 |
Arquivo
Géh Sexualidade:<<
Michel Foucault|Michel Foucault (2)|Inferninho|Castração|Eros|
>> |
|
|
Patrocínio:
Petrotec
- Máquinas e Equipamentos para construção civil
| MM
Expositores - manequim, balcão para lojas |
Lingerie by Marta Campos Underwear | Decora
Brasil - Móveis Casa e Decoração de Interiores |
|
| Edição 15 |
Eros
Eros é a idéia de uma força
que liga: fisicamente pelo sexo; emocionalmente, pelo amor; e mentalmente,
pela imaginação. Hirsch começa pelo conceito de Freud
de "Instinto de vida", a que ele chamou de "Eros".
Antes de tê-lo criado, Freud
deu ênfase à sexualidade como fonte de motivação
para muitas atividades fossem ou não sexuais. Ao introduzir o conceito
de Eros, Freud inseriu nele a sexualidade, chegando à visão
de que a pulsão da vida, ou Eros, mantém unidos os seres
vivos.
Eros - Geneviève Van der Wielen
O estado emocional de uma pessoa pode reagir de forma semelhante
ao sistema imunológico, repelindo idéias ou pensamentos
estranhos. Para que a cópula - entendendo-se cópula como
qualquer forma de união: sexual, emocional ou mental - seja possível,
a "estranheza" - a diferença da outra pessoa ou idéia
- precisa ser vista como relevante. O sexo oposto tem um corpo com características
sexuais diferentes, na diferença contém a promessa de algo
novo.
Seguindo este conceito de Eros, Freud fundamenta de um modo novo o seu
interesse nos instintos sexuais, criando uma teoria unificada de sexo
e do amor, em que nenhum deles seja secundário e ambos sejam formas
de ligação entre elementos diferentes.
Segundo Hirsch, a teoria das pulsões fundamenta a idéia
caricata de que "os homens só querem sexo". Já
na teoria das relações de objeto, prevalece a caricatura
de que "as mulheres só querem amor", dando a impressão
que as mulheres não têm desejos sexuais. Nessas duas visões,
existe uma divisão entre sexo e amor. De acordo com a teoria das
relações de objeto, o amor parece mais um desejo de segurança
do que o desejo de estar com a outra pessoa.
Isso não quer dizer que a quantidade e a qualidade de amor em um
namoro sejam as mesmas que a de um casamento duradouro, mas sim que a
consideração pelo outro possibilita a cópula entre
duas pessoas diferentes. Do mesmo modo que o amor, a maneira de expressar
o sexo é bem diversa entre amantes, e digamos, mães e filhos,
mas sem dúvida falta alguma coisa se a relação mãe-filho
não tiver nada de sensual.
O conceito freudiano de Eros é um modelo de sexualidade complexo,
ajustável ao desenvolvimento sexual diferente dos indivíduos.
A ênfase na genitalidade baseia-se na sua conclusão de que
há um elo entre relação sexual e vida nova (procriação).
Do ponto de vista de Eros, não existiria cópula, mesmo ocorrendo
penetração, quando o corpo é usado do outro é
usado somente como objeto de masturbação.
Existe uma diferença entre ver o relacionamento com outra pessoa
como se desejaria que fosse e descobrir o que o relacionamento realmente
é. O amor sempre se inicia pela idealização, ignorando
aquilo que o contradiz. Ao mesmo tempo a idealização pode
dissipar-se quando a pessoa passa a conhecer melhor a outra, tendo condições
de tornar o amor mais complexo e generoso.
O trabalho de imaginação é uma cópula entre
a vida interior do indivíduo e o mundo que o cerca. Do ponto de
vista da psicanálise, a capacidade de ser imaginativo está
relacionada com a capacidade de se deixar influenciar. Um exemplo adotado
por Hirsch, sobre a origem da imaginação: o bebê começa
a ter fome e se torna irrequieto. Faz então movimentos de sucção
com a boca e parece satisfeito. Depois de alguns minutos, começa
a gritar. O que aconteceu nos poucos minutos de satisfação?
O bebê talvez tenha tido uma alucinação com o seio,
acreditou ser alimentado, até que a dor da fome cortou a alucinação.
A alucinação é predecessora dos devaneios. Da maneira
análoga, as pessoas adultas têm alucinações
em que tentam dar a si mesmas o que querem e, especialmente, tentam se
recompensar e acalmar.
As relações deturpadas também são uma maneira
de evitar a cópula e a diferença (separação).
O autor cita o exemplo de um paciente de Betty Joseph, que notou que seu
paciente estava fazendo algo com os dedos, encostando a ponta dos dedos
de uma mão na outra com muita suavidade quase sem parar, como uma
atividade masturbatória. O paciente, de forma consciente era apartado
da sua mulher e do analista, mas não tinha consciência de
que essa separação expressava um medo de proximidade.
Em uma exploração analítica, Betty Joseph e o paciente
descobriram com o tempo que ele podia "tocar" uma relação,
mas não consumá-la. Pode parecer estranho um sentido de
estimulo sexual em uma ação tão aparentemente trivial.
No entanto, conhecemos gestos de mãos com um sentido sexual que
são trocados socialmente, como mostrar o dedo médio.
Alguns contemporâneos de Freud e muitos outros depois deles apresentaram,
por exemplo, argumentos que inferem que a teoria freudiana da sexualidade
funciona como uma pressuposição, ou seja, ele achava ou
reconhecia que o sexo estava em tudo e portanto "via o sexo em tudo".
Já o psicanalista Bion dizia que a teoria deveria ficar na mente
do analista como uma pré-concepção, referindo-se
ao uso de uma teoria para ajudar a reconhecer o que poderia ser o material,
em vez de uma teoria usada para impor um julgamento prematuro.
Nas palavras de Hirsch (2005:67): "As pressuposições
são interessantes por si sós, especialmente no contexto
Eros. Elas podem se parecer com a ligação promovida por
Eros mas, quando rígidas, são na verdade letais para o raciocínio".
Relacionando as três áreas onde Eros atua - sexo, amor e
imaginação - percebemos qualidades em comum:
- As relações entre as pessoas e dentro do próprio
indivíduo são extremamente complexas. Sentir-se vivo (Eros)
abrange o amor e o ódio do indivíduo;
- É imprescindível reconhecer as diferenças entre
as pessoas para se ter uma vida própria pois só o reconhecimento
faz emergir possibilidade de cópulas - vínculos primordiais
do Eros.
HIRSCH, Nicola Abel. Conceito da
Psincanálise: Eros. Rio de Janeiro: Relume Dumará:
Ediouro; São Paulo: Segmento-Duetto, 2005.
Gravidez
Géh e Léh esperam um bebê! Como editora
deste espaço, gostaria de participar com vocês informações
úteis para gestantes.

Sweet-girl por Diego Manuel
Tipos de Parto
É comum encontrarmos artigos, ou mesmo cursos de preparação
para gestantes, focados na questão dos "tipos de parto",
que geralmente acabam artificialmente classificados da seguinte forma:
Parto Normal
Parto Vaginal
Parto Natural
Parto Fórceps
Parto de Cócoras
Parto na Água
Parto Humanizado
Parto sem Dor
Parto Leboyer
Cesariana
Em primeiro lugar, devemos pensar o seguinte: é
possível classificar partos antes deles acontecerem?
Em segundo lugar: mesmo que fosse possível, é coerente achar
que partos, nascimentos, bebês, mulheres possam ser classificados
por tipos? Vamos fazer um balanço da história recente da
obstetrícia, para entender porque e como os partos foram classificados.
A separação dos partos por tipos aconteceu em decorrência
do nosso sistema obstétrico. Desde que o atendimento passou a ser
hospitalar, feito exclusivamente pelos médicos, em macas horizontais,
com as mulheres em posição ginecológica, a classificação
ficou óbvia: "Parto Normal" ou "Cesariana".
Não havia alternativa. Se a mulher não conseguia dar à
luz nessas condições padronizadas, ia para a cesárea.
As condições padronizadas sob as quais as mulheres deveriam
tentar o "Parto
Normal" eram: separação do
companheiro ou qualquer acompanhante, salas de pré-parto coletivas
sem qualquer privacidade, impossibilidade de livre movimentação,
soro com hormônios para acelerar as contrações e portanto
encurtar o trabalho de parto, período expulsivo com a mulher deitada
de costas, pernas amarradas a suportes, comandos para fazer força,
enfermeiras empurrando a barriga da mulher, entre outras situações
que variavam de serviço para serviço. Convém lembrar
que em muitos hospitais do Brasil essa ainda é a regra, infelizmente,
indo contra todas as recomendações da Organização
Mundial da Saúde.
Eventualmente o parto ficava difícil e havia a aplicação
do fórceps alto (um instrumento que consiste de um par de colheres
metálicas), que buscava a cabeça do bebê no canal
de parto para puxá-lo para fora. Essas experiências eram
traumáticas para a mãe e com freqüência lesavam
irreversivelmente o bebê. Era o "Parto Fórceps"
ou ainda "Parto a Ferro". Hoje em dia caiu em desuso e os médicos
agora usam o "fórceps de alívio", quando o bebê
já está mais baixo no canal de parto. Usado com parcimônia
seria um excelente recurso para acelerar o período expulsivo em
casos de emergêcia ou sofrimento fetal, lembrando que estas são
ocorrências extremamente raras em partos de baixo risco. O uso rotineiro
é desconselhado, o que vale para qualquer intervenção
médica em um processo natural e fisiológico.
A partir da década de 70 o mundo inteiro testemunhou inúmeros
movimentos pelo resgate do parto como um evento social, afetivo e familiar.
Aqui e ali surgiram obstetras preocupados com o excesso de medicalização
e grupos de consumidoras que lutavam por melhores condições
para darem à luz seus bebês.
Na França, Leboyer foi um dos expoentes desse movimento e advogou
uma forma mais amena de se nascer: pouca luz, silêncio, sem violência,
banho do bebê perto da mãe, amamentação precoce.
No entanto seu foco era o bebê, não a mulher. Geralmente
esta estava deitada de costas, pernas em estribos e o uso da episiotomia
era rotina. De qualquer forma, por seu pioneirismo, pela qualidade de
nascimento oferecida ao bebê - mais do que pela qualidade de experiência
de parto oferecida à mãe - no mundo inteiro esses partos
ficaram conhecidos por "Parto Leboyer".
Ainda na França, na cidade de Pithiviers, Michel Odent, entre várias
inovações dignas de mérito, começou a usar
banheira com água quente para o conforto das parturientes. De lá
para cá, o "Parto na Água" tem sido utilizado
no mundo inteiro, em banheiras especiais ou improvisadas. Nas maternidades
européias as banheiras são oferecidas às parturientes
tanto para o alívio das dores do trabalho de parto, como para o
parto em si. Estudos científicos comprovam que o uso da água
quente no trabalho de parto é um excelente coadjuvante no combate
à tensão e à dor. No Brasil pouquíssimas clínicas
e médicos oferecem esse conforto às pacientes, infelizmente.
Onde havia liberdade para movimentação das mulheres, o "Parto
de Cócoras" ganhou terreno, por ser mais rápido, mais
cômodo para a mulher e mais saudável para o bebê, pois
não se produzia mais a compressão de importantes vasos sanguíneos,
o que acontece com a mulher deitada de costas. No Brasil o Dr. Moysés
Paciornik estudou comunidades indígenas e resgatou o parto verticalizado.
Criou com seu filho Dr. Cláudio Paciornik uma cadeira para ser
usada em hospitais, que permitia várias posições
para a mãe, sem comprometer o conforto do médico. Embora
não haja necessidade de cadeiras especiais para que a mulher assuma
essa posição, muitos profissionais afirmam que não
fazem partos de cócoras porque no hospital não existe "a
cadeira para parto de cócoras" à disposição.
Desde os anos 80, com a popularização das questões
ecológicas, e com os movimentos de resgate de uma vida mais saudável,
natural e espiritualizada, muitas mulheres passaram a optar pelo "Parto
Natural", sem intervenções, sem anestesia e domiciliar
em muitos casos. No entanto o termo "Parto Natural" muitas vezes
tem sido utilizado como sinônimo de "Parto Vaginal", o
que nem sempre é verdadeiro. Um parto vaginal com episiotomia,
rompimento artificial da bolsa d'água, aceleração
com soro, anestesia, raspagem dos pêlos, entre outras intervenções,
não pode ser classificado com o nome de "Parto Natural".
O termo "Parto Sem Dor" tem várias conotações.
Os métodos psicoprofiláticos desenvolvidos especialmente
nos Estados Unidos propunham uma espécie de treinamento às
gestantes, baseado em técnicas respiratórias, de relaxamento,
de concentração, entre outas. A idéia geral é
que uma mulher bem preparada para o parto e bem acompanhada durante todo
o processo terá muito menos dor do que uma mulher assustada e tensa.
A idéia faz sentido, mas convém lembrar que a dor do parto
continua existindo, agora sem o sofrimento causado por medo e tensão.
Os métodos mais conhecidos são Bradley, Lamaze e Hipnobirth.
No Brasil "Parto Sem Dor" é comumente confundido com
parto sob anestesia. Obviamente a anestesia bloqueia a dor, mas também
diminui as sensações das pernas e do assoalho pélvico.
Essas sensações são responsáveis pela força
que a mulher faz na hora de "empurrar" o bebê para fora.
Portanto, embora haja o bloqueio a dor, alguns efeitos indesejáveis
como a perda do controle sobre o processo do parto, entre outros, podem
ocorrer. Em muitos serviços médicos a anestesia é
aplicada no final do trabalho de parto, já no período expulsivo,
de modo que o período de dilatação não se
passa sob efeito das drogas anestésicas. De qualquer modo, as formas
naturais de se lidar com a dor deveriam ser largamente oferecidos e utilizados
antes de serem aplicados os métodos farmacológicos de bloqueio
da dor.
Atualmente um novo termo tem sido utilizado: "Parto Humanizado".
Como não houve uma formal definição do termo, ele
é usado em todo tipo de circunstância. Para o Ministério
da Saúde, parto humanizado significa o direito que toda gestante
tem de passar por pelo menos 6 consultas de pré-natal e ter sua
vaga garantida em um hospital na hora do parto. Para um grupo de médicos,
significa permitir que o bebê fique sobre a barriga da mãe
por alguns minutos após o parto, antes de ser levado para o berçário.
Em alguns hospitais públicos significa salas de partos individuais,
a presença de um acompanhante, alojamento conjunto, incentivo à
amamentação, entre outros benefícios.
>No mundo inteiro, no entanto, o que está se discutindo é:
"o atendimento centrado na mulher". Isso deveria ser o correto
significado de parto humanizado. Se a mulher vai escolher dar à
luz de cócoras ou na água, quanto tempo ela vai querer ficar
com o bebê no colo após seu nascimento, quem vai estar em
sua companhia, se ela vai querer se alimentar e beber líquidos,
todas essas decisões deverão ser tomadas por ela, protagonista
de seu próprio parto e dona de seu corpo. São as decisões
informadas e baseadas em evidências científicas.
Enquanto nós mulheres não reivindicarmos nossos direitos,
enquanto as decisões couberem aos profissionais prestadores de
serviços médicos, aos hospitais que elas escolheram, à
diretoria que cria as condições de atendimento, enfim, enquanto
deixarmos que os outros cuidem do que é nosso, os "tipos de
parto" fazem sentido. É a classificação dos
partos que nos serão permitidos ou oferecidos de acordo com as
necessidades, conveniências e crenças dos outros.
Ana Cris Duarte
"Republicado com autorização da
autora. Mais informações sobre o tema nos sites:www.amigasdoparto.com.br,
www.doulas.com.br,
www.maternidadeativa.com.br
|
|
| Edição 14 |
Castração
Neste trabalho, abordamos o conceito psicanalítico
de castração tal como exposto por Ivan Ward (2005), através
de casos expostos por psicanalistas consagrados.

Mãe e filho por Damien Hirst
(1993)
O complexo de castração consiste em
uma diversidade de crenças e emoções infantis relacionadas
com a consciência nascente de uma identidade sexual definida. No
menino, a crença de que a mãe teve o pênis decepado
pelo pai e que seu próprio órgão sexual pode estar
sujeito ao mesmo perigo. Já para a menina, a crença de que
ela teve um pênis que foi removido brutal e injustamente.
Freud em seus ensaios que abordam o complexo de castração,
foram baseados nos relatos das crianças. Na época da última
grande obra de Freud, o complexo de castração praticamente
se fundira ao complexo de Édipo.
Melaine Klein, em suas pesquisas, demonstrou que as inibições
na escola podem estar intimamente ligadas ao pavor da castração,
ou seja, se eu fizer "X" serei castigado (com a castração).
Só se pode superar a inibição quando esta angústia
é solucionada.
Na Antigüidade, era comum o uso de símbolos fálicos
como proteção contra o perigo. Segundo Freud, é preciso
muito pouco para que se desencadeie o sentimento da ameaça., como
no caso de um menino de 14 anos, Daniel, que contou sobre um objeto curioso
de que ele ouvira falar no berçário do Centro Anna Freud.
Chamava-se "willy-cut" (corta-pipi). Era como uma tesoura de
jardinagem, mas com funções bem mais específicas.
O garoto tivera essa convicção com pouquíssimas evidencias:
ouvira um dos terapeutas do centro dizer uma palavra enigmática
"Winnicott" (nome do psiquiatra inglês).
O psiquiatra Samuel Ritvo escreve sobre um caso em que a alucinação
é substituída pela fantasia: O paciente sofria de castração
intensa e consciente, fantasiando muitas vezes por dia que era vítima
de castração acidental ou intencional. Ele imaginava que
um cachorro fosse abocanhar o pênis dele, ou que quando estivesse
saindo de casa, cairia da escada e o seu pênis se prenderia em algo
e seria arrancado.
Ward utiliza outro exemplo bastante recente: o dos fanáticos político-religiosos
que lançaram aviões contra o World Trade Center e o Pentágono.
Os comentaristas classificaram os acontecimentos como um "toque de
despertar" para a nação americana. Ora, as torres não
deixavam de ser símbolos fálicos de poder, de modo que esse
incidente pode ser relacionado às dificuldades normais de amadurecimento.
A destruição dos símbolos foi interpretada pela metáfora
do "crescimento", como se a investida contra esses símbolos
do poder, de alguma forma, lembrasse as perdas da infância.
A castração é fundamental em quatro aspectos: a aceitação
da diferença sexual; a negação desta diferença;
a produção de excitação e como causa de inibição
sexual. Para Freud a castração torna-se um símbolo
da diferença sexual, e a superação da ameaça
determina a identidade sexual.
A psicanalista Joyce McDougall, relata a historia de seu neto de 4 anos.
Depois de ter passado o dia inteiro perguntando sobre a gravidez de sua
mãe, o garoto ansioso para aproveitar o novo conhecimento, e quando
o pai chega faz um pedido especial: "você poderia, por favor,
por um bebê na minha barriga também"? McDougall relaciona
esse fato com uma homossexualidade primária, ressaltando as possibilidades
bissexuais da primeira infância.
>A sexualidade pervertida usa variadas formas para evitar a ameaça
da castração. O exibicionista fálico defende-se da
angustia da castração e se tranqüiliza com a idéia
de que seu pênis não é mutilado, mas poderoso e lindo.
Ao concentrar o desejo sexual num objeto, o fetichista rejeita a existência
dos genitais femininos e terror da castração que eles originam.
Os sadomasoquistas vencem a angústia da castração
provocando dor, inclusive recorrendo a agressões genitais.
A analista israelense M. Woolf conta o caso de uma garotinha criada num
Kibbutz que se recusava a dormir no chalé das crianças.
Toda a vez que a mãe tentava levá-la meio adormecida, a
criança acordava chorando e tremendo: "O cachorro arrancou
meu pipi"
Na arte contemporânea também podemos verificar o sentimento
de castração sofrido por Damien Hirst. Mãe e filho
divididos - uma vaca e um bezerro serrados ao meio e colocados em quatro
tanques de formol - é uma representação simbólica
da separação brutal entre mãe e filho. Hirst nasceu
sem alarde em Bristol; o pai não quis conhecê-lo e um ano
depois a mãe mudou-se para Leeds, sua cidade natal, casando-se
novamente. A obra não trata de vida e morte, mas é uma forma
de simbolizar o que o menino sentiu quando a mãe voltou a se casar:
sua agonia ante os sentimentos de traição. A obra o modifica,
porque não é mais ele que sofre a ruptura provocada pela
divisão, mas é ele que, no ato de destruição
e criação, assume o lugar do pai e seu papel imaginário.
É em razão do medo da castração que o pai
tem um efeito inibidor, não só a castração
que se teme sofrer, mas a mutilação genital que se imagina
da mãe.
Ward (2005:46) relata a sua reação ao assistir ao filme
"A professora de Piano (2001)". "Me senti com calor e suado,
tonto e nauseado. Um suor frio fez a minha pele formigar. Eu sabia que
ia desmaiar." A cena que provou o desmaio era a representação
de uma automutilação genital feminina. A professora entra
no banheiro de sua casa, nua, desembrulha uma lâmina de barbear
de um pedaço de pano, entra na banheira e senta-se na beirada.
Com um espelho pequeno para ver melhor as pernas, ela corta os genitais
com a lâmina, e o sangue pinga na banheira. A cena é filmada
em perfil, e o que se vê realmente é o gotejar de sangue
na banheira. Ward se pergunta: "Por que isso me alarmou tanto?".
Argumenta que não era devido ao sangue, pois estava acostumado
com os seriados dramalhões de hospitais, em que sempre havia muito
sangue e isso nunca lhe provocou reação semelhante. Até
mesmos cenas de castração como em "Império dos
Sentidos", não produziram esse efeito. Ele concluiu que sua
angústia não deve ter relação direta com a
imagem, mas com o tema de mutilação genital, que deve ter
aflorado inconscientemente.
Ward conclui que o complexo de castração é um conjunto
de crenças infantis; um organizador da diferença sexual;
um determinante fundamental do caráter
e do destino das pessoas. Os efeitos deste complexo são amplos
e variáveis para o individuo e para a cultura.
WARD, Ivan. Conceitos da Psicanálise: Castração.
Rio de Janeiro: Relume Dumará: Ediouro; São Paulo: Segmento-Duetto,
2005.
|
| Edição 13 |
Inferninho
Saudades daquele inferninho! Isso mesmo. Aquela boate GLS
num beco de Sampa! Saudades de ser a única "raxa" trabalhando
entre Drag Queens! Saudades da bee berrando sempre que me via chegar “Lá
vem àquela que dá a ELZA". Saudades do inferninho que
derretia a maquiagem toda que tinha que usar. Do Velvet Goldmine em terras
paulistas. Dançar "Down By the Water - PJ" com aquela
gente.

Foto: Renato Stockler
Saudades daquelas pessoas tão maravilhosas e tão
perseguidas pelos preconceituosos. Perdi a conta de quantas vezes olhei
pra alguém com pena. Pena da postura pequena, cabeça fechada...
Pena de saber quanto àquela pessoa estava perdendo por ser medíocre.
Do namorado que propôs “pro nosso namoro continuar você
tem de escolher eu ou ser hostess desse inferninho”. Pedi desculpa,
mas não podia chorar e correr o risco de borrar a maquiagem, afinal,
tinha a que estar ali até às 8h da manhã de segunda-feira.
Se cuida, querido!
Saudades de andar de metrô as nove da manha e ser
observada como um alien. Coturnos, corseletes and make-up. Saudades do
rosto assustado da minha mãe quando me reencontrou quatro anos
depois de me mandar embora. Rosto de descrença e orgulho. Como
quem diz “Ela sobreviveu, ainda que eu não faça mais
idéia de quem seja minha filha, mas to vendo uma mulher com RG
de menina. Confesso que senti muita magoa da minha mãe. Papai,
e melhor amigo, morre. Mamãe surta. E Rocca teve que enterrar os
dois em menos de três meses. Um morto, literalmente. Ela, uma viva
morta que, surtada, falou, tchau Rocca. Mas quer saber? Foi a melhor coisa
que aconteceu na minha vida. Te vira nêga é o que toda mãe
deveria fazer com os filhos”.
“Ela é tão nova!”, falou o tiozinho
da padaria um dia desses. Eu agradeci sorrindo e concordei “sim,
sou nova. Uma velhinha assanhada” Ele não entendeu, mas retribuiu
o sorriso! Kadu fala que se não me conhecesse há 15 anos
jamais teria casado comigo. Ele sabe que sempre fui responsável
demais. É perfeitamente possível estar num banheiro compartilhado
por homens e mulheres drogados e bêbados e não ser um. Ter
19 tatuagens e não ser um marginal perigoso fora da jaula. E quando
vinham aqueles zombies oferecendo “um pega” eu agradecia falando
“não obrigada eu sou o traficante e não o usuário”
e caía na gargalhada. Sempre fui tão moleca no meio de tanta
“droga”.
E os porteiros que achavam que eu era puta. Por que? Ué,
por pagar a PUC e o apErtamento sozinha, com 18 anos... “Isso só
puta consegue” – Eu caia na gargalhada – Não
há argumento que convença quando você chega no prédio
pela manha fedendo a cigarro nem corselete e salto alto! Eu brincava:
“Tá louco! Puta? Não querido, eu sou acompanhante
de luxo” e mais gargalhada. Bons tempos...
"Hoje digo à essas pessoas que tantas vezes
acolheram aquela garota dos ojos de perra (olhos de cachorra): A mulher
que sou hoje, é reflexo do que aprendi com vocês. Quando
meus olhos buscam visualizar o que valeu a pena, garanto, vocês
foram o que valeu a pena."
Com todo meu amor, muito obrigada!
Rocca Stockler
Entrevista
ROCCA - As Mãos Estendidas do Universo Sexual
Paralelo
por Alexei Gonçalves e Géssica Hellmann
Rocca Stockler, no depoimento publicado acima, conta sua
vivência entre grupos cujo comportamento social e sexual as transforma
em vítimas de preconceitos nem sempre justificados, gente que é
rotulada de forma infame, mas que são capazes de estender as mãos,
às vezes com espírito mais solidário do que aqueles
que a sociedade rotula como "bons rapazes", "boas moças",
"cidadãos exemplares".
Ela não é a única. Em 31 de agosto deste ano, marquei
minha volta ao Multiply com um pequeno texto de acesso restrito intitulado
"Sim, eu sou racista":
"Sou homem, heterossexual, branco (bem, pelo menos para os padrões
do IBGE, defino-me etnicamente como "vira-lata") e católico
(para efeito de preenchimento de formulários).
Passando minha vida em revista, reparo que, sempre que passei por apertos,
quem me estendeu a mão e foi legal comigo foi "a mulher",
"a prostituta", "o viado", "o crioulo",
"o crente", "o judeu". Então, confesso meu
racismo. Com algumas exceções, é claro, não
suporto homens heterossexuais brancos e católicos. Ô raçazinha
inútil que não serve pra nada...".
Trata-se, obviamente, de uma ironia. Também tenho ótimos
amigos homens heterossexuais brancos e católicos.
Ao conhecer a história de vida de Rocca Stockler, decidi que PRECISAVA
saber suas idéias a respeito. Conversamos sobre o assunto e a Géh
conduziu o bate-papo que vocês lerão agora, com exclusividade
para o gehspace:
Géh: Comparando com a sua experiência de
vida, qual a sua opinião sobre o texto do Alexei? A "minoria",
os marginalizados, são mais solidários, com quem está
passando por problemas?
Rocca: Por problemas todo mundo passa, poucos encaram.
Acredito que a minoria já é maioria. Existe uma 'hierarquia'
de rótulos sociais, não há mais maioria e minoria.
O ponto X, ou G, seria o preconceito que também está em
todos os cantos. Sim, são as putas, os travestis, os drogados,
eu, você... Essa questão abrange uma quebra de limite pessoal
e não maiorias e minorias.
Géh: "Minorias" talvez realmente não
seja o termo adequado, e sim os que sofrem de "preconceitos".
Rocca: Essa moeda tem mais de dois lados. Existe um fator
primordial: até certa idade, o humano, em sua inocência,
caminha com um cabresto. Alguns passam o resto da vida usando essa limitação.
Outros encaram de frente quando percebem ser diferentes daqueles que mantém
um cabresto (tradicionalismo arcaico). Quando isso acontece junto vem
uma quebra do limite normal, é quando você passa a se defender
em postura, quando você percebe que não tem mais como estar
feliz junto aos que mantém o tal cabresto. Quando rola isso é
como se abrissem uma janela num quarto em que só existia uma porta.
Infelizmente, o diferente assusta, e a sobrevivência faz você
buscar estar com iguais até mesmo como defesa. E, diferente do
cabresto que é repleto de problemas sabiamente ocultos, a violência
destinada aos "diferentes" é totalmente explicita.
Lógico que, quando você é alvo de toda penalidade
por encarar de frente ser o que é, seja o que for, você se
torna infinitamente mais humano. Assim como perde o medo de estar entre
humanos. Você passa a viver no limite porque ultrapassou o limite
que conhecia na época que se desconhecia.
Géh: Sabe, vou contar algo que eu senti quando
fui a primeira vez em uma boate gay, na verdade, até então,
a única. Eu era a única mulher. Os homens eram sarados,
lindos maravilhosos e gays. Um grande amigo meu veio me visitar no rio
e eu disse que gostaria de conhecer uma boate gay. Procuramos uma e lá
fui eu, o Alexei, meu amigo com o namorado. Eu fui tratada com tanta gentileza,
não sei o que eu esperava, talvez por ser a única estranha
no ninho.
Rocca: Levou um susto com a forma que foi tratada?
Géh: Sem brincadeira, nunca em nenhum outro lugar
me senti tão bem. Em boates heteros, por exemplo, nunca me cederam
a mesa o ambiente estando lotado. E lá cederam.
Rocca: Você assumir ser o que é, é
uma forma de respeitar ser o que são. Não há por
quê gerar preconceito quando se luta contra. Mas há muito
preconceito nesse mundo "excluso" também, aí entra
o terceiro lado da moeda. Preconceito entre os "exclusos" [uso
essa palavra por não achar outra]. O dedo humano infelizmente não
se contenta. Não generalizo, mas sei que existe, e existe forte.
Géh: Sim. Mas lembro sempre de uma frase: quando
se aponta um dedo para uma pessoa, três dedos se voltam contra você
mesmo.
Rocca: Por isso o problema não finda. Um ponto
chave nisso tudo: Sim: foram as pessoas "da rua" que mais me
deram a mão, independente de quem eu era, e do que fazia entre
eles. Não se questiona muito. Mas também temos que levar
em consideração que as pessoas com cabresto não estão
nas ruas. Contrário. Elas temem um olhar fixo - ao menos sempre
abaixaram a cabeça pros meus - Deve ser o tal medo do desconhecido.
Talvez se eu não tivesse sido abortada do ambiente família
precocemente, hoje eu poderia ser alguém que estranha as pessoas
que fizeram parte da minha vida.
Géh: É mais fácil o confortável
do que se conhece, do que descobrir o novo.
Rocca: Sim. Mas rola um pra que, né? Não
há necessidade de apenas conhecer. Pode haver curiosidade, mas
não necessidade. Querendo ou não, é um "olhar"
de impacto, e muitas vezes sempre mostram só a parte ruim desse
mundo. A única coisa que mostram e acaba por atrair a todos, por
curiosidade, é a tal "parada gay", mas isso é
algo que não sinto como positivo pra nenhum dos lados. Géh:
O pior de tudo é o ser humano ter a mania de criar "rótulos",
e esses rótulos que levam ao preconceito. Esquecem que todos são
humanos, tem sentimentos...
Rocca: A parada gay é um rótulo criado
pelos próprios. Olha o paradoxo? É uma vitória de
uma batalha eterna. As leis pouco favorecem o mundo GLS. Essa luta é
complicada porque além das nossas leis serem do tempo da pedra,
elas passam a alimentar o caos dentro da vida daquele casal homossexual
que só quer andar pela praça da republica em paz como qualquer
casal faz. Parada gay, o manifesto, é uma forma que acharam para
conseguir espaço e paz. Só que há uma contramão
de intenção. Decretar um dia do ano para o orgulho gay é
você assinar ser excluso no cotidiano de 365 dias do ano.
Géh: É tão fácil julgar sem
conhecer...
Rocca: Sempre fácil. Tudo é fácil
quando feito frente uma televisão. Estendendo mais o assunto: quantos
"pais de família" pagam putas e travecos para serviços
prestados? Inúmeros. Só que isso é algo que o "pai
de família" jamais vai assumir no almoço de domingo.
A melhor maneira de se defender é agredir, logo ele vai ser o primeiro
a desrespeitar a pessoa que ele busca pra ter prazer. Não defendo
nenhum dos lados, mas sei que existem muitos ângulos. Literalmente.
Géh: Já senti muito preconceito por ter
"blogs com poesias eróticas". Era o mesmo que estampar
"ela quer dar, é puta... etc". E pior nem é isso,
mas sim a energia negativa que recebi quando muitos destes "fãs"
souberam que casei. É o tal do fio da navalha, você tem que
andar e tomar cuidado pra não cair pro lado errado.
Rocca: Porra, criam todo um fetiche. "O rito faz
o mito". Acham que você é um ícone a ser seguido,
quando na verdade você tá de meião no chão
e calcinha branca de algodão. Mas o ícone jamais. Não
é?
Géh: Falou e disse, quase me descreveu.
Rocca: Sinto que o problema real é o mais oculto.
Acontece que chega um ponto que não há como ver e, se há,
não existe mais pique pra mudar. Exemplo: um homossexual que sofreu
a vida inteira o lance de exclusão. De repente ele percebe que
pode usar isso a favor e cria uma persona em cima. Já que vai apanhar
que seja com glamour né? E assim ele continua sendo o que sempre
foi, com a diferença que passa a ter paz. Por que isso? Porque
a geração que está vindo, aqueles que teriam de estar
formando um caráter, se não tivessem perdendo o que sobra
nos embalos de qualquer um, olham esse homossexual como um ícone.
É quando fode tudo. É quando o ícone encontra a tal
paz, afinal querendo ou não existe admiradores e isso é
uma retaguarda. Mas é também quando uma geração
começa a "estar como" algo que jamais vão vir
a ser.
Essa questão social é um assunto que eu posso passar a vida
inteira pensando sobre e jamais vou chegar ate a raiz. É complexo
demais. Mas dentro desse complexo eu vejo o erro na tal expressão
"Tem um elefante na sala de estar" saca? Tudo é uma questão
de raiz.
Eu estive entre eles. Não sou um deles e sempre fui, porque pra
mim são as pessoas com quem mais troquei vida. Mas eu nunca saí
de casa por ser gay, ou puta ou traveco ou traficante... E quando saí
não virei nenhuma dessas coisas. Eu me tornei um item a mais entre
eles. Acho que fui a garota precoce que estava perdida e encontrou apoio
destas pessoas.
Géh: É uma experiência que a gente
leva pra vida toda né?
Rocca: Completamente. Deixa de ser uma experiência
e passa a ser você. Quando abrimos janelas dos limites humanos nunca
mais as fechamos.
Géh: É quando você conhece uma nova
história (realidade). Você se torna parte dela...
Rocca: E não só essa. Tem muita coisa que
não vivi ainda. Hoje em dia eu tenho que aprender a fazer as coisas
leves que não fiz aos 17 anos, mas já sou uma 2.9 quase
3.0. Fica difícil.
Géh: Fala aí velha. [risos]. Estou com
2.7 e me surpreendo. A cada dia quero aprender mais, só espero
ter sabedoria para saber o que fazer com o que eu aprender.
Rocca: Você tocou num ponto fundamental, o qual
vem do berço: Caráter. Sabedoria. Andar por coisas desconhecidas,
ser parte, mas não mudar sua referência. Às vezes
eu brinco que, quando vou embora não olho pra trás, mas
a real é que o "atrás" está um passo a
frente. Eu, todos, tive tudo pra me afundar. Não há dúvidas
de que o ambiente proporcionava rumos que desconheço, por sorte
me mantive sendo o que sempre fui.
Géh: Uma pontinha das coisas novas que estou aprendendo
tento deixar aqui no Géh. Sinto que algumas outras não cabem
neste espaço, mas sei que se aprender só pra mim não
terá valido a pena. É preciso passar um pouco para os outros.
São coisas que tenho pensando, idéias que surgem ainda sem
forma. É exatamente isso o que você passa para as pessoas,
e é muito bom. É uma energia boa. Esta no coração,
na intenção, no caráter e na cabeça...
Rocca: Não é fácil. Se eu falar
que é estaria mentindo. Tem uma multidão que pega pesado
pro meu lado, sem falar os que se afastam. Quando eu comecei a escrever
sobre a vida não pensei estar fazendo o que vejo hoje. Cheguei
num ponto que percebi não poder ultrapassar e isso machuca. Escrevi
a casca, não posso quebrar o ovo. Até porque sinto que,
se eu quebrar o ovo, vou transformar em perda tudo que um dia foi ganho.
Percepção é cisco no olho. Você suporta alguns.
Mas todo dia não há como.
Eu entendo seu receio em relatar o que está vivendo. Caminhamos
numa linha tênue. Tem que ter muito cuidado pra não se deixar
agredir por não ter conseguido passar o fato de fato.
Géh: Nem todos estão preparados pra ler,
e se mostrar também te torna vulnerável. Mas pode apostar
uma coisa: assim como pra você foi importante o apoio recebido naquela
fase da sua vida. Pra eles foi importante em dobro poder te ajudar...
E saber que alguém que fazia parte do "outro lado" soube
andar no mundo deles também.
Rocca: Eu já era um deles.
|
| Edição 12 |
A vontade do saber
- A implantação Perversa
Géssica Hellmann
No século XIX ocorreu uma dispersão
de sexualidade e uma implantação múltiplas das perversões.
Multiplicaram-se as condenações judiciárias das perversões
menores, atribuindo-se a irregularidade sexual à doença
mental; da infância à velhice, foram impostas normas caracterizando
todos os desvios possíveis; enfatizaram-se os controles pedagógicos
e médicos.
Segundo Foucault, até o final do século XVIII, três
códigos estavam explícitos: o direito canônico, a
pastoral cristã e a lei civil. Cada código com suas próprias
normas, centrados nas relações matrimoniais. Na lista dos
pecados graves, estavam: o estupro (fora do casamento), o adultério,
o rapto, o incesto espiritual ou carnal, e a sodomia (carícia recíproca).
Quanto aos tribunais, condenavam tanto a homossexualidade quanto a infidelidade,
o casamento sem consentimento dos pais ou a "bestialidade".
Na ordem civil como na religiosa, o que se levava em conta era um ilegalismo
global. Por muito tempo, os hermafroditas foram considerados criminosos
ou filhos do crime.
Os discursos do século XVIII e XIX enfatizavam a investigação
da sexualidade das crianças, dos homossexuais, dos loucos e criminosos
e das "grandes raivas". Os chamados "pervertidos"
levavam o estigma de "loucura moral", "neurose genital"
ou "desequilíbrio psíquico". Daí a adoção
da expressão "contra-natureza" no campo da sexualidade,
que rapidamente se tornavam mais condenadas do que as outras - como o
adultério e o rapto - conquistando praticamente a autonomia: "casar
com parente próximo ou praticar a sodomia, seduzir uma religiosa
ou praticar sadismo, enganar a mulher ou violar cadáveres tornaram-se
coisas essencialmente diferentes". (FOUCAULT, 1988:40)
Foucault afirma que, no século XIX, a severidade do código
foi atenuada, cedida pela própria justiça em benefício
da Medicina. Já em termos de controle, ocorreu grande severidade
em todos os mecanismos de vigilância instalados, pela Pedagogia
e pela terapêutica. Foucault descreveu quatro operações
bem diferentes da simples proibição:
1 - As velhas proibições de alianças consangüíneas
e a condenação do adultério com sua inevitável
freqüência e, por outro lado, os recentes controles da sexualidade
das crianças. É evidente que não se tratam do mesmo
mecanismo de poder: uma, é lei, penalidade; a outra (pelo comparecimento
da Medicina) o adestramento. Organizou-se assim, em torno na criança,
um dispositivo de barragem, com linhas de penetração infinitas.
2 - Esta nova caça às "sexualidades periféricas",
provoca a incorporação da idéia de "perversão"
e uma nova especificação dos indivíduos. O homossexual
do século XIX, torna-se uma personagem, uma anatomia indiscreta.
Nada do que ele é escapa à sua sexualidade. Como uma personagem,
a homossexualidade apareceu quando foi transferida, da prática
da sodomia, para uma espécie de androgenia interior.
3 - Engajadas no corpo, transformadas em caráter, as extravagâncias
sexuais sobrepõem-se à tecnologia da saúde e do patológico.
O poder toma a seu cargo a sexualidade, mediante exames e observações
insistentes, implicando em proximidades e sensações intensas,
assume como um dever de roçar os corpos, acariciar-lhe com os olhos,
estimular regiões do corpo, dramatizar momentos conturbados. Cria-se,
assim, um aumento do domínio sob controle e uma sensualização
do poder em beneficio do prazer. Os exames médicos, psiquiátricos,
pedagógicos e controles familiares podem ter objetivo de dizer
não às sexualidades, mas funcionam como mecanismos de incitação
do prazer e poder.
4 - Surgem assim os dispositivos de "saturação sexual".
Afirma-se freqüentemente que a sociedade moderna tentou reduzir a
sexualidade ao casal. Mas também pode-se afirmar que ela fez proliferar
grupos com elementos múltiplos de sexualidade em busca do prazer.
Na sociedade moderna, instalou-se uma rede de prazeres-poderes articulados.
A separação entre o quarto das crianças e do casal,
a separação dos meninos e meninas, os cuidados com os bebês
(amamentação e higiene), os perigos da masturbação,
a puberdade, a vigilância sugerida aos pais, extorsões e
segredos, isso tudo tranformou-se em uma rede complexa e saturada de sexualidades
múltiplas.
Foucault conclui este capítulo sugerindo que as sexualidades múltiplas,
as práticas sexuais, de lugar, gosto ou tipo de prática,
são, todas elas, formas de poder. Poder e prazer não se
anulam e, sim, se entrelaçam, através de mecanismos que
excitam e incitam.
FOUCAULT, Michel. História da sexualidade: a vontade
de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1988. 16a. edição.
Androginia
Tenho ouvido muita discussão sobre o que é
Travesti, Transformista, Transgênero, Transexual, Drag-Queen e Cross-Dresser.
Realmente essa diversidade provoca confusão na cabeça de
muitos ainda. Vou dar uma pincelada sobre o assunto assim, quem sabe,
aumentando o conhecimento diminua o preconceito!
Quem é travesti?A palavra travesti refere-se ao traje, ou seja,
disfarce no trajar, pessoas que se vestem com roupas do sexo oposto, tra-vestir-se.
Concluindo... É o Transformista, a Drag-Queen e o Cross-Dresser.
Quem é transexual? O prefixo latino “Trans” refere-se
a transitar, transformar, ir além de. Então é transexual,
a pessoa que transforma o seu genital, é a pessoa que recorre à
cirurgia para a mudança de sexo. Trans-sexual. Quem é transgênero?
Como eu disse antes, a palavra trans quer dizer transitar. Então
é trans-gênero, a pessoa que muda de um gênero para
o outro é a pessoa que transforma seu corpo, que pode ser do gênero
masculino para o feminino, ou ao contrario. O transexual não deixa
de ser um transgênero, pois além de mudar de sexo, ele também
mudou de gênero. Entre todas as diversidades de transgêneros,
podemos afirmar que as crossdressers constituem um dos grupos de maior
complexidade. Geralmente confundidas com as travestis ou com as drag queens,
em virtude do fator comum que é o uso de roupas femininas, as CD´s,
entretanto e apesar de todas as afinidades, possuem características
próprias e intransferíveis, relacionadas diretamente com
o trânsito possível entre os universos masculino e feminino.
CROSSDRESSER é um homem que esporadicamente e por motivos relacionados
com a sua libido ou com as suas pulsões sexuais, cultiva o hábito
de usar roupas femininas. Independente de seu gênero ou opção
sexual. Podem ser heterossexuais, homossexuais ou bissexuais. E descobrem
a identidade de gênero feminino sempre muito antes de conseguir
perceber as diferenças sexuais existentes entre homens e mulheres.
Tudo isso que expliquei detalhadamente são vertentes de uma coisa
linda que se chama androginia. Quem sabe um dia, nós não
vamos mais precisar de tantas palavras para designar o que faz parte de
um só gênero. O gênero humano!
Se você, alguém que você gosta, ou até um filho
aparecer falando ser algo do que citei, relaxa, ele continua humano viu?
O coração dele certamente continua o amando. E ele aprendera,
por enfrentar o preconceito, a engolir a possível pena que sentiria
de você ;-)
Enquanto alguns usam a cabeça pra se ocupar em repudiar o prazer
da maquina que é o corpo humano, só vem uma frase na minha
cabeça, sabiamente escrita por um louco que o mundo admira:
Te chamam de ladrão,
de bixa, maconheiro.
Transformam o país inteiro num puteiro,
Pois assim se ganha mais dinheiro.
A TUA piscina ta cheia
de ratos,
TUAS idéias não correspondem aos fatos.
E o tempo não para, pessoa!
Abra sua mente pra imundice real que é, e esta, nossa
grande pátria desinteressante. Despeitar o prazer alheio é
pequeno demais na atual situação prostituída que
nossa pátria (eu e vocês) nos encontramos. Não acham?
Rocca Stockler
|
|
| Edição 11 |
A vontade do saber
Géssica
Hellmann
O intuito desta resenha é apresentar
os primeiros pensamentos expressos nos dois primeiros capítulos
da História da Sexualidade - A vontade do saber, de Michel Foucault.
Segundo Foucault, no início do século XVII, os corpos pavoneavam
sem refreios, gestos diretos, discursos sem vergonha, transgressões
visíveis, anatomias a mostra, crianças vagando entre adultos.
No final deste século, porém, a sexualidade é cuidadosamente
encerrada dentro dos quartos dos pais.
Afirmava ele que nesta época tinha-se o pensamento que as crianças
não possuíam sexo: razão para proibi-las de falar
neste assunto (final do século XVII seguindo pelo século
XVIII). Este conceito só viria a mudar com os estudos de Freud.
O discurso de repressão sexual, iniciado no século XVII,
após centenas de anos de expressão sexual livre, é
protegido historicamente e politicamente, coincidindo com o início
do capitalismo.
A explicação enunciada por Foucault sobre o pensamento da
época: "se o sexo é reprimido com tanto rigor, é
por ser incompatível com uma colocação no trabalho,
geral e intensa; na época que se explora sistematicamente a força
de trabalho..." (FOUCAULT, 1977:11).
O que revela que um dos principais motivos, da repressão
sexual, foi controlar a população
para manter uma economia a favor dos dirigentes.
Outra dialética apresentada neste primeiro capítulo foi:
"se o sexo é reprimido, isto é, fadado à proibição,
a inexistência e ao mutismo, o simples fato de falar dele e da sua
repressão possui como que um ar de transgressão deliberada."
(FOUCAULT, 1988:12). Com esta afirmação Foucault quiz levantar
o benefício do locutor que emprega essa linguagem, que de certa
forma se encontra fora do alcance do poder.
A idéia da repressão sexual, não é somente
objeto de teoria. A afirmação de uma sexualidade que nunca
fora dominada com tanto rigor, como na época da hipócrita
burguesia negocista, é acompanhada pela ênfase de um discurso
destinado a dizer a verdade sobre o sexo, a modificar sua economia na
real, mudando seu futuro. Podemos observar que esta "verdade sobre
o sexo", era dita com a finalidade que os efeitos beneficiassem a
burguesia e os que estavam no poder.
No primeiro capítulo, Foucault levantou várias questões,
não para negar a teoria de repressão sexual, e sim para
explicar por quais razões e por que meios se estabeleceu esta repressão.
Questões tais como:
- A repressão do sexo seria realmente a acentuação
ou talvez a instauração desde o século XVII, de um
regime de repressão ao sexo? (Questão histórica)
- A mecânica do poder, a que é posta em jogo em uma sociedade
como a nossa, seria de ordem repressiva? (Questão histórica-teórica)
- O discurso crítico que se dirige a repressão viria a cruzar
com a mecânica do poder, que funcionava até então
sem constatação, barrando-lhe, faria parte dessa mesma rede
histórica daquilo que denuncia, chamada de repressão? (Questão
histórica-política)
No segundo capítulo ele se propõe a responder as questões
levantadas sobre a hipótese repressiva, explicando o motivo da
incitação dos discursos.
Como já havia comentado, no final do século XVII, não
se podia falar de sexo com as crianças; a regra era silêncio
e discrição absoluta. Mas, quanto ao nível de discurso
a regra era a proliferação, principalmente a partir do século
XVIII. O cerco às regras da decência, provocou uma intensificação
nos discursos indecentes.
Nos discursos no campo do poder havia uma incitação institucional
para falar do sexo, sob forma da articulação explícita
e do detalhamento. A evolução do pastoral católico
e do sacramento da confissão, depois do concílio de Trento,
obrigava todo um exame minucioso do ato sexual. A discrição
é cada vez mais recomendada: no que se refere ao pecado contra
a pureza. é necessária a maior reserva. A contra-reforma
católica dedicava-se a acelerar a quantidade por ano das confissões,
atribuindo grande importância às penitências - todas
as insinuações carnais, pensamentos, desejos, deleites,
tudo detalhadamente. Por este meio, a Igreja, pretendia controlar o seu
"rebanho", através do amplo e detalhado conhecimento
dos hábitos sexuais da população.
O projeto de uma colocação do sexo em discurso formava-se
já há muito tempo, numa tradição ascética
e monástica. O Século XVIII fez dele uma regra para todos.
Uma obrigação colocada ao bom cristão.
O essencial: que o homem ocidental há três séculos
tenha permanecido atado a essa tarefa que consiste em dizer tudo sobre
seu sexo, que a partir da época clássica tenha havido uma
constante valorização do discurso sobre sexo. Censura sobre
sexo? Pelo contrário, constitui-se uma aparelhagem para a produção
de discursos sobre sexo, suscetíveis a funcionar e de serem efeito
para sua própria economia capitalista. Nasce assim, no século
XVIII, uma incitação política, econômica, técnica
a falar de sexo, sob forma de contabilizar, classificar, especificar,
através de pesquisas quantitativas ou casuais. Foucault demonstra
aqui a verdadeira intenção da repressão sexual, não
como uma forma de censura, mas como uma forma de controle populacional
com objetivos políticos e econômicos.
No século XVIII o sexo torna-se questão de polícia,
não como repressão da desordem e sim como necessidade de
regular o sexo por meio de discursos e não pelo rigor da proibição.
A polícia tinha o papel principal não com o rigor de proibir,
e sim de "rotular" os que não seguiam o discurso da época.
Com o surgimento do problema "população", entendeu-se
que controlar o sexo era de certa forma controlar a natalidade, idade
de casamento, filhos legítimos e ilegítimos, freqüência
das relações, a maneira de torná-las fecundas ou
estéreis, celibato entre outros. Forma-se toda uma teoria de observação
sobre o sexo, surgindo as análises de condutas, seus efeitos no
limite entre a biologia e o plano econômico. Através de pesquisas,
governantes e capitalistas controlavam a população, visando
principalmente dominar a "força de trabalho", em benefício
econômico deles próprios.
Já em meados do século XVIII, era incentivado através
de discursos, a orientação de educadores, administradores,
médicos e pais, a uma educação sexual para as crianças,
permitindo intensificar a multiplicação dos discursos, mudando
a estratégia familiar na educação sexual das crianças:
a idéia de que a criança não possuía sexualidade
não teria sido derrubada, mas a educação sexual serviria
para exercer controle sobre elas.
Foucault conclui no fim do segundo capítulo que o que é
próprio das sociedades modernas não é terem condenado
o sexo a permanecer na obscuridade, mas sim o terem devotado a falar dele
sempre, o valorizando como segredo.
FOUCAULT, Michel. História da sexualidade: a vontade
de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1988. 16a. edição.
A manipulação do exercício da sexualidade
pelo processo de socialização
Somos seres sexuais. É fato. Somos seres políticos.
Também é fato. Ao longo da vida sofremos um intenso processo
de sócio-politização que visa nos domesticar, tornar-nos
aptos para o convívio em sociedade.
Por mais que nos acreditemos livres ou liberados, quando nos distanciamos
das nossas experiências e assumimos o papel de sujeito observador
percebemos que para o nosso desejo foram estabelecidas normas que não
fomos nós mesmos que criamos e às quais muitas vezes nos
submetemos sem sequer ter a consciência desta submissão.
Isso acontece porque o nosso processo de erotização é
manipulado desde muito cedo, assim como outras áreas relativas
à socialização dos seres humanos; na verdade, existe
um considerável ‘pacote’ de conhecimentos que são
socialmente distribuídos e este ‘pacote’ inclui a sexualidade.
Para citar apenas um destes poderosos condicionantes, basta lembrar que
os homens são ensinados desde meninos a desejar (e o que desejar)
e as mulheres aprendem a se tornar desejáveis segundo os padrões
do que os homens estão aprendendo a desejar. Escapar a esse controle
consiste num esforço intelectual e da sensibilidade, exatamente
nessa ordem.
Tive um aluno cujo apelido na faculdade era “deus grego”,
apelido que se enquadrava perfeitamente com sua aparência; pois
bem, esse apolo perseguido por todas as ninfas da escola se sentia muito
atraído por uma moça que não se encaixava nos padrões
de beleza vigentes e também não se importava com isso. Ele
tentou convencê-la a manter um romance escondido, claro, sem explicar
o verdadeiro motivo, ou seja, sua incapacidade de rebelar-se contra aquilo
que seria lícito desejar, que o colocaria numa posição
desconfortável diante do grupo social com o qual interagia. Ela
teve maturidade afetiva para não aceitar.
Como observadora da situação fiquei satisfeita ao notar
que uma mulher, embora jovem, não se sentiu encurralada pelo condicionamento
sócio-cultural que a obriga a ter a aparência que os homens
estão condicionados a desejar. Lamento pelo ‘apolo’
que teve uma oportunidade de se conhecer melhor, conhecer melhor a realidade
dos seus desejos e de sua sexualidade e deixou-a passar.
Entendo que não é fácil escapar da prisão
do simulacro: estar condicionado é o oposto de estar livre, já
que liberdade implica agir como nos parecer melhor, mas, na sociedade
contemporânea, mais do que nunca, o ‘natural’ é
estar condicionado, portanto, rejeitamos os estranhos, os anti-naturais,
os que se rebelam.
Em algum momento, esquecemos que sexo é anarquia e passamos a vivenciar
uma pseudo-liberdade consentida, governada pelo mesmo poder que promovia
a repressão, mas, agora, fortalecido por estratégias novas
e mais eficazes.
Ultrapassar o condicionamento é essencial para desenvolver o nosso
saber erótico, e a única forma de repudiar a regulamentação
do nosso prazer sexual. É preciso que o desejo se torne novamente
o que nunca deixou de ser: um exercício de dádiva. Nada
mais anárquico do que isso.
Sandra R. S. Baldessin
|
|
| |
Confira outras
edições nos Arquivos Géh
- Arte, sexualidade e corporalidade! |
|