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Edição 50

Topless

Por Luiz Maia

Autor dos livros "Veredas de uma vida", "Sem limites para amar" e "Cânticos".
- Edições Bagaço - Recife/PE.
Fonte: http://geocities.yahoo.com.br/maialuiz/

Alexei Lantsev - Girls and Colourful Scarfs - arte sexualidade
Girls and Colourful Scarfs (2004) por Alexei Lantsev

Veja o que aconteceu dia desses na Praia de Porto de Galinhas (PE). Algumas famílias condenaram a postura de várias turistas que exibiam tranqüilamente seus seios, deixando-os à mostra. É natural que algumas pessoas reajam contrariamente à conduta de alguém que faça topless. Eu, particularmente, acho até poético mesmo sabendo que isso representa uma opinião isolada. Apesar das turistas estarem possivelmente infringindo alguma lei brasileira, elas estão mesmo é sendo coerentes com a cultura de seu País, com o seu saudável estilo de vida. Elas não querem atingir a moral de ninguém. Quando nos dispusermos a olhar as pessoas e as coisas à nossa volta de forma mais espontânea e natural então estaremos livres de constrangimentos e a nossa vida será bem melhor aproveitada.

Por fim parecerei novamente polêmico ao afirmar que se um dia eu passasse numa praia, ou numa praça qualquer, e percebesse um casal fazendo sexo, amando-se apaixonadamente, eu não bateria palmas para eles para não estragar o clima. Mas que ambos merecem, é claro que merecem! No dia em que entendermos de olhar a vida fluir ao largo, natural e espontaneamente, aquilo que poderia ser tachado de 'pecado' no passado, passaria a ser visto apenas como um dos prazeres da vida. Nossas verdades são apenas provisórias. É preciso saber enxergar o mundo à nossa volta com olhos de total naturalidade. O detestável mesmo é o fato de convivermos num mundo onde existem pessoas que ainda morrem de fome...


Edição 49

O Colecionador

(Um papoema de Tate Fish com Alexei Gonçalves)

Arte Sexualidade - Svetlana Valueva - The Summer is off
The summer is off, (1997) por Svetlana Valueva

Tate:
Procura-se Mulher
carente
não só de afeto,
mas também de sexo,
de corpo, de alma,
de mente,
que mente,
demente...

Procura-se Mulher
atraente
mas pode ser feiosa,
capenga,
doente...

Procura-se Mulher
gostosa,
mas se não for,
ensina-se o que é
prazer e dor...

Procura-se Mulher
amante
Também serve amada,
mal amada,
ficante...

Procura-se Mulher
vazia,
dessas que servem
apenas à putaria,
que de outro assunto
jamais entenderia...

Procura-se Mulher
inteligente
que tudo entende
escritora excelente
leitora assídua, compreende?

Procura-se Mulher
casada, solteira,
viúva ou freira
Mulher esperta
ou de bobeira...

Procura-se Mulher
desesperadamente
Precisa-se preencher
internos e vazios recipientes
De um ser sombrio,
solitário, doente...
De um pobre diabo,
mal amado, carente...
De um sádico
sorridente...
De um romântico
doce, inconseqüente...
De um homem
que não sabe AMAR
porque AMARra-se
em pesadas correntes.

Alexei:
Um amigo me disse uma vez, que existem muitos motivos para "comer" uma mulher. Pela beleza, por amor, paixão, tesão... Mas, à falta de qualquer um desses motivos, restaria ainda um: "por estatística".

Acho triste essa filosofia de vida. Isso não é gostar de mulher. Ao contrário, revela um grande desprezo - que ele não escondia - pelo Outro Sexo. Desprezo que mal disfarçava ressentimento, raiva e até ódio, sentimentos que emergiam durante nossos papos.

A maior parte dos homens com quem converso em particular, quando o assunto resvala para o tema "mulher", revela-se descritivamente fiel a seus versos.

O contraditório é que essa característica cultural - é aprendida, ensinada por pais neuróticos, colegas de escola filhos de pais neuróticos, por colegas de trabalho neuróticos, por amigos de boteco neuróticos, et alii - resvala para o homossexualismo. Porque o importante é desimcumbir-se rapidamente da "missão" para contar aos "amigos" o quanto ela é "boa" ou "ruim de cama", por exemplo.

No fim das contas, saem com mulheres apenas para agradar aos amigos machos.

E se um amigo ousa discordar em voz alta, é visto com desconfiança, sua masculinidade é posta em dúvida. "Deve ser gay. Se não for quer ser. Ou, no mínimo, é um otário".

É o momento em que o desejo inconsciente se afirma ao denegar o seu objeto.

Ou, como bem colocou um colega de faculdade, gay assumido, num papo sobre esse assunto: "homem gosta mesmo é de pau".

Talvez por isso mesmo eu tenha tão poucos amigos homens, não freqüento botequins.

Porque acho um saco ter que levar uma fita-métrica, uma trena, para o permanente "concurso de medição de comprimento de falos". É um ritual aborrecido que abrange todos os assuntos, desde "mulher", até "meu carro é mais potente do que o seu", "eu comprei mais barato do que você", "o meu aparelho de som é mais moderno do que o do seu", "o meu computador é mais poderoso do que o seu", "a minha doença é mais grave do que a sua", "pior fui eu, que....".

(Até na desgraça, é o comprimento do falo o que está em jogo). Fala sério.

Sendo homem, talvez possa falar com mais propriedade sobre o que conversamos entre nós quando não há mulheres por perto. Saliento que estou falando de amigos - homens bons, leais, corretos, honestos. Homens que sofrem sem admitir o sofrimento, porque isso poderia manchar sua reputação junto ao grupo. Homens esmagados por uma ideologia que lhes foi imposta a marteladas desde que nasceram, que se sentem ameaçados, caem na defensiva ou partem para o ataque mais violento quando questionados nessa ideologia que os mortifica. Têm medo, no fundo, de que "algo terrível" possa acontecer caso questionem por um minuto as bases de seu vazio emocional, do fracasso de seus relacionamentos, dos amores perdidos.

Esse "algo terrível" verdadeiramente Inominável relaciona-se tão fortemente com a identidade, com o modo de ver a si mesmo que, em última instância, é simplismo atribuí-lo a um simples medo de possivelmente se descobrir homossexuais, como se diz gaiatamente por aí.

Esse "algo terrível" que tanto temem é a perda da própria identidade. Investiram tanto durante toda a vida nessa crença, que temem "dissolver-se" numa massa amorfa. Em termos simples, temem não saber mais quem ou o que eles são realidade.

Tate:
Foi exatamente isso que eu quis expressar nos versos, Alexis... fico feliz que alguém tenha compreendido e mais feliz ainda que esse alguém seja um homem. Abração!

 

Edição 48

Um bate papo de ariana para ariana

por Géssica Hellmann


Sole Mazzeto

géh: Quem é Sole Mazzeto? Quem é a atriz? Quem é a escritora? Quem é Sole na intimidade sem maquiagem totalmente despida de rótulos?

Solange: A Sole Mazzeto é a mulher que faz poesias sensuais e fotos sensuais. A atriz é uma mulher disciplinada, que ama estar no palco, que se tornou uma pessoa mais legal com ela e com a vida a partir do teatro. Faz teatro desde os 15 anos de idade, parou 10 anos pra ser mãe e esposa, mas há cinco anos voltou com tudo pro palco da vida real e irreal.

A escritora é uma menina do interior que sempre amou ler e escrever, mas as poesias mais sensuais nasceram no multiply, junto com as fotos mais sensuais também, uma espécie de simultaneidade, digamos assim.

A Sole na intimidade é a Sô, a Solange, a Solanginha, (risos). É mãe, dona-de-casa, cozinheira, e atriz nas horas vagas. Sem maquiagem, sou normalzinha de tudo, como toda mulher, só não fico sem batom, já levanto com uma passadinha na boca.

Mas sou amiga, sou doida, sou chata, tenho minhas nóias (todas), sou filha, irmã, cunhada, tenho meus amores (vários). Enfim...Mulher de ponta a ponta.

E o "sem maquiagem" literalmente eu fico sem no dia a dia mesmo, não sou tipo "perua".

Mas eu sem maquiagem no sentido figurado, é que sou transparente, se estou bem, estou, se não, não estou, entende? Mas isso eu passo nos textos. Claro que não passei por tudo o que escrevo, mas tem muita coisa que "é minha", que sou eu, sim.

géh: Não sei quanto a você, eu quando mantinha um blog com poesias sensuais, recebia muitas cantadas, algumas eram até explícitas. Com você também é assim?

Solange: Pra você ter uma idéia até da tela que pintei tem cara que se excitou, então... Só rindo mesmo né!!! E vou continuar sim, mas vou tentar mesclar esses poemas com outros mais "normais" como eu fazia, pois gosto de mudar também, tenho muitos que escrevo com minha "veia caipira" e não tenho publicado ultimamente...

géh: Existem realmente pessoas que escrevem esses poemas em busca de um relacionamento ou até de sexo casual... Mas sabe o que diferencia estas pessoas de você? A postura, a intenção com que se faz, e isso fica claro no texto, nas palavras escolhidas, até nos seus comentários.

Solange: Muito obrigada por isso, fiquei emocionada.

géh: É o que sinto quando leio suas poesias. No meu caso, quando eu escrevia, eu raramente estava "vestida para matar", geralmente usando um shorts e uma camiseta velha! Nada sexy (risos). Muitas vezes as pessoas confundiam os "escritos" com a escritora.

Solange: Tem disso, mas eu sou sensual normalmente também. Só não sou dada a dar (risos). Quando saio, chamo a atenção normalmente. Acho que é uma questão de energia, carisma talvez.

géh: Falar, expor, extravasar... Não significa que você é oferecida!

Solange: Sim. Atriz, artista é um ser diferente mesmo.

géh: A sensualidade faz parte de você!

Solange: Essa sensualidade dos escritos é minha, sou assim mesmo, ariana na raça. O signo de Áries é diferente de todos os signos, tem a sensualidade à flor da pele. Nossas zonas erógenas é o corpo todo, "em tudo" (risos).

géh: Também sou ariana, sei muito bem do que você está falando! O vermelho faz parte da vida de um ariano, você concorda?

Solange: Sim e muito! É onde buscamos força. É como fiz aquele texto que falo de mim: "Simplesmente". Sou exatamente assim. Tem dias que nada nem ninguém pode falar que estou linda: se eu não acho, ninguém pode achar (risos).

géh: Sobre o teatro, você disse que, de certa forma, mudou a sua vida. Como é estar no palco, brincar com as emoções e a corporalidade? O que você leva do teatro pro seu dia a dia?

Solange: Estar no palco é um êxtase. Não diria que o ator brinque com os sentimentos, a gente os sente, e muito. Sofremos com a personagem; ela tem cor, forma, roupinha. Eu faço uma estorinha da vida dela, e então, o que me perguntar dela, eu sei responder, até os segredos, aprendi isso com o Raul Cortez! O que eu levo? Tudo. Você fica mais humana. Fiz uma mendiga que mudou minha vida. Percebi com ela que todo mundo ama, igual, seja embaixo da ponte ou no melhor motel do mundo. No teatro, aprendi a ser mais generosa.

géh: É fantástico mesmo. Aprender a aprender a cada dia e guardar o melhor conosco.

Solange: No dia a dia, levo a disciplina, a alegria, a sabedoria das personagens. O ator é despojado, principalmente o ator de teatro. Armamos uma fogueira todos os dias, que vira brasa, morre e renascemos no outro dia, mais fortes ainda, como Fênix.

géh: E é muito diferente do cinema e da tv, porque mesmo sendo a mesma peça, é como se fosse uma nova a cada dia, muda o público, as emoções mudam, o aprendizado do dia anterior pode dar um toque sutil no dia seguinte...

Solange: Sim, isso mesmo. Por isso amo o teatro e, por ele, os atores de teatro. Eu esqueci um pedaço do monólogo domingo passado, quis morrer na coxia... Mas tinha mais cenas. Então, você aprende a pensar depois, a exigir depois de você, vai em frente e no dia seguinte faz melhor. Quase um médico, não podemos errar. Por isso existem atores que têm dom, mas não têm devoção. Ser ator é um sacerdócio, quase o somos, pelo menos eu sou, devotada a minha arte.

géh diz: Parabéns! é maravilhoso fazer algo que a gente ama, com paixão e devoção.

Solange: Sim é maravilhoso. Sou quase cruel em ser assim, pois exijo de mim e de quem trabalha comigo. Mas também aprendi a ser generosa, paciente nunca, mas generosa sim.

géh: Você é perfeccionista?

Solange: Muito, feliz ou infelizmente. Mas sou menos hoje em dia, consigo rir de mim mesma, mesmo quando erro, eu rio. Aprendi com uma doença e não com o teatro.Tive câncer, sofri dez anos, era no sangue. Então aprendi na marra a ser menos perfeita, entende?

géh: Foi nesta mesma época que você parou com o teatro?

Solange: Foi.

géh: Podemos dizer então que o seu retorno, foi seu renascimento.

Solange: Sim, foi meu renascimento, falou tudo Géh! Na época eu estava com uma filha de 6 meses mamando em mim e desenganada. Acho que essa doença fez de mim uma pessoa melhor no HOJE. Vivo o HOJE, e o amanhã não sei.

géh: A gente aprende a ver o mundo de forma diferente, quando uma ruptura acontece em nossas vidas, e fico feliz que no seu caso tenha sido pra melhor. Pois há pessoas que, ao contrário, se tornam ainda mais pessimistas e negativas.

Solange: É verdade. Tem gente que não aprende, eu aprendi. Muitas pessoas morrem, mesmo não morrendo. Por isso amo viver, dar valor a pequenas coisas do dia a dia. Olhar o céu, o mar, a flor, a vida em cada coisa.

géh: Isso é importante, porque com certeza influenciou e muito na sua relação com a sua filha.

Solange: Eu lutei bravamente, não parei de amamentar, desmaiava até, mas amamentei até os dois anos minha filha, com um orgulho que, nossa, era uma vaca! (risos). E minha relação com ela é leve, legal, natural. Como eu não sabia quanto tempo viveria eu não a mimei. Ela sabe cozinhar, limpar e se virar.

Para terminar aqui uma poesia que descreve a mulher, atriz e escritora Sole Mazzeto:

Simplesmente

Gosto de ser eu
E não gosto de ser
Tem dias que me sinto feia
Outros, linda
Tem dia que acordo de DIVA
Outros dias de FERA
Pinto-me em bela
Ou me pinto em “monstra”
Mas o que gosto mesmo é de sentir
Prazer
Em levantar da cama
Disparar escada abaixo
Fazer um chá caprichado
Tomar um longo gole
Comer um pão fresco
Deixar a manteiga escorrer e molhar o queixo
Depois demorar num banho longo
Sentir cada pedaço de mim como presente
Lavar meus púbis
Meus cabelos
Ensaboar-me toda
Dando-me prazer em ser Solange
E depois secar os cabelos
Olhar ao espelho
Passar batom vermelho
E creme na bunda
Rechear a pele toda
Brincar aqui e ali na rede
Em prazer de ser
Uma pessoa errante
Cheia de chiliques de instantes

Delirar em minhas conjecturas
Falar
Escrever
Papear
Ler um livro da estante
Burilar meu som
Andar em cima das nuvens
Bagunçar o quarto procurando nada
Espalhar-se na cama
Rever a fala
Ir ao telefone
Abrir a caixa de pensamentos negros e mandar tudo pro inferno
Mergulhar na arca rosa
Chupar um pirulito que ganhei agora
Andar de salto alto pela casa escutando o barulho que faz
Segurar na ponta da vida
Olhar dentro dela
E
Divagar
Amando cada célula que carrego no peito
E distribuir isso em tons roucamente carinhosos
Alisar um peito bom de homem lindo que conheço
Alcançar as estrelas em cores fortes
E lhe dizer que o sinto perto mesmo longe
E ser assim
Uma doida que se entrega
Uma mulher competente que encarrega de acender a luz a todo instante
E não tem medo de falar
De arriscar chorar sentir

Assim mulher cheia de graça
De pernas longas e olhos escuros
De boca cheia
De olhar astuto

E depois de... Dez, segundos
Rir de ser assim

Simplesmente
Solange

Sole Mazzeto

 

Edição 47

Qual das meninas teve a melhor sorte?

Anja Azul

A caçula nasceu sob a culpa da morte da mãe que tão logo lhe pôs no mundo e partiu. Foi dada à madrinha, idosa viúva camponesa. Os irmãos, duas meninas e dois meninos, seguiram o pai.

A pequena cresceu no mato, qual erva daninha. Ensaiando passos no chão do casebre de terra batida. Habituou-se à rudeza da roça, à economia de palavras e sonhos.

Gulnara Ziyaeva - Girl - arte sexualidade
Girl por Gulnara Ziyaeva

As duas meninas foram dadas a famílias distintas, de ricos veranistas passageiros. Seriam camareiras, copeiras, pajens, apara-raios de toda a sorte.

Os meninos ficaram enterrados numa roça distante com o pai, que casou de novo e teve mais filhos e filhos.

A mais velha muito raro dava noticias e, quando aparecia, era um sucesso, bem-vestida, uma boneca. Mas passava maus bocados nas mãos das patroas, trabalhando de ama-seca e cozinheira. Um dia casou. Teve três filhos homens, e soube conduzi-los muito bem.

A outra, quando sumiu, tinha 7 anos, e quando reapareceu, tinha 19. Andou pelo mundo com a patroa, uma mulher sem coração, quase uma bruxa. Enterrou os pés na neve em Paris, andou a esmo pelas ruas de Madri, e ai que não achasse a tal padaria. A cabeça lhe doía, das tesouradas que recebia. E as surras! Ah! as surras.

Quando a patroa enlouqueceu de vez, o patrão a enfiou num colegio de freiras, de onde saiu prendada e determinada. Tanto rogou, que um dia reapareceu na roça.

A caçula, bicho-do-mato, espiava de longe, pensava que fosse um anjo caído do céu. Pegou-a pela mão e lhe costurou um lindo vestido, o primeiro. E aquilo foi o que de mais lindo lhe aconteceu em sua pobre vida.

Depois o anjo foi embora. Trabalhou muito ainda, mas com a dignidade recuperada, nunca mais se deixou maltratar. Casou e teve um casal de filhos. Os quais mimou e protegeu demais. O que os tornou frágeis, e até hoje necessitam de sua proteção.

Bicho-do-mato voltou para a escuridão. A Madrinha morreu e ficou por conta de parentes que menos atenção lhe davam. Ansiava por uma mãe que lhe explicasse o motivo das coisas. A adolescência lhe metia medo. E nem chorar ela sabia.

A vida era trabalhar, era silêncio, era pobreza, eram as crises de amidalite que lhe duravam meses, e se curavam sozinhas.

Era imaginar como seria o mundo por detrás daquele morro, que se tornava fantasmagórico ao cair da noite.

Um dia, venceu a timidez e se apaixonou. Casou e teve três filhos.

Dentre eles, a caçula sou eu.

E me espanto de como uma pessoa, que cresceu sem informação, sem vinculos afetivos, sem sonhos, sem nenhuma alegria pode ter sido uma mãe tão carinhosa, atenciosa, sensata e inteligente.

Infelizmente, foi ela que deixou a vida primeiro. E quando estava no fim, disse-me ao me ver tentando esconder meu pavor:

- Ora, nem me venha com frescuras e choradeiras. eu já cumpri meu destino na Terra, tenha olhos pra seu filho que recém esta começando.

 

Edição 46

O que é ser sensual?

Julius Arutyunian - Sitter - arte sexualidade
Sitter por Julius Arutyunian


Sole Mazzeto

Tem mulher que se destaca por isso

Outras caem ao ridículo

Conversando aqui e ali

Descobri que

Já nasci com uma certa tendência

Sensualzinha

Vejam bem vou lhes contar
...

Quando nasci era a única menina do berçário

Conta-se que as enfermeiras me colocaram ao centro de manta cor-de-rosa de cabelo em chuquinha alta vistosa e com todos os meninos em volta me olhando em suas cobertas azulzinhas

E foi aquela falação na cidade, pois em uma semana fui a única menina da maternidade

Nasci bem e com saúde, mas a mamãe

Teve que ficar por conta do leite que empedrou lá dentro das mamas dela

E nesse ínterim fui à rainha do berçário

Pode ser daí que já fiquei assim meio exibidinha

Sorte minha ficar assim entre aqueles meninos todos ao balbucio de chupetas, fraldas e mamadas na madrugada

Depois quando neném de colo ainda, a vizinhança se alvoroçava a minha volta, pedia a minha mãezinha deixa pegar ela um pouquinho, e levava eu embora de mansinho

Agora já comecei a parte de atriz logo também

Acho
...

Minha mãe conta que quando eu ia à casa de um homem que tinha sofrido derrame, o pobrezinho do Sr. Félix
...

Ele tendo a face torta eu voltava imitando o coitadinho, contava nessa data, que eu tinha um aninho

Minha mãe chorou de medo ao me ver assim a primeira vez, mas meu pai, acalmando-a disse, ela está brincando, já para com isso, eu demora uns momentos e depois o rosto ficava normal

Mas era ir lá de novo, que a Solanginha já retornava de pronto

Depois na escola, sempre fui a melhor da classe, CDF que só vendo, era paparicada daqui e dali tinha um cabelo enorme que beirava a cintura, as professoras me adoravam, e se ia de tranças voltava de rabo, que punham a me pentear, era chamada de índia e ganhava do homem do carrinho do algodão doce, sempre um a mais sem que pagasse ou pedisse

Abria um sorriso enorme e em épocas banguelinha, que derretia até um cão

E aos pulinhos ia rua abaixo pra dar um pra alguma amiguinha, não ia comer os dois algodões-doces e repartia

E assim fui crescendo sempre com mais amigos homens que mulheres nessa vida e estou aqui fazendo arte teatro, amizade, e por hora estou mais balanceada entre amigos

E assim findo essas escritas que muito me fizeram bem ao recordar

Ganhei um sorrizão da mãma, e isso já me bastou à tarde e começo dessa noite fria de um outono esquisito, mas aqui dentro do peito, o calor de amor se espalha e espelha a todos

 

 

Edição 45

Alma nua

Géssica Hellmann

Géssica Hellmann - Tarot The Rainbow Sword - Arte sexualidade
Tarot - The rainbow sword por Géssica Hellmann


Sou mulher e falo sobre sexo. Ao tocar neste assunto ainda tão proibido, logo engraçadinhos tendem a me rotular como "garota de programa", "prostituta", "ela quer é dar", entre outros. Sexo existe desde que o mundo é mundo. Existe tanto preconceito ao falar do sexo, que faço a pergunta: o que vem a ser o órgão sexual, senão um órgão do corpo humano como outro qualquer? No fim tudo vira pó.

A diferença é a intenção com que se faz. E isto posso afirmar: é com amor, carinho e com respeito aos valores e princípios em que acredito. O combate a todos os tipos de preconceito de raça, gênero ou opção sexual, contra todo tipo de ódio e violência.

Luto contra todo o tipo de violência, verbal ou não-verbal. Como mulher sinto-me ferida ao perceber a discriminação contra o meu sexo. Discriminação essa incentivada por mentes doentes na nossa sociedade, que esqueceram ou perderam seu valores morais, ou porque simplesmente acham que isto é "normal". Quando aceitamos passivamente agressões verbais, muitas vezes disfarçadas por "piadinhas de mau-gosto", no trânsito, no trabalho, ou na própria família, acabamos por ser coniventes com a própria agressão. Mas o que fazer então? Arrumar briga, emburrar, ou aceitar para não piorar a situação? A melhor resposta é a que sempre utilizei nessas ocasiões: deixar claro que meu corpo não está a venda, sou mulher, e exijo respeito. E digo tudo isto somente com o olhar, com minha maneira de ser e agir. Deixo o discurso só para quando é necessário e o outro lado se fizer de desentendido.

Tomo partido do que acredito. Deixar de seguir meus valores seria minha anulação. São esses os princípios que como mãe, mulher e esposa, quero transmitir ao meu filho e a todos os que neles acreditarem.

O géh começou pequeno em tamanho e gigante em sentimentos. Manifestar através das artes nosso repúdio a violência, aos tabus e aos preconceitos sexuais é o nosso objetivo.

Escrevo, desenho, pinto e bordo o corpo e o sexo porque é belo, é divino e feito com amor.

O mal, com seus tentáculos, tenta sempre atrapalhar, como as trevas que sugam a luz do sol obscurecendo nossa visão, impedindo que prossigamos nesta luta. Mas assim como num jogo de xadrez, existem os dois lados: um bem em oposição a todo este mal. É importante saber em que lado se está, é preciso fazer a escolha não dá mais para ficar em cima do muro. Sigo despida de máscaras ou hipocrisia, com a alma nua e com muita luz no coração. Já fiz a minha escolha; e você, já fez a sua?

Agradeço todas as noites ao deitar aos amigos que estão conosco nesta missão e que, mesmo quando nos sentimos perdidos, nos fazem lembrar do que é realmente importante: a intenção com que se faz!

Termino este desabafo presenteando os leitores com um lindo poema da nossa amiga Maria Antonieta.


O BEM E O MAL

I
Já não basta o mal a sempre
fatigar-me,
sem que também o bem..me
dê tormento?
Eu já me tinha aqui comigo
em bom acento
e pronta para quanta dor
quisessem dar-me!
II
Podiam eles não esperar, fartos,
e ajudar-me
e até por ser velho costume e
pensamento;
dizerem em triste penar ou
contentamento,
alguma coisa que bastasse.. iria
contentar-me
III
Mesmo atrapalhando, sentimento
tão desarrumado;
que me dá de prazer um quase
nada e a toda vista,
com o qual se revolva enfim, todo
o meu cuidado...
IV
Tenho neste mal, todo ele reunido,
concentrado,
um contraponto com o bem, que me
trás realista...
Continuo a andar, o Criador a passos...
Do meu lado!

MariaAntonietaRMattos.

 

Edição 44

A LETRA ESCARLATE DOS TEMPOS MODERNOS

Lívia Santana

Num momento em que todos estamos sobremaneira assombrados com a violência, em todas as suas formas de expressão, vimos (Géssica, eu e mais um monte de gente) uma coisa que nos deixou o cabelos em pé e o corações revoltados.

Raymond Scholz - menage a trois - arte sexualidade
Ménage à trois por Raymond Scholz

Muitos pensam que violência se resume a hematomas, sangue, tiros e mortes, por ser esta a maneira mais chocante e indisfarçável pela qual ela se manifesta. No entanto, pergunte a qualquer um que já sofreu alguma forma de coação moral ou tortura psicológica se considera este um jeito menos cruel ou menos importante de ser violentado: garanto que a resposta será unânime.

A violência psicológica é tão dolorosa quanto um golpe físico, não tenha dúvidas.

E uma das agressões psíquicas mais duras é aquela provocada pelo preconceito, porque é originária de sentimentos íntimos e escusos de cada um, é a canalização do ódio e da ignorância, podendo atingir proporções inimagináveis.

Sim, o tema deste artigo é o preconceito, mas enfocado de um jeito um pouco diverso desta vez.

Nós do Géh temos nos empenhado durante todos esses meses em promover a queda de tabus, o combate à discriminação e a defesa da liberdade intelectual e sexual. Falamos aberta e fartamente sobre ambivalência sexual, anomalias, parafilias, deficiências e qualquer coisa que se referisse à sexualidade diferente e a conseqüente não aceitação provocada por ela.

Atualmente é comum pensarmos que o preconceito é endereçado unicamente às diferenças detentoras de rótulos, o que não traduz a realidade dos fatos. A exemplo disso vemos ainda o ranço velado, porém abundante, da discriminação contra homens e mulheres cuja cor da pele é negra, que estão longe de ser a minoria num país miscigenado como o Brasil.

Engraçado é que tendemos a pensar também que aqueles que não se encaixam em nenhum dos estereótipos normais estão livres de represálias dessa natureza, mas ai de nós - nem isso!

Vivemos no século XXI, era da tecnologia, da Internet, da difusão do conhecimento e da diminuição das distâncias pela chamada globalização. Exploramos o espaço já há algum tempo, os cientistas se embrenham cada vez mais nos mistérios da genética e a evolução da medicina curadora é constante. O modelo de educação infantil se baseia em diálogo, as mães trabalham fora, os pais também cuidam dos filhos e lavam a louça. Fala-se sobre sexo e concepção com os adolescentes, a virgindade não tem mais peso fundamental para o casamento, homens e mulheres são reconhecidos igualmente pelas leis.

Sem dúvidas evoluímos muito desde os tempos medievais, mas ao que parece ainda acolhemos no seio da nossa sociedade seres de mentalidade abjeta e pouco esclarecida, capazes de agir com a brutalidade dos homens de tempos remotos.

Há poucos dias uma garota da minha idade escapou por um triz de sofrer linchamento no interior de São Paulo. Uma menina que cursa a faculdade de Direito como freqüentei e que, até então, muito provavelmente, acreditava em inocência, bons sentimentos e nobres ideais, assim como eu ainda acredito.

A turba enfurecida era composta por trezentos jovens de classe média e alta, igualmente freqüentadores da faculdade, considerados membros da elite intelectual do nosso país - como repetiram tantas vezes para mim e para os meus colegas durante os nossos cinco anos de curso. Que Deus nos proteja.

A garota execrada e quase linchada pelos próprios colegas de faculdade teve a infelicidade de aparecer em fotos divulgadas no Orkut por algum ser perverso e doente, participando de um ménage à trois com dois homens.

A vida de todos os envolvidos, inclusive de seus familiares, foi arrasada de um jeito que nem mesmo a morte conseguiria provocar.

Os estudantes que atacaram a moça queriam ter a oportunidade de destilar seu veneno odioso, provinciano e ignorante através de palavrões, xingamentos, expressões de desprezo e agressão física. "Ela é uma puta, afinal a mulher tem que se resguardar".

A garota jura de pés juntos tratar-se de montagem, o que não vem absolutamente ao caso. Fossem montagens ou fossem reais, seria caso de difamação ou invasão de privacidade, ambos crimes do mesmo modo. Ninguém tinha o direito de divulgar-lhe a vida privada e muito menos de condená-la publicamente como uma Madalena dos tempos modernos.

Alguém aí já assistiu ao filme "A Letra Escarlate", em que a Demi Moore interpreta uma mulher condenada a carregar no peito uma letra A pintada em vermelho para que todos que a vissem pudessem saber que aquela mulher tinha sido adúltera e humilhá-la como ela merecia? Este filme revoltou-me o estômago, mas me consolava saber que era apenas uma película e se passava na época medieval, o chamado período das trevas da civilização humana, bem longe de nós e dos dias de hoje. Acho que me enganei.

Há algumas reflexões a serem feitas sobre este acontecimento:

1. São imensuráveis os danos que podem ser provocados pela Internet e por sites como o Orkut, que promovem a interação entre as pessoas permitindo o anonimato e não se responsabilizando pelo conteúdo de nada do que é veiculado através de suas páginas. Urgem providências quanto a isso.

2. Pais, que educação estão dando a seus filhos, que crescem com a mesma mentalidade dos tempos feudais, com toda a sorte de preconceitos e com uma carga de maldade inimaginável a pessoas jovens, aparentemente normais, que vivem em sociedade? Por favor, vamos formar seres humanos decentes e não animais ferozes que ataquem e devorem o semelhante fragilizado!

E o ponto mais importante:

3. Vivemos numa época em que as mulheres, independentemente da sexualidade, estudam, se formam, fazem mestrado e doutorado, trabalham fora, moram junto sem casar, usam pílulas anticoncepcionais, DIU, diafragma, posam nuas, trabalham como atrizes, fazem inseminação artificial, namoram homens mais jovens, têm a liberdade de não saberem cozinhar e de decidirem se querem ou não ter filhos.

Achávamos que tínhamos superado a repressão e o preconceito sexista, que conquistáramos o direito de fazer com as nossas vidas e com os nossos corpos o que bem entendêssemos.

E então algo assim acontece para nos mostrar que a luta ainda não acabou e deve ser contínua. O ódio, o preconceito e a crueldade estão à espreita, constantemente e cabe a todos nós não permitir que eles se propaguem.

 

Edição 43

Hombridade

Gilberto Uryn

 

Certas palavras tem peso e sentido apenas para algumas pessoas; para outras, trata-se apenas de ajuntamento de letras. A palavra hombridade é uma delas.

Na verdade, não se trata de uma palavra, mas de um termo: ele define postura, estabelece a diferença entre a conduta certa e errada, cria ética no comportamento. Apesar de supostamente ser um termo masculino, ele é mais abrangente, versa sobre o comportamento humano; ter hombridade é algo vital e é válido para homens e mulheres.

Randolphlee McIver Blue-man - arte sexualidade
Blue-man por Randolphlee McIver

Eu era um escoteiro de 11 anos, acampado, comendo batata-doce cozida na fogueira com os meus companheiros quando ouvi pela primeira vez o poema de Kipling. Ainda tenho a imagem do Sérgio recitando pausadamente de cor, posso ouvir a sua entonação, as labaredas da fogueira refletidas no seu rosto, como se o fogo prestasse tributo à mensagem . Fiquei maravilhado! Não era um poema, mas uma proposta de vida, foi o momento em que ficou definido para mim o modelo de postura que desejava ter. Ao longo da minha vida, vários textos me marcaram e me ajudaram a ser o homem que sou hoje; “Se” é um deles.

Eu tenho muito cuidado com as pessoas e seus sentimentos. Acho que esse é o bem mais valioso de alguém, e que deve ser preservado de todas as formas. Até para poder exigir que preservem os meus. Claro que já magoei, muito e muitas vezes. Mas sempre que me dei conta disso, soube me retratar. Das pessoas que magoei, algumas consegui preservar como amigas íntimas, justamente por elas entenderem, apesar das minhas fraquezas, o valor que dou aos seus sentimentos.

Um relacionamento não tem obrigação de dar certo, ele tem a obrigação apenas de ser vivido intensamente, plenamente. Dar certo é uma conjunção da vontade e da intenção de dois, da sinceridade deles, e podemos apenas responder por nós mesmos. Muitas vezes, só vamos conhecer realmente a pessoa com quem nos relacionamos após o término do relacionamento. Aí o caráter de cada um aparece sem máscara.

Saber como avaliar aquilo que não deu certo, o sonho que não se transformou em realidade, é algo muito difícil, geralmente é muito dolorido. Mas um sonho é algo que desejamos tanto que não pode ser jogado na sarjeta da banalidade, deve ir para aquele armário de guardados da alma, onde reunimos aquelas lembranças doces daquilo que não existe mais.

Ninguém fica mais do que um, dois meses com alguém por ficar; ninguém diz “eu te amo” por dizer. Se fica e se diz, é falso e leviano, sem sentimentos. Não tem conteúdo, por mais que que seu intelecto seja privilegiado: não tem alma.

Imagina ficar quase 1 ano com alguém, escrever juras de amor, fazer propostas de vida em comum, dizer que sim, quer compartilhar e fazer acontecer sonhos, falar em casamento também, claro que sim, mesmo que agora se apresse em negar. E, depois do cair do pano, apenas debochar, fazer chacota, renegar o que afirmava sentir, tentar ridicularizar o outro que um dia chamou de seu. É não dar valor aos próprios sentimentos ou então é apenas não os ter - ser vazia.

Cada relacionamento que tive, cada mulher que passou pela minha vida me acrescentou muito. Pessoas maravilhosas, porque se fossem medíocres, então eu seria medíocre também, já que as desejei tanto! E por saber disso, as preservo. Não saio fazendo chacota, humilhando ou transformando em palhaço quem quis muito para mim um dia. O palhaço então seria eu. Não as exponho, e assim também não me exponho. Amei, vivi, e agradeço por isso.

Já desci a alguns infernos na minha vida, morei no exterior, vivi história, guerra, tenho orgulho da minha trajetória. Sem falsa modéstia, creio ter um razoável embasamento cultural. Mas com toda essa bagagem, mesmo assim percebo que sou capaz de errar ao avaliar o caráter de alguém que pensei merecer todo o meu cuidado, carinho, atenção, a quem eu amei e dediquei aquilo que prá mim é o que realmente importa, o meu sentimento. O meu maior tesouro.

Não tinha obrigação de dar certo. Tinha apenas a obrigação, não só de ser vivido, mas de ser sincero. E agora, vendo o que ainda é dito mesmo após tanto tempo terminado, lendo textos irônicos e testemunhos em que tenta se isentar de ter também desejado aquilo, em que nega ter sonhado, sentido, amado, em que o ex-companheiro é sempre alvo de escárnio e expressões chulas e pejorativas, agradeço por já ter acabado.

Assim como agradeço por ter vivido aquele momento. Por ter proporcionado a mim mesmo sentir o amor e a ternura de forma plena. Saber que não me violentei e que continuo capaz disso é um grande prazer. Agradeço por ter preservado a minha hombridade.

Agora é encontrar quem a mereça.

 

Edição 42

Alma feminina

Luiz Maia
Autor dos livros "Veredas de uma vida", "Sem limites para amar" e "Cânticos".
- Edições Bagaço - Recife/PE.
Contato: l.maia@terra.com.br

 

Com a exaustão do modelo masculino de sociedade, fica cada vez mais evidente a ascensão das mulheres. Homens e mulheres começam a se acostumar ao seu novo papel social, adaptando-se às mudanças no relacionamento com o sexo oposto.

Girl with red lillies Vlad Zimana - arte sexualidade
Girl with red lillies
Vlad Zimana

A nova mulher, que hoje atua e interage de forma inteira e responsável em todos os setores da sociedade, vê no homem não mais um "protetor" ou "dono", mas um aliado com quem sente prazer de partilhar a vida de forma plena.

Os casais modernos assumem posturas antes jamais imaginadas ao estabelecerem padrões de comportamento que valorizam a unidade e a igualdade nas relações, onde a mulher abandona sua condição de mera coadjuvante e passa a compartilhar de todas as atividades na condução da vida do casal, enquanto os homens começam a desenvolver qualidades e virtudes só encontradas no interior da alma feminina.

Tudo faz crer que estamos diante da reabilitação do culto da feminilidade, algo que vai além do estereótipo feminista. Se por um lado a mulher adquiriu maior expressão e liberdade de ação, participando mais ativamente no seio da sociedade, é verdade também que o homem absorveu essas mudanças de bom grado e começa a se libertar da couraça patriarcal que o reduziu, muitas vezes, à simples condição de machão insensível, passando a assimilar mais para si a energia feminina que há anos repousa inerte em seu âmago, impedida que foi de prevalecer por fatores meramente culturais.

Interessante é imaginar o novo homem e a nova mulher construindo uma relação prazerosa baseada no respeito e na cooperação mútua. Dentro dessa ótica, aos poucos o mundo vai de fato mudando. Passamos a ver homens e mulheres lutando para transformar em realidade atitudes comportamentais que só vêm valorizar a espécie humana.

Benditas são as mulheres que refizeram valores e convocaram o homem a exercer outros aspectos ocultos em sua sensibilidade reprimida, como chorar e dizer "te amo" sem constrangimentos, como exemplos. E benditos os homens que souberam entender a grandeza da mulher em sua essência, aceitando-a como co-autora na construção de seus destinos, sendo ambos responsáveis pelo equilíbrio entre os sexos e da condução de um novo alvorecer em suas vidas.

 

Edição 41

O DIA EM QUE ENTREI NO COIFFEUR
Paulo de Resende

Não é fácil tratar de certos assuntos com naturalidade quando se vive numa sociedade que tem fortes influências da mentalidade americana adolescente (aquela coisa de ver malícia e de ficar fazendo piadas de duplo sentido). Por mais idiota ou superficial que possa parecer o tema, decidi tratar da minha ida ao coiffeur para mal-traçar alguns comentários sobre preconceito, vaidade e auto-imagem.

A história é essa: um belo dia, olhei-me no espelho e disse: "esse cabelo tá um fiasco. Tenho que dar um jeito nele". De três em três meses, eu ia ao mesmo barbeiro, fazia o mesmo corte, saía com a mesma cara. Mas decidi fazer diferente. Por isso, fui ao shopping passear, pra ver se encontrava algum lugar "baratinho" pra fazer um corte diferente.

Hairdressing Pablo Picasso óleo sobre tela - arte sexualidade
Hairdressing - Pablo Picasso
Óleo sobre tela

Lá dentro, havia um salão, um "Alguma Coisa Coiffeur", desses que têm dezenas de cabeleireiros produzindo em série os cortes de cabelo que os fregueses vêem numa das 400 revistas espalhadas por bancadas e mais bancadas. Antes de entrar, olhei para os lados. Podia ter algum conhecido por ali, por isso verifiquei tudo ao meu redor. E pulei pra dentro do salão, sem pensar mais no assunto.

Quando entrei lá, comecei a pensar: "diacho, coisa ridícula, estou pensando como o meu falecido bisavô, talvez como alguém mais retrógrado! Ficar pensando em preço, preocupado com quem me vê entrar...". Parei com a besteira. E decidi viver aquilo como um ritual.

Sentei-me em uma cadeira na qual fazem a aplicação de shampoo. Um rapaz simpático fez a lavagem e aplicou um shampoo com um nome francês pouco pronunciável. Comecei a refletir: que sensação agradável, essa de receber cuidados para a aparência... Você não precisar ficar se estressando com o tempo de aplicação, nem ficar lendo letrinhas minúsculas de rótulos de produtos de beleza... Foi quando ele me avisou que já havia acabado. Puxa vida, como as coisas boas duram pouco!

Fui até o cabeleireiro. Ele me cumprimentou, pediu que eu me sentasse. Perguntou: "como você prefere o corte?". Respondi que eu ainda estava refletindo a respeito, provocando nele um leve riso. Aí, expliquei o meu drama: que nunca havia pisado num salão, que não sabia o que fazer. Mas que eu queria deixar o cabelo crescer um pouco. Foi o suficiente para que ele já soubesse o que fazer.

Conversamos durante o corte. Ela tinha a minha idade, trabalhava desde os 15 anos, estava construindo uma carreira profissional. Igualzinho a mim. Mas havia uma diferença: ele era casado e tinha um filho. E eu, trazendo a minha filosofia desclassificada por companhia.

Depois de exatos 12 minutos, o serviço estava feito. Olhei para o espelho enquanto ele recomendava os cuidados para preservar o cabelo e indicava uma cera para "manter o penteado firme". A cera, vale comentar, não prejudicava o cabelo. Pelo contrário, havia nela componentes para evitar o ressecamento, esse inimigo da saúde capilar.

Paguei o serviço e saí de lá com várias pequenas reflexões. Mas não queria pensar em nada. Era hora de tomar um banho de banheira ouvindo uma trilha sonora relaxante.

Mas, o que ficou de reflexão após o banho?

1 - Triste é quem cultiva preconceitos como se fossem flores. Tem um jardim de pensamentos e recalques que o impedem de aproveitar a vida, de fazer coisas novas, como entrar num coiffeur, ou fazer boas amizades, conhecer música nova, entender que gente "diferente" não é gente "ruim". Tomara que eu possa encontrar essas ervas daninhas pra extirpá-las com rapidez da minha cuca.

2 - Dito e feito: foi só eu comentar com alguns amigos que eu havia ido ao salão para cortar o cabelo, pra ouvir uma gracinha: "Paulinho agora tá com umas idéias estranhas... daqui a pouco, vai estar fazendo aula de balé". Olhei para o gordo que falou essa besteira e fiquei imaginando ele sobre uma cama, de espartilho de couro e chicote na mão. Ri sem falar nada e fui embora, pra desconforto dele, que não entendeu o que aconteceu... Se é pra ser "um tiquinho preconceituoso", pelo menos é melhor atualizar as influências da imaginação, não é? Balé já é uma coisa "clássica", é melhor ter referências mais recentes.

3 - Penso que a vaidade, desde que não se torne patológica, deveria ser um direito inalienável, desses que se coloca na Declaração Universal dos Direitos do Homem. Porque a gente deve se alimentar, cuidar da saúde, ser respeitado, mas também é maravilhoso se olhar no espelho e gostar do que aparece nele. Se você cultiva o hábito de ler, busca se desenvolver, pensa em um projeto maior de vida, tenta fazer amizades para a vida toda, então pode ser vaidoso "por dentro e por fora". Na minha humilde opinião, essa é a melhor coisa que pode acontecer a alguém.

4 - Metrossexual é o senhor seu avô! Não me ponha rótulos, que não sou produto de supermercado!!!

 

Edição 40

Delírios Coloridos
por Tate Fish

Maria Lima delirium - arte sexualidade
Delirium - Maria Lima
Óleo sobre tela (2005)


Cansei daquele azul cor de um céu imaginário decorado com um laranja que mais parecia o minuto de um lampejo... No espelho em p&b misturam-se cores que se aproximam da realidade atual. Vermelhos intensos escorrem do pensamento, misturam-se às gotas transparentes e freqüentes do olhar e formam poças de morango sem açúcar, de goiaba sem perfume. Um pouco de paz invade os vermelhos para torná-los róseos, brandos, suaves.

Palavras doces e salgadas andam escassas, cinzas, verde jiló, verde limão, roxo de caixão. Talvez amadurecer a goiaba e então, perfumada, deixar-se goiabada. Talvez um inverno frio trazendo chocolates. Chocolate! É tempo de chocolate...

Crescer é resignar-se ao que é irresistível

Por Zander Catta Preta

Maria Lima ostalgia - arte sexualidade
Ostealgia IV - Maria Lima
Bico de pena
(2005)

O tempo não se dobra à nossa vontade, mas à percepção. “Manter-se jovem” no jargão, é tudo menos ser jovem. O jovem é impreciso, imprudente, indelicado. De bom, apenas a energia o ímpeto.

Aos doze sonhava com os vinte; aos vinte com os trinta; aos trinta com salário em dia, sexo regular, prazeres miúdos e ver a pequenina crescer dia-a-dia com um sorriso de ofuscar o sol. Eu uso óculos escuros quando a vejo.

O único senão de envelhecer é saber que aqueles que nos sucedem irão cometer os nossos mesmos erros novos, se arrependerão novamente das novas decisões tomadas anteriormente pelos que nos precederam e que esquecemos de passar à frente. Não sei se estou sendo claro ou se apenas me perco nas palavras da minha meia-vida. Só sei que tudo foi escrito e vivido e nós, a cada ano que se completa, nos revelamos essa verdade.

 

Edição 39

O pior conselho do mundo
por Cynthia F.




Me ligou extasiada... tão radiante de felicidade que cheguei a sentir a orelha queimar contra o aparelho, devido ao calor daquela alegria.

"Cy! Vou me casar!"

Depois de me informar detalhes sobre a cerimônia e todas as pequenas formalidades que estariam envolvidas no enlace, ela me pergunta (a ternura em sua voz perfurando minha alma com a lembrança de um tempo em que ela me perguntava sobre coisas tão mais simples e mundanas...).

"Você tem algum conselho pra me dar?"

Marc Chagall - Bride with fan - arte sexualidade
Noiva com leque - Marc Chagall
Óleo sobre tela (1911)

Nesse momento me veio uma imagem ancestral na cabeça... de um passado imaginado, de um tempo em que a cerimônia de casamento era menos um show e mais um ritual de passagem. Vejo-me como uma velha recortada de um texto do Lorca, com ervas, rezas e um terço, escondidos no avental de linho branco. Penteando o cabelo da noiva e aproveitando aquele último momento de intimidade para desfiar um rosário de instruções e sabedoria. A receita da felicidade, madura como um tomate na vinha, colhido e presenteado à jovem iniciada.

E daí me vem a cacetada. Meu tomate, entalado. Os bolsos das minhas calças carregam mais dúvidas do que preces. A erva... Bom... Abandonei o hábito faz tempo.

*********

Num outro canto da cidade (soube mais tarde) o futuro esposo confidenciava com um amigo sobre suas dúvidas. Não sabia se a amava.

(Nessas horas eu realmente gostaria de ser onipresente).

"Claro que não a ama, sua anta!"

Pelo menos, não ainda...

Verdade é que... (Acionando escudo anti-pieguice) Ninguém se casa (e, como "casamento", entenda-se juntação de trouxas ou qualquer arranjo emotivo-sexual que faz com que duas pessoas resolvam partilhar de um mesmo teto e de uma vida comum) por amor.

Existe toda uma gama de motivos que levam pessoas a se elegerem mutuamente para compartilhar de uma vida juntos. Tesão, solidão, paixão, determinismo biológico para garantir a preservação da espécie... Mas de uma coisa eu estou certa...

Nenhum deles é amor.

Por outro lado o amor pode vir a ser (mas não obrigatoriamente) o que faz com que as pessoas continuem juntas, por anos e anos, nesses relacionamentos.

Explico.

Muita gente tem a tendência de pensar em amor como uma coisa que se contrai. Como um vírus. (Doutor, com sintomas como esses... Você acha que devo tomar um antibiótico ou pedi-la em casamento?) Ou como algo com que um belo dia, surge espontaneamente no ar. Como uma epifania.

Ou ainda pior (como para os românticos deterministas e roteiristas de filmes estrelados pela Meg Ryan) o amor seria algo "escrito" nas estrelas. Feito um piano pendurado por uma corda no topo de um prédio, ali balouçando ao vento, apenas esperando você passar embaixo para cair na sua cabeça.

Mas amor, mesmo, é o que acontece depois. Quando desaparece toda aquela coisa que serve de tema para filminhos românticos. Quando tudo o que resta é você, a cara-metade e a rotina. Aí é que se tem a chance de, verdadeiramente, conhecer o amor. Infelizmente, é aí que muitos dos românticos pensam que o amor acabou... E se separam. Esses, a menos que aprendam, vão passar pela vida sem ter amado.

Porque amor é basicamente uma escolha. Escolhemos, por um gazilhão de motivos insondáveis, amar a pessoa que está ali do nosso lado. (Ou não). Mais ou menos como na música do Cazuza... Amor é mais ou menos algo que a gente inventa pra se distrair. Ou se completar. Ou se justificar. E só acaba quando a gente pára de amar. Quando a gente escolhe fazer algo diferente com as nossas vidas.

Amor é um verbo, um exercício. Se você ama, ele existe. Senão, desaparece.

Simples assim. Ou pelo menos parece simples...

Mas engana-se redondamente quem pensa assim. Amor é coisa complicada. Que nem a gente. Eu mesma, depois de dez anos, ainda me pergunto até que ponto estou me decidindo a amar e até que ponto estou simplesmente evitando uma síndrome de abstinência amorosa.

(Ah... esqueci de mencionar que amor vicia).

*********

A verdade, minha linda, é que não tem nada que eu possa te dizer, que eu saiba de antemão, que você não vá, logo, logo, ter a chance de descobrir por si mesma.

O que eu sei sobre casamento?

Tem dias em que a gente se ama tanto que parece que não existe vida inteligente fora do apartamento. E tem dias em que a gente se tolera.

Tem dia em que a gente agradece aos céus ter decidido viver juntos. E tem dias em que a gente se pergunta onde estávamos com a cabeça quando cometemos o casamento.

Dias em que temos tanto o que conversar que varamos a noite em assuntos intermináveis. E dias em que nada existe entre nós senão o silêncio.

Dias de trocas de "gentilezas" e dias de juras de amor eterno. Dias em que mal podemos esperar para nos rever, e dias em que a presença do outro nos irrita profundamente.

Tem dias que você não trocaria a cara metade pela mais sensual das celebridades que você admira, e tem dias que, puta que pariu, ele bem que podia jogar fora aquele shortão e aquela camiseta puída, curta demais, com o logo das tintas Suvinil... E ela bem que podia raspar as pernas com mais freqüência e comprar umas calcinhas que não empelotam na maquina de lavar.

(Ao contrário do que dizem o amor não é nem um pouco cego, mas tende a fazer vista grossa).

Dias em que você morre de orgulho da pessoa que está com você, dias em que essa pessoa é uma anta completa. Tem as flatulências, as halitoses, os vômitos, as diarréias, os pequenos hábitos que te enfurecem. Tem os cabos-de-guerra emocionais, as picuinhas, as birras.

Tem os pequenos segredos ridículos, as confissões desconfortáveis, as descobertas indesejáveis, as constatações decepcionantes.

Tem muita, mas muita coisa, que nunca, nunca, nunca se entende a respeito da pessoa, e tem muito mais coisa ainda que se conhece tão bem a respeito dela, que se chega a prever os desfechos.

Tem a coisa de que nós todos somos criaturas tremendamente imperfeitas, e que nada que criemos, ninguém que escolhemos ou a quem nos dedicamos, vai ser perfeito.

O que eu sei sobre casamento...?

É que vale a pena cultivar a imperfeição que é perfeita para você.

Que tem que ser bom. Que tem que valer a pena.

E como se sabe que algo está valendo a pena?

Pra mim, um relacionamento está valendo a pena quando eu olho sem saudades para a minha vida antes dele.

Quando levanto todas as manhãs e algo me diz para escolher amar o sujeito, ainda mais um dia. E isso me dá prazer.

E a idéia de passar o resto dos meus anos ao lado dele, com todos os pequenos horrores e delícias, realmente me alegra.

Quando eu penso no futuro, na inevitável chegada da decrepitude compartilhada... Até mesmo esse pensamento é doce. Como uma colher de mel te ajuda a engolir um remédio amargo.

Meu conselho?

Quando a hora chegar, escolha amar. Pelo menos por um tempo. E só se for bom. E se ele, obviamente, escolher o mesmo.

Em resumo... Teu príncipe vai ter dias de sapo. A princesa que ele escolheu vai, alguns dias, amanhecer parecendo a moura torta.

Mas no final das contas, mesmo que tudo seja um grande erro... Aqui vai meu conselho.

O pior de todos:

"Viver é ter muito do que se arrepender".

Assim... Arrependam-se antes das coisas que fizeram do que das coisas que, por medo, deixaram de fazer

 

Edição 38

Sua excelência o sexo
Luiz Maia

arte sexualidade
Jill's Wings of Light - coach loafing.

O homem, na eterna busca de ser feliz, vive procurando respostas para as grandes questões da vida. Entre essas as que dizem respeito ao coração, aquelas de caráter emocional que interferem diretamente na sua sexualidade, comprometendo às vezes o seu lado afetivo. É preciso desmistificar o verdadeiro sentido do sexo em nossas vidas. A sociedade acostumou-se a viver sob o manto da hipocrisia quando optou por se esquivar de tratar de forma correta, sem subterfúgios, os assuntos relativos à sexualidade humana. Este tema foi por vezes sublimado, por muitos ignorado e em alguns casos até estigmatizado.

Diminuem o sexo quando confundem a sua verdadeira função, a de causar prazer às pessoas, com algo sujo ou proibido. Há muita desinformação entre as pessoas de todas as idades. Isso só fortalece velhos tabus ainda vigentes. Existem casos de homens e mulheres que levaram uma vida inteira sem obter os prazeres do sexo, sendo infelizes em suas existências. Há mulheres que chegaram a ser mães sem conhecer o gozo, fruto do orgasmo, por total desinformação. Em determinada época de suas vidas, gerações inteiras se defrontaram com o proibido, especificado em códigos e normas de condutas éticas pré-estabelecidas pela sociedade, incorporados há muito à cultura Ocidental.

O homem deveria compreender o valor do sexo sem basear a sua vida em falsos ensinamentos que têm o objetivo de inibir a libido das pessoas. Nem deveria se guiar por dogmas religiosos que na prática visam a anular a sexualidade humana, tornando-a escrava da cultura que costuma, equivocadamente, associar o prazer ao pecado. O tabu conferido ao sexo está arraigado à nossa cultura porque pobres e ricos, negros e brancos podem praticá-lo igualmente sem nenhuma distinção. Os seres humanos foram criados com a finalidade primeira de serem felizes, ao exercitarem normalmente a sua sexualidade. Agindo de maneira livre e espontânea, as pessoas conseguirão atingir o êxtase através do orgasmo. Porém muitos condicionam, erradamente, o amor ao sexo - e vice-versa.

Sexo e amor são distintos em essência. Sexo é uma necessidade fisiológica como outra qualquer, embora careça do outro para a sua completa realização. Sexo está ligado indiscutivelmente ao prazer, que por sua vez conduzirá a pessoa à felicidade. Podemos até amar a pessoa com a qual fazemos sexo, mas sexo não implica na necessidade de sentirmos amor por essa pessoa. Amor é o mais nobre dos sentimentos humanos, algo sublime que engrandece as pessoas que se amam e que se querem bem. Enquanto sexo, além de possibilitar a preservação da espécie, tem o poder de nos causar inúmeros prazeres. Aos olhos dos mais conservadores pode parecer absurda esta afirmação, mas um dia ela prevalecerá.

Autor: Luiz Maia
Autor dos livros "Veredas de uma vida", "Sem limites para amar" e "Cânticos".
- Edições Bagaço - Recife/PE.
Fonte: http://geocities.yahoo.com.br/maialuiz/

Edição 37

O Foro Íntimo desta edição, recebe com muita alegria este ser feminino que reflete a beleza de sua alma em suas palavras.

 

SER MULHER MADURA

por Maria Antonieta R. Mattos.

Mariah Antonieta Mattos
Maria Antonieta

Vamos mudar um pouquinho o rumo da prosa, de novo? Eu tenho 52 anos. Claro que aparento bem mais, mas não tenho receio em dizer.. Me sinto muito bem, queridos e... sou uma mulher madura.

Ah... mulher madura. Já escrevi sobre o tema antes. No entanto, devido à plasticidade do tema; que nos fornece a facilidade de construir um dizer em paralelo, que não tenha spot exclusivamente como a denominação o indica, é que podemos considerá-lo como uma fruta madura, cheia de vida e de sabor. Uma fruta desejada por quem aprecia o verdadeiro paladar, por quem aprecia o melhor da vida.

Deixem-me falar mais um pouquinho sobre ela. Ela, a mulher madura, ela que simplesmente viveu a vida, enfrentou os preconceitos que, em outros tempos, determinavam que a mulher apenas exercesse papéis secundários. Seu amadurecimento deu-se graças à alquimia do tempo, que foi moldando suas formas e sua mentalidade. Mudanças forjadas à custa de muita luta, principalmente uma dura luta interior, para poder se livrar de uma série de conceitos e preconceitos que lhes foram enfiados cabeça adentro desde a mais tenra idade.

As jovens de hoje não podem fazer idéia do que foi a luta dessas encantadoras e sedutoras mulheres maduras de hoje. Graças a essas mudanças, o seu espírito revela equilíbrio e harmonia, como em nenhuma outra fase da sua vida. Ela já viveu muita coisa. Já passou por vicissitudes. Já enfrentou muitos problemas e percalços. Quer seu espaço e seu direito à vida. E quer viver a vida em sua plenitude. E tem esse direito. Direito adquirido com louvor.

Nada é promessa, nesta altura da vida, promessas não cabem mais... É o momento de decisões de realizações. É o fazer, ou não fazer. Serve ou não serve. Não pode mais aceitar enrolações.
Seu tempo é de urgência.

O passado, o presente e o futuro nela se fundem para formar um tempo único: o momento presente. Não pode e nem quer se prender a fatos passados, nem tampouco se preocupa muito com o futuro. Quer viver o momento, e por isso procura escolher o que quer para o hoje. Então, é bem seletiva na escolha de suas companhias. Sabe o que quer, e busca. Vai à luta, em todos os pontos-de-vista. Quem insistir em desconhecer essa sua maneira de encarar a vida, ou não for capaz de identificar que a fruta encontra-se no seu ponto certo, perderá a oportunidade e estará excluído de usufruir sua companhia.

A fruta é madura, mas para colhê-la é preciso conhecer o momento devido, sem precipitação. O que necessita ser feito com muito tato, cuidado e carinho.

Não se pode ser afoito, tampouco lento demais. Tem que ser decidido, mas chegar no tempo certo. E isso exige um certo conhecimento da alma feminina.

Saibam que ela , por mais frágil que aparente ser, é muito segura e senhora de si, sabendo o momento certo de agir, e o faz com charme e elegância. Delicada e incisivamente. Não aceita “pisadas na bola”. Do ponto de vista sexual, ela tem a aprender tanto quanto a ensinar, o que estabelece um equilíbrio no relacionamento. E tudo o que faz, ela o faz como opção. Faz o que quer, como e quando quer, sem desvarios ou arrependimentos. Guia-se pela sensatez.

Ela não se envergonha da sua idade. Pelo contrario, orgulha-se dos anos vividos e de ser fruta madura. Mas mesmo que nada diga, lamenta, interiormente, que haja quem se contente em colher uvas verdes. Lamenta principalmente por ver que não sabem lhe dar o devido valor. Mas passa airosamente sobre tais fatos.

Sabe perfeitamente que a melhor maneira de prender o parceiro, é fazendo-o pensar que o deixa livre. Não impõe a companhia, apenas faz-se sentir necessária. Mostra-se criativa. Faz com o parceiro a veja em sua plenitude, ficando a seu lado por desejá-la e não por aturá-la. Afinal é uma mulher total. Quer sentir-se valorizada. Sabe ser companheira. Aquela que compartilha a vida. Que vive ao lado. Não quer passar à frente, mas tampouco admite ficar para trás. Tem bagagem de vida e sabe aproveitá-la. Soube extrair da vida todas as lições, e agora as usufrui. Sabe viver.

Esse é o retrato da mulher madura. Sorte daqueles que sabem reconhecer, e dão o devido valor à sua companhia. Quando amam, são incomparáveis. Quando querem conquistar, fazem-no com arte e decisão.
Ufa... Mulher madura... E eu sou uma delas!!

(texto baseado em Marcial Salaberry)

 

Edição 36

Agressão Verbal

por Lívia Santana

Dizem que as mulheres gostam que, ao andarem pelas ruas, os homens lhes digam sacanagens porque faz com que elas se sintam desejadas, bonitas, poderosas. E vão ainda mais longe ao afirmarem que ficamos até deprimidas quando saímos na rua e ninguém nos diz alguma gracinha. Existe absurdo maior? Queria saber quem foi o maldito ou a maldita que inventou isso.

Helen Dodge - face - arte sexualidade
Face por Helen Dodge

Estava eu andando pela rua ontem, quando me aconteceu mais uma vez algo que é comum acontecer à maioria das mulheres: cruzei com um homem na calçada e o cretino sibilou - aliás alto pra caramba, todo mundo ouviu! - ostensivamente na minha direção: "Hummm, que fi-lé-ziiiii-nho!".

Até me arrepiei de tanto nojo. O cara quase se babou todo dizendo aquilo, acho que se eu estivesse mais perto teria sentido uns perdigotos no rosto, argh! Pude sentir as energias lascivas do desgraçado emanando dele em minha direção como se saíssem da boca junto com a frase desrespeitosa.

Sabe aquele recurso de desenho animado em que o cara, quando vê uma mulher, faz cara de lobo, uiva e arfa? Foi mais ou menos aquilo, mas nada teve de engraçado, até porque ele tava mais prum bicho no cio. Tive a sensação que se não fossem dez e meia da manhã, se não houvesse gente na rua e nem lei nenhuma a esse respeito, o cara teria saltado sobre mim e feito tudo quanto passou pela cabeça dele naquele momento.

E pasme, eu estava de calça jeans e camiseta, o cabelo bagunçado pelo vento, usando uns óculos horrorosos porque estava indo ao oftalmologista e tinha tirado as lentes de contato. Ou seja, aparentemente não importava ao tarado de plantão que eu estivesse uma baranga recém-saída da cama. O tesão dele não dependia muito do objeto, era quase um ente independente que se manifestava quando tinha vontade e quando o ensejo se apresentava!

Desculpem o desabafo, mas ainda estou enojada. Principalmente porque não é a primeira vez nem comigo nem com mulher nenhuma. Nem vai ser a última. E as palavras dessa vez ainda foram leves, tem cara que abusa de verdade. Outro dia, estava fazendo caminhada com uma amiga, ambas de camiseta, calça e tênis, falando sem parar - na verdade falávamos mais que caminhávamos, mas isso é papo pra outra hora. No meio do caminho um rapaz abordou a minha amiga perguntando as horas, o que nos fez diminuir o passo um pouco, mesmo não tendo relógio. O cara aproveitou a vantagem e soltou essa "Quero te chupar todinha".

O choque foi tanto que a gente até perdeu o ritmo, olhou uma pra cara da outra de olho arregalado, não acreditando que tinha ouvido aquilo. Ele riu, saboreando a reação. Só não contava com a reação seguinte da minha amiga, que correu num monte de entulho que estava perto, agarrou umas pedras e começou a atirar no desgraçado que saiu correndo. Rimos do cara e comentamos indignadas ainda uns bons quilômetros a atitude dele.

Mas, não obstante o desfecho cômico da situação, não dá pra ignorar a gravidade da coisa. Imagine a falta de respeito, a baixeza, a truculência de um ser humano que ache que pode molestar alguém dessa maneira? A meu ver é tão ruim quanto o que parte pro ataque físico propriamente dito. Onde é mesmo nos Estados Unidos que fazer isso é crime? Vou me mudar pra lá, eu juro.

Quer matar a minha mãe de desgosto, quase a ponto de atirar pedras no fulano, é passar por nós na rua e dizer "Ô, minha sogra!" ou algo do gênero. Ela realmente ferve de ódio porque nesses casos o desrespeito é duplo e eu fico ainda mais brava porque mãe é mãe e eu odeio que metam a minha no meio.

As ocasiões são muitas. Numa outra vez caminhava na calçada com duas amigas e um rapazinho passou de bicicleta, gritou: "Ê, lá em casa!" e sumiu logo em seguida. Foi tão ridículo, que nós caímos na risada, não teve o condão de nos ofender, acabou virando apenas uma anedota. Mas esses casos são as exceções, porque via de regra a intenção desses homens não é fazer um gracejo e sim agredir, humilhar.

A época dos gracejos passou juntamente com as serestas, as mãos dadas e a inocência. Hoje a violência se instalou de tal forma no comportamento das pessoas que chegamos a encarar isso como algo normal. "Não quer receber cantada grosseira? Não usa minissaia na rua, não passa na frente da construção civil comendo banana".

Nossa, quer me tirar do sério é a tal piadinha da construção civil. Realmente, pra qualquer mulher que se mexa e respire, esteja usando o que for, é impossível passar em frente a uma obra em andamento sem ouvir grosserias ou pelo menos uns assovios e gemidos. Agora vir me dizer que mulher quando tá com a auto-estima baixa passa na frente da construção civil e sai feliz da vida é o cúmulo do absurdo!

As mulheres passam por esse tipo de constrangimento o tempo todo, muitas até já se acostumaram mesmo, não têm o que fazer. Mas eu não me acostumo, porque achar isso normal é achar coisas mais graves também normais. E o pior é que essas coisas mais graves também acontecem aos montes, mas disso falo em outra oportunidade, até porque o assunto é mais pesado e eu preciso achar um jeito leve de falar dele.

Vou terminar com uma recomendação à mulherada: antes de sair de casa, coloque umas pedras na bolsa e faça um escândalo ao usá-las... Mas certifique-se de que tenha mais gente em volta. Vai que o cara corre pro lado errado, né?

 

Com Estas Mãos

por CATÚ?

Desde pequeno, mamãe dizia que eu tinha mãos talentosas. Antes de saber escrever, eu já desenhava. Antes de aprender a interpretar meus papéis no teatro da vida, eu já gesticulava, discursando palavras desconhecidas para uma multidão imaginária.

Shannon O'Brien - Hands - arte sexualidade
Hands por Shannon Obrien

Certamente, alguns dos talentos que minhas mãos possuem não poderiam ser descobertos pela minha mãe. Estavam reservados para outras mulheres, de modo que eu não me tornasse uma espécie de Édipo pós-moderno.

Não que eu queira me gabar, mas quem literalmente já passou pelas minhas mãos (melhor seria dizer: aquelas nas quais já tive a honra de pousar minhas mãos) poderão compreender exatamente as coisas que vou descrever agora.

Um homem precisa aprender a usar adequadamente seus dons manuais no exercício do amor. Sempre tive essa preocupação, daí que trato as minhas relações como uma música dedilhada em lira: a beleza do uso das mãos e a poesia das cordas tangidas reverberam paixões que se traduzem em sentimentos, dos mais puros aos mais impublicáveis.

Não se enganem, não estou me restringindo ao sexo. Muito pelo contrário, sou partidário de que deva haver muito mais entre o homem e a mulher do que o contato físico. Daí que minhas mãos me servem de forma exemplar nesses e em outros momentos.

É com as mãos que versejo declarações de amor que causam suspiros que se alastram pelo ar, hálito de amores que à distância se completam.

Com as mesmas mãos, trabalho para que o fruto da labuta se transforme em presentes, oferta de um sentimento puro a quem, espero, possa merecer.

No contato das palmas e dos dedos com tintas e pincéis, imortalizo cenas de intensos "gostares" que se materializam numa tela que é muito mais entendida pelo coração do que pelos olhos.

E no encontro? O primeiro toque, aquele que põe fim ao inverno da saudade e traz o florescer de uma primavera em nossos olhos, é um rápido passar de pontas de dedos num rosto que é beleza cravejada de dois olhos brilhantes. Não há palavras que se antecipem ao primeiro toque.

Protegidas sob os véus da intimidade, as mãos se transformam em portadoras do prazer. Por meio de massagens, toque, pressões, elas arrancam suspiros, provocam gemidos, instauram a volúpia, lançam no abismo da loucura um casal entrelaçado por dedos, braços, corpos.

E depois do amor, as mesmas mãos relaxam, acompanham languidamente o ritmo das respirações já acalmadas. Acariciam com ternura, deslizam com calma, demonstram a transitória satisfação de uma sede interminável.

Na despedida, são as mãos que, em concha, colhem as lágrimas e as trazem para o coração. E, no aceno da despedida, demonstra-se o desejo de que não haja mais "até logos" entre nós.

E na distância, no auge da saudade, são essas mesmas mãos que cobrem o meu rosto quando, em prantos, peço a Deus que me guie por seus misteriosos caminhos até o colo da minha amada.

Com estas mãos, que são a expressão material dos meus maiores dons, eu consigo expressar o que é o verdadeiro amor.

Edição 35

Vidência e fugas

por Desirée

Ana Maria Aguiar - Beleza encadernada - arte sexualidade
Belleza encadenada - Pastel por Ana Maria Aguiar

O melhor papo da semana foi sobre vidência. Uma amiga está numa fase de total desconsolo. Geralmente quando um namoro termina, temos a nítida sensação de que a vida vai junto. Ontem reapareceu no meu quarto minha bíblia do amor escrita pelo divertido Allain de Botton: Ensaios de Amor. Ele não trata neste livro o amor eterno como alguns esperam que seja um ensaio sobre amor. É a história que começa de forma inusitada, passa por todas as fases de um namoro e quando menos se espera, ela termina. E o mundo rui. E a gente chora. E pensamos que o melhor é morrer. E planejamos nossa morte. E então conhecemos uma nova pessoa.

Sei que não é tão simples assim, mas é quase assim. Há exceções, mas a maioria se encaixa muito no perfil que ele desfia no decorrer do livro. Eu me identifiquei várias vezes e ri das minhas bobagens. Minha amiga está justamente nessa fase. Não pensou em se matar. Ficou triste, chorou muito, não quis ver ninguém, tem preguiça de sair e não pára de falar dele, mesmo que seja mal. E a gente ouve. Nessas horas não há muito que dizer. Apenas ouvir. Eu não sou muito boa nessas horas. Acho tudo dramático demais, por isso que quando terminei meu namoro e sofri como louca, eu preferi guardar para mim. De vez em quando eu choramingava um pouco de saudades no colo de um amigo, mas isso foi raro. Claro que meu ex vive vindo à tona em minhas conversas, pois há muitas coisas que me faz lembrar dele, mas é sempre sem chorumelas.

Recorremos às mais diversas simpatias e alternativas que fazem a gente ter alguma esperança, nem que seja de um novo amor pintando aí na frente. Minha amiga, que está nesta fase, anda buscando tais alternativas. Deram a ela o contato de uma vidente considerada muito boa. O custo era R$ 60,00 e quando ela ligou, a mulher não tinha horário. Diante da voz decepcionada e desesperada da minha amiga, a vidente repensou e a encaixou no mesmo dia. A consulta durou 4 horas e a vidente falou o que ela queria e não queria ouvir. Como o que ela não queria ouvir foi a maior parte da conversa, ela resolveu marcar uma outra vidente devido à chance desta primeira vidente ter errado nas previsões feitas em quatro horas de consulta. A segunda custa R$ 35,00, falaram para ela que a mulher é genial, mas a consulta tem a duração exata de uma hora. Ela vai lá ou já foi não sei.

O divertido foi que na primeira vez que ela contou tal odisséia, era para ser um segredo. O problema é que vidência é algo que atrai a maioria, por mais descrentes que somos. O assunto se espalhou, todas quiseram saber detalhes e o telefone para marcar uma consulta. É como a astrologia. Não acreditamos, mas sempre lemos em busca de algo que nos conforte ou anime. Eu também me animei em ir, mas sei que vou enrolar e não vou, pois vou lembrar que com essa grana eu compro algo nas liquidações de verão que estão começando. Quando estou mal, a grande saída são as liquidações, que me deixam tão feliz.

 

Edição 34

MULHERES X TELEFONE

por Lívia Santana.

arte sexualidade
Blue por Hans Feyerabend

Pegando o gancho da semana passada, quando concluí que as mulheres são escravizadas pela balança e pelo calendário, me peguei pensando numa outra espécie de escravidão tão perversa e tão insana quanto as outras. Já reparou no papel desempenhado em nossas vidas por um objeto aparentemente simples, inofensivo, mas que se revela um grande tirano por muito mais vezes do que gostaríamos: o telefone?

Não, não estou falando do segundo mito mais difundido sobre as mulheres, o de que elas vivem penduradas no telefone falando pelos cotovelos. Aliás, existem algumas idéias tão ridículas por aí repetidas como se verdade fossem que chego a me espantar, porque denotam cegueira, surdez ou burrice. Afinal de contas, a realidade está ali bem diante do nariz, vejam os que têm olhos de ver, ouçam os que têm ouvidos de ouvir.

A tirania exercida pelo telefone a que me refiro é bem menos lógica do que as outras, mas perfeitamente compreensível. Acompanhe meu raciocínio...

O pesadelo começa quando ouvimos a famigerada frase: "Eu te ligo!", exatamente assim, sem especificação de data ou hora, o que deixa em aberto um leque de possibilidades que é demais pra qualquer cérebro feminino normal processar. Geralmente a bendita (maldita?) frase vem depois de um papo gostoso, um chopinho, um café, um cinema, um jantar, uma festa ou coisa parecida com um interlocutor dotado de qualidades suficientes pra acelerar o seu coração. Foram momentos agradáveis, você nem viu o tempo passar, nem queria ir pra casa, mas é o jeito.

Até então você é um ser razoável, inteligente, divertido, calmo e confiante. Desce do carro dele - ou entra no seu, depende de cada caso - e dá aquele sorriso cintilante e sedutor, diz que se divertiu muito e ele responde que também se divertiu e que "te liga".

Você vai pra cama sorrindo e soltando suspiros ocasionais. Olha-se longamente no espelho, sentindo-se leve que nem pluma, antes de se deitar. Acorda no dia seguinte se espreguiçando lânguida, enquanto sorri e rememora trechos do encontro do dia anterior. Certo, então ele vai ligar. Dá uma olhadela de canto de olho para o celular só pra conferir - nunca se sabe, né? - e vai cuidar da vida.

O dia passa em estéril silêncio do aparelho em questão ou então com todo o tipo de ligação possível, até engano, menos a que lhe interessa. Nesse ponto as mulheres dividem-se em dois tipos: as normais e as psicóticas. As normais ficam frustradas e resmungam um pouco ao fim do dia, mas mantêm a calma, afinal ele liga amanhã. As psicóticas, por outro lado, logo imaginam que fizeram algo errado e entram em pânico: "fiquei com salsinha presa no dente"? "fiquei com mau hálito"? "falei alguma besteira"? "anotei o celular errado"? "ele me achou uma desenxabida"? e assim por diante.

Nesses casos, o cara se livrou duma fria e talvez nem saiba. Homens deveriam aprender a detectar esse tipo de mulher maluca, pois mesmo achando que todo mundo merece receber amor, se relacionar com gente doida requer um nível de paciência acima do normal e não é todo mundo que encara numa boa.

Deixemos as psicóticas então, e voltemos às normais. Essas, apesar de um pouco frustradas com o silêncio do cara, seguram a onda e chegam do trabalho no fim da tarde, tiram os sapatos, soltam os cabelos, vestem alguma coisa confortável e vão checar a secretária eletrônica. Tudo é possível, né? Vai que o cara preferiu ligar pra sua casa em vez do seu celular? Mas a secretária nada tem de interessante e mais uma vez elas se resignam: "amanhã ele liga".

No dia seguinte, acordam, escovam os dentes e novamente podem ser subdivididas: as pessimistas e as otimistas. Ou inseguras e seguras, use a nomenclatura que quiser. O fato é que as pessimistas pensam "ah, ele não vai ligar mesmo, esquece" e se entopem de comida pra compensar mais uma rejeição. Notem que as pessimistas são separadas das psicóticas por uma linha muito tênue, por vezes sequer identificável.

As seguras ou otimistas pensam: "é hoje!". Começam o dia com o humor impecável e tratam logo de se preparar para um possível novo encontro. Talvez façam as unhas, os cabelos, dêem aquela atualizada na depilação - uma mulher prevenida vale por duas! Passam o dia no maior pique, dando pulos quando soa a campainha do telefone, mas em vão, não é o cara do outro lado.

No fim da tarde estão positivamente mal humoradas e começam a pensar que o encontro não deve ter sido assim tão bom pra ele. Repassam tudo o que foi dito procurando alguma gafe, e nada. O papo foi muito agradável de fato. Rememoram todas as expressões do rosto dele, talvez ele tenha ficado entediado em algum momento. Nada, foi realmente tudo bem.

Nesse ponto elas novamente se subdividem entre normais e heroínas. As normais checam se o telefone está funcionando direito - geralmente está - e começam a imaginar todos os motivos possíveis pra ele não ter ligado: doença, atropelamento, amnésia, seqüestro, coma, morte, entre outras coisas razoáveis do gênero. Arrumam um pote de sorvete ou algo similar, sentam-se no sofá e assistem à televisão, vigiando disfarçadamente o telefone, como se o fato de saírem dali interferisse na probabilidade dele tocar.

As heroínas, essas respiram fundo, sorriem que nem artista de cinema e acreditam que ele ainda vai ligar. Afinal, o que são dois dias?

Observação: você conhece alguma assim? Então controle a gana de matá-la, pode ser muito prejudicial pra você, acredite. Pense que ela tem problemas cognitivos, ora bolas, por acaso é razoável esse comportamento? Claro que não! Isso deixe a raiva passar, fique com pena dela - tão iludida, coitada!

O fato é que as mulheres normais e reais se descabelam por causa do tal telefone e uma semana depois, quando o desgraçado finalmente liga, dividem-se de novo em duas categorias: as burras e as espertas. As burras soltam os cachorros no cara, exigem uma explicação para o fato de ele ter demorado uma semana - uma semana! - pra ligar, chamam de cafajeste e batem o telefone na cara dele.

Já as espertas... São absolutamente encantadoras, garantem que não tem o menor problema ele ter demorado a ligar, que não teve mesmo tempo pra nada durante essa semana - uma correria! - mas que soube de uma peça de teatro ótima em cartaz, de uma festa imperdível, de um show de música delicioso, e que tava pensando em ir... Ele estaria a fim? É claro, nos vemos mais tarde então.

Ah, as espertas... Essa é que se divertem de verdade!

 

Edição 33

Ditadura

por Lívia Santana.

Emiliano Di Cavalcanti - mulata com pássaro - arte sexualidade
Mulata com passaro por Emiliano Di Cavalcanti

Existe um mito não é de hoje de que mulher quando está deprimida vai às compras, estoura o limite do cartão de crédito e volta pra casa de alma lavada, até assoviando. (Ah, Deus, cada coisa que se tem que escutar!).

Devo admitir que a sensação de comprar um par de sandálias de salto alto acompanhadas de um belo vestido novo é muito boa, mas pára por aí. Comprar - nem mesmo pra quem é viciada nisso - não alivia nem resolve coisa nenhuma, ao contrário. Às vezes serve mesmo para acentuar ou deflagrar algum sentimento muito ruim, quem já sentiu na pele é que sabe.

Ontem, por exemplo, passei - de novo - por uma situação que nada tem de novidade e que a maioria das mulheres contemporâneas normais também passa sempre. Saí de casa com a minha mãe, ambas dispostas a comprar umas roupas e, no entanto, voltamos dali a algumas horas, deprimidas e de mãos vazias.

Não me refiro a falta de grana ou cartão de crédito recusado. Embora o dinheiro seja curto, não é o maior problema - brasileiro está mesmo acostumado a esticar o salário e dar um jeitinho.

O golpe maior acaba sendo na auto-estima, porque depois de experimentar a loja inteira, acabamos tendo que reconhecer que nada caiu bem e que é melhor tentar emagrecer um pouco antes de comprar qualquer coisa, mesmo que seja roupa íntima.

Levando em conta que o peso em questão é médio, entre sessenta e oitenta quilos, nem dá pra entender direito o que aconteceu, não é? Explico: as roupas à venda não são projetadas para mulheres normais e sim para adolescentes anoréxicas, modelos e atrizes globais, cujas medidas são irreais e resultado de verdadeiro jugo de magreza.

Ninguém que não viva em função do corpo pode se enquadrar nos padrões definidos pela moda atualmente. Para vestir o que é vendido em lojas comuns ou não se come ou não se sai da academia - que vida é essa?

E nem se trata de não reconhecer que o número da calça é 44 e não 40 - muitas lojas nem mesmo têm a numeração um pouco maior! Outro dia passei pelo constrangimento de tentar comprar uma saia numa famosa loja de departamentos e descobri que não existia uma que coubesse no meu quadril.

Agora me diga: no biótipo da mulher brasileira, predominantemente fruto de miscigenação de diversas etnias - principalmente a negra - é mais comum o quadril medindo 60 centímetros de circunferência ou 102 (que é o meu caso)?

Como se não fosse suficiente a exigência de um peso irreal, ainda existe a determinação de juventude eterna. O modelo de beleza veiculado pelos meios de comunicação denota que não existe espaço para a passagem do tempo, para rugas, para flacidez, nem para dignidade nos dias de hoje. De acordo com este modelo, a mulher deve ser magra e jovem, não importa a idade.

Eu, que tenho apenas vinte e dois anos, fico consternada com as opções disponíveis como sendo roupa normal, de andar na rua e não na passarela. Decotes profundos, tecidos transparentes, micro-saias, calças que mal cabem a bunda, brilhos, penduricalhos, rasgos e estampas com desenhos e palavras idiotas escritas em inglês. E tudo isso nos é apresentado como se fosse bonito, desejável e razoável. Absurdo.

Não é de admirar que estejamos presenciando o fenômeno das mães-adolescentes. Mulheres com quarenta, cinqüenta anos se vêem entre a cruz e a caldeirinha: só há extremos. Ou vestem as opções teen coloridas ou passam por beatas e velhas, o que é inconcebível. As mulheres têm sido levadas a acreditar que não podem se permitir envelhecer, devendo se vestir e agir como se tivessem eternamente vinte anos, o que lhes rouba a graça e a dignidade.

Não param por aí os constrangimentos a que as mulheres são submetidas a todo o momento. A mídia nos bombardeia incessantemente com idéias de inconformidade: não se pode estar satisfeita nem com o próprio peso, nem com o tamanho dos seios, nem com as linhas de expressão do rosto, nem com nada. Acho que nunca consegui mudar o canal da televisão sem passar por um em que não estivesse sendo vendido um aparelho milagroso de abdominal, um creme para celulite, uma cinta compressora para a barriga, um creme para rugas ou uma pílula qualquer que ajude no emagrecimento.

A sociedade está doente, algo está muito errado. Sinal claro disso é a proliferação das cirurgias plásticas no nariz, implante de silicone nos seios, lifting facial, peeling sei-lá-do-quê, lipoaspiração, modalidades de academias de ginástica, remédios para emagrecer e rejuvenescer, Herba Life, dieta In the Zone, dieta Ortomolecular, Renew, Chronos, iogurte Corpus, tintura de cabelo L'Oreal e tudo o mais que você já ouviu falar que sirva pra acompanhar o padrão de beleza atual.

Esta realidade não é saudável, é impossível ser feliz correndo atrás de um modelo de perfeição física irreal e perversa como o que temos. As mulheres brasileiras figuram nas estatísticas como sendo aquelas que menos estão satisfeitas com a própria aparência, mas este é um fenômeno mundial que não observa limites territoriais. Até em países como o Japão e a China, menos sujeitos à influência nefasta das idéias de beleza ocidentais, as mulheres sofrem e se torturam por causa da própria aparência.

Vivemos sob uma ditadura e muitas sequer se dão conta disso. Ah, como essa realidade me entristece! Qualquer dia desses fujo pro alto de alguma montanha e vou vestir um saco de estopa à luz da fogueira, me alimentando frugalmente. Quem sabe assim eu me livro desse inferno. Ou pelo menos, emagreço.

 

Edição 32

Um quase cinema com um "Macho Bronco"

por Lívia Santana.

 

Raisa Korotchenko - MACHO MACHO - arte sexualidade
MACHO - MACHO por Raisa Korotchenko (aquarela)

Segunda feira à tarde, toca o telefone:

- Lívia? Tá à toa? - abordagem típica do Sam.

- Claro que não. Desde quando eu sou à toa? - ainda não tinha engolido o episódio da entrevista da semana passada. Além de me fazer pagar uma cerveja pra ele ainda reclamou da marca, o miserável.

- Ih, mas você é chata, hein? - o tom de voz é inequívoco: ele está me gozando.

- Fala, truta, que cê quer? - ele costuma reagir melhor quando eu falo a língua dele.

- Quero te chamar pra ir ao cinema comigo. - ainda o tom risonho.

- Eu? Por quê? Pra quê? - me pegou de surpresa.

- Ué, num posso chamar minha amiga pra ir ao cinema comigo? - voz inocente. Ali tinha.

- Poder pode, mas não costuma. - agora eu resolvo aborrecê-lo.

- Hoje é segunda feira, mulher acompanhada não paga. Vamos lá. - ele insiste.

- Se é mulher que não paga, você paga do mesmo jeito. Pra que precisa de mim? - seguro o riso.

- Quer largar de ser mal educada? Tô te convidando, pô! - ele se impacienta.

- Eu aceito se me contar o porquê. - como geralmente é ele quem me irrita, estou adorando a inversão dos papéis.

- Por que o quê? - ele se faz de desentendido.

- Sam, você não precisa de mim pra ir ao cinema. Por que essa insistência?

- Ta bom, sua chata! Eu não gosto de ir ao cinema sozinho, tá feliz? - ele tenta me enganar e eu caio na risada.

- Mentiroso. Você só quer que eu vá ao cinema com você porque a Juliana ta viajando!

- Ta bom, eu confesso. Vamos? - ele se dá por vencido.

- E as cinco dúzias de mulheres disponíveis que você conhece? - só uma última alfinetada.

- Você ta careca de saber que se eu sair com alguma delas a Ju me capa! - ele perde a paciência, eu acho que está de bom tamanho.

- Vamos sim. Quer assistir o quê? - praticidade.

- Sei lá, o que tá passando? - mais uma vez típico dele.

- Vou entrar no site aqui pra ver, peraí. - pausa - Humm... Vamos ver... "Syriana"...

- Quêisso? - ele quer saber.

- Um filme que mistura terrorismo, política e disputa pelo petróleo no Oriente Médio... - ele me interrompe:

- Cê ta me achando com cara de que, Lívia? - debochado.

- Ué, qual o problema? - finjo que não sei a resposta.