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Edição 15

Eros

Eros é a idéia de uma força que liga: fisicamente pelo sexo; emocionalmente, pelo amor; e mentalmente, pela imaginação. Hirsch começa pelo conceito de Freud de "Instinto de vida", a que ele chamou de "Eros". Antes de tê-lo criado, Freud deu ênfase à sexualidade como fonte de motivação para muitas atividades fossem ou não sexuais. Ao introduzir o conceito de Eros, Freud inseriu nele a sexualidade, chegando à visão de que a pulsão da vida, ou Eros, mantém unidos os seres vivos.

Geneviev - eros - - arte sexualidade
Eros - Geneviève Van der Wielen

O estado emocional de uma pessoa pode reagir de forma semelhante ao sistema imunológico, repelindo idéias ou pensamentos estranhos. Para que a cópula - entendendo-se cópula como qualquer forma de união: sexual, emocional ou mental - seja possível, a "estranheza" - a diferença da outra pessoa ou idéia - precisa ser vista como relevante. O sexo oposto tem um corpo com características sexuais diferentes, na diferença contém a promessa de algo novo.

Seguindo este conceito de Eros, Freud fundamenta de um modo novo o seu interesse nos instintos sexuais, criando uma teoria unificada de sexo e do amor, em que nenhum deles seja secundário e ambos sejam formas de ligação entre elementos diferentes.

Segundo Hirsch, a teoria das pulsões fundamenta a idéia caricata de que "os homens só querem sexo". Já na teoria das relações de objeto, prevalece a caricatura de que "as mulheres só querem amor", dando a impressão que as mulheres não têm desejos sexuais. Nessas duas visões, existe uma divisão entre sexo e amor. De acordo com a teoria das relações de objeto, o amor parece mais um desejo de segurança do que o desejo de estar com a outra pessoa.

Isso não quer dizer que a quantidade e a qualidade de amor em um namoro sejam as mesmas que a de um casamento duradouro, mas sim que a consideração pelo outro possibilita a cópula entre duas pessoas diferentes. Do mesmo modo que o amor, a maneira de expressar o sexo é bem diversa entre amantes, e digamos, mães e filhos, mas sem dúvida falta alguma coisa se a relação mãe-filho não tiver nada de sensual.

O conceito freudiano de Eros é um modelo de sexualidade complexo, ajustável ao desenvolvimento sexual diferente dos indivíduos. A ênfase na genitalidade baseia-se na sua conclusão de que há um elo entre relação sexual e vida nova (procriação). Do ponto de vista de Eros, não existiria cópula, mesmo ocorrendo penetração, quando o corpo é usado do outro é usado somente como objeto de masturbação.

Existe uma diferença entre ver o relacionamento com outra pessoa como se desejaria que fosse e descobrir o que o relacionamento realmente é. O amor sempre se inicia pela idealização, ignorando aquilo que o contradiz. Ao mesmo tempo a idealização pode dissipar-se quando a pessoa passa a conhecer melhor a outra, tendo condições de tornar o amor mais complexo e generoso.

O trabalho de imaginação é uma cópula entre a vida interior do indivíduo e o mundo que o cerca. Do ponto de vista da psicanálise, a capacidade de ser imaginativo está relacionada com a capacidade de se deixar influenciar. Um exemplo adotado por Hirsch, sobre a origem da imaginação: o bebê começa a ter fome e se torna irrequieto. Faz então movimentos de sucção com a boca e parece satisfeito. Depois de alguns minutos, começa a gritar. O que aconteceu nos poucos minutos de satisfação?

O bebê talvez tenha tido uma alucinação com o seio, acreditou ser alimentado, até que a dor da fome cortou a alucinação. A alucinação é predecessora dos devaneios. Da maneira análoga, as pessoas adultas têm alucinações em que tentam dar a si mesmas o que querem e, especialmente, tentam se recompensar e acalmar.

As relações deturpadas também são uma maneira de evitar a cópula e a diferença (separação). O autor cita o exemplo de um paciente de Betty Joseph, que notou que seu paciente estava fazendo algo com os dedos, encostando a ponta dos dedos de uma mão na outra com muita suavidade quase sem parar, como uma atividade masturbatória. O paciente, de forma consciente era apartado da sua mulher e do analista, mas não tinha consciência de que essa separação expressava um medo de proximidade.

Em uma exploração analítica, Betty Joseph e o paciente descobriram com o tempo que ele podia "tocar" uma relação, mas não consumá-la. Pode parecer estranho um sentido de estimulo sexual em uma ação tão aparentemente trivial. No entanto, conhecemos gestos de mãos com um sentido sexual que são trocados socialmente, como mostrar o dedo médio.

Alguns contemporâneos de Freud e muitos outros depois deles apresentaram, por exemplo, argumentos que inferem que a teoria freudiana da sexualidade funciona como uma pressuposição, ou seja, ele achava ou reconhecia que o sexo estava em tudo e portanto "via o sexo em tudo". Já o psicanalista Bion dizia que a teoria deveria ficar na mente do analista como uma pré-concepção, referindo-se ao uso de uma teoria para ajudar a reconhecer o que poderia ser o material, em vez de uma teoria usada para impor um julgamento prematuro.

Nas palavras de Hirsch (2005:67): "As pressuposições são interessantes por si sós, especialmente no contexto Eros. Elas podem se parecer com a ligação promovida por Eros mas, quando rígidas, são na verdade letais para o raciocínio".

Relacionando as três áreas onde Eros atua - sexo, amor e imaginação - percebemos qualidades em comum:
- As relações entre as pessoas e dentro do próprio indivíduo são extremamente complexas. Sentir-se vivo (Eros) abrange o amor e o ódio do indivíduo;
- É imprescindível reconhecer as diferenças entre as pessoas para se ter uma vida própria pois só o reconhecimento faz emergir possibilidade de cópulas - vínculos primordiais do Eros.

HIRSCH, Nicola Abel. Conceito da Psincanálise: Eros. Rio de Janeiro: Relume Dumará: Ediouro; São Paulo: Segmento-Duetto, 2005.

 

Gravidez

Géh e Léh esperam um bebê! Como editora deste espaço, gostaria de participar com vocês informações úteis para gestantes.

Diego Manuel - Sweet Girl - - arte sexualidade
Sweet-girl por Diego Manuel

Tipos de Parto

É comum encontrarmos artigos, ou mesmo cursos de preparação para gestantes, focados na questão dos "tipos de parto", que geralmente acabam artificialmente classificados da seguinte forma:

Parto Normal
Parto Vaginal
Parto Natural
Parto Fórceps
Parto de Cócoras
Parto na Água
Parto Humanizado
Parto sem Dor
Parto Leboyer
Cesariana

Em primeiro lugar, devemos pensar o seguinte: é possível classificar partos antes deles acontecerem?

Em segundo lugar: mesmo que fosse possível, é coerente achar que partos, nascimentos, bebês, mulheres possam ser classificados por tipos? Vamos fazer um balanço da história recente da obstetrícia, para entender porque e como os partos foram classificados.

A separação dos partos por tipos aconteceu em decorrência do nosso sistema obstétrico. Desde que o atendimento passou a ser hospitalar, feito exclusivamente pelos médicos, em macas horizontais, com as mulheres em posição ginecológica, a classificação ficou óbvia: "Parto Normal" ou "Cesariana". Não havia alternativa. Se a mulher não conseguia dar à luz nessas condições padronizadas, ia para a cesárea.

As condições padronizadas sob as quais as mulheres deveriam tentar o "
Parto Normal" eram: separação do companheiro ou qualquer acompanhante, salas de pré-parto coletivas sem qualquer privacidade, impossibilidade de livre movimentação, soro com hormônios para acelerar as contrações e portanto encurtar o trabalho de parto, período expulsivo com a mulher deitada de costas, pernas amarradas a suportes, comandos para fazer força, enfermeiras empurrando a barriga da mulher, entre outras situações que variavam de serviço para serviço. Convém lembrar que em muitos hospitais do Brasil essa ainda é a regra, infelizmente, indo contra todas as recomendações da Organização Mundial da Saúde.

Eventualmente o parto ficava difícil e havia a aplicação do fórceps alto (um instrumento que consiste de um par de colheres metálicas), que buscava a cabeça do bebê no canal de parto para puxá-lo para fora. Essas experiências eram traumáticas para a mãe e com freqüência lesavam irreversivelmente o bebê. Era o "Parto Fórceps" ou ainda "Parto a Ferro". Hoje em dia caiu em desuso e os médicos agora usam o "fórceps de alívio", quando o bebê já está mais baixo no canal de parto. Usado com parcimônia seria um excelente recurso para acelerar o período expulsivo em casos de emergêcia ou sofrimento fetal, lembrando que estas são ocorrências extremamente raras em partos de baixo risco. O uso rotineiro é desconselhado, o que vale para qualquer intervenção médica em um processo natural e fisiológico.

A partir da década de 70 o mundo inteiro testemunhou inúmeros movimentos pelo resgate do parto como um evento social, afetivo e familiar. Aqui e ali surgiram obstetras preocupados com o excesso de medicalização e grupos de consumidoras que lutavam por melhores condições para darem à luz seus bebês.

Na França, Leboyer foi um dos expoentes desse movimento e advogou uma forma mais amena de se nascer: pouca luz, silêncio, sem violência, banho do bebê perto da mãe, amamentação precoce. No entanto seu foco era o bebê, não a mulher. Geralmente esta estava deitada de costas, pernas em estribos e o uso da episiotomia era rotina. De qualquer forma, por seu pioneirismo, pela qualidade de nascimento oferecida ao bebê - mais do que pela qualidade de experiência de parto oferecida à mãe - no mundo inteiro esses partos ficaram conhecidos por "Parto Leboyer".

Ainda na França, na cidade de Pithiviers, Michel Odent, entre várias inovações dignas de mérito, começou a usar banheira com água quente para o conforto das parturientes. De lá para cá, o "Parto na Água" tem sido utilizado no mundo inteiro, em banheiras especiais ou improvisadas. Nas maternidades européias as banheiras são oferecidas às parturientes tanto para o alívio das dores do trabalho de parto, como para o parto em si. Estudos científicos comprovam que o uso da água quente no trabalho de parto é um excelente coadjuvante no combate à tensão e à dor. No Brasil pouquíssimas clínicas e médicos oferecem esse conforto às pacientes, infelizmente.


Onde havia liberdade para movimentação das mulheres, o "Parto de Cócoras" ganhou terreno, por ser mais rápido, mais cômodo para a mulher e mais saudável para o bebê, pois não se produzia mais a compressão de importantes vasos sanguíneos, o que acontece com a mulher deitada de costas. No Brasil o Dr. Moysés Paciornik estudou comunidades indígenas e resgatou o parto verticalizado. Criou com seu filho Dr. Cláudio Paciornik uma cadeira para ser usada em hospitais, que permitia várias posições para a mãe, sem comprometer o conforto do médico. Embora não haja necessidade de cadeiras especiais para que a mulher assuma essa posição, muitos profissionais afirmam que não fazem partos de cócoras porque no hospital não existe "a cadeira para parto de cócoras" à disposição.

Desde os anos 80, com a popularização das questões ecológicas, e com os movimentos de resgate de uma vida mais saudável, natural e espiritualizada, muitas mulheres passaram a optar pelo "Parto Natural", sem intervenções, sem anestesia e domiciliar em muitos casos. No entanto o termo "Parto Natural" muitas vezes tem sido utilizado como sinônimo de "Parto Vaginal", o que nem sempre é verdadeiro. Um parto vaginal com episiotomia, rompimento artificial da bolsa d'água, aceleração com soro, anestesia, raspagem dos pêlos, entre outras intervenções, não pode ser classificado com o nome de "Parto Natural".

O termo "Parto Sem Dor" tem várias conotações. Os métodos psicoprofiláticos desenvolvidos especialmente nos Estados Unidos propunham uma espécie de treinamento às gestantes, baseado em técnicas respiratórias, de relaxamento, de concentração, entre outas. A idéia geral é que uma mulher bem preparada para o parto e bem acompanhada durante todo o processo terá muito menos dor do que uma mulher assustada e tensa. A idéia faz sentido, mas convém lembrar que a dor do parto continua existindo, agora sem o sofrimento causado por medo e tensão. Os métodos mais conhecidos são Bradley, Lamaze e Hipnobirth.

No Brasil "Parto Sem Dor" é comumente confundido com parto sob anestesia. Obviamente a anestesia bloqueia a dor, mas também diminui as sensações das pernas e do assoalho pélvico. Essas sensações são responsáveis pela força que a mulher faz na hora de "empurrar" o bebê para fora. Portanto, embora haja o bloqueio a dor, alguns efeitos indesejáveis como a perda do controle sobre o processo do parto, entre outros, podem ocorrer. Em muitos serviços médicos a anestesia é aplicada no final do trabalho de parto, já no período expulsivo, de modo que o período de dilatação não se passa sob efeito das drogas anestésicas. De qualquer modo, as formas naturais de se lidar com a dor deveriam ser largamente oferecidos e utilizados antes de serem aplicados os métodos farmacológicos de bloqueio da dor.

Atualmente um novo termo tem sido utilizado: "Parto Humanizado". Como não houve uma formal definição do termo, ele é usado em todo tipo de circunstância. Para o Ministério da Saúde, parto humanizado significa o direito que toda gestante tem de passar por pelo menos 6 consultas de pré-natal e ter sua vaga garantida em um hospital na hora do parto. Para um grupo de médicos, significa permitir que o bebê fique sobre a barriga da mãe por alguns minutos após o parto, antes de ser levado para o berçário. Em alguns hospitais públicos significa salas de partos individuais, a presença de um acompanhante, alojamento conjunto, incentivo à amamentação, entre outros benefícios.

>No mundo inteiro, no entanto, o que está se discutindo é: "o atendimento centrado na mulher". Isso deveria ser o correto significado de parto humanizado. Se a mulher vai escolher dar à luz de cócoras ou na água, quanto tempo ela vai querer ficar com o bebê no colo após seu nascimento, quem vai estar em sua companhia, se ela vai querer se alimentar e beber líquidos, todas essas decisões deverão ser tomadas por ela, protagonista de seu próprio parto e dona de seu corpo. São as decisões informadas e baseadas em evidências científicas.

Enquanto nós mulheres não reivindicarmos nossos direitos, enquanto as decisões couberem aos profissionais prestadores de serviços médicos, aos hospitais que elas escolheram, à diretoria que cria as condições de atendimento, enfim, enquanto deixarmos que os outros cuidem do que é nosso, os "tipos de parto" fazem sentido. É a classificação dos partos que nos serão permitidos ou oferecidos de acordo com as necessidades, conveniências e crenças dos outros.

Ana Cris Duarte

"Republicado com autorização da autora. Mais informações sobre o tema nos sites:www.amigasdoparto.com.br, www.doulas.com.br, www.maternidadeativa.com.br

Edição 14

Castração

Neste trabalho, abordamos o conceito psicanalítico de castração tal como exposto por Ivan Ward (2005), através de casos expostos por psicanalistas consagrados.

Damien Hirst - mother- arte sexualidade
Mãe e filho por Damien Hirst (1993)

O complexo de castração consiste em uma diversidade de crenças e emoções infantis relacionadas com a consciência nascente de uma identidade sexual definida. No menino, a crença de que a mãe teve o pênis decepado pelo pai e que seu próprio órgão sexual pode estar sujeito ao mesmo perigo. Já para a menina, a crença de que ela teve um pênis que foi removido brutal e injustamente.

Freud em seus ensaios que abordam o complexo de castração, foram baseados nos relatos das crianças. Na época da última grande obra de Freud, o complexo de castração praticamente se fundira ao complexo de Édipo.

Melaine Klein, em suas pesquisas, demonstrou que as inibições na escola podem estar intimamente ligadas ao pavor da castração, ou seja, se eu fizer "X" serei castigado (com a castração). Só se pode superar a inibição quando esta angústia é solucionada.

Na Antigüidade, era comum o uso de símbolos fálicos como proteção contra o perigo. Segundo Freud, é preciso muito pouco para que se desencadeie o sentimento da ameaça., como no caso de um menino de 14 anos, Daniel, que contou sobre um objeto curioso de que ele ouvira falar no berçário do Centro Anna Freud. Chamava-se "willy-cut" (corta-pipi). Era como uma tesoura de jardinagem, mas com funções bem mais específicas. O garoto tivera essa convicção com pouquíssimas evidencias: ouvira um dos terapeutas do centro dizer uma palavra enigmática "Winnicott" (nome do psiquiatra inglês).

O psiquiatra Samuel Ritvo escreve sobre um caso em que a alucinação é substituída pela fantasia: O paciente sofria de castração intensa e consciente, fantasiando muitas vezes por dia que era vítima de castração acidental ou intencional. Ele imaginava que um cachorro fosse abocanhar o pênis dele, ou que quando estivesse saindo de casa, cairia da escada e o seu pênis se prenderia em algo e seria arrancado.

Ward utiliza outro exemplo bastante recente: o dos fanáticos político-religiosos que lançaram aviões contra o World Trade Center e o Pentágono. Os comentaristas classificaram os acontecimentos como um "toque de despertar" para a nação americana. Ora, as torres não deixavam de ser símbolos fálicos de poder, de modo que esse incidente pode ser relacionado às dificuldades normais de amadurecimento. A destruição dos símbolos foi interpretada pela metáfora do "crescimento", como se a investida contra esses símbolos do poder, de alguma forma, lembrasse as perdas da infância.

A castração é fundamental em quatro aspectos: a aceitação da diferença sexual; a negação desta diferença; a produção de excitação e como causa de inibição sexual. Para Freud a castração torna-se um símbolo da diferença sexual, e a superação da ameaça determina a identidade sexual.

A psicanalista Joyce McDougall, relata a historia de seu neto de 4 anos. Depois de ter passado o dia inteiro perguntando sobre a gravidez de sua mãe, o garoto ansioso para aproveitar o novo conhecimento, e quando o pai chega faz um pedido especial: "você poderia, por favor, por um bebê na minha barriga também"? McDougall relaciona esse fato com uma homossexualidade primária, ressaltando as possibilidades bissexuais da primeira infância.

>A sexualidade pervertida usa variadas formas para evitar a ameaça da castração. O exibicionista fálico defende-se da angustia da castração e se tranqüiliza com a idéia de que seu pênis não é mutilado, mas poderoso e lindo. Ao concentrar o desejo sexual num objeto, o fetichista rejeita a existência dos genitais femininos e terror da castração que eles originam. Os sadomasoquistas vencem a angústia da castração provocando dor, inclusive recorrendo a agressões genitais.

A analista israelense M. Woolf conta o caso de uma garotinha criada num Kibbutz que se recusava a dormir no chalé das crianças. Toda a vez que a mãe tentava levá-la meio adormecida, a criança acordava chorando e tremendo: "O cachorro arrancou meu pipi"

Na arte contemporânea também podemos verificar o sentimento de castração sofrido por Damien Hirst. Mãe e filho divididos - uma vaca e um bezerro serrados ao meio e colocados em quatro tanques de formol - é uma representação simbólica da separação brutal entre mãe e filho. Hirst nasceu sem alarde em Bristol; o pai não quis conhecê-lo e um ano depois a mãe mudou-se para Leeds, sua cidade natal, casando-se novamente. A obra não trata de vida e morte, mas é uma forma de simbolizar o que o menino sentiu quando a mãe voltou a se casar: sua agonia ante os sentimentos de traição. A obra o modifica, porque não é mais ele que sofre a ruptura provocada pela divisão, mas é ele que, no ato de destruição e criação, assume o lugar do pai e seu papel imaginário. É em razão do medo da castração que o pai tem um efeito inibidor, não só a castração que se teme sofrer, mas a mutilação genital que se imagina da mãe.

Ward (2005:46) relata a sua reação ao assistir ao filme "A professora de Piano (2001)". "Me senti com calor e suado, tonto e nauseado. Um suor frio fez a minha pele formigar. Eu sabia que ia desmaiar." A cena que provou o desmaio era a representação de uma automutilação genital feminina. A professora entra no banheiro de sua casa, nua, desembrulha uma lâmina de barbear de um pedaço de pano, entra na banheira e senta-se na beirada. Com um espelho pequeno para ver melhor as pernas, ela corta os genitais com a lâmina, e o sangue pinga na banheira. A cena é filmada em perfil, e o que se vê realmente é o gotejar de sangue na banheira. Ward se pergunta: "Por que isso me alarmou tanto?". Argumenta que não era devido ao sangue, pois estava acostumado com os seriados dramalhões de hospitais, em que sempre havia muito sangue e isso nunca lhe provocou reação semelhante. Até mesmos cenas de castração como em "Império dos Sentidos", não produziram esse efeito. Ele concluiu que sua angústia não deve ter relação direta com a imagem, mas com o tema de mutilação genital, que deve ter aflorado inconscientemente.

Ward conclui que o complexo de castração é um conjunto de crenças infantis; um organizador da diferença sexual; um determinante fundamental do
caráter e do destino das pessoas. Os efeitos deste complexo são amplos e variáveis para o individuo e para a cultura.

WARD, Ivan. Conceitos da Psicanálise: Castração. Rio de Janeiro: Relume Dumará: Ediouro; São Paulo: Segmento-Duetto, 2005.

 

Edição 13

Inferninho

Saudades daquele inferninho! Isso mesmo. Aquela boate GLS num beco de Sampa! Saudades de ser a única "raxa" trabalhando entre Drag Queens! Saudades da bee berrando sempre que me via chegar “Lá vem àquela que dá a ELZA". Saudades do inferninho que derretia a maquiagem toda que tinha que usar. Do Velvet Goldmine em terras paulistas. Dançar "Down By the Water - PJ" com aquela gente.

Rocca Stockler - - arte sexualidade
Foto: Renato Stockler

Saudades daquelas pessoas tão maravilhosas e tão perseguidas pelos preconceituosos. Perdi a conta de quantas vezes olhei pra alguém com pena. Pena da postura pequena, cabeça fechada... Pena de saber quanto àquela pessoa estava perdendo por ser medíocre. Do namorado que propôs “pro nosso namoro continuar você tem de escolher eu ou ser hostess desse inferninho”. Pedi desculpa, mas não podia chorar e correr o risco de borrar a maquiagem, afinal, tinha a que estar ali até às 8h da manhã de segunda-feira. Se cuida, querido!

Saudades de andar de metrô as nove da manha e ser observada como um alien. Coturnos, corseletes and make-up. Saudades do rosto assustado da minha mãe quando me reencontrou quatro anos depois de me mandar embora. Rosto de descrença e orgulho. Como quem diz “Ela sobreviveu, ainda que eu não faça mais idéia de quem seja minha filha, mas to vendo uma mulher com RG de menina. Confesso que senti muita magoa da minha mãe. Papai, e melhor amigo, morre. Mamãe surta. E Rocca teve que enterrar os dois em menos de três meses. Um morto, literalmente. Ela, uma viva morta que, surtada, falou, tchau Rocca. Mas quer saber? Foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida. Te vira nêga é o que toda mãe deveria fazer com os filhos”.

“Ela é tão nova!”, falou o tiozinho da padaria um dia desses. Eu agradeci sorrindo e concordei “sim, sou nova. Uma velhinha assanhada” Ele não entendeu, mas retribuiu o sorriso! Kadu fala que se não me conhecesse há 15 anos jamais teria casado comigo. Ele sabe que sempre fui responsável demais. É perfeitamente possível estar num banheiro compartilhado por homens e mulheres drogados e bêbados e não ser um. Ter 19 tatuagens e não ser um marginal perigoso fora da jaula. E quando vinham aqueles zombies oferecendo “um pega” eu agradecia falando “não obrigada eu sou o traficante e não o usuário” e caía na gargalhada. Sempre fui tão moleca no meio de tanta “droga”.

E os porteiros que achavam que eu era puta. Por que? Ué, por pagar a PUC e o apErtamento sozinha, com 18 anos... “Isso só puta consegue” – Eu caia na gargalhada – Não há argumento que convença quando você chega no prédio pela manha fedendo a cigarro nem corselete e salto alto! Eu brincava: “Tá louco! Puta? Não querido, eu sou acompanhante de luxo” e mais gargalhada. Bons tempos...

"Hoje digo à essas pessoas que tantas vezes acolheram aquela garota dos ojos de perra (olhos de cachorra): A mulher que sou hoje, é reflexo do que aprendi com vocês. Quando meus olhos buscam visualizar o que valeu a pena, garanto, vocês foram o que valeu a pena."

Com todo meu amor, muito obrigada!

Rocca Stockler

Entrevista

ROCCA - As Mãos Estendidas do Universo Sexual Paralelo

por Alexei Gonçalves e Géssica Hellmann

Rocca Stockler, no depoimento publicado acima, conta sua vivência entre grupos cujo comportamento social e sexual as transforma em vítimas de preconceitos nem sempre justificados, gente que é rotulada de forma infame, mas que são capazes de estender as mãos, às vezes com espírito mais solidário do que aqueles que a sociedade rotula como "bons rapazes", "boas moças", "cidadãos exemplares".

Ela não é a única. Em 31 de agosto deste ano, marquei minha volta ao Multiply com um pequeno texto de acesso restrito intitulado "Sim, eu sou racista":

"Sou homem, heterossexual, branco (bem, pelo menos para os padrões do IBGE, defino-me etnicamente como "vira-lata") e católico (para efeito de preenchimento de formulários).
Passando minha vida em revista, reparo que, sempre que passei por apertos, quem me estendeu a mão e foi legal comigo foi "a mulher", "a prostituta", "o viado", "o crioulo", "o crente", "o judeu". Então, confesso meu racismo. Com algumas exceções, é claro, não suporto homens heterossexuais brancos e católicos. Ô raçazinha inútil que não serve pra nada...".

Trata-se, obviamente, de uma ironia. Também tenho ótimos amigos homens heterossexuais brancos e católicos.

Ao conhecer a história de vida de Rocca Stockler, decidi que PRECISAVA saber suas idéias a respeito. Conversamos sobre o assunto e a Géh conduziu o bate-papo que vocês lerão agora, com exclusividade para o gehspace:

Géh: Comparando com a sua experiência de vida, qual a sua opinião sobre o texto do Alexei? A "minoria", os marginalizados, são mais solidários, com quem está passando por problemas?

Rocca: Por problemas todo mundo passa, poucos encaram. Acredito que a minoria já é maioria. Existe uma 'hierarquia' de rótulos sociais, não há mais maioria e minoria. O ponto X, ou G, seria o preconceito que também está em todos os cantos. Sim, são as putas, os travestis, os drogados, eu, você... Essa questão abrange uma quebra de limite pessoal e não maiorias e minorias.

Géh: "Minorias" talvez realmente não seja o termo adequado, e sim os que sofrem de "preconceitos".

Rocca: Essa moeda tem mais de dois lados. Existe um fator primordial: até certa idade, o humano, em sua inocência, caminha com um cabresto. Alguns passam o resto da vida usando essa limitação. Outros encaram de frente quando percebem ser diferentes daqueles que mantém um cabresto (tradicionalismo arcaico). Quando isso acontece junto vem uma quebra do limite normal, é quando você passa a se defender em postura, quando você percebe que não tem mais como estar feliz junto aos que mantém o tal cabresto. Quando rola isso é como se abrissem uma janela num quarto em que só existia uma porta. Infelizmente, o diferente assusta, e a sobrevivência faz você buscar estar com iguais até mesmo como defesa. E, diferente do cabresto que é repleto de problemas sabiamente ocultos, a violência destinada aos "diferentes" é totalmente explicita.
Lógico que, quando você é alvo de toda penalidade por encarar de frente ser o que é, seja o que for, você se torna infinitamente mais humano. Assim como perde o medo de estar entre humanos. Você passa a viver no limite porque ultrapassou o limite que conhecia na época que se desconhecia.

Géh: Sabe, vou contar algo que eu senti quando fui a primeira vez em uma boate gay, na verdade, até então, a única. Eu era a única mulher. Os homens eram sarados, lindos maravilhosos e gays. Um grande amigo meu veio me visitar no rio e eu disse que gostaria de conhecer uma boate gay. Procuramos uma e lá fui eu, o Alexei, meu amigo com o namorado. Eu fui tratada com tanta gentileza, não sei o que eu esperava, talvez por ser a única estranha no ninho.

Rocca: Levou um susto com a forma que foi tratada?

Géh: Sem brincadeira, nunca em nenhum outro lugar me senti tão bem. Em boates heteros, por exemplo, nunca me cederam a mesa o ambiente estando lotado. E lá cederam.

Rocca: Você assumir ser o que é, é uma forma de respeitar ser o que são. Não há por quê gerar preconceito quando se luta contra. Mas há muito preconceito nesse mundo "excluso" também, aí entra o terceiro lado da moeda. Preconceito entre os "exclusos" [uso essa palavra por não achar outra]. O dedo humano infelizmente não se contenta. Não generalizo, mas sei que existe, e existe forte.

Géh: Sim. Mas lembro sempre de uma frase: quando se aponta um dedo para uma pessoa, três dedos se voltam contra você mesmo.

Rocca: Por isso o problema não finda. Um ponto chave nisso tudo: Sim: foram as pessoas "da rua" que mais me deram a mão, independente de quem eu era, e do que fazia entre eles. Não se questiona muito. Mas também temos que levar em consideração que as pessoas com cabresto não estão nas ruas. Contrário. Elas temem um olhar fixo - ao menos sempre abaixaram a cabeça pros meus - Deve ser o tal medo do desconhecido. Talvez se eu não tivesse sido abortada do ambiente família precocemente, hoje eu poderia ser alguém que estranha as pessoas que fizeram parte da minha vida.

Géh: É mais fácil o confortável do que se conhece, do que descobrir o novo.

Rocca: Sim. Mas rola um pra que, né? Não há necessidade de apenas conhecer. Pode haver curiosidade, mas não necessidade. Querendo ou não, é um "olhar" de impacto, e muitas vezes sempre mostram só a parte ruim desse mundo. A única coisa que mostram e acaba por atrair a todos, por curiosidade, é a tal "parada gay", mas isso é algo que não sinto como positivo pra nenhum dos lados. Géh: O pior de tudo é o ser humano ter a mania de criar "rótulos", e esses rótulos que levam ao preconceito. Esquecem que todos são humanos, tem sentimentos...

Rocca: A parada gay é um rótulo criado pelos próprios. Olha o paradoxo? É uma vitória de uma batalha eterna. As leis pouco favorecem o mundo GLS. Essa luta é complicada porque além das nossas leis serem do tempo da pedra, elas passam a alimentar o caos dentro da vida daquele casal homossexual que só quer andar pela praça da republica em paz como qualquer casal faz. Parada gay, o manifesto, é uma forma que acharam para conseguir espaço e paz. Só que há uma contramão de intenção. Decretar um dia do ano para o orgulho gay é você assinar ser excluso no cotidiano de 365 dias do ano.

Géh: É tão fácil julgar sem conhecer...

Rocca: Sempre fácil. Tudo é fácil quando feito frente uma televisão. Estendendo mais o assunto: quantos "pais de família" pagam putas e travecos para serviços prestados? Inúmeros. Só que isso é algo que o "pai de família" jamais vai assumir no almoço de domingo. A melhor maneira de se defender é agredir, logo ele vai ser o primeiro a desrespeitar a pessoa que ele busca pra ter prazer. Não defendo nenhum dos lados, mas sei que existem muitos ângulos. Literalmente.

Géh: Já senti muito preconceito por ter "blogs com poesias eróticas". Era o mesmo que estampar "ela quer dar, é puta... etc". E pior nem é isso, mas sim a energia negativa que recebi quando muitos destes "fãs" souberam que casei. É o tal do fio da navalha, você tem que andar e tomar cuidado pra não cair pro lado errado.

Rocca: Porra, criam todo um fetiche. "O rito faz o mito". Acham que você é um ícone a ser seguido, quando na verdade você tá de meião no chão e calcinha branca de algodão. Mas o ícone jamais. Não é?

Géh: Falou e disse, quase me descreveu.

Rocca: Sinto que o problema real é o mais oculto. Acontece que chega um ponto que não há como ver e, se há, não existe mais pique pra mudar. Exemplo: um homossexual que sofreu a vida inteira o lance de exclusão. De repente ele percebe que pode usar isso a favor e cria uma persona em cima. Já que vai apanhar que seja com glamour né? E assim ele continua sendo o que sempre foi, com a diferença que passa a ter paz. Por que isso? Porque a geração que está vindo, aqueles que teriam de estar formando um caráter, se não tivessem perdendo o que sobra nos embalos de qualquer um, olham esse homossexual como um ícone. É quando fode tudo. É quando o ícone encontra a tal paz, afinal querendo ou não existe admiradores e isso é uma retaguarda. Mas é também quando uma geração começa a "estar como" algo que jamais vão vir a ser.
Essa questão social é um assunto que eu posso passar a vida inteira pensando sobre e jamais vou chegar ate a raiz. É complexo demais. Mas dentro desse complexo eu vejo o erro na tal expressão "Tem um elefante na sala de estar" saca? Tudo é uma questão de raiz.
Eu estive entre eles. Não sou um deles e sempre fui, porque pra mim são as pessoas com quem mais troquei vida. Mas eu nunca saí de casa por ser gay, ou puta ou traveco ou traficante... E quando saí não virei nenhuma dessas coisas. Eu me tornei um item a mais entre eles. Acho que fui a garota precoce que estava perdida e encontrou apoio destas pessoas.

Géh: É uma experiência que a gente leva pra vida toda né?

Rocca: Completamente. Deixa de ser uma experiência e passa a ser você. Quando abrimos janelas dos limites humanos nunca mais as fechamos.

Géh: É quando você conhece uma nova história (realidade). Você se torna parte dela...

Rocca: E não só essa. Tem muita coisa que não vivi ainda. Hoje em dia eu tenho que aprender a fazer as coisas leves que não fiz aos 17 anos, mas já sou uma 2.9 quase 3.0. Fica difícil.

Géh: Fala aí velha. [risos]. Estou com 2.7 e me surpreendo. A cada dia quero aprender mais, só espero ter sabedoria para saber o que fazer com o que eu aprender.

Rocca: Você tocou num ponto fundamental, o qual vem do berço: Caráter. Sabedoria. Andar por coisas desconhecidas, ser parte, mas não mudar sua referência. Às vezes eu brinco que, quando vou embora não olho pra trás, mas a real é que o "atrás" está um passo a frente. Eu, todos, tive tudo pra me afundar. Não há dúvidas de que o ambiente proporcionava rumos que desconheço, por sorte me mantive sendo o que sempre fui.

Géh: Uma pontinha das coisas novas que estou aprendendo tento deixar aqui no Géh. Sinto que algumas outras não cabem neste espaço, mas sei que se aprender só pra mim não terá valido a pena. É preciso passar um pouco para os outros. São coisas que tenho pensando, idéias que surgem ainda sem forma. É exatamente isso o que você passa para as pessoas, e é muito bom. É uma energia boa. Esta no coração, na intenção, no caráter e na cabeça...

Rocca: Não é fácil. Se eu falar que é estaria mentindo. Tem uma multidão que pega pesado pro meu lado, sem falar os que se afastam. Quando eu comecei a escrever sobre a vida não pensei estar fazendo o que vejo hoje. Cheguei num ponto que percebi não poder ultrapassar e isso machuca. Escrevi a casca, não posso quebrar o ovo. Até porque sinto que, se eu quebrar o ovo, vou transformar em perda tudo que um dia foi ganho. Percepção é cisco no olho. Você suporta alguns. Mas todo dia não há como.
Eu entendo seu receio em relatar o que está vivendo. Caminhamos numa linha tênue. Tem que ter muito cuidado pra não se deixar agredir por não ter conseguido passar o fato de fato.

Géh: Nem todos estão preparados pra ler, e se mostrar também te torna vulnerável. Mas pode apostar uma coisa: assim como pra você foi importante o apoio recebido naquela fase da sua vida. Pra eles foi importante em dobro poder te ajudar... E saber que alguém que fazia parte do "outro lado" soube andar no mundo deles também.

Rocca: Eu já era um deles.

 

Edição 12

A vontade do saber - A implantação Perversa
Géssica Hellmann

No século XIX ocorreu uma dispersão de sexualidade e uma implantação múltiplas das perversões. Multiplicaram-se as condenações judiciárias das perversões menores, atribuindo-se a irregularidade sexual à doença mental; da infância à velhice, foram impostas normas caracterizando todos os desvios possíveis; enfatizaram-se os controles pedagógicos e médicos.

Segundo Foucault, até o final do século XVIII, três códigos estavam explícitos: o direito canônico, a pastoral cristã e a lei civil. Cada código com suas próprias normas, centrados nas relações matrimoniais. Na lista dos pecados graves, estavam: o estupro (fora do casamento), o adultério, o rapto, o incesto espiritual ou carnal, e a sodomia (carícia recíproca).

Quanto aos tribunais, condenavam tanto a homossexualidade quanto a infidelidade, o casamento sem consentimento dos pais ou a "bestialidade". Na ordem civil como na religiosa, o que se levava em conta era um ilegalismo global. Por muito tempo, os hermafroditas foram considerados criminosos ou filhos do crime.

Os discursos do século XVIII e XIX enfatizavam a investigação da sexualidade das crianças, dos homossexuais, dos loucos e criminosos e das "grandes raivas". Os chamados "pervertidos" levavam o estigma de "loucura moral", "neurose genital" ou "desequilíbrio psíquico". Daí a adoção da expressão "contra-natureza" no campo da sexualidade, que rapidamente se tornavam mais condenadas do que as outras - como o adultério e o rapto - conquistando praticamente a autonomia: "casar com parente próximo ou praticar a sodomia, seduzir uma religiosa ou praticar sadismo, enganar a mulher ou violar cadáveres tornaram-se coisas essencialmente diferentes". (FOUCAULT, 1988:40)

Foucault afirma que, no século XIX, a severidade do código foi atenuada, cedida pela própria justiça em benefício da Medicina. Já em termos de controle, ocorreu grande severidade em todos os mecanismos de vigilância instalados, pela Pedagogia e pela terapêutica. Foucault descreveu quatro operações bem diferentes da simples proibição:

1 - As velhas proibições de alianças consangüíneas e a condenação do adultério com sua inevitável freqüência e, por outro lado, os recentes controles da sexualidade das crianças. É evidente que não se tratam do mesmo mecanismo de poder: uma, é lei, penalidade; a outra (pelo comparecimento da Medicina) o adestramento. Organizou-se assim, em torno na criança, um dispositivo de barragem, com linhas de penetração infinitas.

2 - Esta nova caça às "sexualidades periféricas", provoca a incorporação da idéia de "perversão" e uma nova especificação dos indivíduos. O homossexual do século XIX, torna-se uma personagem, uma anatomia indiscreta. Nada do que ele é escapa à sua sexualidade. Como uma personagem, a homossexualidade apareceu quando foi transferida, da prática da sodomia, para uma espécie de androgenia interior.

3 - Engajadas no corpo, transformadas em caráter, as extravagâncias sexuais sobrepõem-se à tecnologia da saúde e do patológico. O poder toma a seu cargo a sexualidade, mediante exames e observações insistentes, implicando em proximidades e sensações intensas, assume como um dever de roçar os corpos, acariciar-lhe com os olhos, estimular regiões do corpo, dramatizar momentos conturbados. Cria-se, assim, um aumento do domínio sob controle e uma sensualização do poder em beneficio do prazer. Os exames médicos, psiquiátricos, pedagógicos e controles familiares podem ter objetivo de dizer não às sexualidades, mas funcionam como mecanismos de incitação do prazer e poder.

4 - Surgem assim os dispositivos de "saturação sexual". Afirma-se freqüentemente que a sociedade moderna tentou reduzir a sexualidade ao casal. Mas também pode-se afirmar que ela fez proliferar grupos com elementos múltiplos de sexualidade em busca do prazer. Na sociedade moderna, instalou-se uma rede de prazeres-poderes articulados. A separação entre o quarto das crianças e do casal, a separação dos meninos e meninas, os cuidados com os bebês (amamentação e higiene), os perigos da masturbação, a puberdade, a vigilância sugerida aos pais, extorsões e segredos, isso tudo tranformou-se em uma rede complexa e saturada de sexualidades múltiplas.

Foucault conclui este capítulo sugerindo que as sexualidades múltiplas, as práticas sexuais, de lugar, gosto ou tipo de prática, são, todas elas, formas de poder. Poder e prazer não se anulam e, sim, se entrelaçam, através de mecanismos que excitam e incitam.

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1988. 16a. edição.

Androginia

Tenho ouvido muita discussão sobre o que é Travesti, Transformista, Transgênero, Transexual, Drag-Queen e Cross-Dresser. Realmente essa diversidade provoca confusão na cabeça de muitos ainda. Vou dar uma pincelada sobre o assunto assim, quem sabe, aumentando o conhecimento diminua o preconceito!

Quem é travesti?A palavra travesti refere-se ao traje, ou seja, disfarce no trajar, pessoas que se vestem com roupas do sexo oposto, tra-vestir-se. Concluindo... É o Transformista, a Drag-Queen e o Cross-Dresser. Quem é transexual? O prefixo latino “Trans” refere-se a transitar, transformar, ir além de. Então é transexual, a pessoa que transforma o seu genital, é a pessoa que recorre à cirurgia para a mudança de sexo. Trans-sexual. Quem é transgênero? Como eu disse antes, a palavra trans quer dizer transitar. Então é trans-gênero, a pessoa que muda de um gênero para o outro é a pessoa que transforma seu corpo, que pode ser do gênero masculino para o feminino, ou ao contrario. O transexual não deixa de ser um transgênero, pois além de mudar de sexo, ele também mudou de gênero. Entre todas as diversidades de transgêneros, podemos afirmar que as crossdressers constituem um dos grupos de maior complexidade. Geralmente confundidas com as travestis ou com as drag queens, em virtude do fator comum que é o uso de roupas femininas, as CD´s, entretanto e apesar de todas as afinidades, possuem características próprias e intransferíveis, relacionadas diretamente com o trânsito possível entre os universos masculino e feminino. CROSSDRESSER é um homem que esporadicamente e por motivos relacionados com a sua libido ou com as suas pulsões sexuais, cultiva o hábito de usar roupas femininas. Independente de seu gênero ou opção sexual. Podem ser heterossexuais, homossexuais ou bissexuais. E descobrem a identidade de gênero feminino sempre muito antes de conseguir perceber as diferenças sexuais existentes entre homens e mulheres.

Tudo isso que expliquei detalhadamente são vertentes de uma coisa linda que se chama androginia. Quem sabe um dia, nós não vamos mais precisar de tantas palavras para designar o que faz parte de um só gênero. O gênero humano!

Se você, alguém que você gosta, ou até um filho aparecer falando ser algo do que citei, relaxa, ele continua humano viu? O coração dele certamente continua o amando. E ele aprendera, por enfrentar o preconceito, a engolir a possível pena que sentiria de você ;-)

Enquanto alguns usam a cabeça pra se ocupar em repudiar o prazer da maquina que é o corpo humano, só vem uma frase na minha cabeça, sabiamente escrita por um louco que o mundo admira:

Te chamam de ladrão, de bixa, maconheiro.
Transformam o país inteiro num puteiro,
Pois assim se ganha mais dinheiro.

A TUA piscina ta cheia de ratos,
TUAS idéias não correspondem aos fatos.
E o tempo não para, pessoa!

Abra sua mente pra imundice real que é, e esta, nossa grande pátria desinteressante. Despeitar o prazer alheio é pequeno demais na atual situação prostituída que nossa pátria (eu e vocês) nos encontramos. Não acham?

Rocca Stockler

 

 
Edição 11

A vontade do saber

Géssica Hellmann

O intuito desta resenha é apresentar os primeiros pensamentos expressos nos dois primeiros capítulos da História da Sexualidade - A vontade do saber, de Michel Foucault.

Segundo Foucault, no início do século XVII, os corpos pavoneavam sem refreios, gestos diretos, discursos sem vergonha, transgressões visíveis, anatomias a mostra, crianças vagando entre adultos. No final deste século, porém, a sexualidade é cuidadosamente encerrada dentro dos quartos dos pais.

Afirmava ele que nesta época tinha-se o pensamento que as crianças não possuíam sexo: razão para proibi-las de falar neste assunto (final do século XVII seguindo pelo século XVIII). Este conceito só viria a mudar com os estudos de Freud.

O discurso de repressão sexual, iniciado no século XVII, após centenas de anos de expressão sexual livre, é protegido historicamente e politicamente, coincidindo com o início do capitalismo.

A explicação enunciada por Foucault sobre o pensamento da época: "se o sexo é reprimido com tanto rigor, é por ser incompatível com uma colocação no trabalho, geral e intensa; na época que se explora sistematicamente a força de trabalho..." (FOUCAULT, 1977:11).

O que revela que um dos principais motivos, da
repressão sexual, foi controlar a população para manter uma economia a favor dos dirigentes.

Outra dialética apresentada neste primeiro capítulo foi: "se o sexo é reprimido, isto é, fadado à proibição, a inexistência e ao mutismo, o simples fato de falar dele e da sua repressão possui como que um ar de transgressão deliberada." (FOUCAULT, 1988:12). Com esta afirmação Foucault quiz levantar o benefício do locutor que emprega essa linguagem, que de certa forma se encontra fora do alcance do poder.

A idéia da repressão sexual, não é somente objeto de teoria. A afirmação de uma sexualidade que nunca fora dominada com tanto rigor, como na época da hipócrita burguesia negocista, é acompanhada pela ênfase de um discurso destinado a dizer a verdade sobre o sexo, a modificar sua economia na real, mudando seu futuro. Podemos observar que esta "verdade sobre o sexo", era dita com a finalidade que os efeitos beneficiassem a burguesia e os que estavam no poder.

No primeiro capítulo, Foucault levantou várias questões, não para negar a teoria de repressão sexual, e sim para explicar por quais razões e por que meios se estabeleceu esta repressão. Questões tais como:
- A repressão do sexo seria realmente a acentuação ou talvez a instauração desde o século XVII, de um regime de repressão ao sexo? (Questão histórica)
- A mecânica do poder, a que é posta em jogo em uma sociedade como a nossa, seria de ordem repressiva? (Questão histórica-teórica)
- O discurso crítico que se dirige a repressão viria a cruzar com a mecânica do poder, que funcionava até então sem constatação, barrando-lhe, faria parte dessa mesma rede histórica daquilo que denuncia, chamada de repressão? (Questão histórica-política)

No segundo capítulo ele se propõe a responder as questões levantadas sobre a hipótese repressiva, explicando o motivo da incitação dos discursos.
Como já havia comentado, no final do século XVII, não se podia falar de sexo com as crianças; a regra era silêncio e discrição absoluta. Mas, quanto ao nível de discurso a regra era a proliferação, principalmente a partir do século XVIII. O cerco às regras da decência, provocou uma intensificação nos discursos indecentes.

Nos discursos no campo do poder havia uma incitação institucional para falar do sexo, sob forma da articulação explícita e do detalhamento. A evolução do pastoral católico e do sacramento da confissão, depois do concílio de Trento, obrigava todo um exame minucioso do ato sexual. A discrição é cada vez mais recomendada: no que se refere ao pecado contra a pureza. é necessária a maior reserva. A contra-reforma católica dedicava-se a acelerar a quantidade por ano das confissões, atribuindo grande importância às penitências - todas as insinuações carnais, pensamentos, desejos, deleites, tudo detalhadamente. Por este meio, a Igreja, pretendia controlar o seu "rebanho", através do amplo e detalhado conhecimento dos hábitos sexuais da população.

O projeto de uma colocação do sexo em discurso formava-se já há muito tempo, numa tradição ascética e monástica. O Século XVIII fez dele uma regra para todos. Uma obrigação colocada ao bom cristão.

O essencial: que o homem ocidental há três séculos tenha permanecido atado a essa tarefa que consiste em dizer tudo sobre seu sexo, que a partir da época clássica tenha havido uma constante valorização do discurso sobre sexo. Censura sobre sexo? Pelo contrário, constitui-se uma aparelhagem para a produção de discursos sobre sexo, suscetíveis a funcionar e de serem efeito para sua própria economia capitalista. Nasce assim, no século XVIII, uma incitação política, econômica, técnica a falar de sexo, sob forma de contabilizar, classificar, especificar, através de pesquisas quantitativas ou casuais. Foucault demonstra aqui a verdadeira intenção da repressão sexual, não como uma forma de censura, mas como uma forma de controle populacional com objetivos políticos e econômicos.

No século XVIII o sexo torna-se questão de polícia, não como repressão da desordem e sim como necessidade de regular o sexo por meio de discursos e não pelo rigor da proibição. A polícia tinha o papel principal não com o rigor de proibir, e sim de "rotular" os que não seguiam o discurso da época.

Com o surgimento do problema "população", entendeu-se que controlar o sexo era de certa forma controlar a natalidade, idade de casamento, filhos legítimos e ilegítimos, freqüência das relações, a maneira de torná-las fecundas ou estéreis, celibato entre outros. Forma-se toda uma teoria de observação sobre o sexo, surgindo as análises de condutas, seus efeitos no limite entre a biologia e o plano econômico. Através de pesquisas, governantes e capitalistas controlavam a população, visando principalmente dominar a "força de trabalho", em benefício econômico deles próprios.

Já em meados do século XVIII, era incentivado através de discursos, a orientação de educadores, administradores, médicos e pais, a uma educação sexual para as crianças, permitindo intensificar a multiplicação dos discursos, mudando a estratégia familiar na educação sexual das crianças: a idéia de que a criança não possuía sexualidade não teria sido derrubada, mas a educação sexual serviria para exercer controle sobre elas.

Foucault conclui no fim do segundo capítulo que o que é próprio das sociedades modernas não é terem condenado o sexo a permanecer na obscuridade, mas sim o terem devotado a falar dele sempre, o valorizando como segredo.

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1988. 16a. edição.

 

A manipulação do exercício da sexualidade pelo processo de socialização

Somos seres sexuais. É fato. Somos seres políticos. Também é fato. Ao longo da vida sofremos um intenso processo de sócio-politização que visa nos domesticar, tornar-nos aptos para o convívio em sociedade.

Por mais que nos acreditemos livres ou liberados, quando nos distanciamos das nossas experiências e assumimos o papel de sujeito observador percebemos que para o nosso desejo foram estabelecidas normas que não fomos nós mesmos que criamos e às quais muitas vezes nos submetemos sem sequer ter a consciência desta submissão.

Isso acontece porque o nosso processo de erotização é manipulado desde muito cedo, assim como outras áreas relativas à socialização dos seres humanos; na verdade, existe um considerável ‘pacote’ de conhecimentos que são socialmente distribuídos e este ‘pacote’ inclui a sexualidade.

Para citar apenas um destes poderosos condicionantes, basta lembrar que os homens são ensinados desde meninos a desejar (e o que desejar) e as mulheres aprendem a se tornar desejáveis segundo os padrões do que os homens estão aprendendo a desejar. Escapar a esse controle consiste num esforço intelectual e da sensibilidade, exatamente nessa ordem.

Tive um aluno cujo apelido na faculdade era “deus grego”, apelido que se enquadrava perfeitamente com sua aparência; pois bem, esse apolo perseguido por todas as ninfas da escola se sentia muito atraído por uma moça que não se encaixava nos padrões de beleza vigentes e também não se importava com isso. Ele tentou convencê-la a manter um romance escondido, claro, sem explicar o verdadeiro motivo, ou seja, sua incapacidade de rebelar-se contra aquilo que seria lícito desejar, que o colocaria numa posição desconfortável diante do grupo social com o qual interagia. Ela teve maturidade afetiva para não aceitar.

Como observadora da situação fiquei satisfeita ao notar que uma mulher, embora jovem, não se sentiu encurralada pelo condicionamento sócio-cultural que a obriga a ter a aparência que os homens estão condicionados a desejar. Lamento pelo ‘apolo’ que teve uma oportunidade de se conhecer melhor, conhecer melhor a realidade dos seus desejos e de sua sexualidade e deixou-a passar.

Entendo que não é fácil escapar da prisão do simulacro: estar condicionado é o oposto de estar livre, já que liberdade implica agir como nos parecer melhor, mas, na sociedade contemporânea, mais do que nunca, o ‘natural’ é estar condicionado, portanto, rejeitamos os estranhos, os anti-naturais, os que se rebelam.

Em algum momento, esquecemos que sexo é anarquia e passamos a vivenciar uma pseudo-liberdade consentida, governada pelo mesmo poder que promovia a repressão, mas, agora, fortalecido por estratégias novas e mais eficazes.

Ultrapassar o condicionamento é essencial para desenvolver o nosso saber erótico, e a única forma de repudiar a regulamentação do nosso prazer sexual. É preciso que o desejo se torne novamente o que nunca deixou de ser: um exercício de dádiva. Nada mais anárquico do que isso.

Sandra R. S. Baldessin

 

 
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