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| edição 85 | “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”Patrícia Gomes (Sugira um tema para esta revista)
Há alguns dias eu recebi a proposta de escrever sobre a tal da bipolaridade, e confesso, foi algo que me surpreendeu nesse momento, ainda mais por ser tão forte esse assunto, ainda mais pra mim. Mas enfim, me propus a escrevê-lo e agora estou aqui, tentando descobrir por onde começo a desfiar esse rosário. Acho que o melhor meio é tentar deixar claro, ao
menos tentar, do que se trata. O mais chamativo da doença bipolar do humor são os episódios de mania que podem alternar-se, geralmente ao longo dos anos, com a depressão. Os episódios começam a manifestar-se em geral por volta dos 15 a 25 anos de idade, com muitos casos de mulheres podendo ter início entre os 45 e 50 anos. A pessoa apresentando o quadro de mania mostra um humor anormal e persistentemente elevado, expansivo, excessivamente eufórico e alegre, às vezes com períodos de irritação e explosões de raiva, contrastando com um período de normalidade, antes de a doença manifestar-se. Além disto, há uma auto-estima grandiosa (com a pessoa sentindo-se poderosa e capaz de tudo), com necessidade reduzida de dormir (a pessoa dorme pouco e sente-se descansada), apresentando-se muito falante, às vezes dizendo coisas incompreensíveis (pela rapidez com que fala), não se fixando a um mesmo assunto ou a uma mesma tarefa a ser feita.
A terceira forma da doença bipolar do humor seria aquela conhecida como transtorno ciclotímico, ou apenas ciclotimia, em que haveria uma alteração crônica e flutuante do humor, marcada por numerosos períodos com sintomas maníacos e numerosos períodos com sintomas depressivos, que se alternariam. Tais sintomas depressivos e maníacos não seriam suficientemente graves nem ocorreriam em quantidade suficiente para se ter certeza de se tratar de depressão e de mania, respectivamente. Seria, portanto, facilmente confundida com o jeito de ser da pessoa, marcada por instabilidade do humor. Esta é a parte “técnica” do problema, vista por alguém que está fora, na maioria das vezes, do problema. Não é um fardo leve de se carregar, ao contrário. Falo agora por mim, como alguém que foi diagnosticada com esse transtorno. Há um sentimento de culpa quase sempre presente, pois não é algo agradável estar bem e de um segundo para outro sentir-se a pessoa mais vazia do mundo e sem nenhuma causa aparente e mesmo assim com todas possíveis. Ver os que estão ao seu lado sofrerem por não saberem lidar com o problema, ver a inutilidade das tentativas de disfarçar a situação. É horrível ter que ouvir de pessoas que não entendem que tudo depende da gente, que se não quisermos sentir essas coisas basta rezar, levantar, se sacudir. Alguma vez alguém já quis ficar doente pelo prazer de dizer que tem determinada doença? A sensação de se ser um estrangeiro em qualquer lugar é enorme, tanto que, muitas vezes, passamos a ser de nós mesmos. Sentir-se como mais um estrangeiro num país de muitos,
onde ninguém se entende é mais que comum, ainda mais quando
se tenta por todos os meios falar algo e parece que jamais vai conseguir
chegar a um idioma comum. Passar o resto da vida dependente de um remédio
que ameniza e te estabiliza é como sentir que está como
um pássaro que vive fora da gaiola, mas com uma corrente atada
aos pés... Conviver com um bipolar não é fácil,
é uma tarefa enlouquecedora, admito, mas também posso dizer
que é possível. Ainda mais quando há a vontade real
e sincera de conhecer quem está ao seu lado, quando há amor
e respeito pelas diferenças alheias.
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| edição 84 | Dança: a terapia sem fala
(Sugira um tema para esta revista)
Nas práticas da dança, à
medida que nosso corpo se solta, se desprende de um padrão antigo,
as nossas couraças vão aparecendo, e a estrutura
dos movimentos vai imprimindo uma nova dimensão na vida
de quem dança. Os desenhos geométricos inconscientes e o
chamamento ancestral sem palavra alguma formam uma silenciosa e suave
forma de terapia, como afirma a bailarina, coreógrafa e professora
Mahaila Diluzz, no artigo que se segue. ![]() Luu, Mahaila, Raquel e Silvia - foto cedida pela autora Este é o fundamento de diversas
terapias energéticas e corporais.
Porém, estamos falando da Racks El Shark. Nela, há um
detalhe que faz toda a diferença: "as formas desenhadas."
Aqui entra o que alguns denominam de Geometria Sagrada, presente em
tudo o que tem vida no universo. Esta geometria, que é a linguagem
ancestral para a compreensão da natureza, está implícita
na dança do ventre. Nossa compreensão primária
sobre o mundo físico está nas formas. Nossos ancestrais
desenhavam formas geométricas nas paredes das cavernas, procurando
reproduzir o mundo em que viviam. Não compreendiam a matemática,
mas sabiam que a lua era um círculo, e assim a representavam
em suas esculturas rupestres. Assim sendo, os movimentos da dança
não são só técnicos, pois partem do inconsciente
para o consciente.
Mahaila
Diluzz |
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| edição 83 | Especial Corpo Divino: Avancem para águas mais profundas!
(Sugira um tema para esta revista)
É verdade que meus valores, crenças
e metas são mais importantes que meus sentimentos; mas somente
quando lhe revelo como me sinto
Hoje é um dia muito bom para relatar alguns sentimentos.
Durante algumas semanas atrás, o clima aqui estava muito seco.
Ontem choveu muito. O que estava seco agora é úmido, as
folhas ficaram mais verdes, o ar ficou mais agradável. O amanhecer
foi lindo, o sol brilhava radiante e tornava a natureza e o dia mais luminoso,
viçoso e alegre. A criação, com sua poderosa força
regeneradora, me provocava a uma exposição do que se passa
no meu interior. Com Carinho, Taubaté, 11 de março de 2007. |
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| edição 82 | As imagens falam mais que as palavras - MassoterapiaAlexei Gonçalves (Sugira um tema para esta revista)
Estudo de caso I: Paciente Géssica Hellmann "Hoje pela manhã marcamos, eu e meu marido, um estudo de caso com o Massoterapeuta Marcus Cesar Santos. Ele iniciou a seção preparando o ambiente, com incensos, e uma música relaxante instrumental. Ao começar a massagem sentia-me "travada"; na verdade, pouco sentia o meu corpo. Utilizando a linguagem reichiana diria que uma couraça espessa cobria meu corpo. Quando ele massageava meus pés, podia sentir cada ponto do corpo tendo sua energia reequilibrada. Sentia os rins, o fígado, o intestino. As emoções sendo postas pra fora; chorei, ri e, finalmente, consegui liberar tudo que estava preso e enraizado.
Estudo de Caso II: Paciente Alexei Gonçalves
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| edição 81 | Benefícios da Massoterapia para HIV Positivos e Combate à AIDS - Entrevista com o Massoterapeuta Marcus César Santos (Parte 1)Alexei Gonçalves (Sugira um tema para esta revista)
(Observação: com o objetivo de preservar a privacidade das pessoas citadas, omitimos qualquer informação que pudesse, ainda que indiretamente, identificar os pacientes mencionados, inclusive idade, sexo, profissão, entre outras. Assim, quando mencionamos "um paciente", "ele", "dele", esclarecemos que tanto podemos estar nos referindo a um homem quanto a uma mulher, a uma criança quanto a um idoso, etc). "Eu sou formado em massoterapia no SENAC, no tempo em que ainda era chamada de "massagem". Durante muito tempo trabalhei em clínicas, mas hoje atuo como autônomo. Atendo pessoas com diversos tipos de problemas, desde esportistas, atendimento de reabilitação por indicação clínica e, aqui no IPrA, atendo o público em geral, tanto soropositivos quanto não-soropositivos.Em termos gerais, a massagem traz benefícios para qualquer pessoa. Com a massagem, um esportista, por exemplo, após a atividade física, pode conseguir um relaxamento geral e melhorar a mobilidade. Quanto ao meu trabalho no IPrA: o soropositivo apresenta diversos problemas nos membros inferiores, como varizes e edemas, causados por efeitos colaterais dos medicamentos, que tornam mais lenta a circulação de retorno. Então, eu tenho que trabalhar profundamente essa região, para melhorar a circulação. Preciso ressaltar que esse problema tem diminuído bastante com os avanços nos medicamentos empregados no tratamento da AIDS, mas ainda trato muitos casos desse tipo, especialmente com paciente que precisam usar medicamentos mais antigos. É difícil falar sobre a técnica de massagem profunda empregada, como amassamentos, percussões, porque é preciso conhecer as particularidades de cada paciente. Em alguns casos, você não pode manipular muito o paciente. Você tem que conhecer as limitações de cada um. Muitas vezes, antes de começar o tratamento, preciso conversar com o fisioterapeuta para saber que técnica posso administrar. Por exemplo, eu tenho um paciente com deformidade na região plantar. Todo o trabalho que faço com ele é relativo à mobilidade. Antes de aplicar a massoterapia, fiz questão de conversar com o médico e com o fisioterapeuta desse paciente. Eles não só me autorizaram como me incentivaram a trabalhar o máximo que eu pudesse, porque ele se sente bem no dia seguinte à aplicação da massagem. Esse paciente sentia muitas dores, devido à medicação. Ainda sente um pouco, mas quando começou a se exercitar e aplicar a massagem, as dores diminuíram muito. Um dos principais objetivos do IPrA é reestruturar o indivíduo em todos os aspectos para que ele se reintegre à sociedade, possa voltar a ter atividades normais, trabalhar... E esse paciente pôde voltar a trabalhar, porque ele passou a enfrentar melhor os efeitos colaterais dos medicamentos. É preciso lembrar que a AIDS mata e continua matando. Apesar de que a AIDS "não dá mais IBOPE", por causa da eficiência do "coquetel anti-AIDS", é preciso enfatizar muito mais a prevenção do que o tratamento. O soropositivo tem que procurar tratamento, tem que ser muito responsável consigo mesmo. Eu diria que a receita inclui, além da medicação, muita confiança em si mesmo e no médico responsável, é preciso ter um diálogo aberto. Alguns medicamentos empregados no tratamento da AIDS podem provocar problemas musculares porque causam uma má redistribuição da gordura corporal. Esse é um dos motivos por que médicos e fisioterapeutas recomendam exercícios físicos, fisioterapia e massoterapia. De fato, precisa haver um diálogo, um intercâmbio entre os diversos profissionais que tratam do paciente. Porque há a recomendação do exercício físico, mas é preciso evitar que o paciente caia em depressão e se "recolha para dentro", se esconda numa concha. Nesse momento, entra a psicoterapia, para ajudar a pessoa a se erguer. O trabalho tem que ser multidisciplinar, envolve o médico, o fisioterapeuta, o educador físico, o psicólogo, o nutricionista... Nessa equipe terapêutica, o massoterapeuta auxilia na recuperação de problemas articulares e musculares, causados tanto pela infecção como pelo tratamento em si. A massagem também traz uma sensação de bem-estar geral. Melhora a circulação em geral e a circulação de retorno. Você se sente relaxado, "energizado", mais bem-disposto. O que os pacientes relatam, após uma sessão de massagem, é que estão se "sentindo bem". Antes de entrar com a massoterapia, é preciso agir primeiro sobre a carga viral. Se a carga viral do paciente estiver estabilizada, o trabalho é relativamente fácil. No caso do paciente que mencionei antes, eu pude agir sobre o seu problema plantar porque ele estava com a carga viral reduzida e, por isso, suas articulações puderam ser recuperadas nível da normalidade. Recentemente, estive em uma reunião de grupo de apoio e conheci um paciente que está soropositivo há 26 anos. Ele ficou doente no período mais difícil da AIDS, em que não havia medicamento e os médicos sequer sabiam o que estavam tratando. Por isso, eu repito que é vital ter muita confiança no seu médico e em você mesmo. Esse paciente encontrou no médico um apoio muito importante, pois ele só se descobriu soropositivo após contrair vários resfriados e pneumonias em seqüência. O médico soube elevar o moral desse paciente, disse "você já veio até aqui, já passou por tudo isso, vamos continuar tratando o que for aparecendo. Enquanto isso, não deixe de caminhar e se alimentar bem". Ele seguiu nesse espírito, com o apoio do médico, até que surgiram o AZT e, em seguida, o DDI, os primeiros medicamentos antivirais específicos para o HIV. Em seguida, sofreu o baque da aposentadoria compulsória. O médico foi taxativo: "você foi aposentado, mas não pode parar de trabalhar, mantenha a mente ocupada". O tratamento para AIDS não é "um remédio", mas um somatório de atitudes, inclusive com relação aos medicamentos. Se observo que um paciente não está se dando bem com um medicamento, digo para que ele converse com o médico sobre o assunto porque, em muitos casos é possível trocar ou suspender temporariamente a medicação problemática. Em alguns casos, obviamente, o médico prefere manter a medicação, porque o benefício está sendo maior do que o efeito colateral, mas o médico precisa explicar isso de forma que o paciente entenda o que está acontecendo. Um belo dia, a gente lê numa reportagem que "a AIDS não é mais um bicho-papão, não está mais matando pessoas". De onde vem essa percepção? Do fato de que os pacientes estão mais conscientes, estão procurando tratamento e levando muito a sério. Mas o número de pessoas infectadas não pára de crescer. As campanhas de prevenção por parte do governo perderam muita força, estão ineficazes, não estão chegando às pessoas. A campanha do último carnaval, por exemplo, foi fraquíssima. O foco foi nos preservativos, mas não sei dizer se dava os motivos certos para que, na prática, as pessoas fizessem uso deles. Eu gosto de carnaval, gosto de festas, mas as pessoas têm que estar conscientes e responsáveis pelos seus atos. Acho que as campanhas têm que ser mais fortes, têm que continuar presentes na televisão de forma maciça e com bastante impacto, como já foram no passado. Sempre surge alguém que retruca, que pergunta porque as campanhas têm que ser fortes, se não podem ser "mais suaves". Não pode, porque o problema da AIDS é forte e causa grave impacto na vida real. Não podemos fingir que não é grave. As crianças precisam saber o que é um preservativo, o que é AIDS, já na escola. E os adultos precisam saber responder quando elas perguntarem. Eu não sou a favor de início precoce da vida sexual, muito pelo contrário, acho que é preciso ter maturidade para saber com quem e por quê. Mas esconder a informação das crianças não vai protegê-las da AIDS. A AIDS está se interiorizando, saindo das metrópoles, dos grandes centros urbanos, e se espalhando cada vez mais para as periferias, para os bolsões de pobreza e cidades menores. Aqui no Estado do Rio, por exemplo, moveu-se do centro para a Baixada Fluminense, depois para Petrópolis. O mesmo movimento se observa em São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul... Há uma série de fatores por trás disso. Campanhas governamentais fraquíssimas se unem a estruturas familiares patriarcais preconceituosas, que lidam com o problema fingindo que ele não existe, acham que ainda é "coisa de homossexual". Essa mentalidade antiquada, ignorante, vem do início da epidemia, quando os homossexuais foram taxados como "grupo de risco", porque eram mais vulneráveis. Falta enfatizar que o vírus não tem orientação sexual. A grande pergunta que paira no ar é: será
que o governo vai continuar sendo capaz de distribuir medicamentos por
mais cinco, dez, quinze anos se a epidemia continuar se alastrando? Sim,
é mais barato distribuir o medicamento do que ocupar um leito de
hospital. Mas, e se o número de pessoas infectadas atingir dezenas
de milhões, como em alguns países africanos, que vivem uma
situação de extermínio em massa pela AIDS? |
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