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Arquivo Géh -Amores Urbanos ed 24 a 25 - Amores Urbanos ed 26 a 50 - Amores Urbanos ed 51 a 75 |
| edição 65 | Roberta por Roberta Roberta Sangiuliano PedrosoA manhã despe-se à minha volta. Uma nesga de sol espreguiça-se no balouçar da cortina, tentando talvez aquecer o frio de uma ternura, que não se faz esquecida, mesmo no cansaço do olhar. O calendário anuncia mais uma primavera. Há no peito um sentimento que farfalha, ignorando todas as estações. Na brisa do amanhecer, uma esperança qualquer, que não se despede do meu olhar, embora todas as impossibilidades acenem negativamente.
Em algum lugar dentro de mim, ainda mora um sonho, como se sobrevivesse para escrever outra vez, capítulos da minha história lavrada pela eloqüência da realidade e pelos ditames da razão. Não me chega o tempo da quietude. Meus passos nunca reconheceram o caminho que apenas impõe o seguir em frente. Já nem sei, se chegar era meu objetivo precípuo. O que há e o que se faz, quando se cruza a linha de chegada? Empilha-se mais um troféu na prateleira das nossas conquistas? Onde ficam as tantas pequenas vitórias que se saboreiam no decorrer de cada percurso, mesmo quando não se vence, se nos ensinaram que apenas é ganhador aquele que chega primeiro? Como relatar ao mundo, o momento que me detive em meu trilhar, observando apenas o acariciar do vento nas pétalas de uma flor? Como contabilizar isto em perda de tempo, se sequer imaginam os arrepios do meu olhar ou os sorrisos de prazer que aquela imagem me propiciou? Talvez, acusem-me de distraída e inadequada ao momento, que exigia que eu apenas continuasse e que subisse ao pódio. Era isto que esperavam de mim: vencer. Outros ainda dirão que estou fora do padrão estabelecido pelas regras da sobrevivência. Ah, neste aspecto errei a vida inteira. Pequei sempre, quando preferi não tropeçar em meu sentir e escutei o pulsar do meu coração, não somente para constatar que eu vivia. Sempre fui amadora nestes rituais, em que se sacrificam as emoções. Onde há normalidade, quando se põe amarra no peito, calando o som de uma carícia? Nunca compreendi histórias lineares, reações exatas ou gestos estudados. Bem que tentei aprender a disfarçar minha insegurança, o frio no estômago ou o rubor repentino, quando exposta ao espelho do cotidiano. Em quase todas as tentativas neste sentido, falhei. Talvez por isto, tenha me desencontrado muitas vezes de tantas pessoas. Nunca amordacei minhas saudades, nem meu romantismo à flor da pele...Sempre despi minhas máscaras, porque era em outro olhar, que eu desejava também encontrar-me e reconhecer-me. Mas meu olhar despido, vezes causou estranheza e constrangimento. Vezes, indiferença e tolos julgamentos. Minhas palavras nunca souberam esconder o segredo de um amor, quando me habitava o corpo, a alma, o sonho. Nunca entendi, o porquê da grande maioria das pessoas entulharem tantos nós no coração. Se ainda fosse o pronome pessoal, mas não! Falo dos fios e, em alguns casos, de verdadeiras cordas com amarrações complexas, que nem as próprias mãos sabem ou se dispõem a desatar. E eu, com esta mania esquisita de falar do que sinto pelos lábios, mãos e olhares. E eu, com esta forma estranha de dar reconhecimento do que sinto e por quem sinto. Sempre foi inútil querer silenciar minhas confissões, mesmo se questionada sobre a certeza de um amor. Como se o amor tivesse que ser testado, discutido, dimensionado e não apenas sentido. Parece que saber de sua existência não basta. Tem que ter certificado de garantia, manual de instruções e, se bobear, até posologia. Talvez seja por isto que grande parte de nós sequer desconfie o que é viver um grande amor. A noção mais próxima deste sentimento fica ladeando as histórias que nos contam, como as vividas por Abelardo e Heloísa, Tristão e Isolda e tantas outras ou nos livros de poemas que lemos no decorrer de nossas vidas. De uma forma ou de outra, a expressão do que sinto fica meio desajeitada neste mundo. E como se não bastasse, ainda flagrei-me poetisa. Mas quase sempre, a palavra ainda me parece pouca para compreender minha ignorância no universo da emoção. Minha essência é mesmo desnuda. Coração
exposto e sem labirintos. Ainda prefiro a minha ternura boba, um perfume
de saudade em meu travesseiro, a minha voz entregue para as estrelas,
do que viver desabitada de mim mesma.
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| edição 64 | Um adeus ao passado MariaAntonietaRMattos.
Depois de tantas incertezas, ela tinha
escolhido aquela tarde. Quantas vezes já havia passado de ônibus
por aquela rua.... Sempre que passava por ali seu olhar se detinha naquela
vitrine e ela só voltava a olhar para frente quando o ônibus
dobrava a esquina, não tendo mais o que olhar e, mesmo assim, voltava
seu rosto lentamente e com o olhar perdido... Mas hoje seria diferente,
ela iria àquela loja. Ela trazia consigo, aflorando em seu coração,
o desejo de reviver o passado. Ela apertou o cordão com uma certa
aflição e o barulho monótono da campainha, fez o
motorista frear o coletivo, parando-o em frente ao Out Door da Pepsi...Desceu
com o seu coração já em descompasso. Atravessou a
rua e, parecendo hipnotizada, entrou na loja. Foi direto ao ponto....
Ele estava lá sim...Não ouviu nem o que o vendedor havia
dito, caminhando rumo ao piano... Suas mãos suavam frio e estava
trêmula, mas só percebeu isso quando viu suas digitais marcadas
no tampo do teclado.
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| edição 63 | O mundo da lua Renato Van Wilpe Bach Dizem que aos nove dias de idade eu estava lá,
provavelmente cheio de roupas na noite fria de julho, “assistindo”
com o resto da família a chegada do homem à Lua. Naquela
noite especial, reuniram-se todos em minha casa à beira da TV;
e os acontecimentos daquela noite, de tão repetidos, formaram uma
imagem absolutamente clara na memória. Que não pode ser
minha.
De qualquer forma, como posso esquecer se nem me lembro? Há fatos que não parecem ter acontecido conosco – eu estava mesmo naquela sala, por exemplo, em volta da televisão de perninhas que transmitia em branco e preto um dos maiores prodígios da ciência do século passado, mas lembrar é privilégio de outros. Ao longo do tempo, viveria e esqueceria muitas outras coisas, afinal, a alienação não ocorre somente nos obscuros primeiros anos da infância. É natural da memória se tornar seletiva, adulteradora, intervencionista – até já houve quem dissesse que é por conta disto que conseguimos conviver com nosso passado. Damos adeus a quem somos, de instante em instante deixamos de ser, transformamo-nos imperceptivelmente à medida que nosso cérebro inventa seu maior personagem: o eu que lembramos. Discutimos com “ele”, argumentamos, filosofamos e por fim esquecemos de novo, na tentativa nem sempre bem sucedida de viabilizar esta “convivência”. Há um eu “de dentro” e um eu “de fora”, um eu “meu” e um eu “teu”, um de hoje, um de amanhã e outro de ontem, evanescente. Desnecessário e irrelevante perguntar quem sou. Pedaços do mundo e de nós ficam para trás, contudo: “sobram” na luta diária. Pedaços de nós discordam da noção que está tudo bem e clamam por compreensão e entendimento. É que na vida, esta tremenda “obra aberta”, as coisas serão sempre e apenas quase todas certas, não o suficiente para nos convencer. Deve ser por isso que gostamos tanto de livros e filmes, pelo menos daqueles em que tudo se encaixa. Torcemos, no fundo, por um fim que não queremos que chegue nunca. Ansiamos por um sentido, e não nos satisfazemos com a noção de que o sentido, se houver, só existe em um plano subjetivo e projetivo, diferente da realidade. Nossa história segue em frente sem dar tratos à bola, afinal é só mais uma história. O que me faz lembrar que existem outros, ainda, dentro de nós. Eu os encontro por trás de uma nova gíria, nas ruas, nas casas, nos edifícios onde trabalho, nas festas e nos gestos; depois os regurgito e devolvo, com mais ou menos vida, no seio de minhas histórias. Somos marcados, pra bem ou pra mal, por aqueles que conhecemos. Os poucos que nos impressionam sobreviverão, para sempre na memória, imprecisos amálgamas que nunca chegaremos a apreender por inteiro, focados e reais. Há também um “você” de dentro, um “eu” que é seu, a maravilha do “nós”. Sim, pois se não chegamos a nos conhecer de verdade, mutantes que somos, que diremos dos outros, que só sei humanos porque assim aprendi a chamá-los, usualmente tão distantes que estamos uns dos outros. Olho para trás e me engano, que eu gosto. Digo que o eu de ontem é melhor que este de agora – aquele que cria incondicionalmente no poder levitador das relações humanas. Que cria no Homem, na História e na Ciência, em tantas maiúsculas que já nem me lembro mais. Depois volto a cara com desgosto e admito que minha dose diária e atual de pragmatismo faz-me bem mais feliz. Acredito ainda no Sonho, esta quimera que nasce da liberdade infinita de nossas almas. E cada vez menos no real, posto que é fátuo, no crescimento individual, posto que é subjetivo, e na experiência, posto que é tão individualista - farol de popa que só presta para iluminar o passado. Mas este é o “eu” de hoje, passará também. Amanhã nova mistura habitará este corpo, o crente e o descrente eternamente em conflito, da mesma forma o sonhador e o realista, o novo e o velho, eu e você. Um dia terei perfilados todos aqueles que fui, em frente à tela que dirá “fim”. Espero ter tempo para ler os créditos, descobrir quem fazia o papel de quem, o autor daquela música que me tocou tão profundamente lá no começo do filme. E, se Deus quiser, tempo também para tirar o copo de refrigerante e o saco de pipocas da cadeira, levá-los para a lixeira e fechar a conta com um comentário sarcástico a respeito da qualidade do roteiro.
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| edição 62 | Não chore por mim, Amarílis Sérgio Ornellas
Bem que lhe falei. Eu deveria ter saído pela porta dos fundos, na ambulância superfaturada do plano de saúde, direto para o hospital particular que a gente paga, mensalmente, com o dinheiro da venda das rosas mirantensis, minha flor. Sairia à francesa, ninguém ia notar. Colocaríamos um boneco de inflar na cama, um João-bobo, cobriria com a colcha, enganaria os repórteres, apareceria bonito na foto. Ninguém notaria a diferença entre mim e o boneco, somos dois rechonchudos de igual circunferência e volume. Você vai dizer que eu sou mais esperto. Sei disso. Você se esqueceu da multidão que contratamos para gritar aquelas bobagens? Então, com aquela turba, aquela blindagem, não haveria quem duvidasse que eu permanecia no quarto, fazendo birra. Era só chamar um deles e aquele fotógrafo nosso amigo, pedir uma foto caprichada com você sentada ao lado da cama, semblante triste, mão na minha suposta cabeça e distribuir para toda a imprensa. Está certo que alguns iriam duvidar, dizer que era montagem, mas cá pra nós, volto a dizer, até eu acredito que não há diferença entre nós. Eu e o boneco. A única reclamação que tenho a fazer é: você está cansada de saber que eu odeio chuviscos diet! Se houver uma segunda vez, o que eu duvido, em vez dessa porcaria, providencia umas rosquinhas doces com açúcar cristalizado por cima. Aquelas que só as sogras sabem fazer. As segura-genro. E também caldo de cana e melado para comer com aipim cozido. Concordo que fazia parte da cena, mas confesso que quando esse era o cardápio, passava fome. Agora acabou, ufa! Pois bem, se você tivesse me ouvido, essa história de hospital seria outra. Mas você achou que a sua estratégia era a melhor e lá fui eu me estabacar nas escadarias do nosso palácio, na frente do povo. Não havíamos combinado isso, lembra? Foi um espetáculo, o povo me acudindo, a ambulância dos bombeiros me levando para um hospital público, foi perfeito. Perfeito para vocês. Para mim foi um horror. Assim que cheguei eles não me reconheceram. Eu gritava, eu sou o Bolinha, eu sou o Bolinha! Não adiantou. Começaram a rir. Tive que pegar uma senha. Um papel ensebado que mais parecia sei lá o quê. Em seguida fiquei na fila para fazer o prontuário e ser encaminhado para o especialista. Não tinha especialista para o meu caso. Fui atendido por um pediatra, quatro horas depois. Menos mal. Menos mal? Eu é que sei! Disse que eu tinha que ser operado às pressas. Retruquei, disse que tinha que tomar soro, repor o potássio e os sais minerais, mas quando me vi, estava na sala de cirurgia sendo operado de fimose. E foi a seco. Não tinha anestésico. O estoque apodreceu no porto com a greve dos fiscais. O calor era insuportável. Ar condicionado-quebrado. Enquanto o médico me operava o suor dele caía na minha barriga. A enfermeira espirrava por causa do mofo que brotava da infiltração no teto. Faltavam máscaras também, tinham sido desviadas. Depois de operado, fui colocado numa maca sem lençol, no corredor. Não tinha quarto. Superlotação. Um nojo. Tanto que peguei uma infecção generalizada, minha flor. Estou à morte. Talvez nem termine essa carta. Minhas mãos tremem. Você é jovem, bonita e boa de negócio. Aproveite a vida e as oportunidades que ainda vão surgir. Pode casar de novo, só não se case com político porque essa corja não vale nada. Use nossas economias, triplique o patrimônio, quadruplique, faça milagres como você sempre fez. Não abandone a fé nem as rosas corruptas mirantensis. Lembre-se que perto delas todas serão sempre rosinhas. Não chore por mim, Amarílis. Bolinha.
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| edição 61 | A consulta por Sérgio Ornellas
O sol já ia alto, a neblina dissipara-se e as fofoqueiras de plantão passeavam como quem não quer nada em frente ao portão do Convento. Sabiam que o doutor havia chegado. Lá dentro, portas e janelas trancadas, ele começava a consulta com Inácia. Antes, porém, conversara longamente com a irmã superiora. - O que houve irmã? - Inácia voltou a enxergar. - Que beleza! Isso é motivo de alegria não de tristeza. Agora estou mais tranqüilo. - Sim, um verdadeiro milagre. Mas... - Mas? - Inácia está grávida. - A senhora tem certeza? - Absoluta. Só não sabemos quem é o pai. - Ela não disse nada? Nenhuma dica? - Diz que foi um anjo. Um anjo sem asas e perfumado, pode? - Anjo perfumado? Não sou religioso, mas acho um pouco demais, não? - Por mais que eu acredite na virgindade de Maria, é difícil o fato se repetir. - Eu também. Desculpe-me. - Não precisa se desculpar doutor. Temos que encarar a realidade. A conversa demorou longos minutos. Paralelamente, o fuxico no bar do João corria solto. Maricotinha escolhia as cebolas na banca e falava para quem quisesse ouvir: - Decretei greve. - Greve di quê, cumadi? - Greve di bobiça. Inquantu num saí a verdade, nada di séquiço. - I si demorá? - Pódemorá u tempo qui fô. Pedro num mi toca. - Ocê tá achanu qui foi êi? - Tô achanu nada. Ocês ômi santudiguá. Num podi vê uns peitim mais durim qui fica doido sô. - Mas a Inácia tem deficiência visual. Isso é abuso – intromete-se João. - Tinha defeito, num tem mais. I quem dissi qui isso voga aqui? Quem dissi cocês ômi óia prus óio? Ocês óia é prus peito, pras bunda. No convento, delicadamente, o médico inicia o exame. Pede que Inácia conte os detalhes, o dia provável da concepção e, principalmente, o momento que ela voltou a enxergar. - Doutor, foi lindo. Aconteceu há quarenta e cinco dias, no culto ecumênico em memória do Mané. Naquela festança na tenda do Daime, muita energia no ar. Eu, Lúcia e Raquel estávamos juntas ouvindo os discursos atentamente. De repente, fiquei só. Não me assustei, uma voz me chamava para fora da tenda. Lá fui eu. Afastei-me e era como se uma luz e uma voz me guiassem. Parecia que eu flutuava. - Voz? Luz? Mas você até então não enxergava. Você havia tomado da mistura? - Cruz credo! - Continue. - Segui, parei na cerca, encostei-me no pé de jambo e alguém me chamou novamente: Inácia, Inácia... - Estou aqui, respondi. Quem me chama? - Sou eu, meu anjo. - Meu anjo? Há quanto tempo lhe espero. O que quer de mim? Ele não respondeu. Beijou-me a testa e eu estremeci. Um beijo tão suave que só um anjo poderia dar. Depois me abraçou, beijou meu rosto e eu pude sentir o seu perfume. Disse o quanto eu era linda. - E você realmente sentiu o corpo dele ou era um sonho, uma miragem? perguntou o médico. - Tinha um corpo macio, uma pele suave. Ele só falava palavras bonitas, me envolvia em seus braços e nessa hora já me beijava a boca. Quase desmaiei, mas era boa a sensação, e pedi que ele não parasse. Que me beijasse novamente. - E ele beijou? - Nossa, todinha. Ai que vergonha! - E falou alguma coisa além de que você era linda? - Falou. Disse que há muito tempo me esperava e que eu era a sua escolhida. E que voz, doutor! Que voz! - Tinha o sotaque da terra? - Não me lembro. Só me lembro do perfume e da hora que eu parecia que ia explodir, explodir, explodir e... - E? - Eu enxerguei pela primeira vez. - Então você o viu? - Não doutor. Ele estava por trás de mim e beijava minha nuca. Depois me disse que a história se repetia e sumiu. Acho que voou. - Voou? Uai! Você disse para a irmã superiora que ele não tinha asas. - É verdade, doutor, não tinha mesmo. Será que era um homem?
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| edição 60 | Sobre a Infância Um lindo conto de amor versificado.... por Sônia (Anja Azul), uma anja-menina-mulher dourada com asas azuis... (Géssica Helmann) Quando era criança, brinquedos não tinha E quem diz que ficava parada A árvore imensa era minha nave five, four, tre, two, one, ziro Lá ia eu rumo ao infinito e qualquer poça d'agua era areia movediça hahaha...e quando pousavamos na lua!!! e quando gastávamos horas ou arquitetando planos de como roubar ah que infância deliciosa
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| edição 59 | Lovi Stori por Chintia Freeney
Sempre achei fascinante essa coisa de criancinhas desenvolvendo fetiches por objetos escolhidos aleatóriamente. Os homens de minha família são especialmente propensos a esse tipo de comportamento. As poucas garotas escaparam ilesas.
Meu irmão tinha o Cabitô - um cobertorzinho
nojento que ele arrastava pela casa o dia todo. "Cóin-cóin" era qualquer peça de vestuário que tivesse uma renda. Saiotes, camisolas, combinações. Ele não dormia sem esfregar o cóin-cóin no nariz. Também era famoso por levantar as saias de visitas
do sexo feminino, para vergonha de meus pobres tios e escândalo
dos presentes, "para ver se tinha cóin-coin". "O PADRE TEM CÒIN CÒIN!!!!!!!" Meu filho mais velho não tinha exatamente um objeto,
mas era viciadíssimo em chupetas, que eu comprava no atacado por
que ele sempre as perdia pela casa. Quando não era possível
localizar uma para a hora da soneca, ele fazia um dramalhão de
deixar a Glõria Magadan no chinelo. "Ohhhhh meu Deus! Minha sopetinha!!! O que eu fiz para merecer isso, Meu Deus!!! Como pode ser que eu não tenho uma sopetinha!!! Por favor Deus, faz aparecer uma sopetinha!!! " Teve dia que os vizinhos se apiedaram do choro copioso e apareceram com uma chupeta para acalmar a fera. Meu filho caçula, para não fugir à regra, tem o Lóvi. Lóvi é um travesseiro muito velho, muito encardido e empelotado, normalmente malcheiroso, que ele dorme acariciando, carrega pra todo o canto, usa como chapéu, bandeija, barco... o Lóvi tem mais utilidades que Bombril. Vez por outra, por que o Lóvi vira uma sachê
de amônia, ou por que o inevitável acontece (tipo o sábado
em que ele ficou ensopado de Nescau) eu tenho que "tomar emprestado"
para lavar. No meio do choro sentido, pára umas 63657637548 vezes
para me perguntar, entre soluços, se o Lóvi esta pronto. Ao receber o objeto de sua afeição todo limpinho,
ele o abraçou, daí parou um minuto. Abraçou de novo.
Me olhou... abraçou de novo. Jogou Lóvi no chão contrariado. "Lóvi don't smell like Lõvi! Lóvi smell like mami!!" Por um lado fiquei lisonjeada e feliz de saber que cheiro
a roupa limpa saida da máquina. Expliquei que se ele fosse nanar com Lóvi, o cheiro de Lóvi voltava. Graças ao vazamento inevitável da fralda que
ele ainda usa para dormir, na manhã de hoje, quando ele pulou na
minha cama com o travesseiro, constatei que estava certa. Mas era sem dúvida, Lóvi velho de guerra perfurando minhas narinas com cheiro de xixi de anjo.
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| edição 58 | A PRIMEIRA... por Maria Antonieta R Mattos
Ela tremia. Pernas, mãos, o corpo inteiro. Seus passos se tornaram imprecisos, inseguros. Os clientes começariam a chegar por volta das oito da noite e Kate tratou de respirar fundo, se recompor... Só faltavam quinze minutos!! Mais de uma vez, pensou em abandonar tudo. E se alguém conhecido aparecesse por lá, meu Deus, o que seria dela!!? Ah, pensamento positivo... Pensamento positivo.!
Estava a quilômetros de seu bairro. Estava na Zona Sul e ela morava
na Zona Leste. Não, não apareceria ninguém!! Uma
cidade deste tamanho, com milhões de pessoas... Além do
mais, estava irreconhecível. O melhor daquele emprego, até
então, era ter conseguido aquele trato todo. Cabelos, unhas, perfumes.
Ela justificou para Dona Eugênia – sua mãe –
que conseguira emprego numa lanchonete de um posto de serviços
na Anchieta. - “E como você vai para lá, menina? É
tão longe...” -
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| edição 57 | Um conto inocente por Maria Antonieta R Mattos Eis um conto... Coisa romântica e meio purista, .... uma adolescente entre dois fogos de gênero, cabeça em conflito à mil por um lado e o corpo em reação contrária por outro. Uma fase difícil... que só me propiciava sonhar....
Verão. No céu nuvens desenhavam elefantes, ursos e palhaços. Estou deitada no fundo quintal, mãos atrás da cabeça, lápis sendo mordiscado no canto da boca e a lição da Dna Margarida, esquecida ao lado... Um ruído em crescendo e identifico um carro de som que acaba de dobrar a esquina. Em alvoroço trato de ajeitar a saia, arrumo a blusa torta e corro para o muro que separa minha casa da rua. E na rua passa uma pick up com alto falante, onde aos berros, uma voz entusiasmada anuncia o maior circo do mundo!! E ele vai se apresentar bem na nossa cidade, lá no descampado da Prefeitura. Finalmente o Circo Americano em Apucarana!!..Entrei casa a dentro à toda sorrindo e já sonhando com o espetáculo que ia assistir já no no final da tarde. Vi minha mãe fazendo recomendações de meu comportamento, mas nos meus quinze anos, pensava que sabia tudo. Ansiava com a chegada da hora. Escolhi o vestido mais lindo, queria ver de perto o circo
tão falado na cidade. Minhas amigas chegaram, meus cabelos ainda
molhados, esvoaçavam com o vento, sorria numa alegria de menina.
A fila enorme, o pipoqueiro foi à primeira atração
que vi. Compramos pipocas para a hora passar, as pessoas andavam de lá
pra cá. Lourdes era a mais quietinha, parecia indiferente. Quando
a fila foi diminuindo, ela olhou para a imensa lona meio assustada, mas
a minha alegria era tanta, que nem ouvi seu comentário. Escolhemos
a arquibancada mais próxima do picadeiro. Vestia um vestido de
seda verde, meus cabelos negros combinando com o esmeralda de meus olhos,
diziam que eu parecia uma artista. Ah.... eu me sentia mesmo uma artista...
Minha primeira ida ao circo... puxa!! Debrucei meus braços nos
joelhos e fiquei sonhando com aquele picadeiro, gostaria muito de fazer
parte daquele mundo colorido do circo.
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| edição 56 | Quando as orelhas começam a crescer Sérgio Ornelas é designer gráfico, ilustrador, cartunista, caricaturista, e grande amante das letras.
Bastou uma olhadela no espelho e a cruel constatação: suas orelhas começavam a crescer. Menos do que poderiam, é certo, mas já se faziam notar. Assim como alguns pelos impertinentes teimavam em brotar
da cavidade auricular, onde nunca deveriam ter nascido. Seu pai passou
pelo mesmo infortúnio. É a genética! Não bastasse isso, sua mulher, alguns anos mais nova, lhe convence a começar os exames médicos. E lá vai você usufruir o plano de saúde que pagou a vida inteira. Reviram você de cabeça para baixo, mexem daqui, examinam dali e pronto, sua vida está de ponta cabeça! Nas mãos, uma lista enorme de restrições.Você coloca os óculos e se assusta com o que lê. É o começo do fim. Nada de muito sal, gordura nem pensar, açúcar só de vez em quando. Isso é vida? Conforme-se mais uma vez, poderia ser muito pior. Poderia ser a próstata. Seu coração está intacto e seus pulmões sem sinal de enfisema. Um pouco escuros, mas só nas bordas. Relaxe! Nenhum remédio indicado, apenas exercícios diários. Muito exercício, para você que acha a padaria tão distante quanto a Patagônia. Mexa-se, grita novamente a sua voz interior. E você se pega falando sozinho enquanto caminha, não para a academia, mas para o que talvez seja seu último encontro com os amigos de boteco. Todos ali sentados, animados, rindo de tudo e como você, com as orelhas começando a crescer.
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| edição 55 | Sintonize Rogério Rothje é redator publicitário. Torce pelo fim das touradas e tantos outros males causados aos animais, pelo convívio harmonioso entre homem e natureza e pela descoberta do amor como único caminho em busca da felicidade, do bem viver e da paz interior.
Evandro saiu de casa com a antena hasteada pela metade. Ligada sim, mas cheia de interferência. Sintonia fraca, bateria triste, a freqüência era só chiado que se ouvia. Tinha brigado com a esposa. Brigou por besteira e saiu assim, com todo o amor que tinha socado em algum dos bolsos do seu rico paletó risca de giz. Antes de voltar pra casa depois de um dia cheio de chuviscos e pensamentos fora do ar, resolveu sentar no velho banco de concreto verde, na pracinha verde, dois quarteirões antes da sua casa. Viu bem-te-vi nascer em ninho de palha e folhas fininhas, viu cães vira-lata, um grupo de sete ou oito, felizes, brincando de rolar na grama, viu o Zito (garotinho ruivo fruto de algum país nórdico que ele não sabia qual) andar de bicicleta sem rodinha pela primeira vez, viu o Sol se despedir em laranja sorridente, inebriou-se com o perfume inconfundível da dama da noite, sentiu o espreguiçar da Lua lhe tocar os poros, paz... Levantou-se, ajeitou o paletó amarfanhado, andou acelerado até a jardineira da dona Alzira, colheu duas ou três bromélias e voltou pra casa. Sintonizou amor, foi isso. Desconectou a tristeza, ligou-se a vibração afetuosa vinda do céu e deixou a alegria ecoar. Acordou bem hoje porque captou os sinais do amor puro vindos do ar naquela noite de abraço apertado e beijos apaixonados que, pra alegria do casal, encerrou a programação do dia feliz.
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| edição 54 | UM CONTO Maria Antonieta R Mattos - poeta, escritora, e apaixonada pela vida
Médica formada em clínica geral, especializei-me em homeopatia por não encontrar na medicina tradicional tratamentos eficientes contra os males que afligiam os meus pacientes. Interessante que, por querer conhecer seus problemas mais a fundo para indicar-lhes o medicamento adequado, acabei me tornando um pouco psicóloga, confidente e amiga. Gostava desta relação mais estreita com o ser humano. Acho que, às vezes, pude ajudar além das necessidades físicas de cada um. Fui aquela figura quase lendária do “médico de família”, espécime em extinção devido ao sistema de medicina baseado em convênios a planos de saúde que acabam por tornar o atendimento impessoal em virtude da alta rotatividade de profissionais nas clínicas de todo o país. A minha linha de trabalho criou uma certa fidelidade por parte de meus pacientes que, por propaganda boca a boca, mantiveram o meu consultório sempre cheio, graças a Deus... Foi assim que ele surgiu. Um moreno pequeno, de cabelos lisos e negros, olhos brilhantes mas tristes. Procurou-me queixando-se de um mal-estar constante que vinha atrapalhando a sua vida. Tinha um estado febril persistente do qual ninguém conseguia encontrar a causa. Entrevistei-o como de praxe, a consulta demorando quase uma hora. Pedi os exames rotineiros, encaminhei-o à minha recepcionista para agendar o retorno para dali a quinze dias, quando os resultados estariam prontos. Voltei para minha sala sentindo-me estranha. Algo naquele homem miúdo me perturbara. Não sei se eram os seus olhos negros e profundos, se era o vinco que marcava o seu sorriso velado, se o aroma de seu perfume que impregnara o ambiente. Tantas pessoas já haviam sentado naquela mesma cadeira mas nenhuma deixara uma impressão tão marcante. Ele era um pianista.... Chamei o próximo paciente e aquela sensação
acabou se dissipando. Não pensei mais demoradamente em Eduardo
até o seu retorno. Depois de quinze dias lá estava ele de
novo. Um pouco pálido, olhos febris. Ele era sensual sem querer.
Uma aura parecia envolvê-lo. Falava de um modo brando, quase sussurrando,
a voz um pouco rouca. Abri os envelopes do laboratório. A única
coisa que pude detectar pelos exames de sangue era uma baixa resistência
imunológica. Expliquei-lhe que o tratamento seria demorado pois
eu teria que reequilibrá-lo e isso exigia tempo. Eduardo olhou-me
suplicante; estava cansado de médicos e remédios. Eu era
a oitava que ele consultava nos últimos dois anos. Procurei transmitir-lhe
segurança, embora eu própria não soubesse ainda que
caminho percorrer. Não havia uma doença para ser atacada.
Havia um desequilíbrio e isso era mais difícil de tratar.
Prescrevi-lhe a medicação. O moreno cravou em mim os seus
olhos de lago ao estender-me a mão para se despedir. |
| edição 53 | firmina e norberto Poli Paiva - A menina, mulher, escritora que queria ser várias anas....
a terapeuta de casais havia dito para firmina e norberto que eles precisavam destinar pelo menos uma manhã por semana para cultivar a relação. como já eram casados há 10 anos, resolveram obedecer.
a ordem era não ter pressa de sair da cama e nem de escovar os dentes. firmina, filha mais velha de mãe solteira, neurótica desde criancinha, não conseguia dormir pelas manhãs, nem nas de sábado. começou então a procurar o que fazer, já que acordava primeiro e não podia escovar os dentes, nem fazer café, nem multiprocessar todas as informações do mundo, do condomínio, das crianças e das 4 irmãs solteiras que viviam a lhe contar suas peripécias sexuais e a lhe dizer que era melhor estar casada do que solteira porque as casadas ainda tinham o benefício do divórcio.
logo relembrou de um esporte espetacular que não praticava desde solteira: olhar por debaixo das cobertas enquanto norberto dormia e ficar a observar o sono pesado daquele homem todo nu, que depois de 10 anos não tinha ficado barrigudo nem careca nem broxa nem metrossexual. saiu do sedentarismo para entrar pro mundo das sortudas. norberto podia demorar o tempo que fosse pra acordar que não tinha mau tempo. como se tratava do primeiro sábado de inverno e firmina estava bastante empolgada com a nova velha vida de desportista, resolveu citar a poesia de zeca baleiro no momento em que o pai de seus filhos abriu os olhos:
- hoje eu acordei com uma vontade danada de mandar flores ao delegado, de bater na porta do vizinho e desejar bom dia, de beijar o portugûes da padaria.
- quê isso, mamãe? pirou? flor pro delegado? de onde? da décima nona?
firmina só ria. na verdade gargalhava da barriga doer. norberto, ainda sonolento - mas ciente de se tratar de uma manhã de sábado, resolveu entrar na onda:
- e vem cá, qual vizinho? seu vladimir? ele não gosta da gente! diz que as crianças resolvem começar a gritar sempre depois das 10 da noite!
firmina percebeu que aquilo era muita metáfora para ele e, para evitar maiores explicações, resolveu calar a boca do seu homem utilizando seus artifícios de fêmea habilidosa. como se tratavam de ordens médicas, norberto, que já gostava mesmo daquilo tudo, acabou aceitando de bom grado a investida precisa da esposa. depois de mais ou menos 45 minutos de esportes intra-aeróbicos, ainda intrigado, afirma:
- não gostei desse negócio de beijar português da padaria não, mamãe! sabe como é esse povo da vizinhança! daqui a pouco tá falando de você e daí vou ter que me meter e aí quando eu fico nervoso, o bagulho pesa!
pela primeira vez, firmina entendeu racionalmente o quanto seu maridinho era maravilhoso. foda-se se ele não conseguia alcançar a poesia de zeca baleiro. isso era o de menos. ainda tinha outra coisa: ela podia tirar onda de poeta sem ter que dar os créditos. e o mais importante era que aquele homem ao seu lado era um pai bacana de 3 filhos, cheio de cabelo, sem barriga, sem frescura e de pau duro pra toda obra.
na manhã de segunda, enquanto sorria e dirigia rumo ao trabalho, ao som do baleiro, resolveu mandar flores para a teraupeuta, essa maga que com uma simples dica tinha feito ela perceber que em time que está ganhando não se mexe jamais. muito menos durante a temporada de inverno.
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| edição 52 | Voila Ah, pessoa, peraí que não tô podendo
perder essa cena.
Rio de Janeiro, 3 de julho de 2006.
Ela virou-se para o lado esquerdo da cama e catou no criado mudo isqueiro e maço de cigarros. Preparou o penúltimo deles displicentemente. Caiu da boca duas vezes antes de casar a chama com o fumo para a brasa. Ficou deitada, nua, de bunda para cima enquanto baforejava o hálito para o espaço entre os braços. Era uma esfinge perfeita: indecifrável em pose e face. "Posso fumar?" Pediu permissão apenas na terceira tragada. "Pode sim. Não me incomoda o cigarro." "Você fuma?" "Não fumo, mas não me incomoda. Fique à vontade." Ele levantou-se com dificuldade do lado esquerdo da cama e moveu as suas toneladas até uma cadeira perto da mesinha da televisão. Ficou passeando o olhar na cena formada pelos pacotes de camisinhas desperdiçadas, as roupas amarrotadas no chão e ela deitada com a pele ainda brilhando por conta do suor da atividade. Resolveu pedir uma água e um uísque para o serviço de quarto. "Caramba!" "Que foi, lindão?" "Vinte pratas por uma água e um uisquinho de quinta!" "Nossa! Caro mesmo! Por que você não me levou para um hotel mais em conta, gato?" "..." "Você sabe que não faz diferença para mim." Ela desatou o rosário, dizendo que o amava, que ele era lindo daquele jeito mesmo, que era o homem mais interessante que ela tinha conhecido em toda a sua vida. Ele querendo que ela calasse a boca e o chupasse. Só isso. "O que acontece, amor? Você está avoado... parece que está pensando na vida, na morte da bezerra." "E tô mesmo." "Mas qual o porquê disso?" Ele abriu um sorriso canalha disfarçado de gentileza e começou a ensaiar uma ida pro banheiro. "Vou tomar uma ducha. Quer vir?" Existem diversos tipos de sorrisos: os amarelos, que vêm por falta de opção; os de satisfação por um trabalho bem feito; os cínicos, que saúdam quem você quer ver morto ou vice-versa; os que nascem depois de um gozo com a pessoa que você ama; os que brotam quando você vê que sobrou salário no fim do mês - e não o contrário - e aqueles pelos quais alguém pagou para você dar. Ela fez um mix dos piores sorrisos e transformou a cara de enfado num expor de dentes instantâneo. De alguma forma irracional aquilo o enjoou de tal maneira que matou qualquer possibilidade de intimidade real com aquela mulher. Sabia que esse era um tipo extremo de perversão, mas gostava da sensação de descontração que algumas conseguiam lhe proporcionar. Não era esse o caso. Ele desistiu do banho quando pegou a toalha. Ela não: tomou um banho quente, demorado, barulhento e de portas fechadas. Ele recebeu o garçom à porta e bebeu o uísque em dois goles. Ela apenas se serviu de água. Não bebeu. Ele voltou a se sentar na mesma cadeira desconfortável. Ela deitou-se de bruços, agora se expondo para ele. Do seu canto ele podia contar os pêlos do fim das costas, todos dourados pelo sol; a marca de biquíni; a mancha escura de vacina na nádega esquerda; os cravos mal espremidos. Se ela fosse um terreno, daria para fazer um mapeamento topológico completo sem mexer um músculo sequer. Ele ficou olhando uns bons dez minutos enquanto brincava com o que deveria estar desperto e pronto. "Benhê. Posso te chupar?" Ele abriu um sorriso. A humanidade tinha esperança, afinal de contas.
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| edição 51 | Ah sei lá Foi um lance mais ou menos assim... Ele é meio musico, meio folgado, meio fisioterapeuta, um tanto quanto atrapalhado. Aliás, ele aparenta ser meio um monte de coisa que não vem ao caso. Mas tem pinta de boa gente. Ela gosta. Ela é meio esquisita, meio intelectualizada, meio poliglota alem da conta, meio bronca. Inteira gringa começando pelo seu português minuciosamente dedilhado em horas e horas noturnas de leitura. Mas tem pinta de boa gente. Ele gosta. Ela acorda de madrugada pra fumar no telhado. Ele aparece uns minutos depois, sempre tremendo de frio. Ela ri pra cacete. Bravo ele a despenteia. Ela briga pra cacete. Meio estranho. Eles gostam. Deve ser coisa de casal... ... Quer dizer, claro que eu vi tudo meio que por acaso. Juro. Eu gosto!
Rio de Janeiro, 22 de maio de 2005.
Caminhando em direção contrária da sua, do outro lado da rua, ele a percebe: Vestido florido, tecido fino, daqueles que voam. Sabe? Ele gosta disso. Sinal aberto. Ele atravessa a rua correndo por entre os carros. Pensa poder voar. Tolo, quase morre. Mas não tem importância, afinal ele ama vestido florido. Mesma calçada. Mesma direção. Agora ele passa a caminhar junto dela, não exatamente grudado, mas perto o bastante para sentir que ela usava um perfume do bom. Sabe? A chuva aperta e ela continua andando no mesmo
passo, com a elegância de Vênus a lhe acompanhar. Ao menos
penso Vênus ser elegante. Mas isso não importa quando vejo
aquele rostinho dourado inclinar levemente, olhando o céu, cara
pra chuva pedindo: Vem... me molha? A chuva dá trégua. Eles percebem
juntos, e ela sorri. Que maravilha! Ele sorri de volta. Ela agora segue bem à frente, entra na Praça Nossa Senhora da Paz, acomoda-se num banco vazio. Ele fica perto de uma árvore, parado, só a observando. Que bonitinho - ele pensa - Agora ela vai tirar da bolsa um bom livro, daqueles que concentram a ponto de não perceber ninguém a sua volta, talvez nem a mim. Não teria problema, ele adora aqueles óculos fininhos, discretos, que ficam lindos só em algumas moças. Ele gosta disso, é um bom observador. Nenhum livro em mãos, talvez ela vá simplesmente observar os passantes... ... Mas, o que é isso? Ela tira um saco plástico, daqueles de supermercado, de dentro da bolsa e um estranho alvoroço de pombos formava-se à sua volta. Não, não pode ser. Era. Ela jogava migalhas de pão para os pombos, enquanto emitia grunhidos como se conversasse com eles. Bastou isso. Virou-se e continuou seu caminho. Ele odeia pombos.
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