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Edição 35

Amor


Lovers 111 por Nicoletta Tomas Caravia

Há que se falar em amor
até que os verbos esgotem
até que as palavras cessem
até que não haja manhãs
e nem sóis
E quando tudo faltar
e nenhuma voz se ouvir
que haja na boca um beijo
e que não seja o fim
só o começo


Ariadna Garibaldi

canção de fogo


Burning Flowers por Rong Jiang

se
como uma pétala
úmida de vinho
a espuma permanecesse
metade água
metade sombra
e escrevesse
na alma da esmeralda
uma canção de fogo
eu poderia
servir poemas
como o padeiro
o pão

se
como uma pétala
de ilusão
a luz permanecesse
metade tempo
metade espaço
e escrevesse
na face do silêncio
uma canção de fogo
eu poderia
servir saliva
com a manhã
neblina

se
como uma pétala
de maresia
a paz permanecesse
metade sal
metade sonho
e escrevesse
nas alvoradas
uma canção de fogo
eu poderia
servir meu corpo
como néctar
a flor


Fred Matos

 

 
Edição 34

Se acaso

Ebony with red flowers por kosorukov

Se meu olhar
Não mais te cativa
Nem meu corpo
Te chama atenção
Podes seguir teu caminho
E acabar com minha ilusão

Se meus beijos
Não te dizem mais nada
E minhas carícias
Teu corpo não acende
Vai, procura tua estrada,
Não te chamarei de inconsequente

Mas, se ao final da jornada,
Perceberes que te enganastes
Podes voltar, eu aguardo
Tu bateres em retirada


Cleide Jean

És Mulher


Shyness por Garmach

Trazes no peito a magia
Do sonho escrito em sorriso
No andar alegoria
O corpo tudo que preciso

A pele bordada a saudade
De doce salgado sabor
As curvas são praia onde amuro
Os cabelos ondas de amor

As mãos onde me moldo
feito barro em cativeiro
seguram no ventre o futuro
nascido do sonho primeiro

És os passos que trilho
Na areia branca do tempo
Lembrança de que sorrio
És abraço solto no vento

Seja tempestade de verão
Sol fresco de inverno
Gota de água em furacão
Paraíso em calmo Inferno
Serás saber de acalmia
Venha o tempo que vier
Felicidade alegria
És apenas, tudo, és mulher

A todas e a apenas uma,

Pedro

 

Edição 33

O bailado das mãos


In Love I por Peter Mitchev'

Mãos cálidas
Passeando sobre
Meu corpo

Abrindo portas
Que teimam
Em permanecer
Trancadas, lacradas

Incendiando minha pele
Revelando-me
Novas sensações
Em cada toque,
Em cada gesto
Precisos, intencionais

Querendo mostrar-me
O caminho pra paixão

Dizendo-me coisas
Que a muito não ouvia

Transmitindo sensações
A muito esquecidas em mim

Me sinalizando
Que ainda estou viva
E receptiva ao amor

Cleide Jean

Sonho...

Game with butterflies por Peter Mitchev

Acordei ainda há pouco. Sonhei novamente contigo. Assistíamos, deitados, a um esplêndido pôr-do-sol. Minha cabeça encostada no seu peito, deixando meus cabelos à altura do seu queixo e da sua boca. Beijei-o e senti o cheiro do seu perfume, melhor dizendo, sonhei o cheiro do seu perfume.

Sonho-te diversas vezes, durante muito tempo. Seus olhos não se desviavam da magnificência do sol irrompendo contra o forte e distante horizonte. No entanto, ainda chegava alguma iluminação naquele quarto surrealmente grande e na penumbra. Iluminavam seus olhos que irradiavam uma cor diferente. Era bonito. Simples assim: bonito. Não bonito como Chopin ou Neruda. Era bonito simplesmente por ser capaz de me retirar qualquer outra concepção de parâmetro para beleza. Como o belo deve ser: inexpressível em palavras. Deve não por obrigação. Deve por suposição. Para mim, belo era ver você.

Sonhei-te nu, debaixo dos lençóis, vendo um pôr-do-sol todo pintando em óleo no horizonte longe que ansiávamos quando juntos. Ouvi sua voz, seu gemido sorrindo e falando amenidades. Suas amenidades eram poesias de borboletas em revoada sobre enormes papoulas. Eu não sabia que borboletas eram poetisas e você apenas me disse: "não são poetisas, são poéticas".

Você não desviou do horizonte uma vez sequer. Acordei com suas palavras no meu ouvido. Acordei ainda há pouco. Revirei-me na cama como borboleta em crisálida, mas acho que ainda não rompi o meu casulo. E sei que, enquanto te escrevo, você ainda deve estar dormindo.

Roberta Sangiuliano Pedroso

 

Edição 32

Beija-me


Detalhe "Boca" acrílico sobre papel por Géssica Hellmann

sobrevoa
beija flor
beija a flor
que bem me queiras
entre quereres
e me teres
minha boca
te espera

Ariadna Garibaldi

Embriaga-te

Amor dentro del Caos I por Nicoletta Tomas Caravia

Esta língua ávida que meu corpo explora
A tua boca lentamente me percorre
Entre linhas curvas me descobre
Faz surgir este desejo demente
Entorpecida exijo embriaga-te
Da seiva do meu ventre
Mata esta sede louca
Mordisca, invade
Agora umedecia
entre espasmos
em súbito gozo
desfaleço.

Géssica Hellmann

 

 
Edição 31

Ensina-me a amar


Lovers reach por Yuroz.

Ensina-me a amar,
se sabes,
será que amor é pele,
é tato?
Ou é sentimento
transcendente
ao tempo e à distância?
Amar é ilusão,
quimera?
Ou virtude na constância
de uma espera?
Ensina-me a amar,
se sabes,
se é tato,
quero tocar-te
ou deixa-me,
para sempre, amar-te
ao meu modo...

Ariadna Garibaldi

 

Absinto

Couple por Nebojsa Duranovic (1997)

Não me adie a cor da vasta noite
Noite deste lado do tempo
Em que me esperas
Para beijar-te o corpo
E amá-la em gestos lentos
Lentos sob a cor da vasta noite

Não me adie o absinto
O verde torpor dos teus olhos
A suave madrugada do teu gozo
Gozo derramado no meu cálice

Sérgio Ornellas