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Edição 5

Sou Tua

Pelo avesso do avesso eu me guio
Guardo luto e visto cores no vazio
Se me porto qual vestal
Por castidade
É de amar-te e querer-te de verdade

Eu desprezo a avidez de puro cio
À minh’alma, basta o amor terno e sereno
Mesmo em face de desejos mais sombrios
Dispo os beijos
Colho olhares e me desvio

Eu sou vale interditado
Intransponível
Uma estrada proibida ao estrangeiro
E que possa eu sentir do amor o cheiro
É só teu o que recato

Ariadna Garibaldi

Efígie

decifrar sinais
da madrugada
ler um poema
um lume apenas
da sua boca
o quase silêncio
oculto na bruma
da madrugada
um beijo
sufocado
apenas um
e nada mais

Fred Matos

Dicas de Literatura A Mensageira das Violetas- L&PM Pocket
Florbela Espanca

Florbela Espanca (1894-1930), ignorada pela preconceituosa crítica do início do século, é considerada hoje em dia a mais sublime voz feminina da poesia portuguesa de todos os tempos. Seus sonetos são um ousado diário íntimo, onde palpitam as ânsias de uma mulher ardente, a clamar pelas carícias de um amor impossível.

 

 
Edição 4 Poesia

Mio

Teus beijos molhados
provocam e atiçam
eu mordo, eu grito
arranho e mio
sorvo teu líquido
indecente desejo
incendeia
meu ventre.

By Géh.

Conto

Aproximou-se da cama, onde ela dormia serenamente. Espantou-o que ela parecesse tão frágil, encolhida como criança. Os longos cabelos escuros espalhavam-se, desordenados, sobre o travesseiro alvo, a pele morena macia convidava à carícia mais doce. Enterneceu-se. Sentia-se tentado a acordá-la suavemente quando um movimento, acompanhado de um gemido abafado, revelou o busto nu. O som gutural e a visão dos mamilos escuros dissiparam o transe e lembrou-o de que ela nada tinha de angelical, na verdade. Era, antes, a personificação dos seus demônios. Rememorou a risada e os movimentos devassos e sentiu-se inflamado. Acercando-se da cama, cravou os dentes com força no seio, arrancando-lhe um grito de surpresa, a qual durou pouco. Desperta, ela sorriu daquele jeito faminto e lúbrico, encarando-o, convidativa. Ferozes, lançaram-se ao embate.

Lívia Santana.


Dicas de Literatura
Amêndoa - Nedjma
Ed. Objevitva

No Marrocos da segunda metade do século XX, Badra conta a história de sua vida, decidida a não medir palavras ou sensações e a honrar a milenar tradição árabe de escrita erótica. Testemunho excepcional de uma mulher de origem árabe que ousa transgredir o tabu do sexo e do silêncio, A Amêndoa assinala um verdadeiro acontecimento: pela primeira vez uma mulher muçulmana se exprime com liberdade sobre sua vida íntima. Badra tem 50 anos e corajosamente decidiu revelar sua trajetória. De sua infância, quando corria descalça, curiosa e despreocupada em sua aldeia. De sua adolescência, quando foi casada contra sua vontade, por conveniência, com um homem muito mais velho, que não demonstrou nenhum respeito ou carinho por sua juventude ou virgindade. De sua fuga para Tânger, que lhe abriu um mundo novo onde as mulheres não viviam apenas para seus maridos. E principalmente sua história com Driss, seu mestre e seu carrasco, homem da alta sociedade que se apaixona intensamente pela tímida e ardente provinciana, e que lhe apresenta um amor total, arrebatado, profundamente sensual. Num relato perturbador e libertino, o livro abre uma janela para a intimidade da mulher muçulmana. Com uma mistura de sensualidade e revolta, a autora mostra que por baixo dos véus e das proibições existe um mundo de desejos e sentimentos esperando para ser libertado. Uma obra cheia de volúpia, incandescente, radiosa, mas que é também um ato político: uma reconquista da palavra e do corpo das mulheres árabes. A autora, que tem cerca de 40 anos, vive em um país do norte da África e assina o livro com o pseudônimo Nedjma.

 

Edição 3

Poesias


Tema : B E I J O S

Versos Sentidos

Sentir teus lábios
Na ponta dos dedos
Merece um beijo

By géh

Haikai

Beijos ardentes
alucinam a mente
avidamente.

By géh

 

Vertigem do corpo 01

Quero um longo beijo na boca,
sem vontade de parar,
com cheiro de saliva.
Sentir o ar quente das narinas.
Dentes traiçoeiros,
beijo de lábios oferecidos,
de língua inquieta e macia
que lambuza a alma,
que molha o corpo.
Beijo que faz o tempo parar,
como o primeiro beijo que se quer muito
e que permanece quando termina. © Paulo Camelo

Dicas de Literatura - Das Falas de Ivana

Um dos livros mais instigantes que li nos últimos tempos foi escrito por Ivana Arruda Leite, escritora paulista, nascida em Araçatuba, que tem confirmado sua presença na cena literária nacional. Ivana, que é socióloga e atualmente vive em São Paulo, já publicou dois livros de poemas e, em 1997, lançou seu primeiro livro de contos: "Histórias da Mulher do Fim do Século" (Editora Hacker), além de participar em algumas das mais importantes antologias de contistas brasileiros publicadas recentemente. O livro ao qual me refiro como instigante, publicado pela Ateliê Editorial, em 2002, conduziu-me a uma reflexão: tem sexo a escrita? Tem voz o sexo condicionado pela moldura de uma sociedade falocêntrica? Utilizando a palavra como objeto de penetração, Ivana nos chama às falas no seu "Falo de Mulher".

Realizando um trabalho de "desencantar a mente", cada personagem de Ivana revela a falsa fragilidade e submissão do sexo feminino, mostrando-nos que esses conceitos são meras construções do tempo, alinhavadas por credos, civilizações patriarcais e modos de ser que prevaleceram contra o bom senso.
As mulheres de Ivana são impróprias para o consumo, na medida em que não se deixam "coisificar" como objetos estéticos ou domésticos. Fazem-nos lembrar de Adrienne Rich com "When We Dead Awaken" (Quando nós, as mortas, despertamos); da garganta de uma de suas "dolores" nasce o grito do eterno feminino: "por que só eu tenho que andar na linha?"

Ivana Arruda Leite vem para perturbar o cânone das autoras mais ou menos domesticadas, "escrevidas" e se escrevendo à imagem e semelhança da divindade trina: masculino, raça branca, heterossexual. As suas mulheres nos permitem repensar o papel e a fala das personagens femininas que andam se inventando no cotidiano trágico das famílias, das relações mães e filhos, macho e fêmea.
Em "Receita para comer o homem amado" Ivana nos permite uma incursão pela sexualidade feminina e pela oralidade, transportando-nos para um universo sensorial primitivo onde "no princípio tudo era boca". Em que circunstância o lençol da noite de núpcias foi substituído pela toalha de mesa? "Devore tudo com talher de prata". Cama e mesa, juntas, são representativas do casamento; Ivana, com declarada ironia, nos remete ao simbolismo da mesa e da alimentação relacionado à sexualidade feminina: comer ou ser comida, eis a questão!

Na outra face da mesma moeda, temos Adélia, cujas zonas erógenas foram todas transferidas para as papilas gustativas: "não me tire o único prazer que me resta na vida" ela implora para o homem que já não monopoliza o seu desejo, se é que algum dia o fez. Adélia, cujo sentido de carência se transformou num vazio devorador, traduzido em uma fome que não encontra pão nos corpos dos homens.
"Isabel, a princesa" é outra que tem fome: "a princesa nunca teve prazer no sexo" - retrata a vida insípida das mulheres que nunca contraíram dúvidas.
Raquel, Laura Christina, Berenice, Luísa, existe uma cadeia associativa entre todas essas mulheres; cada uma delas, de um certo modo, ultrapassou o ponto do não-retorno, deixando-se enredar nas fantasias de mulheres refinadas, inflamadas, introvertidas, perturbadas, mulheres com necessidades do absoluto, porque, afinal: "Mulher é tudo igual".

Aos leitores dessa coluna, dou o conselho do Djavan, numa de suas belas canções: "um dia frio, um bom lugar pra ler um livro"; o livro de Ivana Arruda Leite, é claro.Resenha publicada originalmente na coluna de Sandra Regina Sanchez Baldessin no Jornal Cidade.

Edição 2

Poesias

A Geisha

Na penumbra ela se prepara:
perfumes raros, cheiro de amor,
pele de seda, roupagem rara,
tudo isso pra seu senhor.

Tece sonhos na longa espera
cuida sua enviesada flor;
canta canções baixinho,
quimono veste devagarinho,
tudo isso pra seu senhor.

Seguirá sua doce sina:
aprendeu desde menina
amar em várias línguas
gestos frases ambíguas,
arrancar gemidos de dor
suspiros de amor,
tudo isso pra seu senhor.

Porque só existe e respira
só sente, só vê, delira
ao ritmo do gozo tremor
do olhar de seu senhor.

Anja Azul, segundo a própria é "gaúcha, de Porto Alegre, blogólatra, poetisa, contadora (e de histórias também), cantora de araque, faz paródias, trabalha e, pra completar, se arrisca de desenhista."

Arquivos Cooper

Tiros no Espelho

Sábado, fim-de-noite, de fato domingo, diriam os chatos, mas um dia só termina quando a gente cai na cama e o seguinte só começa quando a gente acorda, essa é que é a verdade. Muita cerveja, muita tequila, muitos beijos na boca, muitos perfumes e marcas de batom, a chave tateia a fenda da fechadura sem sucesso.
Irritado, consigo abrir um olho, firmo pontaria com a mão titubeante e golpeio com força a ponta da chave e, mais uma vez, erro o alvo. A porta desliza sobre as dobradiças. Destrancada, apenas encostada.
A descarga de adrenalina regurgita uma meia-dose de tequila ácida que me forço a re-engolir.
(A última coisa de que precisa uma pessoa que teve a casa invadida é uma sessão de vomitório).
Protejo-me no portal e meus instintos conduzem minha mão esquerda à axila direita, depois à cintura, onde costumo usar minha 45 e minha 9mm, respectivamente.
"Merda de porre, um erro desses pode te custar a vida, ô imbecil", esbravejo contra mim mesmo agachando-me para pegar o 38 cano curto de cinco cartuchos, merda de armazinha de bicha, engastada no coldre do tornozelo.
No início da noite confesso que pareceu uma boa idéia carregar apenas uma armazinha discreta, para não afugentar as garotas e relaxar pelo menos uma vez em vários meses de paranóia constante.
Agora, agachado à beira do portal, o porre quase me estatelando no chão a cada tentativa de sacar a desgraçada armazinha de bicha, amaldiçõo todas as minhas gerações passadas e futuras por tamanha cretinice. Um homem como eu, que leva uma vida como a minha e exerce a minha profissão, simplesmente não pode relaxar e ponto-final.
Finalmente com a arma em punho, contraio os músculos tanto quanto o álcool que o medo rapidamente evapora me permite e invado a sala do meu apartamento, acendendo bruscamente as luzes e vejo, estupefato, que está completamente limpa e arrumada, nenhum objeto faltando fora do lugar.
Respiro fundo três vezes para controlar o pãnico.
Isso está errado. Completamente ERRADO.
Lembro-me perfeitamente que minha sala estava uma zona quando saí de casa, pois a faxineira só vem às segundas-feiras. Como é óbvio que ela não decidiu fazer hora extra na madrugada de sábado arrombando a minha porta para entrar, já faço uma leve idéia sobre quem vou encontrar na suíte iluminada - e eu não esqueci as luzes acesas - ao extremo do corredor.
Meus passos já estão mais firmes mas a cabeça começa a latejar uma ressaca precoce enquanto caminho para encontrá-la, mais linda do que nunca, ainda molhada do banho recém-tomado, exercendo seu narcisismo diante dos espelhos.
Engatilho o .38 (maldita armazinha de bicha) e miro a sua linda cabeça, tentando desviar o olhar das coxas um pouco mais generosas do que da última vez que nos vimos e do colo perfeito, onde poderia acertar um disparo entre seios, se conseguisse deixar de babar ante a visão do paraíso.
Concentro-me, pois, em seus cabelos molhados, contendo uma ereção que já começa a se engraçar.
Amarro o semblante em silêncio, ela sabe que estou ali e se diverte em fingir que ignora minha presença armada a uma distância impossível de errar (se eu já estivesse completamente sóbrio, é claro).
Ela sabe que está no controle da situação, sempre esteve, mesmo em meu território, mesmo sob a mira da minha arma, mesmo seminua e desarmada.
A filha-da-puta.
- Você chegou cedo, amor - ela diz - só tive tempo de arrumar sua sala. O quarto continua uma bagunça e o banheiro, francamente...
O sotaque. O maldito sotaque.
- A faxineira vem na segunda. Podia ter se poupado desse esforço.
- Pois pode dispensá-la. Não vai mais precisar dela.
Ela sabe o quanto eu ODEIO esse sotaque.
- Eu vivo sozinho. Você e aquele calhorda do Inácio sabem muito bem disso.
- Não por muito tempo.
Ela quase disparo o revólver quando ela puxa um objeto sob a coxa.
Ela ri.
- Ah, meu amor, você agora tem medo até de uma simples escova de cabelos? - continua rindo e inicia o gracioso ritual de desembaraçar os lindos cabelos macios que tantas vezes acariciei em outro tempo, em outra vida... Em outro planeta.
Pisco os olhos rapidamente, estremeço o pescoço, recupero a concentração. Ela não é uma mulher, ela não é deliciosa, ela não está ali para se reconciliar, eu sei muito bem porque ela está aqui e, se minha concentração falhar (merda de tequila, merda de armazinha de bicha, merda de coxas maravilhosas, caralho, concentre-se seu merda!), realmente poderei dispensar a faxineira.
Para sempre.
- Eu não sou mais seu amor e pode dizer ao Inácio para ir à puta que o pariu. Não trabalho mais para ele, essa decisão é definitiva, quem ficar no meu caminho...
- Ah, meu amor, você não mudou nada, como eu já esperava... O mesmo bagunceiro ("baguncerro", maldito sotaque) de sempre, o mesmo falastrão boca-suja de sempre...
Ela desfia os cabelos grudados na escova com os dedinhos graciosos até dar-se por satisfeita.
Metódica, pousa a escova limpa sobre a bancada ao lado do pequeno chumacinho de cabelos que, certamente, jogaria fora em lugar adequado após cumprir sua missão. Essa irritante mania de limpeza e arrumação.
Dentre os seios, novamente ela saca um objeto e eu, novamente, quase disparo a armazinha de bicha.
- Não faça movimentos bruscos, cadela. Não quero seu sangue imundo respingando meu espelho. E pare de falar com sotaque, você sabe que eu odeio esse seu maldito sotaque.
Ela abre a boca num falso estupefato sorriso de modelo que se viu flagrada por um paparazzo no camarim exibindo dois inofensivos palitos com os quais amarra os cabelos num coque improvisado, exibindo a nuca deslumbrante para deleite do meu descuido.
- Você acha mesmo que eu vim aqui por causa do Inácio? - ela ignora minhas ordens, falando com sotaque e esfregando creme hidratante lentamente nas pernas - Você é um insensível. Tudo porque passamos, todos os sacrifícios que fiz por você... Aprender a falar a sua língua enquanto você se recusava a aprender a minha... Obrigar-me a pronunciar tudo com perfeição, abdicando até mesmo do meu sotaque... Suas farras, suas mulheres, sua falta de compromisso com o dinheiro que ganhávamos juntos...
- Dinheiro sujo. O Inácio que o enfie no rabo.
- Era nosso dinheiro, meu amor. O dinheiro que sustentava nossa vida, construiu este apartamento para nós...
- Este apartamento é meu. Eu já morava aqui quando você veio morar aqui.
- Mas fui eu quem o decorou e organizou e fez dele o nosso ninho de amor em vez do chiqueiro em que costumava viver...
- Talvez eu prefira morar numa pocilga e conviver com porcos do que a companhia de gente como você e Inácio.
Ela não deixava de admirar-se no espelho, fazendo poses, olhares e beicinhos. De súbito, volta-se para mim.
- Eu não estou linda hoje, amor? Não acha que mereço uma sessão de fotos?
Maldita tequila, "sessão de fotos", percebo meio segundo tarde demais, a nossa senha, puta que o pariu, a escova de cabelos voa com o cabo em minha direção, uma pontuda lâmina de aço que abre um corte no meu supercílio antes de cravar-se no portal de madeira de lei, merda de tequila, reflexos lentos, meu supercílio sangra e me movo lento demais, dois palitos de cabelo afiados como flechas voam em minha direção mas só consigo me desviar de um deles, o outro perfura meu pulso esquerdo, a mão que segurava a maldita armazinha de bicha, agacho-me para recuperá-la com a mão direita tão rápido quanto posso mas tropeço na cadeira, maldita cadeira que me fraturou a tíbia, bendita cadeira que salvou minha vida, que me salvou da rajada da pistola Uzi pequena o suficiente para ocultar-se do meu olhar na generosidade de suas coxas, que ela disparou com sua pontaria infernal, acertando a parede no local onde eu deveria estar se a maldita-bendita cadeira não tivesse desviado minha trajetória caso não tivesse quebrado minha perna, alcanço a arma e a disparo cinco vezes às cegas com minha mão direita, minha mão ruim, os olhos turvos pelo sangue que escorre pelo supercílio e espero a morte por alguns segundos no caríssimo carpete coalhado de cacos de vidro.
A morte não chega. Enxugo os olhos e vejo que meu espelho está destruído por cinco disparos de 38 (maldita armazinha de bicha) e que não há uma gota de sangue em lugar algum que não pertença a mim.
Sim, a filha-da-puta continua com bom-humor. Antes de desaparecer junto com o chumacinho de cabelos soltos após a escovação - que jogaria fora em lugar adequado, a filha-da-puta - ainda teve tempo de desenhar com batom um coração com nossas iniciais no que restou do espelho.

Texto de Alexei Gonçalves sobre foto de Fernanda Lizardo.
Publicado inicialmente no blog de
Fernanda Lizardo

Dicas de Literatura Livro das Cortesãs - L&PM

Nesta coletânea organizada por Sergio Faraco, poetas portugueses e brasileiros dos séculos passados vêm trazer aos leitores de hoje a suma dos ambíguos sentimentos que, através dos tempos, elas têm despertado.

 

 
Edição 1

Poesias

Arquivos Cooper

O que mais me fascina nos seres humanos é a capacidade que eles têm de se perder em minhas palavras e ações.
Conheci um homem que simplesmente não sabia nunca o que esperar de mim! Ele se confundia de maneira surpreendente com meus orgasmos e momentos de fúria. Me espantava sua capacidade de inocentar meus pensamentos mais sórdidos! Não sei se ele era mesmo ingênuo ou se camuflava sua perspicácia para manter-se ao meu lado, mas...
Não, suas tiradas eram estúpidas demais! Ele era um perdedor genuíno. Mas trepava bem... Enquanto não mantinha suas perguntas ativas e se intrigava com minhas atitudes antagônicas, era um homem interessante. Por isso eu fazia tanta questão de manter sua língua entre minhas pernas - um sexo oral maravilhoso e nenhuma questão levantada sobre meu passado!
Não sei mais onde anda esse indivíduo... Na última vez em que o vi foi num velho galpão do cais. Deitamos entre caixas de Chardonay e ele tentou induzir o sexo à sua maneira, exigindo toques específicos e carícias ensaiadas, como numa coletânea vagabunda sobre sexo. Eu o deixei pensar que seria daquela maneira, mas modifiquei o curso das coisas aos poucos. Em minutos ele estava me batendo - e os estalos dos tapas ecoando por todo o cômodo - e não demorou a levar à boca ao alvo desejado! Confesso que o estampido dos dedos dele sobre meu rosto eram mais excitantes do que qualquer lambida entre os lábios.
Ele fez o que tinha de ser feito, influenciado pelo meu instinto e pela vontade de descobrir quem era a verdadeira mulher que alternava beijos alcoólicos e xingamentos sóbrios! Ele enlouquecia com mínhas facetas, queria me decifrar e se perdia nos meus enigmas intermináveis.
Assim que gozei, levantei-me e comecei a caminhar - semi nua - pisando nas tábuas carcomidas e tentando fazer um ritmo coerente com cada rangido produzido. Ele reclamou algo sobre não ter sido tocado por mim, mas não dei ouvidos: virei-me e, de pé, frente a frente, encarei seu corpo de maneira convidativa; ele continuou deitado e iniciou uma masturbação tensa - a mais tensa que já presenciei em toda minha vida! Parecia inconformado com minha frieza, mas totalmente satisfeito por saber que poucos têm o privilégio de estar comigo.
Assim que terminou, com seus gemidos contidos que mais pareciam uma reação à dor, vesti minhas roupas rapidamente e me dirigi à porta. Ele perguntou onde eu iria. "Embora", respondi. Ele queria saber se nos veríamos de novo... Completei: "Claro! Eu te ligo!".

Publicado inicialmente no blog de Fernanda Lizardo

 

Dicas de Literatura Martha Medeiros - Poesia Reunida L&PM

É uma seleção de poemas de Martha Medeiros feita a partir dos livros Strip Tease (1985), Meia- Noite e um Quarto (1987), Persona non Grata (1991) e De Cara Lavada (19950.

Um livro gostoso de se ler, versos atrevidos com amor e sensualidade.