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| edição 90 | Chi Kun - Entrevista com Felipe Ribeiro Alvares (parte II)
Alexis Kauffmann (Sugira um tema para esta revista) (continuação...) O Taoísmo é uma filosofia e uma religião que deixa em suas mãos a responsabilidade pelos seus atos. Não há exatamente um "deus" no taoísmo, a referência são os "patriarcas". Também não há uma "figura central" no taoísmo - Lao-Tsé, ao contrário do que se costuma pensar, não é a figura central do Taoísmo, apenas um dos três patriarcas, que incluem o Imperador Amarelo e o Mestre Celestial. O Taoísmo não foi criado em torno de Lao-Tsé ou de qualquer outra pessoa. Outro conceito errôneo é considerar o Taoísmo apenas como uma "Filosofia". Ele é também um "religião", no sentido de que tem teologia e cosmologia próprias, além da prática de rituais. Ou seja, há uma estrutura consolidada de prática e disciplina que ajudam o indivíduo a encontrar o caminho da transformação. Voltando ao Chi Kun, foi portanto, através de sua prática, que se desenvolveu um caminho de fortalecimento do corpo para que se pudesse meditar mais e alcançar a transformação. Sobre a diferença entre o Dao In e Chi Kun, trata-se de uma distinção mais poética do que prática. No Dao In, já existia a concentração e a respiração, mas não integrados de forma explícita, como no Chi Kun. Assim, hoje, quando fazemos práticas de exercícios mais ativos, mais parecidos com a ginástica, chamamos essa prática de Dao In. Quando a prática é menos móvel, em que a respiração e a concentração fica mais em evidência, chamamos a esse prática de Chi Kun. Mas, no fundo, Dao In e Chi Kun são a mesma coisa, os dois se baseiam na integração dos três pilares: movimento ou postura, respiração e concentração. É a partir desse conjunto de conhecimentos que surge a Medicina Chinesa. Aqui no Ocidente, tendemos a confundir Medicina Chinesa com acupuntura. Na prática, a acupuntura é a última coisa que se faz. Para os mestres antigos, primeiro deve-se cuidar da alimentação, depois fazer o exercício. A acupuntura é a última prática, mas não no sentido de que seja a prática salvadora, é exatamente ao contrário. Porque, para que seja possível usar a acupuntura em outra pessoa, é necessário que aquela pessoa tenha energia para ser movimentada. Essa distorção da prática da acupuntura no Ocidente vem do fato de que ela chegou até nós através da França, onde o pensamento foi todo reorganizado em função da praticidade e dos hábitos ocidentais de classificar, dividir e analisar. Na Medicina Chinesa, não existem esses mapas que identificam o "ponto 36 do estômago", essa é uma invenção ocidental. Esse ponto tem um nome e você tem de saber onde ele se localiza. Outro exemplo: o Chin, que traduzimos como "coração". O Chin não é entendido como um "órgão" na Medicina Chinesa, mas como uma estrutura que tem função e espírito. Também não se aplicam tratamentos a partir da idéia ocidental de "doença" - não existe "bursite" na Medicina Chinesa, mas "fleuma-calor". Então, se você procura tratar uma "bursite" com acupuntura, você nunca vai curar o paciente, porque acupuntura não foi feita para tratar "bursite". Na acupuntura, não basta "espetar a agulha no ponto certo". Às vezes acontece de se espetar a agulha em um ponto e nada acontece. Porque, antes de espetar agulha, é preciso saber se o ponto está funcionando. Por exemplo, é inútil aplicar uma agulha para tratar uma dor no joelho de uma pessoa idosa, que não se alimenta direito, não dorme, com artrose no corpo inteiro... Porque essa pessoa não tem energia para ser movimentada. Há muitos mitos que prejudicaram a imagem da Medicina Chinesa no Ocidente. Por exemplo, a maneira como se ensina o Tai Chi, em termos de "seqüências" de 24, de 13 movimentos. Ora, o Tai Chi é uma prática de Chi Kun em movimento, que pode ser feita de várias formas. Nesse sentido, ensinar "seqüências" é uma maneira de fechar um movimento que não é fechado para ensinar alguma coisa para alguém que não tem vontade de aprender! Um dos meus mestres dizia: "eu ensino todas as essas coisas porque vocês gostam de 'firula', porque se vocês ficarem parados em uma postura por vinte minutos todos os dias, você terão praticado muito mais do que se fizessem Tai Chi durante um ano". Em resumo, o Dao In surge como um exercício para dar suporte ao trabalho da meditação. E o Chi Kun nada mais é do que uma prática de Dao In que dizemos, para demarcar uma diferença, que "enfatiza a respiração" mas, na verdade, é a mesma coisa. Chi Kun significa "exercitar o sopro", "exercitar a energia". Envolve absorver a energia da natureza, fazer com que essa energia circule e, após conseguir uma boa circulação de energia no seu corpo, concentrar essa energia para obter longevidade. "Saúde" e "longevidade" são tratadas como coisas diferentes. É um equívoco dizer que se faz Tai Chi para obter longevidade. Não, você não obtém "longevidade" com Tai Chi, porque o Tai Chi é movimento e, com o movimento, você obtém "saúde". O que traz longevidade é a postura, o "não-movimento", o "ficar parado", porque é isso o que concentra a energia. Outros equívocos que revelam incompreensão do que é o Chi Kun você pode observar nessas "modalidades" que têm surgido por aí. Por exemplo, a prática de "Chi Kun na água". Ora, a água é "a força que carrega o sopro". Sendo assim, como reter a energia dentro de uma piscina? Impossível. Outro exemplo: praticar Chi Kun ou Tai Chi dentro de uma academia com ar condicionado. Ora, o vento é uma "energia perversa" e o ar-condicionado é "vento encanado". Como movimentar o sopro com ar encanado? Você pode acabar doente. O que acontece quando há uma prática de Chi Kun no ar-condicionado é uma de duas coisas: ou o mestre sabe o que está fazendo e não conduz a prática pelo caminho do sopro, ou então o mestre não conhece a prática do sopro tudo se reduz a um simples exercício, o que acaba não trazendo problemas para o praticante. Mas um mestre que conheça a prática do movimento do sopro, sabe que, se ele quer movimentar a energia, não pode fazê-lo no ar-condicionado nem embaixo de um ventilador. Entretanto, mesmo empregado apenas como exercício, o Chi Kun é uma boa prática, desde que quem o aplique tenha o conhecimento de fisiologia necessário para conduzir o exercício sem prejudicar o aluno.
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| edição 89 | Chi Kun - Entrevista com Felipe Ribeiro Alvares
Alexis Kauffmann O texto que se segue, produzido pelo entrevistado após a transcrição da entrevista, destina-se a esclarecer o público quanto ao que é consenso sobre o Chi Kun e o que é opinião particular do autor. Como em toda prática humana, há diferenças de opinião que devem ser respeitadas. No Chi Kun não é diferente, assim, reproduzimos, a pedido, um pequeno artigo do entrevistado sobre os conceitos básicos de sua prática: "CHI KUN, ARTE TAOISTA DE SAÚDE E LONGEVIDADE""Sou estudante de Fisioterapia e Massoterapeuta formado pelo SENAC. Minha formação de Chi Kun aconteceu na Sociedade Taoista do Brasil com o Mestre Wu Jyh Cherng e, posteriormente, com o Sacerdote Taoista Hamilton Fonseca Filho.Hoje sou professor de Chi Kun da Sociedade Taoista - RJ e também ministro aulas na minha sala na Tijuca. Chi Kun é uma prática, uma arte taoista de saúde e longevidade criada pelos monges Taoistas e praticada até os dias de hoje. Seu objetivo é trazer bem estar e melhorar o condicionamento físico e energético do praticante. CHI significa Sopro, energia. Kun significa Exercício, prática. Acredito que o Chi Kun, ou Dao In, como era conhecido antigamente, foi criado pelos monges com a ajuda do Céu, para que eles pudessem manter a saùde e melhorar a compreensão da energia enquanto buscavam a imortalidade através da meditação. Hoje em dia existem muitas práticas diferentes de Chi Kun mas podemos resumi-las em Chi Kuns duros ou macios, Tao In Chi Kun ou Tu Na Chi Kun, ou, ainda, em práticas com movimentos relacionados à saúde e à circulação energética e práticas de posturas relacionadas à longevidade e à concentração do sopro, ou energia. No Ocidente, podemos entender o Chi Kun como uma prática isométrica e, por isso, devemos proceder a uma anamnese do aluno e preparà-lo com um bom aquecimento do corpo antes da prática propriamente dita. Mas, além desse trabalho isometrico, o Chi Kun é, principalmente, uma prática energética para melhorar ou manter a saúde de quem a pratica. A saúde é, na visão Taoista, a união do psiquismo com a respiração e com o corpo. A respiração também pode ser entendida como energia e, a energia, ou sopro, é a responsável pela união do psiquismo com o corpo. Sem energia não há vida. Felipe Ribeiro Alvares" Caso reste alguma dúvida, o autor disponibiliza seu e-mail para contato: felipealvares@oi.com.br (Sugira um tema para esta revista) "Eu me formei em Economia e Direito, trabalhava nessas áreas como funcionário do Banco do Brasil. Houve um dia, há cerca de vinte anos, em que eu resolvi parar com tudo e decidi aprender massagem. Acabei caindo na Medicina Chinesa meio que de "pára-quedas" mas, por sorte, caí justamente na Sociedade Taoísta do Brasil, fundada pelo já falecido mestre Cheng. Ele era reconhecido como o único sacerdote taoísta na América Latina. A Sociedade Taoísta do Brasil é a única entidade da América Latina reconhecida pela Sociedade Taoísta da China, o órgão que rege o Taoísmo no mundo. Hoje, sou estudante de Fisioterapia, sou técnico em massoterapia formado pelo SENAC, tenho cursos de acupuntura e minha formação em Medicina Chinesa e professor de Chi Kun (1) foi obtida na Sociedade Taoísta do Brasil, com o Mestre Cheng. Com esse diploma, eu poderia me mudar para a China e morar em um mosteiro para aprender mais. Mas o mestre Cheng costumava dizer que "vocês sentem muita vontade de morar na China, esquecendo-se de que a China veio até vocês". "O Chi Kun é uma arte taoísta de saúde e longevidade. O taoísmo é uma filosofia e uma religião que tem sua origem na região que hoje conhecemos como 'China', mas em que já viviam civilizações e povos muito antes de existir a China propriamente dita. O Chi Kun significa "exercício da energia" ou "exercício do sopro", pois a energia é conhecida como "sopro vital". Há muitas dificuldades de tradução e interpretação para Ocidente; por exemplo, o termo "vital", que costuma ser mal-traduzido. Mas, em linhas gerais, podemos definir o Chi Kun como um "trabalho energético". Ele é uma prática da Medicina Chinesa. É bom esclarecer que a Medicina Chinesa não é uma "medicina alternativa", mas uma ciência que tem em seu cerne o trabalho com a "energia" - ou "sopro". O termo "sopro" é uma forma mais poética de traduzir o movimento da Natureza. Em sua origem, o Chi Kun se chamava Dao In (2). Ele surgiu da necessidade de certos "monges" - chamamo-los de "monges" por falta de palavra melhor, mas, certamente, eles nem eram exatamente "monges" - que buscavam a transformação através da observação da Natureza. É claro que existe uma série de elementos místicos - uma "mitologia" por assim dizer - dentro do taoísmo que acrescenta, ao trabalho dessas pessoas, as manifestações de divindades como fontes de informação. Como tudo o que diz respeito a religião e crenças, não é possível "comprovar" a intervenção de "divindades" na revelação de certas práticas. Mas quem pratica e estuda o Chi Kun seriamente fica com a impressão de que há determinados elementos na prática que deixam dúvidas quanto a terem sido desenvolvidos apenas pelo esforço individual ou coletivo de seres humanos, por mais brilhante que fosse sua percepção da Natureza. Bem, o Dao In também apresenta muitas dificuldades de tradução, porque pode significar várias coisas ao mesmo tempo: "caminho de casa", "retornar internamente" ou "uso do corpo como um caminho para agir sobre a saúde". "Dao" (ou "Tao") significa "caminho" e "In" (ou "Yin") representa o "interno", a "vida interior", a pessoa propriamente dita em seu processo de conscientização interior. Voltando aos assim chamados "monges". Sua primeira idéia na busca da transformação interior foi a observação da Natureza e a percepção de que tanto o "movimento" quanto o "não-movimento" sempre geram alguma conseqüência. A própria decisão de observar exigia, na prática, que eles ficassem sentados observando. Assim surge a "meditação", a partir da idéia de parar, sentar e observar. Com o tempo, a insistência na prática da observação - e a intervenção dos "Mestres Imortais" - foram surgindo métodos para esse trabalho interior. Esses "monges" permaneciam cinco horas ou mais sentados. Ora, um homem já idoso, após ficar sentado e imóvel durante quatro ou cinco horas seguidas, obviamente tinha dificuldade de levantar-se. Provavelmente, nesse início do Dao In, essas pessoas não tinham o hábito de praticar exercícios, levavam uma vida sedentária. Conseqüentemente, começaram a apresentar problemas físicos advindos da própria prática da meditação. Surgiu então o problema: de que me adianta ficar cinco horas sentado em busca de iluminação e, depois, não conseguir me levantar? Todo o meu trabalho de transformação será perdido porque meu corpo irá morrer! No fim, não há sentido em entender como o Universo funciona se, em conseqüência da busca desse entendimento, eu não conseguir mais mexer o meu joelho! Faltava àqueles "monges" uma referência para resolver o problema de como tratar as doenças que surgiam da própria prática excessiva da observação da Natureza. Então, eles decidiram buscar esse tratamento na própria Natureza! Podemos dizer que o povo chinês, desde sua "infância", tem uma certa "fixação" nas idéias de "viver muito" e "voar". Se você assistir a um filme chinês, quase sempre observará a manifestação do Chi Kun nas artes marciais, os personagens "voam" - caminham sobre plantas, paredes - e há sempre um mestre bastante idoso. Assim, aqueles "monges" a que nos referimos começaram a prestar atenção nos animais que voavam - por exemplo, a garça, o grou - e nos que viviam muito tempo - a tartaruga, o elefante, entre outros. Procuraram perceber o seu movimento - o que faziam ao acordar, ao dormir, enfim, observavam o "cotidiano" desses animais. Dessa observação, começaram a elaborar a prática corporal que levou o nome de "Dao In". Essa prática corporal incluía exercícios que, hoje, conhecemos como de "flexibilidade" e "força". Vale esclarecer que os exercícios do Dao In não são "aeróbicos" no sentido em que a Medicina Ocidental define o termo.
Voltando ao Dao In, os "monges" começaram a observar e imitar os movimentos dos animais. Por exemplo, se a garça pousava com as asas abertas e depois as baixava lentamente até a posição de repouso, eles procuravam reproduzir a postura da garça, abrindo os braços e baixando-os lentamente. Em conseqüência, eles começaram a perceber padrões de oposição, seqüência, combinação, a necessidade de trabalhar o corpo, tanto isolando partes quanto tomando-o como um todo. Com o tempo, foram surgindo novas percepções. Por exemplo, eles observaram que não se tratava apenas de movimentar o corpo, que deveria haver algo mais além do movimento. Observaram, por exemplo, que pessoas mais jovens ou que moravam em locais mais altos, obtinham resultados melhores e do que pessoas mais idosas ou que moravam em locais de menor altitude. Essas observações se tornaram intrigantes para os monges. Assim, eles se dedicaram a observar, por exemplo, não só o movimento do pescoço da tartaruga, mas também a respiração da tartaruga enquanto realizava esse movimento! Além da respiração, esses monges também observaram que, quando um animal tinha um alvo, um objetivo em mente, esses animais voltavam sua atenção exclusivamente para o que estavam fazendo, abstraindo de tudo o que havia à sua volta. Por exemplo, quando o tigre vai atacar uma presa, há um momento em que ele fica totalmente imóvel, com o olhar fixo na presa que ele está pretendendo caçar. Assim, os monges começaram a prestar atenção em três pilares: o movimento propriamente dito, que também pode ser um "não-movimento"; a respiração e a concentração. Quando finalmente conseguiram unir esses três movimentos, eles efetivamente criaram a prática do Chi Kun. Ou seja, o Chi Kun não é simplesmente um exercício, como os que você faz em uma academia, com sua atenção voltada para a televisão ou para a música ambiente. A prática de Chi Kun é a combinação de um movimento ou postura com a respiração e a concentração. A partir desses três pilares, outros conceitos foram surgindo a partir da própria prática. Por exemplo, um termo técnico do Chi Kun - "fazer o fogo subir" - não pode ser explicado em palavras, somente percebido com o aperfeiçoamento da prática e da concentração, tentativa e erro... É nesse momento em que se manifestam os Mestres Imortais trazendo alguma orientação. Somente "alguma orientação", porque o esforço é fundamental. Notas: |
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| edição 88 | Dança de Salão: Atividade Física, Diversão e Bem-estar - Entrevista com o Prof. Alexandre Andrade
Géssica Hellmann e Alexis Kauffmann (Sugira um tema para esta revista)
O Instituto de Prevenção à AIDS (IPrA) oferece diversas atividades não diretamente ligadas ao tratamento da doença, sendo, algumas delas, abertas ao público em geral. A diferença é que todos esses serviços são prestados gratuitamente para os soropositivos. Entre esses serviços, incluem-se algumas modalidades de atividade física, especialmente adaptadas para as eventuais limitações dos pacientes soropositivos. Abordamos nesta edição a Dança de Salão, em entrevista com o Professor Alexandre Andrade.
1 - Trajetória Profissional Pratico dança há cerca de dez anos e dou aulas há quatro. Quando me mudei para um bairro distante, onde não conhecia ninguém, decidi entrar para um clube com a intenção de fazer amigos. Pratiquei futebol, vôlei, musculação mas, fazer amigos... Nada. Não conseguia parar para conversar com as pessoas e me entrosar. Acabava o futebol, a musculação, todo mundo ia embora para suas casas. No caminho para o clube, havia uma escola de dança de salão. Eu passava em frente todos os dias, ouvia aquela música saindo daquela janela aberta lá no alto, tanto na ida, quanto na volta. Era como se aquela janela estivesse me chamando e eu não percebia. Até que resolvi subir e ver as pessoas dançando. Jovens, idosos, homens, mulheres... Uma das primeiras coisas em que reparei foi que lá havia muitas mulheres (risos). Foi quando eu disse: "Quero isso para mim"! Matriculei-me no curso e aguardei três meses até ser chamado, pois não havia vagas nas turmas existentes. Foram noventa dias solitários aguardando para ter minha primeira aula de dança. Comecei com o filho da Maria Antonietta - uma das referências em dança de salão aqui no Rio de Janeiro - o Chico Rondon . Algum tempo depois, fui conhecer uma filial do curso do Jaime Arôxa. Eu queria conhecer o método de ensino, a técnica, e gostei do estilo, o pessoal dançava bonito, com muita elegância. Eu avisei logo no início que tinha dinheiro para pagar apenas uma mensalidade. O professor me observou na primeira aula e me perguntou se eu queria ser bolsista. Eu não escolheria horário, nem turma, nem dama: ajudaria aos alunos iniciantes e, em troca, aprenderia o método deles. Era tudo o que eu queria! Fiquei no Jaime Arôxa como bolsista, depois como assistente, até que as pessoas começaram a me perguntar se eu dava aulas particulares... E foi assim que me tornei professor de dança. 2 - Benefícios da Dança Eu era tímido, retraído, especialmente com as mulheres. Hoje, consigo conversar com vocês olhando nos olhos. A técnica do Jaime enfatiza muito o olhar, o abraçar, a troca de energia através dos olhos e do contato corporal. Também aprendi a conversar, a me expressar melhor. É um processo de evolução muito gratificante. Por exemplo, já parei para observar um dançarino em um baile e me dar conta de que era meu aluno! Ele começou comigo a dar os primeiros passos e, de repente, ei-lo se destacando em um baile. É um trabalho que faço por prazer, especialmente aqui no IPrA , como voluntário. A propósito, meu objetivo inicial, que era somente o de "fazer amigos", foi plenamente atingido. Meu círculo social e amizades ampliou-se enormemente, muito mais do que esperava. Inclusive, minhas namoradas vieram todas do circuito da dança, porque ficou complicado namorar alguém que não saiba dançar. A dança é divertida e acontece em um ambiente saudável, onde não se consome álcool. A bebida mais vendida em um salão de dança é a água! Ninguém vai querer dançar com uma pessoa com bafo de cerveja, cachaça... As pessoas vão aos bailes para se divertir dançando. 3 - A Dança Também já fiz teatro e algumas participações como figurante em algumas novelas, como Kubanacan. Atuei em uma peça do Jaime Arôxa, "O Homem, a Mulher e a Música" . O interessante nessa peça é o conceito de que não se dança "a dois", mas "a três", pois a música é o terceiro ingrediente. Mesmo quando você dança sozinho, ou sem música, você imagina um par ou uma música. 4 - Preconceito
Um caso engraçado foi o de um amigo que fazia artes marciais. Quando descobriu que eu dançava, ficava me gozando. Isso durou até o dia em que ele me levou a uma festa de uma amiga dele, me apresentou e disse que eu era dançarino. O resultado foi que eu não consegui ficar parado, dancei a noite inteira com todas as mulheres da festa enquanto ele ficava num canto, só observando. Depois dessa, sabe o que ele fez? Entrou para um curso de dança! Outro tipo de preconceito que a gente observa aqui no Rio de Janeiro é que muita gente ainda pensa que a dança de salão é "coisa de velho". O ritmo mais procurado pelos jovens é o forró. Isso já é uma evolução, porque até alguns anos atrás, os jovens, em geral, ficavam muito distantes da dança. Hoje em já está se tornando mais comum ver os jovens acompanhando os pais à academia de dança. 5 - Estilos A dança de salão se resume a três ritmos: samba de gafieira, o bolero e o "soltinho", que é o rock mais lento. O tango, a salsa, e outros estilos não são estilos estritamente "de salão", são mais especializados. No que diz respeito ao corpo, o samba tem mais ginga. O bolero é mais clássico, lento, ao estilo Roberto Carlos, Luiz Miguel, etc. Já o soltinho é uma variação mais lenta do rock'n'roll americano. 6 - Quem "leva jeito" para dança? Há dois tipos de alunos: aqueles que chegam numa primeira aula de dança já com excelente coordenação motora e aprendem muito rápido. São os alunos que "levam jeito" para a dança. O segundo tipo de alunos são aqueles que "acham que não levam jeito" (risos). Olha, para tudo tem jeito, para isso existe o professor de dança. Minha função é ajudar as pessoas a superar suas dificuldades, é facilitar o aprendizado. Todo mundo pode aprender a dançar, algumas pessoas levam mais tempo do que outras, mas isso é normal em tudo na vida. Aqui no IPrA, por exemplo, já dei aula para uma pessoa que só tinha uma perna! Em outro lugar, dei aulas para uma pessoa que não enxergava. Eu uso esses exemplos para motivar meus alunos... Como ensinar a dançar uma pessoa que tem apenas uma perna, ou que não enxerga? Ouvindo a música, "sentindo a música"! Se a música é lenta, vamos mais devagar; se a música é rápida, vamos mais rápido. Lógico que a pessoa que usava a prótese na perna teve um limite aonde pôde chegar; não podia dar saltos, piruetas ou passos muito complicados. Mas aprendeu a dançar. Procuro sempre formar os pares unindo uma pessoa
que tem mais facilidade com uma que enfrenta maiores dificuldades. Assim,
um pode ajudar o outro a aprender melhor.
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| edição 87 | Entrevista com Mahaila Dilluz (parte II)Géssica Hellmann (Sugira um tema para esta revista)
Mahaila: Minha válvula de escape é o corpo, dançar, me sentir em meu corpo é o que me salva. Géh: A minha também era quando eu morava em Joinville, mas desde que vim para o Rio de Janeiro, tenho encontrado poucas oportunidades pra dançar. Mahaila: Procure dançar, mesmo que seja só. Eu me centro, fico no eixo quando danço. A dança me pede presença absoluta. Géh: Mahaila como foi seu primeiro contato com a dança? Mahaila: Foi muito louco! (risos). Géh: Fale um pouco deste aprendizado pessoal de "libertação". Mahaila: Sempre gostei de dançar, cantar, escrever e ler. Estava sempre envolvida em atividades ligadas a arte, teatro, pintura. Fazia um pouco de jazz, dançava nas baladas. Na época em que eu trabalhava como terapeuta Reiki, uma amiga, professora de dança do ventre, perguntou-me se eu poderia tratar da mãe dela. Como ela não dispunha de dinheiro para o pagar o tratamento, fizemos um troca por aulas de dança do ventre. Bem, a mãe dela terminou o tratamento e eu me apaixonei totalmente pela dança. Na época, eu pesava 15 kg a mais do meu peso atual. Achava-me feia, sentia-me esquisita dançando, assim como muitas de minhas alunas se sentem hoje. Aos poucos, comecei a ver beleza em mim, nos meus movimentos, a flor começou a desabrochar. O que era sem-jeito, esquisito, passou a ter forma e beleza. Fui descobrindo meu charme, meu jeito de ser feminina. Emagreci. Géh: A experiência ajuda muito. Ter passado pelo processo e poder ajudar outras mulheres a passarem por ele é maravilhoso, faz ver o quanto valeu a pena. Mahaila: Sim, sempre vale! Acho uma lástima que muitas mulheres ainda não descobriram ou não se deram ao prazer de conhecer a dança do ventre. Para quem pratica, se for bem conduzida, é maravilhoso. A dança faz emergir facetas do feminino que nossa sociedade insiste em negar ou rotular negativamente. Géh: Você falou em Reiki. Poderia falar um pouco sobre o tema? Sempre quis saber mais sobre essa modalidade de terapia. Mahaila: Reiki é terapia de vida universal. É a utilização das mãos associada ao uso de "mudras" e "sutras" (palavras e símbolos de poder), de respiração e "prana", energia cósmica universal. Géh: Um reequilibrio energético? Mahaila: Sim. Géh: Algo parecido com que os espíritas ocidentais chamam de "passe"? Mahaila: Não. É diferente. O passe magnético dos espíritas utiliza a energia do próprio médium, já no Reiki não. Utilizamos a energia disponível no universo em forma de prana, mais sutras e mudras que potencializam e funcionam como uma antena parabólica. A "antena" filtra o tipo de energia canalizada pelo reikiano. Em momento algum será utilizada a sua energia; o reikiano funciona como um cano por onde escorre esta energia. É como água que entra pelos nossos encanamentos, um pouco desta energia sempre fica para quem faz o canal, ou seja, é bom para quem recebe e para quem faz. O Reiki faz um processo de limpeza energética e cura, muitas vezes em nível físico. O Reiki atua sobre as estruturas emocionais e espirituais também. Géh: Voltando à dança... Com quais estilos você trabalha atualmente? Mahaila: Trabalho com dança do ventre e com World Dance - Estilo Tribal. Como aprendiz, faço dança flamenca, indiana e havaiana. Géh: Você poderia explicar o que seria o "estilo tribal"? Mahaila: Quando se fala em estilo tribal, sempre vamos associá-lo à dança do ventre. Foi através dela que esse estilo se desenvolveu. O estilo tribal, ou World Dance, como prefiro chamar, é um estilo de dança contemporânea que utiliza a fusão étnica em suas composições. Toda dança que utiliza mais de uma etnia ou referência pode ser chamada de World Dance. Mas só pode ser chamada de tribal se utilizar a dança do ventre ou "american tribal style". Géh: Abordando a Dança como forma de terapia, você sente diferença no processo das modalidades que você conhece (flamenca, indiana, havaiana, jazz, tribal, dança do ventre, etc)? Em qual delas se percebe mais rapidamente evolução física e emocional para o aprendiz? Mahaila: Sem dúvida, a dança do ventre. É uma dança voltada para a mulher, trabalha nas estruturas físicas e emocionais femininas. Feita por mulheres para mulheres. Também não dá pra negar que, por exemplo, o flamenco é importante para quem precisa tomar decisões na vida, ser firme, uma postura mais Yang. Nessas horas, dançar flamenco é tudo! Porém, a dança do ventre também pode ser forte em Yang, principalmente nas batidas e nos movimentos retos e secos. O interessante de trabalhar com a World Dance é exatamente isso: a transição entre uma etnia e outra. Exige bastante da gente. Não só em termos técnicos, mas emocionais, pois temos que mudar a fisionomia de acordo com o sentimento em cada mescla. Usar um olhar maroto na dança indiana e um olhar forte e desafiador no flamenco, por exemplo. Géh: No World Dance, então, até no preparo e na execução da aula, você, como profissional - quem um dia foi terapeuta, sempre o será -, pode ir moldando suas aulas ao perceber as dificuldades (couraças) das alunas, fazendo com que elas busquem o caminho da libertação. Mahaila: Sem dúvida. Para quem passou a vida toda se escondendo dos próprios sentimentos, como o peito fechado, não é nada fácil ter que se abrir repentinamente. É um processo que deve ser tratado com muito cuidado e carinho. Géh: Para aprender esta modalidade é preciso ter passado pela dança do ventre antes? Mahaila: Não necessariamente. Mas é preciso ter aprendido algum tipo de dança anteriormente. As outras modalidades serão aprendidas no processo. Géh: O "ouvido" do corpo tem que já possuir um treino, digamos. Sentir o ritmo. Mahaila: Isso é fundamental. É importante também saber interpretar, encarnar o personagem. É preciso que o grupo crie afinidade, se ajude harmonicamente. É uma ligação fraterna. Sem essa harmonia, é impossível dançar. Géh: É preciso união, confiança e cooperação. Mahaila: Exatamente. Às vezes isso não é muito fácil de se adquirir. Só com o tempo mesmo. Estou engajada na proposta de tornar o estilo tribal mais conhecido por aqui. Mas tenho a preocupação também de não ficar fechada no nicho da dança do ventre. Para mim, tudo é dança, todos os estilos são arte. Há muita gente fazendo fusões de estilos sem incluir a dança do ventre, acho que é hora de nos unirmos. Por isso adoto o nome World Dance. Pratico dança, estudo para isso, sou artista. Assim como todas as pessoas de outros estilos de dança. Géh: É arte e corporalidade. Mahaila: Acho que se você souber tirar proveito disto, pode ser uma excelente terapia. Mas sinto que poucas tiram proveito disto, como falei no artigo. Muitas se assustam e fogem. Muitas vezes, a própria professora não está preparada para dar apoio terapêutico. Não que eu ache que todas as professoras de dança do ventre devessem ser terapeutas. Mas elas têm que perceber o que está acontecendo com sua aluna, até para poder encaminhá-la para uma terapia. Caso contrario, um processo que poderia alavancar a evolução da aluna pode acabar se perdendo. Géh: Na verdade, a dança é uma parceira no processo terapêutico. Mahaila: Quando necessário, sim. Não podemos nos omitir e deixar uma aluna desamparada. Géh: Até porque de certa forma, a evolução dela, ajuda na evolução do grupo e vice-versa. Mahaila: Claro. Já tive uma aluna que praticou dança apenas para chegar ao ponto de conseguir chegar à terapia falada. O que começou no corpo, acabou na fala. Géh: Eu que o diga! Não sou tímida, falo muito até. Mas existem alguns sentimentos profundos que ficam presos na garganta. Não consigo transformá-los em palavras. De certa forma sei a causa deste trauma. Lembro que tinha uns 5 a 6 anos, minha família muito católica ia sempre as missas dominicais. Como toda menina em crescimento, um tanto "esganiçada" e sem ritmo adorava cantar e principalmente tentar a acompanhar o som do canto e da voz de meu pai. Ele provavelmente irritado com alguma coisa me disse: "Se não sabe cantar fique de boca fechada". Lembro que meu mundo caiu. Até hoje não consigo cantar em publico, karaokê nem pensar. Nem em casa para meu marido, canto mesmo só canção de ninar para o meu filho. Mahaila: Você deveria fazer musicoterapia. Géh: Falta coragem (risos). Na ONG (IPrA) onde presto serviço voluntário oferecendo uma oficina de expressão artística, tem musicoterapia. Mahaila: Seria muito bom desbloquear esta couraça. Géh: Já pensei nisso. Se ajudo a libertá-los através da pintura (expressar emoções), acho que devo fazer minha parte, esforçando-me para me libertar desse bloqueio. Abordei este assunto na primeira oficina e mostrei algumas pinturas que fiz sobre esse assunto, até pra mostrar que sou humana, com problemas, como qualquer pessoa. Mahaila: Então é isso. Se você não fizer, ninguém o fará por você. Geh: Obrigada pelo incentivo e por este bate-papo maravilhoso.
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| edição 86 | Entrevista com Mahaila Dilluz (parte I)Géssica Hellmann (Sugira um tema para esta revista)
Géh: Você disse algo muito bacana no artigo sobre a postura corporal em seu artigo "Dança: a terapia sem fala" em relação à atitude diante da vida. Mahaila: Exato. Ontem mesmo dei uma aula em que fizemos uma "vivência". As alunas puderam experimentar o "andar nosso de cada dia". Como colocamos peso no nosso andar, como esquecemos que os braços também se movem no andar, acompanhando sincronicamente o movimento das pernas! Ombros relaxados, o vai-e-vem dos braços, conferindo mais tranqüilidade ao andar. Ao puxar todo o peso das pernas para o alto, para o tórax, abrindo o peito, obtemos um caminhar mais altivo e seguro. Esta é a postura ideal em deslocamento, para o desenvolvimento de nossa dança. É um exercício muito interessante, em que cada aluna ajuda a colega a corrigir a postura. Geh: Pode descrever o exercício? Mahaila: A aluna segura a colega da frente por trás, acima da cintura, fazendo força para subir e alongar. Após o exercício, elas começam a caminhar sem o amparo da colega e percebem uma maior leveza no andar. Géh: É importante esta cooperação, a percepção do ambiente, do "eu" e do "outro". Mahaila: Sim, acho muito importante conferir este direito, este sentido de cuidado, em que uma auxilia o processo da outra. Isso não é importante apenas para a dança, é fundamental para a nossa vida cotidiana. Costumo frisar sempre esta idéia. Nem sempre elas iniciam o curso pelo desejo de se tornarem "bailarinas". Muitas delas não pretendem fazer o ritual de passagem que é a "Apresentação em Público". Géh: E a respiração durante o processo da dança? Mahaila: Respirar é fundamental e respirar corretamente mais ainda. Géh: Quando éramos bebês respirávamos com todo o tórax. Parece que quando crescemos, esquecemos este processo. Mahaila: Sim, principalmente a respiração com o diafragma. Muitas alunas têm a respiração contida, não sabem movimentar o músculo diafragmático. Na dança, percebo que elas "congelam", ficam quase "roxas" (com falta de ar) ou, ao contrário, tendem à hiperventilação. Géh: A respiração fica tanto tempo em "desuso" que cria uma couraça muscular. Mahaila: Sim. E dói muito a remoção dessa couraça, ligada aos processos emocionais. Respirar significa viver intensamente. Sentir tudo. Mas muitas pessoas têm medo de sentir e sofrer. A inspiração é estar vivo. A expiração é esvaziar-se ou morrer para viver de novo. Nesse processo, vivenciamos os ciclos de vida e morte constantemente. Géh: Estava lendo justamente sobre isto hoje em "A função do Orgasmo", Reich compara o ser humano a uma "bexiga encouraçada". Mahaila: Encontramos pessoas com dificuldade em encher-se de ar, ou vida. E outros que não conseguem expelir o ar, um medo de perder-se ou morrer. Estar consciente de nosso processo respiratório, aprender que podemos nos mover, que você pode respirar para mexer esta ou aquela parte do corpo... Para muitas, é uma descoberta e tanto! Géh: O movimento do corpo, relaxar as tensões, liberar a energia represada. Mahaila: Paulatinamente, isto vai acontecendo. Dependendo do caso, não sem algum desconforto, pois movimentar essa energia represada pode ser bem doloroso, porém necessário.
Géh: Sim. Tenho esta constante experiência em minha vida: possuo uma couraça em meu pescoço, consigo liberar energia dançando, pintando, desenhando... Mas não através das palavras. Mahaila: Esse bloqueio pode se manifestar mais tarde em forma de doenças. Géh: Sinto dor quando abro minha boca e tento relaxar as mandíbulas para começar um processo de respiração e relaxação. Sinto bloqueada a ligação do meu corpo com a minha cabeça nesses momentos. Minhas mãos parecem trabalhar sozinhas. Meu corpo inteiro reage e sente. O bloqueio está em transformar estes sentimentos em palavras. Mahaila: É muito interessante pois, no pescoço, fica o centro energético correspondente ao processo criativo. É exatamente quando você dá vazão ao processo criativo que a energia se libera. A criatividade nem sempre pode ser expressa por palavras. Criar vai além. É outro tipo de linguagem. Géh: É verdade. Mahaila: Parece às vezes que vamos explodir não é? Se não damos vazão à criatividade, seja pintando ou dançando, seja qual for o processo que faça com que este conteúdo rico que é criar se manifeste. Géh: Vivemos em uma sociedade estressante... Neurótica. Não aprendemos a liberar essa energia retida, que causa tantos problemas emocionais e até físicos. Liberar o que é natural, o que faz parte da natureza humana. E reprimimos por nos ensinarem a reprimir simplesmente: com uma vida "regrada" pela "moralidade" social, por preconceitos, por desconhecimento de si próprio. E principalmente pelo que você disse acima: "Medo de sentir". Mahaila: Sim. Mas temos sempre a oportunidade da escolha. E isto é o que acho maravilhoso. Se alguém nos ensinou, é porque aceitamos estes ensinamentos. Da mesma forma que dizemos "sim", a qualquer momento podemos dizer "não". Géh: Aceitamos como "certos" o que "sempre foi assim". Somos seres "pensantes" e temos capacidade para aprender novas realidades. Mahaila: O tempo todo escolhemos os caminhos que vamos seguir. Géh: Isto me lembra o "Mito da Caverna", de Platão. Talvez muitos aceitem essas regras porque acham que as "sombras" refletidas na caverna sejam a realidade do mundo em que vivem. Os que se aventuram a ir além e percebem a luz do mundo "exterior", podem ferir os olhos em uma primeira descoberta, em um primeiro contato. Mahaila: Porém, se você iluminar a caverna as sombras desaparecerão. Géh: Por isso sentimos dor ao libertar nossas couraças. Mahaila: Exato. Mas ver o que há por trás delas é querer ir além, superar dificuldades. Conhecer-se, aceitar-se. Géh: É querer libertar-se. Mahaila: Acho simplesmente encantador poder assistir este processo. É como se eu estivesse assistindo ao vivo e em tempo real o desabrochar de uma flor. Dia após dia, um passo de cada vez. Até que de repente lá está ela: linda, inteira em todo seu esplendor. A gente nunca vê uma flor crescer, quando nos damos conta ela já desabrochou não é? Mas agir como facilitadora deste processo é como ser um jardineiro, que olha e cuida o todo o dia e percebe a evolução de cada flor. Géh: Publiquei esta semana uma pintura de Erin Prucha que ilustra exatamente esse conceito: nascimento, crescimento e morte, abordando a sexualidade e a corporalidade, o sentido da vida. (continuação...)
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