Arquivo Géh Poesias:<< Corpus, Heroínas, Perdidos|>>
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Edição 110  
Edição 109
Edição 108
Edição 107 VolverAmalia Munteanu Lenart - Azul
Azul por Amalia Munteanu Lenart.


Nas noites que minha saudade
Reviram os armários feito doida,
E meu desejo desaforado
Emerge do nada, meio engasgado,

Balbucio palavras sem nexo,
Rolo na cama a procura
De um faz de conta e sexo,

Queimo as cortinas de renda
Que tu me deste naquela
Tarde vermelha e celeste,

Espero que tu me entendas
Porque forcei tua porta
Abrindo fendas,

foi pra te fazer saber
o que deveras arde
ao cair de cada tarde,
Então sou febre ao anoitecer.

 

Maria Júlia Pontes

Dança das cores
Leonardo Herrera - Amantes
Amantes por Leonardo Herrera

 

Escandalosos celestes e violetas,
vermelhos e laranjas,
verdes e amarelos
escorrem doces na alva tela
eternizando o desejo num arco-íris sentido.

Depois explode louco e poeticamente no tecido,
em arrepios e desatinos do âmago.
Transforma-se em feitiços coloridos,
em vestígios melódicos,
em arte excitante e mágica.

Esse sortilégio vem das cores,
duma dança de pernas e pincéis,
que esvoaçam lavas e sentimentos,
harpeando quadris em sonoras vagas
e tesos versos numa pintura intensa

7 traços,
7 cores,
7 lágrimas,
7 ondas,
7 estrelas,

são lótus entregues
e flutuantes

desejos oleados, famintos
e flamejantes,

línguas escaldantes

serpentes e entrelaces

desvarios



Claudia Perotti

 

Brilho da lua
Ivan Koulakov - Two under the Moon
Two under the Moon por Ivan Koulakov

I
Com que pura
e serena transparência,
brilha a noite a lua
vencendo a bruma...
É imagem de cândida
e pura inocência
e não tem nela uma mancha...
Nenhuma!

II
Seu pálido raio
de luz pura
é uma chuva
de ouro audaz...
Chuva que a brisa
leva e traz
sobre as almas
com brandura

III
Até ao mármore
das sepulturas ilumina,
com seu melancólico,
se preciso, lume...
e a tudo realiza
sem nenhum queixume,
em grandeza tal
que a todos fascina...

IV
Tudo vês ó lua,
a todos estes pobres mortais,
quantos forem
os que neste mundo habitam...
Que excedem-se em poemas,
cantando suplicam...
São tolos se arrastando
pela cura de seus ais...

V
Uns pleiteando consolo
para suas dores...
Outros mais correndo
por sonhos de ouro...
Só quem sabe vê
nas entrelinhas o agouro,
da neutralidade certa
dos teus raios incolores...

VI
Outros ainda e por fim,
amando teu coração;
ou querendo o calor
de aventuras roubada...
Temem o dia e ao sol
pois em sua passada,
o astro Rei é
testemunha de acusação...

VII
Ah, pois...Com que pura
e serena transparência,
brilha na noite a lua
vencendo a névoa e a bruma...
É imagem refletida
de cândida e pura inocência,
e não tem nela uma mancha sequer...
Nenhuma!

Maria Antonieta R. de Mattos.

 

Edição 106

CorpusJose Ignacio Prieto de Pico - El grito
El grito por Jose Ignacio Prieto de Pico.


A argila
Carne que perambula
Vermes – e alma –
Só tornará calma
Se argila tornar Ser

O barro não morre o corpo
Sedento de espírito vira anti-corpo!

E quando a morte se dera
Na alma do corpo que se fizera
Verás desta vida apenas quimera

Santificada seja a morte que me retorna à vida da terra!

Somente lá estarei concluído
Somente lá jamais serei vencido
Somente lá terei a paz sem guerra

 

João Batista do Lago

Heroínas

Cassandra

 

Já fui Ceci
envolta em plumas e penas.
O sonho de Peri.
Vivi delicias plenas

e suplícios,
transvertida em Lúcia.
Lucíola e seus
vícios.

Ressaca tomou-me os olhos
de Capitu.
Nadei em ondas revoltas.
Iracema de Caramuru.

Cabelos negros asa de graúna,
lábios de mel.
Nos confins do pampa.
Coxilha e céu.

Fui Ana Terra.
Fui Bibiana,
e no sertão Tereza.
Sempre Tereza...
Cansada de Guerra.

 

Sônia (Anja Azul)

 

Perdidos e achados num convés
Así será por Maria Eugenia Sampaoli
Así será por Maria Eugenia Sampaoli

Hei fantasma não quero mais brincar
Que graça tem brincar de fantasma?
Vento morno, esconde-esconde,
Quando minha vontade é de voar
Voar sete saias de alma
E sentir o coração disparar

Larguei esse baú no fundo das águas
Cansei desse baile de máscaras,
Dessa música de fundo, fundo de mar,
Das mil e uma cartas sem respostas,
E desse seu, apenas, conjugar de verbos

levo na mão a palma
-metade de um mapa-
Carrego o vento nos cabelos,
O olhar enigmático das fadas,
E pra semear, o amor entre os dedos

Trago as asas de um sonho que brotou nas minhas costas,
As flores de março, quadris da floresta,
Cravejado no coração da mata,
E do acaso as longas pernas

Abigail Brasil