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Edição 105

Como reagi ao diagnóstico positivo (parte I)

Sergei Chepik - Loneliness
Loneliness por Sergei Chepik


Por Claudio Santos de Souza
Editor do
www.soropositivo.org

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Quando fundei a comunidade Soropositividade e Sexualidade sabia que estava começando a lidar com um assunto complexo. Sexo é complexo até entre duas pulgas. A primeira pergunta que lancei foi a seguinte: O exame está feito. Deu positivo. O que você faria?
 
Chovi no molhado. A maioria ali é soropositiva e já sabe como reagiu.  Então resolvi contar como eu reagi, quanto tempo isso custou. Não vou contar a luta pela sobrevivência material, um caso à parte, e que a Adriana conhece bem. Vou contar apenas as coisas que pensei, vivi e senti.

Penso que para as pessoas soronegativas ou sorointerrogativas isso pode ser de grande valia, pois ainda me recordo de uma amiga que suspeitou ter contraído HIV e que me disse, com todas as letras: “se der positivo me jogo aqui do décimo oitavo andar” 

É preciso recolocar que fui DJ. As condições que me levaram a ser DJ na noite paulista eu vou eclipsar. Como DJ eu tinha facio acesso às mulheres e, em virtude de carências da infância e da adolescência eu buscava nestas mulheres algo que jamais poderia encontrar: O amor sonegado de minha mãe. 

A cada desencontro uma troca, a cada troca lágrimas de uma mulher ferida, mas eu segui à frente. MOVE ON!!! 

Eu me tornei um adicto do sexo. Um sexólatra. Precisava de sexo mais do que cigarro, e olhem que fumo à bessa. Toda noite uma mulher. Às vezes duas. E outra de dia. 
Quando eu falhava na sedução, pagava uma garota de programas. Nunca me preocupei com DST e não vou enumerar nem listar as que tive. Mas foram muitas, o suficiente para eu pressentir que era vulnerável ao HIV; mas quanto a isso, eu não me importava. 

Minha personalidade foi formada de uma forma torta e eu tinha pouco ou nenhum apego à vida e absolutamente nenhum medo de morrer. Na minha ignorância, acreditava que contrair HIV era simplesmente condenar-se à morte e morrer em pouco tempo. 

Esta proposta me parecia ótima! 

Posso dizer sem medo de errar que não foi apenas uma, nem apenas duas, as vezes em que, ao penetrar a garota eu me lembrava do HIV e pensava assim. Se pegar, f...-.. 

Eu estava completamente equivocado sobre o que era, ou no que vinha se tornando a infecção por HIV e a AIDS e esta ignorância custou-me caríssimo mais adiante. 

Esta minha corrida pelo sexo foi arrefecendo na mesma medida em que eu percebia que a minha busca era inútil (esta percepção era subjetiva) e que a vida de DJ já não me agradava tanto. 

Perto do melancólico final de minha carreira de DJ trabalhei numa casa que já não existe, como quase todas as em que eu trabalhei (as que existem lembram filmes do Stephen king), o Club de Paris.  Ali conheci uma morena muito faceira, muito esperta, bonita e, para que ela possa ter um nome e estar morta em paz, eu a chamarei de Veruska*. Foi amor à primeira vista. E como todo amor à primeira vista queimou como um rastilho de pólvora e acabou alguns meses depois. 

Eu não sabia, ela não sabia, mas dela, eu traria comigo bem mais que boas e más lembranças. Eu traria uma pequena capa protéica, que protege uma seqüência de RNA, e não DNA, chamada HIV. Sei disso porque fui comunicado do passamento dela em virtude de complicações da AIDS. 

Juntei lé com cré e conclui isso. Sei bem que posso estar errado, mas quero poder me reservar o direito de, em tendo sido tão irresponsável e descuidado comigo, que eu tenha contraído o HIV numa relação em que o que contava era o amor. 

Por favor, aceitem isso sem questionamentos. Eu me basto para me questionar. Sou meu juiz mais severo... 

Depois que perdi Veruska andei um tempo meio ao leo, sem saber bem o que fazer de mim e de minha vida até que encontrei uma outra moça, Verônica*. Verônica não era da noite. Era diferente. E o diferente naquela altura da vida era fascinante. Vinha, ela, de uma decepção amorosa. Eu, idem. 

Fizemos um acordo silencioso e, como dois bêbados encostados um ao ombro do outro, começamos a longa caminhada para a sobriedade.  Pelo caminho exploramos a sexualidade com pujança e nem mesmo o coreto da Praça da República e o nicho entre as colunas de uma certa estação do metro escaparam. Loucos seria uma palavra que nos definiria, mas definiria mal, pois loucos não sabem o que estão fazendo, e nós sabíamos.
Mas eu não soube cumprir a minha parte do trato e a cada dia que se passava eu gostava mais dela. E não parava para mensurar se havia reciprocidade de sentimentos.

Grave engano que me custou uma terrível decepção quando ela, finalmente, recuperou a sobriedade e me disse adeus por telefone. Fiquei muito mal, mal de verdade. Mas nem chorar eu chorava, eu simplesmente comecei a definhar. Meu sofrimento por Verônica era silencioso, não havia lágrimas. Havia uma indizível sensação de perda irreparável.

Como DJ, eu havia chegado ao fundo do poço e estava trabalhando de porteiro numa casa da boca do lixo chamada Barroco. Não que houvesse algo de barroco lá como rios de fogo que congelam ou geleiras que queimam, o maldito lugar se chamava barroco por mera coincidência.

Eu não tinha mais vontade de nada. Acho que duas perdas emocionais em seis meses foram mais do que eu poderia agüentar. Importa dizer que Verônica quis me abrir portas a outro mundo e me apresentou esta entidade fantástica, o computador; e importa dizer que eu não me interessei muito com planilhas e editores de texto mas, sim, com a maneira com que este engenho diabólico funciona. Mas isso teria de ficar para outros tempos.

O fato é que definhei, definhei até que acabei adoecendo.

Uma bela manha eu acordei com uma dor de cabeça infernal e pedi a uma das moças, uma que me olhava com outros olhos, mas que eu não tinha condições de corresponder, que me levasse a farmácia para tomar alguma injeção para a dor.

A injeção teve o efeito de um copo de água com açúcar e eu acabei indo para o hotel onde morava.
Na manhã seguinte fui a um hospital famoso por atender qualquer pessoa, tendo ela documentos ou não. Era uma instituição de caridade que diagnosticou meu caso, como um “quadro gripal”. Esperei uma semana e o quadro gripal não melhorou, aliás, piorou, e voltei ao hospital.

Outra médica, outra residente e o mesmo diagnóstico, que se repetiu ainda por uma terceira semana, até que um amigo me disse: “Ei, ai não ta dando certo, vá ao hospital tal que lá é “batata”; Neste ponto me cabe inquirir o leitor sobre o por que de lar ser batata? Eu não entendo nada de batatas, mas creio que elas não são boas em diagnósticos, acho que o House é melhor nisso.

Bem, cheguei lá e a atendente olhou para mim com olhos de pânico, pediu eu me sentasse, coisa que não fiz e voltou com uma médica, que ao olhar para mim teve dois vocábulos: “Meu Deus!” Colocou-me em observação por algum tempo e veio com um neurologista, para o Licquor.

Por conta da minha semi inconsciência, e dados os riscos do exame, foram necessárias seis pessoas para me segurar, dentre elas uma enfermeira de quadris generosos que ficou bem à frente dos meus olhos, e que me deu toda a tranqüilidade para fazer o exame (uma vez flamengo, sempre flamengo...)

Um tempo mais tarde uma médica me disse assim: Claudio... Você está com meningite. Uma meningite viral, e não seria tão sério, mas parece que você andou muito tempo com ela. Estou internando você. Mas, Cláudio, você é um homem da noite, solteiro, sem residência fixa e tudo isso se encaixa num padrão que pede um exame para HIV. Você autoriza este exame?

(continuação na próxima edição)


 

 
Edição 104

Sexualidade

 

Hermel Orozco
Hermel Orozco


Por Claudio Santos de Souza
Editor do
www.soropositivo.org

(Sugira um tema para esta revista)

Nenhum tema pode ser tão complexo. Mesmo depois da pílula, da “revolução sexual” e da AIDS as pessoas continuam se recusando a falar sobre sexo.

Às vezes parece-me que o sexo é uma coisa feia, suja, de gente de baixo nível...

“Troca de fluídos?...

Argh...”

Mas transar, fora uns loucos, todo mundo transa.

Minha sogra, 70 anos, disse a meu cunhado, 42 anos, pai de três filhos, um deles já adolescente, que é necessário falar sobre sexo com “as crianças”.

“Nããããooo! Eles aprendem na rua mesmo.

Quando eu era um púbere disseram-me que passar bosta de galinha no pênis faria os pelos pubianos crescerem mais depressa... Não fosse o nojo, bem, pode se imaginar o rebosteiro.

Veiculei hoje uma
notícia que diz que 75% das idosas contaminadas com HIV foram contaminadas por seus maridos.

Dizem que a envelhescência é igual a adolescência e vai me parecendo que é verdade.

Os velhinhos pulam a cerca e acreditam-se imunes ao HIV, ou não sabem o quão perigoso ele é. Daí a não usar camisinha é só um passo e, daí para a contaminação, é roleta russa.

Sexo é uma coisa boa, que deveria ser praticada todos os dias por todas as pessoas.

Mas parece que não é assim; parece-me, mais, que as pessoas têm pudores com relação ao sexo, a velha noção de pecado (com minha mulher não) que tanto fez e faz sofrer mulheres neste orbe.

Muitas mulheres morreram, e muitas morrerão, sem saber com certeza o que é um orgasmo.

Sexo devia ser matéria de currículo escolar a partir da quarta ou quinta série. Mas currículo sério, falando de masturbação, caricia, sexo oral, preliminares, coito interrompido (falácia), Doenças sexualmente transmissíveis, incluindo a hepatite para que as “crianças” cresçam sabendo.

Sabendo que é bom, mas traz perigos e que, nos dias de hoje, o sexo desprotegido não é a melhor alternativa e que as conseqüências disso podem ser funestas...

A mídia precisa ser mais responsável, produzir campanhas e apresentar no horário diurno, para que crianças vejam, para que crianças aprendam e que idosos também.

Não é porque fez sessenta anos que a vida sexual acaba.

Pode ser até que ela ganhe novos contornos, outras emoções, mas ela existe.

Assim, de modo discreto, “o estimulo prostático” faz milagres muito superiores ao do Ciallis.

Pediram-me que escrevesse sobre sexualidade e sexualidade é coisa complicada até entre pulgas.

Não sei se logrei êxito na missão, pois estou em dúvida se falei claramente sobre sexo oral, anal, vaginal, inversão, sado-masoquismo, BDSM com a desenvoltura necessária.

Mas tenho uma comunidade no Orkut, Soropositivodade e sexualidade.

Dezoito membros.

Dezoito mudos.

A chamada da comunidade é esta:

"Não importa a sua orientação sexual. Homo, Hetero, Bi, Pan-sexual, Domme, Sub... Na vida você sempre poderá encontrar uma pessoa soropositiva para HIV. O que você faria? Fugiria? O portador de HIV não merece carinho, atenção e prazer? Ele deixou de ser humano? Você é soronegativo(A)? Tem certeza? Já fez o exame? Se não fez é sorointerrogativo. Você tomaria as precauções óbvias e deixaria rolar a transa? E você, soropositivo contaria antes? Esconderia pelo medo da rejeição? E se a transa virar caso? E se o caso virar compromisso? E se a camisinha estourar? E se ela(e) se apaixonar? Como resolver o problema da omissão da informação? A "tal hora de contar" é uma barra pesadissima e se a relação começou fundamentada em mentiras o caso é crítico... Minha proposta é discutir estes assuntos."

Como se vê, a questão é repleta de outras questões.

E você, faria amor com alguém com HIV?


Edição 103

Energia e consciência - sobre a violência doméstica contra a mulher

 

Ni Ketut - A limited independence - Arte Sexualidade
A limited independence por Ni Ketut

Por Dayse Mara Bortoli
Psicoterapeuta

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A energia psíquica, as pulsões são fundamentais para que o ser humano expresse suas sensações e sentimentos, perceba o mundo ao seu redor e através de atitudes de comportamento procure ser feliz e ter prazer.

É certo que esse prazer não é o mesmo que prazer imediato, aquele alheio ao respeito e necessidades do outro. Para tal, o funcionamento natural do ser humano é o da aprendizagem através de relações afetivas sobre valores éticos e morais. O ego ideal é formado através da construção do superego, no dia a dia da criança com adultos de referência, sendo valorizado, respeitado como ser em desenvolvimento, onde suas pulsões naturais de vida são livremente expressas. Com esse desenvolvimento imbuído de relações afetivas de liberdade e respeito às pulsões naturais, se desenvolve a saúde e o investimento energético da pessoa é canalizado para projetos de vida e busca de felicidade.

Por outro lado quando essas pulsões são proibidas como coisas más ou imorais, a criança não entende que seu desejo não é adequado, retrai-se ou torna-se uma agente de agressões. A saúde e a doença estão intimamente ligadas ao nível de energia ou pulsão que o individuo se apropria para si, de forma consciente, com poder quanto a sua própria vida e felicidade.

Quando essa energia não está disponível para nossos projetos e nossa vida, de forma consciente, fica a mercê do que é necessário para a proteção do sistema, sistema esse vulnerável às feridas emocionais. É como se a não apropriação da própria energia, o não assumir seus desejos e pulsões o levassem a um caminho onde se fica vulnerável a projeções, e todo tipo de defesas por não suportar a intensidade desses mesmos desejos. O caminho então se torna antinatural e o leva para longe de si mesmo, perdido nas brumas entre o eu e o outro.

Vemos Milhares de mulheres no Brasil, vítimas de violência doméstica. Mulheres que não conseguem sair de relações destrutivas ou se fortalecerem como pessoas humanas devido à percepção inadequada que tem de si mesmas. A energia diária de suas vidas que seria utilizada para projetos pessoais, é consumida no sentido de poderem sobreviver em relações de dor e frustração. Utilizam forças internas na tentativa de permanecerem na relação acreditando que se “se esforçarem”, e “serem boazinhas” as coisas melhoram. Essa situação cotidiana, que tira a mulher da sua naturalidade e espontaneidade é de muito esforço energético e libidinal.

Projetam as suas força no homem que as violentam dia a dia, sem se darem conta que se eles assim o fazem é em função de sentimentos de insegurança, menos valia fracasso. Esses homens precisam ser violentos para provarem alguma força, algum valor.

Mulheres que não se dão conta que são elas que têm a responsabilidade do cuidado com os filhos, com a casa, com o aluguel, água, luz, etc., que são competentes perante suas vidas. Mulheres que projetaram naquele relacionamento o sonho do amor romântico, do príncipe encantado e esperam, com esperança que esse príncipe reapareça e que tudo em seu mundo de violência se transforme em amor. Amam quem também é o agente da violência, projetam para sobreviverem.

Atualmente vemos que já houve uma mudança no feminino. Temos ministras, governadoras, ativistas e também presidenciáveis. Mulheres, inteligentes, senhoras de seu destino e cientes de que o feminino e masculino interiores são polaridades que podem coexistir harmonicamente. As potencialidades interiores podem ser colocadas a serviço das transformações sociais, econômicas e políticas de nosso tempo. Mulheres que se identificam com seu animus, com suas qualidades de planejamento, força, racionalização, objetividade e lógica. O problema é que ainda essas mulheres são uma minoria. A maior massa da população ainda se enquadra no modelo chauvinista, misógino e machista dos séculos anteriores e por essa razão se deixam escravizar e violentar facilmente, e não conseguem saídas desse ciclo de violência que passa de geração a geração.

Há a necessidade de mulheres que conheçam a si mesmas, seu interior, seu animus, enquanto sistemas de proteção à vida que devem ser trabalhados de forma pedagógica e terapêutica. Somente a proteção social da mulher e a responsabilização do homem não mudam o quadro violento que se amplia diariamente em nosso país.


Edição 102

Aspectos políticos da sexualidade: curar a sociedade ou remendar o doente?

Cassandra Tiffin-Lavers - Circe - Arte e Sexualidade
Circe por Cassandra Tiffin-Lavers

Por Géssica Hellmann

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Aos que já me conhecem e acompanham as atualizações da revista, sabem que desde 2005 edito e publico neste espaço temas referente à sexualidade humana. Sou brasileira, nasci no sul do país, morei algum tempo no Rio de Janeiro e hoje estou em Santa Catarina.

Nasci em uma cidade onde as mulheres são criadas para namorar, casar, ter filhos e ser dona de casa. Algumas para estudar... mas nunca se espera que elas sustentem a família. O homem é educado para o papel de provedor. Muitos homens casados acham que sentir prazer e fazer sexo - com todas as fantasias possíveis – é algo que só deve fazer no prostíbulo na esquina. Com a mulher, em casa, o “correto” limita-se ao "papai-mamãe". Se a mulher pede algo a mais, ou tenta inovar, o homem já acha que está sendo traído: onde ela aprendeu tudo isso se não foi com ele?

Há muitas mulheres que ultrapassam os "limites impostos pela sociedade". Estudam, ampliam os horizontes, querem ser independentes. Algumas conseguem um espaço. A maioria acaba saindo da cidade, em busca de "ar" ou de pessoas com outro tipo de pensamento. As mulheres, em sua maioria, são mais evoluídas do que os homens, mas muitas param ou se acomodam no cumprimento do papel que se espera delas.

A isso chamo de “educação tradicionalista”.

Mas essas definições rígidas dos papéis sexuais acontece somente em cidades tradicionalistas? Não. Esse é um fenômeno universal, que afeta a toda a humanidade, principalmente nas sociedades ocidentais. A diferença está no modo como essas neuroses são “revestidas”.

Em uma cidade metropolitana como o Rio de Janeiro, por exemplo, parte dessa moralidade funciona às avessas, mas de forma igualmente terrível. Se uma mulher quer se casar virgem, a moralidade vigente grita: “Mas você ainda é virgem”? O policiamento sobre o comportamento do outro e a exclusão quando se quebra as “sagradas regras sociais” são constantes, mas assumem forma de “bom humor”, através de piadinhas tão depreciativas quanto uma acusação direta. O carioca “tem” que gostar de pagode, de carnaval e de torrar na praia. Porque é isso que se espera dele. Ele precisa ignorar solenemente o que está debaixo de seu nariz: as praias poluídas, as calçadas imundas, a violência verbal e física a cada esquina, a falta de educação, gentileza e cordialidade... Mas o Rio é lindo!

“Em política cada um culpa os demais, nunca a si mesmo. É hora de parar de culpar o bode expiatório. Já é mais do que na hora de ver o que divide a humanidade. É a peste emocional, chamada “pecado” na Cristandade, que fragmenta a humanidade. É a couraça que torna o homem desamparado e prostrado. É novamente a couraça que é o terror da Vida viva, fluente, que cria os portadores da peste, que se tornam os sargentos dos exércitos de nações cruéis” (Reich, 1995 p.206).

Demos o exemplo da mulher, mas a culpa é somente dos homens? Não. A culpa é da sociedade e de suas “regras morais”. Qualquer pessoa que infringir as regras é crucificado. Quem faz a sociedade? O Zé Ninguém e a Maria Ninguém, ou seja, nós. Vivemos em uma sociedade que produz neurose, uma sociedade em que desde que se nasce, já se é doente. Será que a solução se encontra em “remendar” o problema em consultórios de psicoterapias? Ou será que Reich estava certo ao defender que era preciso “produzir” saúde? Por que, mesmo nas comunidades auto-intituladas “reichianas”, pouco se fala sobre seu importantíssimo trabalho político?

Além de editora, sou artista plástica, e abordo na arte a corporalidade e a sexualidade humana. Daqui a duas semanas, farei uma exposição cujo o tema é uma homenagem aos 50 anos de morte de Wilhelm Reich, chamada “Função do Orgasmo”.
 
Imaginem agora, nesse momento estou enviando convites para o coquetel da exposição. Muitos me perguntam qual é a reação das pessoas ao verem que o tema é relacionado com sexualidade. Não espero ser recebida com flores, aplausos e confetes. Procuro tratar o tema com a maior naturalidade, já que é assim que sempre deveria ser tratado.

Fui muito bem recebida pela mídia até o momento e tenho certeza de ter despertado pelo menos a curiosidade de alguns: “quem é esta artista que fala sobre sexo”? Essa estranheza vem de que muitos limitam sua idéia de sexualidade ao ato sexual, sem perceber que o termo se refere a toda nossa existência.

As obras que preparei para essa esposição retratam a mulher desde o matriarcado, quando ainda podemos dizer que havia uma “sexualidade natural”, até a mulher contemporânea. Com a passagem do matriarcado para o patriarcado, surge o “pecado original” e também a “peste emocional”, quando a sociedade começa a reprimir e anular no corpo tudo o que é o belo e natural.

É isso que a psicologia corporal nos mostra, ao ensinar-nos a ler a corporalidade, as expressões corporais. Reich foi o fundador da psicologia corporal. Ele e seus contemporâneos mapearam o corpo humano e nos mostraram que há possibilidade de libertar essa energia represada no que chamou de couraça muscular. Mas Reich foi mais além, nos instigando a não somente remendar os estragos sociais através da terapia, incitando-nos.a mudar todo o pensamento político e ideológico que nos mantém nessa prisão sem muros que é a sexualidade amordaçada.

Voltando ao nosso inimigo contemporâneo, a AIDS, sinto que devo lutar contra esse monstro aqui em Santa Catarina. A idéia que se transmite na mídia sobre o "Coquetel anti-AIDS" como solução para o problema, sem abordar os graves efeitos colaterais da medicação antiretroviral, ou as dificuldades do dia a dia de um HIV positivo. Uma pessoa que desenvolveu a doença precisa de apoio diário: psicológico, atividade física, massoterapia, terapias de grupo e outras atividades em que os pacientes possam dar e receber apoio mútuo.

A AIDS, assim como as outras DSTs, são conseqüências diretas da "Peste Emocial", do desconhecimento e intolerância com relação à própria sexualidade. Na década de 1960, explode a "liberação sexual", o lema "sexo, drogas e rock and roll". Nos anos 1980 surge a AIDS, e a tal “liberação” sem liberdade de fato cobra o seu preço. Onde está a liberdade real?

Não vou mudar o mundo. Mas se eu puder alertar e fazer alguma diferença no pensamento e atitude de quem estiver próximo, eu o farei, e a arte estará a meu lado.


Bibliografia:

Reich, Wilhelm. O assassinato de Cristo. São Paulo: Martins Fontes, 1995.


Edição 101

Você sabe se é portador do vírus HIV?

Cassandra Tiffin-Lavers - Fear of the Future
Fear of the Future por Cassandra Tiffin-Lavers

Por Géssica Hellmann

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Inicio esse artigo com uma indagação: Você sabe se é portador do vírus HIV?

Por favor não responda! Quero apenas que você, leitor, reflita sobre os sentimentos que emergiram a partir dessa pergunta, pois trata-se de uma pergunta extremamente intrusiva, que envolve uma série de pressupostos relativos à sua intimidade: atividade/inatividade sexual, com parceiros estáveis ou ocasionais, com uso ou não preservativos durante o ato sexual, questionamentos sobre a fidelidade no casamento/relacionamento, entre muitas outras questões sensíveis.

Note como é diferente perguntar se “você sabe se é portador de diabetes”?

O diabetes não é uma doença sexualmente transmissível. Logo, tende a não ser sentida como uma pergunta tão “íntima” ou “intrusiva”.

O que me leva a outra questão, extremamente grave: algum médico, já pediu a você um exame de HIV? De minha parte, respondo que o assunto nunca veio à baila no consultório médico até que eu ficasse grávida! Por quê? Será que, talvez, a pergunta não seja feita justamente para não provocar o “mal-estar” e todos os sentimentos que acarreta?

Ou será que os médicos que me atenderam ainda trabalham com a idéia superada de “grupo de risco” e, conseqüentemente, julgaram improvável que eu pudesse ter contraído a doença?

Os profissionais de saúde são unânimes em afirmar que não existem mais “grupos de risco”. Cito, como exemplo, o caso de uma senhora a quem entrevistei, portadora de HIV/AIDS, que acaba de celebrar 80 anos de idade.

Ela afirmou que seu clínico achava que “idosos não pegam AIDS.” Ela teria se infectado aos 70 anos de idade, com seu namorado. Ela atribui à “pílula azul” e às próteses de silicone um aumento na atividade sexual do idoso – grupo definido pelo IBGE como a população a partir dos 60 anos de idade – o que os teria deixado tão expostos ao risco de infecção pelo HIV quanto os mais jovens.

Segundo Parker e Aggleton (2001) “ao longo de duas décadas, enquanto os países, em todo mundo, lutam para dar resposta à epidemia de HIIV/AIDS, as questões do estigma, da discriminação e da negação vêm sendo alguns dos dilemas mais mal entendidos e mais persistentes enfrentados pelo desenvolvimento dos programas de saúde e educação públicas”.

Porque a realidade do HIV/AIDS parece tão fora do nosso círculo “familiar”? É importante enfatizar que, quando o assunto abrange AIDS, o corte na pirâmide socioeconômica é vertical. A AIDS atinge todos os segmentos da população, por qualquer crítério que se queira adotar: sexo, idade, profissão, classe social, grau de instrução, etnia, religião.

Nesses últimos dois anos, realizei entrevistas com psicólogas, profissionais de saúde, jornalistas e pacientes soropositivos. Uma das declarações mais freqüentes é a de que a desinformação mata e ainda é uma das principais causas do assustador crescimento da epidemia de AIDS.

Por exemplo, é alarmante a seguinte declaração de Cláudio Oliveira, assessor de comunicação da ABIA – Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS, fundada pelo sociólogo Herbert de Souza, o “Betinho”: “É importante ressaltar que não há 'cura' para a AIDS. Um grande problema é que muitas pessoas, não tão bem informadas, ao receberem fragmentos de informação na mídia, ficaram com a impressão de que a AIDS se tornou uma doença crônica, parecida com o diabetes. As pessoas pensam que você passa o resto da vida tomando o remédio e tudo bem, não vai morrer da doença. Só que, em nenhum momento, recebe o devido destaque a realidade das infecções oportunistas, dos efeitos colaterais fortíssimos dos medicamentos... Há casos de pessoas que vêm a falecer em função desses efeitos colaterais”.

É importante entendermos como o processo de estigmatização, descriminação e negação funciona no meio social. O Brasil é considerado país-modelo no terceiro mundo em combate a epidemia de AIDS. Então porque a epidemia continua crescendo assustadoramente, não só no Brasil, como em outros países?

Gaiarsa (2006) sugere que a “abstração e a generalização” podem ser tidas como defesas neuróticas coletivas, e que a generalização, mais vezes sim do que não, “existe a serviço da agressão”, ela é um mecanismo neurótico coletivamente criado e aceito para permitir agressão sem culpa. Um mecanismo gerador de preconceitos. O autor cita como exemplo: “os negros” (todos os negros) “não prestam”, “os judeus” (todos os judeus) “só pensam em dinheiro”, “os americanos”, “os árabes”, e assim por diante. O autor continua: “a raiz do fanatismo é esta: o agarrar-se a uma interpretação da realidade como se ela fosse a única”. Seguindo essa linha de raciocínio, a generalização pode ser a causa “inconsciente” do preconceito contra o que é diferente.

Marshall (segundo Parker e Aggleton, 2001) afirmaria que os primeiros sociólogos viam a discriminação como uma expressão de etnocentrismo ou, em outras palavras, um fenômeno cultural de “não gostar dos diferentes”. Já análises sociológicas mais recentes sobre a discriminação concentram-se em padrões de dominação e opressão, vistos como expressões de busca de poder e privilégio.

Em resumo, pode-se afirmar, segundo Parker e Aggleton (2001), que a natureza do estigma é contextual, histórica, empregada estrategicamente para produzir e reproduzir relações e desigualdades sociais.

Quando falamos da relação de sexualidade, cultura, poder e noções de diferença, parece não ser possível deixar de citar Foucault. Para Parker e Aggleton (2001), “os estudos mais influentes que Foucault fez sobre o poder, Vigiar e Punir e A História da Sexualidade, volume I: A Vontade de Saber, enfatizavam o que ele definia como novo regime de conhecimento/poder que caracterizou as sociedades européias modernas durante o final do século dezenove e começo do século vinte. Dentro desse regime, a violência física ou a coerção foram cada vez mais dando lugar ao que ele descreveu como 'sujeição', ou controle social exercido não através da força física, e sim pela produção de sujeitos adestrados e corpos dóceis. Ele explicou como a produção social da diferença está ligada aos regimes estabelecidos de conhecimento e poder”.

Os autores afirmam ainda que é possível ver a estigmatização desempenhando um papel-chave na transformação da diferença em desigualdade, e pode funcionar, em princípio, em relação a qualquer dos eixos principais da desigualdade estrutural interculturalmente presente: classe, gênero, idade, raça ou etnia, sexualidade ou orientação sexual, e assim por diante. Segundo, e mais importante ainda, “o estigma é empregado por atores sociais reais e identificáveis que buscam legitimar o seu próprio status dominante dentro das estruturas de desigualdade social existentes”.

Resumindo, a estigmatização está diretamente relacionada às desigualdades de poder; ela faz com que as desigualdades sociais pareçam ‘razoáveis’ e, por fim, criam e reforçam a exclusão social.

“Um foco sobre as relações entre cultura, poder e diferença na determinação da estigmatização motiva um entendimento da estigmatização e discriminação ligadas ao HIV e à AIDS como parte do que talvez possa ser descrito da melhor forma como economia política da exclusão social presente no mundo contemporâneo” (Parker e Aggleton, 2001).

Desde o início da epidemia de HIV e AIDS, mobilizou-se uma série de metáforas poderosas para reforçar a estigmatização: morte, horror, punição, crime, guerra, vergonha, acontece com “o outro”. É importante enfatizar que, antes do surgimento do HIV/AIDS, já existiam outras formas de estigmatização que, hoje, interagem com a estigmatização da epidemia de HIV/AIDS, tais como a de gênero, orientação sexual, posicão no sistema socioeconômico e raça.

Atrevo-me, então, a supor que, se essas outras formas de estigmatização já estivessem superadas, o portador do vírus HIV, poderia ser encarado como uma pessoa com diabetes ou câncer. O estigma, caso existisse, seria muito menor.

Em entrevista com a psicóloga Mariceli Bernini que trabalha no IPrA como portadores do vírus HIV, ela atesta que, como o fato de que a principal via de transmissão do virus da AIDS é o contato sexual, criam-se muitos problemas adicionais, advindos de questões culturais relacionadas à sexualidade. Se é uma mulher a portadora do HIV, ou é rotulada como “a promíscua” ou como “a traída”; se é um homem, já está previamente rotulado como “homossexual”, se o caso envolve uma pessoa idosa, trata-se de uma “velhinha ou velhinho safado”. Dessa maneira todo soropositivo já se sentiria socialmente pré-rotulado para a exclusão.

Outro estigma relacionado propriamente com a AIDS, é o medo da infecção e o medo da morte. Muita desinformação sobre os meios de contágio, apesar das diversas campanhas realizadas nos últimos 20 anos, ainda transforma os doentes em “Infames” pela sociedade. A desinfomarção continua gerando preconceito, vitimando e culpando os portadores de HIV/AIDS.

Agora, podemos ter uma visão mais ampla dos motivos por trás desses “sentimentos confusos” despertados na indagação quanto a ser ou não portador do vírus HIV. Imagine então como é dificil para uma pessoa portadora do vírus HIV lidar com seus próprios sentimentos, exorcizar os medos, viver um dia de cada vez. E ainda, o quanto é importante o auxílio dos amigos, dos familiares e de profissionais que lidam diretamente com os portadores de HIV para que esse “viver um dia de cada vez” possa ser feito com o máximo de harmonia possível.

A AIDS não acontece somente nos “centros urbanos”. Outra questão de pesquisa gravíssima é o fenômeno da interiorização da AIDS, isto é, a migração da epidemia dos grandes centros urbanos para cidades médias e pequenas do interior do país. Segundo relatos individuais, que pretendo investigar mais a fundo, há casos de pessoas residentes em centros urbanos que, ao se descobrirem com HIV, decidiram “mudar de vida” e migraram para uma cidade menor, tentando “apagar o passado”, mas levando o vírus com elas. E, chegando lá, namoram, casam-se, muitas vezes sem avisar o parceiro(a) que é portador do HIV.

Você sabe com quem seu namorado/parceiro(a) manteve relações sexuais? Sabe que um vírus HIV pode ficar anos incubado sem se manifestar?

“Segundo o Boletim Epidemiológico de 2002, publicado pelo Ministério da Saúde, o número de mulheres contaminadas com o vírus da Aids tem crescido a cada ano e, na maioria dos casos, através de relações heterossexuais. Entre as décadas de 80 e 90 as mulheres maiores de 13 anos, contaminadas pela relação heterossexual, perfaziam um total de 61,1%. No ano de 2002 esta porcentagem elevou-se a 93,5%”. (Giacomozzi, 2004).

A autora afirma ainda que “os dados revelam um aumento desta epidemia, principalmente entre indivíduos heterossexuais com parceiro fixo, em regime de conjugalidade”.

Então lembre-se: AIDS é problema seu também. AIDS é um problema da humanidade!

O HIV não é transmitido por beijos, abraços, suor, saliva, lágrimas, pelo uso comum de piscinas, copos, talheres ou roupas. O contágio é feito por relações sexuais sem protenção (camisinha), transfusões de sangue, pelo uso de agulhas e seringas contaminadas, de mãe soropositiva ao filho durante a gestação, o parto ou a amamentação.

Então agora que você já sabe, seja solidário, converse com seus familiares e amigos, e faça essa pergunta: Você já fez um teste de HIV? Sabe como se prevenir? Com o avanço assustador da epidemia, você pode ser o próximo a precisar de apoio. Pense nisso.

 


Bibliografia:

Gaiarsa, José Ângelo. Meio século de psicoterapia verbal e coporal. São Paulo: Ágora, 2006.

Giacomozzi, Andréia Izabel. Confiança no parceiro e proteção frente ao hiv: estudo de representações socias. Florianópolis, 2004. Dissertação (Mestrado em Psicologia) - Universidade Federal de Santa Catarina. Disponível em: <http://www.tede.ufsc.br/teses/PPSI0111.pdf >

Parker, Richard. Aggleton, Peter. Estigma, discriminação e AIDS. Rio de Janeiro: ABIA, 2001.


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