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Edição 50

Arte x reeducação social

Géssica Hellmann

Géssica Hellmann - A Deusa
A Deusa por Géssica Hellmann

Começo este artigo indagando: "É possível a reeducação social através da arte"? Atrevo-me ainda mais: "É possível utilizar a arte como ferramenta de inclusão e de combate ao preconceito"? "Qual a função cultural que a arte pode ter em uma sociedade"?

Vivemos numa sociedade com grandes diferenças sociais, culturais, uma sociedade que, apesar de se dizer contra injustiças, muitas vezes é a primeira a apontar o outro por ser diferente de si.

Em entrevista com a atriz e produtora de teatro Rocca Stockler ela afirmou que, "A arte em si é o melhor meio de cura que existe para um humano. Brinco que o artista usa os dotes para evitar futuro câncer. Digo isso por, antes de qualquer coisa, escrever. A escrita entrou na minha vida como forma de exorcizar meus próprios demônios, conflitos, situações sem resolução imediata. Não sei a importância disso no contexto íntegro de uma reabilitação social, no entanto sei ser fundamental o uso da arte como forma de extravasar os sentimentos sem compreensão até atingirmos um equilíbrio saudável para nossa mente e corpo. Estando neste equilíbrio... preconceitos ficam automaticamente fora de foco. Pessoas em harmonia não nutrem essas pequenezas."

É possível utilizar a arte no combate ao preconceito. Alguns grupos de teatro utilizam a arte para formar um pensamento crítico sobre o combate ao preconceito. Um exemplo é o grupo teatral "Os Inclusos e os Sisos", que une teatro e comédia para sensibilizar públicos diversos sobre a importância de pensar uma sociedade inclusiva.

Loureiro (2002), em um de seus artigos, afirma que "É indiscutível a relação entre a emoção estética e a solidariedade". O autor cita Maffesoli: "nossas faculdades simpáticas e ativas são estreitamente ligadas e que é esta relação mesma que especifica a vitalidade de uma época dada, e serve de fundamento a toda forma da sociedade". O estético terá, portanto, a capacidade de fazer emergir "formas de simpatia" acentuando seu papel de ligação e religação social. É como se ocorresse a formulação de um sistema de conhecimento humano a partir da sensibilidade.

Sempre acreditei ser possível sensibilizar os corações humanos através da arte e suas manifestações. Como artista plástica procuro através da pintura expressar a beleza do corpo humano. Como editora de uma revista de arte e sexualidade, tenho como missão fazer com que a arte provoque repercussões na maneira como o visitante encara a sua própria sexualidade e aprenda a aceitar as diferenças do outro como algo natural, quebrando tabus e idéias preconceituosas.

A arte pode ser uma forma de inclusão social, como prova o projeto de Educação Sexualizada e Jovens com Deficiência Mental, projeto que tinha o objetivo de verificar se a expressão corporal promove o conhecimento do corpo. Maria da Conceição Melo da Cunha (2002) conclui em sua pesquisa que a expressão corporal é um meio que promove o conhecimento do corpo, capacitando os indivíduos com deficiência mental para um melhor conhecimento de si, possibilitando uma vivência mais eficaz da sua sexualidade.

Maria afirma ainda que "Educar a sexualidade não é dar uma aula, ou uma boa explicação. Não chega informar, nem sequer promover uma dinâmica de grupo. É proporcionar experiências, onde as pessoas possam desenvolver facetas da personalidade que lhe permitam vivenciar a sua sexualidade de uma forma adequada. Estas passam por uma série de estratégias, como a psicomotricidade, a dança, o teatro, a pintura, os ateliers de imagem, tudo isto são peças importantes que proporcionam experiência e conseqüentemente aprendizagem de uma forma lúdica e envolvente. A sexualidade constitui uma força viva no indivíduo, é um meio de expressão dos afetos, é a forma de cada pessoa se descobrir e descobrir os outros."

Como afirmei inicialmente, nos dizemos cidadãos contra as injustiças sociais. Mas será que realmente agimos dessa forma? Fomos educados desde sempre a esconder nossos sentimentos, a sermos racionais, a controlarmos nossas expressões corporais.

"A função principal de nossa educação é restringir movimentos", diria José Angelo Gaiarsa, o "pai" da psicoterapia corporal no Brasil. A cada cem movimentos que uma criança poderia estar fazendo, faz somente cinco. E, de repente, estamos adultos (isto é, atingimos a idade cronológica adulta), e alguém nos pergunta: "o que você está sentindo?" - e não é de estranhar que fiquemos perdidos, assustados até, com a pergunta, que, provavelmente, passará pelo crivo do "deixe-me pensar" para responder. Então, bem treinados, continuamos a pensar que pensamos, e respondemos - quando respondemos - um tímido e/ou enorme "não sei", ou mentimos: "Tô legal. Tá tudo bem!" Além de pensar que pensamos, pensamos que sentimos. A anestesia fará efeito, caso não haja uma guinada comportamental, até o último suspiro. (Martins, 2002)

O autor afirma ainda que "Este é o mundo normal, inclusivo e exclusivo de gente. E é nesse mundo que não sabemos - não sabemos mesmo! - lidar com a palavra "inclusão", porque, mesmo incluídos, nos sentimos como não. Tudo porque estamos excluídos de nós mesmos!"

Como artista e apreciadora da arte penso que tanto o artista quanto o público aprendem com a arte. No processo de criação, o próprio artista é um pesquisador de sua própria sensibilidade, organiza conceitos, sentimentos, ou seja, educa-se. A arte como forma de educação e incentivo à corporalidade pode contribuir e muito para uma reformulação social, para aprendermos a sermos honestos com nós mesmos, como uma forma de aceitação do "outro" e do próprio "eu".

Referências Bibliográficas:

CUNHA,Maria da Conceição Melo da. A importância dentro de mim - Educação sexualizada e jovens com deficiência mental. In Caderno de Textos : Educação, Arte, Inclusão / organização André Andries. Vol. 1, n. 1 (1. quandrim. 2002) - Rio de Janeiro : Funarte, 2002.

LOUREIRO, João de Jesus Paes. A estética de uma ética sem barreiras. In Caderno de Textos : Educação, Arte, Inclusão / organização André Andries. Vol. 1, n. 1 (1. quandrim. 2002) - Rio de Janeiro : Funarte, 2002.

MARTINS, Ademir. Expressão corporal é pleonasmo. In Caderno de Textos : Educação, Arte, Inclusão / organização André Andries. Vol. 1, n. 1 (1. quandrim. 2002) - Rio de Janeiro : Funarte, 2002

 

 
Edição 49

Preconceito e Homofobia

Géssica Hellmann

 

 

[De pre- + conceito.]
Substantivo masculino.
4.P. ext. Suspeita, intolerância, ódio irracional ou aversão a outras raças, credos, religiões, etc.:
O preconceito racial é indigno do ser humano.

[De hom(o)- + -fobia.]
Substantivo feminino.
1.Aversão a homossexuais ou ao homossexualismo.

 

Eugenia Reznikova - The Couple Coloured and non-coloured
The couple colored and non-colored por Eugenia Reznikova

Segundo Warken (2006) "Homofobia equivale a medo de homossexuais e, este leva ao desprezo e violências de várias formas contra pessoas que gostam ou sentem atração por pessoas do mesmo sexo".

O autor afirma ainda que já existe, em alguns campos, um encaminhamento para a desconstrução do preconceito. Inicialmente, através de políticas de ensino voltadas para implementação dos Parâmetros Curriculares Nacionais. Os parâmetros existem, mas nenhuma obrigatoriedade de que as escolas preparem o corpo docente para a Educação Sexual de forma "transversalizada", ou seja, tratada em todas as disciplinas do currículo escolar. No máximo, o que se tem conseguido é que uma educadora ou educador especialista conceda palestras meramente informativas, que não fornecem apoio necessário à criança e ao adolescente enquanto ela galga os níveis escolares.

O preconceito é algo inaceitável. Muitos são os crimes provocados contra os homossexuais segundo pesquisas de universidades.

Segundo o Conselho Nacional de Combate à Discriminação (2006),

"os resultados de recente estudo sobre violência realizado no Rio de Janeiro, envolvendo 416 homossexuais (gays, lésbicas, travestis e transexuais) revelaram que 60% dos entrevistados já tinham sido vítimas de algum tipo de agressão motivada pela orientação sexual, confirmando assim que a homofobia se reproduz sob múltiplas formas e em proporções muito significativas. Quando perguntados sobre os tipos de agressão vivenciada, 16.6% disseram ter sofrido agressão física (cifra que sobe para 42.3%, entre travestis e transexuais), 18% já haviam sofrido algum tipo de chantagem e extorsão (cifra que, entre travestis e transexuais, sobe para 30.8%) e 56.3% declararam já haver passado pela experiência de ouvir xingamentos, ofensas verbais e ameaças relacionadas à homossexualidade. Além disso, devido à sua orientação sexual, 58.5% declararam já haver experimentado discriminação ou humilhação tais como impedimento de ingresso em estabelecimentos comerciais, expulsão de casa, mau tratamento por parte de servidores públicos, colegas, amigos e familiares, chacotas, problemas na escola, no trabalho ou no bairro. Os resultados desse survey apontam, também, para o fato de as mulheres homossexuais serem mais vitimadas na esfera doméstica (22.4%), confirmando a percepção de organizações lésbicas sobre o fato de as mulheres homossexuais serem duplamente alvo de atitudes de violência e discriminação: por serem mulheres e por serem lésbicas e que, nesses casos, a violência é ainda mais grave, já que se concentra no âmbito familiar".

A violência também inclui muitos casos de assassinatos contra homossexuais, principalmente contra travestis e transgêneros. Tal violência tem sido denunciada com bastante veemência pelo Movimento GLBT, por pesquisadores de diferentes universidades brasileiras e pelas organizações da sociedade civil, que têm procurado produzir dados de qualidade sobre essa situação.

Luiz Mott, doutor em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo e mestre pela Universidade de Paris, atualmente Professor de Antropologia na Universidade Federal da Bahia e presidente do GGB - Grupo Gay da Bahia, afirma que

"Os crimes praticados contra homossexuais, conhecidos como crimes homofóbicos, pertencem à categoria dos crimes de ódio... Assim como os demais crimes de ódio, o crime homofóbico é marcado pela crueldade do modus operandi do autor ou dos autores, incluindo muitas vezes tortura prévia da vítima, a utilização de diversos instrumentos mortíferos e elevado número de golpes. Como a homofobia permeia todas as áreas culturais e esferas de nossa sociedade, inclusive e particularmente o setor governamental, policial e judiciário, mesmo os crimes mais hediondos contra homossexuais raramente despertam a atenção e empenho das autoridades constituídas que, com indiferença, minimizam a gravidade de tais homicídios ou atribuem à vítima parte da responsabilidade do sinistro, seja por se expor a situações e contactos de risco, seja por tentar "seduzir" o agressor. Devido a tais preconceitos, muitos dos homicídios tendo homossexuais como vítimas não são rigorosamente investigados pela polícia, deixando de registrar, seja no documento policial, seja na mídia, a homofobia como móvel do crime".


Segundo relatório anual 2005, "Assassinato de Homossexuais no Brasil, pesquisa realizada pelo grupo GGB, foram confirmados 752 casos de assassinatos atribuídos a crimes homofóbicos entre 2000 e 2005.

O Brasil, segundo Mott (2006), é o campeão mundial de assassinato de homossexuais e, provavelmente, um dos países do mundo onde ocorrem mais atos discriminatórios diários contra gays, lésbicas e travestis.

Em Curitiba, vários casos foram registrados de espancamento de homossexuais nas madrugadas, próximos às saídas dos clubes. "Já recebemos diversas denúncias deste grupo que ataca os homossexuais. Um dos rapazes está com o rosto desfigurado e foi atacado com tesouradas. Até mesmo meninas lésbicas estão sendo atacadas", diz Igo Martini, da Ong Diversidade de Curitiba. (Tosi, 2006)

Outro caso aconteceu em final de 2004, no banco Bradesco, com o funcionário Antônio Ferreira, vítima de preconceito por ser homossexual. Com 21 anos de banco, Ferreira, 44, foi um servidor destacado, chegando a ocupar postos importantes como o de gerente, obtendo vários troféus pelas suas vitoriosas ações no cumprimentos de metas. Demitido em fevereiro de 2004 por "Justa Causa", não explicada, por um chefe que rotineiramente o execrava em público, xingando-o em público de "boiola", "viado", "bicha", entre outras expressões, Antõnio reagiu e resolveu buscar os seus direitos junto à Delegacia do Trabalho na capital baiana. (Bragg 2006)

Em entrevista com Marcellus Bragg, Ferreira conta que entrou com um processo na justiça baiana por danos morais e venceu na primeira instância. A Juíza do Tribunal Regional do Trabalho, Dra. Margareth Costa, determinou que o Bradesco o indenizasse em quase um milhão de reais em razão de ter provado nos autos que foi humilhado e perseguido no banco em razão da sua homossexualidade. A sentença favorável é inédita, pelo menos em nível de divulgação e a notícia mais recente é a de que o Bradesco recorreu da sentença.

Antônio Ferreira disse ainda que "Não busco somente o dinheiro, apesar de que passo por uma situação financeira quase desesperadora - tenho que pagar as minhas contas, comprar comida, ajudar a minha família e me vestir e sem um trabalho fica tudo muito complicado. Mas quero sim o precedente da ação. E no ambiente de trabalho os homossexuais tem que ser respeitados e tratados como qualquer outro cidadão, nem melhor e nem pior".

Mais adiante, afirmou Antônio: "Disseram da Madre Tereza de Caucutá, quando trabalhava na Índia, que ela era uma gota no oceano e ela sabiamente responderam que faz muita diferença um pingo no mar, porque sem esta gotinha o oceano estará incompleto. Então esta minha atitude em buscar a justiça frente a uma empresa gigantesca e poderosa, é a gotinha que falta, o aprendizado do poder econômico de que o bancário homossexual merece ser respeitado".

Sempre fui a favor da idéia que o combate ao preconceito inicie desde cedo, em casa e posteriormente na escola. Não sou adepta a rótulos pois, em minha opinião, são eles estacas dentro do próprio preconceito. Sou casada, tenho um filho de dois meses, e em minha casa não admitimos o preconceito. Sei que isto não impedirá que tenhamos contatos com seres preconceituosos, muitas vezes disfarçados de cordeiros. Espero que com a semente plantada na missão desta revista, que é a missão pessoal de minha família e de grandes amigos, mesmo que seja uma gotinha no oceano, como disse nosso amigo Antônio Ferreira, faça diferença em muitos corações.

Pois é preciso agir para fazer diferença:


"Pela primeira vez na história do MEC, o tema homofobia ... entra para as discussões que formatarão uma política oficial sobre o tema no ministério. Um grupo de trabalho, com representantes das secretarias do MEC e de entidades sociais, debate como será implementado o programa Brasil sem Homofobia na área educacional. É consenso entre o grupo que há necessidade de discutir o tema nas escolas, pois a homofobia incita o ódio, a violência, a difamação, a injúria, a perseguição e a exclusão" (Faria, 2006).


Discussões como esta são importantíssimas para o desenvolvimento de uma sociedade mais justa. É através de uma reeducação social que poderemos combater o preconceito. Esperamos também que não fique somente em pautas de discussão e que se parta realmente para uma prática efetiva.
O Programa de Combate à Violência e à Discriminação contra GLTB e da campanha Brasil sem Homofobia, são bases fundamentais para ampliação e fortalecimento do exercício da cidadania no Brasil. Um verdadeiro marco histórico na luta pelo direito à dignidade e pelo respeito à diferença. É o reflexo da consolidação de avanços políticos, sociais e legais tão duramente conquistados. O Governo Federal, ao tomar a iniciativa de elaborar o Programa, reconhece a trajetória de milhares de brasileiros e brasileiras que desde os anos 80 vêm se dedicando à luta pela garantia dos direitos humanos de homossexuais. (Conselho, 2006)

Este é uma parte do panorama da homofobia no país. Esperamos que estes projetos de campanha nacional, quando colocados em prática, reflitam na diminuição destes crimes. A bandeira que já há muito tempo empunhamos é a do combate contra todo o tipo de preconceito, principalmente o de gênero e sexuais. Que a arte e suas manifestações sejam um caminho a percorrermos diariamente com o objetivo de sensibilizar corações endurecidos.

 

Referências Bibliográficas:

Bragg, Marcellus. Na Bahia o Bradesco é acionado por homofobia. Disponível em <http://www.gaybrasil.com.br/bradesco-ba.asp?Categoria=Entrevista&Codigo=2436> . Acessado em: 21/06/2006.

CONSELHO Nacional de Combate à Discriminação. Brasil Sem Homofobia: Programa de combate à violência e à discriminação contra GLTB e promoção da cidadania homossexual. Brasília : Ministério da Saúde, 2004.

Warken, Roberto Luiz. Artigo Homofobia. Disponível em: <http://www.diversidadefloripa.com.br/textos.htm> Acessado em: 21/06/2006.

Faria, Susan. MEC inicia discussões sobre homofobia. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/index.php?option=content&task=view&id=5052&FlagNoticias=1&Itemid=5196> . Acessado em: 21/06/2006

Mott, Luiz. Assassinato de Homossexuais. Disponível em: <http://www.dhnet.org.br/dados/manuais/dht/br/mott_assassinatos_h/index.html> . Acessado em: 21/06/2006.

RELATÓRIO ANUAL 2005 ASSASSINATO DE HOMOSSEXUAIS NO BRASIL. Disponível em: < http://www.ggb.org.br/assassinatos2005c.html> . Acessado em: 21/06/2006.

Tosi, Cristiano. Violência. Disponível em: <http://mixbrasil.uol.com.br/pride/pride2005/homofobia/homofobia.shtm>. Acessado em: 21/10/2006.

Edição 48

Assédio Sexual

Ariadna Garibaldi

Todos nós sabemos que houve uma verdadeira revolução de costumes nos últimos tempos e que as mulheres galgaram posições antes jamais sonhadas pela maioria.

Sharon Hudson - Faded Rose
Faded Rose por Sharon Hudson.

No passado, raras heroínas destacaram-se em funções eminentemente masculinas e o fim de algumas foi a morte. Mas, no mundo ocidental, a mulher conquistou, no último século, espaços inimagináveis por suas avós. Hoje, termos como feminismo, por exemplo, já começam a parecer antiquados, e a mulher já não ocupa o mercado de trabalho por opção, mas por necessidade mesmo. Mudou a mulher, mudou a família e o mundo está mudando. Todo esse discurso politicamente correto já é conhecido de todos nós, então, deixando de lado o blá blá blá desnecessário, vamos direto ao ponto: Assédio Sexual, um dos crimes contra os costumes.

Art. 216-A. Constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente da sua condição de superior hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício de emprego, cargo ou função.
Pena detenção, de 1 (um) a 2 (dois) anos.
- Dispositivo introduzido pela Lei n. 10.224, de 15.5.2001


Em primeiro lugar, o assédio sexual independe de gênero. Assim, pode ser vítima ou autor do delito tanto o homem quanto a mulher e pode ser efetivado, inclusive, entre pessoas do mesmo sexo, pois o que vai determinar se há assédio sexual é a condição de superioridade hierárquica da pessoa, em razão do cargo, emprego ou função que ocupa e que constrange uma outra, que lhe é subordinada funcionalmente, buscando obter vantagem ou favorecimento sexual.

No entanto, a maior parte dos casos de assédio sexual têm como vítimas as mulheres. Isso não é nada estranho, já que somos de uma cultura machista e os homens ainda ocupam a maior parte dos cargos de chefia nas empresas públicas ou privadas.

Com o advento da Lei supracitada, abriu-se espaço para uma nova era nas relações de trabalho mas, mesmo quase seis anos após a criação da lei, ainda há muito assédio sexual sem que estes sejam denunciados. Vários fatores colaboram para isso, entre os quais destacamos:
1 - Ausência de provas, sejam elas testemunhais, documentais ou até mesmo gravações, como recados em secretárias eletrônicas, por exemplo.
2 - Medo de ficar malvista na empresa ou perder o emprego.
3 - Medo do descrédito, pois em muitos casos a vítima é vista como culpada, como responsável por despertar a libido do acusado, invertendo-se assim os papéis.
4 - Vergonha (a vítima sente-se envergonhada diante de parentes e colegas)

Não podemos nos esquecer e nem negar que há mulheres que usam da sedução para fazer carreira. Esse tipo de comportamento ajuda a alimentar a cultura machista que nivela todas as mulheres sempre por baixo.

Num país como o nosso, onde o desemprego alcança níveis assustadores (são mais de sete milhões de desempregados), há sempre muito a se pesar antes de se fazer uma denúncia desse tipo. É preciso estar munida de provas e o testemunho de colegas de trabalho é muito importante, o que não é nada fácil de se conseguir. No entanto, algumas empresas têm agido com rigor diante de casos de assédio de seus diretores e chefes de departamentos para com seus subalternos, muitas vezes sendo os casos resolvidos dentro da própria empresa sem necessidade de se chegar ao Judiciário.

O medo de represálias, do rebaixamento de função, até de ficar mal vista na empresa e dificultar futuras contratações em outras firmas, faz com que muitas mulheres silenciem diante do assédio e isso precisa acabar. Só com a conscientização e a união das mulheres isso pode ter um fim. Volto a dizer que o assédio sexual não é exclusivo contra mulheres e pode ser cometido contra pessoas do mesmo sexo, mas só é considerado assédio sexual, se o autor for superior hierárquico da vítima e o fizer em razão do cargo que ocupa ou valendo-se disso para forçar a vítima a ceder "favores" sexuais a ele ou mesmo a terceiros.

O medo só beneficia o crime, é dele que se alimenta. A Lei existe, denuncie! Mas esteja munida de provas.

Dica de Leitura

Crime de Assédio Sexual RUBIA MARA OLIVEIRA CASTRO GIRAO

Este livro visa estimular a discussão pública sobre assédio sexual, que poderá levar ao menos a duas conseqüências benéficas. A primeira consiste em fazer um delineamento mais preciso da conduta criminosa, trazendo aos cidadãos mais informações sobre o comportamento considerado criminoso. A outra, derivada da anterior, refere-se à futura diminuição dos casos de impunidade, em razão do aumento das notitia criminis levadas ao conhecimento do operador do direito que resultem em decisões judiciais condenatórias. Organizado em oito capítulos, o texto inicia pela análise dos antigos diplomas penais brasileiros, buscando as origens da preocupação com a conduta assediante. Em seguida, aborda os diversos aspectos do assunto da maior relevância e atualidade, como: consentimento do ofendido, assédio moral, diferentes espécies de assédio sexual, comparação e diferenciação do assédio sexual com outros crimes do Código Penal, papel do estudo da vitimologia no crime de assédio sexual e processo penal aplicável ao ato criminal.

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Edição 47

Aqui não tem receita de Tesão de Vaca!

Géssica Hellmann

Não sei quanto a vocês mas, nascida no sul deste Brasil, eu já tinha escutado por alto a lenda extraordinária do miraculoso "Tesão de Vaca". A lenda conta que, ao ingerir esse medicamento de uso veterinário diluído nas bebidas das mulheres, ele faz com que elas sintam vontade de fazer sexo desesperadamente com o primeiro que aparecer.

Tatiana Iu Ianovskaia - My Dear Cow
My dear cow (1991) por Tatiana Iu Ianovskaia.

Assunto esse sempre circulando entre jovens mancebos, principalmente em cidades do interior, como se fosse a grande descoberta da humanidade. Como conseguir transar com aquela garota que não te dá mole?

Em uma das mesas-redondas lideradas pela co-editora Lívia Santana, um dos participantes fez a seguinte indagação:"Vocês conhecem "tesão de vaca"? Tesão de vaca é um produto afrodisíaco lendário, que é vendido no mercado negro dos Sex Shops... Tira as meninas do sério. É o que esses "garotões" usam pra dopar as garotas. O problema é que tem efeitos colaterais: náusea, dores de cabeça, desorientação etc." (veja aqui).

Curiosamente, a expressão "Tesão de Vaca" tem liderado nos últimos meses, segundo nossos relatórios de audiência, as palavras-chaves em sites de busca que conduzem ao nosso site. Pessoas procurando saber onde comprar o produto e quanto diluir nas bebidas das mulheres... Isso não é um verdadeiro absurdo? Quem ainda acredita nesta lenda?

Além de um grande absurdo, é uma grande irresponsabilidade. Primeiro: aos desavisados, a libido humana, segundo a ginecologista Dra. Kátia Davy Bello, é provocada, em sua maior parte pelo emocional e uma pequena porcentagem pelo fator hormonal. Ou seja, se o emocional não estiver bem, não existe remédio que aumente a libido e o apetite sexual. A Dra. Kátia afirma que, quando é procurada por pacientes procurando soluções para aumentar a libido, não indica remédio algum.

Os medicamentos popularmente conhecidos como "Tesão de Vaca" são produtos de uso exclusivamente veterinário, como, por exemplo, compostos de cloprostenol, um indutor de cio. Débora Poplawski, coordenadora de atendimento técnico e farmacovigilância do laboratório Schering-Plough, disse que "Conhecendo as fases do ciclo estral de uma fêmea, é possível se programar para reduzir o período de tempo em que o animal levaria para entrar em cio novamente, portanto o produto "não dá tesão" e sim, apenas antecipa uma fase do ciclo estral."

A Dra. Poplawski alerta ainda que o produto é absorvido através da pele. Portanto não se recomenda que mulheres grávidas, pessoas asmáticas e pessoas com problemas bronquiais ou qualquer outro tipo de problema respiratório manipulem este produto. Quando acidentalmente ocorrer a exposição ao produto ou contato com a pele, deverá lavar imediatamente o local com abundante água e sabão. Em caso de broncoespasmo, deverá se administrar imediatamente um broncodilatador de ação rápida como a Isoprenalina o salbutamol por inalação.

Existem outros medicamentos indutores de cio bovino compostos principalmente por prostaglandina (PGF2µ) e progesterona (P4), associados ou não. Segundo o Dr. Amaury Mendes Júnior, sexólogo, "em minha clínica de sexualidade, ou nas aulas que ministro, ainda não atendi ninguém que tivesse usado tais substâncias para estimulo sexual, o que na verdade causaria dor uterina pela ação da prostaglandina, inchação e retenção liquida pela ação do progesterona, podendo até alterar o fluxo menstrual. Acredito que, pela dosagem usada nos animais, se forem as mesmas usadas pelas pessoas desinformadas, as reações colaterais possam ser inúmeras, além das citadas: náuseas, desconforto gástrico, ansiedade, inchação das mamas e dor muita dor, podendo até provocar aborto em caso de gravidez pelas contrações excessivas."

Segundo o psiquiatra Dr. Luiz Alberto Py, a analogia que podemos fazer com pessoas que administram uma substância sem o consentimento da vítima com a finalidade de forçá-la a fazer sexo, seria com o crime de estupro.

Lenda ou não, o fato de existir tanta demanda por esse "produto milagroso" abre as portas para o risco de que se estabeleça um mercado negro para tráfico deste tipo de produto. Segundo a médica veterinária Dra. Tatiana Pinheiro França, um outro caso de administração de medicamentos de uso veterinário irresponsavelmente em seres humanos é o "Boa Noite Cinderela (BNC)". Como os remédios indutores de sono e sedativos de uso humano são de mais difícil acesso, os criminosos costumam apelar para os de uso veterinário. Na experiência do Dr. Luiz Alberto Py, porém, o uso de BNC's está mais ligado a crimes de assalto e seqüestro do que de estupros, rejeitando, por esse motivo, a analogia com o "tesão de vaca".

O que me impressiona na verdade é a intenção de crime e a total falta de moralidade. Caso o remédio fizesse o efeito desejado, o fato de supostamente a vítima sentir a urgência de fazer sexo isentaria o indivíduo de culpa?

Sabendo que os efeitos colaterais são extremamente perigosos e pondo em risco a própria vida da vítima, a advogada Dra. Ariadna Garibaldi avalia que "dependendo das provas que se tenha em mãos, ainda é tentativa de estupro,confome o Código que define o crime de estupro no art. 213 ("Constranger mulher à conjunção carnal, mediante violência ou grave ameaça: Pena – reclusão, de 6 a 10 anos"), denominado de estupro simples. No art. 223 ("Se da violência resulta lesão corporal de natureza grave: Pena – reclusão, de 8 a 12 anos) e no parágrafo único, do mesmo artigo ("Se do fato resulta morte: Pena – reclusão, de 12 a 25 anos), estão previstos os estupros qualificados. Por fim, existe ainda o estupro presumido, previsto no art. 224 ("Presume-se a violência, se a vítima: a) - não é maior de 14 anos; b) - é alienada ou débil mental, e o agente conhecia esta circunstância; c) - não pode, por qualquer outra causa, oferecer resistência").

Faço agora outra pergunta ao sexo masculino: como está a auto-estima de vocês? Anda tão baixa assim que precisa de um estimulo desse tipo? Faço minhas as palavras ditas pela Dra. Kátia Davy Bello: "Precisar recorrer a esse tipo de expediente para transar com uma mulher é o cúmulo da incopetência".

Brincadeiras à parte, repito o que disse no título: aqui não tem receita de tesão de vaca! Mas para não desanimar aos que vieram em busca desta informação, abaixo vai uma outra receita de Vaca que é um verdadeiro tesão e sua namorada vai adorar:

Vaca Preta
1 bola de sorvete de chocolate
1 bola de sorvete de morango
1 bola de sorvete de creme
290ml de coca-cola

 

 
Edição 46

PRECONCEITO (parte 2): no Brasil, existe ou não?

Ariadna Garibaldi

Sharon Hudson - Arms and Legs
Arms and Legs - por Sharon Hudson

Somos um país formado por imigrantes de vários continentes e raças e por índios; não há outro país no mundo onde as raças tenham se misturado tanto. Tal miscigenação nos dá características bem singulares, na cultura e no comportamento, nos tornando um povo alegre, ordeiro, pacífico. Em que outra metrópole do mundo convivem tão pacificamente judeus, mulçumanos, católicos, protestantes, animistas e etc como em São Paulo? Em que outro país do mundo há maior liberdade religiosa? Tal liberdade só encontra parâmetro nos EUA, e olhe lá...

Um amigo, certa vez me falou uma frase que ficou ressoando em minha mente como um sininho a balouçar; ele disse: "O preconceito no Brasil não é racial, nem sexual, nem religioso. O preconceito no Brasil é social. Se você tiver dinheiro, você pode tudo, se você não tiver, você não pode nada, mesmo que seja branco e católico (religião oficial da maioria)"

Com efeito; o índio que foi assassinado em Brasília, cuja morte chocou o país, não foi executado por ser índio, mas por ser confundido com um mendigo pelo fato de estar dormindo na rua. Outro exemplo claro são as filas nos postos de serviços públicos, onde são encontradas pessoas de todas as raças e credos, enfrentando as mesmas dificuldades, não em razão de sua raça ou religião, mas por serem pobres.

Você pode ser negro, índio, gay, umbandista, kardecista; Não importa a raça, a opção sexual nem a religião que professa, se você tiver dinheiro terá portas abertas onde quer que vá.

Não digo que não há preconceito racial, no Brasil, mas também não podemos dizer que vivemos num apartheid como alguns grupos, utilizando-se da mídia querem nos fazer crer.

No nosso país, anualmente, reúnem-se, só em São Paulo, mais de 2 milhões de pessoas, manifestando e defendendo livremente suas opções sexuais. Se formos examinar a fundo, talvez cheguemos à conclusão que mesmo nesse caso o preconceito social é muito maior que o sexual.

Tem gerado uma grande polêmica a Lei que determina as cotas para negros nas universidades. Muitos acham que deveriam ser estabelecidas cotas para alunos pobres da rede pública de ensino, independente de sua raça, valorizando assim, o esforço de cada um e não privilegiando alguns, em detrimento de outros, o que nos leva a pensar que está nascendo aí um novo tipo de preconceito; Ou a nossa Constituição Federal não nos garante oportunidades iguais para todos, independente de sua raça, sexo ou credo religioso? O aluno branco pobre vê agora suas chances de ingressar numa Universidade pública diminuídas, pois, além de disputar com os alunos ricos, que têm acesso às melhores escolas, vêem agora o seu direito ser barrado diante das cotas destinadas a alunos que em muitos casos têm médias inferiores às suas, só por serem negros. É justo que a cadeira que deveria ser ocupada como recompensa do esforço de cada um seja dada graciosamente a alguém em razão da sua cor, sem levar-se em conta a sua média, que é o fator de acesso determinante em uma Universidade? Preconceito reverso? Direito ou privilégio?

Precisamos estar atentos; lutar por seus direitos é um dever de todo cidadão, mas defender privilégios pode gerar reações contrárias fazendo surgir disputas étnicas verdadeiras jamais vistas no Brasil.

Não podemos, por medo de parecer preconceituosos, aceitar sem questionar a tudo que nos é imposto, sob pena de sermos hipócritas. Preconceitos existem e devem ser combatidos onde quer que se manifestem e a forma é ressalvar os direitos do cidadão seja qual for a sua raça, credo, opção sexual ou condição social, e não privilegiar alguns pelas mesmas razões.

 

Dica de Leitura 12 Faces do Preconceito JAIME PINSKYH


"Doze autores discutem diferentes formas de preconceito em nossa sociedade. Experiências pessoais de extrema sensibilidade e a experiência profissional de cada autor permitem um quadro amplo e acessível do problema no país. Várias facetas do preconceito se manifestam na escola e com mais freqüência do que gostaríamos de admitir. Além disso, a escola é um lugar privilegiado para discutir a questão do preconceito e até para iniciar um trabalho com vistas a atenuar sua força. Com o objetivo de fornecer material para alunos e professores discutirem o assunto em sala de aula (e até fora dela) é que concebemos este pequeno livro".



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