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Edição 10

Pretensão...

Hoje quero um beijo estalado
quero um sorriso sonoro
os seus olhos no meu colo
não se espante, não se choque
mas é disso que preciso

Hoje quero a paz do seu olhar
quero ouvir o seu falar
quero ter sua atenção
e alcançar seu coração
sem que nada eu lhe diga

Hoje quero estar enamorada
quero ser bem conquistada
quero me sentir amada
isso é pouco, quase nada
hoje eu quero só você!

Ariadna Garibaldi

 

O cheiro de sangue ainda quente

quando a tive nos meus braços
cri que eras inocente
cego de paixão, não pude perceber
o cheiro de sangue ainda quente

quem há de crer que um vampiro experiente
não tenha percebido a mancha escura
e o cheiro de sangue ainda quente
escorrendo farto na tua vulva?

neguei os meus instintos, contive a fúria
deixei-te incólume aos meus dentes
poupei-te de uma eterna amargura

hoje, na minha memória perdura
o cheiro de sangue ainda quente
invadindo meu corpo e minha mente.

Fred Matos

 

 
Edição 9

Poesias

Sempre que falam nela,
Como você pode ver,
Comparam com coisa gostosa
De chupar ou de comer.
Pele cor de canela,
Cor de jambo, sapoti,
Pele de chocolate,
Pele cor de açaí.
Já provei muitas mulheres
Todas são diferentes
Mas não há como negar -
Vou generalizar -
As mulatas são mais quentes.
É a cor da pele? É o cheiro?
É o jeito malemolente?
Só sei que nenhuma mulata
É mulata impunemente.

Jozé de Abreu

Uma Flor para Di Cavalcanti

Esta é uma flor para Di,
uma flor em forma di-
ferente: de flor-mulher,
desabrochada onde quer
que exista amor e verão.
Verão como a cor cinti-
la nas curvas, e sorri
nesse púrpuro arrebol
que Di tirou do seu Rio
coado de mel e sol.
Uma flor-pintura, zi-
nindo o canto de amor
que acompanhou toda a vi-
da do pincel, o gozo-dor
de criar e de sentir, di-
vina e tão sensual ração
que coube, na Terra, a Di.

Carlos Drummond de Andrade
in Andrade, Carlos Drummond de . Discurso de primavera e algumas sombras. In: __ . Poesia e prosa. 8ª ed., pág.813

Personagens da Literatura


A RAINHA DAS MULATAS

Feche os olhos e imagine um amplo pátio calçado de pedras em noite de lua cheia. Imagine um grande número de pessoas reunidas em ambiente de alegria festiva.

Violão e cavaquinho enchem o ar com acordes vibrantes de música crioula, alguns ensaiam tímidos passos de dança.O clima é o dos rituais pagãos de adoração e celebração pela vida. Então imagine uma mulher. Ela salta para o centro da roda do samba, atraindo todos os olhares com o movimento lasso dos quadris. Tem longos cabelos escuros e curvas generosas. Exala vitalidade e graça irresistíveis, dança como um animal furioso. Uma mestiça. Uma mulata cor de canela e pecado, de sorriso largo desconcertante, cheirando a cio com eflúvios de cumaru. Um feitiço feminino, sinuoso feito serpente, prometendo o paraíso. Requebrando frenética, ela hipnotiza os expectadores e os incita a delírios de gozo quase carnal, arrancando aplausos e gritos rubros, como se brotados do sangue. Sob as palmas cadenciadas, ela vai acelerando, acelerando, prestes a explodir. É capaz de atear fogo às veias dos homens e roubar-lhes a alma pelos olhos. Pode revolucionar o viver e o sentir apenas com um meneio do ventre liso e dourado. É capaz de destruir uma família e recompensar com a loucura. Um demônio, um veneno, que penetra por todos os buracos do corpo, que faz lânguido o mais diligente dos homens, que transforma o mais manso em assassino. Imaginou? Essa, meu amigo, é a Rita Baiana.

Rita Baiana é um dos personagens mais notáveis da literatura brasileira. Filha do realismo naturalista, é escrita com uma riqueza de detalhes visuais e sensoriais incríveis. Forte, apaixonada e politicamente incorreta, é absolutamente impossível não adorá-la. Sedutora e consciente de seus encantos, é maliciosa e faminta de vida, um diabo de saias. É sem dúvidas, a alma de O Cortiço, de Aluízio de Azevedo, embora não seja a protagonista. Ela não aparece desde o começo e nem está presente no fim, mas rouba a cena em sua aparição fulminante. Escrita em 1890, é uma mulher a frente de seu tempo. Ama a quem lhe aprouver, da forma que melhor lhe parecer. É deliciosamente livre e despida de amarras e preconceitos, é como a maioria de nós queria ser. É mulata decidida e generosa que enfrenta a vida de peito aberto, disposta a sofrer e gozar com a mesma intensidade. Fiel aos seus gostos e às suas paixões, a elas se entrega por inteiro.

É o símbolo da brasilidade quente que penetra na alma lusitana de Jerônimo, o português enamorado, e varre toda a nostalgia d'além mar que havia nele. Caído pela mulata, ele abandona mulher e filha, abraça a vida boêmia, contrai dívidas, perde a força moral e chega a ponto de matar um homem com um pedaço de pau. "Isso não é mulher, é uma desgraça", você provavelmente pensará. Mas para ele, o amor da Rita é insubstituível e justifica tudo. Nos braços dela, tudo adquire uma cor fulgurante e fantástica, não dando margem a lamentações, arrependimentos e nem dores. Ele a venera, satisfaz todos os caprichos, arde e morre por ela, se preciso for. Passa por todos os dissabores e tormentas, mas não lhe tirem a Rita, que sem ela não pode mais viver. Como vício destrutivo, como doença, ela é a seiva que o alimenta, a força que o impulsiona. Torna-se cativo por gosto e por vontade.

Rita Baiana é a personificação do melhor e do pior da mulher, com toda a magia e a ruína que lhes é peculiar. Mas não uma mulher comum, e sim uma dotada do orgulho e da beleza da raça negra da qual descende, aliada à ferocidade da mulher pobre que defende seu espaço e seu sustento. Ela transborda alegria e sensualidade, é corajosa, digna, guerreira - até as últimas instâncias, até à violência física - e essencialmente hedonista. Mas o mais marcante nessa mulher, assim como em toda a obra de Aluízio Azevedo, é que Rita Baiana é humana. Passa longe de qualquer heroína convencional da literatura brasileira, sempre tão cheia de Helenas (Machado de Assis) e Marílias (aquela de Dirceu), tão brancas, castas, atormentadas, frágeis, suspirantes. Ela não. Ela ri e se comove com o mesmo que todos nós. Tem seus momentos de egoísmo, de fúria, de mesquinharia, para logo em seguida abrir-se toda em generosidade ímpar. É amiga, companheira, carinhosa, brincalhona, devassa, inebriante. Mulher, personagem e símbolo inesquecíveis.

Lívia Santana é escritora-aspirante, leitora voraz, co-editora do géh e mulata, com muito orgulho.

 

Edição 8

Poesias

Antônio Mariano
Publicado em Guardas-chuvas esquecidos. Editora Lamparina. P.26

Voragem

Ver a lua cheia
e tomar vinho,
na varanda de um 8º andar,
junto a uma fêmea
cujo perfume
se confunde
com o que o vento traz do mar,
põe na alma
abalos sísmicos,
tenta a gente pro abismo.



Antônio Mariano
Publicado em Guardas-chuvas esquecidos. Editora Lamparina. P.73.

 

Edição 7

Poesias

Olho
me diz
desejos
me seduz
mil beijos
me resgatou
paixão
me enfeitiçou
tesão...

Teu olhar
lanterna na penumbra
minha vontade rubra
loucura que mais quero
e assim eu espero
em tua vastidão
mergulhar...

Yeso

Se
(Waltel Branco e Alice Ruiz)

se por acaso
a gente se cruzasse
ia ser um caso sério
você ia rir até amanhecer,
eu ia ir até acontecer
de dia um improviso,
de noite uma farra
a gente ia viver com garra
eu ia tirar de ouvido
todos os sentidos
ia ser tão divertido
tocar um solo em dueto
ia ser um riso
ia ser um gozo,
ia ser todo dia
a mesma folia
até deixar de ser poesia
e virar tédio
e nem o meu melhor vestido
era remédio
daí, vá ficando por aí,
eu vou ficando por aqui,
evitando, desviando,
sempre pensando,
se por acaso a gente se cruzasse

 

 
Edição 6

Haikais

Ao te acolher, nua
A minha alma
Beija a tua

Colo macio
Em ti palpita
Ternura infinita

Esse teu olhar
Acende o estopim
Põe fogo em mim

Doce pecado
Beber do teu mel
Me põe alucinado

Daniel Heldt

 

Amigas

Lívia Santana

Marina é minha melhor amiga, conheço-a a vida inteira. Tenho a sensação de que não tenho lembranças em que ela não esteja. Juntas, crescemos, descobrimos o mundo e formamos quem somos. Meninas, rimos quando rasguei a calça no colégio e mulheres, choramos quando o pai dela morreu. Sabemos tudo uma sobre a outra, guardamos os segredos. Nunca nos afastamos, mesmo quando se tornou namorada do Fábio. É uma mulher linda. Seu riso contagia, sua força arrasta. E quando se sente frágil, vem dormir em casa. Nesses dias ela se deita na cama ao lado da minha, usando pijama de bichinhos e conversamos até tarde, no escuro. Eu a amo muito. Hoje, brigou com o Fábio e estava tão calada que achei que tivesse dormido. Até que senti seu corpo nu, quente e suave, estender-se ao lado do meu. Prendi a respiração e ela me abraçou, nada fraternal. Num segundo infindável pensei em toda a nossa história, antes de me virar pra ela e corresponder ao abraço, abrindo a boca pra receber o beijo lento e molhado.