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| Edição 65 |
por Géssica Hellmann A idéia de abordar este tema surgiu em uma conversa com o amigo Dr. Renato Van Wilpe Bach, oncologista pediátrico, que mencionou alguns aspectos referentes às crianças com câncer e as possíveis conseqüências em sua sexualidade adulta, principalmente no aspecto reprodutivo. "Quais os possíveis efeitos da quimioterapia e da radioterapia em crianças sobre células reprodutivas 'troncos', elas mesmas de linhagens que desembocam em espermatozóides e óvulos? Partimos do desconhecimento total da matéria, época em que assumíamos que nenhuma menina com câncer unilateral de ovário seria capaz de reproduzir, até o terreno pantanoso de hoje, em que já evidenciamos inúmeros casos de sucesso, com ou sem fertilização in vitro, sem que sejamos capazes, contudo, de tecer prognósticos a respeito da vida sexual e reprodutiva futura de meninas que hoje tratamos". Segundo o Dr. Bach, este tema precisa ser mais pesquisado. Neste artigo veremos como o câncer pode afetar a sexualidade do indivíduo adulto, desde o aspecto psicológico quanto o reprodutivo. Falar sobre as necessidades sexuais do paciente durante o tratamento oncológico é importantíssimo para sua vida sexual e seus relacionamentos, mesmo quando as mudanças são apenas temporárias. Freqüentemente muitos tratamentos oncológicos estão relacionados com alguma disfunção sexual, afirmação válida para ambos os sexos. A pesquisa indica que em torno de 50% das mulheres que sofreram de câncer da mama têm disfunções sexuais prolongadas mais ou menos na mesma proporção de mulheres que apresentaram câncer ginecológico. Já para os homens com câncer da próstata, a taxa se encontra em torno de 70% e, no caso de câncer testicular, em torno de 25%. (Ballone, 2006). Apesar dos muitos fatores químicos, cirúrgicos e oncológicos que podem determinar problemas da sexualidade no paciente com câncer, não menos importantes são os fatores psicológicos. "As mudanças na imagem corporal podem interferir com o apetite sexual em alguns sobreviventes de câncer, mas a repercussão dos tratamentos cirúrgicos do câncer, como por exemplo a mastectomia, tem sido exagerada e muito estimulada pelos valores culturais atrelados à estética corporal." (Ballone, 2006). O apetite sexual é fortemente regulado pelo sistema nervoso central mediante recepção de estímulos sensoriais. A serotonina é uma das substâncias que possibilitam a liberaçao dos neurotransmissores responsáveis pela ativação dos centros eréteis. Ativados os centros eréteis, subseqüentemente procede-se a ereção, o orgasmo e, a seguir, a detumescência (volta à flacidez) nos homens, enquanto nas mulheres ocorre uma congestão sanguínea genital, lubrificação vaginal e aumento do clitóris. Em alguns pacientes que apresentam estado depressivo, são empregados medicamentos que estimulam o aumento da taxa de serotonina, como a fluoxetina, a fluvoxamina, a paroxetina e a sertralina. Mas o excesso de serotonina pode causar a diminuição do apetite sexual. Segundo Ballone (2006(, nestes casos, pode-se tentar alterar o horário de administração destes medicamentos, para depois ou imediatamente antes do coito. "Pacientes que se submeteram a ostomização (pessoas com câncer de colo ou reto que precisam abrir um orifício no abdômen para eliminação de fezes em uma bolsinha plástica, não podendo mais evacuar pelo ânus) sofrem muito para reassumir a atividade sexual, já que a bolsa plástica passa a fazer parte constante de suas vidas. Tanto para os homens, quanto para as mulheres, é uma fonte constante de sentimentos de inferiorização e vergonha. Temem que a bolsa com fezes atrapalhe ou vaze durante o esforço da atividade sexual. No sexo com esse tipo de preocupação, não há como se envolver ou fantasiar: o sexo não se torna satisfatório. A comunicação é essencial e o aconselhamento e reeducação sexual por um sexólogo é de grande utilidade" (Sexo, 2006). Segundo Hallak (2006), os tipos de câncer que mais comumente afetam pacientes do sexo masculino em idade reprodutiva são: câncer de testículo, Doença de Hodgkin e leucemias. O autor afirma que, nos últimos anos, devido a novos métodos de tratamento e à abordagem multidisciplinar do paciente portador de neoplasias, têm-se observado taxas de sobrevida e de cura cada vez mais significativas para qualquer tipo de câncer, especialmente para adolescentes e crianças Entretanto, estes tratamentos freqüentemente resultam em infertilidade temporária ou esterilidade permanente. Por isso é importantíssimo instruir o paciente sobre a possibilidade de se fazer a criopreservação (preservação de pré-embriões e espermatozóides) antes da quimioterapia, radioterapia ou cirurgia. Além disso, é importante que as amostras criopreservadas sejam usadas com critério, fazendo com que cada tentativa de gravidez seja feita com a melhor técnica de reprodução assistida possível. Ainda segundo Hallak (2006), a terapia que visa à cura do câncer pode ter como efeito deletério a perda do mecanismo de emissão e ejaculação anterógrada do sêmen, fato paralelo e adicional aos efeitos diretos da neoplasia ou de seu tratamento sobre a espermatogênese. O exemplo mais comum é o câncer do testículo, em que a grande maioria dos homens apresenta, inicialmente, parâmetros seminais anormais antes da administração de terapias gonadotóxicas, e muitos se submetem a cirurgias retroperitoneais, que podem lesar potencialmente os nervos simpáticos que controlam o mecanismo normal de emissão do sêmen e ejaculação. Com a introdução das técnicas de dissecção retroperitoneal com preservação dos nervos, essas complicações têm se tornado menos freqüentes. Aproximadamente dois terços dos pacientes com câncer de testículo que recebem radioterapia profilática para seminoma ficam azoospérmicos por um período que varia de 1,5 a 3,5 anos. Apesar de existir um certo cuidado para que homens irradiados não tenham filhos no período pós-tratamento, por receio de efeitos teratogênicos adquiridos pelo espermatozóide, existem poucas evidências até o momento de que isto aconteça, pois os poucos trabalhos que abordam esse tópico não demonstraram aumento significativo dessas anomalias. A quimioterapia tem um papel muito importante no tratamento do câncer metastático do testículo. Entretanto, o efeito colateral tem um impacto negativo muito significativo na produção de espermatozóides. Aproximadamente 96% dos pacientes submetidos à quimioterapia vão se tornar azoospérmicos num período de tempo curto, após o primeiro ciclo de quimioterapia. Felizmente, 67% destes homens voltam a apresentar espermatozóides no ejaculado, no período de 2 a 3 anos após o término da quimioterapia. Para Melo (2006), "A infertilidade, como conseqüência do tratamento oncológico, traz um alto grau de estresse, angústia e ansiedade para os pacientes, tanto homens como mulheres. O impacto do diagnóstico de câncer e a infertilidade, como conseqüência, são dois sofrimentos monumentais e devastadores para os pacientes". Novas esperanças são hoje oferecidas ao homem pós-quimioterapia ou radioterapia que se manteve infértil, porém nada ainda substitui o cuidado em se indicar a criopreservação dos espermatozóides antes de qualquer tratamento. Bibliografia Ballone GJ - Psiquiatria Oncológica - in. PsiqWeb Psiquiatria Geral, Internet, 2001 - disponível em <http://gballone.sites.uol.com.br/psicossomatica/cancer4.html> revisto em 2002 Hallak, Jorge. Criopreservação em
pacientes com câncer. Disponível em: <http://www.oncoguia.com.br/reproducao/01_crio.asp>.
Acessado em: 12/10/2006. Sexo e o Câncer. Disponível em: <http://www.abcdasaude.com.br/artigo.php?380>. Acessado em: 12/10/2006.
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| Edição 64 |
por Alexei Gonçalves Em outubro de 2001, descobri-me infectado pelo vírus da Hepatite B. Em muitos casos as pessoas que desenvolvem a forma aguda da doença, criam os anticorpos necessários para neutralizar o vírus e, para todos os efeitos clínicos, ficam "curadas". No meu caso, a situação não foi tão simples. Meses se arrastavam sem que apresentar sintoma algum da doença aguda. Pouco a pouco foi-se instalando o medo de desenvolver um quadro crônico... E o medo materializou-se. Dezenas de exames e uma cirurgia de biópsia hepática deram o veredito.
Fiz uma pergunta mais do que justa: "Mas como eu peguei isso, doutor"? Resposta do médico, que vai ficar para sempre em
minha memória: "Ah, hepatite B é uma DST.
Provavelmente você transou com uma mulher infectada e ela passou
a doença para você". O que é hepatite B? "O objetivo principal das estratégias de imunização
para hepatite B é prevenir a infecção
crônica pelo HBV infecção e suas conseqüências
sérias, inclusive cirrose hepática e câncer
hepatocellular. A vacinação rotineira de todas
as crianças contra infecção do HBV deveria se tornar
uma parte integral programas de imunização nacional em nível
mundial... Uma variedade de programas pode ser usada para imunização
de hepatite B em programas nacionais, dependendo da situação
epidemiológica local e considerações pragmáticas.
Porém, em países onde uma proporção alta das
infecções por HBV são adquiridas por via perinatal,
a primeira dose de vacina contra hepatite B deveria ser
efetuada o mais rápido possível (<24 horas) após
o nascimento... As estratégias voltadas para faixas etárias
mais velhas com fatores de risco para adquirir infecção
por HBV deveria ser considerado como um suplemento para a vacinação
rotineira de crianças em países de endemicidade média
ou baixa... Em países com altos índices de endemicidade,
a vacinação rotineira ampla de crianças rapidamente
reduz o transmissão do HBV. Nestas circunstâncias, a vacinação
de crianças mais velhas crianças e adultos tem choque relativamente
pequeno na doença crônica, porque muitas dessas pessoas já
se encontram infectadas " (8). Fontes: 1 - http://www.dstfacil.hpg.ig.com.br/hepatite_b.htm |
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| Edição 63 | Dimensões Clínicas da Moralidade Sexual Entrevista com Dr. Sérgio Frajblat, especialista em Neurologia pela PUC-Rio e em Psiquiatria pela UERJ. por Alexei Gonçalves
Alexei: Gostaria de começar por uma introdução ao tema "Moralidade Sexual", tal como se apresenta clinicamente. Por exemplo, vemos uma contradição entre práticas e idéias libertárias em relação ao sexo e valores culturais arraigados sobre a sexualidade que não desaparecem. Dr. Sérgio Frajblat: A gente pode considerar todo um histórico da evolução da sexualidade do ser humano, desde os homens das cavernas até tempos mais recentes. Por exemplo, até o século passado, havia restrições quanto à sexualidade, principalmente direcionadas à mulher. Mas, na década de 1960, com suas revoluções culturais e comportamentais, houve uma liberação muito mais ampla, com transformações em um ritmo muito acelerado até uns vinte anos atrás, quando houve uma freada com o advento do HIV, da AIDS. Essa mudança de ritmo afetou mais as populações mais esclarecidas. As menos esclarecidas deram continuidade da liberação sem segurança. Um reflexo disso é um número cada vez maior de adolescentes grávidas, o que demonstra um descuido crescente não só em relação à gravidez, como também em relação ao risco de doenças. Alexei: Então, vamos por partes: como você vê a relação entre DST's e liberação/repressão sexual? Dr. Sérgio Frajblat: Não se pode separar uma da outra. Porque a própria prevenção das DST's envolve algumas precauções comportamentais. Mas, a liberação sexual também envolve a adoção de certos cuidados, porque a prevenção se relaciona com o esclarecimento da população. Uma população mais esclarecida toma medidas preventivas, já a parte menos esclarecida não. Existe toda uma questão cultural com relação ao respeito à mulher. Se considerarmos por exemplo, a civilização do Egito Antigo, existia todo um código de respeito à posição da mulher, ela tinha direitos, possuía seu espaço social próprio, não era uma serviçal, como em outras culturas. É sempre com relação a esse conflito em relação à condição da mulher que a gente pode situar a sexualidade. Porque os homens, durante todo o seu curso de vida, sempre tiveram essa liberdade. Mais recentemente, a sociedade começa a oferecer condições para que a própria mulher possa se proteger. A pílula anticoncepcional foi um fator de liberdade da mulher e de liberdade sexual. Os preservativos femininos também propiciam uma maior liberdade não só em relação à gravidez indesejada como em relação a DST's. Então, ao conseguir reverter sua posição subalterna ao homem, não só na sexualidade, mas no campo profissional e em outros, as mulheres conquistam espaços que revolucionam não só as relações sexuais, mas os relacionamentos entre os sexos. Isso, em muitos momentos, gera conflitos no relacionamento dos casais. Alexei: Você relacionou a ocorrência de gravidez indesejada e DST's ao nível de esclarecimento da população. Você também mencionou um crescimento desses problemas entre a população adolescente. Você acha que a população adolescente carece de maior informação? Dr. Sérgio Frajblat: Existem vários fatores que influenciam, como a cultura de determinadas regiões e países, mas a desinformação é o principal. Alexei: Então eu pergunto tanto ao psiquiatra quanto ao neurologista: a informação dirige-se, digamos, ao lado "racional" do ser humano. Por outro lado, no calor da excitação sexual, a "racionalidade" pode voar pela janela, especialmente se estiver associada a alguns chopinhos... Especialmente no caso do adolescente, como lidar com essa situação? Dr. Sérgio Frajblat: Aí entra muito a questão da impulsividade... Mas vale a máxima: "quando a mente não pensa, o corpo padece". Quando não se consegue ter algum equilíbrio, especialmente quando influenciado por álcool e drogas, não vamos nos esquecer delas... É importante entender que sexo não é algo que se comece a praticar de uma hora para outra, há toda uma preparação prévia. Se você tiver informações adequadas, uma formação adequada, no sentido de educação, dentro da família, da escola, com acesso a leitura adequada, você se prepara com informações para vivenciar a situação prática. Pode haver circunstâncias em que o instinto fale mais alto mas, tendo um preparo educacional, o indivíduo é capaz de equacionar a situação. Alexei: Você fez uma distinção entre "informação" e "formação". Que fatores de "formação" do indivíduo podem ser relacionados ao risco nos comportamentos sexuais? Dr. Sérgio Frajblat: Quando falei em formação, me referi ao ambiente familiar, à convivência, aos exemplos que se recebe do comportamento dos pais, à forma de se relacionar com a família. O ambiente também é um fator de formação, independente de se ter informação sobre o que se deve ou não fazer, os cuidados que se deve ter. O meio em que se é criado influencia muito. E aí incluímos o meio familiar, social, cultural e religioso. Alexei: Sobre as restrições religiosas, alega-se que elas se destinam a "proteger" os fiéis... Dr. Sérgio Frajblat: "Protegem" ao mesmo tempo que "desprotegem". "Protegem" no sentido de evitar a liberação desinformada do sexo. Mas, quando se sai do ambiente da religião de origem, a pessoa vai se sentir excluída, despreparada para enfrentar situações diferentes do seu ambiente original. Alexei: Falando, então, sobre fatores de "deformação" do comportamento sexual, se é que posso me expressar assim... Por exemplo, você mencionou a "impulsividade". A impulsividade é uma característica de personalidade? Dr. Sérgio Frajblat: Não, não é exclusivamente de personalidade. É também uma característica de momento do ser humano, uma situação em que o corpo fala mais alto do que a mente. Sobre deformação, poderíamos citar não a desinformação, mas todo um processo de estimulação na mídia, na propaganda, em filmes, em telenovelas... Podemos lembrar do exemplo do cigarro, que era cultuado como ideal de consumo até algumas décadas atrás e hoje em dia é o oposto. A velocidade da circulação da informação não-direcionada, excessivamente aberta, atingindo a todas as faixas etárias, sem adequação de linguagem é um fator de deformação. Quando se fala em restrição de idade para se assistir a determinados programas de TV, estamos, na verdade, falando em adequação de linguagem para determinadas faixas de idade. Essa liberação excessiva do acesso à informação possibilita que crianças tomem contato com informações numa forma para a qual não estão preparadas e isso é um fator de "deformidade" na formação, no sentido de que, se não estiverem preparadas, a absorção dessa informação será deformada. Alexei: Podemos relacionar esse tema a uma questão recorrente em nossa revista: a moralidade sexual e as fronteiras entre Arte e Pornografia. Embora o retrato do corpo nu seja uma constante na Arte, às vezes é difícil desfazer a confusão entre uma revista pornô e uma publicação que aborda o tema da sexualidade na Arte, mostra pinturas e desenhos de corpos humanos nus. Gostaria de ouvir sua opinião sobre esse tema. Dr. Sérgio Frajblat: Olha, além da questão cultural, há que se considerar a adequação das imagens ao veículo que você está usando, à informação que você quer transmitir, ao estímulo de consumo que você deseja provocar... É preciso saber adequar-se a essas diferentes situações. Porque estamos, já há muito tempo, numa sociedade em que predomina o uso das imagens. E o que se vai considerar, ao avaliar um veículo, é a conveniência de associar a própria imagem às imagens que você veicula. Isso se relaciona ao que falei antes sobre as restrições de horários em função de faixas etárias para veiculação de filmes, exibição de capas de revistas em bancas de jornais, porque pode haver um choque de interesses e finalidades da imagem veiculada em relação ao local onde é exibida. Alexei: Especificamente na Internet, notamos que a definição do que é "pornográfico" é extremamente confusa. Alguns sistemas de busca, por exemplo, nos classificam sem problemas na categoria "Arte", enquanto outros recusam nossa inscrição por termos "conteúdo adulto". Ou seja, empregam uma expressão ambígua e subjetiva para designar uma ambigüidade existente no próprio meio social e a subjetividade de quem é encarregado de analisar o conteúdo. Dr. Sérgio Frajblat: A Internet é só uma face mais recente desse conflito, que é bem mais visível nas bancas de jornais, que passaram por diversas fases de evolução, não só na forma de apresentação, como na forma de divulgação, nas restrições e permissões que a sociedade impõe. Veja, antes, revistas de sexo nem eram expostas à venda, ficavam escondidas, para acesso somente do indivíduo adulto. Mas se o garoto conhecesse o jornaleiro, às vezes também conseguia o acesso... Depois, foram ganhando exposição crescente, mas com as revistas empacotadas, fechadas e imagens censuradas com tarjas na capa, depois passaram a ser embaladas em plástico preto... É preciso considerar que as imagens das revistas ditas pornográficas também passaram por um processo de evolução, tornando-se cada vez mais intensas. Por outro lado, há um processo de transformação que vem da própria divulgação mais ampla de livros, artigos, enfim, de informação qualificada sobre a sexualidade, que leva a uma maior liberalidade. Enfim, há uma transformação em processo, não só em relação à sexualidade como a diversos outros temas. Alexei: O que nós notamos, estudando a História da Sexualidade na Arte, é que há uma alternância cíclica, momentos de maior tolerância seguidos de momentos de maior restrição. Esses momentos não são comparáveis entre si, cada um tem sua especificidade, mas o ciclo é nitidamente observável. Então, algo gaiatamente, argumentei com o gerente de um site que nos classificou como "pornográfico" que, se nós fôssemos pornográficos, então deveríamos pintar de preto o teto da Capela Sistina... Afinal, representações de nus podem ser vistas pelo Vaticano inteiro! Dr. Sérgio Frajblat: Bem, no caso, não acho que a gente deva julgar, pressionar, forçar as pessoas a aceitar idéias que não são as delas... Mas, de uma forma geral, essas contradições existem e são conseqüência desses ciclos que você mencionou, de maior liberação e maior restrição, não só na sexualidade, mas em diversas áreas, como na política e nas religiões por exemplo. Alexei: No nível do indivíduo, como se manifestam essas contradições sociais? De um lado, excesso de informação e estímulo, de outro, moralidade e restrições. Você já observou esse conflito no contexto clínico, do indivíduo? Dr. Sérgio Frajblat: Sem dúvida, existem conflitos. Pessoas que, dentro de sua formação, aparecem com dúvidas e questionamentos em relação à própria sexualidade, pedindo que modifiquem suas idéias em relação à sexualidade... Inclusive, tanto homens quanto mulheres homossexuais pedindo para serem "curados" de sua homossexualidade, com receios e dificuldades de se aceitar. A origem está nesses conflitos que dificultam a formação do indivíduo. Alexei: Sobre preconceito. Tem-se usado os termos como "homofobia", "androfobia", "ginofobia"... Esses termos são clinicamente corretos? Podem ser usados para designar essas formas de preconceito? Dr. Sérgio Frajblat: Não concordo em classificar preconceitos como "fobias", senão teríamos que cunhar muitos outros termos ligados à fobias. Não se deve misturar fobias - receios que se originam na formação do indivíduo - com o preconceito, idéias preconcebidas, distorcidas, que se originam da desinformação. As fobias são medos que surgem em relação a situações não só relacionadas com a sexualidade, mas no dia-a-dia. Há diversos transtornos fóbicos, claustrofobia, aracnofobia, e nem por isso são relacionados a preconceitos. Alexei: E sobre os preconceitos que desembocam em ódios... O que você pode comentar sobre o ódio e a violência? Dr. Sérgio Frajblat: Os ódios são sentimentos profundos, intensos, que se criam dentro de indivíduos em conseqüência de traumas, situações vivenciadas, muitas vezes já durante sua formação, desde pequenos já recebendo uma carga de ódio contra outro grupo social, religioso... Alexei: E o comportamento violento? Porque me parece que há um abismo entre odiar um grupo social - por exemplo, a mulher, o homossexual - e assassinar, espancar... Dr. Sérgio Frajblat: Aí você já está entrando no contexto de outros transtornos, no caso, de formação da personalidade. Existem diversos transtornos de personalidade agressivos que, associados a outros fatores, podem gerar comportamentos de agressividade extremada. Somam-se os defeitos de formação aos preconceitos e mistura-se tudo dentro de uma panela de pressão, altamente explosiva. Mas o comportamento violento é uma situação-limite, que pode ser circunstancial, como a violência no trânsito, as brigas na ruas, nos estádios de futebol, nas boates, às vezes por motivo fútil, como um simples esbarrão. É preciso não simplificar demais, ater-se a conceitos que venham unicamente de sua área de formação acadêmica, seja a Psicologia, Sexologia, Antropologia, ou qualquer outra, para não cairmos numa visão maniqueísta de "bem" e "mal" e sejamos capazes de compreender a intervenção de outros fatores sobre o comportamento humano.
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| Edição 62 |
Géssica Hellmann
Esta edição é de agradecimento. Agradecimento a todos que já colaboraram e continuam colaborando para a realização deste projeto. Unidos nesta missão de amor. Um projeto que iniciou como um sonho e hoje é realidade. Desde a primeira edição o objetivo é de iluminar, de combater o preconceito, de quebrar tabus, de amar o próximo, de lutar no combate ao ódio e à violência com amor. Abordamos o corpo, o sexo, a sexualidade e arte com o objetivo de vivenciar e ensinar que é possível amar o amor. É na Arte Solidária que com a união de nossos de nossos corações Venceremos! É preciso ser solidário com todos aqueles
que são injustiçados, pois sabemos que a Arte e suas Manifestações
Artísticas promovem a solidariedade, a fraternidade. Aprender a
aceitar e conviver com a diferença, amar a si
mesmo e ao próximo com a mesma proporção. A Arte Solidária é união
dessas forças no amor. Unidos teremos um alcance muito maior. Pergunto
a você agora: quer fazer parte deste ato de amor? Deixo a todos, independente de religião - é mais uma atitude diante da vida - uma mensagem universal de amor: Oração do amor Senhor, (Francisco de Assis)
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| Edição 61 | Arte Terapia - Entrevista com Angela Phillipinni - POMAR Por Alexei Gonçalves O que é Arte Terapia? Em que se diferencia de outras formas de terapia? Qual é o seu alcance e quais são suas limitações? Para esclarecer essas e muitas outras questões relacionadas a temas já abordados neste site, entrevistamos Angela Phillipinni, coordenadora geral do Espaço POMAR - Proposta de Orientação Multidimensional Arte Realidade - uma instituição não-governamental que se dedica ao trabalho com Arte Terapia desde 1982, sendo reconhecida como de Utilidade Pública por Lei Municipal (1985) e por Lei Estadual (1986). De sua criação até a data atual, a POMAR tem se dedicado a promover atividades relacionadas a Arte Terapia, bem como a trabalhar pela difusão das informações sobre os benefícios deste processo terapêutico. A Clínica POMAR fica no Rio de Janeiro, na Rua Engenheiro Adel, 62 - casa 2 - Tijuca - Tel/Fax: (21) 2569-0547.
Alexei: Começando pela origem da Arte Terapia. Pode contar um pouco da história da Arteterapia, relacionando-a com as outras formas de terapia existentes até então? Angela: Surgiu fora do Brasil, no pós-guerra - 2ª Guerra Mundial - devido ao grande contingente de pacientes poli-traumatizados que não respondiam às formas convencionais de tratamento. Alexei: Poli-traumatizados? Angela: Sim, com traumatismos de ordens diversas, físicos e psíquicos. Como esses pacientes não respondiam às formas convencionais de tratamento, surgiu uma demanda natural por novas formas de atendimento, entre elas, a surgiu a Arte Terapia. Na realidade, ela está inscrita em um movimento maior chamado de "terapias expressivas", que incluem a Bioenergética, a Gestalt, a Biodança, entre outras. A Arte Terapia se destaca pelo uso das artes visuais. Alexei: O que diferencia as chamadas "terapias expressivas" das outras formas, "não-expressivas", para usar esse termo? Angela: É uma boa pergunta porque, na realidade, todas as terapias, em tese, são "expressivas", porque buscam a expressão do indivíduo em seu íntimo, em seu inconsciente. Mas as terapias expressivas têm a tendência de serem não-verbais, usando recursos outros que não a palavra. Daí ter-se convencionado chamá-las "expressivas"
Alexei: Sobre o conceito de "arte". Você disse que a Arte Terapia usa preferencialmente as artes visuais. E as outras formas de arte? Angela: O foco da Arteterapia é preferencialmente nas artes visuais, mas ela recebe um ajuda significativa do movimento, incluindo a consciência corporal, a música - para criar ambientes sonoros enquanto são realizados os trabalhos expressivos, e alguns elementos de encenação, histórias, contos... Mas o fundamento que dá mais consistência ao trabalho é o campo das artes visuais. Alexei: Qual o motivo dessa preferência pelas artes visuais? Angela: É uma hipótese. Eu creio que as artes visuais, as artes plásticas, conferem uma materialidade que outras artes têm maior dificuldade de oferecer. Por exemplo, eu tenho ali uma escultura (aponta para um objeto no consultório) feita por uma pessoa que se encantou pelo barro. Isso foi há muitos anos e, no entanto, está aqui, presente neste momento. Se eu recito uma poesia para você, ou canto uma canção, ou danço uma música para você ver... Bem, se você gravar o recital, a canção ou filmar a minha dança, tudo bem. Mas aquela escultura é um documentário perene, ele ajuda a ancorar uma coisa que é muito difusa, intangível, impalpável. Um dos grandes benefícios terapêuticos da Arteterapia está em que ela dá materialidade a coisas que eram completamente difusas, intangíveis. Essa materialidade não só facilita o trabalho do terapeuta, como beneficia a própria pessoa, pois ela tira de si alguma coisa muito incômoda e tem bastante tempo para se relacionar com o objeto criado, porque ele permanece ali, e ela pode, aos poucos, se aproximar dele e tomar contato. Outras formas de arte apresentam maiores dificuldades para criar essa materialidade, embora seja preciso admitir que outras modalidades terapêuticas têm um alcance que nós não temos, cada uma com sua especificidade. Alexei: Vamos tratar então dessa especificidade. Quais seriam as indicações clínicas para as quais a Arte Terapia seria a recomendação preferencial em relação a outras modalidades terapêuticas? Angela: Eu creio que as melhores indicações
são os distúrbios psicossomáticos.
Quando a pessoa, por não encontrar um canal expressivo,
ela usa o próprio corpo para manifestar o sofrimento psíquico,
se ela recebe um outro canal para expressar esse sofrimento que não
o próprio corpo, a produtividade terapêutica
é muito grande. Então, para toda aquela ordem de distúrbios
que a gente convenciona chamar de "psicossomáticos",
a Arte Terapia funciona muito bem, porque ela oferece um canal expressivo
para que o indivíduo não precise pressionar um determinado
órgão, bloqueando energia do próprio corpo. Ele passa
a poder usar sua energia fora de si mesmo. Alexei: Inclusive porque o idoso sofre muita hostilidade somente por ser idoso... Angela: Exclusão, é verdade. Nós, aqui na nossa instituição, temos um campo de estágio para nossos estudantes, que incluem casos que vêm das camadas médias e mais abastadas da população, o que não muda o fato de que os idosos estão ali afastados, à revelia, excluídos de suas famílias. Então, ao proporcionar a essas pessoas um resgate da auto-estima, fazer com que eles se sintam criativos novamente, se sintam vivas, numa situação de prazer, de criação... È muito interessante. Alexei: E em termos de limites? Onde a Arteterapia não chega ou chega parcialmente? Angela: Precisamos ser muito claros a esses
respeito. A Arteterapia não chega a pacientes em estados
muito graves, incapazes de simbolizar, porque o processo
terapêutico demanda que o indivíduo tenha uma capacidade
simbólica. Então, se existe um distúrbio
psiquiátrico muito grave ou uma deficiência
mental muito profunda, outros métodos serão mais
adequados. Para esses casos, provavelmente serão indicadas a Musicoterapia,
ou terapias de movimento, porque elas se dirigem ao corpo
do indivíduo. Estabelecer uma relação fora
de si mesmo, com conteúdo emocional, através da criação
de uma forma, demanda que a pessoa seja capaz de simbolizar. Alexei: Quem já esteve internado, nem que seja para uma simples cirurgia de amídala, sabe muito bem do que você está falando! Angela: Eu trabalhei como professora visitante da Universidade Federal de Goiás - foi o primeiro curso de Arte Terapia no Brasil. O hospital de estágio era o Hospital de Clínicas, e os arteterapeutas entraram pela cardiopatia infantil. Eram crianças que vinham de cidades distantes da cidade de Goiânia, ficavam internadas muito tempo se preparando para a cirurgia cardíaca, que é muito invasiva, e depois se recuperando, no pós-operatório. Alexei: Que é uma fase terrível, também. Angela: Extremamente traumática. Então, os arteterapeutas transformaram a vida daquelas crianças, colorindo e enfeitando os quartos, transformando as rotinas hospitalares em histórias, fazendo um livro, criando um coração em forma de almofada... Então, o que antes era uma experiência muito dolorosa, passou a ser tratada em um contexto de brincadeira. Alexei: E no contexto empresarial, quais são as aplicações da Arte Terapia? Angela: Vou dar um exemplo. No ano passado, uma aluna daqui fez um trabalho para a Petrobras que tinha como objetivo levar a cor para dentro da empresa no Dia da Saúde. Então ela organizou vários ambientes coloridos, com cores diferentes para cada campo simbólico. Por exemplo, o ambiente vermelho tinha a ver com dinamismo, vitalidade; o azul, com a tranqüilidade, e assim por diante. As pessoas transitavam e faziam atividades nesses espaços. Foi uma experiência de apenas um dia, mas que despertou as pessoas para um outro tipo de informação que elas normalmente não têm. Existe uma especialização, a cromoterapia, mas pouca gente presta atenção. Assim, normalmente, a entrada na empresa é para trabalhar a questão da criatividade e para organizar programas de pré-aposentadoria... Nós já fomos chamados por uma empresa grande que estava organizando um programa de pré-aposentadoria com sete anos de antecedência, porque eles perceberam que, já com sete anos de antecedência, a produtividade do funcionário começava a cair, porque ele não só já estava preocupado em como seria o futuro após aposentadoria, como já estava com um pé dentro e outro fora da empresa. "Faltam apenas sete anos, o que será de mim? Vou vestir o pijama, vou abrir um negócio, mudar de país..."? E esses questionamentos tiravam a concentração das pessoas. A Arte Terapia entra, nesses casos, para ajudar essas pessoas a descobrir suas possibilidades criativas, porque elas vão precisar usar o tempo de uma outra forma. Inclusive, porque vivemos numa cultura capitalista, em você é como uma garrafa PET de refrigerante, descartável. Você se transforma em um "inativo"... Alexei: O que já é um rótulo pesado. Angela: Para você ver - você mencionou que trabalha na UFF. Você sabia que eles têm um programa de aposentadoria chamado "Pé-na-cova"? É um conjunto de leis rotuladas como "pé-na-cova", um rótulo extremamente preconceituoso. O Niemeyer, por exemplo, está com 97 anos e fazendo projetos! Ok, em algum momento, você vai morrer, mas enquanto estiver vivo é importante se manter vivo. Alexei: Eu gostaria de abordar alguns segmentos específicos da população e de que forma a Arteterapia pode atuar. Por exemplo, os deficientes físicos, portadores de necessidades especiais. Como a Arteterapia atuaria no caso de uma pessoa que sofre um acidente e, por exemplo, fica paraplégica, ou perde um membro...? Angela: Acho que atua de forma semelhante a todos os outros casos. Por exemplo, guardadas as devidas proporções, uma mulher que enviúva, perde o marido que amava, tem uma perda traumática tão intensa quanto uma pessoa que perde a capacidade de deambular. São dores de igual tamanho. Eu penso que as dores se equivalem, são perdas muito profundas. Então a Arteterapia vai entrar, como teoricamente outros processos terapêuticos, para ajudar o indivíduo a reconstruir sua vida psíquica através da criação de novas alternativas de funcionamento na nova situação. Como a matéria-prima de nosso trabalho é o processo criativo, o que vamos fazer é estimular a pessoa a encontrar novos olhares sobre seu estar-no-mundo. Porque não vai mais poder dirigir, nadar... Mas o que ela continua podendo fazer? Durante o processo criativo, essa pessoa vai descobrir uma alternativa de continuar vivendo. Alexei: E as crianças que vivem em situações de violência doméstica, abuso sexual, de abandono e falta de afeto, as crianças que vivem na rua, enfim, que sofrem um bombardeio sobre a auto-estima independentemente de classe social. Nós sabemos que as crianças que vivem nas ruas estão mais expostas a todo tipo ofensa e abusos, mas dentro de casa, muitas vezes as crianças sofrem horrores tão fortes ou até piores, porque ocorrem na privacidade de quatro paredes... Angela: ...e, portanto, os abusos têm a oportunidade de ser mais freqüentes. Alexei: Exato. Como a Arte Terapia pode agir nesses casos? Angela: Na minha visão, o maior benefício que a Arte Terapia pode ter para a criança é a possibilidade de resgatar, para a criança, a vivência do brincar, a exploração da cor, o imaginário, a fantasia, trabalhar com histórias... Porque essa atividade é regeneradora. Seja para a criança que vive na rua e sofreu violência da polícia, seja a criança que dentro de casa sofreu uma violência de um familiar que você nem imaginava que fosse capaz disso, essas feridas emocionais podem ser cicatrizadas pelo brincar, pintar, modelar; pela criação de histórias em que a criança conta o que não sabe falar sobre si, mas coloca no personagem. Eu já trabalhei em postos-de-saúde e posso dizer que a quantidade de crianças que sofrem violências e abuso é quase inacreditável. Alexei: Gostaria de abordar mais dois segmentos, que já foram objeto de artigos e entrevistas em nossa publicação. O primeiro, o das mulheres que sofrem violência doméstica. Em conversa com um dos nossos parceiros, o Dr. Carlos Zuma, do Instituto NOOS, mencionou que, nesses casos, há um fator de co-dependência. Eu perguntei se eles trabalhavam esses casos com Arteterapia e ele me respondeu na época que não até aquele momento. Então, eu gostaria de saber quais as possibilidades de intervenção da Arteterapia nesses casos, considerando tanto o ponto-de-vista do homem que, além do fator cultural que o incentiva a se achar dono da mulher e, portanto, ter o direito de bater, quanto da mulher que se permite ficar nessa situação, muitas vezes em silêncio, dentro da lógica "ruim com ele, pior sem ele". Angela: Eu penso que esse problema se relaciona com a auto-estima. A mulher que fica nesse lugar por semanas, meses, anos, tem uma construção psíquica que lhe faz crer que esse é o seu lugar. Alexei: Diferente da criança, que não tem a opção de mudar. Angela: Exato. Estamos falando de um indivíduo adulto. Se uma mulher está saudável e leva um tapa do companheiro, ou ela dá dois tapas nele, ou bota a boca no trombone e chama todos os vizinhos, ou vai à delegacia e registra uma queixa... Agora, se ela permanece ali naquele lugar, apanhando em silêncio, é porque a auto-estima dela está muito desconstruída, a visão que ela tem de si é de muito menosprezo. Então, ao incentivar o indivíduo a se apropriar de seu processo criativo, ele se fortalece. Ele percebe que pode criar, transformar seu mundo, pode criar novas alternativas, enfim, ele percebe que tem saída, porque sabe que pode construir as saídas. Uma pessoa que está com a auto-estima muito enfraquecida, pensa que não tem alternativa, o clássico "ruim com ele, será muito pior sem ele"... Será nada! Até na próxima esquina pode aparecer uma outra pessoa, ou não vai aparecer ninguém e ela vai conquistar um emprego, viver melhor... Porque, quem vive bem apanhando? Então, se trabalhamos com o processo criativo, fortalecemos o ego e esse é o primeiro passo para as outras transformações. Alexei: E do ponto-de-vista do perpetrador da violência? Angela: Aí, já acho mais complexo. Porque mais do que as questões emocionais que podem levar o indivíduo a cometer uma violência contra a parceira, há estudos que indicam que o sádico sofreu muitos abusos, mas essa violência faz com que ele crie dispositivos emocionais que o levam a repetir esse ciclo... Mas, "vamos combinar": vivemos numa cultura machista que trata com muita naturalidade esse comportamento. Eu vi, há pouco tempo, ressurgir das cinzas o assassino da Ângela Diniz e ele declarava estranhar porque muitas vezes ele era aplaudido, algumas pessoas o abordavam para dizer que era isso mesmo, que ele agiu certo... E eu mesma me vi travando quase um combate com um motorista de táxi por ocasião do assassinato da Daniela Perez, em que ele dizia "mas tinha que ter sido furada mesmo", e teceu vários comentários a respeito da vida pessoal da vítima, e aquilo me revoltou. Nada justifica que uma pessoa seja furada até a morte. Nada. E a nossa cultura, eu creio que justifica. Então eu acho muito mais difícil esse trabalho com quem pratica a violência do que com quem sofre a violência. Mas essa é uma posição pessoal, é possível que existam grupos de terapeutas que saibam trabalhar com facilidade com esse grupo. Alexei: Sobre a nossa campanha, Arte Solidária. Ela é resultado de pesquisas que vimos lendo e acompanhando, inclusive já escrevemos vários artigos sobre esse assunto, que indicam que a apreciação do Belo, da Arte, estimularia sentimentos de fraternidade. Qual a sua opinião a respeito? Angela: Faz todo sentido, acho perfeitamente plausível. Tudo aquilo que a gente convencionou chamar de "culturas da paz" tem como o eixo o trabalho das artes! Alexei: Pode contar alguns casos? Angela: O primeiro curso que eu fiz fora do Brasil foi em um Instituto de Arteterapia localizado em um bairro de Paris com famílias de diversas etnias, todas excluídas. Africanos, indianos, tailandeses... A maioria em situação de imigração ilegal... Era um bairro muito violento, perigoso, mas como eu não sabia disso, não tinha medo e achava que estava tudo certo (risos). Mas o que eu quero contar é que essa instituição tinha um trabalho de praça pública, muito interessante, chamado "Torre de Babel". Todos os sábados, a equipe de arteterapeutas ia para rua, colocava os materiais de arte disponíveis para as pessoas de todas as idades e raças, que não sabiam falar francês, para que elas se comunicassem. Porque eles eram excluídos pelos franceses, mas também se excluíam uns aos outros. E a arte os irmanava a todos com aquela vivência com a cor, com o prazer, esse me parece um exemplo bem claro. Alexei: Para finalizar, conte um pouco da trajetória do Espaço Pomar. Angela: Iniciamos as atividades em 1982, no ano que vem já vamos fazer "bodas de prata". Nós começamos assim: um grupo de cinco amigas, todas funcionárias públicas, que terminaram seus mestrados em criatividade e, ao retornar às nossas instituições de origem, fomos todas avisadas que não haveria a menor possibilidade de colocar em prática o que havíamos aprendido em nossas instituições. Aí, nos juntamos e abrimos o POMAR. Ao longo desse período, entraram e saíram pessoas. Eu sou uma remanescente do grupo original. Somos reconhecidos nacional e internacionalmente como um centro de formação profissional em Arteterapia. Nós temos um núcleo em Recife, outro em Belo Horizonte, onde fazemos a mesma coisa. Há três anos, fizemos um convênio com uma universidade e criamos uma pós-graduação lato sensu para formar profissionais de uma maneira "oficial". Alexei: E qual é a formação exigida para fazer esse curso? Angela: Graduação em qualquer área, porque o campo é transdisciplinar. Eu já tive aqui, entre meus melhores alunos, alguns arquitetos. Alguns dizem que é necessária formação em Psicologia. Eu diria que pode ajudar, mas os arquitetos que passaram por aqui proporcionaram uma experiência muito interessante. Temos uma estrutura de pós-graduação, reconhecida pelo MEC, para proporcionar uma formação profissional completa. |
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