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| Edição 30 |
por Géssica Hellmann Demos um tempinho na teoria da sexualidade para um papo com Rocca Stockler, uma mulher sexuada sobre... Adivinha!
Géh: Bissexualidade. O que você tem a dizer? Rocca Stockler: Não escondo meu desgosto pela libertinagem despersonalizada que vejo nos dias de hoje, mas quem sou eu! Bissexualidade é um rótulo e sou completamente contra qualquer tipo de rótulo. Hoje em dia ser bissexual virou moda, isso retrata tremenda falta de personalidade. A intimidade não teria de ser jorrada, assim como não há motivo de ser escondida. Teria de ser normal, mas a coisa banalizou. Realmente desejo que se busquem elos e não rótulos. Géh: Como você se define sexualmente? Rocca Stockler: Concordo com Caio Fernando Abreu, na minha cabeça também há dois tipos de pessoas: as sexuadas e as assexuadas. Sou sexuada! Géh: Quero abordar mais uma vez o preconceito, mas você falou de modismo, e isso também é interessante. Fazer porque é a onda, e não porque faz parte de si mesmo. No final tornam-se preconceituosos da mesma forma, com os que não seguem o modismo. Rocca Stockler: Modismo é um preconceito meu. Fato! Perdemos muito conhecimento quando optamos seguir o nada. Modismo é um grande vácuo. Acho triste apenas. Géh: Você se define como um ser "sexuado"? Rocca Stockler: Sim. Vejo o corpo humano como uma como uma máquina aberta a todos os estímulos, bons e ruins. Prazer é um bom estímulo, sendo assim quem apertar o botão certo, tocar o corpo, vai me dar prazer, seja homem ou mulher. Fato: o cérebro humano é o único inimigo das diversas formas de encarar os desejos. Nunca me rotulei. Géh: Como foi sua descoberta da sexualidade? Rocca Stockler: Descoberta desde os primórdios? (risos) Géh: Vai conta... Nascemos, crescemos e descobrimos o sexo. É por ai (risos) Rocca Stockler: Lembro com mais carinho da minha descoberta do desejo entre duas pessoas. Primeiro beijo, num cemitério, foi algo que marcou mais que minha primeira trepada. Eu era muito moleca, jogava basket com irmão mais velho, convivia com amigos dele, nunca desejei me apaixonar e nem pensava em trepar. Depois do beijo, mesmo eu mostrando querer matar o menino, comecei a me olhar no espelho de forma diferente (risos). Já minha primeira experiência sexual foi uma merda. Géh: Engraçado, mas todos passam por esse momento de quando nos olhamos no espelho e parecemos alguém diferente, algo mudou. Ou, não sou mais criança, mas será que cresci sou mulher? Rocca Stockler: Eu sentia vergonha por ser muito moleca, como disse. Cresci em dois mundos paralelos: teatro (no qual me formei em expressão corporal, que brinca com o corpo de maneiras completamente lascivas ou brutas) e basket (que era minha vida em casa, e minha casa eram as ruas.). Depois que rolou esse lance, que eu juro: NUNCA HAVIA PENSADO NESSAS PARADAS, comecei a sentir vergonha, parecia que estava devendo alguma explicação pra alguém. Agora sexo e prazer vieram separados na minha vida. Géh: Qual veio primeiro? Rocca Stockler: Sexo. Acredito que sempre vem primeiro sexo. Minha primeira trepada foi com um namorado que eu gostava. Ele não sabia me pegar de jeito, assim como eu também não sabia exatamente o que estava rolando. Não houve prazer. Foi muito cru. Éramos assim. Se for relatar ao pé da letra, diria que: exigi camisinha (apologias à parte, sempre fui extremamente chata com assunto segurança), abri a perna, doeu e sangrou. Não teve prazer. Posso até confessar que meu prazer maior foi ter passado a expectativa da primeira vez. Sei lá o que pensava... Acho que nem pensava. Minha primeira trepada foi exatamente isso: ufa até que enfim foi. PONTO! Não teve graça alguma. Aliás, as primeiras, e todas com o mesmo namorado, não tiveram prazer. Troquei de namorado. (gargalhadas) Géh: A insegurança, o medo, e a falta de conhecimento do próprio corpo nos levam a esse tipo de experiência. A minha também foi uma merda. (risos) Rocca Stockler: É foda, porque sexo ocupa grande parte do meu gostar de alguém. Se não for bom, não rola. Assim como, se for básico, também não me agrada. Procuro sempre algo que desconheço. Quero que a pessoa que estiver comigo faça o mesmo. É saudável na vida de um casal. Géh: No seu texto "Complexo de Édipo", você fala sobre a sua relação familiar, acha que isto influenciou na maneira como você encara a sua sexualidade, seus relacionamentos? Rocca Stockler: Minha relação familiar influenciou bastante no quesito responsabilidade. Sempre fui muito responsável em tudo, inclusive e principalmente sexualmente. Sempre gostei de relacionamentos longos com muita intimidade. Talvez seja por ter essa referência com meus pais, talvez não. Que seja... Não gosto de fodas casuais. Nunca gostei. Acredito que seja um egoísmo meu, pois não abro mão da prioridade de sentir prazer, e quero que façam o mesmo comigo (quem e apenas quem estiver comigo - risos). Não há nem carinho e menos conhecimento ao lado de alguém que, quando muito, você sabe o nome. (risos). Superar limites é algo me agrada muito. A falta de pudor também. Géh: Por se considerar sexuada, você é aberta a relacionamentos com o mesmo sexo? Rocca Stockler: Totalmente! A priori nunca procurei me relacionar com uma mulher, muito menos desejei, pelo simples fato de nenhuma mulher ter me despertado tesão. Porém quando aconteceu foi muito bom. Géh: A questão da bissexualidade é crescente, mas ainda pouco abordada uma vez que a homossexualidade ou a própria heterossexualidade é mais visada e discutida. Em sua opinião, no tocante ao preconceito, os bissexuais sofrem até mais que os homossexuais por não acharem seu espaço? Rocca Stockler: Na minha grosseira opinião sobre... Afirmo carregar um carinho enorme da minha relação de sete anos, de extrema cumplicidade, com uma mulher qual amo incondicionalmente até hoje, e sempre vou amá-la. Não consigo aceitar rótulos quando o que sempre esteve em questão foi meu instinto. Géh: "O cérebro humano é o único inimigo das diversas formas de encarar os desejos". Com essa afirmação você considera o pior preconceito rotular as opções sexuais? Rocca Stockler: Sem sombra de dúvida! Sou completamente entregue ao amor incondicional. E sei que tive muita sorte por não ter de dar explicação pra ninguém que não eu mesma, ao ter descoberto também gostar de alguém do mesmo sexo. Isso aconteceu num tempo em que família já havia deixado de participar da minha vida e, talvez, minha família tenha passado a ser a mulher que estava comigo. No meu caso sempre vivi de trocas cúmplices, tesão e cuidados com quem está ao lado. Tive sorte. Géh: Você é uma pessoa que transmite uma energia contagiante. Vou colocar uma definição sobre quem é Rocca dada pela jornalista Carolina Martins: "A Rocca é uma contradição. É quase um homem e ao mesmo tempo é tão fatal quando mulher". O que você diz sobre isso? Rocca Stockler: Que responsabilidade! Complicado falar sobre essa afirmação. Diria que me sinto mais como um animal, no melhor sentido da palavra. Quando valorizamos o instinto animal chegamos a lugares que não teriam como ser verbalizados. A busca sexual, ou descoberta, que seja, é um caminho extremamente egoísta. Quando você se masturba consegue sentir prazer automático. Quando está com alguém o processo é diferente. Sou partidaríssima ao descobrir por inteiro como a pessoa que está comigo sente prazer, como ela se toca, e vice versa. O sexo bom em si é contraditório. Tem de haver uma perfeita química e troca pra atingir o prazer, porém é necessário existir boa dose de egoísmo pessoal, (no bom sentido) pra você por si sentir prazer com o corpo de outra pessoa. Claro que homens e mulheres têm peculiaridades distintas: textura, cheiro, gosto, anatomia. Assim como é distinto e por inteiro quando estou com qualquer um dos sexos. A parada de homem achar que vai se dar bem com o fato da mulher dele também gostar de mulher, comigo sempre foi motivo de piada. Relacionamento é sempre a dois. Trocas são únicas. E é muito comum esse fetiche masculino. (risos) Géh: Faz um resumo dessa distinção entre o estar com um homem ou com uma mulher? Rocca Stockler: Eu gosto de mulheres delicadas e homens rudes. Cada um com o devido traço da espécie. Grosso modo, é claro! E ambos decididos sobre o que querem. Não suporto falta de entrega. As mulheres despertam em mim o cuidar de alguém mais frágil. Os homens afloram minha fragilidade, e isso é bom! Meus três casamentos foram com homens. Talvez por mais que o ímpeto animal esteja presente, eu sinta necessidade dessa peculiaridade que os homens conseguem aflorar em mim. Isso me aquieta o tanto que atiça. Géh: Acho que fechou com chave de ouro! Dica de Leitura - O Que
é Mesmo a Sexualidade?
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| Edição 29 | A repressão sexual nos limites da loucura: uma introdução à história da Inquisição (parte II) por Géssica Hellmann Outra questão abordada é a de se as bruxas são capazes de impedir o ato venéreo. Pedro de Palude, segundo os autores do Malleus, afirmaria que o demônio, por seu espírito, seria capaz de impedir que os corpos se aproximassem um do outro, direta ou indiretamente, interpondo-se sob alguma forma corpórea. Ele relata o caso de um jovem que, embora tivesse casado com uma jovem donzela, já havia se comprometido com um falso deus e, conseqüentemente, não conseguiu, depois de casado, copular com a donzela. Este mesmo autor afirma que o demônio é capaz de ora excitar, ora esfriar os homens, no seu desejo, através de elementos secretos. Afirma ainda que o demônio é até capaz de impedir a ereção do membro viril do homem.
Witches Sabbath, Xilogravura, 379 x 260mm - Germanisches Nationalmuseum, Nuremberg (1510) Da impotência masculina, os autores do Malleus admitem que existe impotência por "falha natural", mas que existe um modo de diferenciar a impotência natural da atribuída à bruxaria: "Quando o membro não fica ereto de forma alguma, e nunca é capaz de realizar o coito, tem-se então o sinal de impotência natural; todavia, quando se excita e fica ereto, mas mesmo assim não consegue realizá-lo, tem-se então o sinal de impotência por bruxaria". (Kramer e Sprenger, 1991, p.137) Pode-se dizer que os processos inquisitoriais sobre acusações de bruxaria enfocavam, principalmente, os corpos das bruxas: "Enquanto os oficiais se preparam para o interrogatório, que a acusada seja despida; se for mulher que primeiro seja levada a uma das células penais e que seja lá despida por mulher honesta de boa reputação. Eis o motivo: cumpre vasculhar-lhe as roupas em busca de instrumentos de bruxaria a elas costurados; pois muitas vezes portam tais instrumentos, por instrução dos demônios...". (Kramer e Sprenger, 1991:431-432). As acusadas eram posteriormente amarradas e torturadas. Os métodos de interrogatório eram de uma crueldade física e psicológica ímpar: "Durante o intervalo, antes da sessão de tortura seguinte, o próprio juiz ou outros homens honestos deverão tentar persuadi-la, por todos os meios que estiverem a seu alcance, para que confesse a verdade da forma que dissemos, dando-lhe, se lhes parecer conveniente a promessa de que sua vida será poupada". (Kramer e Sprenger, 1991, p.435). Prometiam a diminuição da pena para que confessassem, mas raramente a cumpriam, e mesmo a quem era concedido o benefício da prisão perpétua, alguns meses após o julgamento a sentença era comutada para a pena de morte na fogueira. Caso as ameaças nem as promessas resultassem em confissões, "então os oficiais devem prosseguir com a sentença, e a bruxa deverá ser examinada, não de alguma forma nova ou estranha, mas da maneira habitual, com pouca ou muita violência, de acordo com a natureza dos crimes cometidos". (Kramer e Sprenger, 1991:433). Inúmeros outros métodos são descritos no "Malleus Maleficarum". Todos de extrema violência. Mas é importante entender que os Inquisidores da época realmente acreditavam no que pregavam, embora também seja fato que muitos foram levados pela ganância e pela corrupção, pois se sabe que os bens dos acusados de heresia eram confiscados. Seligmann (1948) descreve vários episódios atribuídos à possessão demoníaca. Um dos relatos refere-se ao Convento de Loudun, na segunda década do século XVII. Logo após Joana dos Anjos assumir a direção do convento, apareceu em Loudun um padre chamado Urbano Grandier. Segundo o autor, "brilhantemente dotado", Grandier logo se tornou o pároco da região, acabando por atrair sobre si o interesse das senhoras. Tornou-se famoso por sua arte de consolar viúvas e confortar moças solteiras com métodos não inteiramente de acordo com a ortodoxia do sacerdócio. Seduziu a filha do procurador régio e, mais tarde, conheceu Madeleine de Brou, filha do conselheiro do rei, que compôs em honra de Grandier um espirituoso tratado contra o celibato dos padres. Tais escândalos chegaram ao ouvido de Joana dos Anjos, que começou a ter "sonhos pecaminosos". Sua perturbação psíquica agravou-se a um ponto em que começou a ter ataques histéricos noturnos no convento. Pediu ajuda às freiras para que a flagelassem. Pouco depois, várias outras feiras começaram a sofrer alucinações parecidas com as de Joana. Vários exorcistas foram enviados para o convento a fim de trazer a paz. Grandier foi acusado de enfeitiçar as freiras. Os exorcistas obrigaram os "demônios" a assinar documentos comprovando a culpa de Grandier. A 30 de junho de 1634, Urbano Grandier foi condenado e queimado vivo. Outro episódio descrito pelo mesmo autor é os das internas do claustro de Antoinette Bourignon. As internas eram mantidas sob rígida disciplina, tratadas com muito rigor, conforme os hábitos e perspectivas da época. Antoinette relata que, todas as sextas-feiras, as internas deveriam se humilhar, confessando as suas faltas na grande sala pública, ritual seguido de flagelação ou reclusão num aposento denominado "prisão". Uma das moças, com menos de quinze anos, certo dia abriu a porta da prisão e regressou à sala de aulas. Por esse motivo, foi acusada de bruxaria. A moça declarou, então, ter sido ajudada por um homem negro. Foram chamados três padres, os quais concluíram que ela estava possuída por um demônio. Antoinette declarou que, ao "levá-la para sua câmara, ela revelou tratar-se do demônio um belo jovem, um pouco mais alto que ela". Esses demônios devem ter agradado tanto as jovens internas que, pouco tempo depois, trinta e duas delas falavam de seus jovens demônios-homens, os quais se mostravam amáveis para com elas, acariciando-as dia e noite. Sobre esses dois episódios, cabe uma indagação: qual o limite entre a atividade "demoníaca" e da fantasia, do erotismo, ou até - quem sabe? - de abuso sexual por parte de aproveitadores? Na visão do psiquiatra Byington (1991), a Inquisição se julgava megalomaniacamente purificadora e projetava de forma paranóide sua própria sombra, ou seja, seus complexos culturais inconscientes. Não só não repudiavam o humanismo cristão, como se fundamentavam nele para perpetuar seus crimes. Por fim, o "Malleus" interpreta como bruxaria qualquer comportamento que seus autores clericais não pudessem explicar, muitas vezes, comportamentos associados aos efeitos de drogas como o esporão de centeio ou cogumelos "mágicos", um simples banho de sol ou até a masturbação feminina. Na prática, qualquer coisa arbitrariamente considerada hostil à Igreja poderia ser rotulada como demoníaca. Nesses períodos, o diabo era, de fato, descendente do Pã, o "senhor da natureza irredimida". Foi nos ritos irracionais, e muitas vezes sexuais, da religião pagã, sobretudo os Sabás, que a Inquisição buscou identificar o "adversário" do cristianismo. Para Baigent e Leigh (2001), a igreja sempre fora mais que um pouco inclinada à misoginia. A caça às bruxas forneceu-lhe um mandado para uma cruzada em larga escala contra as mulheres, contra tudo o que era feminino, impondo um controle autoritário sobre as mulheres que as tornou subordinadas, mantendo-as no lugar que se julgava apropriado. Em resumo, as idéias fundamentais da Inquisição eram a de que o demônio, procurando fazer o mal aos homens, o faria através do corpo, através do controle da sexualidade. Pois foi pela sexualidade que o primeiro homem pecou e, portanto, a sexualidade é o ponto mais vulnerável de todos os homens. Como as mulheres seriam mais suscetíveis ao erotismo e à sexualidade, tornar-se-iam alvos fáceis para a corrupção e a bruxaria. Com o final da caça as bruxas, processa-se uma grande transformação no universo feminino: a sexualidade é normatizada, tornando-se frígidas as mulheres. A sociedade do final do século XVIII é composta de trabalhadoras dóceis que não questionam o sistema. Como ponto final, gostaria de deixar em aberto, uma reflexão:
em todo o estudo "militante" sobre a sexualidade, tende-se a
deixar de lado a realidade das doenças sexualmente transmissíveis.
Até meados do século, a maioria dessas doenças permanecia
sem tratamento ou perspectiva de cura. Não me atrevo a me posicionar
quanto os valores e aos procedimentos da Inquisição, nem
quanto à repressão sexual indiscriminada que descrevemos
nesses estudos, mas de certa forma, julgo não ser possível
ignorar que esses atos poderiam incluir em seus objetivos, de uma forma
ou de outra, uma tentativa de controle sobre a disseminação
dessas doenças. Referências Bibliográficas BAIGENT, Michael. LEIGH, Richard. A Inquisição. Rio de Janeiro: Imago, 2001. BATAILLE, Georges. O erotismo. Lisboa: Moraes,1980, 2ª ed. BYINGTON, Carlos Amadeu. O Martelo das Feiticeiras - Malleus Maleficarum à luz de uma teoria simbólica da história.In: SPRENGER, James. KRAMER, Heinrich.O Martelo das feiticeiras. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1991, 2a. ed. SELIGMANN, Kurt. História da Magia. Lisboa: Edições 70, 1948. SPRENGER, James. KRAMER, Heinrich.O Martelo das feiticeiras. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1991, 2a. ed. Dica de Leitura - A Inquisição A Inquisição foi utilizada pela Igreja como um braço repressor a fim de amealhar bens e matar impunemente quem atravessasse o caminho. Essa é a teoria de Baigent e Leigh, que mostram o nível de corrupção dentro da estrutura episcopal da época inquisitorial.
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| Edição 28 | A repressão sexual nos limites da loucura: uma introdução à história da Inquisição (parte I) por Géssica Hellmann O objetivo deste artigo é abordar introdutoriamente uma lacuna apresentada em artigos anteriores, abordando "algumas variáveis" empregadas pela Inquisição para definir o que era "bruxaria" no âmbito da sexualidade.
Witches' Sabbath (1789) por Goya Primeiramente, apresentarei uma breve revisão histórica da Inquisição, demonstrando como divindades antigas foram demonizadas pelo cristianismo e o processo pelo qual vários fenômenos naturais foram atribuídos à bruxaria. Neste artigo, uso como referência o próprio manual dos inquisidores, "Malleus Maleficarum - O martelo das Feiticeiras", dos inquisidores Kramer e Sprenger (1991). Como fonte secundária, Byington (1991) em seu prefácio na tradução do "Martelo das Bruxas", Bataille em "O Erotismo" (1980), Seligmann (1948) em "História da Magia" e, por fim, "A Inquisição" de Baigent e Leigh (2001). Segundo Baigent e Leigh (2001), a Inquisição existe até hoje, transformada atualmente em "Doutrina da Fé", desempenhando um papel de destaque na vida de milhões de católicos no mundo. Em sua origem, a Inquisição teria sido um produto de um mundo "brutal, insensível e ignorante" (p. 15). Para compreendê-la em todos os seus excessos, não podemos ter a presunção de julgar o passado com os critérios do que seria "politicamente correto" em nosso tempo. Porém, identificar a Inquisição com a Igreja como um todo seria um erro. Pois mesmo em seus períodos mais cruéis, a Inquisição foi obrigada a lutar com outras faces mais humanistas, dentro da própria Igreja. Outro ponto importante a destacar, é a energia criativa que a Igreja inspirou, na música, pintura, escultura, arquitetura e arte em geral, o que representa um contraponto para as fogueiras e torturas da Inquisição. Os alvos primários da Inquisição medieval na França e Itália haviam sido os hereges cristãos, como os cátaros, waldenses e os franticelli, ou "supostos" hereges como os Cavaleiros Templários, alvo aparentemente mais visado pela sua riqueza do que por suas idéias. A Inquisição Espanhola, ao contrário das que a precederam, não foi um instrumento do Papado, mas dos monarcas espanhóis. Seus alvos primários eram os muçulmanos e judeus e, mais tarde, a Inquisição foi levada ao Novo Mundo, para caçar e punir a heresia, assegurando a "pureza da fé católica". Embora exista pouca documentação em apoio a esta hipótese, parece ter havido uma tradição segundo a qual os funcionários da Igreja, nas sessões de tortura, não deveriam derramar sangue, podendo, no entanto, utilizar outros métodos de tortura física e psicológica. A Inquisição logo criou uma maquinaria de intimidação e controle extremamente eficiente, podendo ser encarada como uma precursora da policia secreta de Stalin, da SS, da Gestapo Nazista e de outros aparelhos repressivos do século XX. Enquanto a fumaça das fogueiras da Inquisição expandia-se da Península Ibérica ao Novo Mundo, a original, sob o controle do Papa, mantinha-se produtivamente ocupada em outras partes da Europa. Para compreender a origem da "caça às bruxas" pela Inquisição, é importante retornar um ao passado, antes do domínio do cristianismo. Na era pré-cristã, os domínios do Império Romano haviam reconhecido o deus Pã como a divindade suprema que presidia o mundo natural. Representado com chifres, cauda e cascos de bode, implacável, gozava de prerrogativas particulares em questões da sexualidade e fertilidade. Posteriormente sobre a autoridade da Igreja, foi oficialmente caracterizado como entidade satânica. Com o colapso do Império Romano, muitos camponeses europeus continuaram e a reconhecer a divindade de Pã, e outras divindades, como Diana, mantiveram-se em circulação, apesar do advento do cristianismo. Os camponeses europeus podiam ir à Igreja aos domingos, assimilar num certo ponto os ritos e a doutrina de Roma, mas continuavam a deixar pires de leite e outras oferendas para aplacar as antigas forças à espreita nas florestas. Muitos se esgueiravam nas datas certas do ano para os "Sabás das Bruxas" - a observância pagã de solstícios e equinócios, ritos de fertilidade, festividades em que deuses da velha religião figuravam, embora de forma disfarçada e cristianizada. Na imaginação do Inquisidor, durante o Sabá, o demônio reunia suas bruxas fazendo-as voar desde locais distantes. Nos rituais, elas cultuavam o cultuariam sob a forma de um bode, beijando-o no traseiro em meio a cantos e danças frenéticas, com grande permissividade sexual, inclusive de homossexualidade acompanhada de antropofagia de crianças mortas (Byington, 1991). As orgias dos povos arcaicos são habitualmente interpretadas num sentido que tende a reduzi-las a ritos de magia contagiosa. Aqueles que praticavam acreditavam, realmente, que elas permitiam a fecundidade dos campos. A orgia, em que se mantinha, para lá do prazer individual, o sentido sagrado do erotismo, veio a ser objeto de uma particular atenção por parte da Igreja. A morte nas chamas era prometida a todo aquele que se recusasse a obedecer e que extraísse do pecado o poder e o sentimento do sagrado (Bataille, 1980). Em todas as aldeias, havia pelo menos uma velha sábia, que entendia de ervas, meteorologia e possuía habilidade de parteira. As camponesas confiavam mais nas sábias senhoras do que nos raros médicos disponíveis, ou na própria Igreja. Era a ela, mais que ao padre, que consultavam em questões como o clima, a colheita, a saúde do gado, a saúde pessoal e a higiene, sexualidade, fertilidade e parto. Em virtude disso, muitos deuses antigos foram "demonizados", e outros, como a deusa irlandesa Brígida, padroeira do fogo, foram efetivamente santificados. Com a Inquisição, a Igreja passou a adotar uma política mais agressiva contra o paganismo, abolindo a antiga tolerância, dando lugar à perseguição, classificando a crença em bruxaria ou feitiçaria como heresia. Não somente a loucura, mas até explosões de raiva ou histeria, seriam atribuídas a possessões demoníacas. Os sonhos eróticos eram atribuídos a visitas de íncubos (demônios masculinos) ou súcubos (demônios femininos). A polução noturna era, muitas vezes, atribuída a tais relações com esses seres incorpóreos. As parteiras tradicionais - "sábias" das aldeias - foram tachadas de bruxas. Até o final do século XV, porém, a Igreja negava oficialmente a realidade da bruxaria. No que dizia a respeito à Igreja, a bruxaria era uma ilusão disseminada pelo diabo. O pecado consistia, portanto, não na própria bruxaria, mas em nela acreditar. Mas a posição da Igreja, mudou radicalmente em 1484, na Bula de Inocêncio VIII, em que a realidade da bruxaria se torna oficial: "De fato, chegou-nos recentemente aos ouvidos, não sem que nos afligíssemos na mais profunda amargura, que em certas regiões da Alemanha do Norte, (...) muitas pessoas de ambos os sexos, a negligenciar a própria salvação e a desgarrarem-se da Fé Católica, entregaram-se aos demônios, a Íncubos e a Súcubos, e pelos seus encantamentos, (...) e por outras também amaldiçoadas monstruosidades e ofensas hórridas, tem assassinado crianças ainda no útero da mãe, além de novilhos, e têm arruinados produtos da terra, as uvas das vinhas, os frutos das árvores... e impedem os homens de realizarem o ato sexual e as mulheres de conceberem, ... E não obstante Nossos queridos filhos Henry Kramer e James Sprenger, ... tenham sido por Cartas Apostólicas delegados como Inquisidores de tais depravações heréticas, (...) pela Nossa autoridade suprema, conferimos-lhes poderes plenos e irrestritos." (Kramer e Sprenger , 1991, p.43-45) Aproximadamente dois anos após serem citados na Bula de Inocêncio VIII, Kramer e Sprenger, produziram um livro, "Malleus Maleficarum". Esse livro, segundo Baigent e Leigh (2001), encontra-se certamente entre as mais obscenas obras já produzidas em toda a história da civilização ocidental. Em detalhes chocantes e muitas vezes pornográficos, o "Malleus" se propõe a esclarecer as supostas manifestações da bruxaria. Com uma obsessão que se trairia de imediato para qualquer psicólogo moderno, o texto concentra-se na idéia da cópula diabólica e de várias outras formas de experiência erótica e atividade sexual atribuíveis pela imaginação contaminada pela força demoníaca. Byington (1991), afirma que o "Malleus" é uma das páginas mais terríveis do Cristianismo, um verdadeiro manual de ódio, de tortura e de morte, no qual o maior crime é o cometido pelo próprio legislador ao redigir a lei. O livro é dividido em três partes. A primeira cuida de enaltecer o demônio, ligando suas ações à bruxaria; a segunda ensina como reconhecer e neutralizar a bruxaria e, a terceira, descreve os julgamentos e as sentenças. O "Malleus" é militantemente misógino, ou seja, os autores demonstram uma aversão às mulheres que beirava a demência. O livro consolidava definitivamente o desprezo pela figura da mulher. Segundo eles, deve-se culpar a mulher, na verdade, por praticamente tudo: "Toda bruxaria vem de luxúria carnal, que na mulher é insaciável". (Baigent e Leigh, 2001:128). O Malleus também é cruel com as moças seduzidas e abandonadas: "Depois de as moças serem corrompidas e abandonas pelos amantes ..., e vendo-se na mais completa desesperança... voltam-se para os demônios, em busca de auxílio e proteção." (Kramer e Sprenger, 1991:211) Umas das questões abordadas no Malleus era o fato
que os praticantes de bruxaria, em sua maioria, eram mulheres. Esse "fato"
era explicado por serem, por natureza, mais impressionáveis do
que os homens, mais propensas a receber influências demoníacas,
linguarudas, fracas na mente e no corpo, incapazes de guardar segredos
e, portanto, tendentes a contar tudo sobre o que aprenderiam da arte do
mal às amigas. Referências Bibliográficas BAIGENT, Michael. LEIGH, Richard. A Inquisição. Rio de Janeiro: Imago, 2001. BATAILLE, Georges. O erotismo. Lisboa: Moraes,1980, 2ª ed. BYINGTON, Carlos Amadeu. O Martelo das Feiticeiras - Malleus Maleficarum à luz de uma teoria simbólica da história.In: SPRENGER, James. KRAMER, Heinrich.O Martelo das feiticeiras. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1991, 2a. ed. SELIGMANN, kurt. História da Magia. Lisboa: Edições 70, 1948. SPRENGER, James. KRAMER, Heinrich.O Martelo das feiticeiras. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1991, 2a. ed.
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| Edição 27 |
por Géssica Hellmann Nos artigos anteriores, tratamos sobre proibições e transgressões, principalmente no que se refere à sexualidade. Mas é importante entender como surgiram esses conceitos. Para tanto, nos baseamos no texto introdutório de Rose Marie Muraro ao livro "O Martelo das Feiticeiras", dos inquisidores Heinrich Kramer e James Sprenger - publicado originalmente em 1484 - em versão brasileira da editora Rosa dos Tempos, (1991).
Deusa "Lilith", em relevo sumério Evolução da sociedade matriarcal para a patriarcal Sabe-se que o ser humano habita o planeta há mais de dois milhões de anos. Por três quartos desse tempo o ser humano passou por uma "cultura de caça aos pequenos animais para a sobrevivência". Nesses grupos a mulher era personagem central, considerada um ser sagrado, não havendo divisões entre os sexos no poder. Neste período havia uma liberdade sexual maior e, por esse motivo, havia poucas guerras para a conquista de territórios. A mulher era considerada um ser sagrado, pois só a ela era atribuído à função de procriação. Os homens se sentiam marginalizados e tinham "inveja do útero", da mesma forma que, nas culturas patriarcais, a mulher sente inveja do "pênis". Essa "inveja do útero" teria originado dois ritos importantes: o primeiro, o fenômeno do "couvade", em que a mulher começa a trabalhar dois dias depois do parto e o homem fica de resguardo com o recém- nascido. O segundo, a iniciação dos homens, em que os jovens eram arrancados da casa das mães, e faziam um ritual espiritual imitando um cerimonial de parto, declarando, a partir disso, que o a mulher poderia teria o poder biológico e o homem o espiritual. Só nas regiões onde a coleta era escassa, que se inicia a caça aos grandes animais. A força física havia se tornado essencial, as guerras por territórios aumentaram, iniciando-se, assim, a supremacia masculina. Mesmo neste período, o homem ainda não sabia da sua função reprodutora, crendo que a mulher ficava grávida dos deuses. Foi no decorrer do neolítico que, em algum momento, o homem começou a dominar a sua função biológica reprodutora. Apareceram, então, os casamentos em que a mulher tornava-se propriedade do homem. Com as lutas por conquista de territórios e terras férteis para o plantio, começaram a surgir as primeiras aldeias, depois as cidades, cidades-estados, Estados, Impérios, e assim sucessivamente, criando-se as sociedades patriarcais, em que predomina a lei do mais forte. Nesse contexto quanto maior o número de filhos, mais soldados e mão-de-obra para arar as terras, ficando a mulher reduzida ao âmbito doméstico. Nas primeiras civilizações, a criação do mundo era atribuída a uma deusa-mãe, sem auxílio de ninguém. Mais tarde, foi concebida a idéia de um deus andrógino ou um casal criador. Posteriormente, um deus macho toma o poder da deusa, ou cria sobre o corpo da deusa primordial. Da primeira etapa, temos o exemplo grego de "Géia", a "mãe-terra". Dela originam-se todos os outros deuses gregos. Da segunda etapa, encontram-se exemplos de deuses andróginos no hinduísmo e no conceito filosófico de "Yin e Yang", em que o principio feminino e masculino governariam juntos. Da terceira etapa, encontramos a deusa sumeriana, "Siduri", que reinava em um jardim de delícias e cujo poder foi usurpado por um deus solar. A partir do segundo milênio a.C., raramente se registravam mitos em que a divindade primária fosse uma mulher. Nesta época, Javé é deus único e onipresente, criando sozinho o mundo em sete dias, criando ao final desse período, o homem e, em seguida, a mulher a partir de uma de suas costelas. Ou seja, em poucas palavras, foi o homem quem pariu a mulher. Ambos são destinados ao jardim das delícias mas, graças à sedução da mulher, o homem cede à tentação da serpente e o casal é expulso do paraíso. Nesta época, o parto não está mais ligado ao sagrado, e é considerado uma vulnerabilidade, representando a passagem do matricentrismo para o patriarcado. Então, é preciso usar controles mais rígidos para que o homem seja obrigado a trabalhar, surgindo as proibições e transgressões, principalmente no que se refere ao corpo e a sexualidade. A mulher passa a ser definida por sua sexualidade e, o homem, por seu trabalho. Já não é mais o homem que inveja a mulher, invertem-se os papéis. A mulher agora, carente e vulnerável, torna seu desejo o centro da sua punição. Coloca-se no sexo o pecado supremo. Na Alta Idade Média, a condição das mulheres melhora em certo sentido: elas têm acesso às Artes, às Ciências e à Literatura. Já no final do século XIV até meados do século XVIII, recrudesce a repressão sexual ao feminino, surgindo a "caça às bruxas" através da Inquisição. Segundo a autora, no fim do século XV e no começo do século XVI, houve milhares de execuções, espalhando-se o terror pela Europa. Estima-se que 85% dos "bruxos" executados eram mulheres. Mas por que tudo isso? Sabe-se que, desde a mais remota Antiguidade, as mulheres exerciam funções de "curandeiras" populares, parteiras e detinham saber próprio transmitido de geração em geração. Na Idade Média, as mulheres camponesas pobres não podiam pagar por médicos para cuidar de sua saúde e, portanto, através dos conhecimentos aprendidos sobre ervas, partos e outros cuidados com a saúde, tornaram-se verdadeiras "médicas populares". Deste modo, passaram a representar uma ameaça a comunidade Médica e ao Poder Instituído porque, para transmitir suas experiências, elas formavam organizações nas quais trocavam segredos entre si. A religião católica e, posteriormente a protestante, fizeram dos tribunais da Inquisição, uma caça em massa aos que eles julgavam heréticos ou bruxos. Nos quatros séculos de perseguição às bruxas, segundo a autora, nada se verifica de histeria coletiva: ao contrário, o que se viu foi uma perseguição bem calculada e planejada pelas classes dominantes. De doadora da vida, símbolo da fertilidade para as colheitas, a situação se inverte: a mulher torna-se a maior pecadora, origem de todas as ações nocivas ao homem. Como vimos anteriormente em Foucault, esse "poder de controle do corpo e da sexualidade", tornou-se essencial para dar início ao sistema capitalista. Finalmente quando cessou a caça as bruxas no século XVIII, no que se refere à sexualidade, as mulheres tornam-se "frígidas", pois orgasmo era considerado "coisa do diabo", e elas são novamente reduzidas ao âmbito doméstico. Recentemente, já no final do século XX, podemos observar um outro fenômeno surgindo: a mulher jovem liberta-se do controle da sexualidade e a reclusão do domínio privado, trazendo para o patriarcado pela primeira vez os valores femininos. Através desta breve introdução histórica,
podemos perceber como surgiu a articulação das idéias
de "pecado, proibição e transgressão" no
que se refere à sexualidade humana e os motivos porque persistem,
ainda na atualidade, certos tabus e preconceitos. Nos próximos
estudos, pretendo abordar "algumas variáveis" empregadas
pela Inquisição para definir o que era "bruxaria"
no âmbito da sexualidade. Referência Bibliográfica: MURARO, Rose Marie. Breve Introdução Histórica.In: SPRENGER, James. KRAMER, Heinrich.O Martelo das feiticeiras. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1991, 2a. ed. Dica de Leitura - O Martelo das feiticeiras Documento escrito em 1484 pelos inquisidores Heinrich Kramer e James Sprenger. Um dos textos fundamentais do pensamento pré-cartesiano, que revela as articulações entre sexualidade e poder. Este foi o manual oficial da Inquisição utilizado para a caça às bruxas durante quatro séculos.
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| Edição 26 | Reflexões sobre Sexo, Morte e Religião: uma introdução conceitual à obra "O Erotismo: o Proibido e a Transgressão", de Georges Bataille. por Géssica Hellmann
Spirit por Martin Sklar Bataille percorre a presença oculta do erótico na religião e na filosofia relacionando o sexo tanto com a vida como com a morte. Segundo o autor, a reprodução sexual que, na base, faz intervir a divisão das células funcionais, leva a uma nova espécie de passagem da descontinuidade à continuidade. O espermatozóide e o óvulo são, no estado elementar, seres descontínuos, mas que se unem e, em conseqüência, estabelece-se entre eles uma continuidade que leva à formação de um novo ser, a partir da morte, do desaparecimento dos seres separados. Ou seja, a reprodução está intimamente associada à morte, e é desta relação entre a continuidade e a morte que surge a fascinação que domina o erotismo. Em suas reflexões sobre continuidade e descontinuidade, Bataille determinou três formas de erotismo existentes no homem: erotismo dos corpos, erotismo dos corações e erotismo sagrado. Nelas, o que está sempre em questão é substituir o isolamento do ser (sua descontinuidade) por um sentimento de continuidade profunda com Deus ou o Universo. O significado do "erotismo dos corpos" é o de uma violação que beira ao assassínio. O erotismo tem por fim atingir o ser no seu mais íntimo cerne, lá onde pensamentos e palavras são inúteis. A passagem do desejo normal ao desejo erótico supõe em nós a relativa dissolução do ser constituído na ordem descontínua. O "erotismo dos corações", aparentemente, se separa da materialidade do erotismo dos corpos; deste procede, mas não passa, na maioria das vezes, de um aspecto do erotismo estabilizado pela recíproca afeição dos amantes. A essência da paixão é a substituição da persistente descontinuidade por uma maravilhosa continuidade entre dois seres. Se é verdade que a posse do ser amado não significa a morte, também é verdade que ela está necessariamente envolvida na busca dele. Se aquele que ama não pode possuir o ser amado, pensa, muitas vezes, em matá-lo, perdê-lo, ou em outros casos, deseja até a própria morte. A paixão arrasta-nos, assim, para o sofrimento, uma presente ameaça de separação. No "erotismo sagrado", mesmo quando o objeto do sacrifício não é um ser vivo, a vítima morre, enquanto a assistência participa de um elemento que revela a sua morte. A esse elemento é o que chamamos de "sagrado", ou seja, uma continuidade a ser revelada que fixa sua atenção na morte de um ser descontínuo. A aprovação da vida na própria morte é um desafio, tanto no erotismo dos corações como nos dos corpos, com a diferença da morte propriamente dita. O erotismo é um dos aspectos da vida interior do homem. Para Bataille, o erotismo é a atividade sexual do homem, mas a atividade sexual do homem, em um nível, não é sempre necessariamente erótica, embora o seja em outro nível, porque se diferencia da sexualidade dos animais. Vestígios do período paleolítico comprovariam a mutação pela qual o homem teria se libertado de um "animalismo inicial", compreendendo que era mortal e passando da "sexualidade inocente" à "sexualidade envergonhada", de que teria brotado o erotismo. Para Bataille, o erotismo é chave que desvenda aspectos fundamentais da natureza humana, uma vez que se encontra no limite entre o natural e o social, o humano e o não-humano. Quando se tratava de erotismo (ou, geralmente, de religião) a experiência interior lúcida era impossível numa época em que permanecia oculta a interdependência da proibição e da transgressão, exigindo assim uma experiência pessoal, igual e contraditória, da proibição e da transgressão. As imagens eróticas, ou religiosas, introduzem essencialmente, para uns, comportamento de proibição, para outros, comportamentos trangressivos. Contudo, a transgressão difere do "retorno à natureza", residindo aí à força do erotismo e, ao mesmo tempo, a força das religiões. A religião, neste sentido, entre outras funções, envolve a criação de regras e limites de comportamento, ou seja, circunscreve as fronteiras do "proibido", do "autorizado" e do "obrigatório". O foco de Bataille, entretanto, é na direção do "proibido". Sem o primado da proibição, não teria sido possível ao homem alcançar a consciência clara e distinta sobre a qual a ciência se baseia. A proibição eliminaria a violência e os nossos impulsos sexuais. Quando observamos a proibição, submetendo-se a ela, não teríamos consciência desse ato mas, ao transgredi-la, conhecemos a angústia, sem a qual a proibição não existiria: a experiência do pecado. A sensibilidade religiosa uniria sempre estreitamente o desejo e o terror, o prazer intenso e a angústia. Na visão de Bataille, por oposição o ato trabalho (racional), a atividade sexual é uma violência, enquanto impulso imediato, pois pode perturbar o trabalho: uma coletividade laboriosa não poderia estar à mercê da sexualidade. Somos levados a pensar que, desde a origem, a liberdade sexual teve que ser limitada, e a esse limite podemos dar o nome de "proibição" e, ainda mais, podemos acreditar que inicialmente foi o trabalho que impôs esse limite. Essas restrições variam de acordo com o tempo e o lugar. Nem todos os povos sentiram a necessidade de ocultar os órgãos sexuais, por exemplo. A nudez, nas civilizações ocidentais, tornou-se objeto de uma proibição bastante vasta. A nudez é objeto de um rito que comunica aos homens sua essencialidade, isto é, seu erotismo. Sua presença retoma especialmente a relação com o sagrado. Para ser "encontrada", a nudez tem que se apresentar ao sujeito enquanto objeto sagrado e simbólico. A roupa surge assim como o artifício que redimensionaria a nossa relação com o nu. Daí a extraordinária percepção de Bataille: o vestuário seria um meio de se atingir a nudez! Ao se falar de "proibições", não podemos deixar de falar de tabus. Nas sociedades arcaicas, a classificação das pessoas segundo a sua relação de parentesco e a determinação dos casamentos proibidos tornou-se uma verdadeira ciência. O autor nos indaga se haveria algo mais firme em nós que o horror do incesto. Quer na sexualidade ou na morte, o foco estaria sempre na violência, ao mesmo tempo aterrorizante e fascinante. Entre outros tabus relacionados à sexualidade, o autor menciona o sangue menstrual e o sangue do parto. Como o incesto, eles também estariam estreitamente relacionados ao horror da violência. A mancha que o sangue emana, alem do sentido da atividade sexual, é a conseqüência da própria violência. Segundo o autor, a transgressão não constitui uma negação da proibição, mas ultrapassa-a e completa-a. Só o horror e o terror insensatos poderiam substituir os desmedidos excessos, sendo esta a natureza dos tabus. A violência humana seria conseqüência não de cálculos, mas de estados sensíveis como a raiva, o medo, o desejo, e assim por diante. A transgressão organizada formaria com a proibição um conjunto que define a vida social dos indivíduos. Bataille (1980, p.60) afirma que "Proibição e transgressão correspondem a dois movimentos contraditórios: a proibição rejeita, mas o fascínio introduz a transgressão. A proibição, o tabu, só se opõem ao divino num sentido, mas o divino é o aspecto fascinante da proibição, é a proibição transfigurada". A elaboração do erotismo, nesta obra de Bataille,
se faz pela "experiência interior", como a experiência
religiosa. Essa experiência compreende a contradição
entre proibido e transgressão, na qual a transgressão não
elimina radicalmente a proibição. Pelo contrário,
preserva-a no seu seio. O sentido é claro: a religião regularia,
essencialmente, a transgressão das proibições! Referência Bibliográfica: BATAILLE, Georges. O erotismo: o proibido e a transgressão. Lisboa: Moraes editores, 1980, 2a. ed. Dica de Leitura - O erotismo: o proibido e a transgressão O erotismo é um ensaio original e perturbador sobre
a sexualidade: sua presença oculta na religião e na filosofia
e sua relação com vida e morte. Bataille também aborda
temas controversos como misticismo e incesto. |
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