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edição 65

Hidroginástica: entrevista com Fabrízio Di Masi (parte 1)


Eis mais uma entrevista que me ofereceu importantíssima oportunidades de ficar calado. O Professor Fabrízio Di Masi, Licenciado em Educação Física, pós-graduado em Atividade Física de Academia e Mestre em Ciência da Motricidade Humana, professor de Hidroginástica na Universidade do Corpo, ofereceu um conteúdo tão denso por resposta que bastou-me o privilégio de ouvi-lo. Compatilharei com vocês a valiosíssimas informações pelo Prof. Di Masi em duas partes, para que todos detalhes sejam apreciados com a atenção que merecem (Alexei Gonçalves).

Prof. Mestre Fabrízio Di Masi
Fabrízio Di Masi

Alexei: O que a hidroginástica apresenta de singular em relação a outros tipos de atividade praticada em academias?

Fabrízio Di Masi: Para começar, o fato de ser realizada no meio líquido já a torna muito diferente das outras, de modo que vou começar com uma introdução às diferenças entre hidroginástica e natação. A primeira diferença é que a hidroginástica geralmente é realizada na posição vertical e, a natação, na posição horizontal. Digo "geralmente" porque, na hidroginástica ,também empregamos posturas horizontais. Outra diferença é que, na natação, o objetivo é a diminuição da resistência para progredir, enquanto na hidroginástica nós empregamos a resistência da água para o fortalecimento muscular.

O fato de ser realizada na água, portanto, já a diferencia fisiologicamente de todas as outras atividades terrestres. A freqüência cardíaca, a termorregulação, a pressão arterial, o fluxo sangüíneo, tudo isso se modifica quando o corpo entra na água. Fisiologicamente, a hidroginástica é caracterizada por ser uma atividade primordialmente cardiorrespiratória, esse é o seu maior alcance. Entretanto, como empregamos a resistência da água em conjunto com aparelhos, conseguimos alguns resultados de desenvolvimento muscular, embora esse não seja o seu foco principal. A hidroginástica possibilita, portanto, em uma atividade de 50 minutos, atingir objetivos cardiorrespiratórios e também algum condicionamento muscular. É uma atividade muito interessante para aquele aluno que não tem tempo disponível para se engajar em várias atividades, como fazer musculação, depois ir para bicicleta...

Entretanto, a atividade aquática sofre com alguns mitos. Por exemplo, a hidroginástica vem sendo recomendada como "remédio" para várias doenças. Isso, por um lado, é bom, porque a gente recebe um maior número de alunos. Por outro lado, é um risco maior que o aluno pode estar correndo, que pode afetar o professor e a academia caso ocorra algum acidente. No caso, parece que essa recomendação, muito divulgada na mídia e até por especialistas, origina-se em uma atitude de "pecar por menos" do que pelo real conhecimento da atividade. Por quê? Porque crê-se que a hidroginástica é uma atividade mais "leve", recomendada para a terceira idade e que, portanto, qualquer um pode praticá-la.

Só que, em alguns casos, a água pode propiciar efeitos fisiológicos ruins para uma pessoa. Por exemplo, nos casos de insuficiência cardíaca, o coração não tem força suficiente para bombear o sangue que chega até o coração. E um dos efeitos da imersão é, justamente, maior deslocamento de sangue para a região central do corpo e maior quantidade de sangue que chega ao coração! Ou seja, nos casos de insuficiência cardíaca, a imersão é contra-indicada. Então, não se deve recomendar hidroginástica indiscriminadamente, só porque parece uma atividade mais leve, numa atitude do tipo "Está com problemas de saúde? Faça hidroginástica".

Não, a hidroginástica não é remédio para todos os problemas e cada caso deve ser avaliado individualmente. Porque são inúmeros os benefícios proporcionados pela hidroginástica, mas é importante que a academia tenha um médico trabalhando em conjunto com o professor de educação física, realizando avaliações físicas e funcionais, para saber qual a atividade mais indicada para cada caso.

Um outro exemplo é a densidade mineral-óssea. Por muito tempo, indicou-se a hidroginástica para o combate à osteoporose. Hoje em dia, já se observa que as atividades que envolvam impactos de sustentação do peso corporal - não que a hidroginástica não envolva impactos, mas são certamente menores do que fora d'água - são mais interessantes para a osteoporose do que atividades dentro d'água, justamente pela sustentação do peso corporal. Não que a hidroginástica seja ruim: há pesquisas que demonstram melhoras na densidade mineral-óssea com a prática da hidroginástica. O problema é que apresentou-se a hidroginástica como "o grande remédio para a osteoporose", na década de 1990, e essa imagem perdura até hoje. Não é o caso, a hidroginástica não é prejudicial para a osteoporose mas também não é a atividade ideal. Hierarquicamente colocaríamos, como indicação para osteoporose, atividades de força e que envolvem sustentação do peso corporal, como caminhada, futebol, basquete... A hidroginástica é também uma boa indicação, não deve ser formalmente contra-indicada, como dizem algumas pessoas, mas não pode ser apresentada como a melhor, pelo seu impacto reduzido. É muito melhor do que a natação, por exemplo, que praticamente não tem impacto nenhum.

Alexei: Você mencionou que a hidroginástica tem uma imagem de "ginástica para terceira idade" ou "remédio para pessoas doentes". Inclusive eu já vi alunos de musculação fazendo brincadeiras do tipo "ah, você é muito fraquinho, vai pra hidroginástica..." e coisas do gênero.

Fabrízio Di Masi: Ah, sim, esse tipo de brincadeira acontece mesmo.

Alexei: Então, como você avalia o impacto dessa imagem deformada da hidroginástica sobre a prática de sua atividade profissional?

Fabrízio Di Masi: Primeiramente, precisamos analisar o surgimento dessa imagem historicamente. Há várias divergências sobre o momento exato em que a hidroginástica teria surgido. Alguns dizem que suas origens remontam à Antiguidade, quando se usavam exercícios na água como forma de terapia, mas eu entendo que esse fato está mais ligado ao surgimento da hidroterapia do que ao da hidroginástica. Outros já dizem que a hidroginástica surgiu na Alemanha, através das caminhadas aquáticas. Mas a informação mais concreta sobre esse assunto é que, na década de 1960, a ACM criou, nos Estados Unidos, um programa para idosos com exercícios dentro d'água. Esse programa se destinava justamente para pessoas que já não faziam mais atividade física ou que já haviam passado pela hidroterapia e queriam continuar ativos. Ou seja, a hidroginástica foi concebida, inicialmente, para idosos, o que dá origem a essa imagem de "ginástica para idosos".

Some-se o fato de que a flutuação, o empuxo, uma propriedade física da água, ameniza a sensação de sustentação corporal - que ocorre de fato - e alivia a pressão sobre as articulações e chega-se a um exercício muito bom para pessoas mais idosas. Há muitos idosos que não conseguem caminhar na rua, subir uma escada, enfim, executar certos movimentos no ambiente terrestre, e que, na água, conseguem produzir esses movimentos com liberdade. Portanto, no critério articular, a hidroginástica é muito interessante para esse público. Quanto às piadinhas e preconceitos, acho que vem dessa mania de rotular as pessoas.

Bom, o que temos feito para mudar essa imagem? De fato, se todos os estudos mostrassem que a hidroginástica só é benéfica para indivíduos idosos, eu só a recomendaria para idosos e ponto final. Mas nós sabemos que a hidroginástica pode ter efeitos benéficos para outros segmentos da população. O que nos leva a outro mito, o de que a maioria dos alunos de hidroginástica é de terceira idade. Isso não é verdade. A verdade é que a maioria dos alunos de terceira idade que estão exercendo atividade em academias, praticam a hidroginástica. Mas a maioria dos alunos de hidroginástica não são de terceira idade. Eu posso dizer que a grande maioria dos alunos é composta por mulheres entre quarenta e sessenta anos. Se a gente definir "idoso" como a pessoa com mais de 65 anos, consegue entender porque, aqui na academia, de um total de dez turmas de hidroginástica, apenas duas são exclusivas para a terceira idade, embora encontremos alunos idosos espalhados pelas outras turmas.

Outro preconceito ligado à hidroginástica é em relação ao homem, que a vê como "atividade física de mulher", o que se reflete no fato de que a maioria dos alunos é composta por mulheres.

Mas nós já notamos uma grande melhora nesse sentido. Temos turmas de manhã cedo, freqüentadas por alunos mais jovens, já no mercado de trabalho. Nesses casos, cabe ao professor oferecer um programa mais intenso, direcionado ao público jovem, sem restrições de movimentos. Porque é possível criar aulas de hidroginástica desde realmente muito leves, até moderadas ou muito intensas. Isso pode ser verificado nas aulas abertas que realizamos aos sábados, quando um aluno de musculação resolve participar: eles sentem muita dificuldade e freqüentemente dizem que não sabiam que aula poderia ser "tão puxada", principalmente do ponto-de-vista cardiorrespiratório.

Sob a ótica do condicionamento muscular, aí, realmente, não há comparação possível com a musculação em termos de ganho de força e hipertrofia. Porque a musculação é uma atividade específica para força. É possível ganhar força e massa muscular com a hidroginástica? Sim, mas não temos como comparar com o ganho possível de se obter com a musculação. Mesmo que eu tentasse obter dentro d'água os mesmos resultados que se obtêm com a musculação, eu não conseguiria, por uma série de limitações que a própria água impõe.

Alexei: Pode citar algumas dessas limitações para ganho de força?

Fabrízio Di Masi: Olha é importante anotar que eu não estou dizendo que não há ganho de força na hidroginástica, mas que o seu alcance é mais limitado do que o da musculação. Para um aluno sedentário, esse ganho de força da hidroginástica pode ser muito significativo.

Alexei: Está anotado.

Fabrízio Di Masi: Ok, então vamos começar pelos princípios do treinamento, que a gente adota quando monta um programa para um aluno. Comecemos pelo princípio da adaptação, que vou explicar por meio de um exemplo prático: você está matriculado na musculação e eu passo para você uma série de um exercício X com carga de dez quilos e dez repetições máximas. Por repetições máximas quero dizer que você faz bem dez repetições com aquele peso e não consegue fazer a décima-primeira repetição com qualidade. Após duas semanas, você já tem um ganho de força, chamado de "ganho neural de força", em que você vai recuperar mais unidades motoras para realizar aquele movimento. Ou seja, sem aumentar a massa muscular, você consegue trabalhar com mais força. O que fazemos então? Não aumentamos o número de repetições para quinze, ou vinte: aumentamos o peso e mantemos o limite de dez repetições máximas. Esse é o princípio da adaptação.

Ora, com aplicar o princípio da adaptação no contexto da hidroginástica? Trabalhamos com pesos limitados: P, M e G, a carga é definida pelo tamanho do aparelho. Quando o aluno chega no tamanho G como ele vai progedir? Ele até ganha força, mas não tem como aumentar o peso. Já na musculação, o aumento de carga é quase ilimitado, são poucos os alunos que conseguem usar todas as placas de um aparelho. Enquanto ele conseguir se desenvolver, ele vai aumentando o peso aos poucos e o professor tem uma gama maior de variações no trabalho.

Nesse ponto, entra o princípio da sobrecarga, outro princípio do treinamento, que inclui a possibilidade de aumentar a carga. Outro ponto a considerar é o princípio da individualidade biológica. Na hidroginástica, quando eu passo uma série de condicionamento muscular, ela será praticada por dez alunos ao mesmo tempo, talvez, entre eles, um senhor de 70 anos, um outro com 30, uma mulher grávida, um aluno jovem com problemas no joelho... A heterogeneidade é muito grande na hidroginástica, enquanto na musculação a série o trabalho é bastante individualizado.

Alexei: E como você coordena, na prática, a heterogeneidade dos alunos dentro da piscina?

Fabrízio Di Masi: Esse é um assunto que a gente aprende a lidar na prática, porque é uma realidade com que temos de conviver. Por mais que a gente tente formar turmas específicas - como hidro-gestante, "hidro-master" para a terceira-idade, "hidro-advanced", para alunos mais adiantados, é muito difícil formar turmas totalmente homogêneas, porque um aluno pode ter disponível somente o horário, digamos, das onze horas para fazer a atividade. Assim, ele vai praticar a hidroginástica naquele horário, mesmo que seja o horário para gestantes, porque as academias acabam abrindo todos os horários para todos os alunos. Esse é um problema que o professor só aprende a resolver na prática, com muito interesse e jogo-de-cintura. Não há como ensinar, o que vale mesmo é a experiência de mercado. Ao optar por trabalhar com hidroginástica, você já deve estar ciente de antemão de que vai trabalhar com turmas fortemente heterogêneas. Essa característica não é exclusividade da hidroginástica, mas algo que se nota mais fortemente nessa atividade do que em outras.

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Este livro da mais uma contribuição para o enriquecimento do exercício no campo da hidroginástica, não só como modismo, mas a serviço da reabilitação e da estética do ser humano, para mantê-lo capacitado em todas as suas funções psicofisiológicas.

 
edição 64

Dança Livre

Lara Seidler

Tive a feliz oportunidade de assistir hoje a uma aula de dança livre, com a professora Lara Seidler. O clima descontraído e o bom-humor contagiante no ambiente tornaram este contato com a professora e sua turma numa experiência agradabilíssima. Confesso que senti vontade de me juntar ao grupo! Leia abaixo o artigo em que a professora Lara Seidler explica em detalhes dessa atividade física divertida e prazerosa (Alexei Gonçalves).

Professora Lara Seidler - Dança Livre - Arte Corporalidade
Lara Seidler

A Dança Livre é uma aula que explora as diferentes possibilidades de movimentos a partir dos movimentos básicos do corpo em adequação ao trabalho das valências físicas: força, flexibilidade, equilíbrio, coordenação, agilidade e velocidade.

A aula consta de:
- Trabalho corporal específico
- Atividades lúdicas
- Seqüências articuladas
- Improvisações e expressão corporal
- Diversos estilos de dança: jazz, dança moderna, funk, samba, hip hop, forró, dança do ventre e outros, além da dança contemporânea que é base da diversificação
- Diferentes ritmos musicais

A dança livre proporciona uma atividade diferenciada das demais atividades desenvolvidas em academias pela questão da diversificação do movimento, pois utilizamos diferentes estilos e ritmos, de forma que se possa trabalhar o corpo de várias maneiras. Cada estilo ou ritmo tem um estímulo corporal diferenciado, ou valências físicas específicas que, agrupadas em uma aula coerente com a curva fisiológica, pode proporcionar um trabalho físico completo.

Um exemplo de uma aula poderia ser dado, unindo um aquecimento com um ritmo funk ou techno, em que há deslocamentos, aquecimentos dos membros inferiores, coluna, quadril e braços. A seguir, uma modalidade como a dança moderna ou até clássica, em que, de forma mais contida, poderia ser enfatizada a força dos membros inferiores, equilíbrio e exercícios posturais incluindo flexibilidade. Dando continuidade à aula, pode-se se intruduzir o hip-hop, que exercita coordenação de pernas e braços e a capacidade cardiorespiratória. Para terminar talvez um forró ou mesmo uma modalidade como dança moderna.

O estilo musical é bastante eclético, passando pelas músicas antigas como Rock anos 60, jazz americano, forrós, sambas, pop e funk.

A dança atinge o trabalho físico em suas diferentes valências através da exploração das infinitas possibilidades de movimentos proporcionando ao indivíduo:

- Trabalho da agilidade e velocidade das partes e do corpo como um todo;
- Trabalho da coordenação em movimentos de diferentes níveis de complexidade e organização;
- Maior conhecimento e percepção do movimento do corpo (percepção cinestésica), partes e segmentos para melhor postura e melhor eficiência em exercícios, evitando ao dispêndio de energia desnecessárias;
- Trabalho do equilíbrio corporal através da consciência da centralização do eixo longitudinal, das transferências e restabelecimentos do peso do corpo e das diferentes situações de apoios;
- Trabalho da força dinâmica e estática, através da exploração de movimentos que exijam apoios e sustentação da forma corporal e de partes do corpo, utilização de movimentos em dinâmica forte rápida ou lenta, saltos e outros;
- Trabalho da flexibilidade na exploração de diferentes amplitudes e angulações dos movimentos das partes do corpo e situações de resistências e alavancas no próprio corpo, no corpo de outro ou com objetos;
- Vivência corporal diversificada, que proporciona ao indivíduo a preparação corporal e mental para a execução de qualquer movimento.

Aula de Dança Livre Aula de Dança Livre

Já existe em academias de fitness um trabalho de dança que explore a diversificação da ação corporal para promover um trabalho físico coerente associado ao aspecto da expressão artística.

Os fundamentos didáticos para a direção de aulas vão integrar o desenvolvimento da sensibilidade, criatividade e expressão, além de um trabalho físico coerente com a progressão dos movimentos e exercícios, estratégias e estrutura da aula. Os exercícios devem ser: atraentes, diversificados, com intensidade moderada, de baixo impacto - nas estruturas musculares, esqueléticas e articulares - realizados de forma gradual - e promover a aproximação social, por ser uma aula coletiva, mas sempre respeitando as características individuais.

Essa aula pode ser freqüentada por todas as idades, pois as seqüências de movimentos são básicas e simples, basta estar disposto e querer trabalhar o corpo livremente sem preconceito. Com isso é possível alcançar níveis bastante satisfatórios de desempenho físico, gerando autoconfiança, satisfação, bem-estar psicológico e interação social. O consumo calórico aproximado varia em torno de 400kcal por aula e o ideal de freqüência da aula seria de no mínimo de duas vezes por semana.

Dica de Leitura

Livro: Dança Brasil  - Gustavo Cortes
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Dança Brasil vem contribuir para o reconhecimento e a valorização de nossas raízes pois retrata de forma alegre e informativa a imensa riqueza cultural do Brasil, dividido em regiões. Embalados pelas danças, músicas e festas populares, os brasileiros expressam, de forma exemplar, o caráter multifacetado e único de nosso país.

edição 63

Ouvir o Corpo

Alexei Gonçalves

Quando dizemos que o "
corpo fala", logo vêm à mente as teorias da linguagem corporal. Não é este o sentido que empregaremos neste artigo/reflexão sobre a necessidade de ouvir o que o corpo tem a dizer e respeitar as mensagens que ele nos envia mensagens o tempo todo. Se não escutamos, é porque ensurdecemos nossos ouvidos mentais à sua fala.

Abordamos, em artigos anteriores, o lado científico das práticas corporais, inclusive na excelente entrevista sobre cineantropometria. Abordamos o corpo, até agora, sob o ponto-de-vista da prática da atividade física como fonte de prazer, saúde, tratamento e prevenção de doenças. Abordamos inclusive o lado patológico do culto ao corpo sem um prazer subjacente, a vigorexia.

É chegado agora o momento, portanto, de abordar o relacionamento mente-corpo, sua integração para formar um todo.

Charlie Barr - Hear The Feeling - arte corporalidade
Hear The Feeling por Charlie Barr

A abordagem ocidental do corpo tende a focalizar excessivamente a técnica e os eventuais benefícios médicos da prática de "uma atividade física". De um modo geral, fica esquecido o conceito de que a saúde do corpo, o bem-estar corporal, é parte da integração do ser humano com seu meio-ambiente, com o universo, com um estado expandido de compreensão de si mesmo e do mundo à sua volta. Em uma palavra, com a Filosofia.

Não que a Filosofia Ocidental como um todo ignore o corpo. Em "A República", bem como em diversos outros textos, Platão - ele próprio um atleta, seu nome significando "ombros largos" - enfatiza a participação do corpo na formação moral do indivíduo. No entanto, ao longo do tempo, por razões históricas que não cabem desenvolver aqui, o corpo foi sendo relegado a segundo plano no pensamento ocidental, desde sua total mortificação na Filosofia Cristã até chegarmos ao que podemos chamar de "corpo-trabalho": um corpo-máquina-industrial, uma peça faltante na engrenagem maior. Um corpo condicionado ao movimento repetitivo e ao não-movimento.

Nesse contexto, encontramos um revelador texto da médica Dra. Danila Torres Leite:

"O que é Dançar?

Girar o corpo esperando não se desequilibrar e não se estabacar no chão?

Ceder o controle dos seus passos ao seu acompanhante que passa a controlar você, mesmo que por poucos momentos, e nesses segundos eternos você já não é a responsável por sí.

É sentir a música vibrando no ar, penetrando pelos poros, envolvendo a pele, tomando forma e movimento próprios... Deixar-se ir novamente, dessa vez quem está no controle não é o parceiro, mas a música... E novamente nesses segundos você não é a responsável por si.

Ou é exatamente o oposto? Sentir a música no seu corpo, sentindo assim o SEU corpo, descobrindo movimentos novos e flexibilidade nas articulações, percebendo que você é maior do que aparenta ser... E você é a responsável por si.

Não sei definir o que é dançar para mim. Sei que gosto, que me faz bem, que me sinto feliz..."

Temos aí, claramente, a experiência do corpo como um algo além da consciência corporal, da atividade mecânica ou, até mesmo, da simples experiência do prazer, mas de integração com o si mesmo, gerando auto-domínio e domínio do ambiente, em que, dialeticamente, de conduzida, ela passa a condutora da própria vida.

Não tenho vergonha de admitir que não tenho um "corpo dançarino", como diria a Professora Cecília Panelli. Nem preciso. Pois cada um de nós, ao dedicar-se a ouvir atentamente seu próprio corpo, descobre facilmente sua arte.

Minha arte, definitivamente, é o Aikido. Não vou fazer propaganda do Aikido, escrevendo sobre sua eventual "superioridade" em relação a outras artes. O foco, aqui, é na última sílaba da pronúncia portuguesa dessas três palavras japonesas: o "Do".

"Do" significa "o caminho", "a via". Intuitivamente, esse significado deixa claro que, independentemente das variações técnicas, elas constituem um meio para atingir um fim, um caminho na busca de um objetivo, não uma finalidade em si mesmas. Como ressalta Wagner Bull (2003:53):

"É muito difícil, para quem ainda não absorveu o conceito, compreender e incorporar em sua vida o conceito do 'Do'. A principal dificuldade é que ele não pode ser entendido conceitualmente, mas somente através da experiência... Ele implica a importância em se ligar todas as coisas em nossa mente e ação, e nesta incorporação dar sempre prioridade ao desejo do absoluto sobre qualquer coisa em particular".

É bastante simples conectar o 'Do' à experiência da Dra. Danila, a impossibilidade de explicar o que só pode ser vivenciado diretamente. Também por esse motivo, recuso-me a advogar a prática do Aikido para você ou quem quer que seja. O que sinto durante a prática do Aikido só faz sentido para mim, é o meu caminho, tanto quanto a Dança é o caminho para a Dra. Danila e o Yoga é o caminho para o prof. Bruno Amaral.

Dissociar a mente do corpo, como costumamos fazer rotineiramente, trabalhando freneticamente sem respeitar os limites do corpo e, depois, correr para a academia com o objetivo de "esvaziar a mente" dos problemas cotidianos, é viver em zigue-zague, desperdiçando energia sem sair do lugar. É confundir duas formas de movimento bastante diferentes: a "agitação" e o "deslocamento".

Em agitação, você se movimenta mas não avança nem recua, permanece sempre no mesmo lugar. Quando o movimento implica deslocamento, você o completa em algum lugar adiante de onde começou.

Com a mente ensurdecida pela agitação, buscam-se as técnicas pela técnica, extrapolam-se limites que poderiam ser expandidos lentamente ao longo do tempo, causando lesões, tanto pela imobilidade quanto pelo excesso de movimento.

A dor, a lesão, a doença crônica, é o momento em que o corpo grita, exausto de tanto falar sem ser ouvido. Submetido à imobilidade por horas a fio, ou por treinamentos exasperantes, o corpo, que precisa e deseja o equilíbrio, o caminho do meio, finalmente obtém à força a atenção de sua mente.

Não se engaje, portanto, em "uma atividade física". Procure "a atividade física" que represente o seu caminho, o caminho que seu corpo procura para que sua mente com ele forme uma totalidade e se integre plenamente com o mundo.

Não é difícil encontrar essa atividade física. Basta apurar os ouvidos, que seu corpo agradece.

Dica de Leitura

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Este livro foi escrito para os amantes das lutas marciais, da defesa pessoal, da medicina, filosofia e psicologia do Oriente. Após mais de uma década de sua primeira edição, acabou tornando-se um clássico no tópico das artes marciais e provavelmente é o mais vendido no Brasil neste fascinante assunto. Esta edição, revista e ampliada, em 3 volumes (A Teoria, A Técnica e Dobun - História e Cultura), torna este livro quase uma "Bíblia"do Aikido, contendo preciosas informações ensinadas pelos grandes mestres, fruto da profunda e extensa pesquisa efetuada pelo autor. Com sua experiência de 35 anos em Aikido, o autor localizou e revelou neste livro a filosofia, os princípios secretos das técnicas que são comuns a quase todas as artes marciais. Os judocas, os caratecas, os aikidoístas encontrarão neste livro muitas respostas para suas dúvidas sobre artes marciais, especialmente os últimos, a quem esta obra é quase de leitura obrigatória. Evidentemente, este livro está longe de esgotar o assunto; porém, o material nele inserido por Shihan Wagner Bull será sempre uma fonte de consulta indispensável a todos aqueles que pretendem se aprofundar no estudo do Budô (artes marciais). Certamente o praticante comum de artes marciais terminará a leitura deste livro tendo enriquecido enormemente seus conhecimentos. Além de ser um excelente trabalho sobre filosofia e psicologia do Oriente, contém os principais golpes de defesa pessoal e as técnicas mais importantes para enfrentar qualquer situação de perigo. Um pequeno dicionário de termos técnicos de lutas marciais, bem como exercícios para a melhoria da saúde, estendem o valor do livro e outras áreas. Acompanhando as técnicas próprias da arte, são demonstradas, como complemento, técnicas de espada japonesa e um valioso trabalho sobre bastão. Pensamentos filosóficos orientais ilustram a obra transmitindo ao leitor profundos ensinamentos de sabedoria. Os editores não têm dúvidas em afirmar que este livro é indispensável na biblioteca de qualquer apaixonado pelo Budô.

edição 62

Cineantropometria: entrevista com Prof. Márcio Assis

Alexei Gonçalves

Acontece na vida de todo pesquisador com ouvido atento e mente aberta. Você prepara um questionário ou uma pauta para discussão com um especialista e, quando chega o momento da conversa, descobre que o entrevistado tem respostas muito mais interessantes do que suas perguntas. É nesse momento em que é preciso ter humildade, recuar e deixá-lo livre para falar.

Foi o que aconteceu na excelente entrevista com o Professor Mestre Márcio de Assis, especialista em cineantropometria. Calei-me e deixei-o dar o seu show, na companhia dos seus colaboradores, o Professor e Fisioterapeuta Júlio Paixão e do Professor de Educação Física e Fisiologista do Fluminense F.C., Juliano Spineti, que reproduzo a seguir sob a forma de texto corrido, deixando de lado minhas raras e humildes intervenções.

Luiz Paixão, Márcio Assis e Juliano Spineti - profissionais de cineantropometria
Luiz Paixão, Márcio Assis e Juliano Spineti

"O conceito de cineantropometria foi apresentado em 1986 por William Ross em um Congresso no Canadá que reuniu avaliadores físicos do mundo inteiro, inclusive dois brasileiros: Paulo Sérgio Gomes e o Prof. Dr. Cláudio Gil. Nesse Congresso, abandonou-se o termo "biometria" e adotou-se o de "cineantropometria", pelos motivos que vou expor mais adiante. É importante ressaltar que a avaliação física não é necessariamente exclusiva de profissionais de Educação Física, mas abrange diversas áreas no campo da Saúde, incluindo Médicos e Fisioterapeutas.

Das definições de cineantropometria, a que mais me agrada é a de William Ross: "Uso da medida no estudo do tamanho, forma, proporcionalidade, composição e maturação do corpo humano em relação ao crescimento, atividade física e estado nutricional".

Etimologicamente, "cine" quer dizer "movimento"; "antropo", genericamente, caracteriza o ser humano; e "metria" refere-se a "medida". Portanto, a cineantropometria é a "medida do ser humano em movimento".

Não se admite mais um conceito estático do ser humano. Mesmo "parado", nosso corpo produz movimentos: fagocitose, hemodinâmica, pressão arterial, freqüência cardíaca, várias coisas estão acontecendo no corpo o tempo todo. O ser humano está crescendo durante a infância, "diminuindo" durante o envelhecimento; ele é um centro de movimento, tanto movimento interno quanto externo, a que chamamos de "motricidade". É por esse motivo que não se admite mais o termo "biometria", um conceito estático que surge através da Antropologia, em estudos de tamanho, forma e proporção.

A partir da adoção do conceito de cineantropometria, surgiu a necessidade de padronização das medidas, para que o avaliador possa comparar os parâmetros físicos indepentemente do país ou até do continente de origem de uma pessoa específica. Por esse motivo, foi criada a ISAK - Sociedade Internacional de Avanço da Cineantropometria, cujos padrões nós adotamos.

A importância da cineantropometria é avaliar o estado do indivíduo para fundamentar a prescrição por parte do avaliador, tanto no início da atividade física quanto durante o processo, recebendo o feedback do aluno. Hoje em dia, eu não faço mais prescrições sem uma compreensão correta da morfologia individual.

Explicando melhor: a avaliação se divide em duas partes, a morfológica e a funcional. Portanto, a cineantropometria é uma avaliação "morfofuncional".

Em seu aspecto morfológico, incluímos medidas antropométricas em equações de regressão que permitirão o cálculo do percentual de gordura, do peso muscular, do fracionamento das massas de peso e de gordura, do peso residual e do peso ósseo.

Essas equações permitem uma precisão muito maior do que, por exemplo, o IMC, Índice de Massa Corpórea, em que se divide o peso pela estatura ao quadrado. Ora, se um sujeito for muito forte, tiver um peso muscular muito grande, o cálculo do IMC vai dizer que ele é "gordo", o que absolutamente não é verdade. Essa discrepância acontece porque o IMC usa apenas duas variáveis. Então, principalmente quando se avaliam atletas, o IMC superestima a gordura do indivíduo, porque o sobrepeso é de músculos, não de gordura.

Logo, ao incorporar diversas variáveis através de equações de regressão é possível extrapolar como provavelmente se encontra a parte morfológica do indivíduo.

Essas equações foram obtidas diretamente através da dissecação de cadáveres. Nós usamos métodos indiretos, mas todos eles têm coeficiente de correlação muito alto. O coeficiente de correlação significa, por exemplo, que quando você relaciona duas variáveis e obtém um índice igual a .90, há uma probabilidade de 81% do que eu estou afirmando esteja certo, porque é um índice quadrático.

Esse alto coeficiente de correlação das medidas indiretas com as medidas diretas permitem a extrapolação do fracionamento das massas. Vale dizer que, originalmente, os estudos diretos foram feitos no século XIX e, recentemente, refeitos numa escola européia. Surpreendentemente, essas equações sofreram apenas pequenas correções.

Portanto, essa parte da cineantropometria, a morfologia, é o estudo em que se faz a subdivisão das massas, o fracionamento da massa corporal e se observa do que ela é composta.

Esses dados são muito importantes para a prescrição porque você pode descobrir que o indivíduo tem uma deficiência de componente muscular ou excesso de componente de gordura. Esses dados não são observáveis diretamente, só olhando a forma do indivíduo. Você pode encontrar indivíduos com o mesmo volume mas morfologicamente completamente diferentes. Um pode ter um componente muscular muito mais elevado, já o outro, uma predominância do componente de gordura.

Esses índices de massa magra e massa gorda apresentam correlações com a saúde. Estudos populacionais indicam, por exemplo, que um determinado índice de gordura corporal é maléfico pra saúde, que tem associação com cardiopatias, com problemas metabólicos, entre outros.

Por isso é necessário que os médicos entendam de cineantropometria, o que é difícil de ver aqui no Brasil. Eu dou cursos para médicos, porque quem primeiro abraçou essa ciência aqui no Brasil foram os Educadores Físicos. Então, de certa forma, ela está associada, aqui no Brasil, à Educação Física.

Quanto à parte funcional, você vai avaliar o ser humano através de testes de esforço, de força, flexibilidade, para aliar a forma com a funcionalidade na prescrição.

A aplicabilidade da cineantropometria é muito ampla, tanto no dia-a-dia quanto para atletas. Por exemplo, se o indivíduo tem muita gordura na região central do corpo. Esse índice está associado a coronariopatias, problemas metabólicos, diabetes. Uma pessoa pode ter as pernas e as coxas gordas sem relação com esse tipo de problema. Mas a gordura na região central do corpo, a gordura visceral, aumenta a probabilidade de desenvolver hipertensão, diabetes, entre outras doenças.

Portanto, a aplicabilidade desses índices serve tanto na área Médica quanto na Educação Física, para efeito de prescrição.

Mas, por incrível que pareça, até o percentual de gordura do indivíduo, isoladamente, não diz muita coisa. Ele tem que estar associado a outras partes morfológicas do indivíduo para que você possa dar um laudo. É mais importante saber onde está localizada a gordura, a topografia da gordura, do que o percentual total. Mais importante do que aferir um padrão, é obter o conhecimento global do indivíduo que se obtém através da cineantropometria. A cineantropometria tem essa característica de promover a prevenção e de melhorar a prescrição, para que trabalhe e desenvolva o indivíduo no sentido de que ele não venha a desenvolver determinada enfermidade.

No campo esportivo, nós trabalhamos no Fluminense F.C. com um componente de estratificação. Precisamos diferenciar o estado de cada um entre o monte de garotos que chegam ao clube.

Porque, às vezes, o fato de "jogar bem" não significa que um garoto que seja um talento. O talento é desenvolvido durante várias etapas de formação do atleta.

Com a cineantropometria, podemos observar, através da estrutura morfológica do indivíduo, em que estado ele se encontra em relação à idade biológica. Ele pode parecer um craque porque teve uma formação maturacional antecipada em relação aos outros garotos, de modo que ele se destaca: é o que tem o chute mais forte, é o que corre mais, mas apenas porque sua idade biológica está adiantada em relação à idade cronológica.

Num caso como esse, podemos pensar que estamos diante de um craque. Mas, quando os outros garotos desenvolverem a parte biológica, vamos perceber que ele garoto já não se destaca tanto assim em relação aos outros, não está tão acima da média quanto parecia.

Então, existem vários estudos, várias formas de se avaliar um talento. Existem fatores morfológicos, fatores genéticos. Por exemplo, um estudo chamado "dermatografia" - o estudo das impressões digitais - pode detectar evidências genéticas para determinar a predisposição do indivíduo para a força, para a velocidade, para a coordenação. A partir desses dados, é possível desenvolver essas potencialidades em quem já as possui em maior grau, eliminando um bocado de trabalho.

É cada vez mais raro, hoje em dia, observar apenas a composição corporal, o fracionamento das massas. Observa-se também o somatotipo. O somatotipo é obtido através de medidas antropométricas, relacionando três componentes primários do corpo, desenvolvidos já desde a fase de embrião: (1) a endomorfia, que é o componente de gordura, (2) a mesomorfia, que é a compleição músculo-esquelética, e (3) a ectomorfia, que é o grau de linearidade.

Esses três componentes reunidos definem a conformação do indivíduo, antigamente chamada de "biotipo". "Somato" significa "soma", a relação desses componentes. Todo indivíduo tem os três componentes, alguns mais destacados do que outros, em proporções diferentes, mas todos nós temos os três elementos.

Por exemplo, um indivíduo pode ter um percentual de gordura abaixo da média mas, quando se faz a relação dos três componentes, descobrimos que ele tem uma endomorfia alta, porque a mesomorfia, por exemplo, que é o componente de músculos, é baixa.

Então, se eu fosse observar esse sujeito somente pelo prisma da composição corporal, eu incorreria no erro de dizer que esse indivíduo está bem porque tem um baixo percentual de gordura, quando na verdade não está. Assim, observamos vários fatores para prover um laudo correto, para fazer uma prescrição adequada. Todo mundo que lida com saúde hoje deveria entender um pouquinho de cineantropometria, em todos os aspectos, tanto funcionais quanto morfológicos".

Dica de Leitura

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A obra esperada de cineantropometria finalmente é publicada pelo autor, que inicia com conceitos e definições empregados e os cuidados administrativos para condução de testes. A seguir desenvolve uma análise sobre medidas lineares verticais e perpendiculares, perímetros e circunferências, medidas de massa e técnicas de interferências da composição corporal. No capítulo 2, escreve sobre somatótipo. No capítulo 3 e 4, desenvolve o tema Avaliação Postural, Maturação e Crescimento. No capítulo 5, escreve sobre testes ergonometricos, ergoespirometria, principais testes ergométricos em cicloergometria, esteira rolante, campo e banco. Ainda no capítulo 5, conclui e faz considerações metodológicas sobre limiar anaeróbio, métodos e principais variáveis metodológicas, encerrando a obra com testes de aptidão física e questionamentos para estratificação do risco cardiovascular e da atividade física habitual.


 
edição 61

Yôga - Entrevista com Bruno Amaral e Cristiane França

Alexei Gonçalves

Abordando mais uma vez um tema ligado à saúde corporal, entrevistamos o Prof. Bruno Amaral, formado pela Universidade Internacional de Yôga de Lisboa e sua aluna, a fisioterapeuta Dra. Cristiane França, atualmente cursando pós-graduação em Fisioterapia Neurológica. Nesta entrevista, procuramos esclarecer o público sobre o que é realmente o Yoga e desfazer mitos muito difundidos pelos meios de comunicação.

Bruno Amaral e Cristiane França - Professor e aluna de Yôga
Bruno e Cristiane

Alexei: Começando pelo básico, pergunto ao Bruno o que ele pode dizer sobre o Yoga, em termos gerais, para pessoas que não conhecem ou apenas têm uma visão superficial sobre a atividade?

Bruno: O Yoga é uma filosofia de vida, iniciada há mais de cinco mil anos na Índia e que chegou até nós graças aos mestres que a ela se dedicaram. O objetivo do Yoga é a evolução do ser humano levando a estados de consciência expandidos. Quem começa a praticar a Yoga, adota-a no seu dia-a-dia. É mais do que uma mera atividade física, é uma atividade mental. Embora a face mais conhecida do Yoga seja a parte física, seu principal objetivo é elevar o estado de consciência do praticante.

Alexei: A parte visível do Yoga é representada pelos movimentos e posturas. Como acontece a transferência do ato corporal para esse estado mental de consciência mais elevada, levando o praticante a incorporar essa filosofia?

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Bruno: A parte física propicia um reforço da estrutura biológica, conferindo maior vitalidade ao praticante. Tanto que o Yoga, na Antigüidade, está sempre associado à força, à energia e ao poder. É uma prática forte e dinâmica. Como a expansão da consciência é um processo relativamente demorado, só é possível atingi-lo se tivermos vitalidade, um corpo "jovem" e saudável para cumprir esse tempo. A parte das técnicas corporais, denominadas ásana, propiciam a força na estrutura biológica para que a pessoa possa permanecer saudável durante longo tempo.

Alexei: Da maneira como o Yoga é incorporado no Ocidente, especialmente no Brasil, você nota que o objetivo continua realmente na filosofia ou há um esvaziamento do lado filosófico do Yoga?

Bruno: Muitas pessoas, quando procuram o Yoga, vêm em busca de uma atividade para descontrair e relaxar. Essa é uma visão muito distorcida da realidade. Muitos querem apenas obter os benefícios de que ouviram falar que o Yoga proporciona: aumento da flexibilidade, da capacidade respiratória, do tônus muscular e da vitalidade em geral. Alguns, quando conhecem o Yoga, gostam e querem ir mais longe, mergulhando na filosofia. Outros, se satisfazem com o benefício físico e param por aí. Geralmente, quem vem fazer aula de Yoga em academia, procura apenas o benefício físico e aprender a gerenciar o stress, ou seja, ficam apenas com os "efeitos colaterais" do Yoga. Os que escolhem saber mais sobre a filosofia, procuram informar-se, lêem livros... A prática do Yoga em academias é uma forma de levar o Yoga até o público em geral. Existem escolas especializadas em Yoga, que seguem o método do mestre DeRose, o unificador do método antigo. Ele efetuou uma autêntica "garimpagem arqueológica" para resgatar o Yoga autêntico. Ele fundou a primeira Universidade de Yoga visando à formação profissional. Então, quem quer se aprofundar no Yoga, acaba procurando as representações da Universidade de Yoga, que tem várias escolas no Rio de Janeiro. Lá, tem-se a formação específica, com aulas teóricas, algumas ministradas pelo próprio Mestre DeRose, aprendendo não só a prática como também a teoria do Yoga. Na academia, pouco a pouco a pessoa vai adquirindo esse conhecimento e, quem realmente procura se aprofundar no assunto, procura esses centros de formação profissional, dirigidos não somente a quem quer se tornar instrutor como para quem busca mais conhecimentos.

Alexei: Um tema recorrente nas entrevistas que já realizei é a formação profissional. Como você o mercado nesse sentido? A maioria dos instrutores de Yoga tem uma formação adequada?

Bruno: É como em todas as áreas. Há pessoas fidedignas, que completam o curso de formação, estudam e estão habilitadas a dar aulas de Yoga. Mas como não há uma regulamentação específica, algumas escolas são formadas por pessoas que lêem alguns livros e logo começam a dar aulas de Yoga, sem ter uma formação correta. Neste momento, o Mestre DeRose está se dedicando ao objetivo de que seja aprovado um projeto de lei para regulamentar a profissão de Yoga, justamente para evitar que pessoas sem habilitação comecem a dar aulas... É uma situação semelhante a de um médico que exerça a profissão sem ter cursado Medicina, apenas tendo lido alguns livros.

Alexei: Cristiane, o Bruno mencionou diversas motivações para as pessoas que procuram o Yoga. No seu caso, qual foi a sua motivação inicial?

Cristiane: Basicamente, o que me motivou no início foi a busca de um condicionamento físico melhor, aumentar o tônus muscular e definir a musculatura. Com o tempo, freqüentando as aulas e praticando, fui percebendo que o Yoga tem algo mais do que isso, um aumento da "vitalidade", como diz o professor, uma sensação de bem-estar, muitos outros benefícios. Estou adorando!

Alexei: Há quanto tempo você pratica a Yoga?

Cristiane: Um mês.

Alexei: Bom, considerando sua formação ocidental, como fisioterapeuta, como você avalia o que Bruno disse sobre os benefícios fisiológicos?

Cristiane: Em termos de condicionamento físico, eu diria que a pessoa adquire uma melhor adequação postural, aumento do tônus muscular e uma melhora sensível no equilíbrio, o que é muito importante.

Alexei: E sobre o que ele disse sobre a integração mente-corpo, o lado filosófico, o atingimento de um estado de consciência ampliado: você separa os conceitos ou já sente que está começando a integrá-los?

Cristiane: No início da prática, eram coisas muito separadas. Com a seqüência das aulas, já estou sentindo um início de integração de mente com o corpo.

Alexei: E qual é a sensação subjetiva de participar de uma aula de Yoga? O que você sente, não só em termos de corpo, mas de sentimentos e emoções?

Cristiane: Uma sensação de liberdade. O Yoga requer muita concentração, muita força muscular. Achei um pouco cansativo no início, mesmo após um mês ainda sinto o cansaço, fadiga bastante a musculatura. Mas estou me empenhando muito.

Alexei: Ou seja, aquela aparência de "leveza" que o observador externo tem da prática da Yoga é enganosa?

Cristiane: É verdade, até aparenta ser uma atividade leve. Eu mesma sinto, na fisionomia, que transmito descontração; mas, na verdade, no nível do organismo, a tensão muscular é bem intensa. Eu não imaginava que o Yoga seria assim.

Alexei: Bruno, a Cristiane acabou de falar sobre fisionomia, expressão facial. Pode comentar um pouco sobre esse assunto?

Bruno: O Yoga deve ser feito com a fisionomia descontraída, ela disse muito bem. Para o observador, quem está fazendo Yoga parece não estar fazendo esforço algum. Está ali, imóvel, tranqüilo. Mas, quem pratica, sente esse trabalho muscular, um trabalho interno. Consegue conciliar os elementos de força e flexibilidade com a mente. Não é um trabalho que você faça com o corpo aqui e a mente em outro lugar. Porque o objetivo do Yoga é aumentar a concentração, dar mais atenção ao corpo. É daí que vem a ampliação da consciência corporal e da consciência de si próprio. Por isso, o Yoga deve feito sempre por prazer, eu brinco nas minhas aulas, para que as pessoas sorriam, descontraiam, para não criar tensão facial ou na musculatura. Queremos que a musculatura se tonifique e alongue naturalmente, que sejam exercícios naturais, biológicos. São as técnicas corporais que vão proporcionar essa consciência, esse domínio sobre o corpo.

Alexei: Sobre as modalidades de Yoga, existem inúmeras variações. Você pode esclarecer em termos gerais as diferenças entre as diversas linhas de Yoga?

Bruno: Já na Índia, quando surgiu o Yoga, começam a aparecer as primeiras ramificações. Havia um Yoga original de onde surgiram todos os outros ramos. Imaginemos, por exemplo, o Direito. No início da história do direito, um advogado era habilitado em qualquer área, era capaz de responder a qualquer solicitação, tendo conhecimentos abrangentes de todas as áreas. Com o tempo, foram surgindo especializações e um único profissional não é capaz de conhecer em profundidade e atuar em todas elas. Com o Yoga, não é diferente. Os primeiros professores de Yoga possuíam um conhecimento amplo sobre todas as matérias e, com o tempo, os próprios discípulos começaram a se especializar em uma parte específica, por exemplo, o ásana. Então, surgiu uma modalidade do Yoga mais física do que mental. Já outro aluno não era tão bom fisicamente mas, mentalmente, era melhor; de modo que seus alunos faziam exercícios mais voltados para a mente. E assim sucessivamente, até que, na Índia, chegaram a ser aceitas oficialmente 108 variações de Yoga. Mas, no final do século passado, na década de 1990, foram criadas mais de 400 modalidades diferentes, inclusive Yoga para cachorros! Então, imaginemos quantas discrepâncias não foram criadas sob o nome de "Yoga". Estamos num mundo comercial, consumista. O Yoga transforma-se, assim, em mais um produto.

Alexei: Não escapa à lógica da mercadoria.

Bruno: Exato. Então proliferam modalidades a todo momento. Tanto que a última moda nos Estados Unidos é praticar Yoga numa sala super-aquecida, a 30, 35 graus centígrados.

Alexei: Minha irmã chegou a freqüentar uma aula dessa modalidade. No caso, o aquecimento chegava a 40 graus e os alunos não podiam beber água antes de 20 minutos de aula, quando a água já havia atingido a temperatura ambiente, a 40 graus... O que você pode comentar sobre isso?

Bruno: (risos) Não faço comentários. Cada um tem o seu modo de pensar...

Alexei: Então, vou perguntar para a Cristiane, que é fisioterapeuta e não tem problemas éticos para comentar... O que você me diz de uma atividade física praticada a 40 graus, em que você não pode beber água na maior parte da aula, tem apenas um bebedouro disponível e, quando você é liberado para beber um copinho de água, ela já está na temperatura ambiente, 40 graus?

Cristiane: No meu ponto-de-vista, eu não concordaria. A pessoa para praticar qualquer atividade física, inclusive a fisioterapia, precisa estar sempre com o corpo hidratado.

Alexei: E o efeito do calor?

Cristiane: Também influencia muito, porque o desgaste é muito maior. Dependendo da pessoa, ela não vai conseguir concluir a atividade física. Aqui, a academia é climatizada e, mesmo assim já sinto dificuldade. A 40 graus não dá, é impossível, nem consigo imaginar. Eu poderia até tentar, mas acho que seria muito incômodo.

Alexei: Então, de um ponto-de-vista científico, clínico, você então não recomendaria essa modalidade?

Cristiane: Não recomendaria; para meus pacientes, não.

Alexei: Bruno, qual é o tipo de Yoga que você pratica?

Bruno: Swásthya.

Alexei: Quais são as fronteiras que demarcam a especificidade dessa modalidade?

Bruno: O Swásthya Yoga é o "Yoga Antigo". Sua prática completa, ortodoxa, comporta 8 feixes de técnicas. É o Yoga original de onde surgiram todos os outros ramos. É o Yoga técnico mais completo do mundo. Porque, numa prática, nós temos desde o mudrá, que são gestos feitos com as mãos, as técnicas corporais, chamadas de ásanas, os pránáyámas (exercícios respiratórios), o pújá (retribuição de energia), o mantra (vocalização de sons e ultra-sons), as técnicas de descontração (yôganidrá), meditação (samyama) e kriyá (purificação das mucosas). O Swásthya Yoga abrange, portanto, todas as técnicas utilizadas pelas outras modalidades.

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Alexei: Sobre benefícios a longo-prazo, indicações e contra-indicações. Bruno, você comentou no nosso primeiro contato a frase "Faça Yoga antes que precise". Eu gostaria que você desenvolvesse um pouco esse assunto.

Bruno: Essa frase é tão boa que o Mestre DeRose escreveu livro cujo título se chama, precisamente, "Faça Yoga Antes que Precise". Muitas pessoas só pensam em praticar Yoga quando estiverem mais velhos e começam já bem tarde.

Alexei: Tem uma imagem então de "ginástica para terceira idade"?

Bruno: Sim. Mas o Yoga deve ser visto como uma forma de prevenção de doenças, como uma "vacina". Da mesma forma que tomamos uma vacina para gripe, por exemplo. Se eu já estiver gripado e tomar a vacina ela não vai ter efeito. O Yoga segue a mesma lógica. Devemos praticar Yoga para ter mais energia e melhorar o rendimento nas atividades profissionais, no esporte, na sexualidade. Enfim, nosso dia-a-dia vai ser mais saudável. O Yoga, portanto, é destinado para pessoas jovens e dinâmicas, para aproveitar o máximo de sua vitalidade e energia. Quando falo em "jovens", estou me referindo a pessoas dos 16 aos 38 anos. Não digo que não se possa começar um pouco antes dos 16 ou um pouco além dos 38 anos. Como diz o Mestre DeRose, "há muitos jovens de 50 anos e muitos velhos com 18". Portanto, quando falo em "juventude" é num sentido bem amplo da palavra, não necessariamente cronológico.

Alexei: Cristiane, como avaliar clinicamente esse conceito amplo de juventude apresentado pelo Bruno? Quais seriam os critérios objetivos, científicos, para avaliar esse conceito filosófico de "juventude"?

Cristiane: No meu campo de atuação, a flexibilidade é um indicativo de idade, pois, em geral, as pessoas mais idosas já apresentam artrose, problemas na coluna... A pessoa idosa, em fisioterapia, é trabalhada dentro de limites mais estreitos do que o jovem, principalmente se apresenta lesões. No jovem, mesmo em casos de lesões, a recuperação costuma ser mais fácil, pela maior capacidade de regeneração dos tecidos e das células.

Alexei: O Bruno falou sobre o caráter preventivo do Yoga. Eu queria te perguntar sobre reabilitação. Até onde vão seus conhecimentos, o Yoga poderia ser indicado como forma de reabilitação ou é completamente contra-indicado?

Cristiane: Eu contra-indico o Yoga dependendo do tipo de patologia que a pessoa apresentar. Por exemplo, artrose na fase aguda, fraturas, lesão de ligamentos - muito freqüentes em atletas, tendinites nas fases aguda ou crônica. Eu só recomendaria o Yoga para essas pessoas até que apresentassem uma recuperação adequada e recebessem alta.

Alexei: E você Bruno, concorda com a Cristiane sobre a contra-indicação da Yoga como método de reabilitação?

Bruno: 100%! Porque o Yoga é para pessoas saudáveis. A nossa área não é saúde, para isso existem médicos e fisioterapeutas. Por isso, quando um aluno nos procura, pedimos que faça uma avaliação médica para saber se existem exercícios contra-indicados para aquela pessoa, se a pessoa está apta à prática do Yoga. Como dissemos anteriormente, o Yoga é uma prática forte, dinâmica, e se a pessoa não estiver preparada, tiver alguma lesão, ela não conseguirá praticar as técnicas corporais. Nós não misturamos o Yoga com Medicina, são áreas separadas.

Alexei: Bruno, a Cristiane mencionou uma palavra muito importante: "limites". Como o Yoga é uma prática coletiva, não tendo um enfoque personalizado como, por exemplo, no Pilates, como é trabalhado esse limite individual?

Bruno: Nós temos uma regra muito simples: a pessoa deve se esforçar para alcançar a correção do exercício mas sempre dentro dos seus limites. O aluno deve parar naquele ponto em que sente que chegou ao seu máximo e permanece durante algum tempo. Nas minhas aulas, consigo ter tanto alunos avançados como iniciantes. Os iniciantes trabalham com uma variação mais simples e os alunos avançados uma variação mais adiantada do mesmo exercício. Como trabalhamos desta forma, no Yoga a pessoa vai evoluindo gradativamente, o corpo vai se adaptando e a pessoa vai conseguindo ir mais longe naquela prática.

Alexei: E você, Cristiane, como você sente que atingiu o seu limite durante a aula do Bruno?

Cristiane: Eu faço as técnicas posturais no meu limite, mas o professor está sempre incentivando, "vai até o final", "tente mais um pouquinho"... E eu acabo até fazendo um pouco mais de esforço.

Alexei: E o que você sente no corpo?

Cristiane: Ah, a tensão é muito grande, o estiramento...

Alexei: Você chega a sentir dor?

Cristiane: Sinto, na maioria das vezes, durante as aulas, estou sempre sentindo um pouco de dor na musculatura.

Alexei: Você, então, tem que ir até o limite da dor? Ou seria melhor parar um pouco antes?

Cristiane: Parar um pouco antes.

Alexei: Então você abusa um pouco?

Cristiane: (risos) Abuso sim.

Alexei: Porque você faz isso? É por causa da concentração, da motivação...?

Cristiane: É uma questão de motivação. Como eu vejo que o professor tem uma flexibilidade excelente, eu acabo me espelhando no professor. Então eu acabo me esforçando um pouco mais para tentar fazer como ele as várias posturas.

Alexei: Bruno, como você vê o papel do instrutor para incentivar os alunos a permanecer dentro dos seus limites individuais e evitar lesões, já que, como disse a Cristiane, você serve de espelho para seus alunos? Porque, afinal de contas, podem ocorrer lesões durante a prática do Yoga, certo?

Cristiane: Sim, principalmente estiramento muscular e ligamentar.

Bruno: O que acontece é que não trabalhamos com aquecimento. Como o músculo não está aquecido, a pessoa vai até aquele ponto-limite, que nunca, jamais, deve ser excedido, precisamente para evitar a lesão. O que eu faço é incentivar os alunos, mas sempre chamando a atenção para que não ultrapassem seus limites. Porque é a permanência, a estabilidade nesse ponto culminante da técnica corporal, do ásana, que ele vai obter ganhos na estrutura das fibras musculares e dos ligamentos, que vão se adaptar ao ásana e, com o tempo, conseguirá ir um pouco mais além na aula seguinte, sempre sem esforço excessivo.

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