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| Edição 10 | Sade
O Marquês de Sade, que viveu durante a Revolução
Francesa, passou um terço da sua vida na prisão, onde produziu
a maior parte das suas obras. Sade nasceu em 1740, aristocrata, e morreu
na pobreza, em 1814, num hospício. A Justificação do assassínio A única coisa que fazemos, ao nos entregar à
destruição, nada mais é do que operar uma variação
nas formas, mas que não pode extinguir a vida e que se coloca acima
das forças humanas no sentido de provar que não pode existir
crime algum na pretensa destruição de uma criatura de qualquer
idade, sexo ou espécie que possa imaginar. Conduzidos ainda mais
adiante pela série de nossas conseqüências, que decorrem
umas das outras, será necessário convir finalmente que,
longe de ser prejudicial à natureza, a ação que você
comete, variando as formas de suas diferentes obras, é vantajosa
para ela, posto que lhe fornece, por meio dessa ação, a
matéria-prima de suas reconstruções, cujo trabalho
ser-lhe-ia impraticável se você não destruísse.
Eh! Deixem-na agir, dizem a você. É certo que é preciso
deixá-la agir, mas é a seus impulsos que o homem segue quando
se etrega ao homicídio; é a natureza que aconselha, e o
homem que destrói seu semelhante vale para a natureza o mesmo que
a peste ou a fome, igualmente enviadas por sua mão, a qual se serve
de todos os meios possíveis para obter o quanto antes essa matéria-prima
de destruição, absolutamente essencial às suas obras. VERGEZ, André & HUISMAN, Denis. História dos filósofos ilustrada pelos textos. 6 ed. Rio de Janeiro. Freitas Bastos. 1984. P. 231-236.
Cinema
Um amigo recomendou-me outro dia que assistisse a Império dos Sentidos, que eu iria gostar. Sendo ele um cara inteligente e de bom gosto, fiquei curiosa - nunca tinha ouvido falar. Saí de casa dizendo que ia à locadora buscar este filme e a cara de espanto da minha mãe foi impagável, merecedora de pôster e moldura. Não entendi nada até chegar à locadora: a atendente me disse que o filme em questão estava na seção pornográfica. Fiquei desconsertada. Eu tinha ido locar um filme pornô sem saber. O meu amigo teria achado um filme pornô "a minha cara"? (não que eu não goste, mas isso é outra história). Bom, já estava ali, então não ia dar pra trás. Empinei o nariz e disse: "dá esse mesmo". Em casa, fui entrando e anunciando: "Vou ver Império dos Sentidos, alguém me acompanha?" Veio todo mundo para a sala. Papai, mamãe, irmão, cachorro. Ah, então o filme era "indecente" mas ninguém ia perder, né? Só eu mesmo pra assistir um filme desses em família, arre! Soltei o filme. No princípio os adolescentes se cansaram: "Pó, filme de japonês?", mas logo em seguida arregalaram os olhos e ninguém falou mais nada. Aliás, minto. Volta e meia mamãe soltava um: "credo!". Dirigido por Nagisa Oshima, Império dos Sentidos é ambientado em 1936, quando o Japão era marcado pelo conflito entre as culturas oriental e ocidental. Abe Sada, a personagem principal, emprega-se na casa de Kichizo e, entre as tarefas humildes, espiona as intimidades do patrão e da esposa durante algum tempo, até que ela mesma se torna amante de Kichizo. Mas Sada está longe de ser a amante como estamos acostumados a pensar. Furtiva, relegada ao segundo plano, resignando-se em ser uma válvula de escape para o casamento do amante. Não. Ela se torna o centro da vida de Kichizo e nunca se envergonha do seu amor e de seu ato sexual, não se importando sequer em ser observada, em fazê-lo em público. Sada é considerada a representante de uma era pré-ocidental e pré-cristã, em que, em lugar da virgindade, o principal valor é a experiência. Ela torna a prática sexual uma necessidade, através da qual busca saciedade e gozo incessantemente. Experimenta de tudo, faz questão de procurar o prazer em cada recôndito do corpo e da alma do amante e da sua própria. Os amantes evocam práticas diversas para temperar o ato sexual como voyeurismo, pompoarismo, sadomasoquismo e até asfixia. Há cenas fantásticas e antológicas, como a do ovo - não vou contar, morram de curiosidade ou assistam ao filme! - ou a final, majestosa e chocante. O filme significou um ato de libertação, uma mudança na vida de cada um dos envolvidos. Os atores fizeram sexo realmente em todas as cenas - a esposa do protagonista teve que aceitar a idéia do marido tendo relações com outra mulher ante uma câmera. Segundo o próprio diretor, a equipe técnica transformou-se em idólatra da erotômana Abe Sada, transformando a atmosfera das filmagens e da própria película, em ritualística, densa, solene. Assistir ao filme é presenciar o culto a uma entidade: o sexo. Precisa falar mais? Confira! Lívia Santana. Fonte de pesquisa: "O Império dos Sentidos" ensaio de Lúcia Nagib. Música LENHA Eu não sei dizer
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| Edição 9 | Di Cavalcanti " - A mulata, para mim, é um símbolo
do Brasil. Emiliano Di Cavalcanti nasceu em 6 de setembro de 1897, no Rio de Janeiro. Quando seu pai morre em 1914, Di obriga-se a trabalhar e faz ilustrações para a revista Fon-Fon. Matriculou-se na Faculdade de Direito dois anos depois e em 1917, mudou-se para São Paulo, não tendo terminado o curso. Em fevereiro de 1922, tomou-se o pioneiro idealizador da Semana de Arte Moderna, galgando o mundo, expondo em Paris, Bélgica, Amsterdam, Roma, Nova York, Buenos Aires, Montevidéu e México. Conquistou medalha de ouro através do quadro "Mulata Desnuda", tema preferido por seus admiradores, onde "- a mais loura brasileira é a minha mulata metafísica...". Di Cavalcanti declarou-se um admirador da mulher brasileira, sempre "soube revelar o rosado recôndito" das mulatas" e mais que tudo: "é sempre o mais exato pintor das coisas nacionais" segundo o escritor Mário de Andrade. Segundo Renato Rosa, a semelhança entre Vinícius
e Di, não é mera coincidência. Amigos, ambos poetas,
escritores e boêmios. Vinícius em versos homenageou o pintor:
Sensualidade, arte barroca, erotismo, religiosidade, mulheres, cubismo, festas populares, samba e carnaval, burguesia, pescadores, natureza morta, folclore, flores, mar, impressionismo, paisagens, maternidade misturando-se a caricaturas, charges, portraits, paineis, murais, cenários e ilustrações. Produziu suas obras por mais de cinco décadas. Morreu em 1976, no Rio de Janeiro.
Crítica:
Emiliano Di Cavalcanti, famoso pela sua maneira sensual e plástica de pintar, pouca gente sabe, começou como desenhista e ilustrador. Os seus desenhos estão entre o que de melhor já fez e marcam decisivamente uma época de nossa história. Jacob Klintowitz - In, Mestres do Desenho Brasileiro, 1983. (...)A sua obra reflete como nenhuma outra,
pela extensão no tempo, a vida do nosso povo. O carnaval, o ritmo
e a ginga dos sambistas, as baianas, as mulatas capitosas, as mulheres
da vida, os passistas, os malandros, os seresteiros, os bailes de gafieira,
os trabalhadores, a paisagem, enfim a própria vida do País
está presente em sua pintura, que é sempre vigorosa. Em EMILIANO DI CAVALCANTI encontrou a pintura
um de seus maiores e mais originais intérpretes: sensual e expressivo,
o fabuloso artista - numa carreira de mais de 50 anos -, vem criando mitos
visuais que hão de permanecer como outros tantos pontos altos da
arte nacional. Nessas poucas linhas, que não pretendem ser de modo
algum uma análise, apenas quero expressar a admiração
pelo pintor e o privilégio, que me coube, de Ter por vezes podido
desfrutar de sua companhia. Fonte:(http://www.dicavalcanti.com.br) Música Mulata no Sapateado Quem tem mais balanço no sapateado Quem é mais faceira, mais apaixonada, Quem é que se mostra Sim, é a mulata seja lá donde ela for Tanto faz no samba de partido alto Que prazer quando ela gira o mostrador
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| Edição 8 | Cinema Secretária (Secretary) - 2002
Elenco: James Spader, Maggie Gyllenhaal, Jeremy Davies, Lesley Ann Warren, Stephen McHattie. Direção: Steven Shainberg site oficial: http://www.secretarythemovie.co.uk/html/home.html Adaptado de uma história da escritora americana Mary Gaitskill.
A história começa dramática, mostrando uma jovem (Maggie Gyllenhaal) recém saída do manicômio, onde tinha sido internada porque cortava a si mesma. De um jeito meio autômato, ela vive sem maiores acontecimentos - a vida ainda não tinha sido despertada. É quando se emprega como secretária de um advogado (James Spader) nada ortodoxo. Ela, que nunca havia trabalhado, se vê atirada num turbilhão de acontecimentos. O patrão é imprevisível e politicamente incorreto, ela é insegura e ansiosa por agradá-lo - na verdade, extrapola o perfeccionismo, a ponto de entrar na lixeira para procurar uma petição perdida. Lentamente os dois vão se envolvendo por trás das portas fechadas. O que era relação profissional passa a ser um abismo profundo de sensualidade, um caso de amor único, entremeado de dominação e submissão, com o encaixe perfeito dos dois. Inusitado, é o adjetivo que me vem automaticamente à lembrança. Uma história de amor forte, ímpar, carregada de erotismo sutil - não há cenas explícitas e nem mesmo clichês - e contemporâneo. Demonstra que o amor nem sempre acontece de determinadas maneiras, sob formatos previsíveis. Aliás, se tem alguma coisa que não se pode dizer sobre o filme, é que ele é previsível! Música VOLTA Quantas noites não durmo O calor das cobertas Volta!
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| Edição 7 | Galeria Representação da moralidade sexual em retratos de crianças holandesas do século XVII
Pintura de Theodoor van Thulden (1651) "Retrato de Josina Copes-Shade van Vestrum e seus filhos. A mãe exibe os filhos, que estão diante da escolha do bem e do mal. O mal é simbolizado por Baco, Vênus e Cupido, representando a luxúria, paixão que os pais deveriam frear em uma criança.
Pintura de Ludolf de Jongh (1661) Neste retrato, está simbolizada a teoria de Plutarco, derivada de Aristótoles, que afirmava que a aptidão natural deve sempre ser melhorada pela prática constante de regras. Plutarco esclarecia essa idéia por meio de metáforas educacionais, utilizando principalmente a metáfora de Licurgo, rei lendário de Esparta. A tese proposta era a de que somente pelo adestramento poderia se alcançar uma boa educação. Para exemplificar, ele pegou dois cães, uma tigela de comida e, ao mesmo tempo, soltou uma lebre. Um dos cães foi caçar a lebre e a trouxe de volta, eenquanto o outro atacou o prato de comida. Ele explicou que os dois cães eram do mesmo canil, mas tinham sido criados de maneira diferentes, um como um cão de caça e o outro não foi disciplinado. Com esta intenção de disciplina, era comum retratar crianças com um cão bem comportado, que se senta nas patas traseiras e ergue as dianteiras.
Maeghde-Wapen, em Jacob Cats, Houwelyck (Haarlem, 1642) Esta figura ilustra o famoso manual de comportamento de Jacob Cats, acompanhada do poema Maeghde-Wapen (Armas da Donzela), no qual o autor compara a jovem virgem a uma flor em botão. A idéia subjacente é a de que a jovem deve ser tratada como uma delicada flor para que ainda esteja incólume ao desabrochar, uma advertência contra o amor físico fora do casamento. Na iconologia, a jovem com um papagaio personifica a docilidade.
Vryster-Wapen, em Jacob Cats, Houwelyck (Haarlem, 1642) O Vryster-Wapen (o brasão da solteirona), expressa o ideal de castidade em defesa da virgem que não se casou. Na imagem, pode-se ler a mensagem "Una via est" (existe apenas um caminho). O cacho de uva simboliza a virgindade da donzela e, o caule, o casamento. A mão pertence ao homem que pode apenas se apossar da uva (jovem) pelo caule (casamento), a fim de evitar que as uvas percam o viço.
J.A. Rotius, Portrait of a boy. A relação entre o cabresto e o freio à sexualidade ocorre no retrato acima. A criança com um chicote, ou um bastão, freia o bode (animal tradicionalmente relacionado a luxúria).
J. G. Guyp, Portrait a little girl playng with cat and fish. Neste retrato o gato representa a contenção dos apetites carnais, que a menina afasta do objeto de sua gula (um peixe).
BEDAUX, Jan Baptist. Um freio à luxúria: representações da moralidade sexual em retratos de crianças holandesas do século XVII. Org. BREMMER, Jam. In: De Safo a Sade - Momentos na história da sexualidade. Campinas: Papirus, 1995, p. 81-90. Música CÓDIGO DE ACESSO Eu não tenho preço
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| Edição 6 | Galeria Clarisse Lerman - Collages
Música GAROTOS Seus olhos e seus olhares Garotos não resistem Seus dentes e seus sorrisos Garotos não resistem
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