neste momento três palhaços atravessaram o palco. Lembrei-me de Lourdes e meu olhar foi para o grupo de trapezista,. Os palhaços davam cambalhotas e faziam micagens.. Dois... O terceiro ficou estático...

Faltava-lhe uma perna... Tirou a flor espalhafatosa que trazia na lapela do paletó bizarro e, abrindo um sorriso enorme, jogou-a em minha direção... Nesse instante meus olhos encontraram-se com os dele... Senti um calafrio... Levantei-me calmamente e comecei a descer as arquibancadas. André tentou me impedir mas nada e nem ninguém teria podido me parar...

Aproximei-me do picadeiro, ele estendeu as mãos, pulei para o lado de dentro com dificuldades e nos abraçamos...A platéia aplaudia sem nada entender, o que ocorria ali.. Aquele abraço sentido, que não acabava, era um abraço de saudade, de uma página virada, de felicidade...Foi o perder as asas da fantasia e ter de vez os pés na realidade....

 

edição 56

Quando as orelhas começam a crescer

Sérgio Ornelas é designer gráfico, ilustrador, cartunista, caricaturista, e grande amante das letras.

Thuy Ngo - The ear - arte sexualidade
The ear por Thuy Ngo

Bastou uma olhadela no espelho e a cruel constatação: suas orelhas começavam a crescer.

Menos do que poderiam, é certo, mas já se faziam notar.

Assim como alguns pelos impertinentes teimavam em brotar da cavidade auricular, onde nunca deveriam ter nascido. Seu pai passou pelo mesmo infortúnio. É a genética!
Você não acreditava no que via até que se apercebeu, que a clareza da imagem, só era possível graças ao inseparável par de óculos e a lâmpada de 100 watts sobre o espelho do banheiro. Agora, além das orelhas, mais essa peça a sobressair no rosto. O quê fazer então, quando um par de orelhas que crescem a olhos vistos lhe transtorna a vida? Sua voz interior responde: "Conforme-se. No próximo ano, notará que o que cresce numa velocidade ainda maior é o seu nariz. Você e seu nariz estão ficando velhos."

Não bastasse isso, sua mulher, alguns anos mais nova, lhe convence a começar os exames médicos. E lá vai você usufruir o plano de saúde que pagou a vida inteira. Reviram você de cabeça para baixo, mexem daqui, examinam dali e pronto, sua vida está de ponta cabeça! Nas mãos, uma lista enorme de restrições.Você coloca os óculos e se assusta com o que lê. É o começo do fim. Nada de muito sal, gordura nem pensar, açúcar só de vez em quando. Isso é vida? Conforme-se mais uma vez, poderia ser muito pior. Poderia ser a próstata. Seu coração está intacto e seus pulmões sem sinal de enfisema. Um pouco escuros, mas só nas bordas. Relaxe! Nenhum remédio indicado, apenas exercícios diários. Muito exercício, para você que acha a padaria tão distante quanto a Patagônia. Mexa-se, grita novamente a sua voz interior. E você se pega falando sozinho enquanto caminha, não para a academia, mas para o que talvez seja seu último encontro com os amigos de boteco. Todos ali sentados, animados, rindo de tudo e como você, com as orelhas começando a crescer.

 

edição 55

Sintonize

Rogério Rothje é redator publicitário. Torce pelo fim das touradas e tantos outros males causados aos animais, pelo convívio harmonioso entre homem e natureza e pela descoberta do amor como único caminho em busca da felicidade, do bem viver e da paz interior.

Joel Kass - late love - arte sexualidade
Late love (2003) por Joel Kass

Evandro saiu de casa com a antena hasteada pela metade. Ligada sim, mas cheia de interferência. Sintonia fraca, bateria triste, a freqüência era só chiado que se ouvia. Tinha brigado com a esposa. Brigou por besteira e saiu assim, com todo o amor que tinha socado em algum dos bolsos do seu rico paletó risca de giz. Antes de voltar pra casa depois de um dia cheio de chuviscos e pensamentos fora do ar, resolveu sentar no velho banco de concreto verde, na pracinha verde, dois quarteirões antes da sua casa. Viu bem-te-vi nascer em ninho de palha e folhas fininhas, viu cães vira-lata, um grupo de sete ou oito, felizes, brincando de rolar na grama, viu o Zito (garotinho ruivo fruto de algum país nórdico que ele não sabia qual) andar de bicicleta sem rodinha pela primeira vez, viu o Sol se despedir em laranja sorridente, inebriou-se com o perfume inconfundível da dama da noite, sentiu o espreguiçar da Lua lhe tocar os poros, paz... Levantou-se, ajeitou o paletó amarfanhado, andou acelerado até a jardineira da dona Alzira, colheu duas ou três bromélias e voltou pra casa. Sintonizou amor, foi isso. Desconectou a tristeza, ligou-se a vibração afetuosa vinda do céu e deixou a alegria ecoar. Acordou bem hoje porque captou os sinais do amor puro vindos do ar naquela noite de abraço apertado e beijos apaixonados que, pra alegria do casal, encerrou a programação do dia feliz.


edição 54

UM CONTO

Maria Antonieta R Mattos - poeta, escritora, e apaixonada pela vida

Joel Kass - Old woman - arte sexualidade
Old woman (1996) por Joel Kass

Médica formada em clínica geral, especializei-me em homeopatia por não encontrar na medicina tradicional tratamentos eficientes contra os males que afligiam os meus pacientes. Interessante que, por querer conhecer seus problemas mais a fundo para indicar-lhes o medicamento adequado, acabei me tornando um pouco psicóloga, confidente e amiga. Gostava desta relação mais estreita com o ser humano. Acho que, às vezes, pude ajudar além das necessidades físicas de cada um. Fui aquela figura quase lendária do “médico de família”, espécime em extinção devido ao sistema de medicina baseado em convênios a planos de saúde que acabam por tornar o atendimento impessoal em virtude da alta rotatividade de profissionais nas clínicas de todo o país.

A minha linha de trabalho criou uma certa fidelidade por parte de meus pacientes que, por propaganda boca a boca, mantiveram o meu consultório sempre cheio, graças a Deus... Foi assim que ele surgiu. Um moreno pequeno, de cabelos lisos e negros, olhos brilhantes mas tristes. Procurou-me queixando-se de um mal-estar constante que vinha atrapalhando a sua vida. Tinha um estado febril persistente do qual ninguém conseguia encontrar a causa. Entrevistei-o como de praxe, a consulta demorando quase uma hora. Pedi os exames rotineiros, encaminhei-o à minha recepcionista para agendar o retorno para dali a quinze dias, quando os resultados estariam prontos. Voltei para minha sala sentindo-me estranha. Algo naquele homem miúdo me perturbara. Não sei se eram os seus olhos negros e profundos, se era o vinco que marcava o seu sorriso velado, se o aroma de seu perfume que impregnara o ambiente. Tantas pessoas já haviam sentado naquela mesma cadeira mas nenhuma deixara uma impressão tão marcante. Ele era um pianista....

Chamei o próximo paciente e aquela sensação acabou se dissipando. Não pensei mais demoradamente em Eduardo até o seu retorno. Depois de quinze dias lá estava ele de novo. Um pouco pálido, olhos febris. Ele era sensual sem querer. Uma aura parecia envolvê-lo. Falava de um modo brando, quase sussurrando, a voz um pouco rouca. Abri os envelopes do laboratório. A única coisa que pude detectar pelos exames de sangue era uma baixa resistência imunológica. Expliquei-lhe que o tratamento seria demorado pois eu teria que reequilibrá-lo e isso exigia tempo. Eduardo olhou-me suplicante; estava cansado de médicos e remédios. Eu era a oitava que ele consultava nos últimos dois anos. Procurei transmitir-lhe segurança, embora eu própria não soubesse ainda que caminho percorrer. Não havia uma doença para ser atacada. Havia um desequilíbrio e isso era mais difícil de tratar. Prescrevi-lhe a medicação. O moreno cravou em mim os seus olhos de lago ao estender-me a mão para se despedir.

Voltaria dentro de um mês para avaliarmos o seu estado. Por cinco meses seguidos eu o vi entrar em meu consultório e a cada vez a sensação estranha tomava conta de mim. Com o tempo fomos nos tornado mais amigos e paulatinamente fui conhecendo um pouco de sua vida Quando criança, Eduardo via as primas ricas sendo quase que empurradas para as aulas de piano que detestavam. Ele, que gostava tanto de música, ficava morrendo de vontade de ocupar o lugar delas mas não podia realizar seu desejo por conta da sociedade interiorana de onde vivia, que achava pouco viril para um homem, estar às voltas com aulas de piano. Tinha um pai severo e que se recusava a pagar pelas aulas. Quando terminou o curso normal, foi ser professor. Reservava de seu pequeno salário uma quantia para poder manter-se no conservatório. Formou-se em piano como sempre sonhara. Devido ao seu esforço acabou por destacar-se. Foi convidado a dar um recital no teatro municipal e seu trabalho começou a ser reconhecido fora dos limites de sua cidade.

Foi assim que sua carreira teve início. Ele falava com naturalidade, como se ser famoso por seu talento fosse apenas questão de muito empenho. Eu ouvia tudo como se eu própria progredisse com ele. Quase não me dei conta de que estava me apaixonando. Ansiava por revê-lo e esperar um mês por cada consulta começou a representar um tormento para mim. Ficava imaginando-o em sua casa, ao lado da mulher e da filha adolescente que acabara de passar no vestibular de medicina. Sentia ciúmes daquela vida da qual eu não participava. O fato de não ter me casado nunca chegara a me incomodar antes de conhecê-lo. Eu estava com trinta e sete anos, faria trinta e oito dentro de dois meses, e minha vida parecia completa com o meu consultório e a reputação de médica talentosa e bonita. De repente, eu me via com desejo de ter uma família estabelecida, de ter filhos e Eduardo como esposo. Meu Deus, isto me deixava desconcertada.

Procurei infiltrar-me mais em seus pensamentos, conhecer mais de sua vida. Precisava estabelecer um contato mais pessoal e menos profissional.
Era antiético, eu sei, mas inconscientemente eu estava travando uma guerra de conquista. Eduardo foi se recuperando aos poucos. Sua febre havia desaparecido e ele estava-me grato por isso. Seus olhos adquiriram um brilho natural, menos vítreo. Sentia-se mais disposto. Relutante, por meus próprios motivos, acabei por indicar seguimento médico de dois em dois meses. Foi difícil deixar de vê-lo todo mês mas eu não poderia fazer de outro modo: ele estava visivelmente mais saudável. E eu, apaixonada. Ele era maduro, seguro, inteligente, brilhante. Eu parecia uma garota (de quarenta anos) descobrindo o primeiro amor, incapaz de mostrar os meus sentimentos com medo de ser rejeitada. Havia ainda um outro problema: ele era casado e, ao que tudo indicava, bem casado... Foi num começo de fevereiro. Ele entrou em minha sala e eu percebi na hora, por ter-lhe olhos tão atentos, que algo o perturbava. Tivera febre naquela semana e passara dois dias de cama. Solicitei exames de sangue. Com os resultados em mãos, novamente eu o tinha diante de mim. Tirou o paletó esporte e quase que arriou na cadeira.

Constatei imunidade em baixa. Insisti para que ele me contasse o que o estava incomodando. Eduardo relutou muito antes de dizer-me, quase que entre lágrimas, que vinha atravessando uma fase difícil no seu relacionamento com a esposa. Ela não o apoiava em sua paixão pela música e passava a maior parte do tempo em viagens frívolas e desnecessárias. Ele estava se sentindo sozinho e rejeitado. Nem me vi levantar da cadeira. Quando me dei conta já estava de joelhos ao seu lado, enxugando suas lágrimas com minhas mãos. Segurei seu queixo e colei os meus lábios nos dele. A princípio ele ficou assustado, depois levantou-se de súbito e abraçou-me em desespero e deu-me um beijo longo. Ficou me abraçando fortemente enquanto eu passava os dedos em seus cabelos, me embriagando de sua colônia, ar sumindo de dentro de mim e a cabeça nas nuvens.. Meu Deus... que sensação era aquela? Desvencilhando-se devagar do meu abraço, pegou do espaldar seu paletó, e saiu do consultório sem olhar para trás.

Fiquei ali parada, os braços ao longo do corpo, inertes, coração me saindo pela blusa e o rosto afogueado.... Parecia anestesiada. Um misto de emoções me invadia mas eu não conseguia sair do lugar. Queria correr até ele e falar de tudo que represara por tanto tempo: que eu o amava, que o queria sempre perto, que queria casar com ele. Cancelei as consultas seguintes e fui para minha casa vazia.

Aguardei um telefonema, um sinal. Fiquei à espera da próxima consulta como criança aguardando o Papai Noel. Eduardo desmarcou-a na semana seguinte. Quando a atendente deu-me o recado, eu levei um choque. Precisava tanto revê-lo, precisava explicar. Depois fiquei apreensiva. Será que ele iniciaria um processo por assédio e arruinaria a minha carreira? Senti-me então uma idiota por ter este pensamento: Eduardo estava acima disso. Ele não voltou ao meu consultório.

Segui a sua carreira à distância. Comprava pelo menos três jornais por dia para não perder qualquer notícia que falasse dele. Exultava com cada sucesso, enfurecia-me com cada comentário desabonador. Acabei fazendo um álbum de recortes. Se via o anúncio de uma apresentação, corria a comprar ingresso para a última fileira do teatro, de onde eu podia vê-lo sem ser vista. Aplaudia-o de pé ao final do espetáculo, rendendo homenagem àquele homem que marcou a minha vida. Nunca me aproximei. Eu não me sentia no direito. Não sei se eu era uma covarde ou uma mulher de caráter.

Hoje pela manhã, como faço há quarenta anos, passei pela banca e comprei meus jornais. Sentei-me no banco da praça e calmamente comecei a folheá-los. Porque agora me sobra tempo, leio até os anúncios dos classificados. Quando cheguei à página dos necrológios, um quadro saltou-me aos olhos, as letras parecendo grudar na minha retina: “...os parentes e amigos do consagrado pianista Eduardo Mayo agradecem os gestos de pesar e convidam para a missa de 7º dia de falecimento a ser realizada hoje às dezenove horas, na Igreja Matriz...”

Como, meu Deus, eu não fiquei sabendo antes? Que falha a minha não ter prestado atenção nesta seção do jornal na semana passada! Meu coração se entristeceu e um pouco de mim morreu ali. Vesti-me com esmero e, no final da tarde dirigi-me à Igreja Matriz. Sentei-me no último banco. Ao invés de prestar atenção às palavras do padre que rezava a missa, detive-me na figura trêmula e chorosa de uma senhora de vestido escuro, na primeira fila, que era confortada por uma mulher de cabelos negros. Provavelmente seriam a viúva e a filha, médica como eu. Fiquei imaginando que, se tivesse tido mais coragem, fosse mais impetuosa, a velha vestida de preto ali, poderia ser eu.

Saí da igreja cabisbaixa mas não desesperada. Sei que com meus oitenta anos não demorarei muito a seguir o caminho dele.

A partir de amanhã não comprarei mais jornais. Não preciso mais....

edição 53

firmina e norberto

Poli Paiva - A menina, mulher, escritora que queria ser várias anas....

Maxim Karlovich Kantor - Under the quilt - arte sexualidade
Under the quilt (1990) por Maxim Karlovich Kantor

 

a terapeuta de casais havia dito para firmina e norberto que eles precisavam destinar pelo menos uma manhã por semana para cultivar a relação. como já eram casados há 10 anos, resolveram obedecer.

a ordem era não ter pressa de sair da cama e nem de escovar os dentes. firmina, filha mais velha de mãe solteira, neurótica desde criancinha, não conseguia dormir pelas manhãs, nem nas de sábado. começou então a procurar o que fazer, já que acordava primeiro e não podia escovar os dentes, nem fazer café, nem multiprocessar todas as informações do mundo, do condomínio, das crianças e das 4 irmãs solteiras que viviam a lhe contar suas peripécias sexuais e a lhe dizer que era melhor estar casada do que solteira porque as casadas ainda tinham o benefício do divórcio.

logo relembrou de um esporte espetacular que não praticava desde solteira: olhar por debaixo das cobertas enquanto norberto dormia e ficar a observar o sono pesado daquele homem todo nu, que depois de 10 anos não tinha ficado barrigudo nem careca nem broxa nem metrossexual. saiu do sedentarismo para entrar pro mundo das sortudas. norberto podia demorar o tempo que fosse pra acordar que não tinha mau tempo. como se tratava do primeiro sábado de inverno e firmina estava bastante empolgada com a nova velha vida de desportista, resolveu citar a poesia de zeca baleiro no momento em que o pai de seus filhos abriu os olhos:

- hoje eu acordei com uma vontade danada de mandar flores ao delegado, de bater na porta do vizinho e desejar bom dia, de beijar o portugûes da padaria.

- quê isso, mamãe? pirou? flor pro delegado? de onde? da décima nona?

firmina só ria. na verdade gargalhava da barriga doer. norberto, ainda sonolento - mas ciente de se tratar de uma manhã de sábado, resolveu entrar na onda:

- e vem cá, qual vizinho? seu vladimir? ele não gosta da gente! diz que as crianças resolvem começar a gritar sempre depois das 10 da noite!

firmina percebeu que aquilo era muita metáfora para ele e, para evitar maiores explicações, resolveu calar a boca do seu homem utilizando seus artifícios de fêmea habilidosa. como se tratavam de ordens médicas, norberto, que já gostava mesmo daquilo tudo, acabou aceitando de bom grado a investida precisa da esposa. depois de mais ou menos 45 minutos de esportes intra-aeróbicos, ainda intrigado, afirma:

- não gostei desse negócio de beijar português da padaria não, mamãe! sabe como é esse povo da vizinhança! daqui a pouco tá falando de você e daí vou ter que me meter e aí quando eu fico nervoso, o bagulho pesa!

pela primeira vez, firmina entendeu racionalmente o quanto seu maridinho era maravilhoso. foda-se se ele não conseguia alcançar a poesia de zeca baleiro. isso era o de menos. ainda tinha outra coisa: ela podia tirar onda de poeta sem ter que dar os créditos. e o mais importante era que aquele homem ao seu lado era um pai bacana de 3 filhos, cheio de cabelo, sem barriga, sem frescura e de pau duro pra toda obra.

na manhã de segunda, enquanto sorria e dirigia rumo ao trabalho, ao som do baleiro, resolveu mandar flores para a teraupeuta, essa maga que com uma simples dica tinha feito ela perceber que em time que está ganhando não se mexe jamais. muito menos durante a temporada de inverno.

 

edição 52

Voila

Ah, pessoa, peraí que não tô podendo perder essa cena.
Hoje é só no binóculo, até porque o protagonista dispensa apresentação.
Nem queira saber o sorriso...
... Tô valendo nada mesmo, fala sério!

Rocca Stockler


[Grey Male Nude - Kliot, Rina Maria]

Rio de Janeiro, 3 de julho de 2006.


Noite e dia

Ela virou-se para o lado esquerdo da cama e catou no criado mudo isqueiro e maço de cigarros. Preparou o penúltimo deles displicentemente. Caiu da boca duas vezes antes de casar a chama com o fumo para a brasa. Ficou deitada, nua, de bunda para cima enquanto baforejava o hálito para o espaço entre os braços. Era uma esfinge perfeita: indecifrável em pose e face.

"Posso fumar?" Pediu permissão apenas na terceira tragada. "Pode sim. Não me incomoda o cigarro." "Você fuma?" "Não fumo, mas não me incomoda. Fique à vontade."

Ele levantou-se com dificuldade do lado esquerdo da cama e moveu as suas toneladas até uma cadeira perto da mesinha da televisão. Ficou passeando o olhar na cena formada pelos pacotes de camisinhas desperdiçadas, as roupas amarrotadas no chão e ela deitada com a pele ainda brilhando por conta do suor da atividade. Resolveu pedir uma água e um uísque para o serviço de quarto.

"Caramba!" "Que foi, lindão?" "Vinte pratas por uma água e um uisquinho de quinta!" "Nossa! Caro mesmo! Por que você não me levou para um hotel mais em conta, gato?" "..." "Você sabe que não faz diferença para mim."

Ela desatou o rosário, dizendo que o amava, que ele era lindo daquele jeito mesmo, que era o homem mais interessante que ela tinha conhecido em toda a sua vida. Ele querendo que ela calasse a boca e o chupasse. Só isso.

"O que acontece, amor? Você está avoado... parece que está pensando na vida, na morte da bezerra." "E tô mesmo." "Mas qual o porquê disso?" Ele abriu um sorriso canalha disfarçado de gentileza e começou a ensaiar uma ida pro banheiro. "Vou tomar uma ducha. Quer vir?"

Existem diversos tipos de sorrisos: os amarelos, que vêm por falta de opção; os de satisfação por um trabalho bem feito; os cínicos, que saúdam quem você quer ver morto ou vice-versa; os que nascem depois de um gozo com a pessoa que você ama; os que brotam quando você vê que sobrou salário no fim do mês - e não o contrário - e aqueles pelos quais alguém pagou para você dar.

Ela fez um mix dos piores sorrisos e transformou a cara de enfado num expor de dentes instantâneo. De alguma forma irracional aquilo o enjoou de tal maneira que matou qualquer possibilidade de intimidade real com aquela mulher. Sabia que esse era um tipo extremo de perversão, mas gostava da sensação de descontração que algumas conseguiam lhe proporcionar. Não era esse o caso.

Ele desistiu do banho quando pegou a toalha. Ela não: tomou um banho quente, demorado, barulhento e de portas fechadas.

Ele recebeu o garçom à porta e bebeu o uísque em dois goles. Ela apenas se serviu de água. Não bebeu.

Ele voltou a se sentar na mesma cadeira desconfortável. Ela deitou-se de bruços, agora se expondo para ele. Do seu canto ele podia contar os pêlos do fim das costas, todos dourados pelo sol; a marca de biquíni; a mancha escura de vacina na nádega esquerda; os cravos mal espremidos. Se ela fosse um terreno, daria para fazer um mapeamento topológico completo sem mexer um músculo sequer.

Ele ficou olhando uns bons dez minutos enquanto brincava com o que deveria estar desperto e pronto.

"Benhê. Posso te chupar?"

Ele abriu um sorriso.

A humanidade tinha esperança, afinal de contas.


Zander Catta Preta

 

edição 51

Ah sei lá

Foi um lance mais ou menos assim...

Ele é meio musico, meio folgado, meio fisioterapeuta, um tanto quanto atrapalhado. Aliás, ele aparenta ser meio um monte de coisa que não vem ao caso. Mas tem pinta de boa gente. Ela gosta.

Ela é meio esquisita, meio intelectualizada, meio poliglota alem da conta, meio bronca. Inteira gringa começando pelo seu português minuciosamente dedilhado em horas e horas noturnas de leitura. Mas tem pinta de boa gente. Ele gosta.

Ela acorda de madrugada pra fumar no telhado. Ele aparece uns minutos depois, sempre tremendo de frio. Ela ri pra cacete. Bravo ele a despenteia. Ela briga pra cacete. Meio estranho. Eles gostam.

Deve ser coisa de casal...

... Quer dizer, claro que eu vi tudo meio que por acaso. Juro.

Eu gosto!


Rocca Stockler


[Retrato por Roberto Stelzer]

Rio de Janeiro, 22 de maio de 2005.


QUE MARAVILHA!


Chuva fina. Ele caminha pela Rua Visconde de Pirajá em Ipanema. A chuva o incomoda um pouco, o deixa completamente aéreo, voando alto sem que ninguém perceba. Bom, isso é bom. Ele gosta.

Caminhando em direção contrária da sua, do outro lado da rua, ele a percebe: Vestido florido, tecido fino, daqueles que voam. Sabe? Ele gosta disso.

Sinal aberto. Ele atravessa a rua correndo por entre os carros. Pensa poder voar. Tolo, quase morre. Mas não tem importância, afinal ele ama vestido florido.

Mesma calçada. Mesma direção. Agora ele passa a caminhar junto dela, não exatamente grudado, mas perto o bastante para sentir que ela usava um perfume do bom. Sabe?

A chuva aperta e ela continua andando no mesmo passo, com a elegância de Vênus a lhe acompanhar. Ao menos penso Vênus ser elegante. Mas isso não importa quando vejo aquele rostinho dourado inclinar levemente, olhando o céu, cara pra chuva pedindo: Vem... me molha?

Impossível ele deixar de observar o gingado daquelas pernas torneadas, músculos e ossos bem dimensionados. E, claro, não teria como esquecer de notar o brilho daqueles fios de cabelos castanhos, bem tratados, que voavam com mesma suavidade na qual ela caminhava. Bonita, ela é bonita.

A chuva dá trégua. Eles percebem juntos, e ela sorri. Que maravilha! Ele sorri de volta.

Toca o celular. Ele perde o passo enquanto tenta livrar-se o mais rápido possível daquela maldita chamada fora de hora. Um pouco distante ele agradece não ter perdido o foco.

Ela agora segue bem à frente, entra na Praça Nossa Senhora da Paz, acomoda-se num banco vazio. Ele fica perto de uma árvore, parado, só a observando.

Que bonitinho - ele pensa - Agora ela vai tirar da bolsa um bom livro, daqueles que concentram a ponto de não perceber ninguém a sua volta, talvez nem a mim. Não teria problema, ele adora aqueles óculos fininhos, discretos, que ficam lindos só em algumas moças. Ele gosta disso, é um bom observador.

Nenhum livro em mãos, talvez ela vá simplesmente observar os passantes...

... Mas, o que é isso?

Ela tira um saco plástico, daqueles de supermercado, de dentro da bolsa e um estranho alvoroço de pombos formava-se à sua volta.

Não, não pode ser.

Era.

Ela jogava migalhas de pão para os pombos, enquanto emitia grunhidos como se conversasse com eles.

Bastou isso.

Virou-se e continuou seu caminho.

Ele odeia pombos.


Maurício Maia e
Carolina Thomáz