| Edição 4 |
Poesia
Mio
Teus beijos molhados
provocam e atiçam
eu mordo, eu grito
arranho e mio
sorvo teu líquido
indecente desejo
incendeia
meu ventre.
By Géh.
Conto
Aproximou-se da cama, onde ela dormia serenamente.
Espantou-o que ela parecesse tão frágil, encolhida como
criança. Os longos cabelos escuros espalhavam-se, desordenados,
sobre o travesseiro alvo, a pele morena macia convidava à carícia
mais doce. Enterneceu-se. Sentia-se tentado a acordá-la suavemente
quando um movimento, acompanhado de um gemido abafado, revelou o busto
nu. O som gutural e a visão dos mamilos escuros dissiparam o transe
e lembrou-o de que ela nada tinha de angelical, na verdade. Era, antes,
a personificação dos seus demônios. Rememorou a risada
e os movimentos devassos e sentiu-se inflamado. Acercando-se da cama,
cravou os dentes com força no seio, arrancando-lhe um grito de
surpresa, a qual durou pouco. Desperta, ela sorriu daquele jeito faminto
e lúbrico, encarando-o, convidativa. Ferozes, lançaram-se
ao embate.
Lívia
Santana.
Dicas de Literatura Amêndoa
- Nedjma
Ed. Objevitva
No Marrocos da segunda metade do século XX, Badra
conta a história de sua vida, decidida a não medir palavras
ou sensações e a honrar a milenar tradição
árabe de escrita erótica. Testemunho excepcional de uma
mulher de origem árabe que ousa transgredir o tabu do sexo e do
silêncio, A Amêndoa assinala um verdadeiro acontecimento:
pela primeira vez uma mulher muçulmana se exprime com liberdade
sobre sua vida íntima. Badra tem 50 anos e corajosamente decidiu
revelar sua trajetória. De sua infância, quando corria descalça,
curiosa e despreocupada em sua aldeia. De sua adolescência, quando
foi casada contra sua vontade, por conveniência, com um homem muito
mais velho, que não demonstrou nenhum respeito ou carinho por sua
juventude ou virgindade. De sua fuga para Tânger, que lhe abriu
um mundo novo onde as mulheres não viviam apenas para seus maridos.
E principalmente sua história com Driss, seu mestre e seu carrasco,
homem da alta sociedade que se apaixona intensamente pela tímida
e ardente provinciana, e que lhe apresenta um amor total, arrebatado,
profundamente sensual. Num relato perturbador e libertino, o livro abre
uma janela para a intimidade da mulher muçulmana. Com uma mistura
de sensualidade e revolta, a autora mostra que por baixo dos véus
e das proibições existe um mundo de desejos e sentimentos
esperando para ser libertado. Uma obra cheia de volúpia, incandescente,
radiosa, mas que é também um ato político: uma reconquista
da palavra e do corpo das mulheres árabes. A autora, que tem cerca
de 40 anos, vive em um país do norte da África e assina
o livro com o pseudônimo Nedjma.
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| Edição 3 |
Poesias
Tema : B E I J O S
| Versos Sentidos
Sentir teus lábios
Na ponta dos dedos
Merece um beijo
By géh |
Haikai
Beijos ardentes
alucinam a mente
avidamente.
By géh |
Vertigem do corpo 01
Quero um longo beijo na boca,
sem vontade de parar,
com cheiro de saliva.
Sentir o ar quente das narinas.
Dentes traiçoeiros,
beijo de lábios oferecidos,
de língua inquieta e macia
que lambuza a alma,
que molha o corpo.
Beijo que faz o tempo parar,
como o primeiro beijo que se quer muito
e que permanece quando termina. © Paulo Camelo
Dicas de Literatura - Das
Falas de Ivana
Um dos livros mais instigantes que li nos últimos
tempos foi escrito por Ivana Arruda Leite, escritora paulista, nascida
em Araçatuba, que tem confirmado sua presença na cena literária
nacional. Ivana, que é socióloga e atualmente vive em São
Paulo, já publicou dois livros de poemas e, em 1997, lançou
seu primeiro livro de contos: "Histórias da Mulher do Fim
do Século" (Editora Hacker), além de participar em
algumas das mais importantes antologias de contistas brasileiros publicadas
recentemente. O livro ao qual me refiro como instigante, publicado pela
Ateliê Editorial, em 2002, conduziu-me a uma reflexão: tem
sexo a escrita? Tem voz o sexo condicionado pela moldura de uma sociedade
falocêntrica? Utilizando a palavra como objeto de penetração,
Ivana nos chama às falas no seu "Falo de Mulher".
Realizando um trabalho de "desencantar a mente", cada personagem
de Ivana revela a falsa fragilidade e submissão do sexo feminino,
mostrando-nos que esses conceitos são meras construções
do tempo, alinhavadas por credos, civilizações patriarcais
e modos de ser que prevaleceram contra o bom senso.
As mulheres de Ivana são impróprias para o consumo, na medida
em que não se deixam "coisificar" como objetos estéticos
ou domésticos. Fazem-nos lembrar de Adrienne Rich com "When
We Dead Awaken" (Quando nós, as mortas, despertamos); da garganta
de uma de suas "dolores" nasce o grito do eterno feminino: "por
que só eu tenho que andar na linha?"
Ivana Arruda Leite vem para perturbar o cânone das autoras mais
ou menos domesticadas, "escrevidas" e se escrevendo à
imagem e semelhança da divindade trina: masculino, raça
branca, heterossexual. As suas mulheres nos permitem repensar o papel
e a fala das personagens femininas que andam se inventando no cotidiano
trágico das famílias, das relações mães
e filhos, macho e fêmea.
Em "Receita para comer o homem amado" Ivana nos permite uma
incursão pela sexualidade feminina e pela oralidade, transportando-nos
para um universo sensorial primitivo onde "no princípio tudo
era boca". Em que circunstância o lençol da noite de
núpcias foi substituído pela toalha de mesa? "Devore
tudo com talher de prata". Cama e mesa, juntas, são representativas
do casamento; Ivana, com declarada ironia, nos remete ao simbolismo da
mesa e da alimentação relacionado à sexualidade feminina:
comer ou ser comida, eis a questão!
Na outra face da mesma moeda, temos Adélia, cujas zonas erógenas
foram todas transferidas para as papilas gustativas: "não
me tire o único prazer que me resta na vida" ela implora para
o homem que já não monopoliza o seu desejo, se é
que algum dia o fez. Adélia, cujo sentido de carência se
transformou num vazio devorador, traduzido em uma fome que não
encontra pão nos corpos dos homens.
"Isabel, a princesa" é outra que tem fome: "a princesa
nunca teve prazer no sexo" - retrata a vida insípida das mulheres
que nunca contraíram dúvidas.
Raquel, Laura Christina, Berenice, Luísa, existe uma cadeia associativa
entre todas essas mulheres; cada uma delas, de um certo modo, ultrapassou
o ponto do não-retorno, deixando-se enredar nas fantasias de mulheres
refinadas, inflamadas, introvertidas, perturbadas, mulheres com necessidades
do absoluto, porque, afinal: "Mulher é tudo igual".
Aos leitores dessa coluna, dou o conselho do Djavan, numa de suas belas
canções: "um dia frio, um bom lugar pra ler um livro";
o livro de Ivana Arruda Leite, é claro.Resenha publicada originalmente
na coluna de Sandra Regina Sanchez Baldessin no Jornal Cidade. |
| Edição 2 |
Poesias
A Geisha
Na penumbra ela se prepara:
perfumes raros, cheiro de amor,
pele de seda, roupagem rara,
tudo isso pra seu senhor.
Tece sonhos na longa espera
cuida sua enviesada flor;
canta canções baixinho,
quimono veste devagarinho,
tudo isso pra seu senhor.
Seguirá sua doce sina:
aprendeu desde menina
amar em várias línguas
gestos frases ambíguas,
arrancar gemidos de dor
suspiros de amor,
tudo isso pra seu senhor.
Porque só existe e respira
só sente, só vê, delira
ao ritmo do gozo tremor
do olhar de seu senhor.
Anja Azul, segundo a própria é "gaúcha,
de Porto Alegre, blogólatra, poetisa, contadora (e de histórias
também), cantora de araque, faz paródias, trabalha e, pra
completar, se arrisca de desenhista."
Arquivos Cooper
Tiros no Espelho
Sábado, fim-de-noite, de fato domingo, diriam os
chatos, mas um dia só termina quando a gente cai na cama e o seguinte
só começa quando a gente acorda, essa é que é
a verdade. Muita cerveja, muita tequila, muitos beijos na boca, muitos
perfumes e marcas de batom, a chave tateia a fenda da fechadura sem sucesso.
Irritado, consigo abrir um olho, firmo pontaria com a mão titubeante
e golpeio com força a ponta da chave e, mais uma vez, erro o alvo.
A porta desliza sobre as dobradiças. Destrancada, apenas encostada.
A descarga de adrenalina regurgita uma meia-dose de tequila ácida
que me forço a re-engolir.
(A última coisa de que precisa uma pessoa que teve a casa invadida
é uma sessão de vomitório).
Protejo-me no portal e meus instintos conduzem minha mão esquerda
à axila direita, depois à cintura, onde costumo usar minha
45 e minha 9mm, respectivamente.
"Merda de porre, um erro desses pode te custar a vida, ô imbecil",
esbravejo contra mim mesmo agachando-me para pegar o 38 cano curto de
cinco cartuchos, merda de armazinha de bicha, engastada no coldre do tornozelo.
No início da noite confesso que pareceu uma boa idéia carregar
apenas uma armazinha discreta, para não afugentar as garotas e
relaxar pelo menos uma vez em vários meses de paranóia constante.
Agora, agachado à beira do portal, o porre quase me estatelando
no chão a cada tentativa de sacar a desgraçada armazinha
de bicha, amaldiçõo todas as minhas gerações
passadas e futuras por tamanha cretinice. Um homem como eu, que leva uma
vida como a minha e exerce a minha profissão, simplesmente não
pode relaxar e ponto-final.
Finalmente com a arma em punho, contraio os músculos tanto quanto
o álcool que o medo rapidamente evapora me permite e invado a sala
do meu apartamento, acendendo bruscamente as luzes e vejo, estupefato,
que está completamente limpa e arrumada, nenhum objeto faltando
fora do lugar.
Respiro fundo três vezes para controlar o pãnico.
Isso está errado. Completamente ERRADO.
Lembro-me perfeitamente que minha sala estava uma zona quando saí
de casa, pois a faxineira só vem às segundas-feiras. Como
é óbvio que ela não decidiu fazer hora extra na madrugada
de sábado arrombando a minha porta para entrar, já faço
uma leve idéia sobre quem vou encontrar na suíte iluminada
- e eu não esqueci as luzes acesas - ao extremo do corredor.
Meus passos já estão mais firmes mas a cabeça começa
a latejar uma ressaca precoce enquanto caminho para encontrá-la,
mais linda do que nunca, ainda molhada do banho recém-tomado, exercendo
seu narcisismo diante dos espelhos.
Engatilho o .38 (maldita armazinha de bicha) e miro a sua linda cabeça,
tentando desviar o olhar das coxas um pouco mais generosas do que da última
vez que nos vimos e do colo perfeito, onde poderia acertar um disparo
entre seios, se conseguisse deixar de babar ante a visão do paraíso.
Concentro-me, pois, em seus cabelos molhados, contendo uma ereção
que já começa a se engraçar.
Amarro o semblante em silêncio, ela sabe que estou ali e se diverte
em fingir que ignora minha presença armada a uma distância
impossível de errar (se eu já estivesse completamente sóbrio,
é claro).
Ela sabe que está no controle da situação, sempre
esteve, mesmo em meu território, mesmo sob a mira da minha arma,
mesmo seminua e desarmada.
A filha-da-puta.
- Você chegou cedo, amor - ela diz - só tive tempo de arrumar
sua sala. O quarto continua uma bagunça e o banheiro, francamente...
O sotaque. O maldito sotaque.
- A faxineira vem na segunda. Podia ter se poupado desse esforço.
- Pois pode dispensá-la. Não vai mais precisar dela.
Ela sabe o quanto eu ODEIO esse sotaque.
- Eu vivo sozinho. Você e aquele calhorda do Inácio sabem
muito bem disso.
- Não por muito tempo.
Ela quase disparo o revólver quando ela puxa um objeto sob a coxa.
Ela ri.
- Ah, meu amor, você agora tem medo até de uma simples escova
de cabelos? - continua rindo e inicia o gracioso ritual de desembaraçar
os lindos cabelos macios que tantas vezes acariciei em outro tempo, em
outra vida... Em outro planeta.
Pisco os olhos rapidamente, estremeço o pescoço, recupero
a concentração. Ela não é uma mulher, ela
não é deliciosa, ela não está ali para se
reconciliar, eu sei muito bem porque ela está aqui e, se minha
concentração falhar (merda de tequila, merda de armazinha
de bicha, merda de coxas maravilhosas, caralho, concentre-se seu merda!),
realmente poderei dispensar a faxineira.
Para sempre.
- Eu não sou mais seu amor e pode dizer ao Inácio para ir
à puta que o pariu. Não trabalho mais para ele, essa decisão
é definitiva, quem ficar no meu caminho...
- Ah, meu amor, você não mudou nada, como eu já esperava...
O mesmo bagunceiro ("baguncerro", maldito sotaque) de sempre,
o mesmo falastrão boca-suja de sempre...
Ela desfia os cabelos grudados na escova com os dedinhos graciosos até
dar-se por satisfeita.
Metódica, pousa a escova limpa sobre a bancada ao lado do pequeno
chumacinho de cabelos que, certamente, jogaria fora em lugar adequado
após cumprir sua missão. Essa irritante mania de limpeza
e arrumação.
Dentre os seios, novamente ela saca um objeto e eu, novamente, quase disparo
a armazinha de bicha.
- Não faça movimentos bruscos, cadela. Não quero
seu sangue imundo respingando meu espelho. E pare de falar com sotaque,
você sabe que eu odeio esse seu maldito sotaque.
Ela abre a boca num falso estupefato sorriso de modelo que se viu flagrada
por um paparazzo no camarim exibindo dois inofensivos palitos com os quais
amarra os cabelos num coque improvisado, exibindo a nuca deslumbrante
para deleite do meu descuido.
- Você acha mesmo que eu vim aqui por causa do Inácio? -
ela ignora minhas ordens, falando com sotaque e esfregando creme hidratante
lentamente nas pernas - Você é um insensível. Tudo
porque passamos, todos os sacrifícios que fiz por você...
Aprender a falar a sua língua enquanto você se recusava a
aprender a minha... Obrigar-me a pronunciar tudo com perfeição,
abdicando até mesmo do meu sotaque... Suas farras, suas mulheres,
sua falta de compromisso com o dinheiro que ganhávamos juntos...
- Dinheiro sujo. O Inácio que o enfie no rabo.
- Era nosso dinheiro, meu amor. O dinheiro que sustentava nossa vida,
construiu este apartamento para nós...
- Este apartamento é meu. Eu já morava aqui quando você
veio morar aqui.
- Mas fui eu quem o decorou e organizou e fez dele o nosso ninho de amor
em vez do chiqueiro em que costumava viver...
- Talvez eu prefira morar numa pocilga e conviver com porcos do que a
companhia de gente como você e Inácio.
Ela não deixava de admirar-se no espelho, fazendo poses, olhares
e beicinhos. De súbito, volta-se para mim.
- Eu não estou linda hoje, amor? Não acha que mereço
uma sessão de fotos?
Maldita tequila, "sessão de fotos", percebo meio segundo
tarde demais, a nossa senha, puta que o pariu, a escova de cabelos voa
com o cabo em minha direção, uma pontuda lâmina de
aço que abre um corte no meu supercílio antes de cravar-se
no portal de madeira de lei, merda de tequila, reflexos lentos, meu supercílio
sangra e me movo lento demais, dois palitos de cabelo afiados como flechas
voam em minha direção mas só consigo me desviar de
um deles, o outro perfura meu pulso esquerdo, a mão que segurava
a maldita armazinha de bicha, agacho-me para recuperá-la com a
mão direita tão rápido quanto posso mas tropeço
na cadeira, maldita cadeira que me fraturou a tíbia, bendita cadeira
que salvou minha vida, que me salvou da rajada da pistola Uzi pequena
o suficiente para ocultar-se do meu olhar na generosidade de suas coxas,
que ela disparou com sua pontaria infernal, acertando a parede no local
onde eu deveria estar se a maldita-bendita cadeira não tivesse
desviado minha trajetória caso não tivesse quebrado minha
perna, alcanço a arma e a disparo cinco vezes às cegas com
minha mão direita, minha mão ruim, os olhos turvos pelo
sangue que escorre pelo supercílio e espero a morte por alguns
segundos no caríssimo carpete coalhado de cacos de vidro.
A morte não chega. Enxugo os olhos e vejo que meu espelho está
destruído por cinco disparos de 38 (maldita armazinha de bicha)
e que não há uma gota de sangue em lugar algum que não
pertença a mim.
Sim, a filha-da-puta continua com bom-humor. Antes de desaparecer junto
com o chumacinho de cabelos soltos após a escovação
- que jogaria fora em lugar adequado, a filha-da-puta - ainda teve tempo
de desenhar com batom um coração com nossas iniciais no
que restou do espelho.
Texto de Alexei Gonçalves sobre foto de
Fernanda Lizardo.
Publicado inicialmente no blog de Fernanda
Lizardo
Dicas de Literatura Livro das Cortesãs - L&PM
Nesta coletânea organizada por Sergio Faraco, poetas
portugueses e brasileiros dos séculos passados vêm trazer
aos leitores de hoje a suma dos ambíguos sentimentos que, através
dos tempos, elas têm despertado.
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