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Edição 20

Entrevista

por Géssica Hellmann

O lema da campanha mundial do Center for Women´s Global Leadership (Centro para a Liderança Global das Mulheres) deste ano é "Pela saúde das mulheres, pela saúde do mundo, basta de violência". O UNIFEM - Fundo das Nações Unidas para a mulher, denunciou em seu relatório anual que a violência de gênero provoca mais mortes em mulheres entre 15 e 44 anos que o câncer. A pedido, não iremos divulgar a identidade da entrevistada, dona de casa, de 52 anos, a quem chamaremos de Maria. Atualmente está em seu terceiro casamento. Os incidentes ocorreram no seu segundo casamento.

Géh: Sabemos que na maioria dos casos, antes da própria violência física, existe a violência psicológica. Maria você poderia nos contar como tudo começou?

Maria: No inicio era tudo bom. Ele era atencioso carinhoso, levava café na cama, com flores e tudo, um verdadeiro sonho. Nos divertíamos muito, saíamos para dançar, passear, éramos eternos namorados. Na época ele ainda não bebia, pois tomava remédio para os nervos. Quando terminou o tratamento, começou a beber, foi aí que tudo começou.

Géh: Quais as mudanças que ocorreram na relação? Quando notou as primeiras alterações?

Maria: Ele chegava embriagado, quase todos os dias, não se controlava, fazia agressões verbais, me cobrando sobre as coisas que ele me dava.

Géh: Ele começou com agressões verbais. Qual foi a primeira vez que ele demonstrou violência física?

Maria: A primeira vez que demonstrou violência, foi quando me empurrou contra parede. Ele só demonstrava violência quando estava embriagado, me agredia verbalmente, cobrando as coisas boas que tinha feito pra mim. Ameaçava que dormiria com uma faca para me matar, mas nunca o fez.

Géh: E como ele reagia no dia seguinte?

Maria: Quando ficava sóbrio se arrependia, pedia perdão, prometia que nunca mais ia fazer isso, era o melhor marido do mundo, fazia o café, o almoço, lavava roupa, comprava coisas que eu gostava pra comer, etc.

Géh: E você acreditava nas palavras dele?

Maria: Não, mas a esperança é a ultima que morre.

Géh: Intimamente, esperava que a situação mudasse, é isto? Que voltasse a ser o que era no começo?

Maria: Sim, com certeza.

Géh: Na época você contou, para alguém o que estava acontecendo?

Maria: Para a filha dele, o irmão e a cunhada.

Géh: E qual a reação deles?

Maria: Eles diziam que ele me amava mas não me merecia porque, com a primeira mulher, ele também era violento, diziam até que, comigo, ele ate tinha melhorado um pouco. Eles me aconselhavam a cair fora.

Géh: E você o que fez?

Maria: Enquanto ele não me machucasse fisicamente, eu ficaria ali, com esperanças, de que ele se tratasse, ele até começou um tratamento no AA, mas desistiu. Depois de alguns encontros no AA ele disse que não precisava, que sabia se conter.

Géh: Todos acham. É difícil admitir que se está doente e precisa de ajuda.

Maria: Eu não tinha medo, sempre achava que essas coisas só aconteciam com os outros. Pois eu nunca tinha sido agredida por ninguém.

Géh: A situação piorou?

Maria: Piorou, e muito. Quando nos mudamos para longe dos familiares, não durou três meses.

Géh: Os registros das delegacias brasileiras demonstram que 70% dos incidentes ocorrem dentro de casa e que o agressor é o próprio marido ou parceiro. O que a fez por um fim no relacionamento?

Maria: Foi na noite em que ele chegou embriagado e me bateu. Foi terrível a pior noite da minha vida. Era um pesadelo sem fim.

Géh: Você conseguiu pedir ajuda?

Maria: Gritei muito, até uma vizinha escutar. Ela chamou a polícia. Quando chegaram, ele me ameaçou e mandou que eu não contasse. Com medo de morrer, obedeci. Então foram embora, cheguei a pensar que tudo tinha acabado, mas estava só começando. Ele me bateu até se cansar, entre torturas físicas e verbais. Quando acabou já tinha amanhecido.

<Géh: Qual foi sua reação após o acontecido?

Maria: Ele foi trabalhar, quando fiquei sozinha, liguei para o meu trabalho, contei o que tinha acontecido, eles me pediram para ir até lá conversar.

Géh: Você teve coragem de denunciá-lo a policia?

Maria: Me aconselharam a denunciá-lo, mas por vergonha não fui.

Géh: Muitas mulheres, por vergonha, humilhação e medo não denunciam o caso a policia. O que fez então? Voltou pra casa?

Maria: Voltei, para pegar algumas roupas e objetos pessoais, para dormir na casa das minhas filhas, mas não deu tempo. Ele chegou, então quando tudo ia começar, o telefone tocou. Era minha filha, perguntado se eu precisava de ajuda. Falei que sim. Em poucos minutos meu irmão veio me buscar.

Géh: Após o término da relação. Ele ainda voltou a te ameaçar ou perseguir?

Maria: Nos separamos, ele foi para casa dele e eu fiquei morando lá sozinha. Uma semana depois ele apareceu querendo ser prestativo, disse que veio arrumar o portão que havia estragado. Nesta oportunidade ele entrou em casa e me estuprou.

<Géh: Você sofreu de violência psicológica, física e sexual. É um trauma difícil de superar.

Maria: Isso me deu forças para denunciá-lo, só assim consegui me livrar deste monstro.

Géh: Qual o conselho que você daria as mulheres que sofrem violência dentro de casa?

Maria: Quem bate uma vez bate sempre, não confiem, denunciem.

16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência Contra as Mulheres 25 de Novembro a 10 de Dezembro de 2005

O dia 25 de novembro é o dia Internacional da Não-Violência Contra a Mulher. A data, instituída durante o 1º Encontro Feminista Latino-Americano e do Caribe (Bogotá, 1981), reverencia a memória das irmãs Mirabal, brutalmente assassinadas na República Dominicana durante o regime do ditador Trujillo, em 1960. Em 1999, a data coincidiu com a realização do VIII Encontro Feminista Latino-Americano, em Juan Dolio, na República Dominicana.

Capa folder 25 de novembro - arte sexualidade

- 20 de Novembro: Dia Nacional da Consciência Negra
(data brasileira)
- 25 de Novembro: Dia Internacional pela Eliminação da
Violência Contra a Mulher
- 01 de Dezembro: Dia Mundial de Luta contra a Aids
- 06 de Dezembro: Data do Massacre de Montreal
- 10 de Dezembro: Dia Internacional dos Direitos Humanos

Em 2005 a Campanha Mundial "16 Dias de Ativismo" ressaltará a inter-relação entre a violência contra a mulher e a pandemia de HIV/AIDS, pois a violência e a discriminação contra a mulher diminuem-lhe a possibilidade de se proteger da infecção por HIV e limita o acesso aos serviços de
saúde - o que constitui uma violação dos direitos humanos das mulheres em todo o mundo.

A Campanha Mundial "16 Dias de Ativismo" é coordenada, desde 1991, pelo Centro para a Liderança Global das Mulheres (CWGL).

No Brasil, a Rede Feminista de Saúde integra a Campanha Mundial "16 Dias de Ativismo", que é coordenada pela Agende - Ações em Gênero, Cidadania e Desenvolvimento.

Violência Contra as Mulheres

A violência contra a mulher é um ato de discriminação e uma violação dos direitos humanos tais como:direito à liberdade,à saúde,à segurança,à proteção em condições de igualdade,de não ser submetida a torturas ou tratamentos cruéis,inumanos ou degradantes,e o direito à vida (CEDAW).

A Campanha 25 de Novembro: Dia Internacional pela Eliminação da
Violência Contra a Mulher baseia-se nos seguintes princípios:
- a mulher tem direito de viver uma vida livre de violências. Portanto, a violência contra a mulher é uma violação de seus direitos humanos fundamentais;
- a violência contra a mulher sempre acarreta impactos severos em sua saúde física e mental, e deve ser considerada um problema de saúde pública que merece atenção prioritária;
- a mulher deve ter acesso à informação e à orientação a respeito de leis e instrumentos que a protegem e como utilizá-los;
- a mulher agredida (física, psicológica ou racialmente) deve ser acolhida com prontidão, sensibilidade e empatia pelas distintas instâncias encarregadas de sua atenção; e
- a violência de gênero deve ser enfrentada a partir de um enfoque multidisciplinar e multissetorial, e sua erradicação deve constituir um compromisso de toda a sociedade.

Nos próximos três anos (2005-2007), a Campanha 25 de Novembro, coordenada pela RSMLAC - Rede de Saúde das Mulheres Latino-americanas e do Caribe -, objetiva denunciar e documentar o vínculo indissociável entre violência de gênero e seu impacto direto na saúde da mulher.

Fonte: Rede Feminista de Saúde

 

Edição 19

Os papéis no relacionamento - parte final

por Géssica Hellmann

Continuação do artigo sobre os papéis no relacionamento.

arte sexualidade

Pintura em Porcelana por Luís Soares

1.2 - Scripts banais para homens

Os homens, assim como as mulheres, possuem certos scripts estereotipados, que escolhem para viver. Estes estilos freqüentemente se adaptam a um estilo correspondente na mulher.

O pai de todos: É a versão exagerada do pai e marido responsável. Pode ser casado com a "super-mãe" ou a "coitadinha de mim". Sua vida está imersa em responsabilidades. Ele sabe tudo melhor e não admite discussão contra isso. Se ele permite que alguém use seu próprio critério é só para que este familiar aprenda com seus próprios erros. Por estar tão sobrecarregado com responsabilidades, ele geralmente não se diverte. Se ele pensa em não cuidar dos outros, uma culpa o adverte que ele não está OK, impedindo-o de agir com esse pensamento. A sua morte se dá usualmente pouco depois de se aposentar, quando toda a sua força de trabalho lhe foi retirada, seus filhos o deixaram ou se voltaram contra ele.

Representa um contra-script quando decide sair de férias, contratar uma secretária, livrar-se de parte do trabalho para equilibrar vida. Pode até tentar se divorciar para se livrar das responsabilidades e optar por ficar solteirão. Por ser um "salvador" de coração, eventualmente começa tudo de novo.

É atribuído a ele que cuide de todo mundo, que não admita fraquezas e que ele sempre tem razão. Emocionalmente vive os jogos: "Salvação"/"Tribunal"/"Se não fosse por você".

Antítese: Começa a exigir igual responsabilidade nas relações com as pessoas, colocando sua vida em primeiro lugar.

O homem na frente da mulher: Ele sabe que o seu sucesso não seria possível sem sua mulher, mas tem a necessidade de fingir que ele é o gênio da parceria. Mesmo sabendo que ela é mais competente, sempre deixa claro que é ele quem manda. Sente-se culpado por isso, mas segue os padrões "sexistas" da sociedade.

Antítese: Percebe que a capacidade de sua mulher seria muito mais bem expressa, com vantagem para ambos, se fosse permitido a ela ser considerada uma igual.

Playboy: Passa a vida em busca da mulher perfeita, que não existe. Chega a acreditar na realidade das mulheres que vê na revista e as valoriza mais do que as que encontra na vida diária. Suas parceiras são "mulheres de plástico" ou "belezas decadentes". Com as primeiras, costuma ter casos breves; com as ultimas, uma relação abortiva, que terminam com ele sendo rechaçado. Ocasionalmente encontra umas "bruxas de guerrilha" que lhe causam grande dano.

Representa um contra-script quando ocasionalmente encontra uma mulher "perfeita" para ele. A relação não dura muito porque a compreensão que ele tem do amor não passa do conhecido script: "rapaz-que-encontra-moça", mas que nunca termina no "vivendo felizes para sempre".

É atribuído a ele não se contentar com "mercadoria de segunda" e a não se vender barato. Emocionalmente vive os jogos: "Estupro"/ "Defeito"/ "Por que você não - sim, mas...".

Antítese: Ele percebe que está em busca do impossível e, com dificuldade, começa a perceber e apreciar as verdadeiras qualidades da mulher.

O atleta: Pratica esporte diariamente, seu corpo torna-se todo músculos. Sua energia sexual é completamente transformada em atividade física. Adulto, descobre que não possui o físico que as mulheres apreciam nos homens. Mais tarde, muitas vezes desiste da atividade esportiva, transformando seus músculos em gordura. Geralmente é considerado um bobão pelas pessoas que conhece. Tem bom coração, mas é ingênuo.

É atribuído a ele ser competitivo e a não pensar. Emocionalmente faz os jogos: "Estúpido"/"Trabalho no feriado"/"Vamos aprontar alguma coisa com ele (vítima)".

Antítese: Decide usar o seu eu adulto e parar de jogar "estúpido". Percebe que os esportes de competição não lhe são saudáveis e torna a conhecer seu corpo de uma maneira totalmente nova.

O intelectual: Conclui na adolescência que a maior conquista a ser alcançada é o desenvolvimento do intelecto. Começa a sentir que seu corpo e seus sentimentos são empecilhos para seus propósitos intelectuais. Tudo quer converter para a racionalidade. É incapaz de experimentar emoções, principalmente no amor, se sentido vazio.

Representa um contra-script, quando se apaixona, mas não dura muito tempo, porque o adulto dentro de si o chama de volta a razão. É atribuído a ele não sentir, ser inteligente e usar sempre a cabeça. Emocionalmente vive os jogos: "Tribunal"/"Por que você não - sim, mas..."/"Faça alguma coisa por mim".

Antítese:Percebe que seu estilo de vida é incompleto e começa a fazer terapia. Aos poucos reconhece a falácia do raciocínio e começa a usar a intuição, experimentando novas emoções.

Odeio as mulheres: Desde pequeno aprende, escutando os comentários de seu pai, que as mulheres não estão OK. Geralmente, é solteirão e faz uma atividade tipicamente masculina. Julga as mulheres como sexo fraco. Para liberação sexual, freqüenta ocasionalmente prostitutas, mas não tem respeito por elas. Geralmente se sente infeliz, podendo desembocar no alcoolismo.

Representa um contra-script quando encontra uma mulher de quem gosta, podendo até se casar e ser domesticado, gozando de um breve período de sentimento de amor. Mas ele não consegue retribuir os sentimentos que ela lhe proporciona, terminando a relação.

É atribuído a ele não se aproximar das pessoas, não confiar e a não se soltar. Emocionalmente vive os jogos: "Peguei você seu FDP"/"Defeito"/"Se não fosse por elas".

Antítese: É difícil encontrar uma antítese para este homem. É possível que encontre uma mulher que o consiga libertar, ou é possível que ele se relacione com outro homem.

Conclusão

A análise transacional é o estudo dos relacionamentos. Uma análise transação por transação revela rituais interessantes. Mas os relacionamentos vão além de rituais, uns são mais curtos outros duradouros, uns mais cooperativos e amorosos, outros menos, pois os indivíduos são diferentes uns dos outros.

É provável que, atualmente, alguns aspectos descritos nos scripts acima tenham sofrido algumas alterações. Por exemplo, o script que fala sobre "as mulheres no mercado de trabalho", que a sociedade não vê com bons olhos a mulher em cargos superiores. Digamos que, atualmente, pode-se observar uma maior flexibilização deste papel, embora isso não signifique a superação total de preconceitos.

STEINER, Claude. Os papéis que vivemos na vida. Rio de Janeiro: Artenova, 1976.

WYCKOFF, Hogie. Elaboração dos papéis sexuais dos homens e das mulheres, in: STEINER, Claude. Os papéis que vivemos na vida. Rio de Janeiro: Artenova, 1976, p.160-170.

_______________. Scripts: banais para mulheres, in: STEINER, Claude. Os papéis que vivemos na vida. Rio de Janeiro: Artenova, 1976, p.171-189.

Denúncia é pouco comum em casos de violência sexual

Fonte: http://www.agende.org.br/16dias/DadosInformacoes/vi_02.asp

Dados

* 16% das mulheres que sofrem violência sexual contraem algum tipo de DST e uma em cada mil é infectada pelo HIV.

* São registrados 15 mil estupros por ano que podem ocasionar gravidez indesejada e DST/Aids. A informação é das Delegacias Especializadas no Atendimento às Mulheres, 2003.

* Anualmente, são realizados cerca de um milhão de abortos, a maior parte deles clandestinos. No Brasil, a interrupção voluntária da gestação é permitida apenas em caso de risco de morte da mãe ou se ela for resultado de estupro. Os números são do Center for Reproductive, 2004.

* De cada cinco mulheres, uma será vítima ou sofrerá uma tentativa de estupro até o fim de sua vida, segundo a Anistia Internacional, 2004.

* 1 bilhão de mulheres, ou uma em cada três do planeta já foi espancada, forçada a ter relações sexuais ou submetidas a algum outro tipo de abuso. 20% das mulheres são alvo de estupro, de acordo com a Anistia Internacional, 2004.

* A cada ano são diretamente afetadas pela violência sexual cerca de um milhão de crianças. Dessas, estima-se que 100 mil casos estejam distribuídos entre Brasil, Filipinas e Taiwan. A informação é do Unicef, 2000.

* Um em cada cinco dias de falta ao trabalho é causado pela violência sofrida pelas mulheres dentro de suas casas, incluindo a sexual. A violência doméstica faz com que a mulher perca um ano de vida saudável, a cada cinco anos, de acordo com o BID, 1993.

* As mulheres negras entre 16 e 24 anos têm três vezes mais a probabilidade de serem estupradas que as mulheres brancas, segundo a ONU, 2004.

* De 85 a 115 milhões de meninas e mulheres são submetidas a alguma forma de mutilação genital por ano, segundo a ONU, 1999.

* As mulheres latinas, particularmente as brasileiras e argentinas, são as mais expostas a crimes sexuais no mundo. A América Latina registra os mais altos índices de crimes sexuais. Cerca de 70% dos casos de violência sexual são estupros, tentativas de estupro e outras agressões sexuais. A informação faz parte do relatório O Estado das Cidades do Mundo, divulgado pela ONU, 2004-05.

* Pesquisa realizada no Brasil, entre 2000 e 2001, sob a coordenação da Organização Mundial da Saúde, constatou que 10% das mulheres na área urbana e 14% na área rural disseram já haver sido forçadas fisicamente a ter relações sexuais quando não queriam, ou forçadas a práticas sexuais por medo do que o parceiro pudesse fazer, ou forçadas a uma prática sexual degradante ou humilhante.

* A violência física e/ou sexual cometida alguma vez na vida pelo parceiro foi relatada por 29% das mulheres da cidade e 37% do campo.

* Em alguns países, até 69% das mulheres relatam terem sido agredidas fisicamente e até 47% declaram que sua primeira relação sexual foi forçada, segundo a OMS, 2002.

 

Edição 18

Os papéis no relacionamento - parte II

por Géssica Hellmann

Continuação do artigo sobre os papéis no relacionamento.

Luis Soares duas máscaras - arte sexualidade

Duas Máscaras (1995) por Luís Soares

Enfermeira: É uma salvadora profissional, que trabalha numa instituição que a explora e exige dela até seus limites físicos. Inicialmente, sua obsessão em ajudar os outros vinha do cuidado, mas logo essa responsabilidade se tornou opressiva.

A ela é ensinado intuir as necessidades dos outros e cuidar deles. Ela deseja que as suas necessidades sejam igualmente satisfeitas, ou seja, que as pessoas possam ler sua mente da mesma forma que ela lê as delas, mas isto não acontece, pois ela não pede o que quer e, então, não recebe. Ela se sente ferida, brava e passa a fazer o papel de perseguidora, na forma do assim chamado "não envolvimento profissional", ou seja, "não dou nada a não ser que me peçam!"

Representa um contra-script quando, no início da carreira, estando no primeiro emprego, parece-lhe ter escolhido uma carreira formidável. O entusiasmo pelo trabalho gradualmente diminui, e ela sente a dor de distribuir amor demais sem receber em troca. Fica extremamente deprimida, e começa a tomar calmantes e álcool. Geralmente é atribuído a ela que cuide primeiro dos outros, a não pedir o que quer e a trabalhar duro.

Ela decide, quando jovem, que ser boa significa colocar as necessidades dos outros à frente da sua, pois quem considera primeiro as suas próprias necessidades é uma pessoa egoísta, ou seja, "não-OK". É provável que prejudique sua saúde, arruinando os pés, machucando as costas por ficar muito tempo de pé ajudando os outros. Emocionalmente vive os jogos: "Por que você não - sim,mas"/ "Não é horrível?"/ "Se não fosse por você".

Antítese: A coisa mais importante é aprender a pedir o que deseja, colocando sua necessidade em primeiro lugar. Talvez seja necessário que abandone o emprego atual e comece a trabalhar em um com menor carga horária, respeitando assim os limites do seu corpo.

A Gorda: Passa a maior parte da vida se recriminando pelo excesso de peso, passando por uma série de dietas, tentando manter bem-estar por meio de autoprivação. Provavelmente na infância não teve uma alimentação correta, ou lhe era dada comida como recompensa de comportamento. Sente dificuldade em demonstrar raiva, tem dificuldade em dizer "não", de modo semelhante ao hábito de "engolir" praticamente tudo. Pela dificuldade dizer "não", a gordura pode também manter à distancia homens que porventura ela queira repelir. Sua gordura serve como uma "muleta" para evitar de fazer as coisas e tentar conseguir o que quer. Sente falta de afagos por sua aparência e nunca os recebe. Sente-se vítima do próprio corpo, pela falta de autocontrole e pela opinião das pessoas a respeito do seu peso. Sempre prisioneira de cruéis dietas e de orgias de comida quando em estado depressivo, fica convencida de estar "não-OK".

Representa um contra-script quando está fazendo dietas e parece que tudo está indo bem; na verdade isso não ocorre, porque ela continua faminta, sua vida gira em torno da balança. Quando a dieta termina, aparece alguma dificuldade na vida, que a faz comer excessivamente, voltando a recuperar o peso perdido.

É atribuído a ela não se zangar, nunca dizer "não" e a não gostar de si mesma. Geralmente, na adolescência, ela conclui que decididamente tem um problema de pesos e que não possui autocontrole. Usa sua gordura como armadura corporal e possui dificuldade em ser fisicamente ativa. Emocionalmente vive os jogos: "Comilona"/ "Muleta"/ "Não é horrível".

Antítese: A saída é aceitar seu corpo, aprender a amá-lo e a cuidar dele. Pode aprender hábitos alimentares mais sadios se estiver em harmonia consigo mesma. Precisa aprender a dizer não e a se zangar com as pessoas que a oprimem pelo excesso de peso. É fundamental aprender a proteger e amar a si mesma.

Mestra: Ela decide ensinar porque é o único caminho que encontra para poder usar o conhecimento aprendido na principal matéria de maior interesse durante o colégio. Desempenha um papel duplo na sociedade, age como uma sofisticada babá de crianças, doutrinando-as com o sistema de valores da sociedade. Ensinando-as a fazer fila, aceitar ordens e a se adaptar, transmitindo regras que muitas vezes ela própria não gosta. Seu maior problema é que passa horas demais em convívio com crianças, tendo pouco tempo para pessoas de sua idade. Transmite mais amor do que recebe e os afagos das crianças não são suficientes.

Representa um contra-script geralmente quando tudo parece estar bem no começo do ano escolar, quando todos estão felizes em revê-la ou quando as férias se aproximam, e ela se prepara para viajar e conhecer novas pessoas. A realidade de como ela se sente com o seu trabalho se torna mais clara durante o ano letivo, se sentido deprimida.

É atribuído a ela ser independente, seguir as regras e não ser ela mesma. Quando jovem, decide que o único meio a fazer o que gosta é adotar um "trabalho de mulher", como o de professora. É comum ter dores freqüentes de cabeça, muitas vezes fica deprimida no período menstrual. Emocionalmente vive os jogos: "Se não fosse por você"/"Por que você não - sim, mas..."/"Eles ficarão contentes por me conhecerem".

Antítese: Ela precisa parar de dar mais do que recebe, dando maior prioridade a sua vida social. Pode usar seu trabalho criativo em uma escola de adultos e crianças, baseada nos princípios de cooperação com colegas e alunos.

A bruxa de guerrilhas: Ela está em contato com seu poder de afetar as pessoas, um poder mágico e misterioso e fora de seu controle. Luta contra adultos com seu poder mágico e intuitivo, mas sem a estratégia de adulto. Sente, mede, tem pensamentos paranóides, e é julgada como uma pessoa altamente nervosa e castradora. Sente-se bem no papel de perseguidora. É vingativa, seu poder é totalmente aplicado para criar problemas para os outros.

Representa um contra-script quando ela se sente bem sucedida ao lançar um feitiço (ou pensa que lançou) sobre o patrão que ela despreza. Ele acaba ficando tenso e nervoso e a despede. Ela conclui que seu poder é destrutivo.

É atribuído a ela não confiar em ninguém, não se aproximar das pessoas e principalmente que ela é especial (diferente dos outros). Quando jovem, ela conclui que não consegue convencer os pais a lhe dar o que quer. Mas aprende a manobrá-los fazendo que briguem por sua causa. Emocionalmente vive os jogos: "Vocês e eles que briguem"/"Peguei você seu FDP"/"Tumulto".

Antítese: Ela precisa abandonar seu papel de "ser especial", decidindo ser simplesmente humana. Deve aprender a cooperar com as outras pessoas, no sentido de desenvolver o adulto dentro de si.

A dama ríspida: Na infância foi ensinada a ser só e a não confiar em ninguém. Lhe é fornecido uma programação masculina para ser bem sucedida na vida. Luta contra as pessoas que desprezam seu brio e independência, (dizendo que não estão OK) criticando-as. Os homens a vêem como uma "cadela castradora" e a evitam; as mulheres, tampouco, gostam dela, porque sempre parece "estar por cima"; assim, acaba triste e solitária.

Ela representa um contra-script quando consegue romper a barreira da intimidade e se apaixona por um homem que a admira. Mas, à medida que o tempo passa, ela não tolera ser dependente dele.

É atribuído a ela não confiar nas pessoas, lutar contra todos e antes de tudo cuidar de si mesma. Emocionalmente vive os jogos: "Peguei você seu FDP"/"Tumulto"/"Tribunal".

Antítese: A solução é decidir construir relações intimas com os outros, mesmo que isto provoque medo, assumindo os riscos. Aprender a tornar-se igual aos outros, desistindo da posição de "ser superior".

(continua na próxima edição)

STEINER, Claude. Os papéis que vivemos na vida. Rio de Janeiro: Artenova, 1976.

WYCKOFF, Hogie. Elaboração dos papéis sexuais dos homens e das mulheres, in: STEINER, Claude. Os papéis que vivemos na vida. Rio de Janeiro: Artenova, 1976, p.160-170.

_______________. Scripts: banais para mulheres, in: STEINER, Claude. Os papéis que vivemos na vida. Rio de Janeiro: Artenova, 1976, p.171-189.

 

Evento

O ENUDS – Encontro Nacional Universitário pela Diversidade Sexual - é um projeto de integração, que agrega temas acerca da diversidade sexual e os insere em um contexto social, familiar, salutar, mercadológico, entre outros.

Carla de Paula - Estudos de Mídia UFF - cobertura de evento sobre diversidade sexual - sexualidade
Carla de Paula Santos – 23

O evento ENUDS teve sua primeira versão no ano de 2003, motivado por um encontro da UNE (União Nacional dos Estudantes) realizado no ano anterior em Belo Horizonte. Na ocasião, lideranças como Dário Neto (Comissão Nacional do ENUDS - SP) foram convidadas a pronunciar-se sobre o tema "diversidade sexual" mas, durante o encontro, não lhes foi cedido espaço de participação.

Organizou-se então um movimento de protesto, o ENUDS. Desde então, o evento é realizado anualmente e está agora em sua terceira edição.

Nas duas primeiras edições, não havia entidades estudantis envolvidas, como na atual. Essa mudança é reconhecida como fundamental por Dário Neto, que comemora também o apoio recebido da Associação de Docentes da UFF e dos Sindicatos de Servidores da UFF e da UFRJ.

Aproximadamente duzentas pessoas são esperadas para acompanhar os debates, que se realizarão até o dia 15 de novembro, na Universidade Federal Fluminense, com apoio dos Diretórios Acadêmicos, que encararam o evento como "fato político".

Paula Cardoso, membro da coordenação do “Projeto Diversitas-UFF: extensão em diversidade sexual”, grupo à frente da realização do encontro em Niterói, declarou que a prefeitura de Niterói teria mostrado apoio mas, por questões burocráticas no acesso aos altos dirigentes, a ajuda não foi recebida. “O vínculo do ENUDS com a UFF é um dado fundamental para a obtenção dos apoios”, ressalta.

Paula afirma que, devido ao conservadorismo presente na sociedade, as empresas e instituições não querem sua imagem ligada a movimentos de cunho sexual (termo que abarca toda a diversidade implícita). Ela acredita ainda que faltam pesquisas aprofundadas abrangendo os variados universos da sexualidade e que a mídia não trata a questão da forma como deveria. "Os meios de comunicação são carniceiros, querem ver o circo pegar fogo".

Um dos assuntos tratados na primeira mesa de debates foi que os poucos materiais publicados ficam engavetados e se tornam de difícil acesso, por isso, mesmo dentro da própria Universidade a discussão é de pouco abrangente.

Algumas ONGs e entidades da sociedade civil compareceram ao primeiro dia de discussão no Diretório Central dos Estudantes da UFF. Carlos Alberto Migon, diretor do Grupo Atobá, concorda que, dentro das Universidades brasileiras, há uma escassez muito grande de iniciativas para o estudo da diversidade sexual, diferentemente de outros países, como os EUA, que oferecem até cátedras sobre o assunto. Perguntado sobre a relevância de eventos como o ENUDS, que tratam da causa sexual (homossexuais, heterossexuais, transexuais e bissexuais), Carlos Alberto diz que o mais importante é a visibilidade da causa e se mostra muito satisfeito por saber que, nesta edição, a realização ocorreu majoritariamente por iniciativa dos alunos da Universidade. “As discussões são muito pouco freqüentes dentro de qualquer instituição e precisa estar presente na família, nas Igrejas e não submetidas à marginalidade social”, afirma. Ele julga que a mídia não é tão inacessível como se pensa e acredita ter havido um considerável avanço na abordagem dos assuntos que permeiam os homossexuais na imprensa: "Nós saímos das páginas policiais para páginas políticas e de saúde".

Sílvia Ramos, cientista social, disse durante seu discurso que "A diversidade sexual é metáfora do direito à diferença", é "o símbolo da diversidade no país". Compareceu à mesa também a travesti Hanna Suzart, presidente da Associação de Travestis – ASTRA-Rio), que esclarece algumas definições sobre os novos termos, freqüentemente confundidos dentro até do próprio meio. A travesti é definida por ela uma questão de gênero e não de orientação sexual. Os transgêneros são pessoas do sexo feminino ou masculino que assumem características físicas ou psicossociais atribuídas ao outro sexo. "Travesti é o terceiro gênero", afirma.

De maneira análoga, a “Drag Queen” não tem uma definição relacionada à sexualidade, mas a uma profissão. Hanna assume ter de “fazer programas” para sobreviver e vê a mídia como "perversa".

Os transgêneros são apresentados estereotipicamente, como nas Paradas Gays, em que as fotos de destaque na imprensa são as que revelam as plumas, o brilho e o lado bem humorado do travestismo, relegando muitas vezes a um plano secundário as presenças gays ou lésbicas que, sem o mesmo impacto visual, são menos atraentes enquanto mercadorias.

O mesmo faz a TV, que, nas raras oportunidades em que veicula a imagem da travesti, a aborda na maior parte das vezes como prostituta de rua.

Todos os entrevistados reconheceram a importância do tratamento da temática homossexual em novelas, porque gera discussões em núcleos familiares e na sociedade, o que está contribuindo para uma maior conscientização de que há uma diversidade sexual e que ela precisa ser respeitada.

O deputado Babá, do PSOL, também se pronunciou na mesa e comentou a existência de uma repressão da polícia contra os GLBT, além de todo o processo homofóbico sofrido por essa mesma classe. O deputado declarou ainda que o Congresso Nacional "empurra com a barriga" os projetos de defesa aos homossexuais porque é ainda muito conservador, mas que há uma frente parlamentar de defesa da diversidade. Acredita que a classe média é bem mais preconceituosa que a de renda inferior: a classe média oprimiria de forma mais direta o comportamento homossexual que os pobres.

Quanto ao fato de que a mídia trate de forma depreciativa, debochada, sem profundidade ou atenção à causa fundamental, a liberdade sexual, o deputado foi taxativo: "Que cada um exerça a sexualidade como queira".

Carla de Paula Santos – 23 – Estudante do Curso Graduação em Estudos de Mídia (UFF)

 

 
Edição 17

Os papéis no relacionamento - parte I

por Géssica Hellmann

Neste artigo, exponho os principais "scripts" - conceito da Análise Transacional - que participam na elaboração dos papéis sexuais dos homens e das mulheres nos relacionamentos, segundo Claude Steiner (1976). Primeiramente farei um breve resumo sobre a Análise Transacional e a teoria dos scripts.

José Sobral de Alamada - Negreiros - arte sexualidade
Tela de José Sobral de Almada Negreiros

Eric Berne é um pioneiro de amplo alcance, um radical no campo da psiquiatria. Modificou a raiz das análises psiquiátricas com a Análise Transacional.

Em seu livro, Steiner (1976), resume três conceitos idealizados por Berne, que reunidos, colocam a análise transacional à margem da corrente psiquiátrica tradicional:

- As pessoas nascem OK. Assumir a posição "Eu estou Ok, Você está OK";
- Pessoas em dificuldades emocionais são, mesmo assim, ser humanos totais e inteligentes;
- Todas as dificuldades emocionais são curáveis, uma vez que lhe propicie o conhecimento adequado e a abordagem apropriada

O autor afirma ainda que a dificuldade que os psiquiatras encontram em tratar a esquizofrenia, psicose depressiva, entre outros, resulta mais da inépcia ou ignorância psiquiátrica do que na incurabilidade.

A teoria dos scripts faz parte da análise transacional. Segundo o autor, Berne definia script como "uma estrutura complexa de transações, repetitivas por natureza, mas não necessariamente repetidas, uma vez que uma atuação completa pode exigir uma vida inteira... O objetivo da análise de scripts é acabar com o espetáculo e colocar alguém melhor a caminho". (STEINER, 1976:25)

A análise de scripts pode ser chamada de "teoria de decisão", em vez de "teoria de doença dos distúrbios emocionais". Ela se baseia na crença de que as pessoas fazem planos de vida conscientes na infância ou primeira adolescência, influenciando e tornando previsível o resto de suas vidas.

A seguir abordarei os principais scripts femininos e masculinos, utilizados na análise transacional, descritas por Hogie Wyckoff.


1 - Os scripts nos relacionamentos

Wyckoff (1976), diz que as definições dos papeis masculinos e femininos são parte integrante da socialização das crianças, e estas mesmas definições são constantemente reforçadas pela vida afora. Afirma ainda que um resultado particularmente doentio de nosso treinamento em papeis sexuais é a lacuna criada nas pessoas, que limita seu potencial de se tornarem seres humanos totais.

Uma "auto-imagem OK" projetada nos meninos é que eles devem ser fortes, inteligentes, hábeis em negócios, pais protetores. Recebem mensagens para ser racionais e não emotivos: "homens de verdade". Já nas meninas é projetada a sensibilidade acima da racionalidade. Têm que ser boas mães, boas esposas, cuidar da casa e, principalmente, adaptáveis, complementando a metade masculina. As mulheres são persuadidas também a abdicar dos próprios sentimentos e a ter o corpo perfeito ligado ao "ideal da revista".

Todos somos ensinados a consumirmos um ao outro como brinquedos à disposição: depois que fomos usados até o fim, ou não servimos mais, simplesmente somos jogados fora e trocados por outra pessoa.

Um exemplo utilizado pelo autor: Mary, após dez anos de casamento, olha para o marido e diz: 'Penso que você não me ama mais.' Ele responde, 'absurdo é claro que a amo'. Eles estão passando por uma típica dificuldade entre relacionamentos, ele desconsidera os sentimentos dela e não sintoniza o fato de que poderia haver algo de verdadeiro na forma dela expressar as coisas. A "necessidade de amar a esposa" projetada na infância, aliada a sentimentos de culpa, talvez o mantenha fora dos seus sentimentos reais, embora ela esteja mais apta a estar em contato com os verdadeiros sentimentos. Deste modo, ele desconsidera os próprios sentimentos e as percepções intuitivas dela. Conseqüentemente, ela fica confusa e irracional e, ele, mais culpado e desligado.

Para o autor, dois pontos cruciais podem minar um relacionamento: a incapacidade de manter boas relações amorosas intimas e a dificuldade em desenvolver relações de trabalho satisfatórias e igualitárias.

1.1 - Scripts banais para mulheres

Supermãe: É a mulher que passa a vida cuidando e protegendo todo mundo, menos dela mesma. Geralmente, dá mais do que recebe e aceita o desequilibro por se sentir inferior. Representando um "contra-script" ela, algumas vezes, pode conseguir um emprego, parecendo que está se tornando independente e violando o roteiro; mas isto tem curta duração, por acumular o trabalho adicional com as tarefas domésticas.

Enquanto menina, lhe foi projetada a idéia de "ser boa mãe e esposa e, a de se sacrificar pelos outros". Na juventude, ela decide representar o papel da supermãe em vez de almejar uma carreira própria assumindo sua independência.

Muitas vezes estas mulheres tendem ao excesso de peso e pode negligenciar sua saúde em favor das dos filhos. Emocionalmente vivem o jogo da mulher "Maltratada"/"Mulher Frígida"/"Veja o quanto tentei".

Antítese: Ela começa a ouvir e respeitar os próprios desejos interiores, principia a receber afagos pelo que é e não pelo que pode dar. Começa a prestar atenção no seu corpo, colocando muitas vezes suas necessidades à frente das dos outros.

Mulher de Plástico: Num esforço para receber afagos, ela se cobre de plástico: jóias, saltos altos, roupas exóticas, perfumes, maquiagem. Tentam comprar a beleza e a sensação OK, mas nunca conseguem. Sente-se sempre abaixo do padrão de beleza da mídia. Sente-se segura no papel de consumidora. Repetidamente, testa a validade do script ao ser ignorada quando não segue seu padrão de beleza. Quando a beleza artificial não pode ser mais comprada ou maquiada, ela tende à depressão, freqüentemente prenchendo o vazio com drogas como álcool ou tranqüilizantes. Representando um contra-script, ela se sente bem quando acabou de fazer uma dieta, está bem vestida e é admirada. Também se sente bem quando está um pouco "alta" pelo álcool ingerido no almoço, mas essas sensações têm curta duração e, mais uma vez, ela se sente vazia e insatisfeita.

É atribuída a ela a idéia de não envelhecer, não ser ela mesma e ser atraente. Na juventude, decide pegar um emprego temporário para comprar suas roupas, em vez de continuar o trabalho no jornal da escola ou concretizar seu interesse em escrever.

Geralmente seu corpo é fino, mas flácido. Pés torturados por sapatos finos e a pele secou com excesso de óleo de bronzear. Emocionalmente, vive os jogos: "Compre-me alguma coisa"/"Bobona"/"Alcoólatra" (ou outro tipo de droga)

Antítese: Ela decide gostar do seu eu natural. Conclui que o seu poder como consumidora é ilusão, decide ser responsável por si mesma. Deixa de usar drogas e adere a um grupo de resolução de problemas aprendendo a fazer mudanças em sua vida.

A mulher por trás do homem: Estas mulheres dirigem seus talentos e capacidades em apoiar o marido, que freqüentemente é menos talentoso que ela mas que, de acordo com a sociedade sexista, é quem deve ser bem sucedido. A serviço do apoio do marido, ela lhe dá afagos e permite que ele receba afagos que pertencem a ela por direito. Ela acha muito mais fácil dirigir seu instinto de sucesso para o marido do que lidar com a realidade difícil e competitiva de ser uma mulher de carreira.

Representando um contra-script, ela se sente muito bem quando o marido genuinamente aprecia seu papel mas, à medida que ele passa a considerar-se como autor do próprio sucesso, ela começa a sentir ciúmes e ressentimento, pensando não ser OK ter esse tipo de sentimento.

É atribuído a ela: ser prestativa / não receber reconhecimento / ficar por trás de seu homem.

A certa altura, ela decide não terminar os estudos, para conseguir um emprego e custear os estudos do marido, decidindo, assim, que para ser boa esposa não deve brilhar mais do que ele.

Geralmente tem a postura um pouco curvada, tende a manter os ombros encolhidos para parecer insignificante e inofensiva. Emocionalmente vive os jogos:"Você é formidável, professor"/"Feliz em poder ajudar"/"Se não fosse por você..."

Antítese: A saída é começar a receber reconhecimento pelo seu talento e usá-lo para o seu próprio bem, desistindo de se ocultar e assumindo a responsabilidade, livrando-se, assim, das mensagens internas que lhe dizem que ela está não OK.

Coitadinha de Mim: Ela passa a vida como uma vítima à procura de um salvador. Seus pais fazem tudo por ela, porque ela é uma "moça", tornando-a dependente deles. Ela geralmente casa com um homem importante que possa protegê-la, que possa desempenhar o papel do "papai salvador da menininha desamparada". Não recebe afagos por estar OK sempre que demonstra alguma força, somente afagos de "não-OK" quando está mal. Aprende que pode conseguir as coisas mais facilmente se representar seu papel de vitima, contando seus problemas às pessoas.

Representa um contra-script quando parece estar bem logo após se casar com o seu cavaleiro heróico: ele a salva tão bem que parece que as coisas saíram conforme ela queria.

É atribuído a ela ser uma eterna criança (desprotegida), fazer o que os pais mandam e não pensar por si mesma. Na juventude, após ter sido coagida a não escutar seus próprios pensamentos e sentimentos, decide que seus pais sabem melhor do que ela.

Geralmente tem um corpo fraco, desequilibrado, olhos muito abertos com um tom de tristeza e surpresa. Emocionalmente vive os jogos: "Não é horrível?"/"Estúpida"/"Faça alguma coisa por mim".

Antítese: Ela se recusa a aceitar a saída mais fácil, decide que dentro dela existe um adulto a se desenvolver. Passa a receber afagos por ser OK quando demonstra força.

A beleza decadente: Ela possui os atributos de padrão de beleza estabelecido pela mídia. Mas não se sente bem como pessoa e não se sente atraente, julga-se frívola. Recebe afagos em demasia por ser bela, e desconsidera todos eles. Ela deseja ser apreciada como pessoa e está em constante procura do príncipe encantado. Pelo fato de não usar seu adulto na relação com o príncipe encantado, ele eventualmente pode dilacerá-la emocionalmente. Mais tarde, ao perder a beleza, ela continua mantendo o relacionamento hostil que sempre manifestou com os outros, sendo agora considerada "puta" sem razão alguma. Na maioria das vezes acaba solitária, não amando ninguém, nem ela mesma.

Representa um contra-script quando está feliz, perdidamente apaixonada pelo seu príncipe, o relacionamento parecendo incrível durante seis meses, quando então as coisas começam a degenerar e ele passa a se interessar por outra mulher bonita.

Geralmente é atribuído a ela que sua beleza é artificial, para que ela não se aproxime das pessoas e não seja ela mesma.

Ela decide ver a si mesma como um objeto sexual para conseguir o que deseja. Seu corpo é lindo, mas tem poucos sentimentos. Por ser tensa, tem dificuldade para chegar ao orgasmo. Emocionalmente vive os jogos: "Defeito (nela mesma)"/"Se não fosse por você"/"Estupro".

Antítese: Começa a exigir afagos pelas qualidades que possui além de sua beleza. Pára de atribuir defeitos a si mesma e passa a valorizar a beleza interior. Decide usar o eu Adulto para construir um relacionamento com alguém que goste dela como pessoa.

(continua na próxima edição)

STEINER, Claude. Os papéis que vivemos na vida. Rio de Janeiro: Artenova, 1976.

WYCKOFF, Hogie. Elaboração dos papéis sexuais dos homens e das mulheres, in: STEINER, Claude. Os papéis que vivemos na vida. Rio de Janeiro: Artenova, 1976, p.160-170.

WYCKOFF, Hogie. Scripts: banais para mulheres, in: STEINER, Claude. Os papéis que vivemos na vida. Rio de Janeiro: Artenova, 1976, p.171-189.

Dicas de Leitura

análise transacional - jogos da vida - eric berne - dica de leitura - sexualidade

 

 
Edição 16

Voyeurismo e Exibicionismo
por Géssica Hellmann

Parafilia é o termo atual utilizado para os transtornos da sexualidade, anteriormente chamados de "perversões sexuais". Estudá-las é essencial para se conhecer as variantes do erotismo e expressão comportamental. Segundo Reuben (s.d.,193), "os variantes sexuais começam como todas as outras pessoas; apenas jamais crescem, sexualmente falando."

Mais recentemente, "o DSM-IV fala das Parafilias como uma sexualidade caracterizada por impulsos sexuais muito intensos e recorrentes, por fantasias e/ou comportamentos não convencionais, capazes de criar alterações desfavoráveis na vida familiar, ocupacional e social da pessoa por seu caráter compulsivo." (BALLONE, 2005)

Voyeuriste- arte sexualidade

Imagem do Museu de Cultura Sexual Chinesa, Shanghai (Dinastia Ching , dois jovens atores fazendo amor)

Voyeurismo e exibicionismo são considerados exemplos de parafilias. Segundo Marzano, o voyeurismo, palavra de origem francesa, envolve o ato de observar pessoas, geralmente estranhos, sem suspeitar que estejam sendo observados, que podem estar nus, despindo-se ou em atividade sexual. O ato de observar serve à finalidade de obter excitação sexual, embora geralmente não seja tentada qualquer atividade sexual com a pessoa observada.

Sexualmente, todos começam como espreitadores ou bisbilhoteiros. Meninos e meninas se espiam na escola; crianças buscam conhecer a diferença entre meninos e meninas. Este processo é natural e saudável nesta fase para o desenvolvimento sexual.

Reuben enfatiza que o espreitador pára no caminho. Sua observação não leva ao ato sexual. Ele fica onde está. Tudo o que ele deseja, ou quase tudo, é ver. Sua concepção de sexo é infantil e limitada. Outro requisito essencial é que a pessoa observada seja uma vítima, no sentido que sua intimidade foi violada.

Marzano afirma que, geralmente o observador masturba-se durante o voyeurismo ou mais tarde, em resposta à lembrança do que a pessoa testemunhou. O voyeurismo inclui homens e mulheres, mas, no entanto a porcentagem é maior entre homens.

Freqüentemente, esses indivíduos fantasiam uma experiência sexual com a pessoa observada, mas isto raramente ocorre na realidade.
Marzano (2005) aconselha: se a pessoa descobre que está sendo espionada? Primeiro deve-se tentar evitar a possibilidade que isto ocorra com cuidados simples como cortinas, fechar portas, etc, evitando o atrito pessoal. Fora isto uma ocorrência policial e providências jurídicas são necessárias.

No cinema, exemplos não faltam. Basta lembrar de Jack, que assiste de longe a strips de sua vizinha favorita, no filme Dublê de Corpo, de Brian de Palma. De Jeff, o fotógrafo paralítico de Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock, que testemunha um assassinato da vidraça de seu apartamento. E com o advento da Internet?

Nelson Vitiello, presidente da Sociedade Brasileira de Sexualidade Humana, divide os voyeurs em 3 categorias:

- Clássico: Gosta de olhar, sem que a pessoa saiba que está sendo observada, através de janelas, buracos de fechadura e frestas de porta. Freqüentemente, recorre ao binóculo ou a luneta.

-Moderno: Gosta de olhar a namorada, mulher ou amante com outros homens ou mulheres, com o consentimento dos envolvidos. As casas de swing (ou troca de casais) oferecem a possibilidade desta prática e para os solteiros há as chamadas salas de voyeurs, onde ele pode apreciar a performance de casais exibicionistas.

-Tecnológico: Gosta de observar a vida alheia pelas webcams. (VOYEURISMO, 2005)

O exibicionismo, segundo Abucbaim (2005), é ato cometido por uma pessoa que mostra seus genitais a uma pessoa estranha, em geral em local público, obtendo excitação e prazer sexual com a reação da pessoa a quem pegou de surpresa. Geralmente, não existe qualquer tentativa de atividade sexual com o estranho.

Existem os exibicionistas profissionais, strip-teasers, que geralmente gostam do que fazem e sentem prazer sexual em mostrar-se. E assim como os voyeurs tecnológicos, também existem os exibicionistas que adoram serem vistos pelas webcams e sentem prazer em dividir sua intimidade com os milhares de internautas.

Estudar a sexologia implica em estudar os seres humanos como indivíduos sexualizados, incluindo sentimentos sexuais, fantasias, condutas e problemas sexuais. É muito complexa a questão sexual, seja do ponto de vista qualitativo ou quantitativo. Em geral, pessoas que apresentam estas parafilias não buscam tratamento espontaneamente, o que só acontecerá quando seu comportamento gerar conflitos com o parceiro sexual ou com a sociedade. Sendo assim, tais pessoas aparecem em consultórios psiquiátricos trazidas contra sua vontade.

ABUCBAIM, Ana Luiza Galvão. ABUCBAIM, Cláudio Moojen. Perversões Sexuais ou Parafilias. Disponível em: <http://abcdocorposalutar.com.br/artigo.php?codArt=50> Acessado em 01 nov. 2005.

BALLONE, GJ - Delitos da Sexualidade; Parafilias, in. PsiqWeb, internet, disponível em: < http://www.psiqweb.med.br/forense/sexual6.html> Acessado em: 01 nov. 2005.

MARZANO, Celso Dr. Voyeurismo - Normal ou Doença Sexual ?. Disponível em: <http://www.isexp.com.br/si/site/1656?idioma=portugues
> Acessado em 01 nov. 2005.

REUBEN, David Dr. Tudo o que você queria saber sobre sexo. São Paulo: Círculo do Livro, (s.d.).

Voyeurismo. Disponível em: < http://www.tarasnet.hpg.ig.com.br/tarasnetnosso%20voyeurismo.htm> Acessado em: 01 nov. 2005.

 
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