| Edição 50
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Um quarto, o mar ao fundo

Window view por Christina Keating
um quarto, o mar ao fundo
e muito além
(transpostas as ondas)
a morna respiração da manhã
desabando sobre os campos
amei
lembro-me que amei
e a angústia de ter amado tanto
dói como um segredo revelado
que me devorem as lembranças
pois amei, sim
cada instante
amei tanto
que deixei minha alma estendida sobre a cama
sem ao menos perguntar
se haverias de querê-la presa,
junto à tua,
naquele quarto, o mar ao fundo.
Sergio Ornellas
Pedra

Sem título por Alina
Maximenko
vêm no vento
aromas inusitados
como se fosse
o universo
colônia de corais
e sons que soam
sinfonia de náufragos
e nuvens prenhes
de sais
mas há mais
mais que o pó do asfalto
que a umidade do mato
mais que crianças nuas
mais que rosas pálidas
mais que palavras duras
mais que a jóia rara
que o sangue derramado
que as angústias humanas
que a embriagues
que a loucura
que os sonhos
que estrelas
que canções
que a lâmina aguda
cravada
na primeira pedra
que caiu da minha mão.
Fred Matos
Desvio

Awalk on the beach por Garmach
Fazendo atalhos
Depois de mim
Antes do sol
Prenha de sonhos
Depois do cio
Antes de nós
Sobrou retalho
Roto de cor
Expostos ao sol
eu Só
Elaine Malmal
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| Edição 49
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Além

Hymn to a Woman 9 (1997) por Viktor
Hrihorov (Grigorov)
Minha alma
Canta
Ao ver seu sorriso,
Seu jeito de chegar
E se aconchegar,
Minha alma é branca,
É branda,
Acalma-se com o seu olhar
Que tem poderes
Pra me enlaçar
No seu corpo quente
Que grita a falta do meu,
Nossos laços
Não desatam
Estreitam-se,
Temos nossa estória
Pra contar
Pra viver
Reviver
Sentir
Que somos um
Só laço
Um só abraço
Uma só paixão
Que não está só
Porque nos tem,
Além do que possamos
Imaginar.
Maria Júlia Pontes
Despertar

Sitter4 por Julius
Arutyunian
Murmuravas ao meu ouvido
E enquanto o fazias,
Meu corpo ia relaxando
E deixando-se levar,
Mansamente,
Ao mundo do esquecimento
Sentia tuas mãos
Acariciando meus cabelos
Fazendo-me um carinho,
Há muito esquecido
A quentura de teu corpo,
Chegava-me como se vindo
De muito longe,
Mas era-me tão real
Que aquecia o meu inteiro
A manhã chegou...
E percebi que consigo conviver
Com tua lembrança,
Porém não consigo viver
Com a tua ausência.
Cleide Jean
NÃO CHEGA TARDE

Night silhouette por Alina Maximenko
I
Não! Nada chega tarde, porque
as coisas ciosas
tem suas diferenças, desde uma
espiga até a flor...
E qualquer tempo é tempo para
que chegue o amor
tudo tem seu tempo justo, como
o trigo e a rosa...
II
Não! O amor não chega tarde em
teu coração e o meu,
o amor; a qualquer hora, não bate
em porta certa...
ele a toca desde o lado de dentro
porque ela está aberta
E porque sabe que não existe amor
tardío, só no apogeu...
III
E se existe um amor valente... tem
outro que é covarde,
mas, de todo modo, nenhum deles
chega tarde...
IV
Amor... Um Eros insano tendo nas
faces um sorriso louco,
e nada está a salvo se ele, às aflições,
magicamente suaviza
se aproximando lentamente, assim
como vem a brisa...
lança sua flecha certeira, só pra se
divertir um pouco...
V
É assim que este menino-deus
travesso joga, sempre forte,
e sempre mais, enquanto a flecha
entra na ferida...
E até porque, tem nela mesma, o
veneno da ilusão perdida,
a mulher se queda atingida, ferida
profundamente de morte
VI
A mulher arde em sua chama de
paixão...E mais e mais arde...
E mesmo assim não poderemos
dizer que o amor chega tarde...
VII
Não...! Eu não direi nunca em qual
noite de verão,
eu não direi nunca sobre a noite que
só a ti, te digo...
noite que me incendiou o sangue,
que fiquei contigo,
que me estremeceu de febre tua mão
em minha mão...
VIII
Não...!Eu não direi nada dessas
coisas e, todavia menos,
direi do que eu pude observar, em tua
fisionomia pesada...
Mostravas então um rosto pétreo...Era
como uma porta fechada,
levando à rodo minha alegria e amor...
Meus dias serenos...
IX
Nada mais... É porque não era o tempo
do trigo e nem da flor...
E, nem sequer então, eu pude dizer que...
Chegou tarde o amor.
MariaAntonietaRMattos.
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| Edição 48
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Lembranças

A hat (1995) por Alexander Dorofeev
Lembro-me
Das tardes aladas
Das noites quentes
Das madrugadas
O sorriso terno
O olhar eterno
Sua boca quente
Meu corpo latente
Sem pensar que um dia
Perderia as cores
E nem se lembraria
De trazer-me flores.
Maria Júlia Pontes
Pecados

Embrace-orig por Andrei
Protsouk
Pensava no que dizer
No que e como.
Saciar a fome
Fazer os gostos
Frear os gestos
À língua serpenteada
Aos céus
À boca
As mil blasfêmias
O entre lábios
Entreabrindo
O acolher
Motivos
Os que pensados
Já esquecidos
Se não-pecados,
Melhor calar.
Elaine Malmal
Segredo

Sem título por Alina Maximenko
Sou a deusa do Amor
Em vestimenta
Translúcida
Jogo-me a seus pés
Cola em meu umbigo
Suspira entre meus desejos
Levo-te na clara escada
Recubro seu caminho em flores
Mesclo sua tez em ouro
Lavo-te de toda preocupação
Banho-te em meus cabelos
Enlevo sua alma em sidras
Perfumo sua pele em minha
Em laços virgens te acalmo
Dou-te minha boca
E meu corpo em seda escravatura
Vasculho seus desejos em promessas
Faço de meus seios floridos vasos
Que firma sua memória
Reconstruo a base de seu sonho
Brinco em sua espaçonave azul
Recebo tua alma
Sugo de você todo veneno
Fluo límpida em círculos de gérberas
Em sua pele dou um sopro largo
Cai em meu colo
Acolho-te em segredo louco
Bano de sua memória as dores
Reúno em torno a si
As plumas
Em minha mão macia
Adormeço seu sonho
Em cristalina paz
Brindo-te
E abraço seu todo
Acredite
E aceite esse presente da vida
Em forma de mulher-vênus-afrodite
E você netuno
Sole Mazzeto
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