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Edição 25

Taça de saudade


Precious Moments by Pino

Estou aqui
morrendo de vontade
de olhar os teus olhos
que não vejo
desejando teus lábios
que não beijo
e apenas bebo
minha taça de saudade

Ariadna Garibaldi

Quase vertigem...


Couple in love por Marina Pajic

Na cama sonolenta,
vira para o lado, nua.
Olha para o teto vazio...
Quase chora...

Arisca, sussurra que me ama,
impulso de desejo descontrolado.
Isenta de astúcia, sorri aliviada
e dorme mansa...

Deitada, quieta, você sonha doce.
Descansa do amor, respira lento...
Acolhe meu carinho com talento.

Eu, assisto meu sopro nos pelos do teu pescoço,
correntes de ar vagabundas,
que retornam perfumadas de alegria...

Paulo Camelo

Dica de Leitura -   Urbanóides por Zander Catta Preta

"Qualé Léh!" "Fala Zander! O negócio é o seguinte: o géh tem sempre uma seção chamada 'Dica de Leitura'. Queria colocar a imagem do Urbanóides com link e um textinho promocional no Amores Urbanos. Pode?" "Porra cara! Você vai querer queimar o filme do sítio assim? Vai logo botar o Urbanóides?" "Deixa de ser fresco, Zander. Na verdade só tenho você de pelassaco conhecido que escreveu crônicas semi-eróticas-pseudo-românticas." "Ainda bem que não mandei minhas poesias, né?" "Porra bicho! Quer colocar o livro lá ou não?" "Beleza. De repente eu como alguém com essa merda que eu escrevi." "É esse o pensamento, cara!" "Bom... o que eu tenho de escrever na apresentação?" "Basicamente quem é Zander, qual a sua trajetória, o que propõe nos contos, como foi feito o livro." "Ah cara... falar de mim? Que coisa mais cacete." "É de praxe." "Põe que o Zander só escreve para passar por intelectual e acha que vai comer alguém assim!" "Bwahahahah!" "Sério cara. Ri não" " Bwahahahahahahahahahahah!" "Tá bom... põe o seguinte: Zander não é escritor, nem designer, nem fotógrafo, nem ilustrador. Ele é uma farsa. Faz festas de debutantes e anima Bah Mitzvah. Aceita escambo em sexo barato ou álcool de qualidade. Ou o contrário." "Tá. Bem melhor. Agora fala do processo criativo." "Pô cara. Não é melhor o pessoal baixar o livro, que é de graça, imprimir e ler?" "Anda, porra! Garçom, mais dois aqui!" "Eu quero um pastel de camarão. Não! Dois!" "Ok. Manda." "Poxa. Não sou eu quem escreve. Sou só cavalo aqui. A história vem, chega, me dói no fígado e vai pro papel." "Fala sério, cara." "Sério. Mesmo." "Ok. Acho que o Neil Gaiman falou algo parecido, mas serve." "Beleza." "E, cara, eu falo das coisas que eu não consigo fazer. Ou que as pessoas não conseguem. Melhor. São os desencontros, sabe? Daquelas histórias que as pessoas têm vergonha de contar. Dos fracassos, das paradas que dão errado. Ou não. Daqueles não-assuntos. De acordar de manhã cedo e achar que é maior que a vida e descobrir que tá só na onda de reboque do pó de ontem." "Acho que entendo." "Então. É isso. Você escreve a parada?" "Eu não, porra. O livro é teu e é você quem vai comer gente." "Tomara!"

 

Edição 24

Intensa Madrugada........


Reclining Woman por Shota Voskanyan

Corpos se devoram na madrugada,
Somos matéria quase intangível...
A poesia apenas resvala-se em nós
Com sua brisa etérea.

Os sulcos sudorosos de meu corpo
Ungidos pelo âmbar ardente
Convergem num deslizar
Aurifulgente de sua gota de gozo
No cálice de meu ventre.

O magma que escorre
Em meu úbere inverso
Queima a carne,
Pulsa aos olhos,
Funde os corpos
Em nosso próprio universo.

Tento acordar para colher
O desejo que transborda,
Mas o fluxo do coito
Sustenta um equilíbrio
De fonte lauta:
Fogo que nos devora.

Um bramido de fêmea
Separa minhas coxas
Feito páginas intemeratas
De uma obra imortal.
– Noite de ébano
Guardada pelo meu sexo –

Cada verso novo
Que me atravessa;
Cada pétala sua
Que se revela e se entrega
Explode em seu cerne
Para se recompor mais forte
Naquilo que nunca será morte,
Posto que renasce infinitamente.

Não secularizamos leis
Pois, enquanto amantes,
Depuramo-nos – somos Deuses –
E o amor nos torna imunes
Às leis humanas.

Roberta Sangiuliano Pedroso

Amor


Appassionata por Shota Voskanyan

Amo nosso jeito de olhar
enroscar as pernas no seu corpo
desenhar linhas imaginárias no seu rosto

Amo te provocar
com os dedos atiçar este fogo
com a língua sentir o teu gosto

Amo a essência de te amar
provar do teu beijo
insano desejo

Esse de amar

Géssica Hellmann

Dica de Leitura O Gosto do Pecado - Ângela Mendes de Almeida

Recompondo o quadro lógico dos séculos XVI e XVII, coloca em discussão assuntos que sempre causaram polêmica. Como eram pensadas e vividas, no passado, as questões como aborto, estupro, adultério, incesto, sodomia. Angela Mendes de Almeida traz à tona a sexualidade do Brasil colonial, tomando como referência a família patriarcal – rural, escravista e poligâmica – vista em "Casa - Grande e Senzala", de Gilberto Freyre. Essa aventura histórica leva a autora a fazer uma rota inversa, descobrindo, em Portugal, uma “nova terra” na qual encontra os fundamentos da mentalidade brasileira nos séculos XVI e XVII.

 

Edição 23

Delírios Noturnos

The Love 3 por Andrey Yanev

No quarto
Permanece ainda
O aroma da última noite
Dos corpos envolvidos
Cativos
As velas aromáticas
Continuam estáticas
Como se anunciassem
Sua chegada
Cada vez que são acesas,
Como surpresa
O incenso mistura-se ao
Calor do meu desejo,
A presença inexplicável
Dos nossos sons,
Sussurros na madrugada,
Ecoa a sinfonia
De um amor que
Me envolvia,
As músicas
Completam o cenário
O protagonista
Não mais existe
Só a saudade
Insiste
As velas testemunham
Minhas queixas
E a lembrança,
Tento acertá-la
Com uma lança
Prende-la num canto
Qualquer
Enquanto meu corpo
Descansa.

Maria Júlia Pontes

Contraditório amor


Tela de Kathrin Longhurst

Ah! Sentimento
incoerente
me arrebata...
Ora traz vida
e ora me mata
Vã contradição
que me maltrata
assim eu amo
desesperada
e calmamente
tão responsável
e inconseqüente
despudorada
e castamente

Ah! Sentimento
incoerente
que me domina
de forma tão vil
e puramente
de modo suave
e profundamente
que me aquieta
e alucina
Assim eu amo
de modo igual
e diferente
em que se confundem
corpo, alma e mente

Ah! Sentimento
incoerente
me toma aos poucos
e de repente
já nem sei quem sou
sã consciência
me torna alegre
se estás presente
e me faz triste
quando te ausentas


Ariadna Garibaldi

Dica de Leitura

Freud e a Sexualidade: o Desvio Biologizante JEAN LAPLANCHE

Resultado de um curso ministrado na Universidade de Paris, este livro aponta o que o autor chamou de "desvio biologizante" da sexualidade na obra de Freud.

 

Edição 22

Memória Íntima

Abstract Couple por Linda Smith.


tua boca
universo de versos
que desenho sobre
o nada é como um
pássaro no vôo

beleza distante
tatuada em mim

Lau Siqueira

 

Pousa teu corpo sobre o meu


Private por Lou Carbone

pousa teu corpo sobre o meu
ocupa cada espaço
instala-te inteira

sem nenhuma pressa
dedilha meu peito
ouve a canção do meu corpo
dá-me o que me cabe
toma o melhor de mim

Sérgio Ornellas

Dica de Leitura -   Freud e a Perversão por PATRICK VALAS

Este livro faz um rastreamento de tudo o que se produziu sobre perversão a partir de Freud. Através de uma exegese da obra freudiana, o autor visa revelar o percurso de Freud na elaboração dos conceitos fundamentais que vieram confirmar sua teoria da sexualidade. Colocando-se numa perspectiva histórica, Valas apresenta um trabalho que é produto de uma investigação exaustiva das teorias sobre o tema das perversões sexuais a partir do final do século XIX.

 

Edição 21

Corpo do Desejo

Ladanza delos amantes por Jacqueline Klein Texier

Línguas acariciam trilhas
de curvas perigosas,
porém macias, cheirosas...
A saliva sacia a sede
de terras ansiosas
e tão generosas, gulosas...
Mãos cegas procuram abrigo,
tateiam os cantos,
passeiam pelo umbigo,
encontram seus encantos
e lá provocam gemidos...
Pernas se abraçam
e braços se beijam
quando aproximam bocas
urgentes
que almejam
lamber os dentes,
sugar os desejos
emergentes.

Tate Fish

Côncavo e Convexo


Dica de Leitura

Perversão em Cena ELIANE CHERMANN KOGUT

Tema difícil de tratar, a perversão sempre ocupou o centro da cena em nosso imaginário, sendo objeto de mitos, religiões, contos infantis, e atualmente também dos noticiários que tanto aguçam o interesse do ‘cidadão comum’. Essa luta entre os personagens da Ordem e da Transgressão também é um grande assunto do cinema, talvez a mais influente linguagem de nossa era. E é a do cinema, bem como a da psicanálise, que Eliane Kogut se serve para guiar os leitores num percurso quase detetivesco pelo universo da perversão, buscando aproximar-nos da experiência sensorial e subjetiva do perverso.

 

Edição 20

Impera em mim!

Tango Dancers por Vladimir Ezhakov

Envolve-me com laços de ternura
Adentra-me com sede e paixão
Sufoca-me com tato e brandura
Aquece-me qual lava de vulcão

Suplanta meu medo com doçura
Devora-me com fome de prazer
seqüestra-me com afeto e candura
Provoca-me até me convencer

Domina-me com toda a paciência
Adestra-me com mansa autoridade
Decora-me com clara preciência
Encanta-me com gotas de bondade

Serena a minha ansiedade
Sorri da minha insensatez
Acalma a minha impaciência
Ensina-me tua lucidez

Ariadna Garibaldi

Acorda Amor!


Black Mask por André Baturo

O meu amor não tem
Jeito manso
O meu amor
Tem a fome de um
Leão
Tem o fogo de um vulcão
É cavalo que não se doma
É sentimento
Que ninguém
Me toma
Ele chegou
Pra te desconcertar
Pra de revirar
Pra te curar
De amores
Mornos
Chegou a brasa
Pra desarrumar
Sua casa
Ele é rochedo
Não tenha medo
Enfrente a fera
Enquanto ainda
Está a espera
Ele é tão forte
Que posso condená-lo
A morte.

Maria Júlia Pontes

Dica de Leitura

Rosie tem certeza de que seu marido quer matá-la, e foge. Começa a viver uma nova vida com Bill, mas um quadro - um simples quadro - pode despertá-la para a certeza de que o perigo não passou ainda...

 

Edição 19

Poesias

Hidrata-me

Luz de Fogo por Angélica Pedroso

O que será
Que queima em mim?
Algo que arde
Sem fim,
Algo que chama
Pra caminhos
Que não tem saída,
Não sei como volta
Mas sei a ida.
Tem gosto de mar
De fé na vida
Tem cheiro de mato
De fruta colhida,
Tem sabor de sal
De açúcar a medida
Soro perfeito
Que me entorpece,
O dia,
A noite,
A manhã,
A vida.
Você é meu sal
Meu açúcar a medida,
Me devora,
Me Hidrata,
Me namora,
Agora...
Ou nunca
Mais...
És
A saída.

Maria Júlia Pontes

Para além do corpo



Tela por André Baturo

Para muito além do corpo
e doce encanto dos desejos
quero-te de alma e coração
quero-te inteiro
quero-te em inspiração
sempre o primeiro
em meu viver também
o derradeiro
quero-te em afã e em
descanso da magia
meu companheiro
e ao apagar das luzes
cessada a poesia
mesmo em trevas
sejas tu algures
meu amor verdadeiro

Ariadna Garibaldi

 

Edição 18

Tentação

Abraço (1980) por Luís Soares


Vem amor
que eu te espero
inda anelo
te tocar...

Vem amor
hoje eu apelo
amanhã
não sei se quero

Vem amor
que eu te amo
e não me engano
no sentir

Vem amor
eu te aguardo
inda me guardo
só pra ti...

Ariadna Garibaldi

 

Rendição


Desenho por Roberto Stelzer

Tomou-o.
Simplesmente...
Tomou-o.
Deitou-o na cama
Prendeu-o nas pernas
Prendeu-o nos braços
Prendeu-o nos olhos
Prendeu-o na boca.
Sentou-se no corpo
Sentou-se no sexo
Mordeu-lhe as palavras
Fechou-lhe o olhar.
Agarrou-lhe as nádegas
Encerrou-o no corpo
Enterrou-o no corpo
Parou-o
Antes do prazer.
E prolongou o tempo
E atrasou o tempo
E foi ternura o momento
Em que rendida o tomou
Em que rendida se deu.

Ana - autora de encandescente

MICHEL HOUELLEBECQ

Esse livro é fundamental para ajudar a pensar o tipo de vida que levamos atualmente. Coloca em perspectiva, com lucidez implacável, toda a mitologia libertadora dos chamados movimentos alternativos(hippies, revolução sexual) e fenômenos de mídia, mostrando o quanto se tornaram opressivos . Ainda que o humor do livro seja amargo algumas vezes, vale a pena avaliar o quanto de desumanização temos aceito sob o rótulo de "liberdade".

MICHEL HOUELLEBECQ

O livro tornou-se polêmico na França ao misturar turismo sexual e fundamentalismo islâmico. Politicamente incorreto, traz a história de Michel, um cara meio esquisito que recebe uma herança após a morte do pai e decide viajar para a Tailândia. Conhece vários bordéis, apaixona-se por uma executiva de uma companhia de turismo e resolve montar um resort sexual.

Edição 17

ela


Acrílico sobre tela de Ana Cassiano

em todos os lugares
onde é adequado tê-las
suas curvas são perfeitas

o bambear das cadeiras
o jeito meigo de ocultar a face
sob a seda até os ombros

assim me olhando de lado
tímidos olhos esverdeados
esmeraldas dos meus sonhos

a penugem dourada e rala
nos braços cobrindo os seios
duas pêras envergonhadas

os lábios arcos macios
minúsculas mãos miraculosas
toda ela é delicada

esvai-se em bruma branca
quando me apagam lembranças
ciumentos raios da alvorada.

Fred Matos

O meu amor


Tela de Tatiana Lenbork

Sentimento especial
e que torna tão real
a mais louca fantasia

É amor vivificado
alma em flor
em um peito apaixonado

É sonata ao luar
o sorriso
em um rosto iluminado

É farol em noite fria
na neblina
a guiar a nau da vida

É mistério revelado
na poesia
de um poeta enamorado

É a bússola que guia
a mulher
que vela o sono do amado

É a música que ouço
o lirismo
em poema decantado

Ariadna Garibaldi

Silêncio

Sons respirados ao ouvido subiam dos lençóis amarrotados.
Dançavam no ar. Enchiam o espaço. Forravam as paredes. Invadiam todos os recantos.
Saíam dos corpos colados. Desciam sobre os corpos trocados.
Penetravam-nos.
E eram eco e mais sons.

Dueto. Improviso. Colados. Um só corpo.
Linha sinuosa que ondulava. Una.Indivisível.

Som. Movimento. Som.

Sussurros que eram gritos. Gemidos que eram música.
Composta no momento. Tocada no momento. Dançada no momento.
Trocar gestos. Tocar o corpo. Beijar com fúria. Abraço apertado.
Quase luta. Quase aflição. Quase angústia que se quer solta.
Sons urgentes procurando a nota final.

Som. Prazer. Som.

O movimento parou. Tudo parou.
A nota final não foi grito.
Os sons antes suspensos no ar desceram sobre eles. Cobriram-nos. E eram paz.

Ana - autora de encandescente

 

Edição 16

Louvor ao "Strip-tease" Secular


Desenho de J. Carlos (ilustração do livro: A moda do século XX, ed. SENAC)

Eu sou do tempo em que a mulher
Mostrar o tornozelo
Era um apelo!
Depois, já rapazinho, vi as primeiras pernas
De mulher
Sem saia;
Mas foi na praia!

A moda avança
A saia sobe mais
Mostra os joelhos
Infernais!

As fazendas
Com os anos
Se fazem mais leves
E surgem figurinhas
Em roupas transparentes
Pelas ruas:
Quase nuas.
E a mania do esporte
Trouxe o short.
O short amigo
Que trouxe consigo
O maiô de duas peças.
E logo, de audácia em audácia,
A natureza ganhando terreno
Sugeriu o biquíni,
O maiô de pequeno ficando mais pequeno
Não se sabendo mais
Até onde um corpo branco
Pode ficar moreno.

Deus,
A graça é imerecida,
Mas dai-me ainda
Uns aninhos de vida!

Millôr Fernandes

 

Strip-tease

Ela acende a luz e eu apago.
Então abre a janela.
Eu acendo o abajur.
Finge que esconde e eu disfarço.
Ela está atrás da janela e eu estou atrás da cortina.
Dança.
Abre a janela.
Penteia o cabelo, como quem vai sair.
Mas fica, e eu arrumo o guarda-roupa.
Ela troca de blusa e eu de lugar.
Despe-se.
Fecha a janela.
Eu durmo.

Marco Túlio de Souza

 

Edição 15

Ao cair da noite...


Tela por Daeni De Pino

Cai a noite com seu manto violeta
e as estrelas vem vestir o firmamento
penso em ti e me debruço na janela
como se ela te levasse o meu pensar

Sinto o vento a balouçar os meus cabelos
e a tocar a minha pele em frio abraço
se eu pudesse estaria em teus braços
aquecida e protegida em doce laço...

Olho o céu e busco a lua e não a vejo
tento ouvir o som de estrelas a cantar
mas só ouço a tua voz dizer meu nome
como fora doce canção de ninar

Teu amor de tão distante não alcanço
não me canso de sonhar e poetar
e fazendo mil poesias,
vou cumprindo os meus dias
Té que um dia eu te possa alcançar

Ariadna Garibaldi

 

AROMA


Lírio Azul por Elena Rodriguez

Ignorar
O cheiro do lírio
Branco
Num canto do jardim
Escondido
O aroma recendido,
Impossível.
Relembrar
A chuva repentina
Caída
Sob medida
Sob nossos
Corpos
Estendidos
Inertes, exaustos
Êxtase total.
Procurar por alguém
Que te deseje
Mais do que eu
Inútil.
O aroma do lírio branco
Só eu inalei
E guardei
Ficará no meu olfato
Impregnado
Por tempo indefinido
Encontrar alguém
Que o seu desejo
Grite
Como gritou
O meu
Entregue-se,
É o Amor.

Maria Júlia Pontes

 

Edição 14

Amor


Tarsila do Amaral: Antropofagia (1929)

no quarto
escuro o mundo era tua
boca ardendo teu

desejo roendo minhas
pernas

meu mundo subia pelas
paredes esboroava se no
teu

corpo ardia feito sol na
carne

na tarde ensol
larada a noite permaneceu a
cesa no meu
rosto

Adair Carvalhais Júnior

 

Avesso e seu Avesso


Tarsila do Amaral : "Urutu" (1928)

Invado sua alma
Sua vontade aríete em meus portões
Calada.
Sua baioneta perfura minha voz, emudeço
Eu não me calo
E eu grito mudo
Eu te endoideço,
São em tua loucura
Tropeço no
Tombo nu
Meu avesso,
Endireito
Que diz não
Sem resistir
E eu digo sim
Cedo
E você pede
Imploro
Afaste-se de mim
Mas não me abandone
Rola dos meus olhos
Reflexos de minha impotência
Uma lágrima carmim
Tinta do meu sangue
Sinto seu anseio
Pela ordem do seu seio
Por um esteio
Firme
Que está guardado
Fechado, lacrado, chave perdida,
Num lago verde
Imenso, infinito, sem fundo
Dos olhos que te chamam
A me afogar
E reclamam
O Divino Direito à coroa de meu Desejo

Sua retina
Embaciada
Que me ilumina
Com o reflexo de sua luz
Que me fascina
Qual escudo de Perseu, qual lago de Narciso
Os medos te roubaram
Prestidígitos
De mim
A face que refletem

Tento vencê-los
Com olhar-magia e língua-espada
Por você
Pela tua imagem
E por mim
Reflexa em meus olhos

Por minutos penso que sim
Na sala de espelhos
Irei detê-los
Peito aberto, sibilábios
Eles avançam
Temores intemeratos de si mesmos
Punhais me lançam
Sem mirar-te os olhos, ou resvalar teu coração
Eu me defendo
Sibila
Eu não me rendo,
Magia
Eu só te entendo
E me arrependo

E chega a hora
Ao som do sinete
De ir embora
Ao reino de sombra e luz
E sua alma invado
Portão arrebentado
Novamente...
Dança, macabramante, em minha mente

Maria Júlia Pontes eAlexei Gonçalves

 

Edição 13

Onã

Na parede um quadro
uma janela aberta
para a imaginação
uma tela... ela... tesão.

Tinta, tanta cor
trama tantra yoga
joga o jogo chão
e a luz me afoga.

Segue a cantilena
à pele morena
quando a mão afaga
e o falo fala.

Fred Matos



Félicien Rops - La Dame aux bulles (1878)

Sentidos

Faço
versos de amor
fortes,
porém sensíveis
cálidos,
porém inocentes
puros,
porém sensuais

e se, por amar demais,
me excedo em palavras,
prefiro pecar por ação
que pecar pela omissão
dos meus próprios sentidos,
pois não há sentimentos vãos
se por eles eu tiver vivido

Ariadna Garibaldi

 

Edição 12


A espera - Pastel (08/2001)

por Géssica Hellmann

Segredos

Vem amor, que nossa hora é chegada
O silêncio já se faz, é madrugada,
Em meus braços vem fazer tua morada!

Em meus seios, pousa os lábios, te anseio
Em meu leito, de amores me entontece,
Me arrebata, me abraça, me enlouquece!

Mil delícias de carícias quero dar-te
Atender a cada um dos teus apelos
Vem sem medos desvendar os meus segredos!

Ariadna Garibaldi

Fogo

Senti um perfume
Que há muito tempo
Estava ali
A me rondar.

Senti um sussurro
Percorrendo meu corpo
De arrepiar.

Senti o calor
De mãos famintas
A me procurar.

Senti um ardor
Percorrer minhas costas
Fogo transformado
Em lascívia
A me queimar.

Você era o fogo
Que eu estava
A esperar.

Maria Júlia Pontes

 

Edição 11


Vestido Vernelho- Pastel (09/2005)

por Géssica Hellmann


Porque hoje é sábado
Era vermelho o vestido na vitrine,
vestido caro, de grife esnobe,
e na vitrine meu olhar capturado
no brilho dos seus na tricoline.

Não fosse isso, eu teria me lembrado
que já estourei meu limite de crédito
e que sobra mês no fim do ordenado.

Mas não importa. É sábado.
Você vai estar linda na festa
e, se calhar,
hoje não me faz de besta.

Fred Matos
Em: “Anomalias”
2002

Fantasia ao teu prazer

Hoje eu te quero amante
e em teus braços errantes
me embriagar de amores
teus beijos por meus açoites
tal conto das mil e uma noites
Fantasiar teu prazer

Quero te bem dizer
e em murmúrios sem fim
falar loucuras de amor
te enlouquecer de paixão
te extasiar de tesão
Até que digas meu nome

...E saciada a fome
quero em teu peito dormir

Ariadna Garibaldi

Dica de Literatura

Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade
SIGMUND FREUD


É a mais polêmica contribuição de Freud a respeito da sexualidade. Ele estabelece aqui originais estudos sobre os temas das aberrações sexuais, sexualidade infantil e adolescência. Seu principal guia é o conceito de Pulsão Sexual, que começa a ser descrito justamente nesse texto.

 

Edição 10

Pretensão...

Hoje quero um beijo estalado
quero um sorriso sonoro
os seus olhos no meu colo
não se espante, não se choque
mas é disso que preciso

Hoje quero a paz do seu olhar
quero ouvir o seu falar
quero ter sua atenção
e alcançar seu coração
sem que nada eu lhe diga

Hoje quero estar enamorada
quero ser bem conquistada
quero me sentir amada
isso é pouco, quase nada
hoje eu quero só você!

Ariadna Garibaldi

 

O cheiro de sangue ainda quente

quando a tive nos meus braços
cri que eras inocente
cego de paixão, não pude perceber
o cheiro de sangue ainda quente

quem há de crer que um vampiro experiente
não tenha percebido a mancha escura
e o cheiro de sangue ainda quente
escorrendo farto na tua vulva?

neguei os meus instintos, contive a fúria
deixei-te incólume aos meus dentes
poupei-te de uma eterna amargura

hoje, na minha memória perdura
o cheiro de sangue ainda quente
invadindo meu corpo e minha mente.

Fred Matos

 

Edição 9

Poesias

Sempre que falam nela,
Como você pode ver,
Comparam com coisa gostosa
De chupar ou de comer.
Pele cor de canela,
Cor de jambo, sapoti,
Pele de chocolate,
Pele cor de açaí.
Já provei muitas mulheres
Todas são diferentes
Mas não há como negar -
Vou generalizar -
As mulatas são mais quentes.
É a cor da pele? É o cheiro?
É o jeito malemolente?
Só sei que nenhuma mulata
É mulata impunemente.

Jozé de Abreu

Uma Flor para Di Cavalcanti

Esta é uma flor para Di,
uma flor em forma di-
ferente: de flor-mulher,
desabrochada onde quer
que exista amor e verão.
Verão como a cor cinti-
la nas curvas, e sorri
nesse púrpuro arrebol
que Di tirou do seu Rio
coado de mel e sol.
Uma flor-pintura, zi-
nindo o canto de amor
que acompanhou toda a vi-
da do pincel, o gozo-dor
de criar e de sentir, di-
vina e tão sensual ração
que coube, na Terra, a Di.

Carlos Drummond de Andrade
in Andrade, Carlos Drummond de . Discurso de primavera e algumas sombras. In: __ . Poesia e prosa. 8ª ed., pág.813

Personagens da Literatura


A RAINHA DAS MULATAS

Feche os olhos e imagine um amplo pátio calçado de pedras em noite de lua cheia. Imagine um grande número de pessoas reunidas em ambiente de alegria festiva.

Violão e cavaquinho enchem o ar com acordes vibrantes de música crioula, alguns ensaiam tímidos passos de dança.O clima é o dos rituais pagãos de adoração e celebração pela vida. Então imagine uma mulher. Ela salta para o centro da roda do samba, atraindo todos os olhares com o movimento lasso dos quadris. Tem longos cabelos escuros e curvas generosas. Exala vitalidade e graça irresistíveis, dança como um animal furioso. Uma mestiça. Uma mulata cor de canela e pecado, de sorriso largo desconcertante, cheirando a cio com eflúvios de cumaru. Um feitiço feminino, sinuoso feito serpente, prometendo o paraíso. Requebrando frenética, ela hipnotiza os expectadores e os incita a delírios de gozo quase carnal, arrancando aplausos e gritos rubros, como se brotados do sangue. Sob as palmas cadenciadas, ela vai acelerando, acelerando, prestes a explodir. É capaz de atear fogo às veias dos homens e roubar-lhes a alma pelos olhos. Pode revolucionar o viver e o sentir apenas com um meneio do ventre liso e dourado. É capaz de destruir uma família e recompensar com a loucura. Um demônio, um veneno, que penetra por todos os buracos do corpo, que faz lânguido o mais diligente dos homens, que transforma o mais manso em assassino. Imaginou? Essa, meu amigo, é a Rita Baiana.

Rita Baiana é um dos personagens mais notáveis da literatura brasileira. Filha do realismo naturalista, é escrita com uma riqueza de detalhes visuais e sensoriais incríveis. Forte, apaixonada e politicamente incorreta, é absolutamente impossível não adorá-la. Sedutora e consciente de seus encantos, é maliciosa e faminta de vida, um diabo de saias. É sem dúvidas, a alma de O Cortiço, de Aluízio de Azevedo, embora não seja a protagonista. Ela não aparece desde o começo e nem está presente no fim, mas rouba a cena em sua aparição fulminante. Escrita em 1890, é uma mulher a frente de seu tempo. Ama a quem lhe aprouver, da forma que melhor lhe parecer. É deliciosamente livre e despida de amarras e preconceitos, é como a maioria de nós queria ser. É mulata decidida e generosa que enfrenta a vida de peito aberto, disposta a sofrer e gozar com a mesma intensidade. Fiel aos seus gostos e às suas paixões, a elas se entrega por inteiro.

É o símbolo da brasilidade quente que penetra na alma lusitana de Jerônimo, o português enamorado, e varre toda a nostalgia d'além mar que havia nele. Caído pela mulata, ele abandona mulher e filha, abraça a vida boêmia, contrai dívidas, perde a força moral e chega a ponto de matar um homem com um pedaço de pau. "Isso não é mulher, é uma desgraça", você provavelmente pensará. Mas para ele, o amor da Rita é insubstituível e justifica tudo. Nos braços dela, tudo adquire uma cor fulgurante e fantástica, não dando margem a lamentações, arrependimentos e nem dores. Ele a venera, satisfaz todos os caprichos, arde e morre por ela, se preciso for. Passa por todos os dissabores e tormentas, mas não lhe tirem a Rita, que sem ela não pode mais viver. Como vício destrutivo, como doença, ela é a seiva que o alimenta, a força que o impulsiona. Torna-se cativo por gosto e por vontade.

Rita Baiana é a personificação do melhor e do pior da mulher, com toda a magia e a ruína que lhes é peculiar. Mas não uma mulher comum, e sim uma dotada do orgulho e da beleza da raça negra da qual descende, aliada à ferocidade da mulher pobre que defende seu espaço e seu sustento. Ela transborda alegria e sensualidade, é corajosa, digna, guerreira - até as últimas instâncias, até à violência física - e essencialmente hedonista. Mas o mais marcante nessa mulher, assim como em toda a obra de Aluízio Azevedo, é que Rita Baiana é humana. Passa longe de qualquer heroína convencional da literatura brasileira, sempre tão cheia de Helenas (Machado de Assis) e Marílias (aquela de Dirceu), tão brancas, castas, atormentadas, frágeis, suspirantes. Ela não. Ela ri e se comove com o mesmo que todos nós. Tem seus momentos de egoísmo, de fúria, de mesquinharia, para logo em seguida abrir-se toda em generosidade ímpar. É amiga, companheira, carinhosa, brincalhona, devassa, inebriante. Mulher, personagem e símbolo inesquecíveis.

Lívia Santana é escritora-aspirante, leitora voraz, co-editora do géh e mulata, com muito orgulho.

 

Edição 8

Poesias

Antônio Mariano
Publicado em Guardas-chuvas esquecidos. Editora Lamparina. P.26

Voragem

Ver a lua cheia
e tomar vinho,
na varanda de um 8º andar,
junto a uma fêmea
cujo perfume
se confunde
com o que o vento traz do mar,
põe na alma
abalos sísmicos,
tenta a gente pro abismo.



Antônio Mariano
Publicado em Guardas-chuvas esquecidos. Editora Lamparina. P.73.

 

Edição 7

Poesias

Olho
me diz
desejos
me seduz
mil beijos
me resgatou
paixão
me enfeitiçou
tesão...

Teu olhar
lanterna na penumbra
minha vontade rubra
loucura que mais quero
e assim eu espero
em tua vastidão
mergulhar...

Yeso

 

Se
(Waltel Branco e Alice Ruiz)

se por acaso
a gente se cruzasse
ia ser um caso sério
você ia rir até amanhecer,
eu ia ir até acontecer
de dia um improviso,
de noite uma farra
a gente ia viver com garra
eu ia tirar de ouvido
todos os sentidos
ia ser tão divertido
tocar um solo em dueto
ia ser um riso
ia ser um gozo,
ia ser todo dia
a mesma folia
até deixar de ser poesia
e virar tédio
e nem o meu melhor vestido
era remédio
daí, vá ficando por aí,
eu vou ficando por aqui,
evitando, desviando,
sempre pensando,
se por acaso a gente se cruzasse

 

Edição 6

Haikais

Ao te acolher, nua
A minha alma
Beija a tua

Colo macio
Em ti palpita
Ternura infinita

Esse teu olhar
Acende o estopim
Põe fogo em mim

Doce pecado
Beber do teu mel
Me põe alucinado

Daniel Heldt

 

Conto

Amigas

Lívia Santana

Marina é minha melhor amiga, conheço-a a vida inteira. Tenho a sensação de que não tenho lembranças em que ela não esteja. Juntas, crescemos, descobrimos o mundo e formamos quem somos. Meninas, rimos quando rasguei a calça no colégio e mulheres, choramos quando o pai dela morreu. Sabemos tudo uma sobre a outra, guardamos os segredos. Nunca nos afastamos, mesmo quando se tornou namorada do Fábio. É uma mulher linda. Seu riso contagia, sua força arrasta. E quando se sente frágil, vem dormir em casa. Nesses dias ela se deita na cama ao lado da minha, usando pijama de bichinhos e conversamos até tarde, no escuro. Eu a amo muito. Hoje, brigou com o Fábio e estava tão calada que achei que tivesse dormido. Até que senti seu corpo nu, quente e suave, estender-se ao lado do meu. Prendi a respiração e ela me abraçou, nada fraternal. Num segundo infindável pensei em toda a nossa história, antes de me virar pra ela e corresponder ao abraço, abrindo a boca pra receber o beijo lento e molhado.

 

Edição 5

Sou Tua

Pelo avesso do avesso eu me guio
Guardo luto e visto cores no vazio
Se me porto qual vestal
Por castidade
É de amar-te e querer-te de verdade

Eu desprezo a avidez de puro cio
À minh’alma, basta o amor terno e sereno
Mesmo em face de desejos mais sombrios
Dispo os beijos
Colho olhares e me desvio

Eu sou vale interditado
Intransponível
Uma estrada proibida ao estrangeiro
E que possa eu sentir do amor o cheiro
É só teu o que recato

Ariadna Garibaldi

Efígie

decifrar sinais
da madrugada
ler um poema
um lume apenas
da sua boca
o quase silêncio
oculto na bruma
da madrugada
um beijo
sufocado
apenas um
e nada mais

Dicas de Literatura

A Mensageira das Violetas- L&PM Pocket
Florbela Espanca

Florbela Espanca (1894-1930), ignorada pela preconceituosa crítica do início do século, é considerada hoje em dia a mais sublime voz feminina da poesia portuguesa de todos os tempos. Seus sonetos são um ousado diário íntimo, onde palpitam as ânsias de uma mulher ardente, a clamar pelas carícias de um amor impossível.

 

Edição 4Poesia

Mio

Teus beijos molhados
provocam e atiçam
eu mordo, eu grito
arranho e mio
sorvo teu líquido
indecente desejo
incendeia
meu ventre.

By Géh.

Conto

Aproximou-se da cama, onde ela dormia serenamente. Espantou-o que ela parecesse tão frágil, encolhida como criança. Os longos cabelos escuros espalhavam-se, desordenados, sobre o travesseiro alvo, a pele morena macia convidava à carícia mais doce. Enterneceu-se. Sentia-se tentado a acordá-la suavemente quando um movimento, acompanhado de um gemido abafado, revelou o busto nu. O som gutural e a visão dos mamilos escuros dissiparam o transe e lembrou-o de que ela nada tinha de angelical, na verdade. Era, antes, a personificação dos seus demônios. Rememorou a risada e os movimentos devassos e sentiu-se inflamado. Acercando-se da cama, cravou os dentes com força no seio, arrancando-lhe um grito de surpresa, a qual durou pouco. Desperta, ela sorriu daquele jeito faminto e lúbrico, encarando-o, convidativa. Ferozes, lançaram-se ao embate.

Lívia Santana.


Dicas de Literatura

Amêndoa - Nedjma
Ed. Objevitva

No Marrocos da segunda metade do século XX, Badra conta a história de sua vida, decidida a não medir palavras ou sensações e a honrar a milenar tradição árabe de escrita erótica. Testemunho excepcional de uma mulher de origem árabe que ousa transgredir o tabu do sexo e do silêncio, A Amêndoa assinala um verdadeiro acontecimento: pela primeira vez uma mulher muçulmana se exprime com liberdade sobre sua vida íntima. Badra tem 50 anos e corajosamente decidiu revelar sua trajetória. De sua infância, quando corria descalça, curiosa e despreocupada em sua aldeia. De sua adolescência, quando foi casada contra sua vontade, por conveniência, com um homem muito mais velho, que não demonstrou nenhum respeito ou carinho por sua juventude ou virgindade. De sua fuga para Tânger, que lhe abriu um mundo novo onde as mulheres não viviam apenas para seus maridos. E principalmente sua história com Driss, seu mestre e seu carrasco, homem da alta sociedade que se apaixona intensamente pela tímida e ardente provinciana, e que lhe apresenta um amor total, arrebatado, profundamente sensual. Num relato perturbador e libertino, o livro abre uma janela para a intimidade da mulher muçulmana. Com uma mistura de sensualidade e revolta, a autora mostra que por baixo dos véus e das proibições existe um mundo de desejos e sentimentos esperando para ser libertado. Uma obra cheia de volúpia, incandescente, radiosa, mas que é também um ato político: uma reconquista da palavra e do corpo das mulheres árabes. A autora, que tem cerca de 40 anos, vive em um país do norte da África e assina o livro com o pseudônimo Nedjma.

 

Edição 3

Poesias
Tema : B E I J O S

Versos Sentidos

Sentir teus lábios
Na ponta dos dedos
Merece um beijo

By géh

Haikai

Beijos ardentes
alucinam a mente
avidamente.

By géh

Vertigem do corpo 01

Quero um longo beijo na boca,
sem vontade de parar,
com cheiro de saliva.
Sentir o ar quente das narinas.
Dentes traiçoeiros,
beijo de lábios oferecidos,
de língua inquieta e macia
que lambuza a alma,
que molha o corpo.
Beijo que faz o tempo parar,
como o primeiro beijo que se quer muito
e que permanece quando termina.

© Paulo Camelo

Dicas de Literatura

Das Falas de Ivana

Um dos livros mais instigantes que li nos últimos tempos foi escrito por Ivana Arruda Leite, escritora paulista, nascida em Araçatuba, que tem confirmado sua presença na cena literária nacional. Ivana, que é socióloga e atualmente vive em São Paulo, já publicou dois livros de poemas e, em 1997, lançou seu primeiro livro de contos: "Histórias da Mulher do Fim do Século" (Editora Hacker), além de participar em algumas das mais importantes antologias de contistas brasileiros publicadas recentemente. O livro ao qual me refiro como instigante, publicado pela Ateliê Editorial, em 2002, conduziu-me a uma reflexão: tem sexo a escrita? Tem voz o sexo condicionado pela moldura de uma sociedade falocêntrica? Utilizando a palavra como objeto de penetração, Ivana nos chama às falas no seu "Falo de Mulher".
Realizando um trabalho de "desencantar a mente", cada personagem de Ivana revela a falsa fragilidade e submissão do sexo feminino, mostrando-nos que esses conceitos são meras construções do tempo, alinhavadas por credos, civilizações patriarcais e modos de ser que prevaleceram contra o bom senso.
As mulheres de Ivana são impróprias para o consumo, na medida em que não se deixam "coisificar" como objetos estéticos ou domésticos. Fazem-nos lembrar de Adrienne Rich com "When We Dead Awaken" (Quando nós, as mortas, despertamos); da garganta de uma de suas "dolores" nasce o grito do eterno feminino: "por que só eu tenho que andar na linha?"
Ivana Arruda Leite vem para perturbar o cânone das autoras mais ou menos domesticadas, "escrevidas" e se escrevendo à imagem e semelhança da divindade trina: masculino, raça branca, heterossexual. As suas mulheres nos permitem repensar o papel e a fala das personagens femininas que andam se inventando no cotidiano trágico das famílias, das relações mães e filhos, macho e fêmea.
Em "Receita para comer o homem amado" Ivana nos permite uma incursão pela sexualidade feminina e pela oralidade, transportando-nos para um universo sensorial primitivo onde "no princípio tudo era boca". Em que circunstância o lençol da noite de núpcias foi substituído pela toalha de mesa? "Devore tudo com talher de prata". Cama e mesa, juntas, são representativas do casamento; Ivana, com declarada ironia, nos remete ao simbolismo da mesa e da alimentação relacionado à sexualidade feminina: comer ou ser comida, eis a questão!
Na outra face da mesma moeda, temos Adélia, cujas zonas erógenas foram todas transferidas para as papilas gustativas: "não me tire o único prazer que me resta na vida" ela implora para o homem que já não monopoliza o seu desejo, se é que algum dia o fez. Adélia, cujo sentido de carência se transformou num vazio devorador, traduzido em uma fome que não encontra pão nos corpos dos homens.
"Isabel, a princesa" é outra que tem fome: "a princesa nunca teve prazer no sexo" - retrata a vida insípida das mulheres que nunca contraíram dúvidas.
Raquel, Laura Christina, Berenice, Luísa, existe uma cadeia associativa entre todas essas mulheres; cada uma delas, de um certo modo, ultrapassou o ponto do não-retorno, deixando-se enredar nas fantasias de mulheres refinadas, inflamadas, introvertidas, perturbadas, mulheres com necessidades do absoluto, porque, afinal: "Mulher é tudo igual".
Aos leitores dessa coluna, dou o conselho do Djavan, numa de suas belas canções: "um dia frio, um bom lugar pra ler um livro"; o livro de Ivana Arruda Leite, é claro.

Resenha publicada originalmente na coluna de Sandra Regina Sanchez Baldessin no Jornal Cidade.

 

Edição 2

Poesias

A Geisha

Na penumbra ela se prepara:
perfumes raros, cheiro de amor,
pele de seda, roupagem rara,
tudo isso pra seu senhor.

Tece sonhos na longa espera
cuida sua enviesada flor;
canta canções baixinho,
quimono veste devagarinho,
tudo isso pra seu senhor.

Seguirá sua doce sina:
aprendeu desde menina
amar em várias línguas
gestos frases ambíguas,
arrancar gemidos de dor
suspiros de amor,
tudo isso pra seu senhor.

Porque só existe e respira
só sente, só vê, delira
ao ritmo do gozo tremor
do olhar de seu senhor.

Anja Azul, segundo a própria é "gaúcha, de Porto Alegre, blogólatra, poetisa, contadora (e de histórias também), cantora de araque, faz paródias, trabalha e, pra completar, se arrisca de desenhista."

Arquivos Cooper

Tiros no Espelho

Sábado, fim-de-noite, de fato domingo, diriam os chatos, mas um dia só termina quando a gente cai na cama e o seguinte só começa quando a gente acorda, essa é que é a verdade. Muita cerveja, muita tequila, muitos beijos na boca, muitos perfumes e marcas de batom, a chave tateia a fenda da fechadura sem sucesso.
Irritado, consigo abrir um olho, firmo pontaria com a mão titubeante e golpeio com força a ponta da chave e, mais uma vez, erro o alvo. A porta desliza sobre as dobradiças. Destrancada, apenas encostada.
A descarga de adrenalina regurgita uma meia-dose de tequila ácida que me forço a re-engolir.
(A última coisa de que precisa uma pessoa que teve a casa invadida é uma sessão de vomitório).
Protejo-me no portal e meus instintos conduzem minha mão esquerda à axila direita, depois à cintura, onde costumo usar minha 45 e minha 9mm, respectivamente.
"Merda de porre, um erro desses pode te custar a vida, ô imbecil", esbravejo contra mim mesmo agachando-me para pegar o 38 cano curto de cinco cartuchos, merda de armazinha de bicha, engastada no coldre do tornozelo.
No início da noite confesso que pareceu uma boa idéia carregar apenas uma armazinha discreta, para não afugentar as garotas e relaxar pelo menos uma vez em vários meses de paranóia constante.
Agora, agachado à beira do portal, o porre quase me estatelando no chão a cada tentativa de sacar a desgraçada armazinha de bicha, amaldiçõo todas as minhas gerações passadas e futuras por tamanha cretinice. Um homem como eu, que leva uma vida como a minha e exerce a minha profissão, simplesmente não pode relaxar e ponto-final.
Finalmente com a arma em punho, contraio os músculos tanto quanto o álcool que o medo rapidamente evapora me permite e invado a sala do meu apartamento, acendendo bruscamente as luzes e vejo, estupefato, que está completamente limpa e arrumada, nenhum objeto faltando fora do lugar.
Respiro fundo três vezes para controlar o pãnico.
Isso está errado. Completamente ERRADO.
Lembro-me perfeitamente que minha sala estava uma zona quando saí de casa, pois a faxineira só vem às segundas-feiras. Como é óbvio que ela não decidiu fazer hora extra na madrugada de sábado arrombando a minha porta para entrar, já faço uma leve idéia sobre quem vou encontrar na suíte iluminada - e eu não esqueci as luzes acesas - ao extremo do corredor.
Meus passos já estão mais firmes mas a cabeça começa a latejar uma ressaca precoce enquanto caminho para encontrá-la, mais linda do que nunca, ainda molhada do banho recém-tomado, exercendo seu narcisismo diante dos espelhos.
Engatilho o .38 (maldita armazinha de bicha) e miro a sua linda cabeça, tentando desviar o olhar das coxas um pouco mais generosas do que da última vez que nos vimos e do colo perfeito, onde poderia acertar um disparo entre seios, se conseguisse deixar de babar ante a visão do paraíso.
Concentro-me, pois, em seus cabelos molhados, contendo uma ereção que já começa a se engraçar.
Amarro o semblante em silêncio, ela sabe que estou ali e se diverte em fingir que ignora minha presença armada a uma distância impossível de errar (se eu já estivesse completamente sóbrio, é claro).
Ela sabe que está no controle da situação, sempre esteve, mesmo em meu território, mesmo sob a mira da minha arma, mesmo seminua e desarmada.
A filha-da-puta.
- Você chegou cedo, amor - ela diz - só tive tempo de arrumar sua sala. O quarto continua uma bagunça e o banheiro, francamente...
O sotaque. O maldito sotaque.
- A faxineira vem na segunda. Podia ter se poupado desse esforço.
- Pois pode dispensá-la. Não vai mais precisar dela.
Ela sabe o quanto eu ODEIO esse sotaque.
- Eu vivo sozinho. Você e aquele calhorda do Inácio sabem muito bem disso.
- Não por muito tempo.
Ela quase disparo o revólver quando ela puxa um objeto sob a coxa.
Ela ri.
- Ah, meu amor, você agora tem medo até de uma simples escova de cabelos? - continua rindo e inicia o gracioso ritual de desembaraçar os lindos cabelos macios que tantas vezes acariciei em outro tempo, em outra vida... Em outro planeta.
Pisco os olhos rapidamente, estremeço o pescoço, recupero a concentração. Ela não é uma mulher, ela não é deliciosa, ela não está ali para se reconciliar, eu sei muito bem porque ela está aqui e, se minha concentração falhar (merda de tequila, merda de armazinha de bicha, merda de coxas maravilhosas, caralho, concentre-se seu merda!), realmente poderei dispensar a faxineira.
Para sempre.
- Eu não sou mais seu amor e pode dizer ao Inácio para ir à puta que o pariu. Não trabalho mais para ele, essa decisão é definitiva, quem ficar no meu caminho...
- Ah, meu amor, você não mudou nada, como eu já esperava... O mesmo bagunceiro ("baguncerro", maldito sotaque) de sempre, o mesmo falastrão boca-suja de sempre...
Ela desfia os cabelos grudados na escova com os dedinhos graciosos até dar-se por satisfeita.
Metódica, pousa a escova limpa sobre a bancada ao lado do pequeno chumacinho de cabelos que, certamente, jogaria fora em lugar adequado após cumprir sua missão. Essa irritante mania de limpeza e arrumação.
Dentre os seios, novamente ela saca um objeto e eu, novamente, quase disparo a armazinha de bicha.
- Não faça movimentos bruscos, cadela. Não quero seu sangue imundo respingando meu espelho. E pare de falar com sotaque, você sabe que eu odeio esse seu maldito sotaque.
Ela abre a boca num falso estupefato sorriso de modelo que se viu flagrada por um paparazzo no camarim exibindo dois inofensivos palitos com os quais amarra os cabelos num coque improvisado, exibindo a nuca deslumbrante para deleite do meu descuido.
- Você acha mesmo que eu vim aqui por causa do Inácio? - ela ignora minhas ordens, falando com sotaque e esfregando creme hidratante lentamente nas pernas - Você é um insensível. Tudo porque passamos, todos os sacrifícios que fiz por você... Aprender a falar a sua língua enquanto você se recusava a aprender a minha... Obrigar-me a pronunciar tudo com perfeição, abdicando até mesmo do meu sotaque... Suas farras, suas mulheres, sua falta de compromisso com o dinheiro que ganhávamos juntos...
- Dinheiro sujo. O Inácio que o enfie no rabo.
- Era nosso dinheiro, meu amor. O dinheiro que sustentava nossa vida, construiu este apartamento para nós...
- Este apartamento é meu. Eu já morava aqui quando você veio morar aqui.
- Mas fui eu quem o decorou e organizou e fez dele o nosso ninho de amor em vez do chiqueiro em que costumava viver...
- Talvez eu prefira morar numa pocilga e conviver com porcos do que a companhia de gente como você e Inácio.
Ela não deixava de admirar-se no espelho, fazendo poses, olhares e beicinhos. De súbito, volta-se para mim.
- Eu não estou linda hoje, amor? Não acha que mereço uma sessão de fotos?
Maldita tequila, "sessão de fotos", percebo meio segundo tarde demais, a nossa senha, puta que o pariu, a escova de cabelos voa com o cabo em minha direção, uma pontuda lâmina de aço que abre um corte no meu supercílio antes de cravar-se no portal de madeira de lei, merda de tequila, reflexos lentos, meu supercílio sangra e me movo lento demais, dois palitos de cabelo afiados como flechas voam em minha direção mas só consigo me desviar de um deles, o outro perfura meu pulso esquerdo, a mão que segurava a maldita armazinha de bicha, agacho-me para recuperá-la com a mão direita tão rápido quanto posso mas tropeço na cadeira, maldita cadeira que me fraturou a tíbia, bendita cadeira que salvou minha vida, que me salvou da rajada da pistola Uzi pequena o suficiente para ocultar-se do meu olhar na generosidade de suas coxas, que ela disparou com sua pontaria infernal, acertando a parede no local onde eu deveria estar se a maldita-bendita cadeira não tivesse desviado minha trajetória caso não tivesse quebrado minha perna, alcanço a arma e a disparo cinco vezes às cegas com minha mão direita, minha mão ruim, os olhos turvos pelo sangue que escorre pelo supercílio e espero a morte por alguns segundos no caríssimo carpete coalhado de cacos de vidro.
A morte não chega. Enxugo os olhos e vejo que meu espelho está destruído por cinco disparos de 38 (maldita armazinha de bicha) e que não há uma gota de sangue em lugar algum que não pertença a mim.
Sim, a filha-da-puta continua com bom-humor. Antes de desaparecer junto com o chumacinho de cabelos soltos após a escovação - que jogaria fora em lugar adequado, a filha-da-puta - ainda teve tempo de desenhar com batom um coração com nossas iniciais no que restou do espelho.

Texto de Alexei Gonçalves sobre foto de Fernanda Lizardo.
Publicado inicialmente no blog de Fernanda Lizardo

Dicas de Literatura

Livro das Cortesãs - L&PM

Nesta coletânea organizada por Sergio Faraco, poetas portugueses e brasileiros dos séculos passados vêm trazer aos leitores de hoje a suma dos ambíguos sentimentos que, através dos tempos, elas têm despertado.

 

Edição 1

Poesias

Arquivos Cooper

O que mais me fascina nos seres humanos é a capacidade que eles têm de se perder em minhas palavras e ações.
Conheci um homem que simplesmente não sabia nunca o que esperar de mim! Ele se confundia de maneira surpreendente com meus orgasmos e momentos de fúria. Me espantava sua capacidade de inocentar meus pensamentos mais sórdidos! Não sei se ele era mesmo ingênuo ou se camuflava sua perspicácia para manter-se ao meu lado, mas...
Não, suas tiradas eram estúpidas demais! Ele era um perdedor genuíno. Mas trepava bem... Enquanto não mantinha suas perguntas ativas e se intrigava com minhas atitudes antagônicas, era um homem interessante. Por isso eu fazia tanta questão de manter sua língua entre minhas pernas - um sexo oral maravilhoso e nenhuma questão levantada sobre meu passado!
Não sei mais onde anda esse indivíduo... Na última vez em que o vi foi num velho galpão do cais. Deitamos entre caixas de Chardonay e ele tentou induzir o sexo à sua maneira, exigindo toques específicos e carícias ensaiadas, como numa coletânea vagabunda sobre sexo. Eu o deixei pensar que seria daquela maneira, mas modifiquei o curso das coisas aos poucos. Em minutos ele estava me batendo - e os estalos dos tapas ecoando por todo o cômodo - e não demorou a levar à boca ao alvo desejado! Confesso que o estampido dos dedos dele sobre meu rosto eram mais excitantes do que qualquer lambida entre os lábios.
Ele fez o que tinha de ser feito, influenciado pelo meu instinto e pela vontade de descobrir quem era a verdadeira mulher que alternava beijos alcoólicos e xingamentos sóbrios! Ele enlouquecia com mínhas facetas, queria me decifrar e se perdia nos meus enigmas intermináveis.
Assim que gozei, levantei-me e comecei a caminhar - semi nua - pisando nas tábuas carcomidas e tentando fazer um ritmo coerente com cada rangido produzido. Ele reclamou algo sobre não ter sido tocado por mim, mas não dei ouvidos: virei-me e, de pé, frente a frente, encarei seu corpo de maneira convidativa; ele continuou deitado e iniciou uma masturbação tensa - a mais tensa que já presenciei em toda minha vida! Parecia inconformado com minha frieza, mas totalmente satisfeito por saber que poucos têm o privilégio de estar comigo.
Assim que terminou, com seus gemidos contidos que mais pareciam uma reação à dor, vesti minhas roupas rapidamente e me dirigi à porta. Ele perguntou onde eu iria. "Embora", respondi. Ele queria saber se nos veríamos de novo... Completei: "Claro! Eu te ligo!".

Publicado inicialmente no blog de Fernanda Lizardo

 

Dicas de Literatura
Martha Medeiros - Poesia Reunida
L&PM

É uma seleção de poemas de Martha Medeiros feita a partir dos livros Strip Tease (1985), Meia- Noite e um Quarto (1987), Persona non Grata (1991) e De Cara Lavada (19950.

Um livro gostoso de se ler, versos atrevidos com amor e sensualidade.