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| Edição 55 | Entrevista com o artista plástico e psicólogo Paulo França por Géssica Hellmann e Alexei Gonçalves
1 - Para começar, Paulo França por Paulo França. Pode falar um pouco sobre sua formação profissional e sua trajetória como artista plástico? Paulo: Objetivamente, minha formação é na área da psicologia e, por conta disso, ao longo dos anos desenvolvi minha atividade profissional no campo da sexualidade humana. Nesses casos, especificamente, lanço mão da abordagem corporal, que, na prática clínica, oferece aos pacientes resultados mais avançados, atuando sobre padrões físicos, aprimorando e ampliando a consciência corporal/emocional, através de técnicas específicas. Quanto à pintura, não tenho formação acadêmica como artista plástico. Sou autodidata desde os 15 anos de idade. Tive a oportunidade de realizar algumas exposições. Apenas em uma ocasião decidi entrar numa escola a fim de aprimorar a pintura da figura humana, sem abandonar, contudo, meu traço e o abstracionismo, além da técnica do óleo sobre tela. Independente disto, a pintura é um talento onde a técnica acaba se desenvolvendo e se aprimorando na prática, já que o exercício da pintura favorece a isto, naturalmente. 2 - Segundo tenho pesquisado, os problemas de ordem sexual têm, freqüentemente, relação direta com a cultura familiar, com os valores e conceitos morais transmitidos pela família, ou seja, no tipo de "educação sexual" que se recebe em casa. Você concorda com esse ponto de vista? Em caso positivo, poderia esclarecer melhor esse ponto, talvez citando um ou dois casos típicos? Em caso negativo, qual a real importância ou o verdadeiro sentido da educação sexual? Paulo: Vou começar a responder esta pergunta pelo fim. Penso que toda forma de educação é importante, seja qual for a área. Podemos tomar como exemplo, a questão alimentar, tão importante para a manutenção da saúde. Podemos comer de tudo, porém qualquer exagero provoca desequilíbrio orgânico. O importante é alimentar-se com qualidade evitando abusar na quantidade, além de uma ordenação levando-se em conta as necessidades nutricionais diárias. Com a sexualidade; penso que seja a mesma coisa. Impossível fechar o olho para esta realidade. O ser humano tem sexualidade, bem como a energia sexual circulando em seu corpo, desde que nasce. Em tenra idade, esta sexualidade é pouco elaborada e com o passar dos anos e dependendo de vários fatores, (familiares, sociais e culturais) seus valores serão moldados neste contexto. Logicamente que a tendência de cada ser humano é evoluir e determinados valores se transformam ao longo de seu desenvolvimento e de acordo com suas novas necessidades. Entretanto, os modelos iniciais bem como toda forma de educação sexual será determinante para que a expressão e a vivência sexual sejam mais saudáveis. Pode ser que valores muito arraigados provoquem algumas tensões e dificuldades na expressão sexual, contudo este não é o único motivo que desencadeia uma desordem sexual. Não resolve nada simplesmente responsabilizar a cultura familiar como forma de justificar um problema sexual. Mesmo porque, cabe ao ser humano, em seu processo de evolução/individuação, encontrar a melhor forma para sanar suas dificuldades, buscando, por exemplo, ajuda especializada. E, antes de tudo, admitir que é o único responsável por isso, já que a ‘cultura’ não é ele próprio. A ‘cultura’ não está nele, mas sim ele está nela. E é no aqui e agora que ele pode buscar estratégias, encontrar e desenvolver seus recursos internos para isto. Observo ao longo de minha experiência profissional que existe um panorama novo se abrindo, já que tanto homens quanto mulheres, estão buscando em si a expressão de um ser humano muito mais sensual do que sexual. Por conseguinte, penso que a nova expressão da sexualidade vem ganhando em qualidade e não mais em quantidade. 3 - Vivemos um momento cultural algo contraditório, em que a banalização do sexo; transformado em mercadoria midiática, convive com grandes tabus. Ao que parece; todas as grandes transformações ideológicas e comportamentais, relativas à sexualidade que ocorreram no século XX; passaram ao largo das mentes de grandes segmentos sociais que, entretanto, são consumidoras do sexo embalado para consumo. Por exemplo, o sentimento que emergiu ao saber que uma recepcionista de uma clínica de depilação se referiu ao meu trabalho como "depravado" foi mais ou menos equivalente ao de encontrar a tumba de um faraó em plena Avenida Paulista. Como entender esse fenômeno? Paulo: Se for tão importante entender este fato, é provável que a resposta anterior possa ajudá-la. Assim como foi uma recepcionista, poderia ser um alto executivo com MBA (acredite, é possível), mas que permanecem distantes de sua evolução/individuação. Não é um mero ‘pré-conceito’, mas a dificuldade até de compreender o sentido da própria palavra ‘pré-conceito’. Um conceito antecipado sobre determinado assunto, motivado por alguns valores. Ao iniciar a ‘própria evolução’, a tendência é criar o ‘próprio conceito’ a respeito de determinado assunto, que pode se coadunar a alguns outros e a algumas pessoas. Este novo conceito pode provocar em outro indivíduo o mesmo sentimento que aquela pessoa experimentou antes quando estava aprisionada nos seus ‘pré-conceitos’. Daí a importância da educação ao longo da existência. E é assim que a humanidade se transforma, cada um contribuindo com a sua evolução. 4 - Sobre a fronteira entre arte e pornografia. Há uma frase célebre de um político americano sobre não ser necessário saber a definição de indecência para reconhecê-la quando se vê uma. A imagem, a representação do corpo nu, é "indecente" por natureza? Por que se adota correntemente a expressão pleonástica "nu artístico", implicando que haveria formas de "não-artísticas" de nu? Em que momento a arte deixa de ser "arte" para se tornar "suja", "pornográfica"? Aliás, o que é "pornografia"? Ou é algo que não se precisa definir para reconhecer? Paulo: Antes de tudo é importante contextualizar o momento em que a frase foi proferida pelo célebre político americano, para não correr o risco de dar um peso maior do que o necessário àquele pensamento. O que ele disse ou pensa está vinculado aos próprios conceitos, valores e à própria imagem corporal. Não seria a visão de si próprio indecente? Em que medida ele evoluiu até aquele momento? Teoricamente, o termo pornografia, pode ser definido como um gênero literário que descreve atos eróticos com o fim de excitar o desejo sexual do leitor (do grego porne, ‘prostituta vulgar’, e graphos, ‘escrito’). Por extensão, consideram-se pornográficas todas as obras cênicas, desenhos e artefatos explicitamente destinados a causar excitação ou assistir a prática de atos sexuais (segundo o Dicionário da Vida Sexual, volume 2, 2ª edição, 1982, Editora Abril Cultural, pág.419). Deste modo, particularmente, creio que seja um pouco inadequado colocar especificamente a pintura artística ou o nu artístico, como queria, nesta mesma linha. A não ser que esta seja a proposta de trabalho do artista, considerando aquele conceito de pornografia ‘...explicitamente destinado a causar excitação...’. Ainda assim, a obra não perderá seu caráter. A proposta é pessoal e a obra passa a ser conceitual, mas não deixa de ser expressão artística, principalmente se ele utilizar as técnicas próprias na execução. Se ele alcança o seu objetivo e ‘toca’ através do seu trabalho, o observador, não difere em nada do artista que se propõe atingir os admiradores de naturezas mortas. Sinceramente, isto é uma simples questão de gosto. Cada um tem a sensação de sujo, limpo, prazeroso ou desconfortável, a partir da própria experiência interna sobre tais sentimentos. 5 - O preconceito sexual, a intolerância contra a diversidade sexual, é uma forma de ódio que pode, inclusive, chegar ao crime, segundo pudemos averiguar em estatísticas sobre assassinatos de homossexuais, definidos como "crimes de ódio" pelo antropólogo Dr. Luiz Mott, professor da UFBA e presidente do Grupo Gay da Bahia. Nossa pergunta aos homofóbicos, na edição em que abordamos esse assunto, foi “Você tem medo do quê?” O que temem os chamados “homofóbicos?” A expressão é clinicamente correta, pode-se caracterizá-la como uma “fobia?” E as outras formas de ódio sexual, por exemplo, o preconceito de gênero (ódio à mulher)? Qual a origem desse sentimento? É passível de tratamento, de superação? Paulo: Sim, é um termo correntemente usado atualmente. Um neologismo que originalmente foi empregado por sexólogos ingleses para designar reações de medo em relação à homossexualidade, própria ou de outras pessoas. Teoricamente a homofobia seria o medo neurótico de negar em si mesmo inclinações ou traços homossexuais e bissexuais. Neste sentido, poderíamos até pensar que na impossibilidade da auto-agressão explícita, melhor agredir o que está fora. Talvez para eles seja mais cômodo agredir a outrem do que se confrontar com os próprios medos e fantasias. A origem de tais sentimentos está vinculada igualmente ao distanciamento do indivíduo com a própria essência. É importante ressaltar outra forma de distúrbio definida como heterofobia, que seria a dificuldade do relacionamento com pessoas do sexo oposto. Curiosamente, algumas dessas pessoas, acabam acreditando serem homossexuais, contudo, apenas não sabem lidar naturalmente com as pessoas do sexo oposto. Disto pode resultar tantas outras dificuldades e enganos nesta área. Todo distúrbio pode ser tratado e alguns, mesmo sem cura, têm controle, através de tratamento especializado. 6 - Finalmente, perguntamos sobre a relação entre Arte e Tolerância. Temos visto muitos programas e projetos nesse sentido, este site é apenas um entre muitos. Você acredita na eficácia das manifestações artísticas como forma de estímulo à fraternidade, à tolerância, á solidariedade? Por quê? Paulo: Toda forma de arte é estimulante já que propõe tocar o espectador naquilo que é mais sutil no ser humano, a emoção. A manifestação artística é o manifesto do próprio ser humano. Admirar uma obra é admirar as sutilezas, a sensibilidade, os segredos do próprio artista, mesmo que em algumas vezes sejam colocados estrategicamente de forma obscura. A natureza humana tem nuances que às vezes os próprios humanos desconhecem. Sensibilizar-se com estes aspectos, nos dá a possibilidade de experimentarmos muito mais intensamente tudo aquilo que estiver ao alcance de nossos órgãos do sentido. Daí surge o desejo de compartilhar a própria experiência com outras pessoas gerando seres humanos mais fraternos, tolerantes e solidários. E, para finalizar, é bom lembrar que somos ‘seres sexuais’ por natureza e, na minha experiência, observo que a dificuldade de uma grande maioria de pessoas é se descobrirem como ‘seres sensuais’. Isto sim é difícil, talvez pelo fato de terem também uma grande dificuldade de descobrir suas nuances através das próprias emoções. Entretanto, observo que isto está mudando. Homens e mulheres se buscam, paralela ou conjuntamente para, no fim, encontrarem a manifestação de si próprios numa arte sexual que prima pela beleza do encontro, pela conquista do prazer sentida em todos os sentidos. . |
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| Edição 54 |
Géssica Hellmann O artigo publicado na edição
anterior tratava da violência, de crimes
de ódio. Já este falará sobre o amor. A missão
desta revista é promover a arte em prol da solidariedade, promover
o respeito ao ser humano. É um ato constante de amor ao próximo.
"Tormenta" e "Vaticínio" chocam
à primeira vista. Transmitem um sentimento enraizado, uma escolha
entre a luz e as trevas, o amor e o ódio. As pincelas curtas e
fortes, os olhos vazados, as cores irreais, revelam o verdadeiro "eu"
interior, o sentimento cru, despido de vestes. As pinturas induzem à
reflexão sobre a escolha entre praticar o bem ou o mal. Cito dois grandes homens com espírito elevado,
que acreditavam e fizeram da sua vida um ato de amor no combate a violência
e a discriminação: Bibliografia GREGÓRIO, Sérgio Biagi. Amar ao Próximo
como a Si Mesmo. Disponível em: < http://www.ceismael.com.br/artigo/artigo087.htm
>. Acessado em: 28/07/2006.
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| Edição 53 |
Géssica Hellmann A violência de gênero é a que mais prejudica a qualidade de vida das mulheres, gerando insegurança e vários danos, tanto físicos quanto emocionais. Barsted (2006), afirma que apesar dos esforços dos movimentos e dos diversos tratados das Nações Unidas sobre o combate à violência de gênero, a violência ainda persiste e se manifesta sob as mais diversas formas.
"No caso específico de crime sexual, as mulheres agredidas são rapidamente transformadas em rés. A mensagem dominante na sociedade e, com uma certa constância assimilada pelas/pelos policiais, reforça a idéia de que a violência sexual e, sobretudo, o estupro é crime em que a vítima deve provar que não é culpada, além do fato de ter que exibir marcas físicas e comprovar, portanto, que em nada contribuiu para a o delito. Assim, grande parte das vezes, a mulher, mesmo ferida, humilhada, atemorizada, insegura e envergonhada acaba por arrastar interminavelmente a violência sofrida pelas unidades policiais, pelos serviços de saúde e pelo poder judiciário, como desaguadouros, agregando à sua dor outros tipos de desrespeito, vergonha e violência" (ALMEIDA, 2006). Bunch (1991) chama a atenção para a banalização desse fenômeno, registrando que "parte importante da população do planeta está rotineiramente sujeita a tortura, humilhação, mutilação, inclusive assassinato, simplesmente por ser mulher - crimes que seriam reconhecidos como uma emergência civil ou política se fossem cometidos contra outro grupo humano. De fato, a ocorrência cotidiana desses atos tem o poder de ofuscar a visibilidade do problema e de descriminalizá-lo no imaginário social e até mesmo no imaginário das mulheres" (BARSTED, 2006). Os crimes de violência de gênero diferem entre homens e mulheres. Grande parte das mulheres sofrem violência dentro da própria casa. Já os homens sofrem mais violência fora do ambiente familiar. Nos casos de homicídio de mulheres, os dados mostram que os companheiros são os autores dos crimes entre 70 a 80% dos casos (VIOLÊNCIA, 2006). Infelizmente a violência de gênero é uma triste realidade mundial. É preciso continuar bravamente a repudiar esse tipo de crime de ódio. Preconceito e desrespeito ao ser feminino ainda existe. BARSTED (2006) afirma que um estudo estimou que, a cada 15 segundos, uma mulher é espancada por um homem no Brasil. Um terço das mulheres (33%) admitiu já ter sido vítima, em algum momento da vida, de alguma forma de violência física; 24% relataram ter sofrido ameaças com armas; 22% falaram de agressões propriamente ditas e 13%, de estupro conjugal ou abuso. Constatou-se também que, antes e após os 12 anos de idade, as agressões foram, em sua maioria, praticadas por familiares (74%), conhecidos (16%) e apenas uma minoria (10%) por estranhos (10%). Ao analisar os agressores da violência sexual antes dos 12 anos, os familiares responderam por 76% dos casos. Problemas como o desemprego, o alcoolismo, a pobreza e a miséria estão por trás de muitos casos de violência doméstica contra meninos e meninas. Inúmeros estudos mostram, por exemplo, que o alcoolismo está intimamente ligado aos episódios de violência doméstica contra a mulher, a criança e o adolescente. Conforme explica a psicóloga Maria Luíza Aboim, "a violência doméstica é uma epidemia que contamina todo o tecido familiar. Estatísticas mostram que homens que espancam suas parceiras também são violentos com as crianças dentro de casa''. (COMO, 2006) Cionek (2006), afirma que "As conseqüências da violência doméstica podem ser muito sérias, pois crianças e adolescentes aprendem com cada situação que vivenciam, seu psicológico é condicionado pelo social e o primeiro grupo social que a criança e adolescente tem contato é a família. O meio familiar ainda é considerado um espaço privilegiado para o desenvolvimento físico, mental e psicológico de seus membros um lugar 'sagrado' e desprovido de conflitos". A violência pode ser tanto física, quanto sexual ou psicológica. Todas causam graves danos à vítima, podendo até destruir a sua auto-estima. "No meio desse emaranhado de sentimentos, com muita freqüência, a mulher agredida passa a acreditar que, de alguma forma, contribuiu para a violência por ela sofrida" (AGENDE, 2006). Existem ainda outros tipos de violência, como o tráfico de mulheres e a prostituição forçada. Sobre este assunto pretendo me aprofundar mais adiante em outro artigo. Como possíveis conseqüências físicas
naa vítimas de violência podemos citar: doenças sexualmente
transmissíveis; ferimentos, escoriações, hematomas,
fraturas recorrentes; problemas ginecológicos, corrimentos, infecções,
dor pélvica crônica; doença Inflamatória pélvica;
gravidez indesejada, abortamento espontâneo; asma, síndrome
do colo irritável; maior exposição a comportamentos
danosos à saúde: sexo inseguro, abuso de álcool e
drogas, prostituição, entre outras. Já como conseqüências
psicológicas podemos citar: estresse pós-traumático,
depressão, ansiedade, disfunção sexual, desordens
alimentares, comportamentos obsessivo-compulsivos. Ou em pior hipótese
a morte. Geralmente, no caso de violência doméstica, inicia-se com a agressão verbal, depois com ameaças e, por fim, parte-se para a agressão física. Em entrevista exclusiva, Maria, 52 anos, vítima de violência doméstica, nos disse que "Ele chegava embriagado, quase todos os dias, não se controlava, fazia agressões verbais, me cobrando sobre as coisas que ele me dava". Depois começou com ameaças: "A primeira vez que demonstrou violência, foi quando me empurrou contra parede. Ele só demonstrava violência quando estava embriagado, me agredia verbalmente, cobrando as coisas boas que tinha feito pra mim. Ameaçava que dormiria com uma faca para me matar, mas nunca o fez". Finalmente, partiu para a violência física "Foi na noite em que ele chegou embriagado e me bateu. Foi terrível a pior noite da minha vida. Era um pesadelo sem fim". "De modo sintomático, uma vez que a violência contra as mulheres é pouco denunciada e pouco reconhecida como um importante problema público no mundo, os dados a respeito são raríssimos e os que existem são subnotificados." (AGENDE, 2006) Segundo Barsted (2006) "A ação do movimento de mulheres brasileiras no enfrentamento da violência doméstica e sexual, de forma mais sistemática, data do final da década de 1970, quando as feministas tiveram participação ativa no desmonte da famosa tese da 'legítima defesa da honra'. Foi, portanto, no campo do Poder Judiciário a primeira manifestação organizada contra uma expressão cultural tradicionalmente utilizada com êxito pela defesa de homens que assassinavam a mulher". Sabe-se que muitos avanços já foram alcançados
para garantir um atendimento qualificado as mulheres vítimas de
violência. Mas sabe-se também que ainda hoje em muitos lugares
as mulheres continuam sendo discriminadas, marginalizadas e envergonhadas
pelo fato de serem mulheres. É preciso entender que existe infelizmente
na cultura brasileira, uma discriminação, um enorme preconceito
enraizado contra mulheres agredidas, principalmente por seus companheiros,
transformando-as, muitas vezes, de vítimas em rés. Preconceitos
esses que, muitas vezes, orientam as práticas dos profissionais
responsáveis pelo atendimento aos casos de violência de gênero.
ALMEIDA, Tânia Mara Campos de. BANDEIRA, Lourdes.Políticas públicas e violência de gênero: uma discussão com base na rotina das Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs) da região Centro-Oeste. In Agende Ações em Gênero Cidadania e Desenvolvimento Violência contra as mulheres: a experiência de capacitação das DEAMs da Região Centro-Oeste/Agende; organizado por Lourdes Bandeira, Tânia Mara Campos de Almeida e Andrea Mesquita.-- Brasília, 2004. BARSTED, Leila Linhares. O Progresso das Mulheres no Brasil - A violência contra as mulheres no Brasil e a Convenção de Belém do Pará dez anos depois. CIONEK, Maria Inês Gonçalves Dias. ROSAS,Fabiane
Klazura. O impacto da violência doméstica contra
crianças e adolescentes na vida e na aprendizagem. Conhecimento
Interativo, São José dos Pinhais, PR, v. 2, n. 1, p. 10-15,
jan./jun. 2006
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| Edição 52 |
Géssica Hellmann
Segundo Lima (2006), "muitas vezes, os problemas ou dificuldades de ordem sexual são construídos, desencadeados, mantidos ou, pelo menos, sofrem grande influência da educação sexual (valores, conceitos, regras e princípios morais frente ao sexo) recebida na família de origem". A autora afirma ainda que a falta de informação, o preconceito, a imagem negativa do sexo e os conceitos distorcidos acerca de sexualidade, por fazerem parte da cultura, atingem direta ou indiretamente cada um de nós. Portanto, a educação sexual transmitida e recebida na família, de geração para geração, é "contaminada" por grande parte destes fatores, o que costuma trazer sérias conseqüências para o comportamento e vida sexuais de seus membros. Um caso contado por Santos (2006) é o de um homem que, quando tinha 10 anos de idade, foi levado ao pediatra pela mãe, que estava preocupada com o tamanho do seu pênis. Segundo ela, o pênis era pequeno demais, o que, no futuro, a mãe acreditava, traria ao filho graves conseqüências na área sexual. O problema detectado pelo pediatra foi que a criança obesa não conseguia visualizar direito o tamanho de seu pênis, pois este ficava com a base coberta pelo excesso de gordura da região pubiana. Mas àquela altura o menino, atormentado pelas conclusões equivocadas da mãe, se sentia diferente dos outros e, envergonhado, não conseguia trocar de roupa na frente de nenhum de seus colegas. Hoje, adulto, já passou por diversos urologistas e sempre obtém a mesma resposta: "Não há problema algum com seu pênis". Porém, ele não consegue se convencer disto e tem dificuldades de relacionamento. Vive inseguro em relação à reação que as mulheres terão ao ver o seu pênis. Lima (2006) afirma que "em muitas famílias, não se fala de sexo, este parece não existir ou não fazer parte da condição humana". Como podemos perceber, muitos pais costumam transmitir suas próprias angústias, preconceitos e neuroses enraizadas para os próprios filhos. Por isto considero extremamente importante uma boa educação sexual. Cunha (2006) afirma que "a educação sexualizada inicia-se nos primeiros momentos da vida da criança (ou talvez ainda antes, desde o dia da concepção): acariciá-la, beijá-la, abraçá-la, massageá-la vai proporcionar-lhe prazer e ensinar-lhe as melhores sensações e as melhores coisas da vida'. Há dificuldade de se falar de sexualidade, um assunto que, incrivelmente, ainda constitui um tabu. Mas o que vem a ser a sexualidade? Para Cunha (2006) "A sexualidade é vida, é a própria pessoa. A sexualidade constitui uma força viva no indivíduo, é um meio de expressão dos afetos, é a forma de cada pessoa se descobrir e descobrir os outros". Segundo Guilhem, considera-se sexualidade "o processo sociocultural que fundamenta o ordenamento das experiências afetivo-sexuais, que transformam o sexo biológico em ações sociais, traduzidas pela aceitação das mais variadas crenças, práticas sexuais, comportamentos e jogos eróticos" (apud MENEGHEL, 2003). Segundo a Organização Mundial de Saúde, a sexualidade é definida como "uma energia que nos motiva para encontrar Amor, Contato, Ternura e Intimidade, ela integra-se no modo como nos sentimos, movemos, tocamos e somos tocados, é ser-se sensual e ao mesmo tempo ser-se sexual. A sexualidade influencia pensamentos, sentimentos, ações e interações, e por isso influencia também a nossa saúde física e mental" (Cunha, 2006). O autor afirma ainda que "educar a sexualidade não é dar uma aula, ou uma boa explicação. Não chega informar, nem sequer promover uma dinâmica de grupo. É proporcionar experiências, onde as pessoas possam desenvolver facetas da personalidade que lhe permitam vivenciar a sua sexualidade de uma forma adequada". O artista plástico André Brown em entrevista
com Alexei Gonçalves, comentou que muitos pais vêm a ele
pedir para não ensinar seus filhos "a desenhar nus",
ao que ele responde que é impossível ensinar o desenho do
corpo humano sem o estudo da anatomia, do corpo nu. É provável que, em seu reduzido vocabulário. ela não saiba o verdadeiro significado da palavra "depravação": "Aurélio: depravado Acredito que o intuito era dizer que as obras eram "muito explícitas". Mas o mais interessante é a ligação que algumas pessoas fazem com o retrato do nu, da sexualidade, com o proibido, o pecado, o pervertido. Fico a imaginar: como encaram sua própria sexualidade? Quantos tabus e quantas proibições e, no limite, quanta violência psicológica essas pessoas cometem contra si mesmas! Depois da dita "revolução sexual" , por que ainda reprimimos tanto o sexo? Por isso enfatizo a importância do estudo da corporalidade, da sexualidade manifestada através da arte como uma autêntica atividade de reeducação contra o preconceito. A arte possibilita aumentar nossa percepção do mundo, sensibilizando-nos, tornando-nos mais solidários com as diferenças. Bibliografia CUNHA,Maria da Conceição Melo da. A importância dentro de mim - Educação sexualizada e jovens com deficiência mental. In Caderno de Textos : Educação, Arte, Inclusão / organização André Andries. Vol. 1, n. 1 (1. quandrim. 2002) - Rio de Janeiro : Funarte, 2002. LIMA, Carla A. R. de Pinho. O papel da família no processo da construção da sexualidade. Disponível em: <http://www.portaldasexualidade.com.br/>. Acessado em 14/06/2006. MENEGHEL, S. N. et al. Impacto de grupos de mulheres em situação de vulnerabilidade de gênero. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 19(4):955-963, jul-ago, 2003. SANTO, Patrícia Espírito.Variações sobre um mesmo tema. Disponível em: <http://www.portaldasexualidade.com.br/>. Acessado em 14/06/2006.
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| Edição 51 | Arte em prol da solidariedadeGéssica Hellmann Começo este artigo com uma frase dita hoje por um cliente: "O que os pais vão pensar se entrarem no seu site e virem o anúncio lá?" - gerente de uma oficina musical. Não! Este artigo não falará de gestão de marketing e planejamento de vendas. Este artigo busca refletir sobre a projeção do preconceito.
Uma revista virtual que aborda arte, sexualidade, corporalidade em prol da solidariedade humana e da inclusão, contra todos os tipos de preconceitos, é vítima também do preconceito. Infelizmente é uma realidade, mesmo no terceiro milênio, estando em um grande centro urbano, como o Rio de Janeiro, o preconceito ainda persiste. E isto é uma realidade não só desta cidade, mas uma realidade mundial. Casos como o citado acima, revelam pessoas preconceituosas que têm medo de serem vítimas de preconceito de outrem. Ironia? Não. É a realidade da sociedade em que vivemos. O trabalho realizado pela revista há mais de 50 edições tem tido como principal objetivo sensibilizar os leitores através de artigos, da literatura, da música e principalmente das artes visuais que expressam o corpo humano. Como podem observar, realizamos um trabalho com muito carinho, dedicação e pesquisa. A revista em si é um grande estímulo visual, trata-se de um casamento de texto e imagem, com a grande diferença de proporcionar um enriquecimento visual com obras de artistas poucos conhecidos pelo grande público brasileiro. É verdade também que, às vezes, publicamos obras clássicas para ilustrar algumas edições temáticas, mas o grande objetivo na verdade é proporcionar visualmente algo novo ao nosso público. Da mesma forma procuramos proporcionar espaço na revista a autores, poetas e escritores desconhecidos da "grande mídia", mas extremamente talentosos.
Unir artes visuais, literatura, música e corporalidade a favor de uma sociedade mais solidária e menos preconceituosa tem sido nossa missão. Segundo Puccetti (2006), a arte pode ser considerada como expressão da subjetividade. Expressão que possibilita múltiplas leituras; que em seu processo de produção transita entre a sensibilidade e a razão. E é justamente nessa mobilidade entre o sensível e o racional que reside o seu potencial transformador e inclusivo, em que não há diferenças entre os sujeitos, mas apenas singularidades. A autora afirma ainda que "A subjetividade, por seu turno, se constitui socialmente por meio da linguagem. A linguagem é, então, meio de constituição do sujeito, modo de refletir sobre a realidade, sobre o mundo e sobre si mesmo. Porém, mais que meio de expressão, a linguagem representa a organização dos processos mentais... Se entendermos o conhecimento como a ação do sujeito sobre a realidade, numa interação mediada, na relação com os outros, então a arte propicia a construção de conhecimento e da própria consciência". Artes visuais, literatura, música e corporalidade
são as principais manifestações artísticas
abordadas pelo "géh". É importante compreender
os fundamentos de cada modalidade. Em conformidade com o projeto "Estratégias
e orientações sobre artes - Respondendo com Arte às
necessidades especiais" do Ministério da Educação: Música: A Música como linguagem sonora verbal e não-verbal utiliza os códigos lingüísticos do ritmo, do som, da letra e da melodia - estruturada ou não, harmônica ou dissonante - respeitando as singularidades e diferenças de cada um. A Música ajuda a pessoa a manter contato com a realidade e o sentido da totalidade, não somente com aspectos abstratos do pensamento, mas em múltiplas formas que demonstram uma transformação e entendimento de novas criações musicais, podendo chegar à palavra e à verbalização. A música está presente em todas as pessoas e em todos os grupos sociais e é parte ativa da cultura de todos os povos - está incorporada ao "inconsciente coletivo". Corporalidade (Teatro e Dança): A Dança se constitui de movimentos rítmicos que envolvem todas as partes do corpo, em sintonia com diversos estilos de música. Ela é vivenciada em todas as culturas, sendo uma das poucas atividades na qual o ser humano se encontra mais íntegro - corpo, mente e espírito. O trabalho de Dança, na perspectiva da educação, visa à consciência corporal, promovendo o respeito e a valorização das possibilidades de descobertas de cada pessoa sobre si mesma, no contato com o outro e com o grupo. O Teatro, no âmbito da educação escolar é, sobretudo, linguagem, que possui uma gramática própria. Essa gramática se constitui de signos. São eles: os signos verbais - as palavras pronunciadas e sua entonação - o texto. Os signos corporais que articulados formam a expressão corporal - o gesto, o movimento, a mímica, a expressão facial. E mais os signos que estão fora do ator que são utilizados para dar ênfase, enaltecendo ou obscurecendo aspectos do texto: a maquiagem, o vestuário, o penteado e os acessórios. Complementando, surge o grupo de signos que delineiam e definem o espaço cênico - onde a trama acontece, são eles: o cenário e os objetos de cena. Temos ainda os signos auditivos que são a música e os ruídos. E, finalmente, a iluminação. Todos esses elementos se juntam e cuidadosamente se articulam para tornar vivo aquilo que chamamos de Teatro. A corporalidade mais sentida nessas duas representações (teatro e dança), aqui na revista é representada através de pinturas do corpo humano. Acredito que a arte e suas manifestações podem contribuir na construção de um mundo mais solidário, mais fraterno, menos preconceituoso. Acredito também na possibilidade de uma reeducação social através da arte. Para Prosdócimo (2006) "Desde os primórdios da humanidade até os dias atuais, a história mostra que o ser humano, embora lentamente, vem crescendo interiormente e desenvolvendo a sua consciência moral. A arte acompanhou a humanidade nessa trajetória, servindo de apoio e inspiração para o afloramento de nobres sentimentos. Nos dias atuais, ela continua sendo a musa inspiradora do ser humano." O autor reforça também que "a arte é
importante e necessária para essa tomada de consciência,
pois reflete a plena capacidade humana para a associação
de idéias, para a transformação de experiências,
para conhecimento de si mesmo e reconhecimento do ser". Onde, "as
atividades artísticas como o teatro, as artes plásticas,
a música, a dança e a literatura, agem como propulsoras
do desenvolvimento moral (sentimento) e intelectual (razão e raciocínio).
Atuam também sobre a vontade, auxiliando no processo educativo". A arte como forma de inclusão social, como vimos no artigo "Arte x reeducação social" é uma possibilidade. É preciso continuar incansavelmente esse esforço, para que juntos possamos criar uma nova realidade, onde o preconceito não tenha vez em nossos corações, para aprendermos a aceitar a diferença, a aceitar o outro. Nas palavras de Karla Hansen (2006), "E se cada um de nós nos entendermos como diferentes, em alguma medida, não existe "o diferente". Não tem mais sentido. Existe, sim, o outro, que não é igual a mim, não é um clone, um reflexo no espelho". O meio pelo qual a arte promove essa mudança é esclarecido por Puccetti (2006): "A produção artística desloca o olhar. Rompe com o limite do racional e o estigma da diferença, pois ordena o pensamento; revela a expressão; convida à criação; comunga com a idéia da inseparabilidade; constrói a forma, tornando-a visível (imagem) e, enquanto construção se revela como linguagem e representação simbólica". A arte desperta sentimentos, sensações, afeta profundamente com nosso eu interior e estimula uma consciência cultural. Como afirma Serra (2006), "A arte é um meio de conhecimento através dos sentidos". Outro autor afirma ainda que "A arte tem um papel de destaque importante na construção de uma vida mais livre. A experiência em arte é capaz de engrandecer toda e qualquer prática da vida humana". (Almeida 2006) Cito ainda Fayga Osttrrowerr (2006): "Assim, todas as formas de arte incorporam conteúdos existenciais. Estes se referem à experiência do viver, a visões de mundo, a estados de ser, a desejos, aspirações e sentimentos, e aos valores espirituais da vida. Enfim, são conteúdos gerais da própria consciência humana. Atravessando séculos, sociedades e culturas, tais conteúdos continuam válidos e atuais para cada um de nós. Por isso, a arte tem esse estranho poder de nos comover tão profundamente. Ela fala a nós, sobre nós, sobre o nosso mais íntimo ser." É esta nossa intenção: sensibilizar e tocar o íntimo de cada um em prol da solidariedade. Freqüentemente, é preciso explicar o óbvio: a nossa missão. Missão que está no combate ao preconceito e, justamente por isso, é vítima de preconceitos por mostrar a beleza e a sensualidade do corpo humano. Como afirma Osttrrowerr (2006) "É justamente a sensualidade das linguagens artísticas - pintura, música, dança, arquitetura, ou também poesia - que as distingue de linguagens conceituais, como, por exemplo, a filosofia ou a matemática. Encanta-nos ver cores, ouvir sons, perceber movimentos e ritmos. Ainda que física, a sensualidade torna-se uma qualidade espiritual". Há tantos medos enraizados, tantos tabus e preconceitos a serem vencidos. Quando começaremos a evoluir? Quando vamos parar de ter medo do diferente? Referências Bibliográficas ALMEIDA, Heleuza Carrilho Tuka de. Inclusão através da arte: experiência com jovens e adultos na universidade de cruz alta. Disponível em: (http://www.funarte.gov.br/vsa/publicacao.htm) . Acessado em 05/07/06. HANSEN, Karla. Arte, diversidade e inclusão. Diferença não é defeito. Disponível em: (http://www.educacaopublica.rj.gov.br/jornal/materia.asp?seq=234) . Acessado em 07/07/06. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO - SECRETARIA DE EDUCAÇÃO ESPECIAL. Estratégias e orientações sobre artes. Respondendo com Arte às necessidades especiais. Brasília, Dezembro - 2002. OSTTRROWERR, Fayga. Arte e artistas no século XX. In FARIA, Hamilton; GARCIA, Pedro, (Org.). O reencantamento do mundo: arte e identidade cultural na construção de um mundo solidário. São Paulo: Pólis, 2002. 152p. (Publicações Pólis, 41) PROSDÓCIMO, Sérgio da Silva. A arte como meio auxiliar na reeducação de pessoas dependentes de drogas. Disponível em: (http://www.funarte.gov.br/vsa/publicacao.htm) . Acessado em 05/07/06. PUCCETTI, Roberta. Arte: imagem e produção artística na diversidade. Disponível em: (http://www.funarte.gov.br/vsa/publicacao.htm) . Acessado em 05/07/06. SERRA, Otoniel. Estética e o valor da produção e do produto artístico em suas diferentes linguagens. Disponível em: (http://www.funarte.gov.br/vsa/publicacao.htm) . Acessado em 05/07/06. |
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