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| edição 60 | O TAO do Corpo: entre a Anorexia e a Vigorexia, que tal escolher o Equilíbrio?Alexei Gonçalves
Em edições anteriores, abordamos a corporalidade sob a ótica da saúde, do equilíbrio e do prazer. Tratamos tanto das desvantagens do não-movimento , quanto das vantagens de usar o movimento para tratar doenças e reabilitar pessoas acometidas por lesões. E também falamos sobre o movimento como meio para a busca de prazer, de boas sensações, de um bem-estar geral, tanto físico quanto psicológico. Mas procuramos esclarecer, também, o perigo dos excessos que podem provocar lesões.
O medo de lesões não deve ser um obstáculo ao movimento. O corpo humano foi projetado pela Natureza para movimentar-se dentro de determinados limites, que podem ser estendidos, sob condições controladas, para realizar o Belo, seja na Arte ou no Esporte. Entretanto, parece haver um dilema de ovo-e-galinha quando se trata da relação da psique humana com o corpo: é a sociedade capitalista-consumista que provoca desequilíbrios como a anorexia, a bulimia e a vigorexia, ou esses desequilíbrios, de uma forma ou de outra, já existem dentro da psique humana, encontrando apenas novos meios de expressão quando a sociedade capitalista-consumista oferece novos produtos, obsessivamente mercantilizados pelos meios de comunicação e introjetados pelo imaginário social? Anorexia e bulimia, distúrbios alimentares normalmente associados às mulheres, já foram extensamente abordados pela mídia, inclusive em telenovelas e seriados. Já a vigorexia começa a preencher as páginas de revistas e da Web. Vejamos as definições clínicas desses distúrbios (Ballone, 2006): Anorexia Nervosa: transtorno emocional que consiste em uma perda de peso derivada e um intenso temor da obesidade, que acomete principalmente mulheres muito jovens, entre 14 e 18 anos. Bulimia Nervosa: transtorno mental que se caracteriza por episódios repetidos de ingestão excessiva de alimentos num curto espaço de tempo (as crises bulímicas), seguido por uma preocupação exagerada sobre o controle do peso corporal, o que leva a pessoa a adotar condutas inadequadas e perigosas para sua saúde, como o vômito freqüente, uso abusivo de laxantes e diuréticos, acometendo principalmente mulheres jovens. Vigorexia: também chamada de "Síndrome de Adônis", é um transtorno no qual as pessoas realizam práticas esportivas de forma contínua, beirando o fanatismo ou a ponto de fazer exigências cada vez maiores de seu corpo, ignorando dores, lesões e até mesmo contra-indicações médicas. O Dr. Ballone usa a expressão "escravagismo estético" para se referir a esses transtornos: a submissão da mente à obsessão pelo corpo levaria a pessoa a abandonar outros aspectos importantes de sua vida, associando-se ao sacrifício dos contatos sociais, retraimento no contato com o sexo oposto, consumo de medicamentos perigosos, entre outros.
Em primeiro lugar, a vigorexia não acomete somente homens, como ressalta a Dra. Marta Castells, do Collegi de Farmacèutics de Barcelona: "A vigorexia afeta majoritariamente a homens, mas tambén pode ocorrer em mulheres". (Castells, 2006). Em segundo lugar, a vigorexia não é um distúrbio estritamente alimentar, como a anorexia e a bulimia (Perez, 2006), mas tem sido apontada como possível causa inicial desses distúrbios alimentares em homens, como ressalta Fernando Fernández, psicólogo adjunto do serviço de psiquiatria do Hospital Bellvitge de Barcelona (Garcia, 2006): "Aproximadamente 10 por cento dos 700,000 casos de anorexia que, segundo o Ministério da Saúde, ocorrem na Espanha, afetam a homens ou meninos e, desses, uma terça parte corresponderia a um desencadeamento a partir do que conhecemos como vigorexia". O motivo residiria no fato de que a obsessão pelo corpo perfeito acabaria conduzindo o paciente a modificar prejudicialmente seu padrão alimentar, até ultrapassar as fronteiras da bulimia e da anorexia. Todos esses dados deveriam nos fazer refletir sobre o nosso modo de pensar e de agir. Se seguirmos pelo caminho fácil do extremismo, poderíamos chegar a uma discussão estéril sobre o que é melhor - ou menos pior: quatro horas de imobilidade diária à frente do computador navegando na Internet ou quatro horas diárias de malhação na academia... Uma grande bobagem pois, reconhecidamente, todo comportamento que se transforme em obsessão, se sobrepondo e prejudicando outras áreas da vida, pode ser considerado patológico (Ballone, 2006). O fato é que o bombardeio de mensagens sensacionalistas sobre o corpo não nos ajuda a pensar em termos de equilíbrio. Extremismos dão boas manchetes, bons títulos de artigos, aumentam números de audiência, mas não informam adequadamente às pessoas que acessam essa desinformação. Ao contrário, de-formam o pensamento, alimentam medos, dúvidas, angústias e incentivam comportamentos extremados, inadequados. Não seria melhor pensar a atividade física como um meio de obter mais prazer e felicidade, em vez um objetivo em si mesmo? Como ressalta o Prof. José Carlos Caracuel Tubío, especialista em Análise do Comportamento Humano e Psicologia do Esporte e Presidente da Federação Espanhola de Psicologia do Esporte, "a vigorexia deriva de uma confusão entre meios e fins. O problema surge quando não se utiliza o exercício físico como um meio para levar uma vida mais saudável. A obtenção de um corpo musculoso se converte em um fim em si mesmo e esta obsessão pode acarretar a adoção de hábitos não saudáveis" (Castillo, 2006). Questiono até mesmo a colocação do Prof. Caracuel Tubío quanto ao objetivo de "vida saudável". Que tal pensar em uma atividade que você gosta de fazer, em algo que você faria por diversão, se sentiria alegre em praticar? Deixe de lado a tirania do rótulo "vida saudável" - pense na saúde como conseqüência do prazer! Seja correndo, nadando, jogando futebol, dançando ou praticando musculação, você vai obter benefícios para seu corpo, desde que sob orientação profissional adequada, respeitando os seus limites... E que você não use essa atividade como uma compensação para frustrações em outras áreas de sua vida! Como diz Claudia Perez, em belíssimo artigo sobre o prazer de dançar: "Os objetivos fundamentais de qualquer tipo de programa de condicionamento físico são força, flexibilidade e resistência... Ao dançar, movem-se, contraem-se e estiram-se uma grande quantidade de músculos, articulações, tendões e ligamentos; ao dançar, exercita-se de forma integral o corpo quase em sua totalidade... Experimente! E se já gosta de dança, desfrute-a, dançar é uma de tantas maneiras boas e sãs de canalizar energia, relaxar, distrair-se e divertir-se..." Referências Bibliográficas: BALLONE, GJ. A tirania do corpo. Disponível em: http://virtualpsy.locaweb.com.br/index.php?art=373&sec=94. Acessado em: sexta-feira, 8 de setembro de 2006, 16:15:32. CASTELLS, Marta. Vigorexia: obsesión por un cuerpo musculoso. Disponível em: http://www.farmaceuticonline.com/cast/familia/familia_vigorexia_c.html. Acesso: sexta-feira, 8 de setembro de 2006 17:33:23 CASTILLO, Miguel. Vigorexia: mentes enfermas en cuerpos sanos. (Publicado em 2000). Disponível em: http://www.ondasalud.com/edicion/noticia/0,2458,4825,00.html Acessado em: sexta-feira, 8 de setembro de 2006 17:27:51 FRUTUOSO, Suzane. Bombados pela vaidade.
Disponível em: http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,6993,EPT797622-1664,00.html.
Acessado em: sexta-feira, 8 de setembro de 2006 17:25:54 PEREZ, Claudia. ¡ A Bailar ! Disponível
em: http://www.aerobics.com.mx/scripts/articulos/contenido.asp?id=103 ______________.Vigorexia. Disponível
em: http://www.aerobics.com.mx/scripts/articulos/contenido.asp?id=77 Dica de Leitura
Escrito por Linda M. Rio e Tara M. Rio, Diário
da Anorexia, ao contrário de qualquer outro livro, leva
o leitor para dentro do mundo intrigante de transtornos alimentares
entre adolescentes. Testemunhe a história
real nos diários íntimos que revelam
os momentos mais sombrios da família Rio - e as vitórias.
Tara Rio era uma adolescente comum - boa aluna, boa atleta e boa filha.
Ela também sabia como manter segredos; segredos que só eram
conhecidos pelo seu diário. Sua mãe, Linda, também
guardava segredos no próprio diário sobre seu casamento
e suas ambições de uma vida melhor. Quando Linda descobre
o segredo da filha, lutando com transtornos alimentares, finalmente elas
encontram meios de se ligar uma à outra para proteger a família
e mudar a vida de Tara, conseguindo sua recuperação. |
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| edição59 | Entrevista - Cecília Panelli fala sobre DançaGéssica Hellmann A graduação em dança da prof. Cecília
Panelli, que publicou um artigo sobre Pilates,
muito me interessou pois, natural de Joinville - SC, comecei a praticar
dança folclórica alemã aos 12 anos de idade. Aos
18 anos, dei início à prática regular da dança
tradicionalista gaúcha. Enfim, sou uma aficionada, embora não-profissional, por dança. Ao criar a seção "Corporalidade", sempre esteve em minha mente uma entrevista sobre esse tema. Na última edição, fiz um pequeno "dever-de-casa", em que apresentei alguns trabalhos sobre lesões freqüentes em dançarinos profissionais. Um dos motivos por que escolhi esse tema foi ter tido acesso ao backstage de uma apresentação do Bolshoi em Joinville, em que vi uma bailarina com luxação no tornozelo aliviando a dor com gelo enquanto se preparava para ir ao palco... Algo impressionante para olhos não profissionais.
Géh: Você pode falar um pouco sobre a sua formação e prática em dança? Cecílica Panelli: Atuei profissionalmente como bailarina e, desde a minha infância, acostumei-me a conviver com as dores no corpo, as privações no tempo, lazer e com o clima competitivo em busca da melhor performance. Estudei ballet clássico e esta foi a única linguagem até meu ingresso na faculdade de Dança da Unicamp em Campinas - SP em que tive a oportunidade de experenciar vários estilos, desde a dança moderna contemporânea, danças folclóricas, além de um amplo conhecimento em técnicas de expressividade, consciência corporal, música, teatro... Uma bagagem que me levou ao aperfeiçoamento na técnica de Dança Moderna no Limón Institute em Nova York. Géh: Aprendi, nos cursos que freqüentei, a importância da postura correta na execução dos movimentos. Você poderia desenvolver esse assunto? A prática da dança pode contribuir para a correção de vícios posturais? Cecílica Panelli: As atividades físicas em geral desenvolvem grupos musculares relevantes para a manutenção da boa postura e sua correção. A Dança estimula o desenvolvimento de variados grupos musculares e o fortalecimento da região abdominal tem importância especial no desenvolvimento da boa postura. Aliado a isto, existem as técnicas de consciência corporal que são estímulos ao correto posicionamento e execução de movimentos. A precisão durante a execução de movimentos com atenção direcionada é muito estimulada nas atividades de dança, facilitam a compreensão e o bom posicionamento através do acesso a uma "memória muscular" de que dispomos inconscientemente. Géh: Sobre a importância na dança no Domínio do Movimento - Corpo-Expressividade-Forma-Espaço - é algo que sinto na prática cotidiana, fora dos salões. Um benefício que trouxe para a vida. Você pode falar sobre a importância desses fatores, como eles são adquiridos, os benefícios para o dançarino, mesmo os não-profissionais? Cecílica Panelli: Porque é tão fácil identificar pessoas que já experenciaram a dança de quem não teve nenhum contato? Um corpo-dançarino você reconhece no olhar... Quando ministrei aulas de dança durante meu período de estágio, pude observar crianças e adolescentes que não tinham nenhuma intimidade com a dança. Tentava ensinar movimentos simples como um passo para um lado e para o outro e simplesmente não conseguiam ritmo e coordenação! Cada vez mais a cultura do não movimento tem afetado a noção espacial, a expressividade e a coordenação motora. As escolas de hoje que não ministram aulas de informática e/ou inglês são muitas vezes desprezadas. Observamos pais orgulhosos de seus filhos aos quatro, cinco anos... operando um computador com habilidade. Não que essas atividades não sejam importantes, entretanto o tempo destinado ao brincar, dançar, ao movimento muitas vezes acaba sendo sacrificado. Negligenciando esses fatores, grande parte da população sofre hoje de dores principalmente relacionadas aos defeitos posturais e musculares resultante do trabalho corporal apenas com movimentos mecânicos diários. Géh: A dança está diretamente vinculada ao corpo, sua linguagem é configurada pelo movimento, criando um vocabulário próprio de gestos significativos. Você pode comentar sobre esta relação entre corporeidade e a dança? Cecílica Panelli: Ainda hoje, observamos um padrão social de movimento rígido, disciplinado e prioridade da performance sem preocupação com o ser humano. Nossas normas sociais, muitas vezes, tornam difícil a expressão de nossos sentimentos e favorecem uma postura distante, valorizando a cultura física sem atenção às sensações, percepções e sentimentos. Mill, em 1991, já escreveu que a natureza humana não é máquina a ser construída segundo um modelo e destinada a realizar a tarefa a ela prescrita, mas sim uma árvore que necessita crescer e desenvolver-se para todos os lados. Muitas vezes, os movimentos são estereotipados e sem criatividade. Através das atividades de dança adaptada as características individuais, que constitua um meio de leitura corporal do gesto e das formas corporais, porporcionam-se elementos de diálogo com o corpo, respeitando o desenvolvimento das potencialidades motrizes de cada pessoa. Como afirmou Santin (1998): "A corporeidade é o que faz que cada corpo seja tal corpo". Géh: "Na dança, a maioria da lesões deve-se a erros de técnica e de treinamento. Um erro freqüente de treinamento tanto em bailarinas jovens como experientes é a repetição de uma parte da coreografia, geralmente não-familiar, para treinar à exaustão e conseguir realizá-la. Infelizmente, as repetições continuam mesmo depois da fadiga de ponta, devido à determinação das bailarinas de atingirem a perfeição. É importante indagar da dançarina lesionada sobre a prática de novas coreografias ou habilidades. A maioria das lesões ocorre com o aumento de classe, ensaios ou forma súbita da técnica. (Dr. Renato Romani)". Você concorda com essa afirmação? Cecílica Panelli: Na recuperação de minhas lesões estive muitas vezes sujeita a tratamentos médicos do tipo: "se você parasse de dançar...seu joelho ficaria bom...". Mas como compreendo que o bailarino não pode e nem consegue deixar de atuar, procurei estudar meios que contribuissem para minimizar a dor e atuar, igualmente, como medidas preventivas e de reabilitação. Em Nova York, pesquisei as bailarinas do New York City Ballet e descobri que parte do seu preparo físico era realizado utilizando a Técnica Clássica de Joseph Pilates. Ao estimular um maior grupos de músculos através do desenvolvimento do trabalho equilibrado entre força e flexibilidade, os principais fatores relacionados às lesões nos bailarinos, como supertreinamentos, síndrome do uso excessivo e iniciação precoce reduziram-se muito. Segundo Pedrinelli (2001), um corpo bem condicionado sofre um menor número de lesões. Portanto, acredito que a nossa falha esteja no preparo físico do bailarino, para que consiga suficiente capacidade física para atingir o desenvolvimento necessário para seu aperfeiçoamento técnico. Géh: "A prática dos bailarinos exige deles horas de treinamento exaustivo que envolve as articulações em posições excessivas, muitas vezes não-fisiológicas, podendo exceder a amplitude de movimento normal resultando em lesões". Na sua opinião o que é necessário para evitar essas lesões? Cecílica Panelli: Talvez eu já tenha respondido parte dessa questão acima, mas posso complementar apontando meu trabalho atual de preparação física com bailarinos utilizando a Técnica de Pilates. Em meu livro, destaquei uma citação de Joseph Pilates (1945): "Da mesma forma que tijolos pequenos são usados na construção de grandes edifícios, o desenvolvimento dos músculos menores vai ajudar a desenvolver músculos maiores. Assim quando todos os músculos são propriamente desenvolvidos, você vai naturalmente trabalhar fazendo um esforço mínimo e desfrutando de um prazer máximo". O que estamos afirmando é que pouca importância é dada aos fatores de prevenção para ampliar as condições necessárias para a boa performance do bailarino com menor risco possível. Nos Estados Unidos o bailarino é estimulado utilizando-se da linguagem do Método Pilates para desenvolver possibilidades motoras e intelectuais diferenciadas. Como consequência, tem maior atenção na composição de elementos de uma ação motora. Em resumo, a preparação física geral oferecida pelo Método Pilates fornece efeitos de transferência à especificidade dentro da dança garantindo uma melhor performance e menor índice de lesão. Géh: Li alguns artigos que se referem a uma polêmica referente à dança ser enquadrada ou não como uma atividade de "Educação Física" ou uma área exclusiva de "Arte", através do Sindicato dos Artistas - SATED ou do Sindicato da Dança - SINDIDANÇA. Um professor de dança, na sua opinião precisa ter formação em Educação Física? Ou haveria diferenças quanto às modalidades de dança que deveriam ser consideradas nesse aspecto? Cecílica Panelli: Participei de vários seminários e discussões a respeito dessa polêmica. O departamento de Dança da Universidade Estadual de Campinas, pelo qual sou formada, tem uma grade disciplinar bem diferenciada do da Educação Física. A Dança no nível de graduação é regulamentada pela área de Artes, enquanto que a Educação Física, pela área de saúde. Existem atualmente excelentes faculdades de Dança espalhadas pelo país e a formação em dança oferece excelente conhecimento e prepara muito bem o bailarino como bacharel ou licenciado para atuar no trabalho corporal nas mais variadas atividades. Dica de Leitura
María Fux condensa neste livro sua experiência de mais de 30 anos como coreógrafa e bailarina e, sobretudo, como educadora que transmite sua linguagem artística. O livro mostra como podemos nos expressar através do corpo como meio de comunicação a serviço da educação, mesmo quando há problemas de deficiência física ou limitação pela idade. |
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| edição 58 | Dança e o corpoGéssica Hellmann Como percebemos na entrevista com o Dr. Carlos Vaz e com a Professora Mestre Cecília Panelli, a modalidade de Pilates também é recomendada para tratamento e prevenção de lesões em dançarinos. Por isto, neste artigo, abordaremos a arte da dança, sua origem, seus benefícios e as principais lesões associadas à sua prática. Sabemos que a dança é a mais antiga das artes criadas pelo homem. "Nas pinturas das cavernas pré-históricas, podemos ver a tentativa dos primeiros artistas de mostrar o homem primitivo dançando. tanto na Grécia, Roma e Egito antigo a dança foi desde muito cedo a maneira de celebrar os deuses, de divertir o povo e a partir desse ritual se desenvolveram os elementos básicos para arte teatral atual. Onde o ballet-clássico é o desenvolvimento e a transformação dessa dança primitiva, que baseava-se no instinto, para uma dança formada de passos diferentes, de ligações, de gestos de figuras previamente elaborados para um ou mais participantes" (A História, 2006).
Para Guerra (2006) "O movimento humano é um processo de altíssima complexidade, que se caracteriza por variedades e qualidades inumeráveis e por uma versatilidade de respostas motoras devido às várias combinações neuromusculares possíveis a cada momento. A dança ao organizar seus códigos nas suas diversas linguagens, produz e ocupa continuamente o espaço transformando o estado do corpo em cada movimento que produz. Para que isso ocorra é necessária uma apurada integração dos sistemas corporais a fim de assegurarem a aquisição e a manutenção de domínios tão especializados e tão específicos (MARKONDES, 2001)". Fiz alguns cursos de Dança Tradicionalista Gaúcha, em que aprendi a importância de elementos como postura e expressão corporal, aprimorei minha percepção espacial, a capacidade de antecipar movimentos do parceiro, a coordenação motora. Foi uma importante experiência em minha vida. Hoje, utilizo técnicas que aprendi no cotidiano, na interação com as pessoas. A dança, na minha experiência, tem a capacidade de elevar o estado de espírito e alegrar a vida. "Através das aulas de Dança trabalhamos o desenvolvimento do equilíbrio mental aumentando a capacidade de tomar decisões e planejar (tempo), comprometer e persistir, saber esperar e se esforçar para atingir os objetivos pré-estabelecidos " (Os Benefícios, 2006). É extremamente importante, quando você escolhe uma academia de dança, conhecer a formação dos profissionais que a compõem. Se você escolhe se dedicar à dança, ao aprimoramento, é preciso estar atento aos chamados do corpo. É de grande importância o preparo físico prévio ao treinamento exaustivo de dança. "A prática dos bailarinos exige deles horas de treinamento exaustivo que envolve as articulações em posições excessivas, muitas vezes não-fisiológicas, podendo exceder a amplitude de movimento normal resultando em lesões. Geralmente o treinamento é composto por exercícios de aquecimento, alongamento, flexibilidade, quedas, saltos, equilíbrio, amplitudes exageradas de movimento, forças dinâmicas, estáticas e explosivas, giros, pegadas, criatividade, relaxamento, trabalho sobre sapatilha de pontas, resistência aeróbica, anaeróbica, entre outros, tudo para buscar o sincronismo perfeito e a técnica apurada que resultam em um desempenho corporal de qualidade" (Guerra, 2006). Para Monteiro (2006) "Para o senso comum, a dança caracteriza-se como atividade associada à expressão corporal e à arte e, por este motivo, as lesões não são consideradas como de grande importância". Para Guerra 2006, "O que se encontra na maioria das escolas de dança está muito aquém do desejado, pela falta de infra-estrutura adequada para salas de aula, e até mesmo pelo despreparo de muitos profissionais que atuam no mercado da dança. Em companhias profissionais têm surgido o interesse de proporcionar aos bailarinos uma assistência completa, dada por uma equipe multiprofissional composta por professores de dança altamente qualificados, educadores físicos, fisioterapeutas, nutricionistas, médicos, psicólogos, entre outros; com o objetivo de diminuir a incidência de lesões e o absenteísmo, e melhorar a qualidade da performance corporal (BITTAR, 2004)." A autora continua "Para a especialista em dança SAYONARA ANTUNES (2005), a falta de informação dos bailarinos sobre seu próprio corpo, faz com que o número de lesões seja cada vez maior, uma vez que muitos professores de dança apresentam-se despreparados no sentido de orientar seus alunos em questões anatômicas, cinesiológicas e fisiológicas, questões estas que estão diretamente ligadas à dança no que se refere ao rendimento técnico". A intenção deste artigo não é a de desestimular o exercício da dança, muito pelo contrário: o objetivo é somente de alertar, prevenir, concientizar para que os dançarinos procurem escutar e perceber os sinais do próprio corpo, procurando aprimorar técnicas que evitem causar traumatismos e lesões corporais e, caso percebam alguns desses sintomas, procurem ajuda imediata de especialistas. A dança é uma arte que deve ser feita com amor, dedicação, mas acima de tudo, com respeito ao instrumento mais precioso: seu próprio corpo. Relaciono abaixo as principais lesões mais comuns sofridas por bailarinos, segundo Monteiro (2006): Pés e tornozelos Calo Macio: Caracteriza-se por crescimento epitelial anormal, devido a ponto de pressão em área constantemente úmida. Desenvolve-se com maior freqüência no quarto e quinto artelhos. Na dança, os principais sintomas são a hipersensibilidade acompanhada de inflamação e dor, impedindo, muitas vezes, a bailarina de usar sapatilha de ponta, exatamente pela pressão que o peso do corpo exerce sobre os artelhos e a transpiração excessiva nos pés. Calo Duro: É definido como o estado crônico resultante da acumulação de espessa camada calosa, também denominada hiperqueratose. Desenvolvem-se acima do dorso do pé, e no topo dos dedos, ao redor do calcanhar, por cima das deformidades do joanete ou em qualquer outro ponto que um tipo particular de sapatilha ou estilo de dança possam causar fricção ou esfregamento (roçamento). Bolha: Resultado de fricção excessiva fazendo com que as camadas superiores da pele se separem (a epiderme se descola da derme). Há acúmulo de fluido na área de separação com formação da bolha. Os sintomas são dor e inflamação local. Na dança, o uso de sapatilha nova, exercícios prolongados, locais inadequados de prática, uso de sapatos apertados e atividades que solicitem paradas e mudanças repentinas de direção favorecem sua ocorrência. Hálux valgus (Joanete): É definido como o desvio do hálux de sua posição natural em direção lateral com proeminência medial na base do pé. O abdutor do hálux fica debilitado e deixa de atuar no sentido de conduzir o dedo para a sua posição natural. Com isso há espessamento da cabeça saliente do 1º metatarsiano. De modo geral, não são dolorosos, mas acarretam deformidades. Eventualmente, a dor pode ser causada pela formação de edema local em função de processo inflamatório. Um dos principais fatores de risco para a formação do joanete é o uso de sapatos de ponta fina que limitam a abdução do hálux desviando-o de seu leito anatômico natural, e forçando-o em direção à borda lateral do pé. Pode ser resultado, também, de um metatarso encurtado. Hálux Rígido: Consiste na incapacidade para fazer com que o hálux atinja uma faixa ampla de movimento, devido a uma artrite degenerativa da articulação metatarsofalangiana, que se torna rígida e inflexível; o grande artelho é incapaz de dorsifletir, interferindo, assim, no impulso durante a marcha. Fratura de estresse no tornozelo: É provocada por movimentos excessivos que promovem o remodelamento do osso em taxa mais rápida que o tolerado. O organismo tenta fortalecer o osso estressado, removendo o tecido ósseo antigo e fortalecendo o novo. Se essa resposta for excessiva o processo de reparação pode enfraquecer outras partes ósseas, onde o tecido ósseo novo será produzido; a área enfraquecida está mais sujeita a falhas mecânicas que podem resultar em solução de continuidade, também conhecida como fratura de estresse (JONES et al, 1994). O início dos sintomas é gradual e insidioso, sem relação específica com época do ano, condições climáticas ou lesão anterior. Entorse de tornozelo: Decorre de movimento brusco que ultrapassa os limites normais da mobilidade articular. Pode ser classificado em três graus, a saber: 1º grau, caracterizado por pequena falência das fibras colágenas dentro do ligamento; 2º grau, ocorre arrancamento parcial do ligamento e possivelmente da cápsula articular com considerável perda da força; 3º ?grau, quando resulta do arrancamento completo. (FATARELLI etal., 1997) Sesamoidite: Os ossos sesamóides são flutuantes e estão inseridos nos tendões flexores do grande artelho. Ele se articula com a superfície inferior do 1º metatarso, podendo se tornar inflamado e irritado. Trata-se de uma lesão típica de palco, porque é causada por movimento de hiperextensão do hálux, o que é necessário em praticamente todas as formas de dança. Neuroma de Morton: Os nervos que repousam entre os metatarsos tornam-se vulneráveis à impactação e ao pinçamento. Quando isto ocorre, pode se instalar nas células da cápsula envoltória uma fibrose perineural, comum entre as cabeças dos metatarsianos, que se manifesta como uma tumoração benigna. Portanto, não se trata propriamente de um tumor de nervo. Os sintomas são dor aguda e hipersensibilidade. O uso de calçados apertados ou outro tipo de pressão localizada podem ser os causadores da tumoração (FITT, 1988). Tendinite do flexor longo do hálux: A tendinite é um processo inflamatório que acomete os tendões, causada por estresse excessivo na unidade tendão-músculo. Ocorre principalmente em áreas com maior sobrecarga. Se não for tratada de forma adequada há risco de necrose, podendo ocorrer a ruptura do tendão (ELLEN, 1981). Bursite no tornozelo: Inflamação das bursas ocorrem por fricção excessiva, repetitiva ou traumatismos diretos. As bursas são bolsas lubrificantes com conteúdo sinovial: localizam-se em região de fricção entre tendões e ossos ou tendões, ossos e pele. Sua função é de facilitar o movimento dessas estruturas. Os principais sintomas das bursites são dor articular (permitindo distinguí-las das tendinites) que pode se irradiar ao longo da estrutura músculo-tendínea, limitação dos movimentos e edema. Tendinite de Aquiles: Na dança, os sinais e sintomas principais são o edema e sensibilidade à dor aumentada, quando da execução do demi-plié, relevé e aterrizagem; o movimento é freqüentemente acompanhado por estalido na porção inferior do tendão calcâneo. As causas da tendinite são a técnica pobre e o desalinhamento das pernas à execução do movimento. São comuns, também, em bailarinas idosas com tendões enfraquecidos pelo desgaste e naqueles que têm um plié mais vigoroso. É tipicamente causada pela falta de amortecimento (pliés) quando da aterrizagem de saltos e relevés (FITT,1988). Luxação e Sub-luxação do tornozelo: A luxação é caracterizada pela perda de contato entre as extremidades ósseas de uma superfície articular, geralmente acompanhada de lesão cápsuloligamentar. A subluxação ocorre quando dois ossos da articulação ainda permanecem parcialmente próximos (FATARELLI et al., 1997). Joelho de bailarinos Tendinite patelar ("Joelho de saltador"): No caso do agravo em questão é importante salientar que a designação "tendinite patelar", embora de uso habitual, é incorreta, pois é o ligamento patelar que é acometido e não o tendão. Os problemas mais freqüentes de tendinites envolvem o mecanismo do quadríceps femural. É causada por contrações súbitas e repetidas do quadríceps ao iniciar um movimento, podendo ocasionar micro-rupturas do ligamento na região inferior da patela, provocando a instalação de processo inflamatório. Os principais sintomas são a dor local após atividade ou até inabilidade para participar de aulas de dança, com sensibilidade acentuada na base da patela. Atividades como os saltos e dança flamenca (atividade agressiva e muito rápida) respondem pela maior parte desses agravos (APLEY; SOLOMON,1989). Instabilidade patelofemoral (Subluxação ou luxação da patela): Este agravo caracteriza-se por um continuum que vai desde um alinhamento vicioso até a instabilidade e a luxação (SNIDER, 2000). Lesão ligamentar: Nas lesões de 1°grau há dano microscópico das fibras de colágeno, sem causar frouxidão do ligamento. As de 2°grau caracterizam-se por ruptura ligamentar sem separação completa, enquanto que no 3°grau o ligamento é totalmente rompido e há maior instabilidade na articulação. Os sinais e sintomas são a sensação de estalo ao movimento, presença de edema e falta de coordenação em atividades realizadas com velocidade. Pode ser causada ao choque com outra pessoa ou objeto, ou quando a articulação é forçada além do seu movimento normal. Bursite do joelho: No joelho a presença de edema localizado, inflamação e dor ao realizar o demi-plié e grand-plié são sintomas característicos. Pode ser causada por flexão excessiva do joelho, contusão direta na área e/ou queda sobre o joelho fletido (WEICKER; CLINIC, 1988). Contusão: Resulta de pancadas traumáticas sobre os tecidos moles e sua severidade é proporcional à força aplicada. Os sintomas compreendem a presença de dor, edema, descoramento, hemorragia subcutânea com formação de hematoma. Ocorre por choque com outros bailarinos, queda, colisão com objeto, paredes ou chão. Abrasão: Atrito entre a pele e uma superfície áspera. A derme e a epiderme são lesionadas, gerando rompimento e exposição de grande número de capilares à sujeira, podendo ocorrer infecção. Não apresenta nenhum problema maior além de infecção, sangramento e pele lesionada. Síndrome Patelofemoral: Inflamação entre a patela e a parte anterior do fêmur. Qualquer alteração que leve a patela a se deslocar anormalmente do seu encaixe no fêmur pode resultar em desgaste impróprio e até ruptura do ligamento. Quadril e pelve de bailarinos Quadril estalante: O estalido sobre o quadril parece ter dois sítios anatômicos: um na superfície lateral (externa) do quadril que recobre o trocânter e o outro ântero-medial. O estalo pode ser devido à subluxação do quadril fora de seu sítio de articulação ou por causa do escorregamento do tendão íliopsoas sobre o fêmur. Artrite degenerativa do quadril: Lesão que resulta em pequenas fissuras e desgastes da cartilagem da articulação do quadril, em decorrência e traumatismo, infecção, hereditariedade ou por razões idiopáticas. É resultado, também, de tratamento ou reabilitação inadequada de uma lesão (MICHELI,1998). Costas de bailarinos: Lombalgia: Está associada usualmente com rotação da coluna e, também, com a postura hiperlordótica. A dor é provocada pela combinação do desequilíbrio muscular com músculos abdominais fracos e fáscia lombo-sacral rígida (KNOPLICH, 1989; BIENFAIT, 1995). Radiculopatia Lombar (Dor no ciático): Compressão desigual entre duas vértebras adjacentes fazendo com que o disco inter-vertebral se desloque do seu local normal. Quando isto ocorre pode haver pressão do nervo, podendo causar espasmo muscular. É causada por traumas repetitivos e repentinos. Espondilólise: É a deformidade causada pela formação de tecido fibroso uni ou bilateralmente ao arco neural da vértebra inferior. A bailarina sente dor na porção inferior das costas durante hiperextensão em pé ou em um só pé, como no arabesque. Apresenta movimento limitado da coluna lombar quando se inclina para frente. O arabesque é uma das posições básicas do balé, onde o corpo fica apoiado numa perna só; esta pode estar na estendida ou em demi-plié enquanto a outra permanece estendida para trás, num ângulo de até 180°. Os antebraço deve seguir o prologamento dos braços, podendo ser dirigidos para diferentes posições, sempre harmoniosas (FITT, 1988). Espondilolistese degenerativa: É a progressão da espondilólise. Caracteriza-se pelo deslizamento de um corpo vertebral, anteriormente em relação ao outro imediatamente inferior, sendo mais comum em mulheres com mais de 40 anos (SNIDER, 2000). Sabendo-se da grande incidência de lesões em bailarinos, é importante valorizar a atuação de profissionais de dança capacitados e de fisioterapeutas nas companhias de dança. A dança é uma arte maravilhosa, mas é importantíssimo escutar seu próprio corpo! Conhecer a própria anatomia, os principais sintomas das lesões, a possibilidade de evitá-las utilizando uma técnica correta, junto a profissionais qualificados e acompanhamento constante de especialistas. Vale a pena dançar, é uma arte belíssima e uma experiência inesquecível. Mas lembre-se: Seu corpo é seu templo, esteja sempre atento a ele! Bibliografia: A historia da dança. Disponível em: <http://www.corpoedanca.com.br/historiadanca.htm> . Acessado em: 25/08/2006. GUERRA, Heloísa Silva. Lesões na dança. Disponível em: <http://www.conexaodanca.art.br/imagens/textos/artigos/Les%F5es%20na%20Dan%E7a.htm> Acessado em: 25/08/2006. MONTEIRO, Henrique Luiz. GREGO, Lia Geraldo. As lesões na dança: conceitos, sintomas, causa situacional e tratamento. Disponível em: <http://www.rc.unesp.br/ib/efisica/motriz/09n2/Monteiro.pdf/> Acessado em: 24/08/2006. Os benefícios da dança. Disponível em: < http://www.mineiros-uai.com.br/ver.asp?codigo=1239&referer=catver.asp?id_cat=1__id_sub=2__id_div=0> . Acessado em: 24/08/2006. Dica de Leitura
Na LDB nº 9394/96, a Arte
é reconhecida como disciplina escolar obrigatória
no currículo. Nos Parâmetros Curriculares Nacionais,
a Arte e uma das áreas curriculares e a dança
é indicada como linguagem artística diferenciada
a ser trabalhada pelas escolas. Agora, a tarefa dos educadores
artísticos é colocar essas conquistas em prática,
nas escolas, de maneira crítica, fundamentada e significativa.
É esta a aposta deste livro: discutir na teoria
propostas práticas para o ensino de dança
hoje. É assim que respondemos ao alerta de Mariazinha Fusari
feito numa correspondência no dia do seu falecimento: "É
difícil alguns estudiosos e gestores de cursos de Pedagogia
compreenderem que os alunos da Educação Básica
precisam que seus educadores atuem com melhor formação
também nessas áreas da cultura humana:
arte, educação física,
cultura do movimento corporal. Continua de pé
a luta para que os pedagogos/alunos tenham acesso a compreensão
do ensino e aprendizagem também nessas áreas. |
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| edição 57 | Pilates, RPG, Hidroterapia:
|
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| Alexei: O "Caminho do Meio"? Dr. Carlos: O equilíbrio. Alexei: E em relação a indicações e contra-indicações? Dr. Carlos: O Pilates é indicado a partir de 12 anos de idade, sem limite de idade, para praticamente qualquer patologia, como forma de reabilitação. Sobre contra-indicações, estamos sempre nos surpreendendo. Tenho uma aluna que é surda, muda e cega... E faz Pilates! Ela coloca as mãos em mim para sentir como eu faço o exercício e faz corretamente. E, quando tenho que fazer alguma observação, por exemplo, "Está tudo bem?", "A carga está boa?", "Olha a respiração!" eu escrevo a mensagem com o dedo indicador no braço dela. As contra-indicações são mínimas, somente casos muito graves, por exemplo, de coluna, precisam passar primeiro pela fisioterapia convencional ou pelo RPG antes de chegar ao Pilates. |
Alexei: Indicações e contra-indicações do RPG.
Dr. Carlos: O RPG é mais indicado para problemas posturais, em que o objetivo é obter rapidamente uma amplitude de movimento. Pessoas com problemas de locomoção podem fazer o RPG domiciliar. Agora, se a pessoa tem algum problema crônico, como hérnia de disco ou escoliose, a indicação é para o RPG, direto. Essa pessoa precisa fazer o RPG pelo menos de 15 em 15 dias. Senão, os defeitos de postura voltam, a pessoa obtém um ganho e, quando pára, o problema volta.
Alexei: Então, para problemas crônicos requerem tratamento contínuo com o RPG.
Dr. Carlos: Sim. O mais interessante é que o RPG consegue tirar a pessoa da crise.
Alexei: Mesmo em estado de dor?
Dr. Carlos: Sim, mesmo em estado de dor a gente consegue tirar a pessoa da crise com o RPG.
Alexei: Desde que não tenha algo como, por exemplo, hérnia de disco?
Dr. Carlos: Inclusive hérnia de disco!
Alexei: Inclusive durante a crise de hérnia de disco?
Dr. Carlos: Durante a crise. Eu tenho uma paciente que, coitada, deu azar. Teve uma crise de hérnia de disco e a médica mandou que ela ficasse um mês deitada. Isso agravou o quadro dela. Com hérnia de disco, você tem que ficar três ou quatro dias em repouso; depois, só de ficar em pé você já melhora!
Alexei: Estou surpreso, porque tenho um amigo que teve uma crise de hérnia de disco na coluna lombar e ficou quatro de meses de cama, à base de analgésicos, relaxantes musculares e anti-inflamatórios...
Dr. Carlos: Assim não melhora nunca! Porque, na hérnia de disco, a pessoa tem um desnível de musculatura, um lado está mais tenso, outro mais alongado, e isso precisa ser consertado. No local da hérnia de disco, forma-se um edema e só de ficar em pé e andar um pouquinho, esse edema já melhora, devido à própria contração axial. Então, essa paciente ficou um mês de cama, a dor piorando, veio para a hidroterapia e começou a melhorar. Pego muitos pacientes em pós-operatório de hérnia de disco; a pessoa faz a cirurgia e a dor continua! Porque você pode ter uma hérnia de disco, mas a dor não ser causada pela hérnia de disco! Então, antes da cirurgia, é preciso tentar primeiro um tratamento conservador, hidroterapia, RPG, tratamentos chatos, demorados, mas menos agressivos, para depois, se nada der certo, aí sim partir para a cirurgia. Mas nunca esse repouso prolongado, que é contra-indicado.
Alexei: E sobre outras indicações do RPG, da hidroterapia e do Pilates, como atividades paralelas a outras atividades físicas...
Dr. Carlos: É preciso deixar bem claro: hidroterapia e RPG têm finalidade terapêutica, não pode fugir disso. Se pessoa quiser perder peso, vai para hidroginástica ou outra atividade. Já o Pilates tem um leque mais aberto. Além de pegar a parte de reabilitação, ele age sobre o condicionamento físico. Por exemplo, se você quiser perder peso ou está há muito tempo sem fazer nenhuma atividade, comece pelo Pilates, porque ele vai te dar uma consciência corporal que servirá de base para outras atividades. Outro caso é o de pessoas que sentem dores, mas já fizeram raio X, ressonância magnética e nada foi encontrado, mas estão com dores musculares por falta de exercício: a recomendação é o Pilates.
Alexei: Na entrevista anterior com o fisioterapeuta, ele disse que assistiu a uma aula experimental em uma academia cujo nome não mencionou por questões éticas e saiu se sentindo "quebrado". Ele ficou imaginando uma pessoa iniciante em Pilates naquela aula, porque ele, que já tem um bom condicionamento físico e pratica o Pilates, se sentiu mal. Ele inclusive demonstrou um dos exercícios que passaram para ele, sentar na bola e esticar os pés acima da altura dos ombros numa trave. O que você pode comentar sobre isso?
Dr. Carlos: Esse é um ponto fundamental. Eu fiz os cursos de Pilates mas, antes de começar a trabalhar com o Pilates, eu fui ser aluno de Pilates em vários lugares. Porque eu queria sentir no meu próprio corpo como se sente um aluno de Pilates! O que acontece: quando o instrutor tem uma grande facilidade em executar um exercício, às vezes ele não consegue mensurar a sua dificuldade! E aí, o instrutor não entende sua dificuldade em executar o exercício, que para ele é muito fácil, e fica forçando "vai, vai"! Eu passei por isso quando comecei a praticar o Pilates. Quando o instrutor via o meu corpo, com bom condicionamento físico - mas não acostumado com o Pilates - ele forçava a barra e eu ficava todo dolorido. Quando você está acostumado a fazer um tipo de exercício e muda para outro, você vai trabalhar grupos musculares diferentes de forma diferente e, por isso, vai sentir dor. Se forçar demais na primeira aula, vai ficar dolorido. Se pegar uma pessoa sedentária, mesmo com os exercícios básicos ela vai se sentir dolorida, pela musculatura parada. Então, se você sai "quebrado" de uma aula de Pilates, a culpa não é do Pilates, mas do instrutor. Eu diria até que não tem relação com a formação profissional, mas com bom-senso. Conheço bons profissionais, com ótima formação, mas que às vezes falham em compreender as dificuldades de um paciente específico, porque não consegue entender a dificuldade em executar um exercício que, para ele, é muito fácil.
Alexei: E sobre a aplicação do Pilates para esportistas? Ele ajuda, complementa...?
Dr. Carlos: Hoje em dia é cada vez mais comum realizar o trabalho de Pilates voltado especificamente para o esporte que a pessoa pratica com regularidade. Esse trabalho começou com o próprio Joseph Pilates, em Nova Iorque, com bailarinos que tinham lesões muito freqüentes. Então ele desenvolveu um trabalho específico para os bailarinos, diminuindo muito a freqüência de lesões. Por isso o Pilates caiu nas graças dos bailarinos. Hoje, há trabalhos específicos para tênis, futebol, ginástica olímpica, golfe... Os pesquisadores do Pilates estão conseguindo identificar os grupos musculares mais trabalhados por cada esporte, desenvolvendo exercícios para os músculos antagonistas - porque alguns esportes trabalham um lado só e não trabalham o outro... Por exemplo, o tenista, trabalha muito um lado só e com muita flexão, necessitando, portanto, de um trabalho de extensão.
Alexei: Para encerrar, vejo muito sensacionalismo na abordagem do Pilates na mídia. Você pode comentar sobre esse assunto?
Dr. Carlos (risos): Olha, existe um mito de que o Pilates é uma forma de ginástica sem esforço. Houve até o caso de um repórter de um grande jornal que veio aqui e eu expliquei tudo para ele, em detalhes, demonstrei, mostrando que, sim, o Pilates exige esforço físico. No dia seguinte, saiu estampado na manchete: "Perca suas gordurinhas sem fazer força". Eu até liguei para ele reclamando, porque era uma informação enganosa e eu havia explicado que não era bem assim. Esse tipo de desinformação faz com que os pacientes fiquem decepcionados, venham reclamar, "poxa, mas precisa fazer força"? O dia em que alguém inventar um aparelho em que baste encaixar a pessoa dentro dele para ganhar condicionamento físico, essa pessoa vai ficar milionária. Por enquanto, é o esforço que traz os resultados.
Dica de Leitura

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na hidroterapia, Margaret Reid Campion
está há muito tempo associada à abordagem do Método
Halliwick para as técnicas de exercícios
aquáticos. Neste livro, ela reuniu vários colaboradores
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Hidroterapia: Princípios e Prática também
será valioso para os profissionais que estão procurando
um texto básico e de atualização
em hidroterapia.
por Cecilia Panelli
Na edição 54, publicamos uma entrevista sobre Pilates com o fisioterapeuta Tomas Baumann de Berredo. Alguns dos pontos-de-vista expressos pelo entrevistado, entretanto, foram objeto de discordância da Profa. Cecília Panelli, graduada em Dança e Mestre em Educação Física, do Pilates Brasil. Como a seção Foro Íntimo é um espaço para debates e uma tribuna para livre expressão do pensamento, o espaço está aberto para as informações da Profa. Cecília e, com isso, ganhamos todos nós, interessados nesta forma de abordar a corporalidade. (Alexei Gonçalves)

Cecilia Panelli
"Parece-nos que Pilates seja uma técnica 'antiga e nova' ao mesmo tempo. O que queremos dizer é que se trata de um método criado na época da Primeira Guerra Mundial, mas cujos princípios são inovadores e atuais.
Um curso de formação na técnica de Pilates em Centros Oficiais de Treinamento dura, em média, um ano, e tem um alto custo, além de exigir uma carga horária significativa de estágios. Desta forma, muitos profissionais desistem de cumprir os procedimentos completos de formação, passando a ensinar o Método após apenas assistir e praticar algumas aulas e/ou assistir a vídeos. Alguns ainda decidem "formar" novos professores sem nem mesmo ter cumprido um curso de formação específico.
Durante o processo de formação é que o profissional adquire condições para se tornar um ser humano melhor, consciente de seus pontos fracos e fortes. Mas, se é tão difícil controlar a atividade dos profissionais, imagine os não-profissionais!
Os cursos de formação são abertos para todos os profissionais da área de saúde: Educação Física, Dança, Terapia Ocupacional e Fisioterapia. Cada profissional irá atuar de maneira diferenciada, utilizando a técnica de acordo com os conhecimentos adquiridos durante sua formação, mas todos poderão trabalhar com o Método Clássico criado por Joseph Pilates, adaptando os exercícios de acordo com as necessidades do cliente.
Atualmente, existem diferentes vertentes do
Método original de Joseph Pilates. Alguns dos instrutores
que foram seus alunos no passado resolveram combinar os ensinamentos recebidos
do mestre com seus próprios conhecimentos, criando as outras linhas
da Técnica de Pilates que existem atualmente. Há correntes
mais específicas para o trabalho terapêutico, muito procuradas
por fisioterapeutas e pelos terapeutas ocupacionais, que convivem lado-a-lado
com o método chamado de "clássico" ou "autêntico",
com que os profissionais de Dança e Educação Física
se identificam mais.
Em resumo, não há obrigatoriedade de formação
em Fisioterapia para ministrar o Pilates. Há, sim, necessidade
de uma formação completa para uma prática responsável
e de qualidade.
Dica de Leitura

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Método Pilates
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Em Método Pilates de Condicionamento do Corpo,
com o crescente interesse do público brasileiro nesta área,
os autores tratam de maneira clara e com uma percepção total
de detalhes, para o desenvolvimento de um planejamento
próprio sobre este método. Abordando desde a definição
do método, seu histórico, o trabalho destes
exercícios para uma integração total do corpo,
até chegar na definição própria
dos autores para sua técnica de treinamento destas
atividades, com forma simples e coerente, trazendo atividades
práticas acessíveis por meio de ilustrações,
esta obra vem acrescentar ainda mais para uma literatura que só
tende a crescer.
Alexei Gonçalves
Enquanto pululam modismos no sentido de modelar o corpo conforme
os padrões de uma embalagem de mercadoria, vende-se muita desinformação
e abre-se mercado para profissionais despreparados, expondo as pessoas
a riscos desnecessários e privando outras tantas dos benefícios
de que necessitam.
Com o intuito de esclarecer o público, desfazer mitos, expor benefícios
e alertar para riscos, conversei sobre o método Pilates com Tomas
Baumann de Berredo, fisioterapeuta formado pelo IBMR - Instituto Brasileiro
de Medicina de Reabilitação e instrutor habilitado em Pilates.

Tomas Baumann de Berredo
Alexei: É necessário
um curso de formação em Fisioterapia para se capacitar em
Pilates?
Tomas: Sim.
Alexei: Essa é a regra no mercado?
Tomas: Não. O cursos de Pilates não são considerados
de especialização, mas de "atualização".
É comum encontrar dançarinos. E professores de Educação
Física também podem ser instrutores de Pilates. A diferença
é que, nesses casos, o Pilates será empregado apenas voltado
como auxílio à dança ou como atividade física,
enquanto o fisioterapeuta poderá tanto aplicar o Pilates tanto
com o objetivo de tratamento de patologias como de atividade física.
Alexei: A que necessidade, exatamente, atende o Pilates em relação
a outras formas de terapia ou atividade física?
Tomas: Temos notado que é grande a diversidade das pessoas
que procuram o Pilates. Há tanto casos patológicos - pessoas
que enfrentam doenças como dores articulares, lombalgias, cervicalgias
- quanto pessoas que dizem que ouviram falar em Pilates, às vezes
por indicação de um amigo, experimentam e acabam gostando
do método como forma de atividade física alternativa. Os
médicos também têm ajudado bastante, indicando o Pilates
como forma de tratamento e atividade física mais personalizada,
orientada para o indivíduo, com menor exposição a
lesões, já que o Pilates envolve um cuidado direto do instrutor
com o paciente. O Pilates é uma forma de tratamento muito individual.
Alexei: Você pode então explicar mais detalhadamente
o que é o Pilates e em que ele se diferencia de outras formas de
tratamento/atividade física?
Tomas: O Pilates é um conceito criado pelo alemão
Joseph Pilates. Eu chamo de "conceito" porque envolve uma mudança
de método, não de técnica. Conforme a evolução
da pesquisa científica, o Pilates muda e evolui também.
Há, na Austrália, profissionais que combinam o Pilates com
Estabilização Segmentar Vertebral, resultando num método
diferente do que a gente costuma ver aqui no Brasil.
De uma forma geral, o Pilates atua sobre a flexibilidade e alongamento
muscular, em conjunto com uma forma de respiração específica,
atuando na reeducação postural. Mas sempre no contexto de
um movimento, o conceito é de reabilitação com
movimento. Nós prezamos muito a qualidade do movimento.
Os movimentos são lentos e trabalha-se com pequenas cargas. Você
nunca vai entrar em uma sala de Pilates e ver uma pessoa pegando excesso
de peso, querendo "inchar". A proposta é tonificar, remodelar
o corpo e reeducar a postura.
Alexei: Você pode resumir os objetivos do Pilates em algumas
palavras-chaves?
Tomas: Eu diria que incluem flexibilidade, controle muscular, alongamento
e reeducação postural com exercício físico.
Alexei: O Pilates inclui um trabalho de força?
Tomas: Sim, certamente. Quando você impõe regras a
um movimento, executando-o de forma lenta, controlada, específica
para um grupo muscular, o exercício se torna muito mais difícil
do que se o fizesse de forma global.
Alexei: Você disse que o Pilates é um trabalho individualizado.
Como se processa a personalização do exercício?
Tomas: O início do processo é uma avaliação
do paciente, que começa desde o primeiro contato, observando a
forma como ele se apresenta: os ombros, a postura cervical, a postura
lombar (faz alguns movimentos típicos de incorreção
postural).
Alexei: Você está me imitando! (risos)
Tomas: Também observamos a postura dos membros inferiores,
pés, quadril. Em seguida, procedemos a uma anamnese, perguntamos
sobre cirurgias, entorses, lesões. Algumas vezes essa avaliação
é feita usando fotografias, para que seja possível mostrar
ao paciente exatamente como ele se apresenta, seu padrão postural
e, finalmente, fazemos uma proposta de exercícios que permitam
quebrar esse padrão e adotar outro, mais adequado.
Alexei: Então, a proposta é realmente de reeducação
postural.
Tomas: Reeducação com movimento.
Alexei: Qual é a diferença em relação
ao RPG?
Tomas: O RPG trabalha a partir de cinco a oito posturas básicas,
conforme a linha adotada, agindo sobre a reeducação da cadeia
cinética muscular, sempre dentro das posturas básicas. Já
no Pilates, como ele envolve o trabalho com aparelhos, podemos agir sobre
os mais variados tipos de movimentos, tanto os mais simples até
os mais complexos, inclusive gestos do dia-a-dia, como os de varrer, dirigir,
digitar... O Pilates oferece, portanto, uma gama muito ampla possibilidades
de exercícios.
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![]() |
![]() |
| Digitando
no computador |
Dirigindo |
Varrendo
a casa |
Alexei: Você falou sobre o Pilates como
forma de tratamento de patologias. Quais seriam as indicações
mais importantes?
Tomas: Sobre esse assunto, eu gostaria de ressaltar algo que me
entristece. Os pacientes, freqüentemente, comentam que sentiam dores
e, ao procurar tratamento, foram orientados a somente começar o
Pilates após cessarem as dores. Aí, os profissionais orientam
o paciente a não fazer determinado movimento devido a uma queixa
de dor - do tipo, "Ah, doeu? Então não faça
esse movimento" - esquecendo-se de tratar a lesão que causou
a dor em primeiro lugar! Nesse momento, o Pilates deixa de ser uma terapia
para virar apenas mais uma "ginástica". O problema é
levado ao educador físico, ao professor de dança, fugindo
da característica da Fisioterapia, que é tratar lesões
com o movimento.
Mas respondendo à sua pergunta, eu incluiria entre as indicações
do Pilates, a reeducação postural, dor lombar, dor cervical,
dor no ombro, epicondilite (dor no cotovelo), doenças reumáticas,
lesões no tornozelo, no joelho, incontinência fecal e urinária...
Eu até gosto quando chegam pacientes com uma lesão. Eles
normalmente não acreditam que podem melhorar com o Pilates e a
gente prova que o método é eficiente.
Alexei: Como profissional de Fisioterapia, em relação
a outras técnicas, você diria que o Pilates é uma
forma exclusiva ou complementar de terapia?
Tomas: Ele complementa. O Pilates provê uma grande
visão sobre a consciência corporal mas, como ferramenta terapêutica,
é sempre um complemento, não um substituto. Eu não
conseguiria abandonar o Pilates. Mas eu o uso junto com estabilização,
com imobilização articular, para tirar a dor ou seja qual
o for o meu objetivo dentro do tratamento.
Alexei: Digamos, então, que um profissional mal-preparado
ou desatento usasse o Pilates sem esses cuidados mencionados, digamos,
a imobilização. Ele poderia trazer prejuízos ao paciente?
Tomas: Sem dúvida. Até mesmo sem objetivos
terapêuticos, apenas como atividade física, o Pilates mal-orientado
pode provocar lesões se, por exemplo, o paciente pedir cada vez
mais carga e o profissional ceder, sem agir para mudar a idéia
errônea de que mais carga vai dar mais resultados. A proposta é
de pouca resistência, movimentos lentos, limitados a até
10 repetições, sem exageros que só expõem
o paciente a riscos de lesão. A má-formação
profissional é responsável por diversas lesões, que
comprometem a imagem do Pilates.
Alexei: Realmente, porque se um paciente procura um tratamento
em busca da solução para um problema e, ao contrário,
obtém uma piora, isso compromete toda a categoria profissional...
Aliás, isso acontece em todas as áreas.
Tomas: Com certeza, em todas as áreas profissionais a gente
vê isso.
Alexei: Em relação aos benefícios para o
paciente. Digamos, um paciente sem nenhuma lesão específica,
sem nenhuma patologia mais grave, que busque no Pilates apenas uma forma
alternativa de atividade física. Que benefícios ele pode
esperar?
Tomas: Como benefícios gerais, pode-se esperar uma modelação
do corpo na medida em que se tonifica a musculatura e, principalmente,
a auto-correção postural. Porque o que desejamos, como sinal
de progresso no tratamento, é que a gente pare de avisar, de consertar
as compensações desse paciente, que ele adquira a percepção
de que, por exemplo, está com o ombro anteriorizado e faça
a correção naturalmente, por conta própria, automatizando
a nova postura.
Logo nos primeiros dias, o paciente já vai sentir diferenças
tanto musculares, quanto na parte central do corpo, que é a mais
importante do Pilates: a "casa de força" - região
do abdômen - como referência para origem de movimentos de
membros superiores e inferiores. O abdômen sempre deve estar contraído
durante esses movimentos, dando estabilidade, como se formasse um eixo
para o movimento.
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Exercício na bola: a contração abdominal é
essencial para a execução correta. |
Se
o abdomen fraquejar, o paciente perderá o equilíbrio. |
Alexei: E sobre a aderência do paciente
ao tratamento, a continuidade? Há muita desistência?
Tomas: Ao contrário. É muito comum que um paciente
procure o Pilates por causa de uma dor e continue a atividade após
obter a melhora porque gostou da atividade, sentiu que foi bem orientado
e o atendimento foi realmente personalizado, feito sob medida para as
necessidades dele. Eu sempre procuro atender no máximo três
pacientes, exercendo um controle permanente sobre o paciente, procurando
deixá-lo o mais centrado, o mais alinhado que for possível.
Alexei: Então o Pilates trabalha com grupos pequenos?
Tomas: Sempre. Senão perde-se qualidade do tratamento. É
quase impossível acompanhar quatro tratamentos, quatro compensações
ao mesmo tempo.
Alexei: E como é uma aula típica de Pilates?
Tomas: Em geral, as academias adotam com sessões de 50 minutos,
para criar um intervalo de troca de turmas, embora eu prefira trabalhar
com 60 minutos. O ritmo e o andamento das aulas variam muito de acordo
com o estilo do profissional, há muitas "maneiras certas"
de fazer uma sessão de Pilates e o meu método não
é necessariamente melhor do que o adotado por outro.
Normalmente, eu inicio a sessão com um aquecimento, um exercício
do Pilates mais leve, no solo. Depois passo para os aparelhos, com mais
carga e, depois, com alongamento, até para mostrar que está
acabando a aula, demarcando para o paciente uma estrutura de começo-meio-fim
padronizada. Mas isso é muito relativo, eu poderia tirar o alongamento
do final da aula e fazê-lo durante a sessão com aparelhos.
Dica de Leitura

Livro: Pilates no Brasil
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Este livro nasceu da necessidade de divulgar para as pessoas interessadas em exercícios de solo, o método Pilates e material teórico em português, já que a literatura especializada só é encontrada em inglês. Um dos pontos fortes deste livro é a divulgação do método desenvolvido por Teresa Camarão que, além de produzir os primeiros vídeos de Pilates no Brasil criou outros aparelhos, seguindo a mesma filosofia do Pilates, porém, procurando adequá-los à vida moderna, utilizando espaços menores. Precursora do método Pilates no Rio de Janeiro, Teresa Camarão, se orgulha de ter contribuído para torná-lo mais conhecido. Acredita que sua idéia é a de difundir cada vez mais o Pilates, pois considera sua missão possibilitar que um número cada vez maior de pessoas pratique um programa de exercícios, ideal para manter o equilíbrio diante da vida estressante de hoje.