 | Arquivo Géh - Literótica ed 1 a 25 - Literótica ed 26 a 50 - Literótica ed 51 a 75 1|2|3|4|5|6|7|8|9|10|11|12|13|14|15|16|17|18|19|20|21|22|23|24|25 | |
| Edição 25 | Taça de saudade  Precious Moments by Pino
Estou aqui morrendo de vontade de olhar os teus olhos que não vejo desejando teus lábios que não beijo e apenas bebo minha taça de saudade Ariadna Garibaldi
Quase vertigem...  Couple in love por Marina Pajic
Na cama sonolenta, vira para o lado, nua. Olha para o teto vazio... Quase chora... Arisca, sussurra que me ama, impulso de desejo descontrolado. Isenta de astúcia, sorri aliviada e dorme mansa... Deitada, quieta, você sonha doce. Descansa do amor, respira lento... Acolhe meu carinho com talento. Eu, assisto meu sopro nos pelos do teu pescoço, correntes de ar vagabundas, que retornam perfumadas de alegria... Paulo Camelo Dica de Leitura - Urbanóides por Zander Catta Preta "Qualé Léh!" "Fala Zander! O negócio é o seguinte: o géh tem sempre uma seção chamada 'Dica de Leitura'. Queria colocar a imagem do Urbanóides com link e um textinho promocional no Amores Urbanos. Pode?" "Porra cara! Você vai querer queimar o filme do sítio assim? Vai logo botar o Urbanóides?" "Deixa de ser fresco, Zander. Na verdade só tenho você de pelassaco conhecido que escreveu crônicas semi-eróticas-pseudo-românticas." "Ainda bem que não mandei minhas poesias, né?" "Porra bicho! Quer colocar o livro lá ou não?" "Beleza. De repente eu como alguém com essa merda que eu escrevi." "É esse o pensamento, cara!" "Bom... o que eu tenho de escrever na apresentação?" "Basicamente quem é Zander, qual a sua trajetória, o que propõe nos contos, como foi feito o livro." "Ah cara... falar de mim? Que coisa mais cacete." "É de praxe." "Põe que o Zander só escreve para passar por intelectual e acha que vai comer alguém assim!" "Bwahahahah!" "Sério cara. Ri não" " Bwahahahahahahahahahahah!" "Tá bom... põe o seguinte: Zander não é escritor, nem designer, nem fotógrafo, nem ilustrador. Ele é uma farsa. Faz festas de debutantes e anima Bah Mitzvah. Aceita escambo em sexo barato ou álcool de qualidade. Ou o contrário." "Tá. Bem melhor. Agora fala do processo criativo." "Pô cara. Não é melhor o pessoal baixar o livro, que é de graça, imprimir e ler?" "Anda, porra! Garçom, mais dois aqui!" "Eu quero um pastel de camarão. Não! Dois!" "Ok. Manda." "Poxa. Não sou eu quem escreve. Sou só cavalo aqui. A história vem, chega, me dói no fígado e vai pro papel." "Fala sério, cara." "Sério. Mesmo." "Ok. Acho que o Neil Gaiman falou algo parecido, mas serve." "Beleza." "E, cara, eu falo das coisas que eu não consigo fazer. Ou que as pessoas não conseguem. Melhor. São os desencontros, sabe? Daquelas histórias que as pessoas têm vergonha de contar. Dos fracassos, das paradas que dão errado. Ou não. Daqueles não-assuntos. De acordar de manhã cedo e achar que é maior que a vida e descobrir que tá só na onda de reboque do pó de ontem." "Acho que entendo." "Então. É isso. Você escreve a parada?" "Eu não, porra. O livro é teu e é você quem vai comer gente." "Tomara!"
|
| Edição 24 | Intensa Madrugada........  Reclining Woman por Shota Voskanyan Corpos se devoram na madrugada, Somos matéria quase intangível... A poesia apenas resvala-se em nós Com sua brisa etérea. Os sulcos sudorosos de meu corpo Ungidos pelo âmbar ardente Convergem num deslizar Aurifulgente de sua gota de gozo No cálice de meu ventre. O magma que escorre Em meu úbere inverso Queima a carne, Pulsa aos olhos, Funde os corpos Em nosso próprio universo. Tento acordar para colher O desejo que transborda, Mas o fluxo do coito Sustenta um equilíbrio De fonte lauta: Fogo que nos devora. Um bramido de fêmea Separa minhas coxas Feito páginas intemeratas De uma obra imortal. – Noite de ébano Guardada pelo meu sexo – Cada verso novo Que me atravessa; Cada pétala sua Que se revela e se entrega Explode em seu cerne Para se recompor mais forte Naquilo que nunca será morte, Posto que renasce infinitamente. Não secularizamos leis Pois, enquanto amantes, Depuramo-nos – somos Deuses – E o amor nos torna imunes Às leis humanas. Roberta Sangiuliano Pedroso Amor  Appassionata por Shota Voskanyan Amo nosso jeito de olhar enroscar as pernas no seu corpo desenhar linhas imaginárias no seu rosto Amo te provocar com os dedos atiçar este fogo com a língua sentir o teu gosto Amo a essência de te amar provar do teu beijo insano desejo Esse de amar Géssica Hellmann Dica de Leitura O Gosto do Pecado - Ângela Mendes de Almeida Recompondo o quadro lógico dos séculos XVI e XVII, coloca em discussão assuntos que sempre causaram polêmica. Como eram pensadas e vividas, no passado, as questões como aborto, estupro, adultério, incesto, sodomia. Angela Mendes de Almeida traz à tona a sexualidade do Brasil colonial, tomando como referência a família patriarcal – rural, escravista e poligâmica – vista em "Casa - Grande e Senzala", de Gilberto Freyre. Essa aventura histórica leva a autora a fazer uma rota inversa, descobrindo, em Portugal, uma “nova terra” na qual encontra os fundamentos da mentalidade brasileira nos séculos XVI e XVII.
|
| Edição 23 | Delírios Noturnos 
The Love 3 por Andrey Yanev No quarto Permanece ainda O aroma da última noite Dos corpos envolvidos Cativos As velas aromáticas Continuam estáticas Como se anunciassem Sua chegada Cada vez que são acesas, Como surpresa O incenso mistura-se ao Calor do meu desejo, A presença inexplicável Dos nossos sons, Sussurros na madrugada, Ecoa a sinfonia De um amor que Me envolvia, As músicas Completam o cenário O protagonista Não mais existe Só a saudade Insiste As velas testemunham Minhas queixas E a lembrança, Tento acertá-la Com uma lança Prende-la num canto Qualquer Enquanto meu corpo Descansa. Maria Júlia Pontes Contraditório amor  Tela de Kathrin Longhurst
Ah! Sentimento incoerente me arrebata... Ora traz vida e ora me mata Vã contradição que me maltrata assim eu amo desesperada e calmamente tão responsável e inconseqüente despudorada e castamente Ah! Sentimento incoerente que me domina de forma tão vil e puramente de modo suave e profundamente que me aquieta e alucina Assim eu amo de modo igual e diferente em que se confundem corpo, alma e mente Ah! Sentimento incoerente me toma aos poucos e de repente já nem sei quem sou sã consciência me torna alegre se estás presente e me faz triste quando te ausentas Ariadna Garibaldi Dica de Leitura Freud e a Sexualidade: o Desvio Biologizante JEAN LAPLANCHE Resultado de um curso ministrado na Universidade de Paris, este livro aponta o que o autor chamou de "desvio biologizante" da sexualidade na obra de Freud.
|
| Edição 22 | Memória Íntima
 Abstract Couple por Linda Smith. tua boca universo de versos que desenho sobre o nada é como um pássaro no vôo
beleza distante tatuada em mim Lau Siqueira Pousa teu corpo sobre o meu  Private por Lou Carbone pousa teu corpo sobre o meu ocupa cada espaço instala-te inteira
sem nenhuma pressa dedilha meu peito ouve a canção do meu corpo dá-me o que me cabe toma o melhor de mim
Sérgio Ornellas
Dica de Leitura - Freud e a Perversão por PATRICK VALAS Este livro faz um rastreamento de tudo o que se produziu sobre perversão a partir de Freud. Através de uma exegese da obra freudiana, o autor visa revelar o percurso de Freud na elaboração dos conceitos fundamentais que vieram confirmar sua teoria da sexualidade. Colocando-se numa perspectiva histórica, Valas apresenta um trabalho que é produto de uma investigação exaustiva das teorias sobre o tema das perversões sexuais a partir do final do século XIX.
|
| Edição 21 | Corpo do Desejo  Ladanza delos amantes por Jacqueline Klein Texier Línguas acariciam trilhas de curvas perigosas, porém macias, cheirosas... A saliva sacia a sede de terras ansiosas e tão generosas, gulosas... Mãos cegas procuram abrigo, tateiam os cantos, passeiam pelo umbigo, encontram seus encantos e lá provocam gemidos... Pernas se abraçam e braços se beijam quando aproximam bocas urgentes que almejam lamber os dentes, sugar os desejos emergentes. Tate Fish Côncavo e Convexo
 Dica de Leitura Perversão em Cena ELIANE CHERMANN KOGUT Tema difícil de tratar, a perversão sempre ocupou o centro da cena em nosso imaginário, sendo objeto de mitos, religiões, contos infantis, e atualmente também dos noticiários que tanto aguçam o interesse do ‘cidadão comum’. Essa luta entre os personagens da Ordem e da Transgressão também é um grande assunto do cinema, talvez a mais influente linguagem de nossa era. E é a do cinema, bem como a da psicanálise, que Eliane Kogut se serve para guiar os leitores num percurso quase detetivesco pelo universo da perversão, buscando aproximar-nos da experiência sensorial e subjetiva do perverso. 
|
| Edição 20 | Impera em mim!  Tango Dancers por Vladimir Ezhakov Envolve-me com laços de ternura Adentra-me com sede e paixão Sufoca-me com tato e brandura Aquece-me qual lava de vulcão
Suplanta meu medo com doçura Devora-me com fome de prazer seqüestra-me com afeto e candura Provoca-me até me convencer
Domina-me com toda a paciência Adestra-me com mansa autoridade Decora-me com clara preciência Encanta-me com gotas de bondade
Serena a minha ansiedade Sorri da minha insensatez Acalma a minha impaciência Ensina-me tua lucidez Ariadna Garibaldi Acorda Amor!  Black Mask por André Baturo O meu amor não tem Jeito manso O meu amor Tem a fome de um Leão Tem o fogo de um vulcão É cavalo que não se doma É sentimento Que ninguém Me toma Ele chegou Pra te desconcertar Pra de revirar Pra te curar De amores Mornos Chegou a brasa Pra desarrumar Sua casa Ele é rochedo Não tenha medo Enfrente a fera Enquanto ainda Está a espera Ele é tão forte Que posso condená-lo A morte. Maria Júlia Pontes Dica de Leitura  Rosie tem certeza de que seu marido quer matá-la, e foge. Começa a viver uma nova vida com Bill, mas um quadro - um simples quadro - pode despertá-la para a certeza de que o perigo não passou ainda... |
| Edição 19 | Poesias Hidrata-me  Luz de Fogo por Angélica Pedroso O que será Que queima em mim? Algo que arde Sem fim, Algo que chama Pra caminhos Que não tem saída, Não sei como volta Mas sei a ida. Tem gosto de mar De fé na vida Tem cheiro de mato De fruta colhida, Tem sabor de sal De açúcar a medida Soro perfeito Que me entorpece, O dia, A noite, A manhã, A vida. Você é meu sal Meu açúcar a medida, Me devora, Me Hidrata, Me namora, Agora... Ou nunca Mais... És A saída. Maria Júlia Pontes Para além do corpo 
Tela por André Baturo Para muito além do corpo e doce encanto dos desejos quero-te de alma e coração quero-te inteiro quero-te em inspiração sempre o primeiro em meu viver também o derradeiro quero-te em afã e em descanso da magia meu companheiro e ao apagar das luzes cessada a poesia mesmo em trevas sejas tu algures meu amor verdadeiro Ariadna Garibaldi |
| Edição 18 | Tentação  Abraço (1980) por Luís Soares Vem amor que eu te espero inda anelo te tocar...
Vem amor hoje eu apelo amanhã não sei se quero Vem amor que eu te amo e não me engano no sentir Vem amor eu te aguardo inda me guardo só pra ti... Ariadna Garibaldi Rendição  Desenho por Roberto Stelzer Tomou-o. Simplesmente... Tomou-o. Deitou-o na cama Prendeu-o nas pernas Prendeu-o nos braços Prendeu-o nos olhos Prendeu-o na boca. Sentou-se no corpo Sentou-se no sexo Mordeu-lhe as palavras Fechou-lhe o olhar. Agarrou-lhe as nádegas Encerrou-o no corpo Enterrou-o no corpo Parou-o Antes do prazer. E prolongou o tempo E atrasou o tempo E foi ternura o momento Em que rendida o tomou Em que rendida se deu. Ana - autora de encandescente |
 | MICHEL HOUELLEBECQ Esse livro é fundamental para ajudar a pensar o tipo de vida que levamos atualmente. Coloca em perspectiva, com lucidez implacável, toda a mitologia libertadora dos chamados movimentos alternativos(hippies, revolução sexual) e fenômenos de mídia, mostrando o quanto se tornaram opressivos . Ainda que o humor do livro seja amargo algumas vezes, vale a pena avaliar o quanto de desumanização temos aceito sob o rótulo de "liberdade". |
 | MICHEL HOUELLEBECQ O livro tornou-se polêmico na França ao misturar turismo sexual e fundamentalismo islâmico. Politicamente incorreto, traz a história de Michel, um cara meio esquisito que recebe uma herança após a morte do pai e decide viajar para a Tailândia. Conhece vários bordéis, apaixona-se por uma executiva de uma companhia de turismo e resolve montar um resort sexual. |
| Edição 17 | ela  Acrílico sobre tela de Ana Cassiano
em todos os lugares onde é adequado tê-las suas curvas são perfeitas o bambear das cadeiras o jeito meigo de ocultar a face sob a seda até os ombros assim me olhando de lado tímidos olhos esverdeados esmeraldas dos meus sonhos a penugem dourada e rala nos braços cobrindo os seios duas pêras envergonhadas os lábios arcos macios minúsculas mãos miraculosas toda ela é delicada esvai-se em bruma branca quando me apagam lembranças ciumentos raios da alvorada. Fred Matos O meu amor  Tela de Tatiana Lenbork
Sentimento especial e que torna tão real a mais louca fantasia É amor vivificado alma em flor em um peito apaixonado É sonata ao luar o sorriso em um rosto iluminado É farol em noite fria na neblina a guiar a nau da vida É mistério revelado na poesia de um poeta enamorado É a bússola que guia a mulher que vela o sono do amado É a música que ouço o lirismo em poema decantado Ariadna Garibaldi Silêncio Sons respirados ao ouvido subiam dos lençóis amarrotados. Dançavam no ar. Enchiam o espaço. Forravam as paredes. Invadiam todos os recantos. Saíam dos corpos colados. Desciam sobre os corpos trocados. Penetravam-nos. E eram eco e mais sons. Dueto. Improviso. Colados. Um só corpo. Linha sinuosa que ondulava. Una.Indivisível. Som. Movimento. Som. Sussurros que eram gritos. Gemidos que eram música. Composta no momento. Tocada no momento. Dançada no momento. Trocar gestos. Tocar o corpo. Beijar com fúria. Abraço apertado. Quase luta. Quase aflição. Quase angústia que se quer solta. Sons urgentes procurando a nota final. Som. Prazer. Som. O movimento parou. Tudo parou. A nota final não foi grito. Os sons antes suspensos no ar desceram sobre eles. Cobriram-nos. E eram paz. Ana - autora de encandescente |
| Edição 16 | Louvor ao "Strip-tease" Secular  Desenho de J. Carlos (ilustração do livro: A moda do século XX, ed. SENAC)
Eu sou do tempo em que a mulher Mostrar o tornozelo Era um apelo! Depois, já rapazinho, vi as primeiras pernas De mulher Sem saia; Mas foi na praia! A moda avança A saia sobe mais Mostra os joelhos Infernais! As fazendas Com os anos Se fazem mais leves E surgem figurinhas Em roupas transparentes Pelas ruas: Quase nuas. E a mania do esporte Trouxe o short. O short amigo Que trouxe consigo O maiô de duas peças. E logo, de audácia em audácia, A natureza ganhando terreno Sugeriu o biquíni, O maiô de pequeno ficando mais pequeno Não se sabendo mais Até onde um corpo branco Pode ficar moreno. Deus, A graça é imerecida, Mas dai-me ainda Uns aninhos de vida! Millôr Fernandes Strip-tease Ela acende a luz e eu apago. Então abre a janela. Eu acendo o abajur. Finge que esconde e eu disfarço. Ela está atrás da janela e eu estou atrás da cortina. Dança. Abre a janela. Penteia o cabelo, como quem vai sair. Mas fica, e eu arrumo o guarda-roupa. Ela troca de blusa e eu de lugar. Despe-se. Fecha a janela. Eu durmo. Marco Túlio de Souza |
| Edição 15 | Ao cair da noite...  Tela por Daeni De Pino Cai a noite com seu manto violeta e as estrelas vem vestir o firmamento penso em ti e me debruço na janela como se ela te levasse o meu pensar Sinto o vento a balouçar os meus cabelos e a tocar a minha pele em frio abraço se eu pudesse estaria em teus braços aquecida e protegida em doce laço... Olho o céu e busco a lua e não a vejo tento ouvir o som de estrelas a cantar mas só ouço a tua voz dizer meu nome como fora doce canção de ninar Teu amor de tão distante não alcanço não me canso de sonhar e poetar e fazendo mil poesias, vou cumprindo os meus dias Té que um dia eu te possa alcançar Ariadna Garibaldi AROMA  Lírio Azul por Elena Rodriguez
Ignorar O cheiro do lírio Branco Num canto do jardim Escondido O aroma recendido, Impossível. Relembrar A chuva repentina Caída Sob medida Sob nossos Corpos Estendidos Inertes, exaustos Êxtase total. Procurar por alguém Que te deseje Mais do que eu Inútil. O aroma do lírio branco Só eu inalei E guardei Ficará no meu olfato Impregnado Por tempo indefinido Encontrar alguém Que o seu desejo Grite Como gritou O meu Entregue-se, É o Amor. Maria Júlia Pontes |
| Edição 14 | Amor  Tarsila do Amaral: Antropofagia (1929) no quarto escuro o mundo era tua boca ardendo teu desejo roendo minhas pernas meu mundo subia pelas paredes esboroava se no teu corpo ardia feito sol na carne na tarde ensol larada a noite permaneceu a cesa no meu rosto Adair Carvalhais Júnior Avesso e seu Avesso  Tarsila do Amaral : "Urutu" (1928)
Invado sua alma Sua vontade aríete em meus portões Calada. Sua baioneta perfura minha voz, emudeço Eu não me calo E eu grito mudo Eu te endoideço, São em tua loucura Tropeço no Tombo nu Meu avesso, Endireito Que diz não Sem resistir E eu digo sim Cedo E você pede Imploro Afaste-se de mim Mas não me abandone Rola dos meus olhos Reflexos de minha impotência Uma lágrima carmim Tinta do meu sangue Sinto seu anseio Pela ordem do seu seio Por um esteio Firme Que está guardado Fechado, lacrado, chave perdida, Num lago verde Imenso, infinito, sem fundo Dos olhos que te chamam A me afogar E reclamam O Divino Direito à coroa de meu Desejo Sua retina Embaciada Que me ilumina Com o reflexo de sua luz Que me fascina Qual escudo de Perseu, qual lago de Narciso Os medos te roubaram Prestidígitos De mim A face que refletem Tento vencê-los Com olhar-magia e língua-espada Por você Pela tua imagem E por mim Reflexa em meus olhos Por minutos penso que sim Na sala de espelhos Irei detê-los Peito aberto, sibilábios Eles avançam Temores intemeratos de si mesmos Punhais me lançam Sem mirar-te os olhos, ou resvalar teu coração Eu me defendo Sibila Eu não me rendo, Magia Eu só te entendo E me arrependo E chega a hora Ao som do sinete De ir embora Ao reino de sombra e luz E sua alma invado Portão arrebentado Novamente... Dança, macabramante, em minha mente Maria Júlia Pontes eAlexei Gonçalves |
| Edição 13 | Onã Na parede um quadro uma janela aberta para a imaginação uma tela... ela... tesão. Tinta, tanta cor trama tantra yoga joga o jogo chão e a luz me afoga. Segue a cantilena à pele morena quando a mão afaga e o falo fala. Fred Matos
 Félicien Rops - La Dame aux bulles (1878)
Sentidos Faço versos de amor fortes, porém sensíveis cálidos, porém inocentes puros, porém sensuais e se, por amar demais, me excedo em palavras, prefiro pecar por ação que pecar pela omissão dos meus próprios sentidos, pois não há sentimentos vãos se por eles eu tiver vivido Ariadna Garibaldi |
| Edição 12 |  A espera - Pastel (08/2001) por Géssica Hellmann
Segredos Vem amor, que nossa hora é chegada O silêncio já se faz, é madrugada, Em meus braços vem fazer tua morada! Em meus seios, pousa os lábios, te anseio Em meu leito, de amores me entontece, Me arrebata, me abraça, me enlouquece! Mil delícias de carícias quero dar-te Atender a cada um dos teus apelos Vem sem medos desvendar os meus segredos! Ariadna Garibaldi Fogo
Senti um perfume Que há muito tempo Estava ali A me rondar. Senti um sussurro Percorrendo meu corpo De arrepiar. Senti o calor De mãos famintas A me procurar. Senti um ardor Percorrer minhas costas Fogo transformado Em lascívia A me queimar. Você era o fogo Que eu estava A esperar. Maria Júlia Pontes |
| Edição 11 |  Vestido Vernelho- Pastel (09/2005) por Géssica Hellmann
Porque hoje é sábado Era vermelho o vestido na vitrine, vestido caro, de grife esnobe, e na vitrine meu olhar capturado no brilho dos seus na tricoline. Não fosse isso, eu teria me lembrado que já estourei meu limite de crédito e que sobra mês no fim do ordenado. Mas não importa. É sábado. Você vai estar linda na festa e, se calhar, hoje não me faz de besta. Fred Matos Em: “Anomalias” 2002 Fantasia ao teu prazer
Hoje eu te quero amante e em teus braços errantes me embriagar de amores teus beijos por meus açoites tal conto das mil e uma noites Fantasiar teu prazer Quero te bem dizer e em murmúrios sem fim falar loucuras de amor te enlouquecer de paixão te extasiar de tesão Até que digas meu nome ...E saciada a fome quero em teu peito dormir Ariadna Garibaldi Dica de Literatura
 Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade SIGMUND FREUD
É a mais polêmica contribuição de Freud a respeito da sexualidade. Ele estabelece aqui originais estudos sobre os temas das aberrações sexuais, sexualidade infantil e adolescência. Seu principal guia é o conceito de Pulsão Sexual, que começa a ser descrito justamente nesse texto. |
| Edição 10 | Pretensão... Hoje quero um beijo estalado quero um sorriso sonoro os seus olhos no meu colo não se espante, não se choque mas é disso que preciso Hoje quero a paz do seu olhar quero ouvir o seu falar quero ter sua atenção e alcançar seu coração sem que nada eu lhe diga Hoje quero estar enamorada quero ser bem conquistada quero me sentir amada isso é pouco, quase nada hoje eu quero só você! Ariadna Garibaldi O cheiro de sangue ainda quente quando a tive nos meus braços cri que eras inocente cego de paixão, não pude perceber o cheiro de sangue ainda quente
quem há de crer que um vampiro experiente não tenha percebido a mancha escura e o cheiro de sangue ainda quente escorrendo farto na tua vulva? neguei os meus instintos, contive a fúria deixei-te incólume aos meus dentes poupei-te de uma eterna amargura
hoje, na minha memória perdura o cheiro de sangue ainda quente invadindo meu corpo e minha mente. Fred Matos |
| Edição 9 | Poesias Sempre que falam nela, Como você pode ver, Comparam com coisa gostosa De chupar ou de comer. Pele cor de canela, Cor de jambo, sapoti, Pele de chocolate, Pele cor de açaí. Já provei muitas mulheres Todas são diferentes Mas não há como negar - Vou generalizar - As mulatas são mais quentes. É a cor da pele? É o cheiro? É o jeito malemolente? Só sei que nenhuma mulata É mulata impunemente. Jozé de Abreu
Uma Flor para Di Cavalcanti Esta é uma flor para Di, uma flor em forma di- ferente: de flor-mulher, desabrochada onde quer que exista amor e verão. Verão como a cor cinti- la nas curvas, e sorri nesse púrpuro arrebol que Di tirou do seu Rio coado de mel e sol. Uma flor-pintura, zi- nindo o canto de amor que acompanhou toda a vi- da do pincel, o gozo-dor de criar e de sentir, di- vina e tão sensual ração que coube, na Terra, a Di. Carlos Drummond de Andrade in Andrade, Carlos Drummond de . Discurso de primavera e algumas sombras. In: __ . Poesia e prosa. 8ª ed., pág.813 Personagens da Literatura A RAINHA DAS MULATAS Feche os olhos e imagine um amplo pátio calçado de pedras em noite de lua cheia. Imagine um grande número de pessoas reunidas em ambiente de alegria festiva. Violão e cavaquinho enchem o ar com acordes vibrantes de música crioula, alguns ensaiam tímidos passos de dança.O clima é o dos rituais pagãos de adoração e celebração pela vida. Então imagine uma mulher. Ela salta para o centro da roda do samba, atraindo todos os olhares com o movimento lasso dos quadris. Tem longos cabelos escuros e curvas generosas. Exala vitalidade e graça irresistíveis, dança como um animal furioso. Uma mestiça. Uma mulata cor de canela e pecado, de sorriso largo desconcertante, cheirando a cio com eflúvios de cumaru. Um feitiço feminino, sinuoso feito serpente, prometendo o paraíso. Requebrando frenética, ela hipnotiza os expectadores e os incita a delírios de gozo quase carnal, arrancando aplausos e gritos rubros, como se brotados do sangue. Sob as palmas cadenciadas, ela vai acelerando, acelerando, prestes a explodir. É capaz de atear fogo às veias dos homens e roubar-lhes a alma pelos olhos. Pode revolucionar o viver e o sentir apenas com um meneio do ventre liso e dourado. É capaz de destruir uma família e recompensar com a loucura. Um demônio, um veneno, que penetra por todos os buracos do corpo, que faz lânguido o mais diligente dos homens, que transforma o mais manso em assassino. Imaginou? Essa, meu amigo, é a Rita Baiana. Rita Baiana é um dos personagens mais notáveis da literatura brasileira. Filha do realismo naturalista, é escrita com uma riqueza de detalhes visuais e sensoriais incríveis. Forte, apaixonada e politicamente incorreta, é absolutamente impossível não adorá-la. Sedutora e consciente de seus encantos, é maliciosa e faminta de vida, um diabo de saias. É sem dúvidas, a alma de O Cortiço, de Aluízio de Azevedo, embora não seja a protagonista. Ela não aparece desde o começo e nem está presente no fim, mas rouba a cena em sua aparição fulminante. Escrita em 1890, é uma mulher a frente de seu tempo. Ama a quem lhe aprouver, da forma que melhor lhe parecer. É deliciosamente livre e despida de amarras e preconceitos, é como a maioria de nós queria ser. É mulata decidida e generosa que enfrenta a vida de peito aberto, disposta a sofrer e gozar com a mesma intensidade. Fiel aos seus gostos e às suas paixões, a elas se entrega por inteiro. É o símbolo da brasilidade quente que penetra na alma lusitana de Jerônimo, o português enamorado, e varre toda a nostalgia d'além mar que havia nele. Caído pela mulata, ele abandona mulher e filha, abraça a vida boêmia, contrai dívidas, perde a força moral e chega a ponto de matar um homem com um pedaço de pau. "Isso não é mulher, é uma desgraça", você provavelmente pensará. Mas para ele, o amor da Rita é insubstituível e justifica tudo. Nos braços dela, tudo adquire uma cor fulgurante e fantástica, não dando margem a lamentações, arrependimentos e nem dores. Ele a venera, satisfaz todos os caprichos, arde e morre por ela, se preciso for. Passa por todos os dissabores e tormentas, mas não lhe tirem a Rita, que sem ela não pode mais viver. Como vício destrutivo, como doença, ela é a seiva que o alimenta, a força que o impulsiona. Torna-se cativo por gosto e por vontade. Rita Baiana é a personificação do melhor e do pior da mulher, com toda a magia e a ruína que lhes é peculiar. Mas não uma mulher comum, e sim uma dotada do orgulho e da beleza da raça negra da qual descende, aliada à ferocidade da mulher pobre que defende seu espaço e seu sustento. Ela transborda alegria e sensualidade, é corajosa, digna, guerreira - até as últimas instâncias, até à violência física - e essencialmente hedonista. Mas o mais marcante nessa mulher, assim como em toda a obra de Aluízio Azevedo, é que Rita Baiana é humana. Passa longe de qualquer heroína convencional da literatura brasileira, sempre tão cheia de Helenas (Machado de Assis) e Marílias (aquela de Dirceu), tão brancas, castas, atormentadas, frágeis, suspirantes. Ela não. Ela ri e se comove com o mesmo que todos nós. Tem seus momentos de egoísmo, de fúria, de mesquinharia, para logo em seguida abrir-se toda em generosidade ímpar. É amiga, companheira, carinhosa, brincalhona, devassa, inebriante. Mulher, personagem e símbolo inesquecíveis. Lívia Santana é escritora-aspirante, leitora voraz, co-editora do géh e mulata, com muito orgulho. |
| Edição 8 | Poesias  Antônio Mariano Publicado em Guardas-chuvas esquecidos. Editora Lamparina. P.26 Voragem Ver a lua cheia e tomar vinho, na varanda de um 8º andar, junto a uma fêmea cujo perfume se confunde com o que o vento traz do mar, põe na alma abalos sísmicos, tenta a gente pro abismo.
Antônio Mariano Publicado em Guardas-chuvas esquecidos. Editora Lamparina. P.73.
|
| Edição 7 | Poesias Olho me diz desejos me seduz mil beijos me resgatou paixão me enfeitiçou tesão... Teu olhar lanterna na penumbra minha vontade rubra loucura que mais quero e assim eu espero em tua vastidão mergulhar... Yeso Se (Waltel Branco e Alice Ruiz) se por acaso a gente se cruzasse ia ser um caso sério você ia rir até amanhecer, eu ia ir até acontecer de dia um improviso, de noite uma farra a gente ia viver com garra eu ia tirar de ouvido todos os sentidos ia ser tão divertido tocar um solo em dueto ia ser um riso ia ser um gozo, ia ser todo dia a mesma folia até deixar de ser poesia e virar tédio e nem o meu melhor vestido era remédio daí, vá ficando por aí, eu vou ficando por aqui, evitando, desviando, sempre pensando, se por acaso a gente se cruzasse |
| Edição 6 | Haikais Ao te acolher, nua A minha alma Beija a tua Colo macio Em ti palpita Ternura infinita Esse teu olhar Acende o estopim Põe fogo em mim Doce pecado Beber do teu mel Me põe alucinado Daniel Heldt Conto Amigas
Lívia Santana Marina é minha melhor amiga, conheço-a a vida inteira. Tenho a sensação de que não tenho lembranças em que ela não esteja. Juntas, crescemos, descobrimos o mundo e formamos quem somos. Meninas, rimos quando rasguei a calça no colégio e mulheres, choramos quando o pai dela morreu. Sabemos tudo uma sobre a outra, guardamos os segredos. Nunca nos afastamos, mesmo quando se tornou namorada do Fábio. É uma mulher linda. Seu riso contagia, sua força arrasta. E quando se sente frágil, vem dormir em casa. Nesses dias ela se deita na cama ao lado da minha, usando pijama de bichinhos e conversamos até tarde, no escuro. Eu a amo muito. Hoje, brigou com o Fábio e estava tão calada que achei que tivesse dormido. Até que senti seu corpo nu, quente e suave, estender-se ao lado do meu. Prendi a respiração e ela me abraçou, nada fraternal. Num segundo infindável pensei em toda a nossa história, antes de me virar pra ela e corresponder ao abraço, abrindo a boca pra receber o beijo lento e molhado. |
| Edição 5 | Sou Tua Pelo avesso do avesso eu me guio Guardo luto e visto cores no vazio Se me porto qual vestal Por castidade É de amar-te e querer-te de verdade Eu desprezo a avidez de puro cio À minh’alma, basta o amor terno e sereno Mesmo em face de desejos mais sombrios Dispo os beijos Colho olhares e me desvio Eu sou vale interditado Intransponível Uma estrada proibida ao estrangeiro E que possa eu sentir do amor o cheiro É só teu o que recato Ariadna Garibaldi
Efígie decifrar sinais da madrugada ler um poema um lume apenas | da sua boca o quase silêncio oculto na bruma da madrugada | um beijo sufocado apenas um e nada mais | Dicas de Literatura A Mensageira das Violetas- L&PM Pocket Florbela Espanca Florbela Espanca (1894-1930), ignorada pela preconceituosa crítica do início do século, é considerada hoje em dia a mais sublime voz feminina da poesia portuguesa de todos os tempos. Seus sonetos são um ousado diário íntimo, onde palpitam as ânsias de uma mulher ardente, a clamar pelas carícias de um amor impossível. |
| Edição 4 | Poesia Mio Teus beijos molhados provocam e atiçam eu mordo, eu grito arranho e mio sorvo teu líquido indecente desejo incendeia meu ventre. By Géh. Conto Aproximou-se da cama, onde ela dormia serenamente. Espantou-o que ela parecesse tão frágil, encolhida como criança. Os longos cabelos escuros espalhavam-se, desordenados, sobre o travesseiro alvo, a pele morena macia convidava à carícia mais doce. Enterneceu-se. Sentia-se tentado a acordá-la suavemente quando um movimento, acompanhado de um gemido abafado, revelou o busto nu. O som gutural e a visão dos mamilos escuros dissiparam o transe e lembrou-o de que ela nada tinha de angelical, na verdade. Era, antes, a personificação dos seus demônios. Rememorou a risada e os movimentos devassos e sentiu-se inflamado. Acercando-se da cama, cravou os dentes com força no seio, arrancando-lhe um grito de surpresa, a qual durou pouco. Desperta, ela sorriu daquele jeito faminto e lúbrico, encarando-o, convidativa. Ferozes, lançaram-se ao embate.
Lívia Santana. Dicas de Literatura Amêndoa - Nedjma Ed. Objevitva No Marrocos da segunda metade do século XX, Badra conta a história de sua vida, decidida a não medir palavras ou sensações e a honrar a milenar tradição árabe de escrita erótica. Testemunho excepcional de uma mulher de origem árabe que ousa transgredir o tabu do sexo e do silêncio, A Amêndoa assinala um verdadeiro acontecimento: pela primeira vez uma mulher muçulmana se exprime com liberdade sobre sua vida íntima. Badra tem 50 anos e corajosamente decidiu revelar sua trajetória. De sua infância, quando corria descalça, curiosa e despreocupada em sua aldeia. De sua adolescência, quando foi casada contra sua vontade, por conveniência, com um homem muito mais velho, que não demonstrou nenhum respeito ou carinho por sua juventude ou virgindade. De sua fuga para Tânger, que lhe abriu um mundo novo onde as mulheres não viviam apenas para seus maridos. E principalmente sua história com Driss, seu mestre e seu carrasco, homem da alta sociedade que se apaixona intensamente pela tímida e ardente provinciana, e que lhe apresenta um amor total, arrebatado, profundamente sensual. Num relato perturbador e libertino, o livro abre uma janela para a intimidade da mulher muçulmana. Com uma mistura de sensualidade e revolta, a autora mostra que por baixo dos véus e das proibições existe um mundo de desejos e sentimentos esperando para ser libertado. Uma obra cheia de volúpia, incandescente, radiosa, mas que é também um ato político: uma reconquista da palavra e do corpo das mulheres árabes. A autora, que tem cerca de 40 anos, vive em um país do norte da África e assina o livro com o pseudônimo Nedjma. |
| Edição 3 | Poesias Tema : B E I J O S | Versos Sentidos Sentir teus lábios Na ponta dos dedos Merece um beijo By géh | Haikai
Beijos ardentes alucinam a mente avidamente. By géh | Vertigem do corpo 01 Quero um longo beijo na boca, sem vontade de parar, com cheiro de saliva. Sentir o ar quente das narinas. Dentes traiçoeiros, beijo de lábios oferecidos, de língua inquieta e macia que lambuza a alma, que molha o corpo. Beijo que faz o tempo parar, como o primeiro beijo que se quer muito e que permanece quando termina. © Paulo Camelo Dicas de Literatura
Das Falas de Ivana Um dos livros mais instigantes que li nos últimos tempos foi escrito por Ivana Arruda Leite, escritora paulista, nascida em Araçatuba, que tem confirmado sua presença na cena literária nacional. Ivana, que é socióloga e atualmente vive em São Paulo, já publicou dois livros de poemas e, em 1997, lançou seu primeiro livro de contos: "Histórias da Mulher do Fim do Século" (Editora Hacker), além de participar em algumas das mais importantes antologias de contistas brasileiros publicadas recentemente. O livro ao qual me refiro como instigante, publicado pela Ateliê Editorial, em 2002, conduziu-me a uma reflexão: tem sexo a escrita? Tem voz o sexo condicionado pela moldura de uma sociedade falocêntrica? Utilizando a palavra como objeto de penetração, Ivana nos chama às falas no seu "Falo de Mulher". Realizando um trabalho de "desencantar a mente", cada personagem de Ivana revela a falsa fragilidade e submissão do sexo feminino, mostrando-nos que esses conceitos são meras construções do tempo, alinhavadas por credos, civilizações patriarcais e modos de ser que prevaleceram contra o bom senso. As mulheres de Ivana são impróprias para o consumo, na medida em que não se deixam "coisificar" como objetos estéticos ou domésticos. Fazem-nos lembrar de Adrienne Rich com "When We Dead Awaken" (Quando nós, as mortas, despertamos); da garganta de uma de suas "dolores" nasce o grito do eterno feminino: "por que só eu tenho que andar na linha?" Ivana Arruda Leite vem para perturbar o cânone das autoras mais ou menos domesticadas, "escrevidas" e se escrevendo à imagem e semelhança da divindade trina: masculino, raça branca, heterossexual. As suas mulheres nos permitem repensar o papel e a fala das personagens femininas que andam se inventando no cotidiano trágico das famílias, das relações mães e filhos, macho e fêmea. Em "Receita para comer o homem amado" Ivana nos permite uma incursão pela sexualidade feminina e pela oralidade, transportando-nos para um universo sensorial primitivo onde "no princípio tudo era boca". Em que circunstância o lençol da noite de núpcias foi substituído pela toalha de mesa? "Devore tudo com talher de prata". Cama e mesa, juntas, são representativas do casamento; Ivana, com declarada ironia, nos remete ao simbolismo da mesa e da alimentação relacionado à sexualidade feminina: comer ou ser comida, eis a questão! Na outra face da mesma moeda, temos Adélia, cujas zonas erógenas foram todas transferidas para as papilas gustativas: "não me tire o único prazer que me resta na vida" ela implora para o homem que já não monopoliza o seu desejo, se é que algum dia o fez. Adélia, cujo sentido de carência se transformou num vazio devorador, traduzido em uma fome que não encontra pão nos corpos dos homens. "Isabel, a princesa" é outra que tem fome: "a princesa nunca teve prazer no sexo" - retrata a vida insípida das mulheres que nunca contraíram dúvidas. Raquel, Laura Christina, Berenice, Luísa, existe uma cadeia associativa entre todas essas mulheres; cada uma delas, de um certo modo, ultrapassou o ponto do não-retorno, deixando-se enredar nas fantasias de mulheres refinadas, inflamadas, introvertidas, perturbadas, mulheres com necessidades do absoluto, porque, afinal: "Mulher é tudo igual". Aos leitores dessa coluna, dou o conselho do Djavan, numa de suas belas canções: "um dia frio, um bom lugar pra ler um livro"; o livro de Ivana Arruda Leite, é claro. Resenha publicada originalmente na coluna de Sandra Regina Sanchez Baldessin no Jornal Cidade. |
| Edição 2 | Poesias A Geisha Na penumbra ela se prepara: perfumes raros, cheiro de amor, pele de seda, roupagem rara, tudo isso pra seu senhor. Tece sonhos na longa espera cuida sua enviesada flor; canta canções baixinho, quimono veste devagarinho, tudo isso pra seu senhor. Seguirá sua doce sina: aprendeu desde menina amar em várias línguas gestos frases ambíguas, arrancar gemidos de dor suspiros de amor, tudo isso pra seu senhor. Porque só existe e respira só sente, só vê, delira ao ritmo do gozo tremor do olhar de seu senhor.
Anja Azul, segundo a própria é "gaúcha, de Porto Alegre, blogólatra, poetisa, contadora (e de histórias também), cantora de araque, faz paródias, trabalha e, pra completar, se arrisca de desenhista." Arquivos Cooper Tiros no Espelho Sábado, fim-de-noite, de fato domingo, diriam os chatos, mas um dia só termina quando a gente cai na cama e o seguinte só começa quando a gente acorda, essa é que é a verdade. Muita cerveja, muita tequila, muitos beijos na boca, muitos perfumes e marcas de batom, a chave tateia a fenda da fechadura sem sucesso. Irritado, consigo abrir um olho, firmo pontaria com a mão titubeante e golpeio com força a ponta da chave e, mais uma vez, erro o alvo. A porta desliza sobre as dobradiças. Destrancada, apenas encostada. A descarga de adrenalina regurgita uma meia-dose de tequila ácida que me forço a re-engolir. (A última coisa de que precisa uma pessoa que teve a casa invadida é uma sessão de vomitório). Protejo-me no portal e meus instintos conduzem minha mão esquerda à axila direita, depois à cintura, onde costumo usar minha 45 e minha 9mm, respectivamente. "Merda de porre, um erro desses pode te custar a vida, ô imbecil", esbravejo contra mim mesmo agachando-me para pegar o 38 cano curto de cinco cartuchos, merda de armazinha de bicha, engastada no coldre do tornozelo. No início da noite confesso que pareceu uma boa idéia carregar apenas uma armazinha discreta, para não afugentar as garotas e relaxar pelo menos uma vez em vários meses de paranóia constante. Agora, agachado à beira do portal, o porre quase me estatelando no chão a cada tentativa de sacar a desgraçada armazinha de bicha, amaldiçõo todas as minhas gerações passadas e futuras por tamanha cretinice. Um homem como eu, que leva uma vida como a minha e exerce a minha profissão, simplesmente não pode relaxar e ponto-final. Finalmente com a arma em punho, contraio os músculos tanto quanto o álcool que o medo rapidamente evapora me permite e invado a sala do meu apartamento, acendendo bruscamente as luzes e vejo, estupefato, que está completamente limpa e arrumada, nenhum objeto faltando fora do lugar. Respiro fundo três vezes para controlar o pãnico. Isso está errado. Completamente ERRADO. Lembro-me perfeitamente que minha sala estava uma zona quando saí de casa, pois a faxineira só vem às segundas-feiras. Como é óbvio que ela não decidiu fazer hora extra na madrugada de sábado arrombando a minha porta para entrar, já faço uma leve idéia sobre quem vou encontrar na suíte iluminada - e eu não esqueci as luzes acesas - ao extremo do corredor. Meus passos já estão mais firmes mas a cabeça começa a latejar uma ressaca precoce enquanto caminho para encontrá-la, mais linda do que nunca, ainda molhada do banho recém-tomado, exercendo seu narcisismo diante dos espelhos. Engatilho o .38 (maldita armazinha de bicha) e miro a sua linda cabeça, tentando desviar o olhar das coxas um pouco mais generosas do que da última vez que nos vimos e do colo perfeito, onde poderia acertar um disparo entre seios, se conseguisse deixar de babar ante a visão do paraíso. Concentro-me, pois, em seus cabelos molhados, contendo uma ereção que já começa a se engraçar. Amarro o semblante em silêncio, ela sabe que estou ali e se diverte em fingir que ignora minha presença armada a uma distância impossível de errar (se eu já estivesse completamente sóbrio, é claro). Ela sabe que está no controle da situação, sempre esteve, mesmo em meu território, mesmo sob a mira da minha arma, mesmo seminua e desarmada. A filha-da-puta. - Você chegou cedo, amor - ela diz - só tive tempo de arrumar sua sala. O quarto continua uma bagunça e o banheiro, francamente... O sotaque. O maldito sotaque. - A faxineira vem na segunda. Podia ter se poupado desse esforço. - Pois pode dispensá-la. Não vai mais precisar dela. Ela sabe o quanto eu ODEIO esse sotaque. - Eu vivo sozinho. Você e aquele calhorda do Inácio sabem muito bem disso. - Não por muito tempo. Ela quase disparo o revólver quando ela puxa um objeto sob a coxa. Ela ri. - Ah, meu amor, você agora tem medo até de uma simples escova de cabelos? - continua rindo e inicia o gracioso ritual de desembaraçar os lindos cabelos macios que tantas vezes acariciei em outro tempo, em outra vida... Em outro planeta. Pisco os olhos rapidamente, estremeço o pescoço, recupero a concentração. Ela não é uma mulher, ela não é deliciosa, ela não está ali para se reconciliar, eu sei muito bem porque ela está aqui e, se minha concentração falhar (merda de tequila, merda de armazinha de bicha, merda de coxas maravilhosas, caralho, concentre-se seu merda!), realmente poderei dispensar a faxineira. Para sempre. - Eu não sou mais seu amor e pode dizer ao Inácio para ir à puta que o pariu. Não trabalho mais para ele, essa decisão é definitiva, quem ficar no meu caminho... - Ah, meu amor, você não mudou nada, como eu já esperava... O mesmo bagunceiro ("baguncerro", maldito sotaque) de sempre, o mesmo falastrão boca-suja de sempre... Ela desfia os cabelos grudados na escova com os dedinhos graciosos até dar-se por satisfeita. Metódica, pousa a escova limpa sobre a bancada ao lado do pequeno chumacinho de cabelos que, certamente, jogaria fora em lugar adequado após cumprir sua missão. Essa irritante mania de limpeza e arrumação. Dentre os seios, novamente ela saca um objeto e eu, novamente, quase disparo a armazinha de bicha. - Não faça movimentos bruscos, cadela. Não quero seu sangue imundo respingando meu espelho. E pare de falar com sotaque, você sabe que eu odeio esse seu maldito sotaque. Ela abre a boca num falso estupefato sorriso de modelo que se viu flagrada por um paparazzo no camarim exibindo dois inofensivos palitos com os quais amarra os cabelos num coque improvisado, exibindo a nuca deslumbrante para deleite do meu descuido. - Você acha mesmo que eu vim aqui por causa do Inácio? - ela ignora minhas ordens, falando com sotaque e esfregando creme hidratante lentamente nas pernas - Você é um insensível. Tudo porque passamos, todos os sacrifícios que fiz por você... Aprender a falar a sua língua enquanto você se recusava a aprender a minha... Obrigar-me a pronunciar tudo com perfeição, abdicando até mesmo do meu sotaque... Suas farras, suas mulheres, sua falta de compromisso com o dinheiro que ganhávamos juntos... - Dinheiro sujo. O Inácio que o enfie no rabo. - Era nosso dinheiro, meu amor. O dinheiro que sustentava nossa vida, construiu este apartamento para nós... - Este apartamento é meu. Eu já morava aqui quando você veio morar aqui. - Mas fui eu quem o decorou e organizou e fez dele o nosso ninho de amor em vez do chiqueiro em que costumava viver... - Talvez eu prefira morar numa pocilga e conviver com porcos do que a companhia de gente como você e Inácio. Ela não deixava de admirar-se no espelho, fazendo poses, olhares e beicinhos. De súbito, volta-se para mim. - Eu não estou linda hoje, amor? Não acha que mereço uma sessão de fotos? Maldita tequila, "sessão de fotos", percebo meio segundo tarde demais, a nossa senha, puta que o pariu, a escova de cabelos voa com o cabo em minha direção, uma pontuda lâmina de aço que abre um corte no meu supercílio antes de cravar-se no portal de madeira de lei, merda de tequila, reflexos lentos, meu supercílio sangra e me movo lento demais, dois palitos de cabelo afiados como flechas voam em minha direção mas só consigo me desviar de um deles, o outro perfura meu pulso esquerdo, a mão que segurava a maldita armazinha de bicha, agacho-me para recuperá-la com a mão direita tão rápido quanto posso mas tropeço na cadeira, maldita cadeira que me fraturou a tíbia, bendita cadeira que salvou minha vida, que me salvou da rajada da pistola Uzi pequena o suficiente para ocultar-se do meu olhar na generosidade de suas coxas, que ela disparou com sua pontaria infernal, acertando a parede no local onde eu deveria estar se a maldita-bendita cadeira não tivesse desviado minha trajetória caso não tivesse quebrado minha perna, alcanço a arma e a disparo cinco vezes às cegas com minha mão direita, minha mão ruim, os olhos turvos pelo sangue que escorre pelo supercílio e espero a morte por alguns segundos no caríssimo carpete coalhado de cacos de vidro. A morte não chega. Enxugo os olhos e vejo que meu espelho está destruído por cinco disparos de 38 (maldita armazinha de bicha) e que não há uma gota de sangue em lugar algum que não pertença a mim. Sim, a filha-da-puta continua com bom-humor. Antes de desaparecer junto com o chumacinho de cabelos soltos após a escovação - que jogaria fora em lugar adequado, a filha-da-puta - ainda teve tempo de desenhar com batom um coração com nossas iniciais no que restou do espelho. Texto de Alexei Gonçalves sobre foto de Fernanda Lizardo. Publicado inicialmente no blog de Fernanda Lizardo Dicas de Literatura Livro das Cortesãs - L&PM Nesta coletânea organizada por Sergio Faraco, poetas portugueses e brasileiros dos séculos passados vêm trazer aos leitores de hoje a suma dos ambíguos sentimentos que, através dos tempos, elas têm despertado. |
| Edição 1 | Poesias  Arquivos Cooper O que mais me fascina nos seres humanos é a capacidade que eles têm de se perder em minhas palavras e ações. Conheci um homem que simplesmente não sabia nunca o que esperar de mim! Ele se confundia de maneira surpreendente com meus orgasmos e momentos de fúria. Me espantava sua capacidade de inocentar meus pensamentos mais sórdidos! Não sei se ele era mesmo ingênuo ou se camuflava sua perspicácia para manter-se ao meu lado, mas... Não, suas tiradas eram estúpidas demais! Ele era um perdedor genuíno. Mas trepava bem... Enquanto não mantinha suas perguntas ativas e se intrigava com minhas atitudes antagônicas, era um homem interessante. Por isso eu fazia tanta questão de manter sua língua entre minhas pernas - um sexo oral maravilhoso e nenhuma questão levantada sobre meu passado! Não sei mais onde anda esse indivíduo... Na última vez em que o vi foi num velho galpão do cais. Deitamos entre caixas de Chardonay e ele tentou induzir o sexo à sua maneira, exigindo toques específicos e carícias ensaiadas, como numa coletânea vagabunda sobre sexo. Eu o deixei pensar que seria daquela maneira, mas modifiquei o curso das coisas aos poucos. Em minutos ele estava me batendo - e os estalos dos tapas ecoando por todo o cômodo - e não demorou a levar à boca ao alvo desejado! Confesso que o estampido dos dedos dele sobre meu rosto eram mais excitantes do que qualquer lambida entre os lábios. Ele fez o que tinha de ser feito, influenciado pelo meu instinto e pela vontade de descobrir quem era a verdadeira mulher que alternava beijos alcoólicos e xingamentos sóbrios! Ele enlouquecia com mínhas facetas, queria me decifrar e se perdia nos meus enigmas intermináveis. Assim que gozei, levantei-me e comecei a caminhar - semi nua - pisando nas tábuas carcomidas e tentando fazer um ritmo coerente com cada rangido produzido. Ele reclamou algo sobre não ter sido tocado por mim, mas não dei ouvidos: virei-me e, de pé, frente a frente, encarei seu corpo de maneira convidativa; ele continuou deitado e iniciou uma masturbação tensa - a mais tensa que já presenciei em toda minha vida! Parecia inconformado com minha frieza, mas totalmente satisfeito por saber que poucos têm o privilégio de estar comigo. Assim que terminou, com seus gemidos contidos que mais pareciam uma reação à dor, vesti minhas roupas rapidamente e me dirigi à porta. Ele perguntou onde eu iria. "Embora", respondi. Ele queria saber se nos veríamos de novo... Completei: "Claro! Eu te ligo!". Publicado inicialmente no blog de Fernanda Lizardo Dicas de Literatura Martha Medeiros - Poesia Reunida L&PM É uma seleção de poemas de Martha Medeiros feita a partir dos livros Strip Tease (1985), Meia- Noite e um Quarto (1987), Persona non Grata (1991) e De Cara Lavada (19950. Um livro gostoso de se ler, versos atrevidos com amor e sensualidade. |