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| edição 80 | Pilates Solo - Entrevista com Vivien SaraivaAlexei Gonçalves (Sugira um tema para esta revista)
Com a rápida popularização do Pilates, têm surgido inúmeras variações dessa atividade física voltada tanto para a reabilitação quanto para o fitness. Para entender melhor qual o alcance de uma dessas variantes, o Pilates Solo, conversamos com a Fisioterapeuta e Dançarina Profissional Vivien Fernandes Saraiva, que também presta atendimento personalizado e pode ser contactada pelo telefone (21) 9241-2367 ou pelo e-mail viviensaraiva@hotmail.com. Alexei: Qual é a diferença entre o Pilates Solo e o Pilates com aparelhos? Vivien: A diferença básica é que, no Pilates com aparelhos, você conta com a ajuda das molas, da cama, das empunhaduras, esses recursos auxiliam a realizar certos movimentos que, no Pilates Solo, você depende da força do próprio corpo para realizá-los: o centro dos movimentos, no abdômen e da coluna lombar. Alguns exercícios são facilitados no Pilates Solo porque eles não têm a carga proporcionada pela mola e, em outros casos, o exercício se torna mais pesado, exatamente porque o praticante não tem a ajuda do aparelho. Geralmente, no Pilates Solo, a gente usa o colchão e a bola suíça, que é aquela bola grande, em que a gente pode realizar diversos trabalhos diferentes. Além de fortalecer o corpo inteiro, trabalha-se muito com alongamento e acrescenta-se uma parte lúdica ao exercício, porque geralmente os alunos acham divertido trabalhar com a bola. E, ao mesmo tempo em que se trabalha o fortalecimento e o alongamento, exercita-se o equilíbrio. Alexei: No Pilates, a questão da postura é essencial, sendo utilizado freqüentemente para correção postural. No Pilates Solo, é possível corrigir defeitos posturais? Vivien: No caso do Pilates Solo, é um pouco mais difícil a correção de problemas posturais crônicos, caso em que o Pilates com aparelhos é mais indicado. Mas, no solo, podemos fortalecer e alongar a musculatura paravertebral de uma forma que amenize as dores do dia-a-dia, relacionadas à má postura no trabalho, por exemplo. Alexei: Você pode explicar mais detalhadamente de que forma o Pilates age sobre a musculatura da coluna? Vivien: Numa sessão de Pilates com aparelhos, trabalhos com, no máximo, três alunos, e isso não significa que essas três pessoas vão fazer a mesma série. O trabalho é mais individualizado e a gente pode usar certas manobras fisioterapêuticas complementares ao Pilates para alongar e corrigir problemas específicos de cada paciente. Em geral, as pessoas que procuram o Pilates com aparelhos estão em busca de corrigir problemas um pouco mais sérios. Alexei: Uma grande curiosidade de nossos leitores refere-se ao uso do Pilates para efeito de reabilitação e tratamento de lesões articulares, dores na coluna cervical, hérnia de disco, tendinite, bursite... Você pode comparar a efetividade do Pilates Solo com a do Pilates com aparelhos em termos de reabilitação de lesões? Vivien: Como minha aula de Pilates Solo na academia é aberta ao público em geral, é mais complicado tratar o caso de um paciente com uma patologia específica. O Pilates com aparelhos facilita esse lado do trabalho, devido ao número reduzido de alunos por turma. Mas desde que a pessoa seja liberada pelo médico para atividade física, a gente pode fazer um trabalho terapêutico bastante eficaz no Pilates. A maior parte das pessoas que procuram cursos de formação em Pilates são fisioterapeutas, porque a maioria das pessoas que procuram o Pilates com aparelhos estão em busca de reabilitação para problemas de coluna e articulares em geral. Também por esse motivo, alguns cursos de formação e estúdios de Pilates exigem formação em Fisioterapia.
Alexei: Sua formação é em Fisioterapia? Vivien: Sim, sou fisioterapeuta com especialização em traumato-ortopedia. Alexei: Em uma edição anterior, houve uma polêmica sobre se seria indispensável a formação em Fisioterapia para ministrar o Pilates ou se Educadores Físicos e Dançarinos também poderiam se especializar e exercer essa atividade. Qual a sua posição a respeito? Vivien: Não vejo nada contra a participação de bailarinos, inclusive porque, quando Joseph Pilates levou a atividade para Nova Iorque, a prática foi dominada pelos bailarinos. Eram eles que mais ensinavam e praticavam o Pilates. Eu própria sou bailarina, trabalho em uma companhia de dança profissional. O que acontece com a formação Fisioterapia é que ela permite ampliar o alcance do Pilates voltado para o objetivo de reabilitação e recuperação dos mais diversos tipos de patologias, sendo que esse objetivo é muito procurado. Mas isso não significa que se deva proibir os profissionais de Dança e Educação Física de exercer a atividade. O que é preciso deixar claro é que a formação exclusiva em Educação Física restringe a capacidade do profissional de trabalhar com certos tipos de patologias. Alexei: Mas o Pilates é útil para a população em geral, certo? Vivien: Sim, muitas pessoas fazem o Pilates com o objetivo de fitness, de tonificar o corpo de maneira geral, porque o Pilates proporciona uma musculatura forte e alongada, muito diferente do corpo de uma pessoa que faz musculação, por exemplo. É muito procurado por mulheres que querem tonificar as pernas, o "bumbum", aquelas partes do corpo com que elas se preocupam mais... Alexei: O público que procura o Pilates com o objetivo de fitness é predominantemente feminino? Vivien: Sim, mas o número de homens tem aumentado sensivelmente. Alexei: Sobre a individualização do exercício. No Pilates com aparelhos, você disse que trabalha com número reduzido de alunos e que, por isso, pode dar atenção ao caso individual. No solo, como fica a individualização do exercício? Vivien: Na maioria das academias, o Pilates solo é uma atividade aberta a todos. Você se dirige à sala da atividade como se fosse fazer uma sessão de alongamento ou ginástica. Então, não tenho tempo de conversar com os alunos individualmente, perguntar sobre lesões, etc. Assim, eu procuro manter um nível mais leve durante as aulas de Pilates Solo, para evitar lesões... Em geral, quando uma pessoa tem uma lesão, ela já me procura antes da aula para conversar e eu procuro monitorar esses alunos durante a aula. Geralmente, são turmas de dez a quinze pessoas, de modo que é mais difícil passar exercícios individualizados, a aula tem que ser preparada para todos os participantes. Alexei: Do ponto de vista do fitness você pode comparar o Pilates com outras atividades populares em academia, como a musculação, o alongamento e a hidroginástica, para citar apenas algumas? Vivien: O Pilates é uma atividade bem completa quando comparada às demais. É lógico que você não vai conseguir hipertrofia, aumento de massa muscular, como na musculação. Mas ele tonifica a musculatura de modo que ela fica mais definida, o Pilates provoca mais definição do que aumento de massa muscular propriamente dita. O Pilates modifica o corpo ao tonificar e alongar a musculatura, além de modificar a postura corporal. O termo que as pessoas usam para a musculação é que ela deixa a pessoa mais "socada", no sentido de que ela obtém um aumento de massa mas, se não faz um alongamento, a tendência é no sentido de atrofiar a musculatura. Alexei: E do ponto-de-vista cardiorrespiratório? Vivien: Em termos aeróbicos, realmente, o Pilates não é a melhor atividade. O ideal seria aliar o Pilates à caminhada, ergometria, hidroginástica, para complementar com queima calórica o trabalho de tonificação muscular, postura e respiração, principalmente para quem tem como objetivo a perda de peso. Alexei: Considerando o caso de uma pessoa sem nenhuma lesão específica, mas que venha de um longo período de sedentarismo, sem praticar regularmente nenhuma atividade física. Como é o período de adaptação desse tipo de pessoa ao Pilates? Vivien: É engraçado, porque as pessoas mais sedentárias são as que mais se apaixonam pela atividade, porque você pode começar de uma maneira bem lenta. Em geral, as pessoas com vida muito sedentária estão com alongamento ruim, com a musculatura mais fraca e a gente pode fortalecer e alongar essa musculatura bem devagar, com exercícios específicos, bem diferentes daqueles que a gente prescreve para pessoas que já estão acostumadas a praticar atividades físicas regularmente. E os resultados são bem rápidos. Alexei: Você algum tipo de resistência ou preconceito sobre a atividade? Vivien: Muito raramente, a aceitação do Pilates tem sido muito boa. O que acontece é que algum médico contra-indicar o Pilates, mas mais por desconhecimento do que por outro motivo. E também há algumas pessoas que acham que é uma atividade "muito leve", mas essas se surpreendem quando fazem uma aula e vêem o quanto ela pode ser "puxada". Alexei: Tenho observado que têm aparecido um curso de Pilates em cada esquina... Isso é bom ou ruim? Vivien: Eu vejo como ruim, não no sentido de ampliação do mercado de trabalho para os profissionais, mas há muitos estúdios sendo abertos sem muita seriedade, sem profissionais competentes. Já entrei em estúdios em que o professor ficava sentado e pedia ao aluno olhar em um cartaz o exercício que ele deveria fazer! Por exemplo, de um cartaz com exercícios numerados de 1 a 20, ele dizia para o aluno "hoje você vai fazer os exercícios de 1 a 10". Ou seja, sequer olhavam para o aluno, não viam o que ele estava necessitando naquele momento, qual era o objetivo dele na atividade... Esse é um ponto importante, eu sempre pergunto, além de indagar sobre as patologias que ele possa ter, o que ele procura no Pilates. Por exemplo, eu tenho uma aluna que tem como objetivo principal o alongamento, então não passo muitos exercícios de força, porque não é disso que ela precisa. O aluno que vai aderir à atividade deve procurar um local com profissionais gabaritados e interessados, porque também estão sendo abertos "cursos de formação profissional" em cada esquina... Sendo que muitos não formam profissionais, apenas vendem certificados. Alexei: Esse tema da formação profissional é recorrente nas entrevistas... Vivien: O curso que eu fiz é reconhecido pelo CREFITO, mas tem acontecido de meia dúzia de profissionais se reunirem e abrir um curso. Alexei: Dentro dessa realidade, como fica o aluno leigo, que está experimentando pela primeira vez a atividade? Como ele pode distinguir uma boa aula de uma aula ruim? Vivien: O ideal é que, ao chegar em um estúdio de Pilates, o aluno peça informações sobre o profissional que está ministrando as aulas e exigir uma aula experimental gratuita, para que ele possa avaliar se vai se sentir bem durante a aula e, principalmente, no dia seguinte. Se o profissional der uma boa aula experimental, mostrando as possibilidades de exercícios nos aparelhos, a pessoa não vai se sentir mal no dia seguinte. Se você sentir muitas dores no dia seguinte, em todos os locais do corpo, tenha certeza de que a aula foi mal administrada. É lógico que uma pessoa sedentária que esteja começando uma atividade física vai sentir algumas dores, às vezes até em atividades cotidianas banais, como varrer a casa, por exemplo. Mas não deve ser uma dor excessiva, que o faça se sentir "quebrado". Alexei: E o caso inverso? Porque, como você disse, o Pilates tem uma imagem de atividade "leve". Assim, como um aluno novo na atividade pode perceber se a aula está muito fraca e provavelmente, não vai propiciar os benefícios esperados? Vivien: O próprio aluno pode dizer ao profissional se ele se sente capaz de pegar um pouco mais pesado ou, ao contrário, se ela está pesada demais. Porque mesmo uma pessoa sedentária pode entrar no ritmo do exercício muito rapidamente e, às vezes, o profissional pode subestimar a real capacidade do aluno. Por isso é essencial o diálogo, que o profissional trabalhe com o feedback que recebe do aluno. Alexei: Esse diálogo é mais viável na aula individual, com aparelhos, do que na aula coletiva, em que você tem pessoas diferentes, com preparo físico diferente, fazendo os mesmos exercícios... Vivien: É verdade, mas mesmo
na aula coletiva cada um vai seguindo o seu ritmo. Por exemplo, há
alguns exercícios que passo de forma diferenciada para alunos iniciantes
e outros mais adiantados, para que nem o aluno mais adiantado se sinta
sub-aproveitado nem o iniciante se sinta um peixe fora d'água. |
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| edição 79 | Muay Thai e Vale-Tudo - Entrevista com Mestre Paulo Rogério da Academia Body LimitsAlexei Gonçalves (Sugira um tema para esta revista)
Modalidade esportiva e de atividade física cada vez mais procurada, inclusive pelo público feminino, pela sua eficiência tanto em termos de defesa pessoal quanto de perda calórica, o Muay Thai encontra no Brasil grande espaço para seus praticantes, ao mesmo tempo em que é objeto de polêmicas nem sempre fundamentadas em fatos. Para esclarecer o que é Muay Thai hoje, desfazendo mitos e esclarecendo o público sobre essa apaixonante atividade, conversamos com o professor Mestre Paulo Rogério, instrutor de boxe e Muay Thai na Academia Body Limits, localizada na Av. Heitor Beltrão, 134 - Tijuca (Rio de Janeiro). Alexei: Você pode fornecer uma visão panorâmica da evolução do Muay Thai no Brasil, desde a sua chegada até o país? Paulo: Eu pertenço à primeira geração do Muay Thai brasileiro. Foi introduzido no Brasil pelo Mestre Nélio Borges, um brasileiro professor de Tae Kwon Do que, após residir alguns anos na Tailândia, aprimorou-se no Muay Thai e trouxe a modalidade para o Paraná. O começo do meu treinamento foi com ele. Em seguida, ele veio para o Rio de Janeiro onde continuou seu trabalho de formação de atletas e eu prossegui o treinamento com seu aluno número 1, Mestre Reginaldo, o "China". Eu me formei em Muay Thai e também pratiquei boxe durante muitos anos em São Paulo, sendo que eu busquei no boxe uma forma de aprimorar as técnicas do meu Muay Thai. Fui várias vezes campeão brasileiro e me dei muito bem com essa modalidade dentro do Vale-Tudo. Hoje, aplico tanto a metodologia de ensino recreativa quanto a desportiva. Ou seja, a modalidade serve tanto para o leigo quanto para o profissional. Eu trabalho com atletas de alto nível, inclusive, o Anderson Silva, campeão do UFC - Ultimate Fighting Championship e referência mundial na modalidade, começou seu treinamento comigo, bem como alguns outros nomes fortes do Vale-Tudo mundial. O que explica a procura cada vez maior pelo Muay Thai é que ele é uma modalidade objetiva, sem muitos movimentos clássicos e muito eficiente, inclusive em termos de condicionamento físico, perda calórica e emagrecimento.
Paulo: Sim, houve uma evolução no mundo das artes marciais. Havia muitos mitos, por exemplo, de que para ser um boxeador era necessário quebrar o nariz, comer banana, mel... Tudo isso está caindo por terra. Hoje já temos orientação nutricional com suplementos muito bons, a Educação Física evoluindo muito rápido, equipamentos com cada vez maior qualidade, patrocinadores interessados em atletas com boa performance, laboratórios internacionais... A realidade mudou muito, trouxe auto-sustentabilidade para o Muay Thai e, conseqüentemente, conseguimos formar bons atletas. É interessante notar que, talvez, esta seja a única modalidade desportiva que conseguiu prosperar no Brasil sem depender do paternalismo governamental. Muitas modalidades esportivas no Brasil não prosperam sem um empurrãozinho do governo: o futebol é a "arte nacional", recebe todo o apoio e incentivo, o vôlei, o pára-quedismo, o hipismo... O Muay Thai não, conseguiu crescer com as próprias pernas. Minha cidade-natal, Curitiba, é referência nacional, com mais de 200 academias de Muay Thai e Vale-Tudo. Alexei: Gostaria que você delineasse as singularidades do Muay Thai em comparação com outras artes marciais. Paulo: O Muay Thai original é uma arte milenar, com raízes na China e desenvolvido na Tailândia. Mas a rápida evolução técnica do Muay Thai ocorreu na Holanda e nos Estados Unidos. Recebeu vários nomes por onde passou: "kickboxing", "thai boxing", "thai bo", tudo isso também é Muay Thai. As pequenas diferenças residem no método de ensino e nas regras de competição. O que aconteceu com o Muay Thai é que ele recebeu uma abordagem científica, passando a focalizar a eficiência. Se um determinado método funciona, ele é adotado e desenvolvido. Quando se descobre, por outro lado, que uma técnica não tem real aplicação prática, ela é abandonada. Assim, atingiu sucesso mundial dessa forma, abandonando-se mitos aos quais as artes marciais tradicionais continuam muito amarradas. Alexei: Você já praticou outras formas modalidades de arte marcial além do Muay Thai e do boxe... O quer diria do tae kwon do, por exemplo? Paulo: O tae kwon do, especificamente, eu não senti necessidade de praticar. O Muay Thai tem todos os golpes de pernas do tae kwon do e incorpora uma variedade de técnicas de socos e golpes com outras partes do corpo, como braços, joelhos, canela e cotovelos, que o tae kwon do não utiliza. O Muay Thai hoje em dia usa basicamente todos os socos do boxe mais as cotoveladas e os socos giratórios. Mas eu comecei minha formação com artes marciais clássicas, aos 11 anos de idade - hoje tenho 38. Pratiquei kung fu, judô e jiu-jitsu e fui boxeador profissional. Alexei: Hoje você é instrutor. Mas já tendo passado por diversas modalidades de artes marciais, você pode falar sobre as diferenças entre as diversas artes do ponto-de-vista do praticante? Por exemplo, há biótipos mais favoráveis a uma arte do que a outra? Paulo: A metodologia com que trabalho
é bem simples. Até por uma questão prática
e científica, todo biótipo é, ao mesmo tempo, favorável
e desfavorável para cada arte marcial. Mas existem métodos
de aproveitamento de cada biótipo. O indivíduo baixo, por
exemplo, vai ser treinado para trabalhar sempre a curta distância,
para compensar a desvantagem em relação à envergadura
de um lutador mais alto. Para todos os tipos físicos, os praticantes
vão aprender as mesmas técnicas, por exemplo, avançar
e recuar. Só que, em um primeiro momento, vamos trabalhar velocidade
de ação, reação, coordenação
motora, reflexos, equilíbrio, tudo isso para formar um conjunto.
Em seguida, o atleta vai treinar os golpes retos. Como
a menor distância entre dois pontos é uma linha reta, eles
são mais fáceis de trabalhar inicialmente. Tanto que em
Cuba - referência mundial em boxe - eles não
ensinam golpes curvos às crianças no boxe
infantil, porque sabe-se que as crianças têm uma
percepção de distância diferente
da dos adultos. Da mesma forma, o aluno iniciante vai primeiramente aprender
a dominar todos os golpes retos, e isso já envolvendo o trabalho
de pernas. Assim, ele vai aprender o jab, o
soco direto, joelhadas e pontapés
frontais. Em seguida, o aluno evolui para os pontapés
semi-laterais e para os socos cruzados, diminuindo
a distância do combate para a média distância
e, finalmente, para a curta distância. Envolvendo essa metodologia,
a gente passa a ensinar os deslocamentos: frente, trás,
esquerda, direita, sempre trabalhando sobre o centro de equilíbrio.
A partir daí, o aprendizado e a prática se tornam muito
agradáveis. Alexei: O Muay Thai envolve contato físico durante o treinamento? Paulo: Isso é relativo. Só há necessidade contato físico se o objetivo é a profissionalização. Na modalidade recreativa não. Você desenvolve todos os reflexos, a coordenação motora, todos os parâmetros da luta, sem a necessidade do golpe propriamente dito. O objetivo nesse caso é o auto-controle, ir até o limite, sem atingir outra pessoa. Já com o objetivo de competição, há contato físico sim, mas há toda uma proteção e não há interesse em lesionar o atleta. Alexei: Mas, mesmo com esse treinamento recreativo, o Muay Thai é eficiente do ponto-de-vista da defesa pessoal? Paulo: Sem dúvida. Você adquire todos os reflexos condicionados da atividade, as técnicas apuradas são as mesmas. Eu trabalhei em um centro de excelência no Paraná, com 460 crianças e posso garantir que não há necessidade de expor ninguém ao risco de uma lesão. Por exemplo, em um dia aplica-se um treinamento forte e, no dia seguinte, um treinamento mais leve. Torço para que um dia exista uma cadeira universitária para formação de instrutores do Muay Thai. O que ainda acontece hoje é que, no meio profissional, há muitos especuladores, que expõem os atletas a riscos desnecessários, como ficar batendo em sacos de pancada sem nenhuma orientação e outros métodos equivocados. Alexei: O Muay Thai é uma luta que envolve impactos: socos, chutes, joelhadas, etc. Como toda luta de impacto, é necessário um trabalho de condicionamento de mãos e pés, pois um soco mal-aplicado pode machucar mais a mão de quem o desfere do que o oponente propriamente dito. Como é esse treinamento no Muay Thai e como se trabalha para evitar lesões? Paulo: Por incrível que pareça, essa é a parte mais agradável do treinamento. Porque mesmo o atleta que não tem o objetivo de profissionalizar-se vai aprender a trabalhar contra o relógio. Essa é uma atitude que transmito a todos os meus atletas: "Eu nunca vou entrar no ritmo de vocês porque, se eu fizer isso, em poucos dias estaremos todos sentados na sala". Então, eu imponho um ritmo, trabalho com o relógio e cada um trabalha dentro dos limites de sua condição física. Porque o mestre tem domínio do que acontece dentro da sala, observa e acompanha a evolução de cada aluno. E também trabalho com o que os atletas me relatam, se sentem alguma dor associada a algum movimento, se não consegue acompanhar um determinado exercício, se não está se sentindo bem em um determinado dia... Mas o ritmo é sempre acelerado, você sempre está trabalhando fortemente a capacidade cardiorrespiratória, o trabalho é alternadamente aeróbico e anaeróbico, é um treinamento muito agradável... E que "enxuga gorduras". Se há um esporte que oferece definição física, esse esporte é o Muay Thai. No caso aqui da academia, tenho alguns atletas que combinam Muay Thai com musculação e obtêm uma excelente definição corporal.
Alexei: O Vale-Tudo e o Muay Thai têm uma imagem de combate brutal, que incentivariam comportamentos violentos... Paulo: É interessante falar sobre isso. O problema das brigas-de-rua, da violência e da brutalidade desnecessárias desapareceu, porque os patrocinadores não têm interesse em atletas que sejam maus cidadãos. O patrocinador gosta do atleta que seja eficiente no ringue mas com um comportamento exemplar fora dele, para carregar sua marca. Alexei: O Mike Tyson, por exemplo, não interessa a um patrocinador... Paulo: Ele dá retorno de bilheteria, de mídia, mas não como pessoa, para associar a ele a marca de um produto. Alexei: Eu me lembro que as primeiras competições de Vale-Tudo tinham um forte grau de brutalidade, era um espetáculo até desagradável. Como está hoje a situação do Vale-Tudo nesse aspecto? Paulo: Mudou muito. Os eventos de Vale-Tudo, hoje, não tem mais interesse nesse clima de brutalidade crua. Os atletas fazem todos os exames médicos necessários, inclusive exames anti-doping... Bem, estou me referindo aos bons eventos, ainda estamos numa fase em que muitas práticas precisam ser regulamentadas. Mas tenho que aproveitar essa oportunidade para protestar contra o prefeito do Rio de Janeiro, César Maia, que proibiu o Vale-Tudo. Isso é um absurdo, porque o mundo inteiro reverencia o Vale-Tudo brasileiro, que nasceu aqui no Rio de Janeiro, com o jiu-jitsu Gracie, que é referência mundial, tanto quanto o Muay Thai curitibano. No Brasil, em que se pode apostar em tudo, em cavalos, loterias, bingos, jogo-do-bicho, não se pode apostar em lutadores. Por que não se regulamenta essa atividade? Há equipes brasileiras que estão constuindo marcas fortíssimas no exterior e não são conhecidas aqui. Já fui recebido de limusine no exterior e, aqui dentro, falta apoio, respeito profissional... Graças a Deus, é um esporte que desperta tanto interesse na mídia que não precisa de esmolas do governo. Até porque os projetos governamentais são muito lentos, há tantas etapas intermediárias e uma burocracia tão grande que, quando os recursos são finalmente liberados, representam 10% das suas necessidades e você não tem como executar nada. O Vale-Tudo e MMA (Mixed Martial Arts) superaram isso tudo. E nós temos no Brasil um ambiente muito favorável a todos os esportes, a miscigenação nos coloca entre os melhores do mundo. Veja, investiram no vôlei, criou-se uma geração de ouro, sempre entre os melhores. Apoiou-se a natação, ela explodiu. O futebol tem apoio incondicional, está sempre lá no topo. Todo esporte que recebe apoio no Brasil, explode em sucesso. Alexei: Você pode desenvolver esse lado da miscigenação como vantagem competitiva para os brasileiros no esporte? Paulo: Sem nenhuma depreciação, porque eu amo cachorros e já cheguei a ter 70 rottweilers de uma vez só: nós somos como cães vira-latas. O cachorro vira-lata não pega doença nenhuma. O rottweiler é um cão fenomenal, mas até os seis meses de idade tem uma saúde muito frágil, é um perigo sair à rua com ele devido ao risco de adquirir parvo-virose. Já o vira-lata, não: são tantas as misturas de raças no seu código genético que eles têm uma imunidade espetacular. A mesma coisa você vê no brasileiro. Nós somos negros, índios, alemães, portugueses, temos uma mistura genética espetacular que nos transforma numa raça forte. O que tem faltado para nós, realmente, é apenas apoio. E, quanto ao nosso prefeito (do Rio de Janeiro, César Maia) é lamentável que ele pense tão pequeno. Canais de TV do mundo inteiro compram o Mixed Martial Arts, uma parte imensa da Internet hoje gira em torno do Mixed Martial Arts; estamos levando a bandeira do Brasil para o exterior, somos ídolos no Japão e nos Estados Unidos... E, numa cidade como o Rio de Janeiro, com o argumento de que o Vale-Tudo gera briga e violência, proíbem-se os eventos de uma modalidade esportiva que nasceu aqui! Isso não faz sentido, porque os recursos que se gastam no futebol, mobilizando centenas de homens da Polícia Militar para combater a violência nos estádios durante os jogos do Campeonato Carioca, mostram que a violência está livre na sociedade, não no ringue. No ringue, a violência é combinada, existem regras. Os "brigões" que levavam a violência para fora do ringue já fazem parte de um passado remoto, porque, como já disse, o profissionalismo é muito grande e o interesse dos patrocinadores é incentivar os bons atletas, que mantêm o seu físico em dia e mantém uma postura socialmente correta. No caso do boxe, por exemplo, o Popó é uma referência. O que falta ao prefeito César Maia é abrir o olho, porque a situação aqui no Rio é excelente. Veja, eu sou curitibano e te pergunto: quem troca Curitiba hoje por qualquer outra cidade do Brasil? Eu troco Curitiba pelo Rio de Janeiro! Porque eu sou um formador de atletas e o Rio é um espetacular celeiro de atletas. Nós temos praia para as pessoas correrem, nosso clima é favorável, o carioca adora academias e atividade física... Você está vendo, em pleno mês de fevereiro, a academia está lotada. Falta visão aos nossos governantes. Eu participo de um projeto social na Maré e encontramos algumas dificuldades quanto ao deslocamento dos atletas, porque um atleta de uma comunidade não pode circular em outra que seja dominada por uma facção criminosa rival... Por isso, fica a sugestão para o prefeito: que sejam criados espaços "neutros", para que os jovens tenham a opção de praticar esportes, porque o biótipo do carioca é favorável para todos os esportes. Alexei: Você mencionou que o Muay Thai foi despido dos aspectos rituais tradicionais e filosóficos para privilegiar a técnica. Entretanto, toda arte marcial tradicional sempre teve declaradamente algum objetivo de formação moral do praticante. Pergunto que tipo de pessoa se pretende formar no Muay Thai, sob esse ponto-de-vista. Paulo: A nossa preocupação é em transmitir a idéia de formar um cidadão correto. A meu ver, não há filosofia no mundo que faça uma pessoa agir corretamente se ela não estiver bem consigo mesma. Por outro lado, se ela estiver em harmonia com ela própria, ela vai descobrir na arte marcial uma oportunidade de crescimento. E, quando a pessoa se sente em processo de crescimento, ela não vê necessidade de se comportar de maneira anti-ética, passar por cima dos outros para atingir seus objetivos pessoais, essas mesquinharias. Esse é o ensinamento que a gente tenta transmitir, mas repito que essa conclusão tem mais relação com a Psicologia, de estar bem com você mesmo, do que com a filosofia de uma arte marcial.
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| edição 78 | Corporalidade e Arte - Tatuagem - Entrevista com Lúcio TatooAlexei Gonçalves (Sugira um tema para esta revista)
Alexei: Vamos começar pelos aspectos mais gerais da tatuagem como forma de arte e os tipos de tatuagem que você aplica. Lúcio: A tatuagem se aproxima mais da arte gráfica e da ilustração do que da arte conceitual. Os estilos de tatuagem, como na ilustração, variam muito, desde de o estilo de traço grosso, até o estilo de trabalho sem traço, realista, fotográfico... Hoje em dia, as técnicas de tatuagem abrangem um leque muito grande de opções de desenho. A tatuagem não se prende a apenas um estilo. Na minha equipe, eu sempre procuro ter um profissional qualificado para cada tipo de trabalho, desde o estilo oriental, mais ligado à história da tatuagem, até as samoas, as tribais, as realistas, as que envolvem reproduções de fotos ou pinturas. Tudo vai depender de alguns fatores como a cor da pele, que influencia diretamente o trabalho do artista Alexei: Você pode explicar melhor esse lado individual da tatuagem, por exemplo, a influência da cor da pele sobre o resultado da tatuagem, já que estamos tratando da pele como suporte para a arte? Lúcio: A tatuagem hoje em dia é uma arte individualizada, voltada para o cliente e isso já na escolha do desenho. Nem sempre a gente vai desenhar a partir de uma imagem já existente mas também há todo um lado de criação nesse trabalho. Na questão da cor da pele, a gente procura orientar o cliente pois, quando falamos em tatuagem, é preciso pensar em como ela se processa no corpo humano. A tatuagem se localiza entre a epiderme e a derme, na bolsa basal. É como se a epiderme formasse uma "película" sobre a tatuagem, assim, quanto maior a densidade de melanócitos na epiderme, maior a dificuldade de utilizar certas cores. Quando a pessoa voltar a produzir melanina, expondo-se ao sol, a coloração da pele vai cobrir a tatuagem. Uma pessoa de pele muito morena não deve fazer uma tatuagem muito colorida porque ela vai perder muito tempo e dinheiro fazendo um desenho que não vai se destacar tanto quanto ela deseja, por mais bem feito que tenha sido o trabalho. Por outro lado, a tatuagem em preto e branco é muito versátil, pode-se reproduzir todas as nuances da escala de cinzas e é possível obter resultados tão bonitos quanto na tatuagem colorida. Alexei: E quanto à pele negra? Lúcio: Pelos motivos que já falei, é muito difícil pigmentar a pele negra, com qualquer que seja a cor. Quanto mais a pele do cliente tender para o negro, mais difícil será a aplicação de qualquer cor, embora, repito, seja possível fazer uma tatuagem muito bonita em preto e branco sobre a pele morena.
Lúcio: A tatuagem funciona através da inserção de grânulos de pigmentos na bolsa basal. Esses pigmentos não são atacados pelos nossos macrófagos porque não provocam rejeição. Se você mora em uma região fria onde você dificilmente vai ser exposto ao sol, ressecamento e umidade, a tatuagem vai ter uma durabilidade muito maior. Agora, num país tropical como o nosso, onde a pessoa é submetida a temperaturas e a índices de umidade extremos, o ressecamento da pele é muito maior e isso provoca desgaste no desenho. Isso exige que a tatuagem seja renovada, dependendo do organismo de cada um, a cada quatro ou cinco anos. Outro caso é o da pessoa que faz a tatuagem e ganha peso corporal, seja massa muscular ou gordura. Quando há ganho de massa, a pele se "estica" o que facilita a absorção e eliminação do pigmento. Observe que esse problema só acontece quando há ganho de massa corpórea. O emagrecimento não afeta a tatuagem. Mas há diferenças individuais. Os pigmentos da tatuagem são de base orgânica com uma pequena base mineral para fixar o pigmento e evitar sua absorção pelo organismo. Mas há pessoas cuja pele absorve até mesmo essa base mineral. A questão do desgaste da tatuagem varia muito para cada caso individual. Há pessoas que aplicam uma tatuagem marrom e, após alguns anos, a cor marrom desaparece totalmente, porque o pigmento foi absorvido pelo organismo. Já com outras pessoas, esse mesmo processo não ocorre com o marrom, mas com o amarelo ou o laranja. Alexei: Essas alterações de massa corpórea podem provocar distorções nas formas desenho? Lúcio: É muito difícil. Depende do local. Por exemplo, nas costas, é muito difícil ocorrerem distorções. Já nos braços, pode ocorrer, com o ganho de massa muscular, um "deslocamento" do desenho, o que pode exigir desde uma correção no desenho ou até sua cobertura total. Alexei: Em todo caso, a tatuagem é algo que a pessoa vai carregar na pele durante muitos anos, expressando um significado profundo. Assim, essa decisão não pode ser impulsiva.
Lúcio: Certamente. A tatuagem é usada para marcar fatos tanto biológicos quanto sociais da vida do ser humano, é um tipo de linguagem. Assim, não sou favorável à banalização da tatuagem. O indivíduo deve se preocupar, principalmente, com a escolha do tema e, em seguida, em fazer uma pesquisa quanto ao profissional mais qualificado para produzir o efeito desejado, deixando o cliente 100% satisfeito. Outra questão é que a tatuagem, por não ser reversível, precisa ser muito bem administrada. Por isso, vale a pena dar um toque aos seus leitores: escolha o tatuador pela qualidade do profissional, não pelo preço. Alexei: Sobre qualificação profissional, você pode citar alguns riscos envolvidos em uma escolha da tatuagem pelo preço? Lúcio: Os riscos são muitos. Para começar, a tatuagem não tem origem nacional, muito pelo contrário, surgiu no Brasil na década de 1970, há pouco mais de trinta anos. Assim, é uma profissão relativamente nova. Com o boom da tatuagem a partir da década de 1990, surgiram "profissionais" por todos os lados para atender à demanda. Veja, não é uma categoria profissional regulamentada e não há sequer cursos de nível técnico ou superior para sua formação. Porque, além da técnica propriamente dita, a formação educacional propicia uma base ética para o comportamento no trabalho. Você precisa escolher o profissional, então, com base em trabalhos que ele já tenha realizado e na infra-estrutura do local da aplicação, algo que você nota só pela observação. Porque, veja só, a tatuagem tem uma ligação com o sangue. Então, apesar de ela ter um campo de contaminação muito pequeno, existe um risco se não houver um cuidado no uso dos materiais. Aí, entram as bactérias de contato, os vírus das hepatites B e C. É muito difícil a contaminação por AIDS, só poderia ocorrer pelo contato direto com o sangue de um tatuador infectado, mas há uma série de outras doenças infecciosas sérias que podem ser resultado de descaso no processo de tatuagem. Quanto aos danos que uma tatuagem mal-feita pode trazer à pele propriamente dita. Por exemplo, um tatuador pouco experiente pode manusear a agulha desajeitamente, de um modo que ultrapasse a bolsa basal. O que pode acontecer nesse caso? No mínimo, a tinta pode se espalhar sob tecido, dando um aspecto grosseiro ao desenho, modificando a cor. Outros danos incluem cicatrizes na derme, que causam escurecimento da pele, quelóides e outros danos que enfatizam a necessidade de se procurar um bom estabelecimento para realizá-la. Alexei: A tatuagem, como você enfatizou, é um procedimento irreversível. O que motiva uma pessoa a provocar uma alteração permanente na imagem do corpo? Lúcio: A tatuagem está inserida na vida humana desde a idade da pedra. É um procedimento que, eu diria, transcende a moda e os conceitos da sociedade, é uma tendência humana universal. Por exemplo, o cristianismo, em diferentes épocas de sua história, tanto rejeitaram como adotaram a tatuagem. Por exemplo, durante as Cruzadas, a tatuagem era utilizada como meio de identificação. Já durante a Inquisição, ela foi condenada. Charles Darwin, em 1871, quando ela já estava concluindo "A Origem das Espécies", ele verificou que todas as civilizações que viviam em ilhas costeiras, usavam tatuagem com diferentes formas de expressão e design. Quer dizer, eram povos que não tinham contato uns com os outros, mas todos eles expressavam mensagens através da tatuagem. Ele constatou que entre os maoris e os povos da ilhas do Taiti a tatuagem existia, embora com motivos totalmente diferentes. Isso representa a constatação de uma tendência humana, como o uso de jóias, por exemplo. Com a diferença de que a tatuagem é mais profunda, porque, como já disse, ela serve para marcar fatos tanto biológicos quanto sociais. Por exemplo, às vezes o sujeito quer marcar um amor que ele vive e marca o nome da mulher na própria pele. Também é comum marcar o nome de um filho, ou o nome da família. Outra motivação é expressar algum ícone que represente sua vida interior, como a tatuagem de um guerreiro, ou de um animal. Por esse motivo é que afirmei que a tatuagem transcende os conceitos da moda. Às vezes, a moda interfere, mas de forma circunstancial, como no caso de uma modelo que apareça numa foto usando uma tatuagem com um desenho específico. Aí, surge uma demanda passageira por aquele desenho. Alexei: Já que a tatuagem é um fato humano universal, que motivos você identifica para as flutuações em termos de sua resistência e aceitação ao longo de diferentes períodos históricos? Lúcio: Por exemplo, na China, uma civilização milenar em que a prática da tatuagem surgiu e se desenvolveu há séculos, ela assumia um caráter de vestuário. Por exemplo, um sujeito que não tinha recursos para usar roupas sofisticadas como as dos imperadores pintava o corpo de forma a ficar parecido com as vestimentas imperiais. No Brasil, por outro lado, ela chegou muito recentemente, na década de 1970, pelas mãos de um sujeito que é considerado o pai da tatuagem no Brasil, o Luke, que se baseou no porto de Santos e disseminou a tatuagem pelo pessoal que habitava a zona portuária: marinheiros, prostitutas, ladrões... Então, a tatuagem recebeu aqui o estigma de símbolo de marginalidade, porque ela chegou marginal ao Brasil. Por volta de 1975, ela chegou à praia de Ipanema através de um garotão, um surfista que era um verdadeiro "ícone", chamado de "Petit". Ele foi ao porto de Santos e trouxe de lá uma tatuagem, que mereceu até uma música do Caetano Veloso: um "dragão tatuado no braço". Através desse ato, a tatuagem caiu no centro da cultura carioca de então, o píer de Ipanema, onde se concentravam os hippies, o pessoal da tropicália. Ele trouxe a tatuagem, portanto, para o coração de uma juventude revolucionária, que queria modificar a o sistema social. A tatuagem continuou com imagem marginal, mas já com uma ideologia diferente. O final da década de 1980, com a globalização, representou o boom da tatuagem no Brasil, com aceitação social total da tatuagem. O lado ruim é que qualquer um pôde se dizer tatuador e, pior, se achar tatuador. Alexei: Sobre o aspecto artístico da tatuagem. Você é designer gráfico e tatuador. Certamente pode estabelecer diferenças entre a criação artística no papel e na pele. Lúcio: O tatuador, atualmente, tem uma preocupação sobre como a tatuagem vai se apresentar sobre o corpo da pessoa. E isso só se aprende através de observação, principalmente do trabalho de outros artistas de outras áreas. A tatuagem não tem apenas o aspecto do desenho em si, ela tem que ficar tão harmoniosa no corpo como uma roupa. E esse efeito vai ser mais bem atingido pelo tatuador mais experiente. Embora ainda haja muitos adeptos ao lado romântico da tatuagem, o que chamo de "old school", o fato é que ela se desenvolveu muito tecnicamente e expandiu seus horizontes, de modo que há espaço para adaptações contemporâneas de técnicas e desenhos tradicionais, como o estilo oriental e o samoa. Quero enfatizar que não adianta um cara pegar um papel e desenhar muito bem, ser um artista de mão-cheia, se ele não tiver experiência e conhecimento sobre como ele vai reproduzir aquele desenho em uma tatuagem, porque ele terá de usar recursos totalmente diferentes para obter um resultado idêntico. Alexei: E com relação à "mídia" propriamente dita? O papel é uma superfície lisa, enquanto a pele é uma superfície irregular... Lúcio: A própria pele apresenta diferenças imensas de um indivíduo para o outro. Por isso o tatuador precisa estar sempre tendo experiências novas, tem que ter a mente muito flexível e com uma visão muito aberta, senão ele não vai conseguir esses detalhes da profissão. Alexei: Quanto aos elementos do trabalho gráfico em geral, como posicionamento, harmonia, composição... Lúcio: Tudo isso é importante e levado em consideração durante o trabalho. Por exemplo, o tatuador precisa explicar para o cliente, por exemplo, que uma tatuagem muito pequena em uma região muito baixa do corpo vai ficar parecendo um sinal, uma mancha na pele. O tatuador tem que trabalhar para que o cliente siga a sua linha de raciocínio na execução do trabalho, senão o trabalho fica impossível. Alexei: Com relação aos projetos de longo prazo, em que uma pessoa começa com um desenho pequeno e vai acrescentando outros... Lúcio: São muitos os casos. Hoje em dia, posso citar casos de pessoas que chegam sem nenhuma tatuagem no corpo e fecham um serviço para as costas inteiras como primeira tatuagem. Isso é um sinal de que a tatuagem já está socialmente amadurecida entre nós. Já quanto à posição do desenho, quando se trata de uma tatuagem pequena, é um problema relativamente simples. Acho que o tatuador tem por obrigação posicionar o desenho de uma maneira que o indivíduo se sinta bem, à vontade, seguro quanto ao que vai fazer. É o mínimo que um tatuador tem que saber fazer. Alexei: Agora, invertendo as posições, gostaria que você falasse da experiência de ser tatuado, dessa decisão de atravessar um processo de dor para atingir o Belo. Lúcio: Nesse sentido a tatuagem é mágica. O ser humano consegue superar a dor da tatuagem com a maior facilidade devido à intensidade de seu desejo de tê-la no corpo. O processo chega até a ser viciante. Há alguns casos em que o tatuado revela uma tendência compulsiva em se tatuar. Começa com um trabalho pequeno, logo em seguida faz outro, quando você vê, o cara já está todo tatuado, e muito rápido. A magia da tatuagem é muito forte. O sujeito que entra pela primeira vez para fazer uma tatuagem e resolve fazer um trabalho grande, ele em um mundo totalmente novo e encantado para ele. É por aí que a Beleza supera a dor. Alexei: E o caso inverso, do "tatuado arrependido"? Lúcio: Esses casos existem também. O "arrependido" pode ser qualificado como o sujeito que teve uma primeira experiência ruim com a tatuagem. Vou dar alguns exemplos. O primeiro caso é o do sujeito que faz uma tatuagem muito jovem e escolhe um tema que não condiz mais com sua personalidade após alguns anos. Outro caso é o de um desenho que resulta muito ruim, criando um "trauma" na pessoa. Ainda outro caso é o do tatuador inexperiente que produz um processo de dor muito intensa, também criando um trauma. Mas eu acho que esses casos só existem devido à má administração do trabalho em termos gerais. Quando a tatuagem é bem administrada, mesmo que o cliente faça apenas uma tatuagem pequena, ele vai deixar a mente aberta para realizar outras tatuagens futuramente. Alexei: Quanto às tatuagens não permanentes, de curta-duração... Lúcio: Isso não existe, é mentira. Só a henna, mas a henna não é uma tatuagem. A própria palavra "tatoo" surge a partir do som do contato da agulha com a pele. A partir daí, você entende que só pode existir tatuagem em contato com a carne, em local onde ela se fixe. O que pode ser entendido como pertencente ao campo da tatuagem, embora não sejam a mesma coisa? A escarificação, o "brand", o processo de tatuagem maori, que é feito com pequenos cortes causando quelóides... Tudo isso pode ser entendido como análogo à tatuagem, mas não consigo aceitar a henna como processo de tatuagem. Alexei: Para você, então, a henna é uma forma de pintura corporal mais duradoura... Lúcio: Sem dúvida, é uma pintura corporal que dura uma semana, dez dias no máximo. Não pode ser qualificada como tatuagem, porque a tatuagem tem uma relação direta com a dor física. Alexei: Finalmente, é possível remover ou apagar uma tatuagem? Lúcio: A tatuagem só pode ser removida com laser. Antigamente, usava-se o laser de rubi, mas descobriu-se que o laser rubi era anulado pelos pigmentos que refletiam os raios de cor vermelha. O vermelho não era apagado e os pigmentos com matizes de vermelha eram muito resistentes à remoção. Atualmente, usa-se mais o laser de âmbar porque, embora machuque mais, ele é mais eficaz. Agora, é um processo tão doloroso quanto caro, muito mais doloroso e caro do que fazer a tatuagem. No caso da tatuagem não-permanente, houve um caso de algumas pessoas que divulgaram um tipo de tatuagem que sairia sozinha em quatro anos. Essa promessa é infundada e mentirosa, já foi provado que não existe esse tipo de tatuagem. |
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| edição 77 | Corporalidade e Arte - Os Cabelos e seus Significados - Entrevista com Luana de Oliveira(Previos article English version: "Corporality and Art - Part II - Body and Face Painting) Alexei Gonçalves (Sugira um tema para esta revista)
Fim de tarde,¨hora de fechamento do salão de beleza. Horário ideal para uma reflexão sobre os significados da arte de produzir beleza no corpo das mulheres, mais especificamente, na cabeça: o corte cabelo e seus significados. No papo com Luana de Oliveira, fonoaudióloga, atriz e gerente de um salão de beleza, com aparência deslumbrante e simpatia sem igual em pleno final de um dia cansativo, conversamos sobre diversos aspectos antropológicos e psicológicos do trabalho naquele que, talvez, seja um dos mais antigos e tradicionais templos da transformação do projeto corporal feminino, em que a busca de uma nova imagem para o ego se ergue em refinada categoria de arte e corporalidade. Logo no primeiro minuto do bate-papo, fomos interrompidos por uma cliente tardia, algo hesitante, em busca de informações sobre um produto específico. Começamos a conversa a partir desse "estudo-de-caso". Perguntei a Luana o que exatamente procurava a cliente, a começar pelo produto. Luana: O produto que ela veio procurar é a "escova de maracujá", um produto que está na moda, uma verdadeira febre no Rio de Janeiro, junto com a escova de chocolate. É um tratamento profundo, que sela as cutículas e retira a porosidade dos cabelos, deixando-os mais maleáveis. Dependendo do tipo de cabelo, o volume pode até diminuir. É preciso repetir mensalmente, pois é realmente um tratamento. Enfim, entrou na moda o conceito de que bonito é o cabelo liso e a mulherada está toda procurando alisar o cabelo. Alexei: Mas vejo que vocês fazem "permanente" também! Luana: Fazemos, mas é um serviço muito menos procurado, mais freqüentemente por senhoras de mais idade. As mulheres mais jovens estão preferindo alisar. Alexei: E a que você atribui essa moda? Luana: Olha, é uma questão de acompanhar o movimento coletivo. São atrizes, programas de TV comentando o uso do produto... E aí, a procura aumenta muito. A gente tem que ficar muito antenado com os modismos e tendências para disponibilizar os produtos no salão assim que as clientes começarem a procurá-los. Alexei: Agora, em termos gerais, o que as clientes procuram em salão de beleza, independentemente do serviço ou do produto que vão comprar? Luana: Certamente, é uma satisfação psicológica. Abordando a questão do ponto-de-vista do teatro, noto toda uma representação de um papel. Por exemplo, muitas mulheres chegam aqui, mesmo as de classes mais altas, reclamando de falta de dinheiro... Outras vêm ao salão chorando porque perderam o namorado... Não vejo como uma mera questão de estética, algo que se limite a "deixar as unhas mais bonitas", no caso da manicure, por exemplo. Relaciona-se mais a uma busca pela melhoria da auto-estima e eu noto isso pela postura corporal com que elas entram aqui, com os ombros encurvados, e a postura com que elas saem, mais empinadas, eretas, o peito erguido, a cabeça erguida e um sorriso no rosto. Alexei: E sobre o bate-papo que rola durante o processo? Luana: Em geral, fala-se sempre sobre as mesmas coisas (risos)... Mas a gente tem como política aqui evitar discussões sobre temas polêmicos, que possam tumultuar o ambiente. Porque há pessoas que sabem conversar sobre um tema respeitando os diversos pontos-de-vista. Mas há outras pessoas que se irritam e querem convencer as outras de que estão certas. Então, eu fico procuro ficar ligada na reação das clientes e sinalizo para os funcionários que mudem o rumo da conversa. Alexei: Você pode contar um caso? Luana: Tivemos uma funcionária que era fanática religiosa e queria converter as clientes. Então, não sei nem dizer como ela conseguia isso, mas a partir de qualquer assunto, ela conseguia chegar na igreja e começava o tumulto. Essa funcionária não conseguia se controlar e magoou muitas clientes durante o período em que esteve aqui. Por exemplo, ela expressava de forma muito preconceituosa. Com essas posições extremistas, radicais, preconceituosas, não é possível manter um clima agradável entre os funcionários e, principalmente, com as clientes, para que elas se sintam bem e queiram voltar ao salão. Alexei: E como é que se produz esse clima agradável? Luana: A palavra mais usada pelas clientes é "energia", eles dizem que aqui tem uma "energia positiva". Olha, não é que todos os dias a gente esteja se sentindo bem e com alto astral, isso não é possível, há sempre aquele dia em que alguma coisa incomoda, algo de ruim acontece, enfim, você não está se sentindo bem. Mas eu procuro abstrair, porque o cliente não precisa saber que eu tenho um problema, então atendo sorrindo, procurando ser o mais atenciosa possível e transmito essa atitude para os funcionários. Eles têm abertura para desabafar algum problema comigo mas, quando chega a cliente, vamos vestir o sorriso. Alexei: Por outro lado, as clientes costumam se abrir com vocês, como se fossem psicólogos, não? Luana: É verdade. Há clientes que vêm para cá para realmente se abrir com a gente, conversam sobre os problemas, expõem sua vida sem vergonha nenhuma, falam sobre tudo. Observo que isso é mais freqüente com as manicures. Quando a gente percebe que elas estão falando baixinho, para não serem ouvidas mesmo, já imaginamos que está rolando um desabafo. Por incrível que pareça, aqui, a gente conseguiu abolir a fofoca. Já teve, mas fizemos um trabalho de conscientização e o clima está bem diferente. Realmente, o que a cliente conta ali para a manicure ninguém fica sabendo depois. Alexei: Então, com a manicure, há uma relação mais próxima, de "pé-de-ouvido", até pela proximidade física em que acontece o trabalho. Luana: Exatamente. Também há uma intimidade maior por ocorrer um toque de pele com pele, há uma troca de energias naquele momento e a mulher sente como se aquele toque delicado fosse uma carícia e isso favorece a aproximação. Alexei: E sobre a amizade entre clientes? Isso costuma acontecer? Luana: Ultimamente, tem acontecido com menos freqüência. Já aconteceu muito de duas clientes se conhecerem e passarem até a combinar para se encontrar aqui no mesmo horário e, quando calhava de uma delas não aparecer, até cobravam da gente: "Onde está aquela senhora que vem sempre no mesmo horário que eu"? E pedem que a gente mande beijos, abraços, quando a virmos em outro horário. E quando a gente passa o recado, a outra fica toda animada. Alexei: E sobre o significado do tratamento? Por exemplo, você disse que as mulheres com cabelo ondulado, hoje, estão procurando alisá-los. O que exatamente elas estão procurando? Luana: Elas dizem que querem "mudar a cara". Dizem que estão cansadas do cabelos, que estão sempre com a mesma cara e querem mudar. Há clientes que perguntam se o resultado é para a vida inteira. Eu digo que não, o cabelo vai crescer e vai voltar ao que a genética determinou para a raiz do seu cabelo. Algumas declaram que vão procurar emprego e que querem estar mais bonitas, outras alegam que o cabelo ondulado não é adequado para certas ocasiões. Alexei: Se a gente pensar bem, essa expressão "mudar de cara", apesar de ser um clichê com o qual a gente está tão acostumado que nem nota, é muito interessante, porque expressa algum desejo mais profundo, né? Porque, se levarmos ao pé da letra, essa vontade de mudar de cara lembra aquele filme, "O Máskara"! Luana: (risos) É, dizem que estão cansadas do cabelo, cansadas da própria "cara". Alexei: Eu noto que você tem aqui, como em todos os salões, referências visuais de cortes de cabelo e maquiagem: pôsteres, revistas... Elas pedem cortes "iguaizinhos" ao da revista? Luana: Normalmente, os cortes mais pedidos são os que estão em moda na televisão. Quando tem uma novela que "estoura" em interesse e há uma atriz que tem um corte mais diferente, elas correm aqui para pedir o corte "daquela atriz da novela tal", principalmente da Rede Globo. Nunca me pediram um corte de uma novela de outra emissora... Alexei: Pois é, aí eu te pergunto: tecnicamente, é impossível reproduzir o mesmo corte de cabelo, cada cabelo é diferente do outro... Luana: E cada rosto é um rosto diferente. Alexei: Então, é realmente impossível que um corte fique "igualzinho" ao da revista ou da novela... Luana: É uma situação delicada e há clientes que ficam aborrecidas quando a gente diz, por exemplo, que "esse corte não combina com seu rosto". Nesse caso, a gente tem que explicar detalhadamente o motivo, mostrar outros cortes que seriam melhores para o rosto dela. Porque é como se o rosto fosse pintura e o cabelo fosse a moldura. Também há algumas clientes que pedem coisas que são tecnicamente impossíveis, como um relaxamento de cachos por exemplo, mas já tendo usado recentemente outra química no cabelo. Isso não pode, vai estragar o cabelo da pessoa, a gente explica que o cabelo pode até cair, dependendo do caso. Nesses casos, quando a cliente insiste, nós somos taxativos: aqui a gente não faz de jeito nenhum. Então, elas ficam aborrecidas, saem daqui pisando duro, mas é melhor do que a gente estragar o cabelo da pessoa. Alexei: Bom, mas e quando é possível fazer? O fato de que não vai ficar idêntico não causa frustração? Como lidar com isso? Luana: É preciso reparar muito na cliente. Se é um tipo muito exigente, que quer daquele jeitinho que aparece na foto ou na novela nos mínimos detalhes, a gente tem que explicar para ela que o resultado não vai ser exatamente o que ela espera. Por exemplo, vou ter que explicar que, como o cabelo dela é volumoso e o da modelo ou atriz é mais ralo, o resultado vai ficar diferente. A gente precisa ter muito cuidado e explicar cada detalhe, para não frustrar a cliente e para que, no final, ela fique satisfeita com o resultado. Alexei: Bom, quando uma cliente expressa o desejo de ter um corte "igualzinho" ao de uma atriz de novela, certamente é porque ela ter alguma coisa em comum com a atriz ou com o personagem que ela está representando e, de certa forma, ela quer expressar um significado como "eu também sou assim". Essa expectativa sempre pode envolver um certo grau de frustração e você procurar lidar com isso didaticamente. Luana: É. Até hoje, nunca vi uma cliente com esse perfil sair daqui triste com o resultado. Porque se a gente explica detalhadamente porque e como vai ficar, até a cliente mais perfeccionista vai entendendo o trabalho do profissional, quais são os limites do que pode ser feito e acaba gostando do resultado. Mexer com o cabelo é um trabalho muito sério, muito mais difícil do que as unhas, por exemplo. Não que a manicure não mexa com a auto-estima mas, se você errar no corte do cabelo, a pessoa vai ficar com MUITA raiva. Alexei: Desenvolve um pouquinho essa entidade mítica, o Cabelo... Luana: (risos) É uma ligação afetiva muito séria. Pode não parecer, mas os homens são tão ou mais exigentes quanto as mulheres. Ficam preocupados com a nuca, a altura das costeletas, olham e avaliam muito... Acho difícil falar sobre esse assunto... Alexei: Ok, então fale um pouco da sua relação com os seus cabelos. Luana: Ah, depois de passar tanto tempo aqui dentro, eu até me desliguei um pouco. Claro que eu cuido; fiz uma escova para alisar neste fim de semana, meu cabelo é todo cacheadinho, todo mundo prefere ele cacheado e eu também. Cabelo cacheado dá um ar mais inocente, mais "menininha". Já o cabelo escovado tem um estilo mais "mulherão". Alexei: Então, mesmo gostando dos cabelos cacheado, você também resolveu "mudar de cara"? Luana: (risos): É neste fim-de-semana deu vontade de fazer uma escova e pedi para minha mãe fazer para mim. De vez em quando faz bem... Alexei: Essa decisão de "mudar de cara" mudando o corte é impulsiva? Luana: Pessoalmente, olha, minha mãe trabalha neste ramo há mais de trinta anos... E eu não gosto de que fiquem mexendo no meu cabelo. Não gosto de mudar o corte, não gosto que digam que vão tirar meus cachinhos para fazer escova progressiva. E, sinceramente, quando alguém vai mudar o corte de cabelo tem que pensar muito antes de fazer. Por exemplo, uma "escova definitiva", que é diferente da "escova progressiva": a escova progressiva alisa por etapas o cabelo, já a escova definitiva alisa de uma vez só. Então, é uma decisão que a cliente tem que querer mesmo. Quando ela chega aqui e diz "eu quero uma definitiva", nós perguntamos várias vezes se ela têm certeza de que é exatamente isso que ela quer. Explicamos que os cachinhos "vão embora de vez", não adianta chorar nem voltar aqui pedindo de volta os cachinhos de seu cabelo porque não vai ser possível. O mesmo vale para mudanças radicais no corte. Porque o corte de cabelo modifica muito o rosto da pessoa e, se mudar demais, pode causar um choque. Alexei: E sobre o lado artístico propriamente dito? Gostei muito da comparação dos cabelos com a moldura. Você falar sobre o lado técnico da estética, de composição do rosto com o corte, enfim, o que se leva em conta para produzir beleza, independemente de moda? Luana: Olha, a gente precisa observar o conjunto. Por exemplo, às vezes entra uma cliente mais tímida, recatada, pedindo um corte radical. A gente explica que o corte que ela está pedindo não combina com a personalidade e que ela não vai gostar disso depois e procuramos mostrar um corte que realmente tenha a ver com a pessoa. Há mulheres que têm uma vida muito agitada e vão precisar de um corte mais prático, que ela não precise gastar muito tempo penteando cada parte do cabelo. Se o profissional trabalhar observando a personalidade da cliente, ele a conquista. Se não reparar nisso, perde a cliente na hora.
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| edição 76 |
Corporalidade e Arte - Parte II - Pintura Corporal e Facial.(English version: "Corporality and Art - Part II - Body and Face Painting) Géssica Hellmann (Sugira um tema para esta revista)
Neste artigo trataremos sobre a arte da pintura corporal, iniciando com um breve histórico e por fim apresentando o trabalho do artista brasileiro Beto França e o maravilhoso realizado pela artista, designer e fotógrafa irariana residente em Londres, Parima Shahin Moghaddam no rosto de crianças. O corpo e a pele como suporte para a arte já era usada pelos homens de Neanderthal, antes mesmo de pintarem as paredes das cavernas onde viviam. Pintavam-se para as cerimônias de fertilidades, guerras e motivos fúnebres. Segundo Pinto (2007) as egípcias já pintavam os cabelos e a pele para ficarem mais bonitas usando óleos vegetais e tinturas naturais. O autor afirma que nas sociedades indígenas brasileiras, até hoje, "a pintura corporal tem grande importância e seu significado é muito amplo, podendo ir da simples expressão de beleza e erotismo à indicação de preparação para a guerra, ou, até mesmo, como uma das formas de aplacar a ira dos demônios. Além de protegerem o corpo dos raios solares e das picadas de insetos, a ornamentação corporal é como se fosse uma segunda 'pele' do indivíduo: uma pele social em substituição à biológica. O padrão da pintura e o local de sua localização no corpo revela o 'status' de seu detentor na sociedade". A pintura corporal é a união das artes visuais com o corpo humano, é a arte que utiliza como suporte o corpo e a pele. Esta arte é bem difundida na Europa, mas ainda pouco conhecida e valorizada no Brasil. "A pintura corporal deriva, segundo Beto França, dos efeitos plásticos obtidos com elementos visuais como linha, forma, cor, volume e textura, assim como dos princípios de organização, composição, equilíbrio, harmonia, ritmo e movimento. Além disso, segundo ele, o domínio da técnica do desenho é uma das ferramentas fundamentais para a execução desse trabalho" (Pintura, 2007). Esta arte é efêmera, o artista leva algumas horas para realizar e o efeito é fantástico. Mas é necessário o recurso fotográfico para eternizar o registro desta arte. No Brasil, a pintura corporal tem sido utilizada principalmente em eventos como feiras e exposições e, princiapalmente, no carnaval. As tintas especiais são todas importadas, o que dificulta um pouco a divulgação desta arte. Mais do que falar sobre ela é preciso apreciá-la. Veja abaixo alguns trabalhos realizados pela fotógrafa Parima nas ruas em Londres. A delicadeza com que a artista faz seu trabalho, bem como a alegria e expectativa expressa nos rostos das crianças faz do próprio processo de produzir a pintura um evento artístico, tanto quanto o resultado final.
Referência: Pinto, Ângelo C. Corantes Naturais e Culturas Indígenas. Disponível em: <http://www.sbq.org.br/PN-NET/causo9.htm> Acessado em: 19/01/2007. Pintura corporal, a arte em natureza viva. Disponível em: < http://www.mundocor.com.br/arteseartistas/pintura_corporal.htm>. Acessado em: 18/01/2007. |
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