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| edição 95 | Dança de Rua (Street Dance) - Entrevista com Júlio Botoni (Parte II) por Alexis Kauffmann
Elementos da Cultura Hip-Hop e sua Assimilação no Brasil A cultura hip-hop se articula em torno de quatro elementos, quatro eixos principais: 1) O "DJ" - o "disk-jockey", que escolhe
as músicas e acrescenta efeitos de mixagem, "scratching",
criando uma sonoridade própria. Fala-se hoje em dia em um quinto elemento, "a consciência", no sentido de tornar a cultura hip-hop algo positivo, conscientizando as pessoas sobre como ela funciona na realidade. No Brasil, ele foi introduzido na década de 1980, nas periferias dos grandes centros urbanos. Sua absorção inicial foi pelas populações economicamente mais carentes, que expressavam naquela dança o seu modo de vida e a maneira como queriam ser vistos. A cultura hip-hop entra no Brasil de uma forma muito agressiva, contestadora, de crítica à sociedade. Um bom exemplo são os Racionais MC's, um grupo bastante polêmico, que critica bastante a sociedade. Na minha opinião, o caminho não é por aí, acho que o hip-hop precisa ser encarado sob uma outra ótica. Ninguém tem culpa de ter nascido em condições econômicas boas ou ruins. Acho que, no lado da política, é preciso ver o quadro geral para tentar mudá-lo, em vez de dirigir raiva contra uma pessoa ou grupo de pessoas. O hip-hop é uma forma de arte, e a arte é muito bonita nesse aspecto, porque ela acolhe a todos. Ninguém precisa dizer que é pobre ou rico, preto ou branco, para explicar porque abraça uma arte. A arte é para todos e todos precisam aprender a abraçá-la de uma maneira saudável. A gente já nota essa evolução aqui no Brasil. As músicas já não falam mais tanto sobre violência, nossos be-boys já participam em concursos internacionais, representando nosso país no exterior. Acho que o caminho é esse, em vez de fechar a cabeça girando em torno de críticas, de "não faço isso ou aquilo". Por outro lado, a gente precisa lembrar que o hip-hop, como a capoeira e o samba, se originam na cultura negra, que precisa ser muito estudada por ser extremamente rica. O negro veio de um lugar só: o continente africano, mas de diversas tribos com culturas próprias. Cada tribo levou um pouco de sua cultura para os outros países onde eram levados como escravos e isso fez com essa cultura se manifestasse de forma diferente em diferentes locais, misturando-se com os folclores regionais. Então, a cultura negra é necessariamente híbrida, e essa característica, aqui no Brasil, funciona de forma fabulosa. Como já disse, a dança de rua é híbrida, e espero que continue assim, para possibilitar a continuidade de um de seus aspectos mais bonitos, que é o talento do jovem inexperiente. Muitos jovens sem nenhuma formação ou pretensão artística, sem nenhuma experiência com dança, se envolvem com a dança de rua por causa da batida, do ritmo, de um artista, ou até apenas de uma música. Nesse processo, incorporam seu impulso juvenil de se expressar e acabam somando novos conceitos à dança de rua. Um lado muito importante é que a dança de rua está ajudando a derrubar alguns preconceitos étnicos. Já conseguimos inserir a dança de rua no currículo de alguns colégios católicos em que só se oferecia o "balézinho baby-class" ou, quando muito, umas aulinhas de "jazz dance". O apoio dos pais e da sociedade em geral é crescente, tanto que a maior parte de meus alunos, hoje, é de alunos de colégios tradicionais. Eu venho conseguindo quebrar esses tabus de que a dança de rua é uma "dança de periferia", "dança de negros" e de populações carentes, um preconceito que nunca era dito explicitamente, mas a gente sabia que estava ali o tempo todo. Ensino de Dança de Rua No meu trabalho como professor, acredito que eu não "ensino" as pessoas a dançar. Todo mundo já nasce sabendo dançar, mas muitos guardam essa habilidade dentro de si mesmas. Minha função é simplesmente despertar o que está adormecido dentro de cada indivíduo que esteja a fim de aprender a dançar. O trabalho de treinamento na dança de rua é notoriamente de desenvolvimento motor, porque ela exige muita coordenação motora, tem movimentos bastantes complexos: membros inferiores e superiores, cada aluno se movimentando em um ritmo diferente, bilateralidade... Também envolve muita memorização, para as trocas de grupo, trocas de lugar, decorar o tempo certo da música... No meu grupo, desenvolvemos todas essas habilidades. As pessoas iniciantes vão aprendendo passo-a-passo e, no seu devido tempo, começamos a colocar os bailarinos para dançar. Quando se trata de uma apresentação muito importante, os iniciantes, logicamente, não participam. Mas quando é uma apresentação de cunho mais popular, com intenção de divulgar, a gente faz questão de colocar o iniciante no grupo, para que os espectadores possam notar que todo mundo pode dançar. Nunca digo que "fulano dança mal", mas que é um iniciante, que está se esforçando para aprender e vai melhorar com o tempo. É uma maneira de deixar claro que não é só o "bom" que tem o direito de dançar. No devido tempo, cada aluno vai recebendo responsabilidades maiores. O ensaio na rua Os ensaios que faço com meu grupo na rua atende a dois objetivos. O primeiro é a própria divulgação da dança para a população local. O segundo é ajudar o aluno a vencer a vergonha de se apresentar em público. Eu noto essa vergonha numa apresentação de palco quando o olhar cai, a cabeça se abaixa, o que, numa apresentação mais formal, não fica esteticamente agradável. Assim, o fato de treinar na rua já faz com que o aluno vá se soltando, porque o contato com o público é constante. Quando chegar a hora de uma apresentação oficial, essa experiência já vai ser sentida como "natural". Observando sob outro ponto-de-vista, a gente nota outras
características importantes no treino de rua. O palco tradicional
é, muitas vezes, um sinal de "superioridade" sobre o
público. A "geografia" de um teatro, muitas vezes coloca
o bailarino em uma posição de "centro das atenções"
enquanto o público fica relegado à condição
de meros espectadores, de "reles mortais". No treino de rua,
a gente quebra esse paradigma, porque ficamos no mesmo plano dos espectadores.
Desse modo, eu acho que a gente socializa a dança, o espetáculo,
ao treinar na calçada". |
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| edição 94 | Dança de Rua (Street Dance) - Entrevista com Júlio Botoni por Alexis Kauffmann Por aqueles acasos da vida, conhecemos Júlio Botoni e seu grupo durante uma curta apresentação beneficente em frente ao Instituto de Prevenção à AIDS. Não perdemos a oportunidade de fotografá-lo e registrar suas idéias e brilhante entrevista em um papo muito agradável com um profissional competentíssimo e, acima de tudo, um ser humano iluminado. Trajetória profissional "Eu tinha oito anos de idade quando conheci a música de Michael Jackson, no lançamento do disco "Thriller", em 1982. Ali, minha vida mudou. Eu não queria dançar exatamente como ele, mas gostei muito da música e, em especial, da maneira como ele dançava. Comecei a estudar o assunto e descobri que a música dele, que diziam ser "pop", na verdade era autêntica "black music". A partir dali, virei "rato de festa", ia a todas as festinhas para poder dançar, fosse em clubes, festas de rua, discotecas... Só mais tarde fui buscar a profissionalização. Mesmo nessa etapa, não esperava me transformar em professor de dança. Uma amiga de minha mãe era dona de um salão de cabeleireiro, e me pediu que a ensinasse a dançar, aqueles poucos passos de dança que eu sabia. A partir daí, ela abriu uma turma com 8 pessoas para mim, em 1997. Eu comecei a dar aula sem saber como, usando um espelho quebrado do salão de beleza. Eu ficava muito nervoso, porque eu sabia dançar, mas não tinha idéia de como ensinar. Logo me conscientizei de que precisava melhorar a didática, a metodologia, a forma de ensinar passos de dança para pessoas leigas, que não sabem dançar. Entrei para academias e escolas de dança. Em 1998, montei o meu grupo de dança, com idéia de torná-lo conhecido em nível nacional em quatro anos. Dito e feito. Em 2002 recebemos o reconhecimento do CBDD, que é órgão máximo da dança no Brasil, como destaque-revelação na modalidade dança de rua. Passei a trabalhar em várias escolas de dança no Rio de Janeiro. Atualmente, dou aulas no Conservatório Brasileiro de Dança, tenho minha própria companhia, o grupo-escola Altamente Dance e estou completando o curso de Licenciatura em Dança. Fomos selecionados no ano passado, para representar o Brasil na Disney e serei jurado no Festival de Dança de Joinville, onde darei alguns cursos e oficinas. Também estou tocando um projeto de aula na Rua Conde de Bonfim, Tijuca, para divulgar a dança de rua onde ela tem que ser divulgada - na rua. Dança de rua em comparação com outras linhas estéticas A dança de rua, hoje em dia, está dentro das escolas de dança. É muito interessante o trabalho na academia, mas acho que muito do sentido original se perde se o grupo não tiver contato com a rua, com o povo, pois foi ali que ela surgiu. A dança de rua, se formos compará-la com os outros estilos de dança, é muito "jovem", tem apenas 40 anos. Ela começa com o movimento soul, no final da década de 1960, quando começa a se desenvolver a cultura hip-hop. Um dos elementos dessa cultura é o "be-boy", o bailarino que faz a performance acrobática no chão. A partir do desenvolvimento da cultura hip-hop, surgiram várias vertentes e estilos de dança que convencionamos chamar, aqui no Brasil, de "dança de rua". "Dança de rua" é um termo genérico, usado aqui no Brasil. Nos Estados Unidos e em outros países, desconhece-se esse termo, eles têm um nome diferenciado para cada linha estética: Locking, Hopping, Breakdance, Crump, etc. É preciso pesquisar bastante para descobrir o que pode ou não ser acolhido aqui na nossa cultura. Aqui no Brasil, a dança de rua tem uma característica muito interessante, porque ela se iniciou apenas com homens, num cenário em que a maioria do público dançarino era feminino. Desse modo, ela introduziu no mundo da dança uma grande quantidade de homens e, hoje, muitos bailarinos clássicos saíram da dança de rua para se tornar expoentes em nível mundial, como o Thiago Soares , o Pedro Cassiano, o Marcelo Gomes, entre muitos outros. A dança de rua ajudou a derrubar o preconceito de que "dança é coisa de mulher" e idéias semelhantes, aquele tipo de preconceito vem do desconhecimento, da ignorância, e que desaparece, vira até "folclore", depois que você recebe a informação. A dança de rua recebeu esse nome pela tradução, a meu ver errônea, da expressão "Street Dance". O "Street Dancing" refere-se especificamente aos bailarinos da Broadway, que se viram subitamente desempregados na época da Grande Depressão, nos Estados Unidos. Como não tinham mais emprego, eles foram dançar na rua. Não importava o estilo: sapateado, balé, dança de salão, jazz, eles dançavam na rua para ganhar algum dinheiro. Esse pessoal passou a ser chamado de "street dancers". Note que é um fenômeno da década de 1930. O contexto da cultura hip-hop, em 1968, é completamente diferente. Para variar, alguém confundiu as coisas e adotamos essa tradução, equivocada por um lado, mas que deu certo aqui no Brasil. Os jovens absorveram esses nomes - dança de rua, street dancing, hip-hop (o que não é certo, porque o hip-hop não é uma dança, é uma cultura). Por outro lado, é uma dança muito jovem. O balé clássico tem quinhentos anos; a chamada "dança contemporânea" tem mais de noventa... Eu vejo a dança de rua como uma criança. Ela precisa ser educada e tratada com muito cuidado, para que ela possa crescer de forma sadia, desenvolvendo características próprias e evitando torná-la mais híbrida do que já é. Ela absorveu a influência de vários estilos e linhas estéticas de dança. Nosso esforço agora é no sentido de dar a ela uma característica mais nacional. O hip-hop já tem suas linhas estéticas bastante estabelecidas. Nós usamos elementos dessas linhas estéticas do hip-hop, admitimos que ela é híbrida, mas procuramos incorporar elementos regionais, inclusive folclóricos, que os nossos jovens tenham mais facilidade de manifestar, e levá-la para os grandes festivais, no país e no exterior.
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| edição 93 | "A arte de impor limites aos filhos e como aprender a dizer não às crianças" ou "Guia Prático para criar um nazistinha dentro de casa" (Parte II) Alexis Kauffmann Reich é criticado por não haver "superado" a "teoria do trauma", estabelecida por Breuer e Freud nos "Estudos sobre a Histeria". Nessa obra seminal sobre a psicogênese das neuroses, os autores postulam a ocorrência de um trauma sexual na infância como origem de todas as neuroses. Freud abandona a teoria do trauma, cedendo às críticas de que os abusos sexuais na infância não poderiam ser tão generalizados assim. Basicamente, a teoria do trauma colocava sob suspeita de abusadores sexuais de crianças os cidadãos mais respeitáveis, de todas as classes sociais. Não havia dados que pudessem corroborar tamanho absurdo. Deste modo, Freud abandona a teoria do trauma e mergulha em um conceito de "sexualidade" cada vez mais amplo e abstrato, desligado do corpo e dos comportamentos cotidianos. O que acontecia de fato? A estrutura de forte "autoridade paterna" e uma irredutível cultura do "não" calcada na idéia de que "crianças devem ser vistas, não ouvidas", ocultavam a enorme freqüência de abusos sexuais de crianças. A sociedade fingia que tais práticas não existiam. Em que baseamos essa ousada afirmação? Em uma das vilãs da história: a mal-afamada "mídia", especialmente a Internet e, recentemente, o Orkut, apontado como a fonte de todos vícios e crimes. Se fosse hoje, exposto à crescente liberdade de expressão, à evolução dos meios-de-comunicação e da superação da "cultura do não", Freud talvez relutasse em abandonar a Teoria do Trauma tão rapidamente. Sim, os abusos sexuais contra a infância são tão generalizados quanto pareciam no tempo de Breuer e Freud. Apenas ficavam escondidos, ocultos, reprimidos, recalcados, porque crianças não tinham direitos, não eram sujeitos no sistema familiar: eram apenas "unidades produtivas", "patrimônio" a ser vendido, no caso das fêmeas, pelo casamento; no caso dos machos, ao burguês industrial ou ao Estado Militar. Em uma palavra, gado, reprodutor ou de corte, conforme o gênero. Sabemos que os abusos sexuais contra a infância ocorrem em alarmante freqüência, dentro de casa, perpetrados por pais, irmãos, primos, tios, vizinhos. Na maior parte dos casos, por pessoas próximas, com toda a aparência de confiabilidade, "acima de qualquer suspeita". Sabemos porque vemos a demanda por pornografia
infantil freqüentemente denunciada na TV e na Internet.
Enquanto isso, psicólogos defendem que a mídia, ao apresentar de casos de abuso sexual infantis, provoca ansiedade nas crianças! Suponho que esses "psicólogos" pertençam à mesma estirpe que desviou Freud da teoria do trauma. Ao manter-se fiel à teoria do trauma, Wilhelm Reich encontrou seu destino na cela da cadeia. De fato, se a realidade causa ansiedade, o problema não está na ansiedade, mas na realidade. Culpar a mídia é como quebrar o espelho porque ele não mostra o que Narciso deseja ver. "Ansiedade" não é um problema, se justificada. É patológico não se sentir ansioso em circunstâncias de grave ameaça. É natural sentir-se ansioso em uma metrópole violenta, que tantas ameaças apresenta à vida humana: trânsito caótico, multidões insensíveis, assaltantes e mendigos por toda parte, poluição atmosférica, sonora e visual. Confundem-se, portanto, nos discursos ideológicos do "limite" e do "não", a ansiedade natural, normal, necessária à auto-preservação e à auto-defesa, com as síndromes de ansiedade generalizada. E a culpa da ansiedade infantil, obviamente, é da imprensa e do Orkut! É preciso entender o discurso do "limite" não como produção ideológica isolada, mas como parte de um macrocontexto de "contra-reforma" da superestrutura ideológica pós-derrocada do "socialismo real". Explico. Os pais sempre se sentiram inseguros quanto à melhor forma de criar seus filhos. Todas as fórmulas prontas de educação parecem muito bonitas no artigo da revista. Mas, quando é a sua criança, em sua casa, as regras do manual nem sempre parecem aplicáveis. Porque cada criança é um indivíduo único e seu destino na vida adulta depende fatores nem sempre controláveis pelos pais. Qualquer família com mais de um filho pode testemunhar que, diante de idênticas oportunidades, cada filho seguiu um caminho diferente. Logo, há uma demanda por manuais, regras e teorias que provejam essa segurança para os pais, divididos entre o dilema de "criar o meu filho como fui criado" ou "como gostaria de ter sido criado". Esses manuais, regras e teorias são reflexo de sua época, do sistema socioeconômico vigente. Devemos nos perguntar, portanto: qual é a realidade socioeconômica vigente nos dias de hoje que engendra um recrudescimento de formas autoritárias de educação? A resposta é complexa, mas parte dela cabe em um binômio: AIDS e queda do "socialismo real".
No final da década de 1970 e início dos anos 1980, porém, surge o espectro da AIDS, uma doença mortal, que atinge pessoas ricas e famosas, cuja causa - o HIV - só foi descoberta em 1983. Só em meados da década de 1990 é que surge um tratamento realmente eficaz para essa doença, quando já havia antigido o status de pandemia. A política do corpo sofre, naturalmente, um grande baque. Os discursos sobre a sexualidade precisam incorporar novos termos: "responsabilidade", "precaução", "prevenção", "camisinha". O sexo deixa, mais uma vez, de ser uma inocente fonte de prazer para erguer-se em ameaça à vida e à saúde pública. Toda a liberalidade sexual dos anos 1970, conquistada a duras penas, precisa ser revista, precisa ceder lugar, a pelo menos, um "neoconservadorismo light". Mas a AIDS não surge num vácuo político. Estamos falando de um período histórico em que coincidem 12 anos de governos conservadores nos Estados Unidos (Ronald Reagan - 1981-1989 / George Bush (pai) - 1989-1993), na Inglaterra (Margareth Thatcher - 1979 a 1990) e o pontificado ultra-conservador de João Paulo II (1978-2005). Também coincide com o progressivo enfraquecimento do socialismo e eventual derrocada do "socialismo real" na União Soviética sob Mikhail Gorbachev (1985-1991) e em toda a Europa Oriental. Nesse contexto, o assim chamado "Estado de Bem-Estar Social" (Welfare State) perde o seu sentido original, o de conceder uma "face humanista" ao capitalismo para enfrentar um poderoso sistema social, político, econômico e ideológico concorrente, equipado com armas atômicas e intensa propaganda de suas "virtudes sociais". Com a queda do sistema "concorrente", o capitalismo passa a apresentar todas as distorções do capitalismo monopolista: corte de custos, redução da qualidade concomitante à manutenção ou aumento dos preços. Na esfera do Estado, os primeiros alvos são as empresas estatais, com o início de um grande movimento privatizacionista. Em seguida, inicia-se um embate político-ideológico, que perdura até hoje, sobre os "custos dos benefícios sociais". Aposentadorias, seguro-desemprego, estabilidade relativa no emprego, todas essas conquistas são colocadas em xeque em prol do "equilíbrio das contas públicas". Na esfera da iniciativa privada, abrem-se as porteiras para o uso desempregatício em larga escala da tecnologia da informação. Na sua face mais visível, os guichês de bancos são substituídos por caixas-eletrônicos (ATM's) e internet banking. Mas, em todo o sistema produtivo, da indústria aos serviços, a "reengenharia" espalha-se como uma peste, provocando a extinção de cargos, departamentos, divisões e até de empresas coligadas, subsidiárias e filiais em diversas partes do mundo. Dezenas e, em alguns casos, centenas de milhares de empregos são extintos da noite para o dia em cada uma das maiores empresas do mundo, sempre fundamentando-se no discurso da "competitividade em custos" e da "produtividade". As empresas líderes são seguidas pelas empresas menores e o total de empregos extintos em todo o mundo atinge a casa dos milhões. Muitas profissões simplesmente desaparecem, forçando trabalhadores com décadas de experiência a voltar aos bancos da escola em "programas de qualificação". Um dos efeitos sociais mais graves da reengenharia foi a extinção dos cargos de gerência intermediária. Sob a palavra-de-ordem da "produtividade" e de teorias psicológicas da motivação produzidas sob encomenda - "job enrichment" e "job rotation" entre as mais ridículas - os gerentes juniores assumem responsabilidades que eram exclusivas de gerentes sêniores, enquanto seu salário permanece idêntico. Em uma frase, mais trabalho pelo mesmo salário. Mais: surge todo um discurso do "sucesso", com a disseminação rápida das posições de "estagiário" e "trainee". De fato, desloca-se cada vez mais para baixo a média de idade dos executivos das empresas de grande porte. Jovens que ainda moram com os pais, ou vivem solteiros, com grande saúde, alimentados por ambições no mais das vezes ilusórias, movidos a MBA e entusiasmo, não hesitam em ocupar o lugar dos "velhos" de mais de trinta anos, pais-de-família, acostumados a um padrão-de-vida mais alto, por salários e benefícios muito menores. Sim, a "produtividade" aumenta, à base de cada vez mais trabalho a salários cada vez menores. Enquanto isso, uma massa de ex-gerentes intermediários, com décadas de experiência, nível superior e muito bem-informados, vai ocupando o espaço social de uma classe média "submergente", ideologicamente aliada à classe dominante, mas com rendimentos cada vez mais próximos das classes sociais inferiores. A "classe média" deixa de ser definida pela renda, mas pela afinidade ideológica, já que um abismo a separa do topo da pirâmide econômica, enquanto faz das tripas coração para manter-se apenas um ou dois passos à frente da linha-de-pobreza. É para os filhos da classe média submergente que se dirige o discurso dos "limites". Eles precisam aprender a desejar cada vez menos. Precisam conformar-se ao seu destino de "operários do conhecimento", no dizer de Peter Drucker. Um "proletariado da informação", altamente educado, qualificado e informado, submetido à remuneração descrescente do seu trabalho e ao rápido deslizar pela pirâmide social rumo à linha-de-pobreza. Desta forma, os ideólogos do sistema (psicólogos e educadores remunerados para substanciar em "pesquisas" os seus vieses ideológicos) promovem deliberadamente a confusão entre "educação liberal" e "educação libertária". De fato, a educação "liberal" tem conseqüências funestas e incentiva a delinqüência. Mas ela é exclusiva dos "príncipes", "fidalgos" - ou, como chamamos no Brasil, "filhinhos de papai" - para quem tudo é permitido, porque "papai é deputado", "papai é desembargador", "papai é delegado", "papai é general". Há um abismo separando a educação "liberal" de um "filhinho-de-papai" da educação "libertária" preconizada por educadores como Paulo Freire e outros, em que o sujeito, seja criança ou adulto , é educado para agir com autonomia decisória. O discurso neo-restauracionista é que faz questão de jogá-las no mesmo saco, pois é uma educação para as classes médias, classes fadadas a desaparecer no contexto da reengenharia socio-econômica que se segue à reengenharia da administração privada (concluída) e pública (em curso, no rastro de Thatcher e Reagan). Em resumo, o discurso dos "limites" representa uma confusão proposital entre os modos "liberal" e "libertário" de educar. Porque, em todo o mundo, os "príncipes" nunca enfrentaram "limites" ou "nãos". Entre os pobres e oprimidos, continua valendo a pedagogia da pancada. O nó da questão é a classe média.
O que fazer com ela, depois que ela se torna socialmente desnecessária,
uma pedra no sapato do projeto de "sociedade 20-80" (1), para
quem a solução de Jeremy Rifkin, a expansão do "Terceiro
Setor" (ONG's e trabalho voluntário), claramente não
representam solução, na medida em que não preenchem
todas as vagas destruídas pela reengenharia socioeconômica
pós-queda do Muro de Berlim. Nota: O conceito de "sociedade 20-80" foi um cenário traçado por diversos líderes empresariais e políticos no início da década de 1990, em que 20% da população mundial permaneceria empregada, enquanto os outros 80% constituiram "exército trabalhador de reserva", para manter elevada a produtividade e reduzidos os salários ao mínimo necessário à subsistência
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| edição 92 | "A arte de impor limites aos filhos e como aprender a dizer não às crianças" ou "Guia Prático para criar um nazistinha dentro de casa"
Alexis Kauffmann
Remeto este artigo à revista Sexualidade como fundamento de que a repressão sexual e a conseqüente construção das neuroses sexuais é engendrada socialmente no corpo das crianças, criando o que Wilhelm Reich chama de "couraça muscular do caráter". A corporalidade é um fato político da maior importância, na medida em que pode moldar uma sociedade composta majoritariamente por cidadãos rígidos, temerosos da autoridade, incapazes de tomar decisões por conta própria. Uma sociedade doente, repressora, terreno fértil para a disseminação de ideologias totalitárias, violentas, "fascistas", no dizer de Reich. Vale observar que o conceito de "fascismo" em Reich não se limita à forma com que ele se apresenta na Itália sob Mussolini. "Fascismo" é toda estrutura de política em que se concede ao Estado poder repressivo além dos limites necessários - sejam quais forem - à manutenção da ordem social. Num estado "fascista", entendido no sentido Reichiano, o que menos importa é o discurso ideológico, seja "de direita", ou "de esquerda". Se há incentivo ao ódio, prisões arbitrárias, criminalização da expressão do pensamento e de comportamentos naturais, incentivo à delação e ao medo, temos então, na visão de Reich, um "Estado Fascista", pouco importando se ele se diz Nazista, Stalinista, Maoísta, Capitalista, Liberal ou Democrático. Valem os comportamentos, não os rótulos; o conteúdo, no lugar da embalagem. É preciso retornar a Reich neste momento histórico-político em que o fascismo, nesse sentido lato, insidiosamente, volta a se infiltrar nos discursos midiáticos, implantando veneno na mente coletiva sob a forma de bem-engendrados sofismas, aparentes expressões de puro bom-senso. Esse veneno é a propaganda incessante de uma aparente necessidade de impor "limites" às crianças. Argumenta-se que os pais não sabem mais dizer "não" a seus filhos, que é preciso retomar as "palmadas" e "tabefes" como recurso educacional. Ao que parece, crianças e adolescentes estão mais insolentes do que nunca, cada vez mais rebeldes, insubordinados, incapazes de respeitar a autoridade. Diante desse problema, preconiza-se um retorno ao "não porque não". As teses que os reacionários procuram ressuscitar de suas tumbas podem ser resumidas no seguinte: * Como os pais teriam dificuldade em dizer a palavra "não", os filhos passariam a considerar a "rebeldia" e a "insolência" como direitos naturais. * Essa dificuldade transbordaria para as escolas e apontadas
como causa subjacente aos casos de agressão física e verbal
praticada por alunos e pais. Duvido que Göebbels discordasse dessa tese. Queixam-se hoje os pais de "bons tempos" em que era fácil criar filhos, à base de pancadas, repressão sexual e trabalho precoce. Esses "bons tempos" deram-nos duas Guerras Mundiais, Nazismo, Fascismo, Stalinismo, McCarthysmo, Mao e suas revoluções genocidas, Salazar, Franco, Pinochet, Stroessner, AI-5, jovens torturados, mortos e desaparecidos em porões de quartéis no mundo inteiro. É isso o que queremos restaurar? Re-abrir a fábrica
de genocídios e torturas? Argumentos semelhantes são lidos, vistos e ouvidos todos os dias em todos os meios de comunicação. A palavra de ordem agora é: imponha "limites" aos seus filhos! Se necessário, recorra à violência, mas reestabeleça a autoridade paterna! Nesse discurso, não faltam vilões: a culpa é da mídia, que expõe crianças a maus exemplos e mensagens geradoras de ansiedade; a culpa é dos pais, que são fracos e não sabem dizer não; a culpa é dos professores, da escola, da sociedade. O fato é que não se pode entender a extensão de um discurso dentro de seus próprios termos. Todo discurso ideológico bem-engendrado se caracteriza, primordialmente, por uma forte coerência interna. Tudo parece certo até que se dirige o desafio ao seus pressupostos, aos seus postulados iniciais, dos quais derivam toda a argumentação. É a esses pressupostos que dirigimos o gume de nosso texto e, como demonstraremos ao longo deste artigo, seus objetivos articulam-se perfeitamente com o contexto histórico em que são re-produzidos como novidade. (continuação) |
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| edição 91 | O Suporte que Trata
Dr. Renato Van Wilpe Bach Por mais que os avanços da Ciência no último século tenham ampliado a expectativa de vida do ser humano em geral, e, em especial, dos muitos de nós acometidos por doenças crônicas e graves, a medicina ainda enfrenta, de mãos dadas com qualquer um de nós, a inevitabilidade da morte. Diferentemente do que pensavam nossos antepassados médicos, no entanto, conceitos errôneos e largamente difundidos como “desenganar um paciente” caíram por terra e devem permanecer enterrados face a uma compreensão menos paternalista e mais humanizada de atendimento e tratamento. Também se torna imperativo discutir com a sociedade novos conceitos relativos à terminalidade da vida que abrangem não só o conhecimento médico como também o filosófico, o ético, o psicológico, o civil e o penal. Oriundo de uma visão autoritária milenar do exercício da profissão médica, o conceito de “desenganar” é auto-explicativo: quem “desengana”, um dia já “enganou”. Os exemplos são muitos e ainda estão (infelizmente) presentes na prática clínica, variando do “simples” ato de não se explicar ao paciente o nome da doença, o motivo da prescrição de um determinado remédio, ou seus possíveis efeitos colaterais, até a arbitrariedade com que são instituídos tratamentos mutilantes ou repletos de efeitos colaterais sem a devida discussão prévia com o maior interessado, no caso, o próprio doente. Em um mundo em que o saber passa a estar “ao alcance de todos” através da internet, tal postura deveria não só ser evitada como até censurada. Uma conversa clara, que se distancie o mais possível do jargão médico incompreensível atrás do qual nós profissionais da área tantas vezes nos albergamos, deve ser levada a termo em todas as situações, trazendo o cliente para o centro das decisões. A experiência comprova que mesmo crianças em tenra idade têm mais medo do desconhecido que de uma agulha, atitude que permanece, em níveis variados, ao longo da vida. Pacientes esclarecidos, antenados e cientes de seus direitos são cada dia mais comuns; já médicos que entendam qual deva ser sua postura em um mundo globalizado são mais raros. Entende-se: nossos mestres vivenciaram outra experiência, e foi esta que nos transmitiram. Conheço colegas que se apavoram perante um doente escrutinador. Mas terão que se acostumar a eles: nos EUA mesmo adolescentes têm o direito de opinar quanto ao tipo de tratamento que irão receber - atitude que começa a se propagar também no Brasil, pelo menos dentre aqueles que possuem acesso à web. Por outro lado, há famílias que ainda anseiam delegar integralmente suas decisões à equipe médica, e mesmo esconder diagnósticos graves do paciente em questão, o que torna delicadíssima essa relação médico-paciente, especialmente em casos onde não há mais possibilidade de cura pelos métodos terapêuticos atuais. E, no entanto, é a relação entre o médico e os familiares do paciente, além do próprio e inalienavelmente, o próprio enquanto, estiver de posse de sua sanidade mental, que norteará o sucesso e a efetiva paliação (“aliviar momentâneo”, segundo o Caldas Aulete) da doença em questão. E como se estabelece que um paciente está fora de possibilidades terapêuticas habituais? É uma decisão do médico? Do paciente? De ambos? Certamente enquanto houver eficácia (casos curados ou com sobrevida estendida) e segurança (toxicidade tolerável, não diminuição da sobrevida ou aumento da mortalidade por eventos evitáveis) o médico não deverá medir esforços, primeiro para vencer a doença, segundo, quando e se critérios clínicos bem estabelecidos o demonstrarem, abandonar a luta de frente e proteger a retaguarda, a qualidade e a extensão da sobrevida. Certamente este momento não será solitário. Reunidos em mesas-redondas onde vários profissionais discutem o caso (médicos das várias especialidades, enfermeiros, psicólogos, pedagogos, fisioterapeutas, entre outros) estão os prontuários daqueles que anseiam por uma resposta: deverão descontinuar o tratamento? Uma vez chegado um consenso, o profissional diretamente envolvido com o paciente levará a notícia a este e seus familiares, onde poderão discutir as alternativas decididas em equipe. Da mesma forma, dentro de um processo dinâmico, novas terapias podem resgatar alguns pacientes antes tidos como sem possibilidade de cura e melhorar seu padrão de sobrevida. Nos demais, técnicas de “homecare”, hospitais próprios e atendimento privilegiado dentro da rede de saúde podem garantir a qualidade do tratamento ofertado, que antes ficava nas mãos de familiares sempre bem-intencionados e nem sempre treinados. Cabe ao Estado prover um desenlace digno a estes pacientes, mitigando o sofrimento dos menos privilegiados e, aos seguros e convênios de saúde, incrementar o setor, de modo que permita ao paciente permanecer como “sujeito” da relação médico-paciente e não mais mero “objeto”. |
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