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Edição 60

CONTEÚDO ADULTO - O que é isso?

por Ariadna Garibaldi

Yuri Remyga - Birth of Venus
Birth of Venus por Yuri Remyga


O advento da informática e o surgimento da Internet foram os acontecimentos de maior repercussão do século 20. Ligar vários computadores entre si fazendo-os trabalharem ao mesmo tempo e em conjunto trocando informações foi a grande "sacada" do último milênio e a popularização do uso dessa ferramenta abriu um grande portal para o mundo, uma verdadeira caixa de Pandora, só que em proporções inimagináveis até mesmo para os visionários escritores de ficção científica!


E agora estamos nós, em pleno século 21 inicio de um novo milênio, com essa grande ferramenta em nossas mãos, e com todas as suas maravilhas e maldições, de algum modo perdidos, em busca de parâmetros para estabelecer regras de uso e conduta que respeitem as diferenças culturais, políticas e religiosas dos povos, a mercê de piratas e peritos em invasões de rede, nessa terra de todos e de ninguém.

Como controlar o acesso, delimitar espaços e estabelecer regras de uso de algo que não pára de crescer e evoluir? A primeira idéia para se começar a desenhar tais limites foi o chamado "CONTEÚDO ADULTO" que diz respeito a tudo que abranja linguagem, conteúdo, imagens e temas de natureza polêmica ou dirigidas apenas para adultos propriamente. Neste sentido o nosso site é sim de conteúdo adulto e impróprio para crianças, não por ser pornográfico, mas por usar linguagem adulta e tratar de temas do interesse do público adulto. Até aí estamos todos de acordo.

Acontece que uma desvirtualização da expressão "conteúdo adulto" faz com que ela soe para muitos como "conteúdo pornográfico", gerando assim distorções no entendimento de pessoas menos atentas ou preconceituosas, daí porque o Géh foi "barrado" em determinado portal.

Não há ainda leis nacionais ou internacionais específicas e eficazes para o uso da Internet. Tudo o que temos são as leis de cada país e, em termos de Brasil, o que tem pautado as diretrizes é a Lei 8069 de 13 de julho de 1990, Estatuto da criança e dos adolescentes e o nosso já defasado Código de Processo Penal, além, é claro, da Lei n° 9.610 de 19 de fevereiro de 1998 dos Direitos Autorais. O mais, fica por conta da interpretação de cada um, de acordo com seus princípios éticos ou não.

O Géh é um site sério, que trata a sexualidade e a arte com ética. Nada do que aqui é postado pode ser considerado pornografia, mas o nosso conteúdo é, sim, adulto. Levantamos a bandeira contra a pedofilia na net, temos posições bem definidas em relação à arte e à sexualidade, sempre pautadas no respeito ao individuo, à família e à sensibilidade. Porém, infelizmente, sem diretrizes claras e sem definições legais, ser um site de "conteúdo adulto" nos nivela aos sites pornôs, o que absolutamente não somos!

Precisamos urgentemente de leis claras e objetivas que nos protejam e nos respaldem, para que possamos exercer com tranqüilidade o papel ao qual nos propusemos desde o início, que é o de levar a arte, discutir tabus, promover a cultura. Linguagem adulta não é necessariamente linguagem erótica e nem, tampouco, pornográfica. Assim, os sites que tratassem de política deveriam estar nesse mesmo parâmetro, afinal, política não é assunto de crianças. É?

É um contra-senso sem tamanho taxar o nosso site de pornográfico (pois é o que muitos entendem por sites de conteúdo adulto) enquanto na TV há comerciais ensinando o uso de camisinha; cenas de sexo nas novelas; linguagem de conteúdo totalmente erótico e discussões sobre o uso de drogas na novela das 17 horas da maior rede de TV do Brasil; linguagem obscena nos programas de auditório e tudo o mais que presenciamos diariamente, isso pra não falar na política atual, onde políticos corruptos despejam seus discursos demagogos em horário eleitoral, muitos dos quais deveriam estar na cadeia, pois não passam de bandidos, flagrados que já foram nas mais diversas práticas fraudulentas... Mas, nossas crianças os vêem roubando a nação e se dando bem... Voltando à Internet, que é o que nos interessa aqui, nos sites de conteúdo infantil, com chats específicos para crianças, não há como controlar o acesso dos pedófilos que se passam por crianças para aliciar os menores às suas práticas e taras. Note-se: em chats infantis, nos sites de conteúdo infantil.

Está aberta a discussão; Não queremos e nem vamos entrar no mérito dessas questões, o que queremos é ser tratados com a justiça e a seriedade que merecemos e para isso, a Internet precisa urgentemente de leis claras e específicas, sem hipocrisias e falsos moralismos que não combatem, mas camuflam o que de fato acontece na rede.

 

 
Edição 59

Virgens Juradas

por Géssica Hellmann

Mitzura Salgian - Virgo
Virgo por Mitzura Salgian

Neste resumo, exponho alguns interessantes apontamentos no artigo de Grémaux (1995) sobre indivíduos que adotam permanentemente o vestuário e o comportamento normalmente associados ao sexo oposto.

"As informações antropológicas disponíveis sobre o assunto referem-se principalmente aos homens que se vestem e se comportam como mulheres - os xamãs e berdaches siberianos e norte-americanos são exemplos mais flagrantes; no entanto, observa-se uma falta de informação sobre a inversão do feminino para o masculino" (p.199)

É sobre esta última inversão que o autor reflete em seu artigo: um curioso costume encontrado entre os albaneses do norte, os montenegrinos e alguns outros grupos étnicos dos Bálcãs ocidentais.

Desde metade do século XIX, tem-se conhecimento sobre mulheres solteiras, virgens, que vivem, se vestem, trabalham e são reconhecidas como homens. O autor afirma que, ao efetuar sua pesquisa, se deparou com pelo menos 70 casos de mulheres que levavam sua vida como homens, desfrutando, até certa medida, do reconhecimento público da sociedade tanto quanto fossem homens.

Caso 1: Mikas

Mikas era filha de um herói famoso que havia sido morto em combate quando Milica era ainda muito pequena e ela era sua única filha. Após a morte do pai, sua mãe lhe vestiu como homem e lhe deu o nome de Mika. Ela se acostumou com a idéia, cresceu como menino e mais tarde se alistou no exército. Em 1885, o médico sérvio Jovanovic-Batut, ao examinar os soldados, foi informado que Mika era, na verdade, uma mulher. Indagada pelo médico sobre como lidava com sua menstruação na presença dos homens, negou que a tivesse: "Eu não tenho isto. Com a idade de 13 anos, tive por alguns meses, mas depois, nunca mais". "Ouvir isso" - escreve o médico - foi suficiente para mim. Percebi que toda sua natureza havia se transformado.

Nos anos 1920, a etnógrafa croata Marijana Gusic, acompanhou a vida de Mikas. Gusic descreve o Mikas idoso como uma pessoa infeliz, perturbada, com sinais de misoginia e misantropia. Gusic relacionava isto ao celibato e ao papel masculino compulsório.

Mikas sempre se referiu a si mesmo no gênero masculino. As mulheres costumavam beijar sua mão, como se esperava que o fizessem sempre que encontrassem um venerável ancião. Dizem que passou sua vida em total celibato.

Caso 2: Tonë

Tonë nasceu na tribo Kelmënd, de maioria católica, na região montanhosa da Albânia setentrional. O nascimento de Tonë foi seguido pelo nascimento de dois filhos e duas filhas. Ambos os filhos - orgulho e alegria de toda a família patriarcal - morreram de malaria endêmica. Com a morte dos irmãos, Tonë decidiu, com cerca de nove anos, tornar-se o filho e o irmão mais velhos de que seus pais e irmãs precisavam. Prometeu jamais casar-se e trocou suas roupas por roupas masculinas. A idéia agradou muito a seus pais.


Quando ele completou 20 anos, sua mãe, com 49, deu a luz a um menino chamado Gjelosh. Tonë desempenhou o papel de irmão mais velho e o protegia nas horas difíceis. Quando suas irmãs chegavam à idade de se casar, era ele que as cedia para seus noivos, exatamente como todo irmão mais velho. Na Segunda Guerra Mundial, ele e seu irmão se aliaram à guerrilha nacionalista. Foram presos ao final da Guerra. Depois de soltos, em 1951, ele e o irmão cruzaram ilegalmente a fronteira da Albânia, estabelecendo-se em Montenegro. Lá, fundaram domicílio, chefiado por Tonë. Ele sempre fez trabalhos típicos masculinos. Conquistou uma considerável popularidade como cantor e musico.

Gusic afirma que neste caso, ao contrario de Mikas, Tonë era uma pessoa agradável e satisfeita, que desfrutava inteiramente de alta estima a ela dedicada tanto pela família como pela comunidade mais ampla. Morreu em 1971 e foi enterrado como homem.


Nestes dois casos, em sua juventude, as meninas "passaram para o lado" do gênero masculino com o consentimento da família a fim de substituir um herdeiro do sexo masculino. As mulheres masculinizadas estavam fadadas, em principio, à perpétua virgindade, normalmente por juramento. O corpo intacto simbolizava a integridade moral da pessoa em questão. Existe muita duvida e discórdia quanto ao significado da palavra "virgindade" quando aplicada a essas pessoas: terão elas de sempre se eximir de contatos sexuais com homens, ou desfrutarão de algum tipo de liberdade no reino da (hetero)sexualidade? Ou utilizando uma distinção na Antiguidade clássica, deveria tal pessoa ser rotulada como virgo intacta, ou simplesmente virgo, denotando este ultimo termo "mulher descomprometida, não casada"? Caso uma delas ficasse grávida após juramento, era condenada por apedrejamento em Montenegro, e morte na fogueira, na Albânia setentrional.

O autor afirma ainda que, dentre os pouquíssimos casos de virgens juradas que, após terem vivido anos como homens, retornaram ao gênero feminino e se casaram, um chamou sua atenção.

Fátima nasceu em 1926, em Nisor, uma aldeia em Kosovo, e era a quarta filha de uma família camponesa mulçumana e albanesa. Uma vez que os pais precisavam de um filho, deixeram que a menina recém-nascida se passasse por menino. O pai proibiu a menina de ser chamada de Fátima e deu-lhe o nome masculino de Fetah. A mãe, viúva bem jovem, assumiu a tarefa de orientar Fetah para que não fosse desmascarada. Um filho era muito importante, porque uma viúva sem filho homem era obrigada a deixar a casa do marido e a ir morar com os pais para se casar novamente.

Em 1944, Fetah foi recrutada pelos guerrilheiros iugoslavos vencedores. Somente depois de dois anos, em um exame médico, descobriram seu verdadeiro sexo e a dispensaram. Fetah voltou à sua terra natal e continuou a viver como homem. Nos anos seguintes, a comunidade local foi cada vez mais se tornando ciente que Fetah era uma mulher. Para tristeza da sua mãe, em 1951 ela resolve se casar com Aslan Asllani, de quem ainda hoje é esposa. Ela voltou a viver como Fátima. Sua mãe jamais se conformou com a perda de seu único "filho" e morreu sem conceder o perdão a ela.

Basicamente, as virgens juradas travestidas geralmente participam de aberto desdém para com o segundo sexo. No tocante à misoginia, às vezes competiam com os homens verdadeiros.

Como essas mulheres se relacionam sexualmente com os homens e as mulheres e em que medida se identificam, de fato, com o gênero masculino? É a pergunta levantada pelo autor. Em alguns dos casos pesquisados, houve renúncia total à sua feminilidade e desenvolveram hipersensibilidade a qualquer alusão à mesma, como no caso de Mikas. Outros, como no caso de uma viúva albanesa mulçumana, tornou-se uma virgem jurada após a morte do seu marido, passando a viver como homem.

O autor deixa sua conclusão em aberto, mas limita-se a fazer algumas considerações: as diferenças na extensão que o gênero masculino parece ser internalizado pelas virgens juradas, em sua opinião, depende de algumas variáveis: idade de início, duração e uniformidade do processo socializante; posição e estima da família e na comunidade local e a predisposição pessoal aptidão e preferência.

Bibliografia
GRÉMAUX, René. Mulheres masculinizadas dos Bálcãs. In BREMER, Jan. De Safo a Sade - Momentos da história da sexualidade. Campinas, SP: Papirus, 1995. Pg. 199 a 235.

 

Edição 58

Arte x Pornografia

por Ariadna Garibaldi

Introdução

Este site é objeto de freqüente julgamento na internet. As ferramentas de busca Google, MSN e Yahoo!, censuram nossas imagens se o internauta não desabilitar o filtro de "conteúdo adulto" - sendo que a maioria dos navegantes sequer sabe da existência de tal filtro! Por outro lado, os sistemas de trocas de links - que recusam sistematicamente sites com "conteúdo adulto" - adotam critérios diferentes.

Algumas empresas brasileiras, como a Trocando e a GlobalBanner, recusaram nosso site. Entretanto, galerias de arte baseadas no exterior, como a Saatchi Gallery e a Artelistas aceitaram os trabalhos da Galeria Géh como artísticos. Recentemente, a Link2Me, sistema de troca de links, aceitou nosso site na categoria "Artes Visuais". Já as listas de diretório brasileiras divergem muito sobre a classificação do site, variando desde a recusa inapelável até a aceitação imediata em categorias como "Arte" e "Cultura". Por outro lado, para nosso espanto e contra nossa vontade, algumas listas de diretório e ferramentas de busca de conteúdo pornográfico incluíram o géh em seus índices!
Ou seja, percebe-se claramente que não há uma definição precisa do que vem a ser "conteúdo adulto" na Internet, dependendo tal classificação de critérios absolutamente subjetivos e arbitrários.
Por esse motivo, pedimos à advogada Ariadna Garibaldi que iniciasse um estudo sobre esse assunto: afinal, como podemos definir juridicamente de forma precisa a fronteira entre o que é Arte, Pornografia e esse bicho-papão chamado de "conteúdo adulto"?


(Os Editores)

Larisa Malysheva - Nude 2
Nude 2 por Larisa Malysheva

Pornografia (Dicionário Aurélio Século XXI

[Do gr. pornográphos, 'autor de escritos pornográficos', + -ia1.]
S. f.
1. Tratado acerca da prostituição.
2. Figura(s), fotografia(s), filme(s), espetáculo(s), obra literária ou de arte, etc., relativos a, ou que tratam de coisas ou assuntos obscenos ou licenciosos, capazes de motivar ou explorar o lado sexual do indivíduo.
3. Devassidão, libidinagem.

Era o ano de 1935 e algumas meninas entre sete e oito anos brincavam de bonecas em uma pequena cidade do Rio Grande do Norte. Com panelas de barro, alguns pedacinhos de madeira e algumas bonequinhas de pano, simulavam o cotidiano, quando uma delas tem a idéia de que a família de bonecos precisava de um filho... Mas como será que fariam para que tal fosse possível? Sem saber direito como fazer, uma delas vai à vizinha que varria o quintal e observava a alegre brincadeira e pergunta: Donana, minha boneca casou, agora como é que faz pra ela ter um bebê? A mulher arregala os olhos sem esconder o espanto, larga a vassoura e sai correndo pela rua em direção à casa da menina, que fica a olhar atônita sem entender coisa alguma. Poucos minutos o seu pai a chama e sem nada perguntar aplica-lhe uma sova para que ela nunca mais "fale safadezas". Isso aconteceu com a minha ex-sogra.

Muita coisa mudou dessa época pra cá e nenhuma criança acredita mais em cegonha. Todos sabem de onde nascem os bebes e muitos, antes da adolescência, aprendem como são feitos. Nunca se falou tanto sobre sexo e nem tão abertamente, muitas vezes de forma apelativa, sem o menor critério e até com palavras e gravuras explícitas. Assim, passou-se a definir tais conteúdos como sendo de interesse adulto, no intuito de preservar a integridade física, moral e intelectual das crianças. Como, no mundo da era digital, diferenciar o que é arte visual ou sensual do que é pornografia, se, segundo o próprio dicionário, qualquer conteúdo gráfico erótico é conteúdo adulto e é pornográfico?

Com o fim da ditadura e da censura, abriu-se um portal para o que antes era proibido e ao invés de se usar isso em favor da cultura, houve uma verdadeira deterioração na programação de TV's. Com o advento da internet, proliferaram os sites de conteúdo pornográfico e até pedofilia. E novos conceitos precisaram ser formados para separar o joio do trigo. Foi nessa expectativa que convencionou-se denominar os sites com conteúdo erótico de sites de conteúdo adulto e é a partir daí que surgiu uma verdadeira distorção de interesses. Que tipos de assuntos interessam aos adultos? Será que apenas sexo explícito? E o conceito de pornografia, tal como está no dicionário corresponde à realidade? Então um site sério, que trata da sexualidade de forma cientifica social e como expressão artística tal qual fazemos aqui no géh, pode ser tachado de pornográfico? Em que as obras de arte aqui mostradas agridem os olhos? Em que os assuntos aqui discutidos levam o individuo a pensar em sexo de forma alienada? Precisamos urgentemente definir o conceito jurídico de pornografia, e o conceito social de arte. Arte é arte e pornografia não é arte. A arte existe sob diversas formas e sob diversos aspectos inclusive o corporal. A sexualidade é inerente ao ser humano e por isso, também é expressa artisticamente desde tempos remotos. Vamos juntos tentar entender e, quem sabe, ajudar a conceituar melhor o uso da sexualidade dentro das artes e usar a arte a serviço da nossa sexualidade de modo saudável. É hipocrisia taxar o nosso site de pornográfico enquanto a noveleta das cinco instiga adolescentes a fazerem sexo e falam disso abertamente sem nenhum critério. Vamos juntos separar joio de trigo e aprender e ensinar o verdadeiro conceito de arte sensual de pornografia gratuita. É uma das coisas a que nos propomos desde o início e agora pretendemos fazer mais diretamente, já que fomos vitimados pelo preconceito de gente mal informada, talvez resquício de uma ditadura que teima em não morrer na cabeça de muitos.

 

Edição 57

Sexualidade, corporalidade e espiritualidade

por Géssica Hellmann



Géssica Hellmann - Bailarina Violeta
Bailarina Violeta por Géssica Hellmann

Este artigo é uma reflexão sobre as relações entre as expressões corporais, os sentimentos, a sexualidade e a espiritualidade.

Para Faria (2006) "a sexualidade é parte integrante da personalidade total das pessoas. A sexualidade humana não se limita ao ato sexual; ela engloba emoções, afetos, sensações, etc. Dessa forma, sentimentos e pensamentos influenciam o exercício da sexualidade. O contrário também ocorre, ou seja, a vivência da sexualidade irá influenciar sentimentos e pensamentos, inclusive a respeito de si mesmo."

Ou seja, sexualidade inclui todas as formas como as pessoas expressam sua busca pelo prazer. Podemos expressar a sexualidade através da dança, do ato teatral, da música, da arte, dos gestos cotidianos, da maneira como expressamos a vida e nossa auto-estima.

"A antropóloga Carole Vance mostra que as culturas fornecem categorias, esquemas e rótulos muito diferentes para enquadrar experiências sexuais e afetivas. A relação entre o ato e a identidade sexual, de um lado, e a comunidade sexual, de outro, é igualmente variada e complexa. Assim, o exercício da sexualidade é ancorado nos mais variados significados e sentidos dados de acordo com a cultura e o período histórico." (Toniette, 2006).

Segundo a OMS no documento "Promotion of Sexual Health: Recommendations for Action" , a sexualidade humana está relacionada a um núcleo de bem-estar que inclui: gênero (conjunto de valores, atitudes, papéis, práticas ou características culturais baseadas no sexo biológico), identidade sexual e de gênero (como a pessoa se identifica), orientação do desejo sexual, erotismo, vínculo emocional, atividades e práticas sexuais, relações sexuais sem risco e comportamento sexual responsável. O documento firma ainda que a sexualidade é resultado da integração de fatores biológicos, psicológicos, sócio-econômicos, culturais, étnicos e espirituais (Toniette, 2006).

Como podemos observar o termo sexualidade não designa somente o "ato sexual"; é um conjunto de variáveis, que inclui sentimentos, emoções, expressões corporais em busca do prazer, do bem estar, do amar a si próprio e a seu corpo. Quem se ama, se cuida, se preserva, cuida tanto do espírito como do corpo, conservando-se assim corporalmente, espiritualmente e mentalmente saudáveis.

Merecki (2006) ao analisar o chamado dualismo antropológico e o modo como se entende a sexualidade, disse que o problema se reduzia à compreensão da relação da pessoa humana com seu corpo, uma vez que a sexualidade nada mais é que uma das expressões desse corpo.

O autor afirma ainda que o corpo exprime objetivamente significados genuinamente humanos em situações de intimidade humana. A sexualidade, em especial, é um âmbito no qual gestos corporais, sentimentos e atitudes espirituais constituem uma unidade inseparável, de forma tal que a linguagem do corpo adquire nesse caso uma evidência especial. O corpo, desde o início, fala a linguagem especificamente humana, que não pode ser ignorada sem dano ao próprio homem. A compreensão da unidade do homem (corpórea, emocional e espiritual) traz consigo a descoberta da dimensão moral dos dinamismos do corpo. A estrutura da sexualidade, em toda a sua dimensão humana, indica ao homem as formas fundamentais de sua auto-realização.

"Pensar Espiritualidade e Sexualidade, em princípio pode parecer difícil e, até mesmo incoerente. Essa dissociação traduz um pensamento fragmentado e dicotômico, fruto de um legado secular: o paradigma cartesiano-newtoniano e a visão judaico-cristã, típico de nossa cultura ocidental." (Teixeira, 2006)

O que vem a ser o órgão sexual se não um órgão como outro qualquer? Por que tantos medos, preconceitos e culpas depositados neste órgão? No final tudo vira pó. O que importa é a intenção com que se faz. É com amor? É com respeito? É com carinho? Viver a sexualidade não é algo contra a natureza humana, muito pelo contrário. Faz bem, melhora nossa auto-estima, nossa saúde física e mental.

Corpo e espírito estão separados? É com esse intuito que proponho pensar a relação entre sexualidade, corporalidade e espiritualidade.

João Paulo II escreveu: "Justamente por meio da profundidade dessa solidão originária, o homem emerge agora na dimensão do dom recíproco, cuja expressão - que por isso mesmo é expressão de sua existência como pessoa - é o corpo humano com toda a verdade originária de sua masculinidade e feminilidade. O corpo, que exprime a feminilidade 'para' a masculinidade e, vice-versa, a masculinidade 'para' a feminilidade, manifesta a reciprocidade e a comunhão das pessoas. Exprime-a por meio do dom, como característica fundamental da existência pessoal" (Merecki, 2006)

Merecki (2006) conclui que "o ato sexual exprime justamente esse dom da pessoa - de toda a pessoa: com sua espiritualidade, emotividade e corporalidade - e não pode ser privado desse significado, que exprime o dom total de si ao outro".

Para Teixeira (2006) "A burocratização da espiritualidade e da sexualidade, somada às questões de ordem social, econômica e higiênica nos levou à vivência distorcida da sexualidade, e, por conseguinte, da nossa condição corpórea."

A autora afirma ainda que "Sexualidade é a possibilidade de viver o encontro, a fusão de duas pessoas na dança da vida, de experimentamos a pulsação quente do existir. Assim sendo, o ato sexual passa a ser um ato sagrado, um ato de amor. E, o amor é a liga que nos une e nos dá a chance de sobreviver."

Podemos vivenciar nossa sexualidade de forma extremamente benéfica e positiva para um desenvolvimento sadio, desde que feito com muito amor. Reprimir é anular a si próprio. Respeitar, aprender a sentir e escutar as mensagens que seu corpo transmite proporcionará uma elevação da auto-estima. É preciso saber se amar para aprender a amar o outro. Amar o outro é doar-se. Quem não tem amor a si mesmo, não tem amor para dar.

Bibliografia
FARIA, Cláudia. Sexualidade e auto-estima. Disponível em: <http://www.claudiafaria.com.br>. Acessado em: 18/08/2006.

MERECKI, Jaroslaw. Dualismo antropológico e sexualidade. Disponível em: <http://www.pucsp.br/fecultura/0406sexu.htm> . Acessado em: 18/08/2006.

TEIXEIRA, Iracema. Espiritualidade e sexualidade. Disponível em: <http://www.saudenainternet.com.br/sexualidade/sexualidade_09.shtml>. Acesssado em: 18/08/2006.

TONIETTE, Marcelo. Sexualidade ...ou sexualidades? Disponível em: <http://www.matoniette.psc.br/>. Acessado em: 18/08/2006.

 

 
Edição 56

Quem é seu próximo?

por Géssica Hellmann

Ao ler um artigo do Dr. Luiz Mott, antropólogo, me deparei com a seguinte afirmação: "Quando se fala em discriminação, via de regra, cada minoria procura puxar o quanto pode a brasa para mais perto de sua sardinha".

Géssica Hellmann - Amar o Próximo
Amar o próximo por Géssica Hellmann

Um choque, uma realidade. Me fez parar e refletir sobre o assunto. Sou mulher e sei que mulheres sofrem preconceitos em uma sociedade machista. Mas acima de tudo sou ativista em nome do amor, da solidariedade, da aceitação da diferença, seja ela qual for: nacionalidade, religião, raça, gênero ou opção sexual. Sou a favor do amor, da tolerância, da compaixão e da solidariedade.

Não puxarei a brasa para a minha sardinha! Aqui já falamos da violência contra a mulher, dos crimes homofóbicos, de solidariedade. Hoje falaremos sobre etnia: preconceito racial.

Segundo a definição de "Heler (1988) o preconceito está pautado em um forte componente emocional que faz com que os sujeitos se distanciem da razão. O afeto que se liga ao preconceito é uma fé irracional, algo vivido como crença, com poucas possibilidades de modificação. O preconceito difere do juízo provisório, já que este último é passível de reformulação quando os fatos objetivos demonstram sua incoerência, enquanto os preconceitos permanecem inalterados, mesmo após comprovações contrárias" (MENEZES, 2006).

A sociedade brasileira caracteriza-se por uma pluralidade étnica, sendo esta produto de um processo histórico que inseriu num mesmo cenário três grupos distintos: brancos (europeus), índios e negros de origem africana.

Simon Schwartzman, sociólogo, membro da Academia Brasileira de Ciências e presidente do IBGE entre 1994 a 1999, em um artigo para a Folha de São Paulo, afirma que houve um estágio na ideologia nacioanal em que autores como Nina Rodrigues e Oliveira Vianna propagavam que os males do país eram causados pela mistura do "sangue ruim" (negros e indígenas) e que era necessária uma "purificação da raça". Posteriormente, Gilberto Freire tentou difundir o conceito de uma "civilização luso-tropical", em que negros e brancos conviviam harmoniosamente. Mais tarde, foi a vez dos sociólogos marxistas argumentarem que a questão racial era uma questão de luta de classes. Finalmente, duas décadas atrás, o IBGE demonstrou que a "cor" dos brasileiros associa-se a uma série de importantes características sociais: "Os 'pretos' e 'pardos' recebem remuneração inferior pela mesma função e têm menos educação que os 'brancos' na mesma faixa de renda" (SCHWARTZMAN, 2006).

Sim o preconceito racial no Brasil existe e é fato. Basta observar a população carcerária, cuja maioria é composta por homens negros.

"Para reduzir os impactos negativos das desigualdades raciais é importante priorizar as regiões metropolitanas, diminuir a violência urbana, equacionar a segurança pública, gerar expectativa de educação, trabalho e renda para a juventude negra e melhorar a qualidade de vida das mulheres negras" (CARDOSO, 2006).

Entretanto, o que é um "negro"? Esta questão aparentemente simples é objeto de controvérsias e acusações de manipulação de dados estatísticos:

"A racialização do Brasil procede manipulação estatística ao propor que quase 50% da população nacional seja negra. O Brasil possui estados com forte população afro-descendente e outros dominados por descendentes de nativos e europeus. Em todos eles, existe forte população formada por intercruzamentos étnicos. Essa quase maioria é obtida somando-se como negros todos os brasileiros com alguma ascendência africana." Ou seja, "um brasileiro com três avós europeus e um afro-descendente é contado estatisticamente como negro. O que enseja a fusão de nacionais com forte afro-descendência, objetos da violência racista, e outros que, conforme a região e, sobretudo, a situação social, se têm e são em geral tidos socialmente como brancos" (MAESTRI, 2006).

Então eu pergunto: Qual a sua cor? Como você se define? Qual a cor do povo brasileiro?

Mas são os negros os únicos que sofrerem preconceito raciais no Brasil? Vale lembrar a comemoração dos 500 anos de descobrimento do Brasil, em que testemunhamos violência contra outra minoria - e o termo "minoria", neste caso, não aplicável somente no sentido sociológico, mas também no quantitativo:

Rememorando os fatos: índios Xavantes e Mehinakus entregaram uma carta de protesto ao Presidente Fernando Henrique Cardoso, em ocasião da comemoração dos 500 anos do Brasil. A mensagem dizia: "esta não é a nossa comemoração", "não estamos comemorando nada". A carta afirmava que "o povo brasileiro não conhece o povo indígena" e concluía que os índios estavam ali com o objetivo de realizar "um ritual de passagem para transformar este lugar num país onde nosso povo possa viver".

O conflito foi inevitável: em plena comemoração dos 500 anos do Descobrimento (Invasão?) ocorreu um violento confronto entre policiais e manifestantes indígenas na BR-367: a PM avançou sobre os índios, que fugiram na direção de Santa Cruz Cabrália. Alguns reagiram, disparando flechadas e jogando pedras. A polícia perseguiu os manifestantes por cerca de um quilômetro, soltando bombas, até dispersar totalmente o protesto. No momento do conflito, Gildo Terena, 18, da tribo terena de Campo Novo (MT), postou-se em frente à barreira policial pedindo para que parassem de jogar bombas e foi agredido pelos policiais. O índio teve traumatismo no maxilar direito, segundo o médico José Caires, do Sindicato dos Médicos da Bahia (FOLHA, 2006).

Que "cordialidade racial" é essa? Os "brancos" tão ciosos de sua superioridade, há 500 anos invadiram, tomaram posse, e exterminaram as populações indígenas. Uma cultura de que muito se perdeu e continua sendo destruída, para nosso grande pesar.

É importante valorizar a cultura, um povo precisa conhecer sua história, sua origem. Mas acima de tudo é preciso saber aceitar as diferenças.

É preciso exercer a solidariedade, a fraternidade e o amor. E é aqui que esclareço o título deste artigo: "quem é o seu próximo? "Amar o próximo como a ti mesmo" (Mt 22:39).É preciso aprender a conviver com as diferenças, amar a si mesmo e ao próximo com a mesma proporção. Por que tanto preconceito se, aos olhos de Deus, somos todos iguais, independente de rótulos?

Acredito nesta possibilidade: amar o amor e com esta intenção promover a solidariedade e fortalecer a luta contra os preconceitos - todos eles! - contra os crimes de ódio, a favor da esperança na evolução do ser humano. E termino com um convite:
Vamos nos dar as mãos para atingir esse objetivo?

Bibliografia:


CARDOSO, Marcos Antonio. Igualdade racial - Desenvolvimento com promoção da igualdade racial. Disponível em: <http://www2.fpa.org.br/portal/modules/news/article.php?storyid=2892> . Acessado em: 11/08/2006.

FOLHA de São Paulo. Índios entregam carta de protesto a Fernando Henrique. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fol/brasil500/reportagens.htm>. Acessado em: 11/08/2006.

MAESTRI, Mário. A racialização do Brasil. Disponível em:<http://www.lainsignia.org/2006/julio/ibe_044.htm> . Acessado em: 11/08/2006.

MENEZES,Valéria. Preconceito racial: o desencontro da alteridade. Disponível em: <http://www.fundaj.gov.br/tpd/147.html> . Acessado em 11/08/2006.

MOTT, Luiz. Direitos humanos e cidadania homossexual no Brasil: porque os homossexuais são os mais odiados dentre todas as minorias?

SCHWARTZMAN, Simon. Das estatísticas de cor ao Estatuto da Raça. Disponível em: <http://www.schwartzman.org.br/simon/estatrac.htm> . Acessado em: 11/08/2006.

 
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